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"11 Pensadores e Prosadores"

5. Thomas Mann: burguês pró-Kaiser, liberal, democrata e, ao final da vida, socialista.

No sentido oposto ao de muitos intelectuais do século XX, que na juventude professaram o socialismo e na maturidade abraçaram o capitalismo, Thomas Mann, tanto em seu extraordinário trabalho literário, quanto em seus ensaios e crônicas, trilhou uma jornada em que o burguês que apoiou o Império Alemão na Primeira Guerra, transformar-se-á em num democrata convicto quando da derrota alemã e, após a ascensão do nazismo ao poder, num combatente antinazista. Ao final de sua longeva vida a desilusão com o capitalismo irá levá-lo à busca do refúgio intelectual e ideológico do socialismo democrático. Podemos mesmo dizer que cada uma de suas obras literárias é ilustrativa das etapas que atravessou seu pensar.

Thomas Mann foi não somente o maior herdeiro tardio da tradição idealista e romântica alemã, mas igualmente um dos principais autores do modernismo. Foi clássico em tempos de mudanças, guerras e revoluções, conseguindo com toda a maestria refletir de forma original o espírito de seu tempo. Como autêntico modernista, em toda peça por ele escrita encontramos descrições minuciosas de uma psicologia de tipo realista, com análises que buscam trazer a exatidão das particularidades do espírito.

É absolutamente correto dizer que o trabalho de Mann constitui a expressão estética do esforço de contrapor dois valores que lhe foram sempre essenciais em todas suas etapas de vida: de um lado a sociedade, com o senso comum e o valor da vida pública; do outro, a alienação, o individualismo, o escapismo romântico, o jogo estético, que culminam na valorização do tempo, da doença e da morte. E ao formatar os valores estéticos e humanísticos Mann jamais ocultou as influências decisivas de três outros alemães: Goethe, Schopenhauer e Nietzsche.

Thomas Mann nasceu em 1875, na cidade de Lubeck, ao norte da Alemanha. Seu pai pertencia a uma tradicional família de comerciantes alemães e sua mãe era brasileira, natural de Angra dos Reis. Pelo lado paterno, a descendência de uma família de alta burguesia sempre será salientada por Mann e ao falar dessa classe, o autor irá se referir aos valores de uma burguesia antiga, que surge ao final da Idade Média, como sendo “a antiga tradição de que se sente profundamente imbuído, tradição de trabalho leal e minucioso, visando à perfeição absoluta nos detalhes e no todo”. Como um contraponto dessa afirmação de ordem e da correção que poderemos chamar de apolínea, Mann creditou ao seu viés brasileiro por parte de mãe, muito da capacidade criativa, da sua evolução espiritual que buscou no dionisíaco a libertação dos próprios sentimentos.

Entre 1896 e 1898, Thomas Mann realizou uma longa viagem à Palestrina, na Itália, em visita ao irmão mais velho, Heinrich Mann, que já se tornava um escritor socialista famoso. Dessa visita e dos passeios pela Itália redundarão importantes passagens do livro “Dr. Fausto”, escrito mais de quarenta anos depois.

Retornando da viagem, apaixonou-se por Paul Ehrenberg, um amor homossexual conturbado e não correspondido, mas que ele definiria mais tarde como a "experiência central de seu coração".  De sua pena surge, então, “Tonio Kröger”, uma profunda análise estética.

Resolve, então, servir no exército imperial, mas se arrepende. A família intervém e corrompe um médico para conseguir afastá-lo sob a alegação de falsos problemas de saúde. No seu último trabalho (inacabado), “Confissões do Impostor Felix Krull”, Mann incorporará essa fraude à vida de seu Felix, o impostor.

O autor de “Os Buddenbrooks”, é um defensor do Império Constitucionalista Alemão. Em 1901, "Os Buddenbrooks", um romance que retrata a decadência de uma família burguesa alemã no decorrer de sucessivas gerações, onde como pano de fundo vemos retratada a saga de sua própria família paterna, transforma Thomas Mann num escritor famoso, isto aos vinte e cinco anos de idade! Curiosamente, seu editor, Fischer Verlag, tentou convencê-lo, em vão, a que encurtasse o livro. Muitos anos após, quando suas opiniões políticas já se haviam modificado, ele será agraciado por “Os Buddenbrooks” com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1929.

Em 1905 casa-se com Katia Pringsheim, filha de uma influente e secular família de intelectuais judeus. Nos anos seguintes nascem seus cinco filhos. Nem mesmo o tranquilo e feliz casamento com Katia conseguiria afastar Mann de seu próprio “duplo”, tão caro em toda a sua literatura. Por toda a vida manteria acesa sua forte bissexualidade. Em 1911, concebeu a novela “Morte em Veneza”, sua “obra mais confessional”.

Se em “Os Buddenbrooks”, Mann estava altamente influenciado pela filosofia schopenhaouriana, “Morte em Veneza” é uma novela em que trabalha com absoluta maestria o conceito nietzschiano do apolíneo em oposição ao dionisíaco. Numa escrita complexa, num texto do qual transbordam conceitos filosóficos, cada parágrafo pode sofrer várias interpretações.

O tempo e a morte sempre se mantiveram próximos tanto da obra quanto da vida da família Mann: duas de suas irmãs e um de seus filhos suicidaram-se na juventude. “Morrer: isto significa realmente perder de vista o tempo, viajar para além dele, trocá-lo pela eternidade e pelo presente e, em consequência, pela vida. Pois a essência da vida é o presente e só num sentido mítico seu mistério aparece nas formas temporais do passado e do futuro”. Ele retrataria essa proximidade da morte tanto em “A Montanha Mágica” quanto em “Éramos Cinco”.

Thomas Mann acolheu com agrado a entrada da Alemanha na Primeira Guerra Mundial. Tomava-se por “burguês e patriota”. Defendeu a política do Kaiser Guilherme II e chegou a penhorar a casa, que possuía em Bad Tölz, a favor do esforço de guerra. Com a derrota da Alemanha, principalmente com o morticínio da guerra, no burguês Mann se iniciará uma primeira metamorfose e dela surgirá um cidadão democrata e pacifista convicto; teremos, então, um arauto da República Democrática de Weimar. Estamos no tempo de “A Montanha Mágica”, principiado antes da Guerra de 1914/1918 e concluído em 1925. A “Montanha Mágica” é um romance intelectual, um romance de ideias, que reproduziam o conflito ideológico que mantinha com seu irmão Henrich. Sobre ele, disse Mann: “Concebi-o como uma sátira humorística, a atmosfera de morte e despreocupação”, que ele vivenciara ao internar sua esposa por algum tempo no sanatório de Davos. Contudo, a história de Hans Castorp se transformará num enorme romance de mais de seiscentas páginas, e o que seria uma obra cômica transformou-se numa transição histórica trágica.

Num novela curta, "Mário e o Mágico", escrita em 1930, é um marco. Simboliza o engajamento político e, principalmente ético, em que o autor " inclina-se sobre a psicologia do fascismo italiano ", ao mesmo tempo em que define a psicologia da liberdade como uma doutrina de boa vontade com o próximo, com os diferentes. Cippola, o hipnotizador , “um moderno domador de multidões”, o "moderno manipulador de massas", cujas ações, astúcias e energias estavam a serviço do mal, é moldado na figura histriônica e acanalhada de um Mussolini.

Em 1926 decide-se, baseado na epopeia bíblica de Jacó e de seu filho dileto, José do Egito, escrever uma pequena novela que seria intitulada “Histórias de Jacó”. Com o desenvolvimento da intolerância e belicosidade política na Europa, parte com seus manuscritos para uma longa visita à terra dos Faraós e à Palestina. Os manuscritos se transformarão na colossal tetralogia histórica, de “José e seus irmãos”, que somente será concluída em 1940, após dezesseis anos de trabalho.   

Quando da vitória do nazismo na Alemanha, em 1933, Thomas Mann era o mais laureado escritor de língua germânica. Após uma palestra na Universidade de Munich a respeito de “O sofrimento e grandeza de Richard Wagner”, ele com sua família buscarão asilo na Suíça, onde permanecerão até 1938, mudando-se às vésperas da Segunda Guerra para os Estados Unidos.

Será o cidadão Mann, então no exílio, quem retratará em “José e seus Irmãos”, o exílio a que José fora obrigado a viver no Egito, por força da irracionalidade e do ódio de seus irmãos. Dirá, referindo-se ao seu próprio exílio: “Quanto a mim, que agora levo a termo minha narrativa, para mergulhar voluntariamente numa aventura sem limite, não esconderei minha compreensão nativa do mal-estar do velho e de sua aversão a qualquer habitação permanente. Pois eu não conheço aquele sentimento? Não me destinaram também a mim ao desassossego? Não me foi dado também um coração que desconhece o repouso? O narrador faz várias pausas, andando e relatando, mas só habita em tendas, aguardando novas direções, e pouco depois sente que seu coração bate forte, quer de desejo, quer também de medo e angústia da carne, mas sempre como sinal de que deve tomar a estrada à cata de novas aventuras, que devem ser penosamente vividas até os seus mais remotos detalhes, de acordo com a vontade do espírito infatigável.”

Compreendendo os perigos que a ordem nazifascista representava para a Alemanha, assim como para o restante do mundo, o engajamento do autor de “A Montanha Mágica” na luta democrática não tardaria. Em 1937, Thomas Mann publicou uma crônica sob o título: “Advertência à Europa”!

A Advertência era dirigida muito particularmente aos intelectuais, aos escritores, aos artistas, cientistas e a outros depositários do patrimônio cultural da humanidade. Firmemente Mann assinala a responsabilidade dos intelectuais que se omitem e se alheiam do combate aos inimigos da inteligência e da cultura, a pretexto de resguardarem a “integridade” e a “pureza” do espírito de qualquer contaminação de “caráter político”. Isto insistia Mann, resultava efetivamente em servir de um modo ou de outro ao “partido do interesse”, ou seja, os interesses de uma ordem política decadente, reacionária e por isso mesmo temerosa da cultura e do espírito. “Em nosso tempo, a torre de marfim é apenas uma tolice, e é quase impossível alguém furtar-se a compreendê-lo”.

“A democracia se realiza efetivamente em cada um de nós, visto que a política se tornou um negócio de todas as gentes. Ninguém pode afastar-se dela; a pressão imediata que ela exerce sobre cada um é demasiado forte. O fato é que aquele que nos declara “eu não me importo com a política”, parece-nos um homem superado, caduco. Tal ponto de vista revela não somente egoísmo e irrealidade, mas ainda embuste e estupidez. Mais que ignorância do espírito, o que há nisso é indiferença moral.”

A ordem política e social faz parte da totalidade, um aspecto da problemática humana, não se podendo menosprezá-la sem com isso se pecar contra a própria humanidade. Portanto como poderia o poeta ou o intelectual esquivar-se, omitir-se, quando sabemos que a sua natureza e o seu destino o colocaram na posição mais exposta da “polis”? “O poeta que se omite em face do problema humano, porque esse aparece sob a forma política, não é somente um traidor da causa do espírito em proveito do partido do interesse, mas é também um homem perdido, que perderá a força criadora, o talento e nada fará que apresente condições de durabilidade”.

O espiritual, para Mann, considerado sob o ângulo político e social, é a aspiração dos povos a uma vida em melhores condições, mais justas e mais felizes, adequadas à dignidade humana. Expressando a essência do pensamento democrático ele diz “o bom e o nobre é o que qualificamos de humano”. Aquilo por cuja causa os homens tem lutado e têm tomado Bastilhas de assalto, os acólitos do autoritarismo proclamam jubilosamente “aquilo não deve existir, que seja revogado, revogue-se até mesmo a Nona Sinfonia (de Beethoven)!”

Durante a Segunda Guerra, torna-se amigo do Presidente Roosevelt. Dele partiram as primeiras denúncias sobre o holocausto dos judeus e dos ciganos, assim como da repressão nazista desencadeada contra a organização de estudantes e professores, a Rosa Branca.

 “Ouvintes alemães!” Sob esta chamada, o escritor alemão exilado transmitia em sua língua pátria, via BBC, discursos mensais antinazistas. De sua exortação de 27 de julho de 1943, extraímos esse breve trecho:

“Os anos repletos do mais brutal terror, de martírios e execuções, não foram suficientes para quebrarem a resistência que nasce no seio do povo alemão. Os estrangeiros verdadeiros, contra os quais os bens sagrados da civilização devem ser protegidos, são eles, os nazistas! Apenas uma parte pequena e corrupta da classe superior, uma corja de traidores para quem nada é mais sagrado que o dinheiro e as vantagens, trabalham com e para eles. Os povos se negam a isso, e quanto mais evidente se mostra a vitória dos Aliados, mais cresce a revolta do povo alemão contra o que lhe parece insuportável... Nesse verão o mundo se comoveu profundamente com os acontecimentos na Universidade de Munique, cujas notícias nos chegaram pelos jornais suíços e suecos, primeiro sem muita clareza e, logo, com mais detalhes. Sabemos agora de Hans Scholl, soldado sobrevivente da derrota nazista de Stalingrado e de sua irmã, Sophie Scholl, de Christoph Probst, do professor Huber e de todos os outros... Sabemos de seu martírio, dos panfletos que eles distribuíram... Sim, foi aflitiva essa predisposição da juventude alemã para a revolução mentirosa, falsa, do nacional-socialismo. Agora os olhos da juventude se abriram e por isso eles põem a cabeça jovem sob o cepo do carrasco. Mas para a glória da Alemanha eles não se calam nem mesmo perante os juízes nazistas: ‘Logo vocês estarão aqui, onde nós estamos agora’”.

Em 1944, obteve a cidadania americana. Consta que Roosevelt chegou a cotar seu nome para assumir o governo alemão no pós-guerra, no que foi dissuadido por seus colaboradores mais reacionários, porque pressentiam no Mann de pós- guerra tendências esquerdizantes.

Mann, uma vez iniciados a guerra fria e o macarthismo, revoltado com a especial perseguição aos intelectuais emigrados, abrirá mão de sua cidadania americana e deixará decepcionado a América do Norte, retornando à Europa.

Em 1949, em sua obra prometeica, “Dr. Fausto”. Escreverá: “A supremacia das classes inferiores se afigura a mim, como cidadão alemão, um estado ideal, quando a comparo com o domínio da escória (nazista). Ao contrário que eu saiba jamais o bolchevismo destruiu obras de arte. A revolução russa emocionou-me profundamente e a superioridade histórica de seus princípios em confronto com os das potências que dobravam nossa nuca aos seus pés, era evidente. Verdade é que certas camadas da democracia burguesa parecem merecer o que acabo de denominar de domínio da escória a fim de conservarem por mais tempo seus privilégios”.

A destruição política, física e moral da Alemanha pelos nazistas estarão expressas também no “Dr. Fausto”. Na citação que segue desnuda uma das essências da transformação que os nazistas provocaram nos alemães: “Malditos, malditos os corruptores, que mandaram à escola do Diabo uma parcela do gênero humano, originalmente honrada, bem-intencionada, apenas excessivamente dócil e demasiado propensa a organizar sua vida à base de teorias! Mas um patriotismo que ousasse afirmar que o Estado sanguinário, cuja agonia atualmente presenciamos que para citar uma expressão de Lutero, “pendurou em seu pescoço” o peso de crimes incomensuráveis, e que, com seus apelos berrados, com suas proclamações aniquiladoras dos Direitos do Homem, provocou nas multidões arroubos de imensa felicidade, esse Estado sob cujas bandeiras vistosas marchava nossa juventude, de olhos chispantes, altiva, radiante, firme na fé, um patriotismo, repito, que ousasse afirmar que esse regime tinha sido algo totalmente alheio à natureza de nosso povo, imposto a ela, desprovido de raízes em seu íntimo, ia se afigurar-me mais magnânimo que consciencioso.”

A Alemanha que ressurge das cinzas é subdividida pelas potências mundiais, tornando-se a Pátria dos “espiões” e dos impostores. Ela já não o atrairá e o escritor voltará a estabelecer residência na Suíça, onde falecerá em 1955. “A própria Alemanha, esse país desventurado, se me tornou estranha, justamente em virtude do fato de eu ter-me abstido de seus crimes, e, seguro do fim pavoroso, haver-me abrigado na solidão.”

Parecendo prever os tempos que vivemos no século XXI, questionará: “Será compunção mórbida perguntar como, no futuro, a Alemanha, sob qualquer aspecto, poderá atrever-se a abrir a boca em assuntos concernentes à Humanidade?”

De Zurique surgirão suas derradeiras obras, os contos “A Enganada”, “A Lei” e o romance inacabado “Confissões do Impostor Felix Krull”, onde Mann nos aporta uma visão de mundo anárquica, onde Felix, um trapaceiro oriundo de uma família burguesa decadente e sem princípios, penetrará numa sociedade de aparências, espelhando o vazio, o egoísmo, o exibicionismo e o consumismo de uma classe social instalada em privilégios mesquinhos que apenas faz reproduzir-se a si mesma e ao capital.

Num dos últimos parágrafos que ele escreveria, uma semana de seu falecimento, sintetizará a sua relação harmônica com a vida e a morte: “Anna, não diga que a natureza me traiu que é uma crueldade sarcástica. Não a diminua como eu não o faço. Eu não quero afastar-me de vocês, da vida, da primavera. Mas como haveria primavera sem morte? A morte é um grande instrumento da vida, e se ela concedeu-me a imagem da ressurreição e do prazer amoroso, isso não foi mentira, mas bondade e graça.” (“A enganada”)

 

  • “Morte em Veneza”

Mann é um autor prolixo, que esgrime como só ele a ironia do romantismo. Isto, sem dúvida contribui para certa dificuldade na tradução e na leitura. E o leitor atento deve levar em consideração que toda a grandeza da sua obra é impossível de ser apreendida em uma leitura única e que, ela mesma, requer certa preparação.

Em contraponto ao texto complexo, o enredo de “Morte em Veneza”é enxuto: um escritor renomado, numa crise de criatividade por volta dos cincoenta anos, partindo de Munich viaja até Veneza, onde se apaixona platonicamente por um jovem púbere, extremamente belo.  O escritor, mesmo sabedor do surto de cólera que infecta a cidade, deixa-se ficar atraído pela beleza e sem sequer ter trocado uma só palavra com o objeto de seu amor, contagia-se e morre.

Trata-se de uma Novela, no estrito sentido da concepção alemã do conceito do novo, daquilo que é inusitado. E nada mais inusitado que Veneza, uma cidade tida como a capital do carnaval europeu, das bodas elegantes, que justamente nela ocorra uma morte, anunciada já no título. A estrutura da novela é de um drama teatral, composto em cinco atos, com direito a desenvolvimento, peripécia e desenlace trágico.

Von Aschenbach, que em alemão significa “barril de cinzas”, tem muito dos cuidados e dos critérios artísticos de seu autor. "Aschenbah não amava o prazer. Quando e onde fosse preciso festejar, cuidar do repouso, passar um dia de folguedos, desejava logo... com inquietação e contrariedade voltar para a árdua labuta, para o serviço sagrado e sóbrio da vida cotidiana", de seus escritos, leituras e meditações.

Durante um passeio em Munique, o autor já consagrado, cuja obra é conhecida pela disciplina e perfeição formal, de repente encontra-se de fronte a um cemitério, onde avista um personagem: um viajante, cuja face descrita lembra uma caveira, tipo estranho que o deixa meio abalado. No pórtico do cemitério e no estanho viajante, temos a primeira manifestação do “leitmotif” de toda a obra. O “motivo condutor”, Mann o transporta da música wagneriana, da qual era um fã inconteste. E o “leitmotif” de “Morte em Veneza” será justamente os mensageiros da morte.

Sem sentir inspiração artística, decide romper com a rotina e partir em viagem.

Veneza é bela por um lado (apolínea), e podre por baixo e o siroco que cheira mal (sinais dionisíacos), são pressentimentos e mensageiros da morte. O velho passageiro do navio, que enturmado com jovens, ridiculariza-se para parecer jovem; o gondoleiro que se nega a levá-lo onde deseja, conduzindo um esquife- gôndola, toda negra, tal qual Caronte, o barqueiro do Hades, diz ao escritor que ameaça não pagar pela viagem: “pagarás”; músicos loiros, com dentes cariados e o suco de romã tomado enquanto admira Tadzio; os morangos vermelhos, contaminados, dos quais se serve. Tudo são mensageiros da morte, o fio condutor do romance.

O dilema de Aschenbach de certa forma é o mesmo para todo artista numa sociedade que o vê como um pária. Vida e Eros, Morte e Tânatus. Mann traceja os artistas como figuras adoentadas, sempre morenas, com olhos castanhos, em interface com a morte e a vida. Os loiros de olhos azuis são personagens imaturas, mas felizes: eles adoram revistas em quadrinhos!

Gustav, o escritor apolíneo, tem a seguir uma visão de pântanos, prenúncio de ventos quentes, “um deus que vem de longe”, bafejos orientais, mensagens que são dionisíacas. A partir de então, na alma de Auschenbach lutarão Apolo- a razão, a verdade, a ordem, os sonhos, e Dionísio- a desmedida, a loucura, o prazer e a orgia.

No diálogo platônico entre Sócrates e Fédon, a beleza é buscada para ser contemplada em seu estado mais puro. "Pois a beleza, meu Fédon, é a única forma do espiritual que podemos receber sensualmente, suportar sensualmente". Mann trás para seu romance, juntamente com cenas mitológicas, esse diálogo filosófico. Desse modo, a homossexualidade evidenciada em “Morte em Veneza” é uma questão secundária na análise da obra. O amor de Aschenbach por Tadzio é antes de tudo um tributo à beleza e desenvolve-se no âmbito da idealização. O jovem é uma personificação do belo, reflexo temporal da beleza eterna, de um ideal sempre perseguido, de tal modo que se torna irresistível em sua encarnação.

O princípio da viagem é Pula; somente depois decide prosseguir até Veneza. Em seu hotel veneziano no Lido, encontra o adolescente de uma família polonesa: o jovem Tadzio. O tempo quente e úmido afeta a saúde de Aschenbach, ele ainda tenta partir, deixar Veneza que transcende a morte, mas não consegue. Embora observe Tadzio obsessivamente, jamais ousa falar com ele, no máximo trocam um ou outro olhar furtivo e fugaz. Mesmo assim, como possuído pela loucura dionisíaca, ele perseguirá Tadzio por todos os cantos de Veneza.

O escritor busca capturar a imagem do belo Tadzio para eternizá-la através da arte, num sonho apolíneo de beleza. Sonho este que, ironicamente, irá lançá-lo às profundezas da dissolução dionisíaca. “Ele era mais bonito do que as palavras podiam exprimir, e Aschenbach sentiu dolorosamente, como tantas vezes antes, que a linguagem pode apenas louvar, mas não reproduzir, a beleza que toca os sentidos. (...) Tadzio sorriu; (...) E recostando-se, com os braços caídos, transbordando de emoção, tremendo repetidamente, segredou a formulação tradicional do desejo - impossível, absurda, abjeta, idiota, mas sagrada, e mesmo neste caso honrada: ‘Amo-te’!”

Os sinais de uma epidemia de cólera, oculta pelas autoridades para não prejudicar o turismo, são mais que evidentes. Um agente de viagens britânico a confessa. Mesmo assim, Aschenbach permanece, sacrificando sua dignidade e bem-estar pela experiência imediata da beleza corporificada. Com o tempo, a penetração do “deus máscara” no subconsciente do escritor, a paixão vai assumindo uma feição mais sensual, erótica, como fica claro na tentativa de Aschenbach de parecer mais jovem pelo tratamento cosmético e no seu sonho perturbador quase ao final do romance.

É quando o escritor apolíneo incorpora o deus mascarado, do mesmo modo como o velho passageiro do navio o fizera no princípio da narrativa. "Com as batidas dos timbales seu coração retumbava, seu cérebro girava, acometido de raiva, de desvario, de atordoante voluptuosidade, e sua alma desejou unir-se à dança de roda do deus. O enorme símbolo obsceno, de madeira, foi descoberto e elevado." Um sonho dionisíaco, orgiástico.

Aschenbach descobre, ao final, que a família polonesa planeja partir. Desce até a praia, onde está Tadzio com um menino mais velho, Jasiu. Os dois garotos lutam e Tadzio é facilmente vencido, pois a beleza sucumbe aos inferiores. Com raiva, o jovem polonês deixa seu companheiro e se dirige à parte do mar próxima de Aschenbach. Após estar por um momento contemplando o mar, dá meia volta para olhar seu admirador. Para Aschenbach é como se o menino estivesse acenando para ele. Mas Tadzio aponta para o mar, para a morte e o renascer e tal qual o deus Hermes, o jovem dispõe-se a ser o condutor de sua alma.

“Mas parecia-lhe que o pálido e adorável psicagogo lhe sorria lá longe, lhe acenava; que, soltando a mão do quadril, apontava para longe e, tomando a dianteira, lançava-se flutuando na imensidão plena de promessas. E, como tantas outras vezes, levantou-se para segui-lo”.

Aschenback tenta se levantar e retribuir, mas tomba em sua cadeira. Seu corpo é descoberto minutos depois. "E ainda no mesmo dia, um mundo respeitosamente comovido recebeu a notícia de sua morte.”

“Morrer: isto significa realmente perder de vista o tempo, viajar para além dele, trocá-lo pela eternidade e pelo presente e, em consequência, pela vida. Pois a essência da vida é o presente e só num sentido mítico seu mistério aparece nas formas temporais do passado e do futuro” (“A Montanha Mágica”).

Obs.: Em 1971, uma genial produção de Luchino Visconte, tendo como protagonista Dick Boguarte levou às telas “Morte em Veneza”. O leitmotif musical foram a terceira e a quinta sinfonia de Mahler, cujo filho de cinco anos morrera de cólera em Veneza. Levar uma novela filosófica ao cinema foi um dos maiores desafios do mestre italiano.

  • O massacre de Siquém, um episódio de “José e seus irmãos”.

Em conformidade com a Bíblia Sagrada, que é sempre História e Mito, Jacob já ostentava o título de Israel, o guerreiro de Deus, pelo qual a posteridade conheceria seus descendentes como a raça escolhida pelo Senhor de Abraão, quando conduzia todos os seus bens através dos caminhos perigosos que demandavam a Canaã.

Desde que empreendera a fuga dos domínios de seu sogro Labão, Israel era um homem rico que buscava um lugar seguro onde pudesse implantar suas tendas, apascentar o gado e cultivar a terra. Seus bens incluíam suas duas mulheres, Lia e Raquel, que conjuntamente com as servas Bala e Zelpa, haviam-lhe gerado doze filhos (Benjamin ainda estava por nascer); dezenas de escravos e escravas, pastores e vaqueiros, com mais de cinco mil cabeças de ovinos, burros, camelos e montaria.

Após longo caminhar, o séquito deixara para traz vales perigosos, até chegar a uma região relativamente calma, um pouco montanhosa, onde as flores, frutas e a cevada cresciam sem cultivo. E, ao fundo, guarnecendo o planalto, estava a antiga cidade dupla de Siquém com seus quinhentos habitantes, cercada por fortes muralhas.

Pode-se bem imaginar os sentimentos desencontrados com que o povo da cidade viu se aproximar a comitiva dos nômades de Israel. Quais seriam as suas intenções? Acontece que a  população de Siquém não era belicosa mas pacífica, dedicada ao comércio e amante do conforto. Seu rei Hemor, um velho artrítico e rabugento que nada negava ao príncipe seu filho, um fidalgote mimado, chamado, tal qual a cidade, Siquém. A guarnição da cidade era composta por vinte egípcios, acostumados à boa vida e confiantes no poder das grossas muralhas, assim como no distante poder do Faraó, a quem a cidade prestava suserania.

De qualquer maneira, Israel após protestar votos de amizade eterna ao rei Hemor e ao povo de Siquém, obtendo a concordância dos mesmos para estabelecer seu acampamento ao lado da cidade. Em sinal de consideração, enviou por intermédio de dois de seus filhos, um cesto com pombos, pão feito com frutas espremidas, lâmpadas, jarros e outros agrados ao castelo.

No retorno, os mensageiros chegaram maravilhados com as riquezas vistas na cidade, o que provocou certo alvoroço dentre os filhos mais velhos de Israel. Ruben tinha por volta de dezoito anos; na sequência etária vinham Simeão e Levi (denominados “os gêmeos”) e, logo após, Judá, Dan e Neftali, com quatorze anos de idade. Destes partiu a ideia de uma conspiração que, por entendido, não envolveu os filhos mais novos de Israel. Os rudes nômades do deserto propuseram ao pai que mediante ardil tomassem a desprevenida Siquém e saqueassem suas riquezas. Fosse como fosse, Jacob, a quem o plano foi apresentado, se opôs de forma majestática e determinante: “Afastai-vos de mim filhos de Bala e de Lia, devíeis envergonhar-vos! Somos, por ventura, ladrões do deserto que caem como gafanhotos em cima da terra, como uma praga de Deus e devoram a colheita do agricultor? Somos uma ralé, ou filhos de ninguém para roubar o que não nos pertence? E sabei agora que me vou preparar para transpor a porta da cidade e falar em paz com Hermon. Faremos aliança com eles, legalmente e por escrito teremos a terra que a eles pertence e negociaremos com o lucro que obtivermos”.

E assim foi feito. O dinheiro em pagamento da terra arável e das pastagens foi pesado, declarado legal e sacrossanto o contrato e maldito aquele que rompesse o vínculo. A gente de Israel ganhou foros de cidadania iguais aos dos habitantes de Siquém, podendo transitar à vontade pelas ruas da cidade e comerciar nelas. Os filhos de Siquém poderiam tomar como esposas as moças da tribo e vice-versa. Trocaram beijos e lisonjas.

E dessa maneira Israel se domiciliou na terra de Canaã ao lado da cidade de Siquém. Passaram-se quatro anos e os israelitas plantaram seu trigo e cevada nos campos, colheram os frutos de suas oliveiras, apascentaram o gado, e no lugar onde haviam se fixado cavaram um poço de quatorze varas de profundidade, que se tornou conhecido para a posteridade como o poço de Jacob em terras de Canaã, tornando-se independentes da água de Siquém.

Quatro vezes o trigo e a cevada verdejaram e oito vezes a gente de Jacob procedera à tosquia. O pacto de fraternidade estabelecida cumpria-se e os habitantes da cidade haviam deixado de temer os homens que haviam chegado do deserto; a guarnição da cidade já os considerava seus camaradas. Então se celebrou a festa da vindima após a fermentação do vinho. Por toda parte gritos de alegria, procissões e oferendas das colheitas, quer na cidade, quer no vale. Durante sete dias banqueteavam-se e bebiam do vinho.

Lá pelo terceiro dia tocavam música e todos dançavam frente à cidade, dentro dela e em frente ao castelo. Então o velho Hemor e seu filho, acompanhados por seu séquito, fizeram questão de confraternizar-se com Jacob e seus filhos. Foi então que o irrequieto príncipe Siquém viu pela primeira vez a jovem e interessante Dina, menina ainda nos seus treze anos, mas já feita mulher pela natureza. Os desejosos olhos do jovem a fixaram e a paixão que a moça lhe provocou não mais o deixaria. Pensou imediatamente no casamento e na noite de núpcias, embora o costume lhe proibisse namorá-la, a não ser com os olhos.

Uma nota importante que aqui nos compete frisar. Fala-se muito dos doze filhos de Jacob-Israel, que seriam o tronco das doze tribos, mas omite-se, muitas vezes propositalmente, o fato de que Jacob teve de Lia uma filha mulher, precisamente Dina, com a qual ninguém se importara até então.

Coube ao velho Hemor pedir a mão da moça a Jacob, oferecendo copiosa compensação em prata e ouro. Jacob ficou surpreso e perplexo. Materialmente lhe conviria ter um parentesco real na região, mas ela era sua única filha, exclusivo instrumento de troca. Chamou, então, os filhos a conselho. Os filhos mais velhos de Israel pensavam na melhor transação possível que pudessem arrancar ao velho, exceto Simeão e Levi que tinham outras ideias, ainda um tanto vagas. É que eles jamais haviam abandonado o antigo plano de saquear a cidade que os acolhera. De todos os modos foi pedido ao rei três dias para a deliberação familiar.

Ao final do terceiro dia, Siquém veio pessoalmente a conselho do pai saber a resposta, disposto a qualquer concessão desde que sua paixão pela donzelinha pudesse se consumar. Disseram-lhe os de Israel que o primeiro passo que deveria dar para ter Dina seria circuncidar-se, pois seria um escândalo o casamento de uma israelita com um incircunciso, símbolo do pacto com o Deus de Abraão, Isaac e Jacob. Ora, Siquém concordou de imediato. Afinal, nem ele e nenhuma de suas amiguinhas da Casa das Delícias do castelo sentiriam a falta de um pequeno pedaço de pele do pênis.

Uma semana após, retornou o jovem embora ainda mal curado e sentindo o incômodo que lhe causara o sacrifício, mas cheio de confiança. Jacob tendo percebido onde tudo iria desembocar fugira, preferindo assumir o papel do “demônio Labão”, “in absentia”. Os filhos de Israel objetaram que a circuncisão feita com uma faca de metal fugira à regra. O correto seria uma faca de pedra. E que, ademais, o filho do rei já possuía uma favorita, Reúma, a única esposa verdadeira e Dina, a filha de Israel, príncipe de Deus, não poderia ser uma simples concubina.

Siquém desesperou-se e ao partir amaldiçoou todos os irmãos, pois haviam quebrado um pacto e uma promessa. Mas ele não fora educado para renunciar com facilidade a um desejo sensual. Quatro dias após, Dina foi raptada e conduzida à Casa das Delícias, onde se viu cercada por todo o gênero de comodidades urbanas que desconhecia, assim como desfrutou do carinho das outras favoritas do príncipe. É fato conhecido que tão pouco ofereceu qualquer tipo de resistência quando da celebração de tão desejada boda.

Os filhos de Israel, principalmente Simeão e Levi, ao saberem do rapto pareciam não ter limites em sua fúria. Quebraram enfeites, rasgaram as roupas, arrancaram cabelos e barbas. Clamavam pela desonra e queriam assalto, morte, sangue! Jacob sabia que, na verdade, os seus filhos haviam encontrado uma oportunidade para empreenderem aquilo que sempre haviam desejado, e chegou a ponderar que não haveria grande vantagem em arrebatar Dina do castelo à força, pois isso nada remediaria a situação e suscitaria uma nova questão: o que fazer com a menina, raptada e ultrajada?

Alguns dias após a revolta eis que, vindo da cidade, chega um mensageiro com uma carta do moço Siquém dirigida a Israel pedindo que a situação se arrumasse e oferecendo um enorme dote por Dina, assim como um convite para as bodas reais. Jacob ouviu seus filhos e não se indispôs com os mesmos. Esses impuseram a Siquém uma única condição para que a situação se regularizasse: que toda a cidade inclusive sua guarnição, fosse submetida à circuncisão! Uma cláusula aparentemente pia pelo amor ao Senhor e ao pacto de Abraão para com o “povo escolhido”.

Jacob recordou-se do sonho em que o Senhor Deus, em Betel, havia-lhe gritado que ele haveria de possuir portas, e, mesmo, as portas de seus inimigos. Não significaria isso que, apesar de todo o seu amor pessoal à paz, estava escrito nas estrelas que a vida de Israel estaria ligada a conquistas, guerras, assassinatos e pilhagens?

O rei e o príncipe de Siquém aceitaram a proposta e, num mesmo dia, todos os homens adultos, mesmo os velhos e a guarda egípcia foram submetidos à circuncisão. Chegado o terceiro dia, quando piores são as dores e maiores os calafrios da infecção, cincoenta homens, entre servos e escravos, comandados pelos filhos de Israel, apresentaram-se disfarçados na cidade, para a comemoração das bodas. Uma vez dentro das muralhas retiraram seus disfarces e aos gritos de Dina, Dina, atacaram todos os habitantes, incapazes de reação, com a fúria dos leões. Simeão e Levi, os instigadores do conluio, praticaram os crimes mais hediondos. Os hebreus tudo assolaram literalmente a ferro e a fogo. O sangue corria pelas ruas e calçadas, enquanto do castelo, das casas e dos templos subiam labaredas aos céus.

Somente homens, os fisicamente fortes e duas meninas que atraíram o apetite sexual dos dois irmãos foram feitos escravos, sendo todos os demais, inclusive mulheres e crianças, trucidadas sem piedade. Siquém, o noivo, horrendamente desfigurado, teve a cabeça enterrada no esgoto da latrina de seu quarto. Dina, a insignificante causa inocente, foi restituída à família.

A matança e a destruição não duraram mais que duas horas, embora o saque continuasse por muito mais tempo. Às mãos de Israel passou toda a fortuna muitas vezes secular da cidade e dez vezes maior que os peregrinos do deserto possuíam. Ouro em abundância, sacos cheios de anéis, belíssimos instrumentos domésticos de prata, âmbar e faiança, alabastro e muito marfim, sem falar das enormes provisões de linho, vinho, farinha e azeite.

Jacob inicialmente negou-se a aceitar o feito de seus filhos. No entanto, quando viu que além de toda a fortuna acima descrita ainda estavam sendo trazidos os rebanhos, tomou-se de raiva “santa” tão somente contra Simeão e Levi e os amaldiçoou  pela violência de suas raivas. Esses apenas murmuravam: “Deveríamos consentir que nossa irmã fosse tratada como rameira?”

Pobre Dina, esta se encolhia no chão, aniquilada. Estava grávida. E Israel definiu: “A criança não viverá”.

Durante a noite Israel sonhou que o Senhor ordenava-lhe que partisse de Canaã em direção a Betel. Na manhã seguinte chamou todos os seus filhos e ordenou que se pusessem em marcha, pois não era conveniente permanecerem no lugar daquela abominação. Deveriam carregar consigo todos os seus bens, inclusive aquilo de que se haviam apossado “por causa de Dina”. Afinal, os povos vizinhos e o Egito, do qual o rei de Siquém era um protetorado, poderiam querer-se vingar.

Mas a boa sorte voltava a sorrir para Jacob, pois o Faraó do Egito, envolto em novas guerras, não tomou conhecimento do que acontecera em Canaã e os povos vizinhos estavam suficientemente aterrorizados pelas barbaridades praticadas por Israel que não se atreveram a opor-lhes resistência. Dina e sua mãe Lia seguiam montadas no mesmo camelo. Dina viajara o tempo todo no escuro. No devido tempo deu à luz a uma criança que por ordem expressa dos homens da família foi deixada no caminho e serviu de pasto dos animais do deserto. Quanto a ela, definhou e se encarquilhou antes do tempo. Aos quinze anos parecia uma velha e alguns anos após, morreu.

  • A origem mítica da esquerda e da direita.

A origem mítico-bíblica do dualismo da Direita e da Esquerda também é narrada com precisão por Thomas Mann em “José e seus Irmãos”. Na realidade, o dualismo atravessa toda a obra, sendo mesmo o seu “leitmotiv”, um reflexo da dualidade ideológica em que Mann se encontrava.

O mito traduzido fala-nos de uma dualidade direcional, de dois caminhos e comportamentos a assumir perante a vida, por onde descendem parentescos e filiação de almas. No fundo são duas árvores que se entrecruzam e que para o observador desatento podem se confundir com apenas um único nascedouro. Perscrutada, através do “poço insondável que é o passado da humanidade”, a eternidade humana nos conduz à própria criação das árvores do bem e do mal, em que o ser, o nada, a verdade, a mentira, a justiça, a injustiça, formam um só tronco, uma só raiz. Mas quando vista de perto, olhada através de lentes humanas, as raízes se bifurcam na justa medida do que é duplo: árvore e o caminho da direita; árvore e o caminho da esquerda! Isso não exclui que elas se entrelacem que se comuniquem e permutem e que a dialética se firme: tudo aquilo que ontem possa ter sido esquerda, hoje se haja se transformado em direita e vice-versa.

Em toda a obra de Mann pululam existências que remontam à estirpe sombria e reprovada pela ordem reinante, aquela que carrega a marca de Caim imposta pela Divindade. Seus personagens saltam aos olhos, pois a cor que deles emana é vibrante, alegre, vermelha, que também é a expressão do contestador, símbolo dionisíaco. Pelo menos é esse o modo como a Ordem, a Direita, os Eleitos enxergam a questionadora, pois ela é sempre a Esquerda, a espoliada. Quando em disputa, é sempre a Direita quem vence e acaba por apossar-se do poder, da bênção e das heranças, empregando a astúcia, o engano, quando não a violência. A Esquerda somente é vencedora quando transmutada em Direita.

A Direita, os Eleitos como Isaac, Jacob e José, é sempre mais inteligente que os Vermelhos, os descendentes de Caim. Entretanto, ao mesmo tempo, ela é mais canalha, sua espiritualidade tem a sagacidade daquele que traz em si a maldade, a maldade de quem já se sabe absolvido de qualquer ato, por mais abominável que tenha sido, raça eleita pelo seu próprio Deus.

Jacob que em sonhos luta com um anjo (ou um demônio) e como fruto da luta onírica se afigurará coxo pelo resto da vida, dará a si mesmo o título de Israel, o guerreiro de Deus. Raquel, a beleza frágil, mas que gera José, o décimo primeiro varão, será o Eleito pelo pai como primogênito. Ora, o ódio dos irmãos preteridos por Jacob desembocará na venda de José aos medianitas do deserto, da estirpe dos vermelhos.

Judá o quarto filho de Jacob, uma vez José dado como morto, ganhará os direitos de primogenitude e de integrar-se à Estirpe dos Eleitos graças às artimanhas de Tamar. A moça inicialmente se insinua junto ao velho Jacob até que o patriarca lhe conceda o casamento com os dois filhos de Judá. O primeiro não resiste ao acasalamento e morre; o outro, Onan, é punido por Deus por negar-se a depositar seu sêmen no interior do sexo da mulher, sexo que já custara a vida ao irmão. Tamar, então, age como prostituta, e por meio desse engodo, logra desposar Judá e garantir-lhe o status de Eleito junto ao Deus de seus ancestrais.

Assim agem os da estirpe dos Eleitos. E assim atuam por trazerem em si a inteligência das coisas Divinas que advêm de sua condição de eleição, não ocultando sua forte inclinação pela sabedoria mundana. Desta forma, os Eleitos não se privam de nada, nem mesmo de relacionarem-se com os Vermelhos, desde que isso lhes traga benefícios.

  • “Doutor Fausto” o mais alto grito literário antinazista!

Em 1933, os nazistas chegam ao poder na Alemanha através do voto democrático. Imediatamente devotam-se à destruição da democracia e à implantação do regime totalitário mais odioso da História da humanidade. O mesmo já ocorrera na Itália alguns anos antes, com o ex-socialista e fascista Benito Mussolini. Logo após o incêndio do Parlamento Alemão pelas claques de “choque” de Hitler, Mann, o maior dos escritores alemães do século XX, decidiu exilar-se de seu País.

Uma das mais importantes obras primas do grande mestre foi, sem dúvida, o romance Dr. Fausto. Publicado apenas em 1956, espelha uma visão amadurecida de todo o processo em que as liberdades foram destroçadas pelas forças nazifascistas. As peripécias do grande livro se desenvolvem num período histórico de aproximadamente vinte e cinco anos, entre 1920 e 1945, quando ocorre o esmagamento da Alemanha nazista.

O personagem-narrador nos diz: “Certa gente não deveria falar em liberdade, razão e humanidade, melhor que se abstivesse disso por motivos de decência. O dogmatismo também é uma forma intelectual do farisaísmo. Onde quer que haja Teologia, o Diabo também deve entrar no quadro, preservando sua autenticidade complementar à de Deus. O Inferno é tão simbólico quanto o Céu.”

Para Mann, o adepto das luzes, o termo e o conceito “povo” sempre conserva qualquer traço de arcaico, inspirador de apreensões e ele sabe que basta apostrofar a multidão de povo para induzi-la à maldade reacionária. “Falo do povo, porém daqueles impulsos populares de natureza arcaica, que existem em todos nós, e para dizê-lo bem claramente, assim como penso, não considero a religião o meio mais adequado para reprimi-los com segurança. Isso se consegue, a meu ver, unicamente por meio da literatura, da ciência humanística, do ideal do homem livre e belo.”

Pessoas como o escritor alemão têm, afinal de contas, suas dúvidas a respeito do acerto dos “pensamentos do rebanho”, como ele mesmo os denomina. Sabe, entretanto, perfeitamente diferenciar o povo trabalhador da escória social, que com aquele não se confunde. “A supremacia das classes ditas inferiores se afigura a mim, como cidadão alemão, um estado ideal, quando a comparo com o domínio da escória. Ao contrário que eu saiba jamais o bolchevismo destruiu obras de arte. A revolução russa emocionou-me profundamente e a superioridade histórica de seus princípios em confronto com os das potências que dobravam nossa nuca aos seus pés, era evidente. Verdade é que certas camadas da democracia burguesa parecem merecer o que acabo de denominar de domínio da escória a fim de conservarem por mais tempo seus privilégios.”

No nazismo a violência opunha-se à verdade! Pregava-se um abismo entre a verdade e a força, a verdade e a vida, a verdade e a coletividade. Um grito de horror surge em Dr. Fausto sob a forma de uma composição musical do maestro dodecafônico Leverkun: “nesse momento só uma única música pode servir-nos, somente ela corresponderá a nossas almas: a lamentação do filho do Inferno, a lamentação humana e divina, que, partindo do indivíduo, mas ampliando-se cada vez mais, e, em certo sentido, apoderando-se do Cosmo, há de ser a mais horrenda que jamais tenha sido entoada na Terra. Uma lamentação, um ‘De produndis’!”

O mundo criado pelo nazi fascismo era ao mesmo tempo antigo e novo, “revolucionário” e retrógrado. Nele os valores ligados à ideia do indivíduo, verdade, liberdade, direito, razão, ficariam inteiramente debilitados e rejeitados, assumindo um significado totalmente diferente do que tiveram nos séculos precedentes. “Desarraigados da pálida teoria, seriam relativizados, abastecidos de sangue e em seguida submetidos a uma instância muito superior, à da força, da autoridade, da ditadura da fé, de uma forma que igualaria uma regressão muito inovadora da Humanidade em direção a estados e condições teocráticos- medievais.”

A imparcialidade da pesquisa, o pensamento livre, longe de representarem o progresso, o antigo e o novo, o passado e o futuro tornar-se-iam a mesma coisa. Isso ocorreria ao mesmo tempo em que se concedia ao pensamento a licença de legitimar a força, “assim como uns seiscentos anos antes, a razão tivera liberdade para discutir a fé e demonstrar o dogma”, numa referência à Reforma Luterana.

O pedagogo, por exemplo, sabia que, sob o nazi fascismo já existia a tendência para distanciar-se do sistema de aprender letras e soletrar. Em vez disso preferia-se o método de ensinar palavras inteiras e de ligar a escrita à visão concreta das coisas. Isso representava, em certo sentido, a abolição da escrita abstrata, universal, não associada a nenhuma língua e, de alguma forma, a volta à ideografia dos povos primitivos. A disposição era de sacrificar sem mais as assim chamadas conquistas culturais em pró de uma simplificação reputada indispensável, assim como os tempos o exigiam, e que eventualmente pudesse ser qualificada de volta intencional à barbárie.

O narrador de Dr. Fausto, Serenus, prevê no início da ação dos nazistas no poder que “chegaria o dia em que se legitimasse, por razão de higiene nacional e racial, a não conservação dos elementos mórbidos, a eliminação em grande escala dos ineptos para a vida e dos débeis mentais”. “Enfatizava-se a intenção da rejeição de qualquer efeminação humana, produto da era burguesa, um esforço intensivo por tornar a Humanidade capaz de enfrentar tempos sombrios, desdenhosa de sentimentos humanitários, mais próximos daquela fase obscura que precede a origem da Idade Média”.

Mann, pela boca de Serenus expressará seu ódio ao nazismo nas últimas páginas do portentoso livro: “Malditos, malditos os corruptores, que mandaram à escola do Diabo uma parcela do gênero humano, originalmente honrada, bem-intencionada, apenas excessivamente dócil e demasiado propensa a organizar sua vida à base de teorias!”

O professor Serenus, que se abstivera de combater o nazismo quando ele surgira, ao final do romance Dr. Fausto realizará um "mea culpa" de sua omissão, retroagindo à Advertência de 1937: “Será que voltarei a inculcar nos cérebros dos alunos a ideia de uma cultura na qual a reverência às divindades das profundezas se une ao culto ético de olímpica razão e lucidez, formando uma só piedade? Mas ai de mim, receio que nessa década selvagem se haja criado uma geração que entenda a minha linguagem tão pouco como eu a sua; a mocidade de meu país se me tornou por demais estranha para que eu possa novamente ser seu mestre. A própria Alemanha, esse país desventurado, tornou-se estranho, justamente em virtude do fato de eu ter-me abstido de seus crimes, e, seguro do fim pavoroso, haver-me abrigado na solidão.”

Parecendo prever os tempos que vivemos no século XXI, questionará: “Será compunção mórbida perguntar como, no futuro, a Alemanha, sob qualquer aspecto, poderá atrever-se a abrir a boca em assuntos concernentes à Humanidade?”

 

  • “A Lei”.

"A Lei", antepenúltimo conto escrito por Thomas Mann é geralmente considerado uma "alegoria do poder" e, mais particularmente, uma alegoria da libertação face à imposição, com o Egito podendo ser comparado aos Estados intolerantes da Guerra Fria.

Mann mostra-nos Moisés, o libertador do povo hebreu, a partir de uma visão mundana, porém altamente espiritualizada, da qual resulta a figura de um líder civilizador, revolucionário dos costumes e das crenças de seu povo e, ao mesmo tempo, um déspota místico-ideológico.

O nascimento de Moisés reduz-se ao apetite sexual que seu pai, escravo hebreu, despertara na filha do Faraó Ramsés. O pai, assassinado imediatamente após a satisfação sexual da Princesa, como era de costume, deixou-lhe um filho.

A gravidez foi acobertada e na ocasião do nascimento da criança, todos os cuidados tomados:  o bebê foi encontrado num pequeno cesto e recolhido pelas serventes da Princesa. Esta lhe deu como mãe adotiva uma israelita e ele ganhou irmãos. Chamaram-no, então, Moisés, que significa “filho”. Mas filho de quem?

Quando jovem, foi tirado de seus pais de adoção e colocado no mesmo internato dos filhos da realeza. Assim, Moisés aprendeu astronomia, geografia, a escrita e as leis. Como todos, ele também sabia sua origem: o Faraó Ramsés, o construtor, era seu verdadeiro avô e isso lhe dava ganas de assassinar aqueles que se divertiam com seu nascimento! Talvez, graças à sua ascendência, Moisés cresceu “amando apaixonadamente a ordem, o inviolável, a regra e a proibição”.

Deste modo, muito cedo começou a matar com fervor. Um soldado egípcio, que espancava um hebreu foi por ele atacado e morto. Sentiu dentro de si “que o ato de matar era verdadeiramente delicioso, ao mesmo tempo em que haver matado era medonho ao extremo e, por isso, não se deveria matar”.

Como herança da mãe egípcia, uma sensualidade ardente: “ansiava ao mesmo tempo pelo espiritual, pelo que é puro, sagrado e invisível”. Quando os hebreus descobriram seu crime, Moisés fugiu para o deserto, onde encontra um povo de pastores, os madianitas, que amava um deus que não se pode ver, mas que a todos via. Este deus vivia no topo de um monte no deserto do Sinai, sentado numa uma arca, realizando oráculos e jogando com os dados da sorte. Os madianistas o denominavam Javé.

Para Moisés, Javé, o invisível, aquele que não tinha imagens, tornou-se o Altíssimo, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, os antepassados de seu povo desenraizado e espalhado pelas terras egípcias, desde os tempos de José.

Passaram-se os anos. Sentindo-se seguro, Moisés fez a longa viagem a lombo de jumento de volta às terras do Nilo, trazendo esposa e filhos. Entre os hebreus começou a pregar, agitando seus fortes braços, anunciando o encontro com o Deus de seus antepassados, “aquele que era a eternidade”, e que estava pronto a realizar uma aliança com as pessoas do seu sangue, desde que lhe jurassem exclusividade absoluta de culto.

A respeito das implicações envolvidas na invisibilidade deste deus, em sua espiritualidade intrínseca, e na pureza nas coisas sagradas, nada falava para não assustar as pessoas. Também nada dizia sobre a   tarefa que lhe fora consignada por seu deus interior: levar as tribos de Israel para a “Terra prometida”, libertando aquela gente da escravidão egípcia!

Reencontrou seus irmãos adotivos e fez seguidores. Josué, um jovem e decido hebreu, tornou-se seu mais forte aliado. Para este, Javé era o deus dos exércitos, o deus armado que os tiraria da escravidão. Josué foi o braço militar de Moisés junto daqueles treze mil hebreus escravizados, uma força pequena para conquistar a “Terra Prometida”.

Moisés, entretanto, entendia que a saída do Egito não se daria por um levante popular, mas fruto de um bom acordo. Graças a sua origem dupla, ele era o único homem que poderia pleitear perante o Faraó a saída de seu povo.

Aarão, seu irmão adotivo, conhecia certos artifícios de magia e devido à dificuldade de fala de Moisés, aquele passou a acompanhá-lo nos pleitos. Inicialmente tentaram enganar o Faraó com truques que já eram conhecidos pelos magos da corte. Um pedido para que os hebreus pudessem realizar sacrifícios no deserto, o que lhes abriria as portas para a fuga, foi interpretado pelo Faraó como uma saída para o ócio e ele, além de não o permitir, mandou que a carga de trabalho dos escravos fosse aumentada.

A princípio o povo revoltou-se contra Moisés, mas com o passar do tempo, o aumento da exploração foi um fator positivo que estimulou a revolta e a vontade de fugir do Egito.

Fala-se muito das dez pragas que Javé jogou sobre o Egito. São histórias que podem ter causas naturais. Sabe-se que, em determinadas condições, as águas do Nilo, como de outros rios, tomam, por influência de algas, a cor avermelhada, então os peixes morrem, e o precioso líquido torna-se impróprio para beber. Também é fato conhecido que em determinadas situações, os sapos e rãs se multiplicam além da conta e que a infestação por piolhos sempre foi uma praga, até a invenção dos inseticidas. Muitas vezes, naqueles dias, os leões famintos atacavam o rebanho, e, quando desdentados e velhos, até mesmo os homens. Quantas vezes na história da humanidade, os ataques de sarna se alastraram na sujeira e na falta de higiene dos corpos? Quantas vezes a incontrolável varíola ulcerou a pele das pessoas? E os gafanhotos, não foram e ainda não são uma praga para a agricultura? Quanto ao famoso eclipse que se deu naqueles dias, ele não pode ser considerado nenhum milagre, aliás, já naquela época faziam-se previsões sobre eles.

A cada evento natural Moisés apresentava-se ante o Faraó e dizia que a desgraça da vez era uma praga de Javé, colocando-o na conta da ausência do apregoado sacrifício proibido no deserto. Até que o rei se cansou e, ao invés de permitir que os hebreus fizessem sacrifícios no deserto, resolveu expulsá-los do Egito. Na verdade, para isto também contribuiram ações realizadas por Josué e seu grupo de jovens guerreiros.

A última praga -a morte de primogênitos egípcios- que se tem como responsável o “Anjo da Morte de Javé”, foi, na realidade, obra dos guerreiros de Josué. Nas casas não marcadas com o sangue de animais, a sucessão das heranças fora interrompida naquela noite nebulosa em que muitos primogênitos foram assassinados, num ato de típico terrorismo. Os sucessores das heranças, por seu lado, não queriam, obviamente, nenhum tipo de vingança contra aqueles que indiretamente os haviam beneficiado.

Como não raramente acontece nesses eventos, o caos estabeleceu-se entre os habitantes da terra. Foi quando ocorreu a expulsão do Egito.

Na partida o povo de Israel tanto matou tanto quanto roubou: foram vasos de ouro, bacias, trigo armazenado, gado, um pouco de tudo o que podiam carregar. Para Moisés, entretanto, aquela seria a última vez que um saque seria tolerado, mas como veremos na própria Bíblia,  tal não ocorreu.

O que levou o Faraó, então, a ordenar que uma tropa de combate fosse ao encalço e reprimisse o povo fugitivo? Ora, o saque realizado em suas terras!

Moisés, entretanto, conhecia os caminhos entre os lagos Azedo e o Salgado no delta do Nilo. Sabia que a maré recuava em determinadas horas e avançava em outras.  A turba desorganizada atravessou o estreito antes da chegada das tropas perseguidoras, que pouco conheciam da região e que, com a mudança dos ventos e da maré dividiram-se, sendo obrigadas a recuarem com muitas perdas.

Em decorrência, o povo de Israel viu-se liberto e Josué se encarregou de espalhar o boato de que, com uma vara Moisés afastara as águas do mar, outro milagre de Javé! O povo cantava e dançava a morte dos egípcios. Moisés iniciou sua nova doutrina: “Não te alegres com a desgraça de teu inimigo”!

Não tardou que o enorme desafio de dar água e comida àquela gente se fizesse presente. O povo oscilava entre as “glórias dadas àquele que nos tirou do Egito” e a maldição àquele “que os trouxera ao deserto tirando-os da terra e da comodidade de seus lares”. Os gritos “o que vamos beber?” e “o que vamos comer?” atormentavam Moisés, “que sempre se sentiu atormentado por todos os homens da terra”.

Josué ouvira falar de uma fonte no deserto, chamada Mara; no entanto, a água era insalubre e o povo foi salvo por um engenho de Moisés: um sistema de filtros que a tornou potável. Saciada a sede, a fome ainda persistia. Os guerreiros de Josué notaram que, em determinados lugares do solo árido crescia um líquen comestível, do qual se poderia fazer um bolinho alimentar, o maná. Essas descobertas foram lenitivos fundamentais ao sofrimento da massa.

Josué buscava um grande oásis, o Cádis, lugar encantador, com muita água, frutas, gado, que seria bom o suficiente para que as tribos se robustecessem até seguirem o caminho para a “Terra Prometida”. Guiados pelas estrelas, lá se foram eles.

É claro que esse lugar já tinha dono, os amalecitas, e se Javé quisesse aquele local para seu povo teria que travar luta com Amalec, o deus daquele povo. Moisés vacilou em entrar em guerra pela posse de um local já ocupado, mas Josué contou-lhe a história de que Cádis, há muito tempo, fora habitado por hebreus. Logo, as famílias que lá se encontravam, já o haviam roubado e quem rouba ladrão…

De algum modo, Moisés deixou-se convencer. A luta pela posse da terra e seus bens foi sangrenta. Mas Israel, que também significa “Deus faz a guerra”, venceu-a guiado pelos braços levantados de Moisés a implorar o auxílio de seu deus. As crianças abandonadas pelos amalecitas multiplicaram o número dos próprios filhos de Israel, assim como as mulheres de Amalec tornaram-se mulheres e criadas também de Israel.

Agora Moisés tinha todos os motivos do mundo para considerar-se um homem feliz.

No horizonte de Cádis erguia-se o monte Horeb, coberto até sua metade por vegetação, cujo cume uma pequena nuvem impedia a visualização. Moisés transportou do monte Sinai para lá seu deus, Javé, aquele que não tinha imagens e que queria ser único. Ao lado de sua tenda construiu uma de reunião, onde guardava os objetos sagrados “a la madianita”: uma arca com alças e dentro dela o cajado com cabeça de serpente que seu irmão Aarão um dia usara nas conversas com o Faraó, assim como os dados do sim e do não, do certo e do errado.

Moisés implantou um primeiro Tribunal, pois era necessário impor uma lei civilizatória.  A justiça tinha a ver com a invisibilidade e a espiritualidade de seu Deus, assim como a injustiça que seu povo teria que aprender a reconhecer. Ele deveria, além de aplicar a lei, ensiná-la a seu povo, a qual lhe fora ensinada no Egito, derivada do código de Hamurabi.

Uma visita dos familiares madianitas de Séfora, sua esposa, o ajudou. Eles propuseram que se nomeassem juízes, ao que ele, inicialmente resistiu e depois se rendeu, pois sempre soubera que os juízes são antes de nada “comedores de presentes”. Ensinaram-lhe também o truque da apelação, em segunda e terceira instâncias, de tal modo que guardasse para julgar por si mesmo apenas as questões de maior importância.

Logo se deu conta de que era necessário quase tudo ensinar àquele povo bárbaro, incluindo normas de higiene básicas. Moisés obrigou que cada um tivesse sua pazinha e que fizessem suas necessidades diárias, fora das tendas, e que, deveriam cobri-las com areia para não atrair insetos. “Serás limpo e te banharás muitas vezes em água corrente; terás saúde, pois sem ela não existe pureza e nem santidade”.

Quando os homens tivessem lepra, sarna, e outras doenças transmissíveis, eram colocados em isolamento com suas impurezas para que não se alastrasse a contaminação.

Interferiu também nos hábitos alimentares da população: eles poderiam comer umas coisas e não outras. Por exemplo, os animais impuros, as aves carniceiras e os rastejantes não deveriam ser tocados.

Também os costumes deveriam sofrer transformação: o matrimônio sagrado não poderia ser rompido; o incesto entre irmãos e entre pais e filhos foi proibido; uma mulher menstruada estaria impura e não deveria ser importunada.

“Ouvi dizer que fazes de tua filha uma prostituta e te aproprias do dinheiro dela; se o fizeres, mandarei te apedrejar”, disse. O sexo com animais e o homossexualismo seriam punidos também com a pena de morte.

Proibiu-se a reprodução de imagens de homens, de animais e de Deus e a tatuagem nos corpos. Mesmo correndo o risco de que o povo se confundisse, disse-lhes: “Eu sou o senhor, vosso Deus.”

Não era fácil para aquele povo solto submeter-se às ordens, aos valores e à disciplina de Javé. De todos os modos “os anjos da morte” de Josué estavam sempre a postos para executarem uma sentença necessária ou para expulsar um transgressor. “Javé e eu não queremos nem cruéis e nem covardes, permanecei no meio termo, sede decentes”.

Mais e mais restrições civilizatórias foram sendo implantadas: não cobiçar a mulher, nem o bem do próximo; não roubar, nem matar; não dar falso testemunho; respeitar os mais velhos; consagrar o dia de sábado a Deus; não ser infiel no casamento. E nesse ponto, o amor de Moisés, casado com Séfora, pela Moura a concubina de fartos seios, causava-lhe muitos transtornos e envergonhava os filhos, que pertenciam à tropa militar de Josué.

Como se pode ver, não era nada fácil a missão que Javé impunha a Moisés e a seu povo, que, mesmo à custa de exemplos disciplinadores, ameaçava rebelar-se.

Foi quando a terra tremeu... Uma lava quente e grossa começou a escorrer por uma das encostas do monte Horeb e de seu cume evoluíam fogo e fumaça. Moisés teve a certeza de que seu deus o chamava, enquanto o povo acreditava na ira de Javé. Mesmo com todos os riscos, Moisés, munido de uma talha e de um martelo, fez-se acompanhar por todo seu povo até o pé do morro.

Moisés, então, escalou sozinho quase até o topo da montanha e lá permaneceu quarenta dias e quarenta noites. Embora o corpo militar lhe providenciasse, sem que ninguém o percebesse, serviço de água e comida, não foi nada fácil sobreviver à temperatura e ao cheiro de enxofre.

Mas Moisés tinha que trabalhar. Precisava dar aos homens uma prova concreta da existência do Espírito; queria que suas leis básicas, as mais importantes. permanecessem escritas e fossem “A Lei” para todo o sempre!

No entanto, ele não era um homem de escritas. Confundia-se com os idiomas que conhecia, com os sons e seus símbolos. Buscou, então, se expressar por escrito do modo que todos entendessem as tábuas de pedra, talhadas no morro. Escreveu em duas tábuas o que se denominou de “Os Mandamentos”, cinco em cada uma. Quando terminou, rasgou a pele do próprio antebraço e fez com que o sangue desse cor às letras. Ao final, desceu o monte Horeb com a ajuda de Josué e juntou-se ao povo.

O que viu o encheu de ira. O povo divertia-se ao som de timbales, fornicava pelos cantos e bebia; além do mais, adorava uma imitação tosca de bezerro feita com o ouro roubado no Egito, dançando e rindo a mais não poder. Já não se esperava que ele vivesse, talvez mesmo o quisesse morto para exercer a liberdade conquistada, mas eis que, de repente, Moisés surge na companhia do comandante da repressão armada.

Ergue, então, com todo ódio as suas tábuas da lei e as arrebenta contra o bezerro de ouro, destruindo-o. “O povo queria fazer sua festa frente a um deus mais cordial”, segreda Aarão ao próprio irmão.

Moisés juntou aqueles que lhe seguiam fiéis e se estes já não eram poucos foram aumentando sob pressão. “Deus é paciente e misericordioso, perdoa delitos e transgressões, mas a ninguém deixa impune”. “Aqui será feita uma purificação sangrenta, pois as leis foram escritas com sangue. Os falsos guias serão aniquilados, serão entregues ao Anjo da Morte”.

E deixando para Josué as execuções, retornou ao Monte Horeb para trabalhar pelo seu povo, implorar o perdão a Javé.

E ali, próximo ao topo permaneceu mais quarenta dias e noites, burilando novas Tábuas da Lei. Javé consentiu na renovação e Moisés pediu-lhe que perdoasse os pecados de seu povo ou ele também seria um derrotado, pois o povo de sua eleição tornar-se-ia pagão, voltaria à adoração de Belial. Esse argumento foi forte o suficiente para convencer seu Deus a manter a tão abalada aliança.

Ao descer novamente do monte, trazia em cada braço uma nova Tábua da Lei. Proclamou: “Maldita seja a pessoa que disser: essas pedras não são verdadeiras. Maldito aquele que vos ensinar: levantem-se e sejam livres novamente!” “Esse é o vosso Deus, façam tudo em sua honra; esmagarei com meu pé o pecador. E quem pronunciar seu nome terá que cuspir para os quatro cantos e lavar a sua boca, dizendo, Deus me livre! Para que a terra volte a ser novamente a terra, um vale de lágrimas e não um prado de tolices. Dizei amém a isso!”

E todo o povo disse Amém!

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