Espaço Literário

Marcel Proust

Redes sociais

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“2039: Ficção ou Profecia?”

II. “Arbeit macht frei” ou “só o trabalho liberta”.

Sanjoan e Joansan caminhavam um ao lado do outro no viver da juventude que insiste, em cada circunstância, buscar o refazer.  Estavam próximos à linha divisória, num terreno que ainda lhes era permitido estar. Dois irmãos de diferentes pais, os anos que os separavam mal chegavam a três.

A Lei promulgada pelo Conselho da República não era recente, conseguira a força incorporar-se ao hábito de vida de pessoas como os dois irmãos, portadores de tornozeleiras. Todos os “monitorados” eram proibidos de penetrar em quaisquer das outras zonas populacionais, com a única exceção daquela que fazia fronteira com o gueto onde viviam, denominada Zona C.

Nesse local residiam os trabalhadores e suas famílias. Os “monitorados” necessitavam possuir autorização específica para lá entrar e trabalhar.

Joansan não tinha, entretanto, por não trabalhar, o tal visto de entrada eletrônico e, por isso, Sanjoan, o mais velho, alertou-o. Não ultrapasse a linha, é perigoso, eles poderão te pegar! Mas a juventude venceu o bom argumento e Joansan, precavendo-se da mesma maneira que outros o haviam feito antes e conseguido iludir o controle, colocou uma moeda entre os anéis que lhe circundavam a perna esquerda. Esticando a calça o máximo possível para encobri-la, esperou que a noite caísse e rastejando atravessou a linha divisória, caminhando rapidamente para o shopping center que já ao longe se avistava. Não vou ficar mais de uma hora ou duas horas, espere-me, pediu ao irmão.

O que ele desejava? Simplesmente comprar artigos baratos e se divertir, quem sabe curtir uma baladinha, como os filhos dos trabalhadores residentes na Zona C o faziam. Enfim, estar algum tempo junto à juventude de outra classe social tão próxima e ao mesmo tempo tão distante da sua, inalcançável, aquela dos filhos dos operários que trabalhavam nas plataformas marítimas ou nas usinas de xisto betuminoso.

Sanjoan sentou-se no banco do jardim mal iluminado, bem junto à linha divisória que separava a região D, aquela onde o Sistema o havia condenado a viver, da Zona C. Conversou algum tempo com uma garota que passava somente para matar o tempo, enquanto o irmão procurava gastar o dinheiro que, de algum modo, conseguira.

Sanjoan, a seu modo, era um sobrevivente do passado, nascera antes dos anos vinte. Por isso sentia enorme falta das redes sociais. Desde que os bloqueadores de internet e de celulares haviam sido instalados em toda a extensão da linha divisória do Complexo D, o celular e seus aplicativos tinham perdido quase toda a valia, pois a comunicação somente era possível com os desgraçados da vida como ele próprio, bloqueados de conectarem-se com as demais redes sociais. Mesmo assim, quem sabe se por hábito, Sanjoan mantinha o seu celular no bolso, quase sempre mudo. Afinal, de seu, tinha tão poucas coisas...

Bem no centro do jardim erguia-se um enorme edifício dedicado aos cultos de uma dita Igreja Mundial do Reino do Senhor, que duas a três vezes por semana exortava os urtianos a abjurarem seus pecados como a gula, pobres esfaimados; como a luxúria, infelizes dopados; como a inveja que os mordia contra “os abençoados da terra”, conclamados a expulsar “o demônio da revolta” que rondava suas almas. O pastor e seus auxiliares, que vinham de fora da zona D, prometiam-lhes em troca, um lugar cativo no céu onde esqueceriam o inferno em que viviam. “Será mais fácil um de vós entrardes no reino dos céus que qualquer um dos ricos e dos poderosos”, proclamava com ares filosofais.

Formando um ângulo de noventa graus com o Templo ficava o campo de futebol que um dia, no começo do século, pertencera a certo clube de algum prestígio. Agora, todo deteriorado, sem nenhum controle ou investimento público, era destinado a peladas com suas inexoráveis brigas e pugilatos, às vezes, alguma morte, por uma bola daqui, outra dali. Morte de corpos feitos para serem dispensados.

Sanjoan distraiu-se nos seus pensamentos, deixara de sentir o tempo passar e, afinal, para que controlá-lo? Só se sente o tempo quando nele se vive. Aqueles homens, mulheres, adolescentes e crianças que haviam sido confinados à força no Complexo D, já não viviam, embora ainda respirassem. Teriam sido apenas alguns minutos, quiçá toda uma hora, pouco importava.

Joansan fazia um bico ou outro, como por exemplo, no transporte dos internados que morriam no Complexo D e eram carregados até o portal de entrada para serem transportados aos fornos de incineração pelas autoridades sanitárias. Já, Joansan nada fazia. Não dissera ao irmão sobre como fora parar em suas mãos o dinheiro que planejava gastar. Ou roubara, ou ganhara na venda das “pílulas do bem estar social”,  aquelas que Sanjoan e alguns poucos amigos evitavam, clandestinamente, tomar.

Foi quando, quebrando a monotonia tensa que toda linha divisória propicia, ouviu o barulho da corrida do irmão tentando ultrapassá-la e fugir para o lado em que ele estava. Dois Agentes Comunitários da Paz, também conhecidos como Copas, perseguiam-no em pequenas motos com as sirenes ligadas. O truque da moeda, aparentemente não funcionara, pelo menos daquela vez. Os sensores demarcadores das Linhas da Paz Social, o belo nome com que haviam sido batizadas, haviam provavelmente detectado e identificado Joansan quando ele ultrapassara o limite permitido. Os Copas apenas lhe haviam dado corda para ver o “crime” que ele cometeria e agora apertavam o laço.

Aquele que pilotava a primeira moto, quando o teve ao alcance, com uma cacetada na nuca derrubou-o ao solo. Pelo interfone comunicou ao supervisor distante que o infrator fora detido. O segundo, desmontou sem pressa, retirou o capacete e aproximando-se do rapaz caído, para evitar qualquer reação, espirrou-lhe um pouco de gás pimenta diretamente nos olhos. Então, abaixou-se, arregaçou-lhe a calça da perna direita e colocou-lhe outro tipo de tornozeleira. Levantou-se, buscou no bolso do macacão do uniforme algum instrumento que não encontrara ao primeiro toque. Afinal, trouxe à mão um pequeno controle remoto.

Com um sorriso maldoso nos lábios começou a acioná-lo. As pernas de Joansan uniram-se por força do eletromagnetismo, as tornozeleiras transformavam-se num gordo par de algemas a imobilizá-lo. Ao choque o corpo magérrimo tremeu. No instante seguinte, o Agente começou a aplicar choques elétricos. Primeiro foram os gritos de dor, depois gritos pedindo perdão e clemência, seguidos por um choro convulsivo, que misturava as lágrimas da dor àquelas debitadas ao gás pimenta hidrogenado.  

Dois casais de namorados, que se abraçavam num dos bancos, interromperam seus carinhos e se puseram a caminhar sem olhar para trás. Não era permitido que os procedimentos das autoridades fossem vistos, fotografados ou filmados. Quem o fizesse teria o mesmo destino do preso.

Somente o irmão ficou estático a ouvir os gritos de dor e os pedidos de clemência do caído. Sanjoan tentou intervir, chegou mesmo a implorar para que o levassem preso, mas que poupassem o irmão do sofrimento. Os Agentes da Paz sorriam. Isso dói? Para que vocês prestam? Vocês são o lixo da sociedade e nós, os lixeiros! A Pátria nos paga para acabar com a raça de vocês! Um drogado qualquer pensa em driblar a lei? E quem está chorando é o que de você, seu filho da puta! É seu amante, seu comparsa?

Não, é meu irmão, disse Sanjoan. A atenção dos agentes voltou a se concentrar em Joansan. Onde está a grana que você estava gastando, perguntavam. Aumentaram os choques elétricos, ao mesmo tempo em que gritavam, de quem você roubou o dinheiro, lixo de merda?

Sanjoan pensou em aliviar um pouco o sofrimento do irmão e ele conhecia um modo geralmente eficaz para isso. Fora do alcance das câmeras que os Copas traziam acopladas aos capacetes, fez um sinal àquele que o havia propositadamente retirado da cabeça, logo na primeira abordagem. Enquanto o primeiro assumia o controle da aplicação dos choques elétricos, o outro enfiava a mão no bolso traseiro do prisioneiro e rapidamente passava para o próprio o dinheiro miúdo encontrado, exceto algumas poucas notas menores.

Então, a conexão entre os dois anéis nas pernas foi interrompida e Joansan colocado em pé a bordoadas. Da boca escorria um fino veio de sangue provocado pela língua dilacerada entre os dentes pelos choques elétricos. As lágrimas que escorriam, ao se juntarem ao sangue, formavam uma baba pastosa, grudenta. Segurando-o pela garganta para que não desabasse ao chão, o Copa sem o capacete urrou. Agora falta dizer de onde veio o dinheiro que está no seu bolso, prisioneiro 2033- AZZ. Joansan, ganhando a segunda tornozeleira, passara a ser um número. Aproximou-se um carro de patrulha vindo dos portais de passagem de veículos que transitavam inter áreas. O rapaz foi atirado lá dentro e levado por outros para um dos CIDs mais próximos, os temidos Centros de Interrogatório e Detenção.

Triste, perdendo um dos poucos vínculos afetivos que o ligavam à vida, Sanjoan foi caminhando para o Portal que dava acesso à dita Comunidade Social à qual pertencia. Na portaria, expôs a identificação na perna esquerda e a barreira eletromagnética permitiu-lhe a entrada. Descobriria em si mesmo que a maldade embrutece tanto os agentes quanto os pacientes. A preocupação pela sorte do irmão passara a um segundo plano, preocupava-o agora a sua própria: se aquele confessasse aos agentes da Justiça que o dinheiro que tinha fora obtido pela revenda da droga, das pílulas do bem estar social; que ele obtinha a droga graças ao irmão e uns poucos amigos que se negavam a tomá-la; e se por acaso falasse sobre todos eles, era certo que os não dopados entrariam para a lista negra dos rebelados. E esses, quando atravessassem qualquer linha demarcatória ou o próprio Portal, seriam detidos e teriam um destino muito pior que aquele que estava reservado ao irmão. Alguns poderiam mesmo ser liminarmente eliminados pelo bem da Paz Social ou, na melhor e mais complacente das hipóteses, seriam submetidos a doses brutais da droga e somente jogados de volta à comunidade quando totalmente dela dependentes, como os milhares de zumbis que perambulavam pelas ruelas enlameadas.

Foi assim pensando que Sanjoan atravessou o portal, que há muitos anos havia sido conhecido como uma das entradas do Alemão, complexo de favelas ao qual haviam juntado ainda outras favelas, assim como a totalidade do Complexo da Maré. Agora, o conjunto dessas antigas e lúgubres habitações e suas ruelas e becos, ostentavam o nome pomposo de Primeira Unidade Reeducadora do Trabalhador, mais conhecida simplesmente por URT-1, e todo acesso a ela realizava-se por um único local, o tal do Portal.

Por não tomar pílulas, Sanjoan era daqueles moradores que ainda guardavam lembranças e eram elas que causavam as revoltas que a muito custo aprendiam a conter, mas que algum fator, talvez um dia, poderia fazer com que desabrochassem, explodissem. Quando criança, a vida era muito diferente. Ele molecava por toda parte, corria pelos bairros do Botafogo, de Copacabana, de Ipanema, do Leblon. Pedia dinheiro de um lado, de outro ajudava a estacionar carros, vendia balinhas nos faróis. Às vezes retornava à favela para dormir na casa da mãe, outras vezes dormia em uma praça, num banco de jardim. Sentia-se livre, embora o estômago rangesse e os olhos cintilassem por tudo o que os meninos “bacanas” podiam ter e ele não. Vez ou outra aliviava o pesado bolso de um turista mais desavisado, ou o celular de um bunda-mole qualquer. Ah, que tempo bom! Corria, então, até um shopping e se empanturrava de Mcdowel’s com Top-Cola. Às vezes sobrava algum dinheiro que lhe dava de presente um par de tênis, não muito na moda que era para não dar na vista, nem da polícia e nem de outros malandros como ele mesmo, ele que não era de andar chamando a atenção de graça.

Esse tempo passara, mas ele se lembrava de quando a área do Alemão, as favelas do Cruzeiro e da Maré foram fechadas. O primeiro projeto consistira em erguer altos muros com cercas eletrificadas e faróis que iluminavam as noites. Depois disso, reduziram todos os locais de entrada e saída a um só, ao Portal, que desde essa época permanecia o mesmo.

Antes disso, os antigos PMs, Policiais Militares, haviam chegado para estabelecerem bases fixas de operações, quando instalaram as assim chamadas Novas Unidades Pacificadoras; eles se acantonavam, vigiavam os muros e o Portal com seus cães raivosos, todos prontos para o bote.

Mas houve um momento em que os PMs se haviam ido.  Até mesmo a instituição policial-militar fora extinta, e toda ela substituída pela Corporação dos Agentes Comunitários da Paz, que logo ganharam o apelido de Os Copas.

Um dia Sanjoan ouviu falar em eletromagnetismo sem saber que essa palavra não o deixaria mais pelo resto da vida. Ocorreu quando a eletricidade sobre os muros, que sofria lá seus cortes de fiação de quando em quando, foi substituída pelo dito “o implacável”, o tal do efeito eletromagnético que tornou até mesmo o muro perfeitamente dispensável. Desde então, não havia mais becos ou ruelas que pudessem usar para entrada ou saída, perderam-se as rotas de fuga dos “rapas”, e para o acesso a todo o Complexo obrigava-nos a passar pelo controle do tão odiado Portal.

As antigas câmaras de vigilância comunitária, que vira e meche eram depredadas, reviradas, roubadas, transformaram-se em vigilantes também implacáveis quando foram acopladas aos pequenos drones não tripulados, que dia e noite sobrevoavam em vôos rasantes os locais onde os dispensáveis de todos os naipes, os excluídos da Terra, os absolutamente pobres, desocupados ou desempregados de todas as espécies, misturados a revoltados, traficantes, drogados e moleques e molecas largadas de todo o Rio de Janeiro haviam e seguiriam sendo confinados.

Acontecera há muitos anos, mas Sanjoan ainda tem viva na memória aquela que havia sido a última visita realizada pelos políticos à Comunidade. Ocorrera tudo em grande estilo. Mais de mil Copas em seus aparatos de combate isolavam os políticos do povo. Outros quinhentos agentes foram colocados sem uniforme para infiltrarem-se e fazerem com que aplausos ensurdecedores fossem ouvidos, sem que o risco de rebeliões ou de outras “aprontações” da galera pudessem ocorrer. A área marítima da Maré, incorporada ao uso da Comunidade, fora ocupada por batalhões navais.

Brasileiros e brasileiras, meu povo humilde da cidade do Rio de Janeiro, viemos trazer-lhes a possibilidade única de uma vida melhor para todos. A Nova Ordem Político-Social, que acaba de ser aprovada pelo Congresso Nacional e por mim ratificada é essa enorme novidade.  Conhecemos perfeitamente os desafios financeiros que toda a sociedade brasileira deverá arcar para socorrê-los, mas eu digo, em nome da Pátria, que o Brasil é um país rico e que estamos dispostos a pagar. Eu, como autoridade suprema, quero que me ouçam e que entendam muito bem o que vou dizer.

Todas as medidas sócio-educativas e de suporte familiar que serão implantadas visam o bem-estar de vocês! Vocês serão os primeiros a gozar do grande benefício nessa encruzilhada de redenção, por ordem de Deus, de nossa Pátria, pois o Rio de Janeiro e dentro dele, a Zona de moradia que a vocês pertence, pertence eu disse, porque jamais delas poderão no futuro serem expulsos. Vocês foram escolhidos para servirem de modelo para todo o país!

Após todo o costumeiro salamaleque que os marketeiros políticos (aqueles mentirosos e cujos escrúpulos têm exclusivamente a marca d’água do dinheiro) sempre preparam para os poderosos, os textos bonitos e comoventes como aqueles que falam “que todos são iguais perante a Nação”, “que a lei e a justiça também o são”, “que o Governo sempre trabalha para que o futuro seja melhor para todos os nossos filhos”, “que a mão que os guia é a divina”, enfim o Supremo Mandatário anunciou, além dessas tradicionais mesmices, algumas medidas concretas, incisivas, transmitidas oficialmente por todas as redes de TV a todo o território nacional e logo repicado por toda a mídia internauta.

Nos antigos complexos de favelas, agora batizados de Unidades Reeducadoras do Trabalhador, presentemente a primeira, a URT-1, (Sanjoan nunca compreendera porque os dirigentes gostavam tanto de nomes pomposos, se depois tudo vira sigla nessa terra) seriam construídas casas comunitárias que, aos poucos, substituiriam as favelas; em pouco tempo elas teriam água da melhor qualidade nas torneiras e o esgoto deixaria de correr a céu aberto (nesse instante o Mandatário teve que se socorrer do lenço perfumado oferecido pela assessora apressada, dado que, ao falar da merda e da urina a rolar, lembrara-se de sentir o odor podre, fétido que aos céus envergonhava na tarde quente).

Com o lenço na boca, desculpou-se pelo resfriado que não o impediria “de dirigir-se até o final ao seu povo mais sofredor”. O Portal que muitos odiavam, na verdade, era mal compreendido, fruto de brasileiros equivocados, velhos comunistas e opositores do progresso. Ele era, sim, um benefício para os comunitários, do mesmo modo como haviam sido, no seu tempo, mal compreendidas as Novas Unidades Pacificadoras.  Que elas haviam cometido lá seus deslizes, isso era certo (nesse momento a cabeça do Governador do Estado acenou cordatamente), “até mesmo, por que não dizer, haviam praticado algumas arbitrariedades” (ele voltou a assentir de um modo mais incisivo); mas a primeira grande nova é que elas sairiam para sempre do Complexo, afinal, não tinham cumprido adequadamente o papel de portadoras da paz, nem trazido o Estado para junto dos mais humildes.

Assegurou também que não haveria mais tráfico ou consumo de entorpecentes caros e perigosos como o craque e cocaína, porque os laboratórios de confiança do governo haviam preparado uma pílula maravilhosa, que os maiores cientistas do país denominavam de a “Pílula do Bem Estar Social” que, ausente os efeitos perniciosos das drogas tradicionais, deixaria as pessoas tranquilas e equilibradas, prontas para a reinserção social. Usá-las diariamente era fundamental no processo de reeducação para o trabalho. Mas nada de exploração: as pílulas teriam distribuição absolutamente gratuita e o seu comércio seria punido como um grave crime contra a economia popular. O grande conselho dos pastores das Igrejas também as havia aprovado como cristãs.

Que ninguém se preocupasse, nem mesmo aqueles que antes ainda viviam do narcotráfico, agora já sem sentido, abolido pelo avançar da ciência e não pela simples repressão, dado que diferentes pílulas estariam disponíveis para quem as quisesse consumir em todas as classes sociais.

Prosseguiu falando ainda mais, ouvido que era por todo o País. Somos hoje o segundo maior produtor de petróleo e de gás do mundo! Somos também os donos do maior rebanho bovino e suíno do planeta! Nossa soja, nosso milho e nosso açúcar, estão presentes em todos os cantos do mundo! Tornamo-nos um país rico e um país rico jamais permitiria que os seus cidadãos passassem necessidades essenciais! Deus provou ser realmente brasileiro quando, em meio a um mundo que se desertifica a cada dia que passa, deu-nos um dos maiores volumes de água doce do planeta!

Por isso tudo estamos assumindo um compromisso: todos os meses, a partir de agora, haverá distribuição de alimentos para os cidadãos que forem cadastrados, suficientes para a necessidade alimentar de cada família e que, gradualmente, será aumentado.

Foi então que a Suprema Autoridade comunicou que escolhera a cidade do Rio como a primeira onde a Nova Ordem Social seria plenamente estabelecida. Para tal, por motivos de segurança e do bem-estar social, a Cidade Maravilhosa estaria sendo dividida em grandes áreas, visando o progresso, o bem-estar, a segurança e a proteção social de seus filhos, seus cidadãos. A cada qual o quinhão que Deus lhes destinara.

A área social que pertence a todos vocês, onde poderão circular livremente, divertirem-se, morarem é aquela desde agora denominada por lei Zona D. O D que simboliza o “denodo”, palavra nova, o esforço que todos precisariam fazer para evoluir na vida. Mais tarde, Sanjoan viu que o D, o citado símbolo de denodo tomaria outros significados muito distintos, tais quais drogado, dopado, débil mental.

A área incluía ainda um parque fora do Complexo, logo além do Portal, que seria “um primor de área comunitária”, e uma faixa de mar com praia, a do Complexo da Maré, que passaria por um seriíssimo processo de despoluição. Esses espaços imensos seriam exclusivamente frequentados pelos “denodados” moradores, novamente a novelíngua. Ninguém, nenhuma empresa, deles se apropriaria jamais.

Ademais das fontes de trabalho interno a serem criadas, o trabalho social estava aberto a todos que o quisessem exercer na área vizinha, a Zona C, que era a única a fazer fronteira com a D. Mas que ninguém sem o consentimento das autoridades tentasse atravessar as linhas divisórias; seria sempre necessária a autorização para o trabalho. “O progresso exige respeito às leis e às autoridades e, acima de tudo, a Pátria, a ordem e a paz social e elas serão mantidas a todo custo!”

A Autoridade ainda tinha outra importantíssima novidade a anunciar: desde esse momento, a Polícia Militar como corporação considerava-se extinta. Agradecia publicamente os importantíssimos serviços prestados ao Brasil, mas novos tempos requeriam novas idéias e novas formas de organização. A partir desse dia, todas as ações repressivas, preventivas e de controle, antes desenvolvidas pelas antigas PMs, seriam prestadas por um corpo de ação melhor preparado para suas nobres funções a que se propunha: a corporação dos Agentes Comunitários da Paz Social. “O fardamento, que já o utilizam, como podem observar, não é mais o mesmo”, enquanto que os equipamentos, no princípio ainda seriam muito semelhantes aos do passado, “mas todos têm a minha palavra de honra que, até mesmo esses, gradualmente, serão adaptados às novas funções sociais dos Agentes da Paz”.

O Mandatário ainda foi além nas promessas benfazejas de bondade. Passou a palavra ao Ministro da Educação e esse prometeu escolas, educação para o trabalho, implantação de oficinas de aprendizado em técnicas manuais e em artes decorativas. Enfim, medidas de ressocialização e atividades profissionalizantes que visavam o bem comum e que permitiriam que todos, não importando o seu passado, fossem transformados em melhores cidadãos.

A assistência médica, por seu lado, seria “à altura” que a parcela mais sofrida do povo brasileiro tanto merecia.

No entanto, frisara enfaticamente o Mandatário, todo esse universo de bondades seriam exclusivos àqueles que, desde os dez anos de idade se cadastrassem como membros comunitários. Uma vez cadastrados, todas as portas ao trabalho bem remunerado na Zona C, a dos Trabalhadores, se abririam, “pois os serviços abundavam e todos esperavam por aqueles que estavam sendo reeducados pelo e para o trabalho”. “Que este Portal seja conhecido pelas gerações que nos sucederem não como o da exclusão, mas como o da inclusão social, como o Portal da Felicidade!”, assim, ao término de seu discurso, sinalizando um enorme placar eletrônico erguido acima de seu palanque, ele encerrou o discurso para todo o país repetindo o que estava escrito em letras garrafais na entrada da URT-1: “Só o trabalho liberta”!

Sanjoan gostara dos discursos e como ele muitos mais. Não entendera o porquê de tantos policiais, agora vestidos de Copas, na segurança. Ele que morara ali toda a vida, estava acostumado a somente receber maldades dos homens que representavam os poderes, aqueles para os quais que diferença afinal fazia um deserdado da sorte, o que lhes importava? Enfim, quer os políticos se digam democratas, autoritários, civis ou militares nos pobres todos cagam do mesmo modo, pensou Sanjoan!

Lembrou-se que muito antigamente, quando os pobres ainda votavam, recebiam alguns agrados antes das eleições, até mesmo algum dinheirinho por voto que cabulassem entre os colegas. As milícias dos paramilitares, quando apoiavam determinado candidato até que pagavam bem. Mas agora, na Nova Ordem, como os chamados urtianos haviam sido dispensados do voto, nada sobrara nada!

Mas, pensando bem, havia muita gente nova na favela, ela se ampliara, ganhara alguns casebres de blocos de cimento, cobertos por telhas de zinco e todo aquele material fora fornecido pelas autoridades. Caminhões e ônibus haviam trazido nos últimos meses milhares e milhares de pessoas que haviam sido removidas à força de outras áreas e que chegavam ao Complexo, muitas tristes e desesperadas, revoltadas.  Vinham também os mendigos, os menores abandonados e os infratores que antes vagabundeavam pela Cidade Maravilhosa. Os removidos, alguns ganharam novas moradias coletivas, outros, uma vez desembarcados na URP-1, eram simplesmente mandados que se virassem como pudessem.

Pelos anos dez e vinte, muitas favelas tinham sido desocupadas à força, outras arrasadas, algumas “acidentalmente incendiadas”; a revolta dos moradores fora sufocada com sangue, e ele ainda disto se recordava. No final, os cobiçados terrenos onde tantos viviam há muitos anos tinham recebido cercas e sido entregues a agentes imobiliários. Os empresários, tornados felizes proprietários, denominaram as áreas de desocupação de “a nova fronteira imobiliária do século XXI”.

Quanto aos drogados e aqueles que viviam do pequeno tráfico, esses já pouco tinham a reclamar, dado que o preço da cocaína despencara com o surgimento dos “químicos”, as drogas de laboratório. O negócio agora pouco rendia, quase nem valia à pena. O lucro antigo passara a ser dos laboratórios farmacêuticos. Com isso, o ganha-pão fora secando, bem antes mesmo do anúncio do Mandatário.

Sanjoan sabia que ninguém gostaria de não poder surrupiar a grana de um turista menos avisado, deixar de organizar um rolezinho num belo dia de sol, fazer sua catada num grande arrastão pelas praias de Ipanema e do Leblon. Tinha mais uma coisa que pegava: em todo o Complexo, não havia nem mesmo um único shopping, onde eles pudessem se divertir de vez em quando! Somente os botecos e os barzinhos, muquifos das baladas, além das pobres lojinhas que todo beco possui e camelôs que tentavam pelas vielas, em qualquer canto, vender desde calcinhas e cuecas a água mineral, por eles mesmos engarrafada.

 

As bandeirolas de todas as cores que haviam sido levadas, aquelas dos Partidos Políticos que apoiavam o Mandatário e o Governador se levantaram, urras e mais urras foram dadas. No entanto, lembra-se ainda Sanjoan, algum assistente do Mandatário se aproximou e cochichou-lhe algo ao ouvido. O Supremo, tirando o lenço dos lábios, pediu um minuto de silêncio para complementar sua fala. Esquecia-me de dizer que estamos abrindo editais de concorrência para melhoria das vias públicas na URT- 1 e que em breve vocês terão somente para vocês, um, ou melhor, dois shoppings. Importante: em sinal de nossa sensibilidade social, os preços serão sempre baixos, subsidiados pelo Governo! Ninguém pagará o mesmo preço que aqueles mais privilegiados pela sorte podem pagar! E, escute-me meu povo, eu prometo em nome de Deus e da Pátria, que breve, muito breve, aqui voltarei para acompanhar pessoalmente a implantação desse programa que é da maior importância social!

O ato público foi um sucesso retumbante transmitido via satélite para todo o país. Diziam até que fora transmitido para muitos países amigos no estrangeiro, onde algumas práticas semelhantes haviam sido ensaiadas, mas sem o sucesso obtido pela experiência brasileira.

É verdade que, logo a seguir, muitas das medidas anunciadas começaram a ser implantadas, embora jamais nem o Supremo Mandatário, nem seus Ministros ou o Governador, tivessem algum dia voltado a pisar em qualquer área que fosse no mínimo próxima a qualquer das quatro URTs que, uma após outra, foram sendo isoladas e inauguradas, a partir do primeiro modelo.

O que aconteceu foi que nos dias após o grande evento apareceram, com o novo fardamento completo todo preto com uma cruz torta no braço direito, os Agentes Comunitários da Paz, os Copas. Usavam os mesmos capacetes, escudos e armas da falecida Polícia Militar, com um adesivo sobre as marcas da anterior, onde se lia uma nova designação: por Deus e pela Pátria. Eles acompanhavam os assistentes sociais e pessoas do Instituto da Estatística Popular, chegados a realizar os propalados cadastramentos anunciados desde o palanque.

Chegaram em grande comitiva, pois juntos vinham caminhões carregados de gêneros alimentícios, que, por segurança, estacionaram bem antes de atravessarem o Portal, dado que a fome é terrível e pode produzir atos de loucura até mesmo nos bons momentos.

Ao mesmo tempo, equipes de batedores motorizados penetraram rapidamente no Complexo e instalaram, nos mais diversos pontos das favelas, aparelhos comunitários de plasma que convocavam, ao som do Hino Nacional, todos os cidadãos e crianças acima de dez anos a comparecerem ao Portal. Comunicavam que, mesmo no caso de as pessoas não estarem com a documentação em ordem, mesmo que não as tivessem isto não importava. Todos deveriam comparecer, pois o computador geraria um novo nome, uma nova identidade para cada um deles. A mensagem era clara: esquecia-se do passado! Era o início de um Novo Tempo! Uma Nova Ordem Social!

Formou-se, rapidamente, imensa fila que percorria as vielas. Joansan e seu irmão Sanjoan, que já tinham passagens por furto, apressaram-se e conseguiram se colocar antes que o corredor alcançasse o primeiro quilômetro. E o Computador, apelidado de João Batista pelos agentes comunitários, providenciava a todos um novo batismo, com os antecedentes, propagandisticamente, varridos para debaixo do tapete. Já não havia motivos para as marcas do passado...

O que ninguém antes havia dito é que, ao se cadastrar, cada pessoa teria aplicada na sua perna esquerda uma tornozeleira de titânio, somente removível por código secreto em poder dos computadores das autoridades. Cada reeducando receberia uma identificação e um número que seriam como que tatuados para sempre junto ao seu corpo. Devido à obrigatoriedade de uso da tornozeleira, o que não havia sido dito pelo Mandatário, chegou a ocorrer certo princípio de revolta, mas que foi rapidamente contornada. O espancamento de alguns elementos pouco cordatos, em público, não produzia surpresa naquelas pessoas que, desde sempre estavam acostumadas a brutalizar e a serem brutalizadas. Os Copas pegaram uns quantos para dar o exemplo. Depois do espancamento, ainda sangrando, foram arrastados até as ambulâncias de pronto-socorro que acompanhavam o cortejo. Afinal para que mais elas teriam vindo?

Quando a fila já caminhara um bocado, Sanjoan viu o retorno daqueles que tinham ido para as ambulâncias; alguns ferimentos mal pensados ainda sangravam. Mas eles não pareciam se importar com nada disso. Em uma perna, a tornozeleira afixada reluzia e eles caminhavam como zumbis. O modo de olhar, de andar, não eram os mesmos dos antigos fumantes de craque ou dos usuários de coca; agora era diferente, estes de agora não demonstravam nenhuma agressividade, somente alheamento. Tinham recebido diretamente na veia os ativos concentrados do “bem estar social”.

Foi nesse preciso instante, quando os primeiros recalcitrantes retornavam, que surgiu no Portal um enorme caminhão, lotado de uma conhecida marca internacional de cerveja. Uma autoridade-locutor, apossando-se do microfone, patrocinou um brinde! Uma cerveja bem geladinha com a primeira pílula! Foi, então, para cada pessoa, inclusive às crianças, oferecida com alegria e como prova de cidadania e de esperança no futuro, uma caixinha contendo trinta doses, suficiente até o próximo mês, da pílula do bem estar. Para a primeira, uma cerveja ou um refrigerante! “Saúde”! Um gringo que acompanhava a autoridade misturou as palavras e saiu um “prost” e um erguer estranho do braço direito, imediatamente interrompido no meio do ato pelo esquerdo que o segurou!

Quando o locutor se calou, na plataforma superior do veículo, apareceram as mulatas de curvas perfeitas, nuas e com os seios e as bundas muitos siliconados balançantes que iniciaram a puxada do samba, ao som de um trio elétrico!

Nesse clima de festa a autoridade anunciou mais uma bondade: a distribuição da primeira sacola alimentar da URT-1! Alimento para o povo, nunca mais a fome, foi o berro que se ouviu por todo o Complexo! A carne seca de vaca que fez sua aparição, a primeira e única, na cesta básica dada ao pobre.

 

Os confinados, no passar do tempo, veriam que as outras promessas jamais seriam cumpridas, haviam sido feitas para enganá-los, assim como a toda a plateia que acompanhara à distância, o discurso do Supremo Mandatário pela mídia.

A URT não teria nenhum tipo de assistência médica, exceto a aplicação de uma dose sempre renovada de vacinas preventivas de doenças que pudessem causar contaminação fora dos limites da Zona.

Os segregados veriam que o esgoto seguiria seu curso de sempre, correndo para o mar misturado às águas da chuva. Que a praia seguiria sendo um reservatório de esgoto, do óleo que vazava no abastecimento apressado dos navios nas plataformas e de tantas outras porcarias boiantes. Que a água purificada para consumo continuaria inconstante, dia sim dia não, e que escorreria por poucos canos comunitários. E a cada quinze dias, todo o Complexo era sobrevoado por helicópteros governamentais que despejavam toneladas de inseticidas e outros agentes anti-pragas sobre casebres, pessoas e animais.

As escolas básicas e técnicas prometidas pelo Ministro também jamais seriam implantadas. Somente continuariam sua existência, e por pouco tempo, aquelas mantidas por abnegados religiosos católicos, aos quais, posteriormente, por motivo de segurança, teriam a também a sua entrada proibida nas URTs.

No entanto, é forçoso reconhecermos, que algumas das coisas que haviam sido prometidas, foram realmente cumpridas com precisão, ano após ano: todos os meses, quando a operação de controle e adaptação das tornozeleiras era realizada, ela era seguida pela distribuição das pílulas do bem-estar e pela rigorosa entrega de um pacote de gêneros de primeira necessidade. Eram também distribuídas com certa largueza cartelas de anticoncepcionais e preservativos.

Outro serviço que, assim como no passado, não falhava era o da remoção diária dos cadáveres, depositados no local próximo ao Portal, retirados dos casebres e das ruelas ao começarem a cheirar. Antes que servissem de pasto aos cães e ratos famintos, havia um grupo de urtianos contratado pelas autoridades para o trabalho de coleta.

Um trabalho constante e infindável, pois o tempo de sobrevida nas URTs era pequeno. Muitas crianças nasciam, mas poucas atingiam a idade adulta, e um adulto que entrasse nos anos trinta era considerado um veterano.

A violência, endêmica às antigas favelas, muitas vezes ligada ao narcotráfico, entre os habitantes da URT reduzira-se muito, graças aos “dopados sociais”. Morria-se muito mais de morte morrida que de morte matada. E a cara da morte era a mesma que assombrara tantos lugares desde sempre, a cara da diarreia, da desnutrição, da pneumonia, da tuberculose e da overdose de pastilhas do bem estar.

 

Ao atravessar o Portal, Sanjoan lembrou-se das câmaras vigilantes e, como sempre o fazia, alterou o semblante, a maneira de olhar e o passo. Era necessário que se assemelhasse ao imenso rebanho daqueles que consumiam as pílulas. A seguir, caminhou pelas vielas de barro por onde escorria o esgoto e brincavam crianças com seus gatos miseráveis e cães pestilentos, rodeadas por ratos que já haviam perdido o respeito pelos outros mamíferos. Procurava não escorregar na lama e no lixo acumulado. E foi sob o cheiro nauseante da merda, da urina, da água podre empossada e da morte que caminhou até a praia.

Lá também sobrevoavam os drones vigilantes, mas ele tinha certeza que o ruído do mar dificultava a capitação das vozes. Era para os lados da poluída Maré que ele e seu pequeno grupo de não dopados se encontrava. Avistou, dentre eles, o negro Domingos Passos, sempre acabrestado no seu pensar de líder.

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