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"11 Pensadores e Prosadores"

3. Herman Melville.

Melville é homem dos mares, um poeta das águas, e por assim ser retém a estranha e misteriosa magia das criaturas marítimas, aquela das sereias, dos polvos e das lulas gigantescas que ao mesmo tempo em que nos atraem, causam certa repulsa e isto se dá por elas nunca estão integralmente ao nosso alcance, não nos são apreensíveis.

Acontece que, tal qual Jack London, os poetas das águas costumam perder a capacidade de encontrarem-se a si mesmos; além disso, pouco possuem da  habilidade de se misturarem aos outros humanos. Será isto o que os leva a dar as costas à vida e a mergulharem no abstrato, exclusivamente em seus próprios elementos?

Herman Melville nasceu em 1819. Quando criança, Melville teve escarlatina, o que afetou permanentemente sua visão. Até a morte de seu pai, frequentou a Albany Academy, depois se empregou como bancário, professor e agricultor. Em 1839, embarcou como ajudante no navio mercante St. Lawrence e, em 1841, num baleeiro a bordo do qual percorreu quase todo o Pacífico. Na Polinésia francesa, Melville decidiu viver junto aos nativos canibais por algumas semanas. Ainda em 1841, Melville embarcou no baleeiro australiano Lucy Ann e acabou por se unir a um motim pela falta de pagamento. Melville foi preso em uma cadeia no Taiti, da qual fugiu pouco depois. No final de 1841, embarcou como arpoador no Charles & Henry, na sua última viagem em baleeiros, e retornou a Boston como marinheiro, em 1844, a bordo da fragata United States.

Talvez poucos poetas antes de Melville tenham detestado tão instintivamente a vida humana, ou melhor, a sociedade do modo como a vivenciamos. O que lhe restava? Ele optou por lutar contra o mundo inteiro real, e  assim fazendo, lutar também contra parcela do mais íntimo de seu próprio ser.

Mas esse é somente o verso da moeda chamada Melville, seu anverso é um enorme sentimento de completude para com a vastidão e para o mistério da vida que não a humana, por toda a Natureza.

E será no mar que ele busca sua fuga da sociedade humana! Fugir, deixar a nossa vida para trás, cruzar um horizonte que o leve a outra vida, ao elementar natural. Quando Herman entra no mar a bordo de um barco encontra seu ambiente natural, sua verdadeira casa. Basta de terra! Venham todos os elementos que nada têm a ver com as complicações criadas pela humanidade, como todo o imenso, o velhíssimo oceano Pacífico, que se abre com todas as suas “porias” para os Argonautas do século XIX.

Na bagagem muitas memórias, recordações daquele que atravessou o “Rubicon” da própria existência: ele não aceita mais a humanidade e ao não aceitá-la, deixa de sentir-se parte dela. Que lhe importa que a vida se fragmente que até os acasalamentos e as procriações cessem? Que o tritão se afaste da fêmea, que o homem abandone sua fêmea e seus filhos e que as mulheres-sereias só se lambuzem com as águas? Com os lares desfeitos, corroídos, restam aos marinheiros do “Pequod” tão somente os elementos do imenso e interminável mar.

Acontece que Melville ao nascer odiando o mundo, navega em busca de um Paraíso.  Mas é um sonho paradisíaco que jamais alcançaria; as ondas sempre o conduziriam na melhor das hipóteses a um tremendo Purgatório.  

Em sua vida real, Herman Melville sempre buscou por uma união perfeita, fruto de uma compreensão que se reproduzisse numa amizade perfeita, uma impossibilidade. Ele jamais conseguiu admitir que qualquer relacionamento perfeito fosse possível entre humanos. Cada alma é só. E a solidão de cada qual põe uma barreira para o relacionamento pessoal.

Não importa, porque Herman pertence ao conjunto das criaturas que nasceram para viver no Purgatório, aquelas almas que precisam encontrar algo ou alguém para triturar. Almas de profundo olfato, que cheiram a injustiça e a insensatez tanto nos “bons homens dos cultos religiosos”, quanto nos brutais capitães dos navios, nos almirantes dos países, ou nos condutores de homens e de arpões. E uma vez seu nariz tendo apurado o tom de enxofre da desmedida, aí o poeta das águas se sente à vontade.

Em Melville, a partir de um determinado momento na vida das pessoas o ideal que as guiara apodrece, transforma-se em algo impuro, em perversão. Até mesmo a caridade que delas emane já é perniciosa, enrustida de segundas e terceiras intenções. Logo, tornam-se maus tanto os violentos quanto os mansos; até mesmo um “homem santo”, como o Princípe Mishkin de Dostoievski, porque “ele tem reações mesquinhas e sutis”.

“O Satã de Milton (“O Paraíso Perdido”) é moralmente muito superior ao seu Deus, assim como aquele que  persevera a despeito da adversidade e da sorte é um ser superior àquele que, na fria segurança de um triunfo certo, exerce a mais horrível vingança sobre seus os inimigos”.

Em seus melhores momentos, Melville escrevia em uma espécie de transe; os acontecimentos que ele narra como sendo “fatos reais” têm, na verdade, um vínculo profundo com sua alma, são reflexos de sua vida interna. Sem que ele mesmo se dê conta, seu inconsciente é místico e simbólico. Jamais retorna sobre seus passos, arrepender-se é um verbo fora de seu dicionário. E será esse misticismo inconsciente que o impedirá de se abandonar ao desespero ou à indiferença. Melville sempre se importa tanto para odiar aqueles que se creem portadores de “missões”, quanto para se emocionar com gestos de compaixão humana.

Herman veste a roupa de um Rousseau: considera a nobreza dos selvagens em primeiro lugar. Usa um chapéu, o de Chateubriand: os selvagens são pobres ovelhas quando comparadas ao homem civilizado. O Homem branco e civilizado é o animal mais feio e mais perigoso de todo o planeta!

Melville é absolutamente moderno, surreal e simbolista muito antes do futurismo encontrar a pintura e outras artes plásticas. “Ele pressente os meros deslizamento dos elementos. E a alma humana experimentando isso tudo, às vezes chega aos limites do delírio; quase espúrio, mas sempre extraordinário”, no dizer de Lawrence.

Em 1847, Melville casou com Elizabeth Shaw. Em 1850, Melville e Elizabeth se mudaram para uma quinta em Massachusetts, onde ele conheceu Nathaniel Hawthorne, a quem dedicou Moby Dick, publicado em Londres, em 1851. O livro foi um fracasso de vendas retumbante, tendo sido redescoberto como obra fundadora do modernismo somente no século XX. Sua versão cinematográfica hollywoodiana faria Melville, se vivo fosse, esconjurar seus organizadores.

Herman Melville morreu em 28 de setembro de 1891, aos 72 anos, em Nova York, em total obscuridade. O obituário do jornal The New York Times registrava o nome de "Henry Melville". Depois de trinta anos guardado numa lata, Billy Budd, o romance inédito na época da morte de Melville foi publicado em 1924 e posteriormente adaptado para ópera, para o teatro e para o cinema.

“Moby Dick”

“Moby Dick”, não é um romance para jovens. A Natureza preveniu-me, de tal maneira que somente vim a descobri-lo aos meus 63 anos de idade. Trata-se de uma epopeia, a da Alma Humana e das criaturas da Natureza, obra que rivaliza com tanto com uma “Odisseia”, como com “Guerra e Paz”.

O romance é magnífico e aterrador, absolutamente atual! Assim como o é o ser humano e o são as forças incontroláveis da natureza. Quando o homem, em sua insanidade busca dominá-las, obtém até mesmo algumas primeiras vitórias, mas essas nada mais serão senão o garrote que, ao final da jornada, irá enforcá-lo.

Se o livro é belo e fantástico, seu significado é terrível. Viajaremos com a alma humana num desbravar de ondas reais, talvez como a nossa própria vida. No cosmos de Melville, os homens são quase sempre ilhas e embarcações que servem a si mesmos e a mais ninguém.

O protótipo desta ilha humana é o comandante da baleeira “Peckod”, o quáquer Acab, símbolo da humanidade insana e canhestramente religiosa, que contém em seu cerne um pouco de todos nós: ele não conhece seus limites, caminha na “hybris” para vingar-se de um Leviatã. Na busca da baleeira de Acab pelos mares, tão somente conta a vingança cega contra a Baleia Branca. Mas ao final da busca, o que ele na realidade encontrará será um pedaço de cânhamo ao redor do próprio pescoço.

Moby Dick é a baleia branca, a caça. Um enorme e velho cachalote, gasto, muitas vezes arpoado, jamais vencido; ela não vive em bando, nada só, sendo capaz de grande fúria intempestiva e destruidora, símbolo da natureza cega quando agredida pelo homem.

Cá entre nós, Melville sempre soube que as baleias não são terríveis, não mordem, dificilmente atacam, são gregárias, têm sangue quente e são mamíferos.

Numa fantástica cidadezinha portuária na Nova Inglaterra, tão fluida quanto o próprio mar, encontraremos o único ser realmente com senso de humano em toda a narrativa: Ishamael, o americano branco, narrador da aventura. Em seguida nos é apresentada a sua alma-irmã, Queequeg, um poderoso canibal com o corpo todo tatuado, um arpoador das ilhas do sul. Os dois homens dormirão juntos, na mesma e única cama da pobre pousada repleta; suas almas se casam, no estrito sentido dos selvagens, selando uma amizade autêntica, entre seres de culturas muito diferentes, um cristão e outro, pagão.

Se para Queequeg, o selvagem canibal, toda relação de amizade é uma união duradoura, para Ishamael, o branco civilizado, a amizade é sempre uma questão de oportunidade, e, quando os dois embarcam no baleeiro Pequod, o americano irá se esquecer totalmente do selvagem: a amizade já será uma página virada.

O Pequod é um veleiro estranho, fantástico, dirigido por um espírito atormentado, ao modo do “Navio Fantasma” de Wagner. Sentimos Pequod, que velejará pelos oceanos, em sua metafísica nos impregnará, proporcionando-nos uma viagem da alma. Após dias no mar, apresenta-se Acab, o comandante, o capitão da alma, temente a Deus, caçador implacável da inofensiva e velha baleia que um dia, defendendo-se de seu arpão arrancara-lhe uma perna. Ele é tão velho quanto sua caça, um ser monomaníaco disposto a sacrificar o barco e toda a tripulação, em holocausto a Moby Dick. A baleia precisa morrer para que ele possa continuar a viver, se assim pudermos denominar seu modo de ser.

Acab tem três Imediatos na tripulação: Starbuck, o Primeiro Imediato, também crente, homem bom e responsável, sensato e ousado, calado e confiável; ele é o lado luminoso, apolíneo, justo, ponderado, conduzido pelo vínculo afetivo que o liga tanto aos companheiros de viagem quanto àqueles a quem ama e que deixara em terra. Starbuck não abre mão do respeito pelas forças naturais e nem pelo inimigo abatido, fonte de sua sobrevivência. O Segundo Imediato, Stubb, é o inverso de Starbuck: mau e obscuro, imprudente e divertido, para ele a caça à baleia é um esporte, tal qual a caça a um homem; Stubb é aquele que, ao barra-vento, escancara o escárnio por si e por todos. Chegamos, finalmente, ao Terceiro Imediato, Flas, um tipo que é teimoso e obstinado, aliás como todo homem idiotizado e sem imaginação. Para ele a baleia é “como um rato a ser caçado”.

O Pequod também possui três Arpoadores, todos eles imensos, monumentais, os únicos no mundo capazes de trespassar a baleia branca: Queequeg, o poderoso e todo tatuado canibal ; Tashtego, o pele-vermelha americano; e, completando o leque racial, Daggo, o gigante negro.

Somente tempos após surgirão misteriosos, como formatados pela bruma marítima, alguns malaios estranhos, silenciosos, secretos, vestidos de negro, adoradores do fogo. Eles são os homens de confiança de Acab, aqueles que conduzirão o seu próprio bote caça-baleias, quando Moby Dick surgir.

Muitas raças, povos e nações são congregadas sob as listras e as estrelas da bandeira norte-americana. Tudo muito prático, mas fantástico e fanático ao estilo americano; um engenho que soa perfeito na tarefa louca, comandados por um general monomaníaco na perseguição cega ao inimigo, focado sempre em matar!

Dentre os dois heróis, Acab e Moby Dick, somente o primeiro é trágico em sua consciência e desmedida. E sua redenção ocorrerá pouco antes da morte, quando o velho rijo, imbatível e aleijado se permite chorar no desabrochar tardio de sua humanidade. Ele confessa a Starbuck “sua fraqueza mortal, como um corcunda, um Adão cambaleando para além dos séculos cravados desde o Paraíso”.

Ao Cachalote, o outro herói, caberá detonar, como força da Natureza indômita, tal qual o Satã de Milton, seus perseguidores. É a Natureza dizendo um basta à ousadia do homem que perdeu o limite de sua humanidade e se crê um deus. É ela a mais forte, zera todo o jogo e basta.

Chegará um dia em que as Moby Dicks estarão extintas, mas as forças naturais seguirão indômitas. Existe uma cena insólita que Melville nos descreve quando o barco, de repente, se vê num espaço do oceano, brando como uma lagoa, repleto de baleias, onde uma calma pura resplandece. As fêmeas nadam em paz, as baleias jovens aproximam-se dos botes da morte como cães curiosos, os mamíferos no cio fazem amor. Então os monstros humanos exterminam quantas conseguem.

A esse capítulo segue o momento em que o barco se transforma em uma Refinaria para o óleo extraído das caças. Para isso elas foram sacrificadas. Toda a carne servirá aos tubarões e à fome do mar. O narrador está no leme e vira-se para ver a fornalha do refino. Num relance místico, o leme se inverte e o Pequod perde o rumo e Ishamael vive uma experiência onírica: quem se submete ao refino não é o óleo do cachalote, mas sua alma.

Acab e sua tripulação, afinal, encontrar-se-ão com Moby Dick. A luta será esplêndida, de tal dramaticidade que não se conseguiria reproduzi-la fora das linhas do próprio Melville. Durou três dias o combate. No terceiro dia a baleia torna-se terrível, de caça à caçadora, enfurecida volta-se contra o Pequod, símbolo do homem, de nossa civilização predadora e o destrói, colocando-o a pique. Assim termina um livro de profundo simbolismo, da primeira a última página, que nos enche a alma de espanto e termina com um grito de alerta para a nossa civilização, um berro de condenação ao predador americano!

Que extraordinária viagem, quantas sacudidelas à bordo da baleeira Pequod, o navio de caça do qual, afinal, restará apenas um sarcófago em busca de socorro!

Uma viagem tanto para os que sabem ler apenas com os olhos quanto para os que leem com a alma. E ninguém paga mais por isso, o preço é fixo!

Peixe Preso, Peixe Solto.

Melville ainda nos alerta. A caça à baleia, principiada nos tempos mitológicos por Teseu ao salvar Andrômeda, somente se fez disseminar no decorrer dos tempos, na forma de peixe preso, peixe solto. Os poderosos e os padres desejam que todos os peixes que caiam em suas posses sejam peixes presos, até mesmo nossa consciência. Para as Potências Imperiais, todos os países pobres são peixes soltos, pertencem a quem os destruir primeiro!

Na época em que Melville ainda viajava pelos sete mares, o único código formal que regulava a caça era já muito antigo, escrito por volta do início do século dezoito, aprovado pelo parlamento da Holanda e respeitado por praticamente todas as nações, inclusive o todo poderoso Império Britânico.  Na sua essência, poderia ser resumido em dois únicos artigos. O primeiro dizia que um peixe, uma vez preso, pertenceria à parte que o prendesse e o segundo, que um peixe solto seria caça legítima de quem o apanhasse primeiro.

O que salta aos olhos é a “admirável brevidade” do código, tornando  necessário muitos comentários adicionais para aplicá-lo. Afinal, o que significa um peixe preso? Vivo ou morto, um peixe está preso do ponto de vista técnico quando amarrado a um navio ou a um bote tripulado, quer seja pela corda de um arpão, por uma linha, por um remo, ou até mesmo por teia de aranha, pois pouco importa. De modo semelhante, o peixe também é dado como preso quando carrega algum símbolo reconhecível de posse, sempre que o assinalante demonstre claramente capacidade de carregá-lo a bordo.

A parte destas considerações, Melville nos conta uma história antiga de apropriação indébita ocorrida nos mares da Inglaterra e que terminou nas barras da justiça. Os autores da ação declararam após uma caçada difícil a uma baleia cachalote, terem-na arpoado, mas que devido o risco de morte da tripulação do pequeno bote de caça, tinham  sido obrigados a abandonarem a presa, assim como o arpão, a arpoeira e o próprio bote, retornando ao navio baleeiro de mãos abanando.

Já os réus, que estavam em uma nau próxima, não se fizeram de rogados e empunhando suas lanças terminaram por matar o cachalote e dele se apropriaram na frente daqueles que o haviam arpoado, junto a tudo o mais que flutuasse. Deste modo, a parte queixosa pleiteava receber o valor da baleia, arpoeira, arpões e barco.

Durante o julgamento, o advogado da defesa, espertamente, recorreu a um caso criminal recente. Um homem depois de tentativas vãs de repressão aos instintos sexuais de sua mulher, abandonara-a nos mares da vida; no decorrer dos anos arrependera-se e movera uma ação na tentativa de recuperar a posse da mesma, sem, entretanto, obter ganho de causa na justiça. O rábula dizia que se era verdade que o cavalheiro, no passado, arpoara a senhora e a tivera presa, ao abandoná-la transformara-a em peixe livre para que qualquer outro lhe fincasse o arpão e dela se apropriasse. O caso havia sido julgado com ganho de causa dado ao novo companheiro da citada senhora. Dizia, em conclusão, que o caso da baleia e da mulher livre se ilustravam reciprocamente, e constituía uma “certa jurisprudência”.

Muito bem, o magistrado aceitou a argumentação e julgou a comparação pertinente. Portanto, os réus tinham direito à posse da baleia, pois no momento em que ela fora abandonada pelos autores da ação, ela tornara-se um peixe livre. Os arpões e arpoeiras que a baleia trazia presos ao costado constituíam, uma vez abandonados, posses do próprio cetáceo e, desta forma, passariam à propriedade de quem o caçasse, ou seja, dos réus. Somente o bote que fora abandonado deveria retornara aos queixosos.

Os preceitos relativos ao peixe preso e ao peixe solto insiste Melville, constituem os fundamentos de toda a jurisprudência humana, pois “apesar de seus complicados traçados, os Templos da Lei e o dos Filisteus têm apenas duas colunas a apoiá-los”. E prosseguiu: “Não se diz por aí que a posse é meia propriedade, sem se levar em conta como se obteve essa posse? Mas frequentemente a posse é o direito de propriedade”. O que seriam os músculos e as almas dos escravos e dos servos, senão peixes presos cuja posse significa todo o direito de propriedade? O que é para um proprietário de terras a última migalha de uma viúva senão peixe preso? O que é a mansão de um vilão encoberto senão peixe preso? O que significa o ágio que os bancos cobram daqueles que necessitam de dinheiro emprestado senão peixe preso? O que são os salários altíssimos dos altos dignitários senão peixes presos? O que seriam as fazendas herdadas e as propriedades citadinas senão peixes presos? Não seriam as grilagens todas formas de posse que se transformam em propriedade, portanto, peixe preso? O que é o Texas e a Califórnia, antigo México, para os norte-americanos senão peixe preso?

O que era a América em 1492 senão peixe solto quando aqui aportaram os colonizadores ingleses, espanhóis e os portugueses? O que era o Brasil com suas imensas riquezas e seus índios mansos, senão peixe solto, cuja posse os tornaram peixes presos? E a Índia para a Inglaterra? E os países árabes para os ianques? Todos, peixes soltos.

Mas os que são os Direitos Universais do Homem, a Liberdade no Mundo senão peixes soltos? O que são as mentes e as opiniões de todos os homens senão peixes soltos? O que é o princípio da crença religiosa dentro dos mesmos, senão peixe solto? E as reflexões dos pensadores, dos jornalistas, daqueles que escrevem por possuírem a “pena de aluguel”, senão peixes soltos? Que é o grande globo terrestre senão peixe solto?

Quando vale o critério da propriedade, quer seja do homem, do peixe, da terra ou das águas, a força é o garantidor de eles serem livres ou soltos.

Prefiro nada fazer, um bate-papo com Herman Melville.

Quem me conhece socialmente não pode imaginar o rio de desencanto e perversão que correm juntos por minhas veias, um sangue feito fel, perdido seu agridoce dos anos juvenis, líquido que nada mais faz que transportar o desalento de uma vida que se arrasta, se arrasta...

Apesar disso sou afável, conversador, e os que me encontram pelas ruas do mundo até julgam descobrir em mim alguém de certo humor, na têmpera do viver. E talvez eu seja assim porque alguém como eu tem que buscar atrair alguma simpatia ou, quem sabe, o olhar comparsa de outro ser que se me assemelhe nos vícios, na canalhice e, principalmente, no desalento. Afinal, todo decadente precisa de certo amparo, e somente o logra encontrar quando na companhia de pessoas ingênuas ou de seres que se lhes pareçam, para os quais a torpeza e o desalento sejam o pão e a carne de todo dia.

Confesso também ser na essência muito perspicaz, pois descobri que, afinal, não se pode ser canalha sem argúcia. Garanto-lhes, enfim, que somente quem se fixar no meu modo de olhar oblíquo com atenção e excepcional habilidade, poderá encontrar alguma pista de minha real personalidade.

Mas não se vá pensar que eu tenha sido assim durante toda a minha vida. Não, isto não é verdade! Creiam-me, já tive até mesmo dias de glória, de prazer, de muita companhia. Como todos fui jovem, considerado promissor pelos que me queriam, amado por poucas, competente mesmo em minhas labutas e assim foi passando a vida... Até o dia em que eu simplesmente preferi nada fazer!

Do dito, não se vá alguém imaginar que em algum momento do meu passado, eu tenha compartilhado da felicidade idiotizada dos simplórios, dos ingênuos, dos desatentos e, porque não, dos idiotas. Não, definitivamente não! Apenas que, na juventude, deles também necessitava para respirar. Afinal, engolir o purgante da idiotice, da credulidade e da vulgaridade era sempre uma maneira de conviver com aqueles por quem nutria o mais amargo desprezo. E em seu meio meu egocentrismo se espalhava e a minha vaidade podia se nutrir da seiva que brota da estupidez dos parvos e onde a minha soberbia tornava-se intocável.

Entretanto, como já disse, teve um momento em que toda a minha vida ativa de homem prático cansou-se de si mesma; por destituída de sentido, chegou ao fim e eu preferi nada fazer.

Foi por essa época que, num de meus passeios ao acaso, encontrei-me com alguém que, apesar de há muito tempo não ver, sempre se me assemelhou no meu sentir. Meu amigo americano, o Melville.

Melville era já um escritor de fama e bolso curto. Creio mesmo que não era lá muito atento nem para a fama, tampouco para a grana. Ele aconselhou-me a que me ocupasse em escrever, pois, no seu dizer, “a vida se arrastaria menos devagar, e, talvez, aí sim, com certa dose de parcimônia você possa filtrar um pouco de seu desalento, destilar em gotas o fel que lhe consome...” Mas qual, eu disse ao meu amigo, “eu prefiro não fazer... e  escrever para quem, para que? Mesmo se fosse possível, onde encontrar um editor tão estúpido que concordasse em editar o que eu teria para por no papel? Não, Melville, eu prefiro, realmente, nada fazer”.

Foi quando meu amigo falou-me de um tal de “Bartleby”, um escrevente como tantos que povoavam nossos cartórios, alguém que, de repente, como eu “preferia nada fazer”. Melville conhecera-o naquela época em que os correios não possuíam a concorrência arrasadora dos “e-mails”. Um parêntesis: meu interlocutor mostrou-se extremamente curioso para saber como isto funcionaria, mas esta já é outra história que um dia ainda contarei.

Voltemos à experiência do senhor Bartleby, o copista. Ele trabalhara num departamento do correio, aquele das cartas devolvidas. Disse-me Melville: “Cartas mortas, isto não soa como homens mortos? Imagine um homem que por natureza tem a tendência a uma insidiosa desesperança. Alguma atividade pode ser mais apropriada  para aguçar essa desesperança do que manipular cartas mortas e separá-las para o fogo? Com mensagens de vida, essas cartas caminhavam para a morte”.

E aduziu: “É meu amigo, Bartleby era um escrevente já sem alma, ela toda se consumira nos milhares de cartas com mensagens vivas que se destruíram no fogo”. Por isso ele dizia que a tudo “preferia nada fazer.”

Eu entendi perfeitamente a mensagem que, com Bartleby, meu amigo passara. Chegando a minha casa, pus-me a escrever, eu “que preferia nada fazer...”, pus no papel este simples ensaio.

Obs.: "Bartleby O Escrevente", é um conto de autoria de Herman Melville.

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