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"11 Pensadores e Prosadores"

Prefácio.

Literatura e filosofia chegam cada qual a um entendimento do mundo e dos seres humanos recorrendo a meios diferentes, na justa medida em que a racionalidade tanto quanto a sensualidade são os caminhos necessários para a compreensão do ser humano.

A literatura, por seu lado, pode instigar nas pessoas uma reflexão profunda revelando tanto o estranhamento do mundo, quanto a ansiedade na busca e na perda de rumo na vida, manifestando detalhes e minúcias da natureza humana. Ela tem a propensão a inquietar e despertar, sendo muito superior a qualquer coisa que a análise semântica pós-moderna e os jogos de palavras possam oferecer. Por outro lado, a filosofia apoia-se na especulação metafísica racional para interpretar e tentar questionar o homem e o mundo.

Logo, há dois tipos básicos de pensadores: um deles é o filósofo, que se apoia na especulação, o outro é o autor literário, que se vale de imagens. Desde a Grécia Antiga, cada qual recorreu a métodos diferentes para proporcionar às gerações futuras o conhecimento a respeito da situação existencial humana, seus dilemas e a própria natureza humana.

Hoje a maré do pensamento pós-moderno surge num crescendo e, diante dessa vertiginosa época de empobrecimento espiritual, as pessoas devem buscar inspiração tanto na literatura, quanto na relação das pessoas com suas comunidades, naquilo que conhecemos sobre o nome de política.

Que rumo a humanidade está seguindo? Serão os seres humanos capazes de preverem o futuro, ou será que um novo conjunto de utopias será estabelecido? Seja qual for a resposta, a literatura pode sem dúvida proporcionar até certo ponto um relato da sociedade na qual as pessoas se veem envolvidas hoje, embora não consigamos mais “nos afogar na orgia literária”, como se propunha Flaubert no século XIX. Teremos de uma forma ou de outra de recorrer ao raciocínio metafísico, à filosofia e à relação comunitária, isto é, à política.

É claro que a literatura não se resume a replicar a realidade. A literatura clássica anglo-americana, o realismo e o naturalismo europeus foram grandes correntes literárias, e desde meados do século XIX até o início do século XX. Os escritos modernistas do século XX se voltaram para o inconsciente, abrindo outro universo literário. Na atualidade contemporânea a racionalidade já não consegue oferecer respostas para o absurdo da sociedade pós- moderna nem para as questões relacionadas ao significado da existência. A própria filosofia afasta-se de seus temas tradicionais e tende a se encolher. Vivemos um outro momento que Bauman denomina de “modernidade líquida”.

Nesse ponto cabe a pergunta: será que a literatura ainda é capaz de refletir a realidade social? É claro que sim: trata-se apenas de uma questão de libertar-se da estrutura conceitual e dos dogmas dos ideologismos, afastar a pregação do politicamente correto, tentar um retorno às tradições mais significativa dos povos, retornar às percepções genuínas do autor e narrar com a voz firme e independente do indivíduo. Mesmo que essa voz seja extremamente fraca ou que desagrade ao ouvinte, trata-se de uma voz verdadeira, e isso tem valor enquanto literatura, pois a literatura é a afirmação que um homem faz de sua própria existência. É relevante que o autor tenha de fato pensamentos próprios a expor, e que não se limite a meramente repetir as afirmações amplamente difundidas pelas autoridades e pela mídia. A independência espiritual do indivíduo é a própria substância da literatura, e responde pela independência e autonomia da literatura.

A literatura é o despertar da consciência do indivíduo no sentido de que o autor se arma com esse conhecimento intuitivo quando observa o mundo humano e analisa a si próprio. Ele infunde seu entendimento lúcido em sua obra. E o entendimento único de um indivíduo em relação ao mundo é inegavelmente o desafio que a existência da entidade individual faz ao seu ambiente existencial. Portanto, o entendimento conquistado numa obra literária sempre traz a marca do autor individual. É precisamente cada uma dessas histórias individuais que faz da literatura algo interessantíssimo e insubstituível.

Enquanto a especulação da filosofia se apoia no abstrato, a literatura promove um retorno à vida, às percepções das pessoas vivas e às emoções. Em outras palavras, a literatura começa em lugares que são inalcançáveis para a filosofia, e o tipo de entendimento proporcionado por ela não pode ser substituído pela filosofia.

Quando a filosofia clássica se imbuiu de conceitos e racionalidade para construir um sistema de especulação que proporcionasse ao mundo um exemplo perfeito, tudo aquilo que não pôde ser perfeitamente explicado foi deixado nas mãos de Deus. Entretanto, não há limites para aquilo que a literatura pode dizer, e ela não se apressa em se propor  definir certa visão de mundo. Ademais, sempre mantém a mente aberta e preenche a consciência das pessoas com pensamentos e emoções.

Cada autor apresenta uma visão única, mas ele não usa essa visão única para substituir os demais autores. Não é como na filosofia, na qual a crítica é a premissa para o estabelecimento de uma teoria que com frequência é promovida como única verdade correta e definitiva. Apesar de a filosofia pós-moderna defender a ambiguidade e até a eliminação do sentido, ela é independentemente disso estabelecida com base na premissa da morte de todas as filosofias predecessoras. A literatura não exclui e não abre para si um caminho por meio da crítica; em vez disso, o que ocorre é que cada pessoa apresenta o próprio discurso, coisa que possibilita uma variedade infinita.

Eis o porquê desse livro, simplesmente denominado de “Ensaios: 11 Pensadores e Prosadores”. Pensadores e prosadores com o discurso que lhes é exclusivo, graças à visão absolutamente única e livre que possuíam sobre a vida e si próprios no mundo.

Num primeiro ensaio nos encontramos com o primeiro poeta moderno: Dante Alighieri e seu eterno feminino, que nos captura e transforma.

A seguir virão três importantes formatadores do classicismo americano: Edgard Allan Poe, praticamente seu “fundador”; Herman Melville, com sua epopeia da alma humana e das forças da natureza desafiada com Moby Dick; e Nathaniel Hawthorne, com a destruição demoníaca no coração humano.  

O mundo moderno será representado por Thomas Mann e seu brado literário libertário e democrático, herdeiro de todo romantismo alemão, seguido por Joseph Conrad e o coração das trevas incrustrado no colonialismo africano, seguido por Franz Kafka e seu mundo do absurdo; finalmente, James Joyce, com seu retrato quando jovem, onde a opressão religiosa que destrói a liberdade, sequenciada por sua concepção tomista da obra de arte.

Os próximos ensaios se voltam primeiro para Camus e, posteriormente, para o conflito de ideias “Sartre versus Camus”, ou o existencialismo progressista versus a perspectiva de uma esquerda não engajada ao comunismo, parcela do grande debate que se desenvolveu nas décadas de 1950 e 1960 e que alcança os dias de hoje.

O último ensaio é dedicado a um poeta maior, nosso contemporâneo, o moçambicano Mia Couto, aquele que une o realismo trágico da África independente à magia do acreditar no místico “retorno do flamingo”.

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