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"11 Pensadores e Prosadores"

9. Albert Camus: a solidariedade humana e a desesperança social

Pouco mais de cem anos são transcorridos desde o nascimento de Albert Camus. Ao escrever "A Peste", ainda sob o impacto dos horrores da Segunda Guerra e da luta de libertação argelina, ele  associa o absurdo, "que não se encontra no homem e nem no mundo, mas na coexistência entre ambos", a uma surpreendente solidariedade que surge entre os seres exclusivamente em momento de extremos estresse, como aquele vivenciado em presídios políticos nos governos totalitários, nos campos de concentração e nas ações de matar e morrer das guerras.

Para Camus, todas as ideias gerais são falsas, pois o mundo não lhe parecia explicado ou tão pouco explicável. Não era cristão, talvez agnóstico, não era marxista, nenhum “ista”! Era Albert Camus, argelino, órfão desde criança do pai morto na Primeira Guerra, o filho do sol, da miséria, da morte. Intelectual, sem dúvida, mas um intelectual que gostava de viver e observar o viver.

Participou da Resistência Francesa ao nazismo até a libertação em 1944. Foi editor do jornal “O Combate”. Em 1951, rompe com Sartre, ataca o socialismo real e a própria perspectiva do comunismo. Em 1957, durante a guerra de libertação argelina ele, que defendia uma saída negociada, recebe o Prêmio Nobel de Literatura. Morre em um acidente automobilístico em 1959, aos 46 anos de idade.

Ao receber o Nobel em 1957, Camus ressaltou que: “Perante tantos horrores um artista não pode conformar-se com uma diversão sem alcance, com a perfeição formal. Ele falará no vazio se não se voltar para as misérias da História”. O artista moderno é um rebelde que pinta a realidade vivida e sofrida. Mas se sua rebelião for extremamente destrutiva, não chegará aos homens, será um “Calígula de café”. Para falar a todos é necessário falar do prazer, do sol, da necessidade, do desejo, da luta contra a morte, mas falar a verdade! O “realismo socialista” não é realista. O academicismo quer seja de direita ou de esquerda esquece o sofrimento dos homens.

A arte não é nada sem a realidade e sem a arte a realidade não valeria à pena. A arte é uma rebelião contra o mundo tal como ele é. Nem negativa total, nem consentimento total. Daí que o objetivo da arte não é julgar, mas compreender. “Advogo por um verdadeiro realismo contra uma mitologia talvez ilógica e mortífera e contra um niilismo romântico, burguês ou pretensamente revolucionário”.

Questionado se não teria deixado de ser um homem de esquerda ele responde: “Tradicionalmente a esquerda tem sempre lutado contra o obscurantismo, a injustiça e a opressão”. Considerava-se de esquerda, porém uma esquerda libertária, sem amarras.

“A Peste” é a vida em comunidade. Oran, uma cidade imaginária na costa argelina, é acometida por uma impossibilidade: um surto de peste bubônica na segunda metade do século XX.

Antes da praga, a cidade era modorrenta, previsível nos negócios e nos costumes. “Oran é feia... Como imaginar, por exemplo, uma cidade sem pombos, sem árvores e sem jardins, onde não se encontra o rumor de asas e nem o sussurro de folhas. Em resumo, um lugar neutro. Apenas nos céus se lê a mudança das estações. A primavera só se anuncia pelos cestos de flores que trazem dos subúrbios: é uma primavera que se vende nos mercados.”

“Uma forma cômoda de travar conhecimento com uma cidade é procurar saber como se trabalha, como se ama e como se morre. Na nossa cidade tudo se faz ao mesmo tempo, com o mesmo ar frenético e distante. Nossos concidadãos trabalham muito apenas para enriquecerem... Os homens e as mulheres se devoram rapidamente, no que se convencionou chamar de ato de amor, ou se entregam a um longo hábito a dois... O mais original é a dificuldade que se tem de morrer. O doente fica muito só dada a importância dos negócios e a qualidade dos prazeres. O que dirá o ato de morrer!... Logo, Oran é uma cidade inteiramente moderna...”

Um primeiro rato morre com hemorragia, depois outros e outros, aos milhares; por fim os ratos moribundos desaparecem da cidade.  Logo a seguir morre o primeiro ser humano. “A imprensa tão indiscreta no caso dos ratos, não mencionava nada a respeito dos humanos. É que os ratos morrem na rua e os homens em casa. E os jornais só se ocupam das ruas.”

A descrição dos sintomas, das dores, das mortes que se acumulam é realizada minuciosamente e sem “piedade”. A administração pública que insiste em esconder o flagelo até que não seja mais possível fazê-lo e a cidade inteira entra em quarentena, como se sitiada fosse e os isolamentos internos são instituídos.

“Os flagelos, na verdade, são uma coisa comum, mas é difícil acreditar neles quando se abatem sobre nós...Os flagelos não estão à altura do homem: disse-se então que o flagelo é irreal, um sonho mau que irá passar.”“Mas nem sempre ele passa e, de sonho mau em sonho mau, são os homens que passam e os humanistas em primeiro lugar, pois não tomaram as suas precauções”.

Em “A Peste”, o que mais interessa ao autor é mostrar como se comportam as pessoas quando começa a ruir tudo o que elas acreditavam ser sólido: os intercâmbios, as relações familiares, as comunicações, a saúde, num transformar os habitantes em exilados do mundo. “Como poderiam ter pensado na peste que suprime o futuro, os deslocamentos, as discussões?” Ora, os homens julgavam-se livres, mas nunca alguém será livre enquanto houver flagelos.

E como se comportam os “oranianos”?

Inicialmente, quando os portões das cidades são fechados pelo isolamento do mundo, os laços de amor e amizade estreitam-se, numa espécie de exílio a que todos são confinados. “A partir de então, reintegrávamo-nos à nossa condição de prisioneiros e estávamos reduzidos ao nosso passado e ainda que alguém fosse tentado a viver no futuro, logo renunciava, ao experimentar as feridas que a imaginação finalmente inflige aos que nela confiam... Assim experimentavam o sofrimento profundo de todos os prisioneiros e exilados, vivendo com uma memória que não servia para nada...  Impacientes com o presente, inimigos do passado e privados do futuro”.

Exílio que, gradualmente, também nivelará as pessoas, encurtando as distâncias sociais. “Porque a peste se tornava assim o dever de alguns, ela surgiu como realmente era, isto é, o problema de todos”.

No princípio, quando as pessoas julgavam a peste uma doença qualquer, a religião tinha muito prestígio, os sermões do Padre Paneloux eram extremamente concorridos e ele convocava todos a se arrependerem, a buscarem o perdão divino. “Mas quando viram que o caso era sério, lembraram-se do prazer e toda a angústia que se pinta durante o dia nos rostos, dissolve-se ao crepúsculo, numa espécie de excitação desvairada, numa liberdade desajeitada que inflama todo um povo”.

Camus presta muita atenção ao amor entre os amantes e também ao valor da amizade: “A peste é preciso que se diga, tirara de todos o poder do amor e até mesmo da amizade. Porque o amor exige um pouco de futuro e para nós só havia instantes... Ao mesmo tempo, a peste suprimia juízos de valor”.

De tal forma que, quando “já não havia destinos individuais, mas uma história coletiva que era a peste, os sentimentos eram compartilhados por todos”. E é essa dor que devolve o valor e a força aos sentimentos. “Há sempre alguém mais prisioneiro que eu- essa era a frase que resumia a única esperança possível”.

Quando casas de empesteados foram fechadas ou incendiadas por motivos sanitários, começaram os saques. “Foram incidentes que forçaram as autoridades a assimilar o estado de peste ao estado de sítio e aplicar as leis decorrentes”. Na peste e no exílio decorrente, tudo se sacrifica à eficácia de medidas que evitem a disseminação do mal.

A solidariedade humana.

O comportamento de determinado grupo de pessoas que se dedicará à luta contra a peste será o da mais estrita solidariedade. “Era uma luta resignada, mas persistente, ao mesmo tempo ilimitada e sem ilusões”, aquela travada pelos homens que providenciavam o isolamento sanitário dos doentes e a quarentena dos familiares, assim como um mínimo de atendimento às vítimas da peste.

A solidariedade é simbolizada por pessoas como o Dr. Rieux (que ao final se identifica como o narrador do episódio), um ateu e que dá tudo de si no combate ao flagelo apenas para “estar bem consigo mesmo”, um “Rieux que julgava estar no caminho da verdade, lutando contra a criação tal como ela era”. Quando um popular lhe diz que ele não tinha coração, Rieux para e reflete que coração ele o tinha, pois lhe servia para suportar as vinte quatro horas por dia, nas quais via morrer homens que haviam sido feitos para viver. “O que eu odeio é a morte, é o mal. E quer queira, quer não, precisamos estar juntos para combatê-la”.

Para o narrador o heroísmo tem sempre um papel secundário perante a necessidade de luta pela felicidade, e “o hábito do desespero é pior que o próprio desespero”. O que restava ao médico ao qual não era dado salvar vidas, pois a peste era mortal? Tão somente “descobrir (o flagelado), ver, descrever, registrar, depois condenar e ordenar o isolamento”.

A solidariedade também é representada pelo padre Paneloux. Ele inicialmente acreditava que a peste havia sido enviada por Deus como castigo para os pecadores da cidade. Quando acontece a morte, sob intenso sofrimento, do pequeno filho do juiz Othon, se dará o momento de sua  ruptura com o tradicionalismo da aceitação e da submissão. Paneloux diz a Rieux: “Isto é revoltante, mas talvez devamos amar o que não conseguimos compreender”. Retruca-lhe Rieux: “Eu vou recusar até a morte esta criação divina em que as crianças são torturadas”, numa reprodução do diálogo sobre a revolta, entre Aliosha e Ivan Karamazov.

Tarrou, um estrangeiro em Oran, é um artista revoltado que atua lado a lado com Rieux criando brigadas sanitárias; ele deseja trabalhar pelo próximo como “um santo”, um santo sem Deus, sem a fé. “Já que a ordem do mundo é regulada pela morte, talvez convenha a Deus que não acreditemos nele e que lutemos com todas as forças contra a morte, sem erguer os olhos para os céus, onde ele se cala”.

Em determinado momento, confessa a Rieux que a epidemia não lhe ensinava nada. “Sei de ciência certa que cada um traz dentro de si a peste, porque ninguém no mundo está isento dela”. “O que é natural é o micróbio. O resto, saúde, integridade, a pureza, é um efeito da vontade, vontade que não deve jamais se deter. O homem direito é o que não infecta ninguém, que tem o mínimo de distrações possíveis. É bem cansativo ser-se empestado, mas é ainda mais cansativo não se querer sê-lo... pois, é necessário, tanto quanto possível, permanecermos fora do flagelo”. “Eu me coloco no lado das vítimas, em todas as ocasiões, para limitar os prejuízos. Por meio delas posso procurar a paz”.

“A Peste” é um livro profundamente humanista feito por quem se recusa a aceitar a injustiça do Universo. No silêncio eterno dos espaços infinitos ouvem-se somente os gritos das vítimas.

Os homens devem permanecer uns ao lado dos outros quer por egoísmo, quer por santidade, mas tomando consciência dos sentimentos essenciais de amor, amizade e solidariedade.  Uma solidariedade que se traça como uma ponte entre moribundos e condenados. A mesma solidariedade que une os homens em perigo e que se desfaz como bruma em tempos de paz.

No dizer do crítico de Camus, Belcourt, no espírito mesmo do autor, juntam-se Rieux e Tarrou, na vontade de ser um santo sem Deus e no desejo de cumprir com seus deveres de cidadão do cotidiano.

Chega um ponto em que a epidemia regride, a cidade começa a se recuperar, o isolamento é levantado e tudo se esquece. Os ratos voltam a surgir vivos e espertos. “Pode-se dizer que, a partir do momento em que a mais ínfima esperança se tornou possível para a população, o reinado efetivo da peste havia terminado”. Entretanto, “todos os cidadãos estavam de acordo em pensar que as comodidades da vida passada não voltariam e que era mais fácil destruir que reconstruir”.

De qualquer forma, a libertação que se prenunciava tinha um semblante misto de sorriso e de lágrimas. Tarrou será a última vítima a morrer de peste. “Tarrou perdera a partida como ele mesmo dizia, mas o que Rieux ganhara afinal? Lucrara apenas por ter conhecido a peste e lembrar-se dela, conhecer a ternura e lembrar-se dela também. Tudo o que o homem podia ganhar no jogo da peste e da vida era o conhecimento e a memória”.

Depois da peste, que metaforicamente poderiam terem sido tanto a Segunda Guerra Mundial, quanto os Campos de Concentração, os de Reeducação, os Gulaks, os Estados de Sítio, quantos heróis da luta voltaram para suas fraquezas!  “Rieux queria fazer como todos à sua volta e crer que a peste poderia chegar e voltar a partir, sem que o coração dos homens mudasse com isso”.

Acontece que peste dos corpos sobrevive na alma! Mas aqueles que têm consciência podem se autovigiar e evitar causar danos ao próximo e, quem sabe, proporcionar um pouco do bem. Afinal, acreditava Rieux: “há nos homens mais coisas a admirar que a desprezar”.

“A Queda”

Tempos após "A Peste", obra em que desenvolveu com profundidade o conceito existencial da solidariedade humana, sob forte influência da resistência ao nazismo, Albert Camus escreveu "A Queda", onde aquelas esperanças sociais parecem se desvanecer. “Não podemos afirmar a inocência de ninguém enquanto não pudermos afirmar com segurança a culpabilidade de todos”. Em outras palavras, encontramos em nossa própria consciência razões suficientes para sabermos que o ser humano possa a vir praticar todos os tipos de crime.

Em um bar de marinheiros em Amsterdã, denominado México-City, conheceremos Clamence. Nesse local, os clientes são servidos por um holandês de “estrutura granítica”, destes que não sentem seu exílio, apenas seguem um caminho na vida, o caminho sem reflexão e que, “por não possuírem segundas intenções, nada os atrapalha”. Também por entenderem pouco sobre o que se diz, assumem a postura de desconfiados com tudo e com todos. O barman holandês é o contraponto de Clamence, assim como do meio social em que este vive, onde aquilo que conta é “quem irá arruinar o outro”.

O livro consiste num longo monólogo do parisiense Clamence, outrora um advogado de prestígio, que procura descobrir em que momento principiou a “sua própria queda”. Com nojo por si próprio, ele abandonara Paris e confessa sua culpa a desconhecidos dizendo que, entretanto, “jamais tivera senão boas intenções”. Após um longo percurso descobrira que a profissão de advogado, assim como a de juiz, incorpora a hipocrisia na qual se julga a quem se defende, como se o próprio advogado e o juiz, não fossem por sua vez, culpados. Além do mais, “quantos crimes são cometidos simplesmente porque seu autor não pode suportar estar em falta”!

“Afinal de contas, viver no alto é a única maneira de ser visto e saudado pela maioria das pessoas. Aliás, alguns de meus clientes criminosos tinham, ao matar, obedecido ao mesmo sentimento”.

Quanto à queda, ele descobre que ela ocorreu em todos os momentos vividos e, com isto, retrocede no tempo à medida que retoma o passado. Esse longo processo se encerra em Amsterdã, pois a cidade “é o âmago das coisas, os canais concêntricos se parecem com os círculos do inferno, inferno burguês, povoado de maus sonhos”. Quando se chega do exterior à Holanda, como Clamence de Paris, os crimes se tornam mais espessos, mais obscuros. “Aqui estamos no último círculo” infernal.

“No fundo, nada contava. Guerra, suicídio, amor, miséria, eu não lhes prestava atenção, claro que quando as circunstâncias me obrigavam a isso, mas de modo cortês e superficial...  sim, tudo resvalava sobre mim”. “Em suma, só me preocupei com os grandes problemas nos intervalos de minhas pequenas derrapadas”. Afinal, “assim foi a minha vida. Nunca tive necessidade de aprender a viver... Há pessoas cujo problema é resguardar-se dos homens ou, pelo menos, acomodar-se a eles. Quanto a mim, a acomodação estava perfeita”.

Essa franqueza incita seus interlocutores a confessarem que não valem muito mais que ele. É o que esperava Clamence. Tendo adquirido por suas confissões o direito de julgar os demais, autoriza-se a si mesmo todos os vícios. “Eu tinha, é claro, princípios, como o que a mulher dos amigos era sagrada. Por isso, simplesmente cessava dias antes a amizade com os maridos”.

Pois as mulheres, amava-as “segundo a expressão consagrada, o que é o mesmo que dizer que nunca amei nenhuma”. Buscava apenas objetos de prazer e conquista, sendo um “observador da paixão”.

Para Clamence, assim é o ser humano: ele não consegue amar sem amar-se primeiro. “Eles têm a necessidade da tragédia, o que se pode fazer?”

“Sabe por que somos mais generosos, condescendentes e até mais justos para com os mortos? A razão é simples, para com eles já não existem obrigações... Se nos impusessem algo seria a memória e nós temos a memória curta. Não é ao morto que nós amamos em nossos amigos; o morto doloroso, a nossa emoção, é para nós mesmos”. De toda forma, “a morte é sempre solitária, enquanto a servidão é coletiva”.

No passado, os traficantes de escravos deixavam a placa de suas atividades na porta, pois “não se escondia o jogo naqueles tempos... “A escravatura, ah, somos contra!”  Afinal, vivemos abaixo da dureza de coração de nossa classe dirigente e sob a hipocrisia de nossas elites. “Que se seja obrigado instalá-la em sua casa ou nas fábricas, bom, é a ordem natural das coisas, mas vangloriar-se disso é o cúmulo”.

Todo homem inteligente sonha em ser gangster e imperar sobre a sociedade unicamente pela violência, “com isso, envereda-se geralmente pela política e corre-se para o partido que seja o mais cruel”.

Que os homens têm suas imperfeições, que muitos vivem na hipocrisia, quem o duvida? Acontece que aos homens não se lhes perdoa a felicidade, nem o sucesso, a não ser sob a condição de que este seja repartido. A única defesa do homem está na maldade e as pessoas apressam-se a julgar para não serem julgadas. Afinal, cada homem é testemunha do crime de todos os outros.

Alguns cristãos têm exigido a pureza em nome da religião, alguns ascetas em nome da filosofia. “Um grande cristão amigo meu reconhecia que o primeiro sentimento que experimentamos ao ver um mendigo se aproximar de nossa casa é o de desagrado”.

Os mártires da humanidade ou são esquecidos ou ridicularizados, ou ainda, usados. “Quanto a serem compreendidos, nunca”. Falando de Cristo, ele recorda as crianças massacradas na Judeia, crimes comandados por Herodes, e que esses crimes “perpetrados por sua causa”, tê-lo-iam acompanhado até o Calvário. “Ele queria que o amassem, nada mais”. “Por que me abandonaste? Era um grito subversivo, não acha?” Os homens, ao contrário de Cristo, facilmente se consideram profetas, “é isso o que sou um profeta vazio para tempos medíocres”.

Cristo não foi esquecido e nem ridicularizado, simplesmente, usado e jamais compreendido.

Sempre será preciso que algo esteja acontecendo, eis a explicação da maior parte dos compromissos humanos. “É preciso que algo aconteça mesmo a servidão sem amor, mesmo a guerra ou a morte..." Talvez por isso mesmo, Clamence declara não ter mais amigos, apenas cúmplices. “Em compensação seu número (o de cúmplices) aumentou, é todo o gênero humano... e aquele que está presente é sempre o primeiro”.

Depois dessa breve resenha, em que se funda, afinal, o rigor analítico de Clamence? Em nada, dado que ele confessa jamais haver conseguido acreditar que os assuntos humanos seriam coisa séria. Pode-se ver, às vezes mais claramente naquele que mente do que no ser que fala a verdade. A verdade, pois, como a luz, cega. A mentira é “como um belo crepúsculo, que valoriza cada objeto”.

O livro abunda em fórmulas tão paradoxais como essa, brilhantes, mas o que conclui? Não se sabe muito bem. “No jogo de espelhos entre a confissão do autor e a do personagem, o exorcismo e a comédia, a verdade e a mentira, mudam os seus reflexos”, nos diz Brisville.  Admiramos um estilo, um humor; surpreende-nos a amargura de uma ironia que dissolve todas as coisas. “Não é uma queda, diria Thiébaut, é uma rua sem saída”.

A dizer a verdade, as loucuras dos homens justificam o mais negro pessimismo. Mas como? Falta cuidar da vida! E A Queda ainda não é a última palavra de Camus.

Esta virá no “O Homem Revoltado”, como nos ensina Maurois.

 

“A Revolta”

Todo revoltado, pelo movimento que o soergue diante do opressor, defende a causa da vida, comprometendo-se a lutar contra a servidão, a mentira e o terror e afirmando, com a rapidez de um raio, que estes três flagelos fazem reinar o silêncio entre os homens, obscurecendo-os uns aos outros e impedindo que se reencontrem no único valor que pode salvá-los do niilismo: a longa cumplicidade cujo limite é precisamente o poder de revolta dos homens em conflito com o próprio destino.

A revolta não é, de forma alguma, uma reivindicação de liberdade total; pelo contrário, ela ataca permanentemente a liberdade total, contesta o poder ilimitado que permite ao superior violar a fronteira proibida. Longe de reivindicar uma independência geral, o revoltado quer que se reconheça que a liberdade possui limites em qualquer lugar em que se encontre o ser humano, já que o limite é o seu próprio poder de revolta.

Ele não humilha ninguém; a liberdade que quer é a mesma que reivindica para o outro, a que recusa, a proíbe para todos. Sua lógica profunda não é a da destruição, mas a da construção. A lógica do revoltado é querer servir à justiça a fim de não aumentar a injusta condição humana, esforçar-se no sentido de uma linguagem clara para não aumentar a mentira universal e apostar, diante do sofrimento humano, na felicidade.

A história das revoluções mostra que quase sempre elas entram em conflito entre a justiça e a liberdade, como se estas fossem inconciliáveis. A liberdade absoluta é sempre o direito do mais forte dominar. Ela mantém os conflitos que beneficiam a injustiça. Já a justiça absoluta passa pela supressão de toda liberdade.

A história em seu movimento puro, não fornece por si mesma nenhum valor. Um pensamento puramente histórico é niilista: ele aceita todo o mal da história, opondo-se nisso, à revolta. De nada adianta afirmar a racionalidade absoluta da história; ela só se completará ao fim da história, na cidade de Deus na terra.

O cinismo como atitude política só é lógico em função do pensamento absolutista, ou por um niilismo absoluto ou ainda, por racionalismo absoluto. Todo empreendimento histórico só pode ser uma aventura mais ou menos razoável e fundada. É risco, não justificando excessos ou posições absolutistas.

Se a revolta pudesse criar uma filosofia esta seria a dos limites, da ignorância calculada e do riso. Aquele que não pode saber tudo não pode matar tudo. O revoltado não nega a história que o cerca, nela tenta firmar-se, mas ele se vê como o artista diante do real, a rejeita sem dela escapar.

Em sociedade, não há justiça e nem direitos naturais e civis que a fundamentem. Não há direito sem expressão do direito. Para conquistar a existência é preciso partir do pouco de existência que descobrimos em nós, e não negá-la desde o início. Fazer com que o direito emudeça até que a justiça seja estabelecida é emudecê-lo para sempre. É confiar a justiça aos poderosos. Mesmo quando a justiça não é realizada, a liberdade preserva o poder de protesto e salva a comunicação.

O mesmo raciocínio aplica-se à violência. A não violência absoluta funda negativamente a servidão e suas violências; a violência sistemática destrói positivamente a comunidade viva e a existência que dela recebemos. Para serem profícuas devem encontra seus limites. Para o revoltado deve preservar seu caráter provisório de rompimento, sempre ligada, se não puder ser evitada, a uma responsabilidade pessoal, a um risco imediato.

O fim justifica os meios? É possível, mas quem justificará o FIM? A revolta responde: os meios. A revolução, após duzentos anos de experiências, perdeu seu prestígio de festa e muito produziu sobre o que se refletir. O espírito revolucionário se quiser continuar vivo, deve voltar a retemperar-se na revolta, inspirando-se no único pensamento fiel a essas fontes, o pensamento dos limites.

As ideologias que orientaram o século XX nasceram nos tempos das grandezas científicas absolutas; hoje todas as certezas científicas são relativizadas.

Nem o real é inteiramente racional, nem o racional é totalmente real. Heráclito inventor do devir fixava um marco para esse processo contínuo. Esse limite era a Nemisis, deusa da medida, fatal para aqueles que cometem a desmedida e incorrem na Hybris. É dever da revolta deve também inspirar-se nessas divindades.

Em arte, a revolução só se completa e perpetua na verdadeira criação, não na crítica ou no comentário.  A revolução, por sua vez, só pode firmar-se numa civilização, não no terror, nem na tirania.  A criação e a revolução hoje são possíveis?  A resposta é única e diz respeito ao renascimento de uma civilização.

A sociedade capitalista escraviza o homem ao meio- produção industrial. Faz promessas em nome de princípios formais que ela é incapaz de gerar e que é negado pelos meios que ela emprega. A sociedade de produção, do “progresso”, é apenas produtiva, não criadora. O mundo de hoje é, em sua realidade uno, mas sua unidade é a do niilismo. A civilização só será possível se, ao renunciar ao niilismo dos princípios formais e ao niilismo sem princípios, o mundo reencontrar o caminho da síntese criadora.

A arte e a sociedade devem, para tanto, reencontrar a origem da revolta, na qual recusa e consentimento, singularidade e universal, indivíduo e história se equilibram na tensão mais crítica. A revolta não é um elemento da civilização, mas ela precede a toda a civilização. Diz Nietzsche: “Em vez do juiz e do repressor, o criador”.

Toda criação nega em si mesma o mundo do senhor e dos escravos. Mas o fato de que a criação seja necessária, não quer dizer que ela seja possível. O objeto da arte estende-se da psicologia à condição humana.

Se a criação é impossível em meio a guerras e revoluções, não teremos criadores. O mito da produção indefinida traz em si a guerra, assim como a nuvem, à tempestade. As oportunidades de malogro no século das destruições só podem ser compensadas pelo fator numérico, em que pelo menos um artista autêntico sobreviva, dentre centenas.

Se afinal, se o mundo se curvasse à lei dos conquistadores, isso não provaria que a quantidade é soberana, e sim, que este mundo é um inferno. Mas o inferno só tem um tempo, a vida um dia recomeça.

Talvez a história tenha um fim; nossa tarefa, no entanto, não é terminá-la, mas criá-la à imagem daquilo que sabemos verdadeiro. A arte nos ensina que o homem não se resume somente à história, que ele encontra também razão de ser na natureza. O grande Pã não morreu. Sua revolta mais instintiva, ao mesmo tempo em que afirma o valor e a dignidade comum a todos, reivindica obstinadamente, para com isto satisfazer sua fome de unidade, uma parte intacta do real cujo nome é beleza.

Os revoltados que querem ignorar a natureza e a beleza estão condenados a banir da história que desejam construir  a dignidade do trabalho e da existência.

Ao manter a beleza, preparamos o dia do renascimento em que a civilização colocará no centro de sua reflexão, longe dos princípios formais e valores degradados da história, essa virtude viva que fundamenta a dignidade comum do mundo e do homem, e que agora devemos definir diante de um mundo que a insulta.

Se a revolta quer uma revolução, ela a quer a favor da vida, de baixo para cima. Longe de ser romântica, ela toma o caminho do verdadeiro realismo.

A Comuna contra o Estado, a sociedade concreta contra a absolutista, a liberdade refletida contra a tirania racional e, finalmente, o individualismo altruísta contra a colonização das massas: são as antinomias que traduzem o longo confronto entre a medida e a desmedida que anima a história do Ocidente desde o mundo antigo. A medida não é o contrário da revolta. A revolta é a medida, é ela quem a exige, quem a defende e recria através da vida e dos seus distúrbios; a medida nascida na revolta só pode ser vivida pela revolta, pois a desmedida conservará sempre o seu lugar no coração do homem, no lugar da solidão.

Todos  carregamos nossas masmorras, nossos crimes e nossas devastações em nosso espírito. A tarefa não é soltá-los pelo mundo, mas combatê-los dentro de nós próprios e nos outros. A revolta, a secular vontade de não ceder de que falava Barrès, ainda hoje está na base desse combate. Mãe das formas, fonte da vida verdadeira, ela nos sustenta no movimento selvagem e disforme da história. Nenhuma sabedoria atualmente pode pretender dar mais. A revolta confronta incansavelmente o mal, do qual só lhe resta tirar um novo ímpeto. O homem pode dominar em si tudo aquilo que deve ser dominado. Em seu maior esforço, o homem só pode propor-se uma diminuição aritmética do sofrimento do mundo. Mas a injustiça e o sofrimento permanecerão e não deixarão de ser um escândalo. O porquê de Karamasov continuará a ecoar: a arte e a revolta só morrerão com a morte do último homem.

Há vinte séculos, a soma total do mal não diminuiu no mundo. Nenhuma a Parúsia, quer a divina ou a revolucionária, se realizou. Aqueles que não encontram descanso nem em Deus, nem na história estão condenados a viver para aqueles que como eles não conseguem viver: os humilhados. Vale o grito de Ivan Karamasov: “se não forem salvos todos, de que serve a salvação de um só?”.

A verdadeira generosidade em relação ao futuro consiste em dar tudo no presente. A revolta é o próprio movimento da vida; por isso ela é amor e fecundidade ou ela não é nada. A revolução sem honra, que coloca o homem abstrato no lugar do de carne e osso, coloca o ressentimento no lugar do amor. A revolta quando se contamina pelo ressentimento, deixando suas origens generosas, ela nega a vida e corre para a destruição, fazendo sublevar-se a turba de pequenos escravos que se oferecem aos mercados da servidão e do enriquecimento.

Para além do niilismo, entretanto, em meio aos escombros, preparemos um renascimento. Poucos ainda sabem disso. Mas devemos aprendera viver e a morrer, para sermos homens, nos recusando o papel de deus.

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