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“2039: Ficção ou Profecia?”

I. A Nova Ordem

  • “O Lar dos Iguais”

Domingos Passos fora operário e residira num dos enormes conjuntos habitacionais edificados na Zona social C, a dos Trabalhadores. Na fachada da entrada principal lia-se: “Lar dos Iguais”.

Essas edificações residenciais, que foram sendo construídas pelas autoridades um pouco antes do princípio da Nova Ordem se assemelhavam muito entre si. Diziam que a inspiração fora um famoso arquiteto que vivera lá pelo século XX. Cada uma delas era composta por imensos blocos de cimento expostos, rigorosamente espartanos em sua aparência e sólidos em consistência.

Todos os edifícios tinham a mesma altura de quatro andares, sem serviço de elevadores; no térreo localizavam-se os apartamentos maiores, com três quartos, pequena sala e cozinha. A cada andar acima eles iam-se tornando menores, até que, ao atingir-se o nível superior, os apartamentos possuíam apenas um ambiente e uma pequena cozinha conjugada a banheiro, não passando a área de doze metros quadrados.

De certa forma, o planejado era para que as pessoas convivessem quase que exclusivamente com seus vizinhos no local onde residiam. Cada bloco ocupava toda uma superquadra de duzentos metros, construído em todos os quatro lados frontais às ruas, o que permitia um excelente espaço disponível na área interna. No intuito de alcançar certa autossuficiência no ambiente comunitário, no espaço interno havia um posto sanitário, onde um médico ou uma enfermeira se revezava no plantão, uma escola para o ensino fundamental, assim como uma creche para as crianças menores, além de sítios para a prática de esportes e quadras para futebol.

Ainda para facilitar a vida, havia armazéns, padarias, bares e, pelo menos, uma farmácia. Em alguns conjuntos, inclusive, pequenas lojas de roupas, calçados e outras facilidades haviam se instalado, sempre sob a concessão do Estado, ao qual todo o conjunto físico pertencia.

É verdade que essas comodidades agrupadas num mesmo local facilitava a vida das pessoas; como contrapartida, entretanto, aumentava o isolamento a que cada grupo de determinada superquadra se submetia, facilitando o sempre atento controle estrito dos moradores.

As definições de quais famílias habitariam determinada superquadra era da Administração Central de Alojamento do Trabalhador. Por sua vez, dentro de cada bloco, a tarefa da distribuição das residências era exercida pelo Administrador do mesmo e por seus assistentes.

Imperava de certo modo alguma justiça na disposição das residências e assim o entendiam os trabalhadores. As maiores famílias eram alocadas no térreo, as menores, nos intermediários, e os solteiros e os viúvos, muitas vezes em duplas, nos superiores. Também é certo que, bastava determinada recomendação do sindicato da categoria profissional para que um apartamento maior fosse habitado por uma família menor. Chamavam a isso merecimento “pela dedicação ao trabalho” e nesse caso a lógica se dissolvia.

Outra questão que a princípio trouxera alguns questionamentos, mas que com o tempo haviam sido esquecidos era que os solitários, normalmente os mais idosos, muitas vezes trabalhadores aposentados eram quase que impossibilitados de subir e descer as dezenas de degraus todos os dias; isso fazia que, com o tempo, a redução da vitalidade obrigasse os velhos a se recolherem em seus casulos para não mais saírem. Muitas vezes, na ausência de parentes que vivessem próximos, somente o cheiro da morte denunciava sua passagem ocorrida na solidão de um moribundo.

Archibaldo era um desses velhos aposentados que vivia num pequeno cubículo no alto do “Lar dos Iguais”. Ele recordava com um travo de amargor um passado em que vivera num bairro mais ou menos central, o do Estácio. Com a Nova Ordem, todas as casinhas decadentes como aquela em que residia, mas que lhe pertencia, haviam sido postas abaixo. Os pequenos proprietários como ele próprio, haviam perdido seu canto e em troca impuseram-lhes a condição de “concessionários” em apartamentos de um dos imensos blocos que já se espalhavam por aquela que seria a enorme área C da Nova Ordem. Zona que, grosso modo, ocupava áreas que um dia haviam sido determinados bairros da região central da cidade e outros da zona norte.

Distribuídos a uma distância planejada de um a cada quatro quilômetros, erguiam-se os grandes shoppings e locais de diversão, construídos e freqüentados quase que exclusivamente pelos trabalhadores. Ao contrário das vias públicas que eram pouco movimentadas, os shoppings e os centros de diversão eram muito concorridos. Além de centralizarem a maior parte do consumo, eles eram também o lugar em que as pessoas se embelezavam para verem, serem vistas, onde surgiam paqueras entre os jovens, únicos ambientes fora das áreas de convivência dos conjuntos residenciais em que ocorriam ajuntamentos, sob o olhar atento dos seguranças e das câmeras vigilantes.

Aos finais de semana formavam-se filas para os cinemas e para shows musicais. A cada porta dos grandes Mcdowel’s da vida, acotovelavam-se meninos com seus pais, jovens para comerem os grandes sanduíches, cada um com nome distinto, mas com invariavelmente o mesmo sabor.

Dentro dos shoppings centers, determinados serviços público-privados haviam sido implantados de tal modo que, exclusivamente os trabalhadores residentes na área Social C, tinham à disposição alguns postos de saúde primária e locais de pronto atendimento (é verdade que sempre lotados). Também escolas profissionalizantes onde poderiam estudar e matricular seus filhos, dado que o estudo a nível superior lhes era vedado.

Falando-se em saúde, o sistema público-privado de atendimento, na medida em que deles haviam sido excluídos definitivamente os residentes das URPs, sentira alívio em seus cofres, ao mesmo tempo em que os empresários experimentaram um enorme aumento nos lucros, graças aos subsídios pagos pelos empregadores e pelo governo. Por  esses motivos, o atendimento aos trabalhadores nos primeiros tempos da Nova Ordem melhorara significativamente em relação ao passado. No entanto, com o passar dos anos e o com o aumento da população, as verbas voltaram a ser insuficientes e o atendimento deficitário. À boca pequena comentavam os mais antigos que a qualidade do atendimento médico voltara à merda que sempre fora.

Os escravos dos escravos

Os trabalhos braçais, os de faxina, coleta de lixo, jardinagem e outras tarefas subalternas, tanto nos shoppings quanto nos blocos residenciais, eram costumeiramente executados por empregados contratados nas URTs. Como os dependentes das pílulas do bem estar eram sempre lentos nos seus afazeres e pouco atenciosos, constituíam uma mão de obra barata enorme, sempre disponível, a qual não possuía qualquer proteção social e que, por seu lado, satisfazia-se com muito pouco. Não havia um salário básico. Às vezes dois pratos de comida, restos para carregar para a casa e algum trocado, constituíam uma paga mais que suficiente e pela qual o urtiano, sem alternativa alguma, ainda ficava grato.

Apesar que tanto a seleção quanto a contratação dos serviçais devesse ser conduzida e aprovada pelos Administradores no caso das superquadras, e pelos Gerentes no caso dos shoppings, os moradores num caso e os comerciantes no outro eram conscientizados a respeito da necessidade da total vigilância que deveriam exercer sobre os empregados originários de uma URT; de qualquer modo, eles seriam responsabilizados por danos à coletividade que aqueles, porventura, viessem a provocar.

Era também expressamente proibido qualquer tipo de aproximação pessoal entre diferentes classes, o que incluía namoro, relações sexuais e mesmo qualquer tipo de solidariedade. Todos os empregadores eram obrigados, por lei, a denunciar ao Administrador ou aos seus agentes as alterações de ânimo, desavenças e atitudes antisociais que envolvessem tanto outros companheiros de trabalho ou, no caso, os serviçais urtianos.

Quando deixavam a URT com destino à Zona C, os serviçais eram submetidos a um rápido exame de saúde. Para a grande maioria, aquela consulta era o único tipo de atenção médica que recebiam na vida. Mas não imaginemos que o médico tinha por objetivo a detecção e o conseqüente tratamento de enfermidades. Não! Sua função era constatar se as vacinas recebidas pelo urtiano contra doenças contagiosas através do contato social haviam sido aplicadas e verificar possíveis sinais de doenças contagiosas em curso. Em caso positivo, simplesmente o urtiano era impedido de prestar serviços e, ou era enxotado para a favela em que vivia, ou, ainda, enviado para “campos de reabilitação”, os quais, na verdade, nunca foram devidamente bem explicados, mas dos quais jamais se soubera que alguém retornara.

Uma vez liberadas pelo serviço médico, as pessoas eram, então, submetidas a uma forte ducha desinfetante, depois da qual, pulverizadas com inseticidas e outras substâncias mais modernas, de forma que seus patrões estivessem protegidos do contágio das mais assombrosas doenças que, muitas vezes, poderiam estar encubadas num determinado urtiano. E, que, por sua vez, essas enfermidades não se propagassem aos estamentos superiores da sociedade.

De toda forma, ao chegar a seu local de trabalho, depois de rigorosa revista, os serviçais deixavam em um vestiário comum as roupas pessoais e recebiam um uniforme azul, um macacão com a letra D na cor escarlate bordada na altura do coração.

À saída, nova revista era realizada, ainda mais rigorosa, pois já eram conhecidos relatos de centenas de tentativas de roubo, que mesmo as áreas mais íntimas das mulheres haviam servido de receptáculo. Recuperavam, então, suas roupas e deixavam os macacões para os próximos que chegassem para o trabalho.

  • Os Administradores e os filhos dos operários “sem família”

Domingos lembrava-se de um passado nem tão distante quando os trabalhadores tinham medo de sua própria segurança e de seus familiares, seus parcos bens, vítimas de constantes assaltantes, ladrões, a tutela brutal sempre presente das milícias paramilitares, sócias maiores do crime organizado.

No entanto, desde o início da Nova Ordem Social, com o estabelecimento das URTs, as ondas de roubo, assalto e assassinato haviam se tornado coisas do passado. As milícias haviam sido extintas e muitos de seus membros reabsorvidos pelos Copas.

Em contrapartida, outro tipo de violência prosperara: a do próprio Estado contra os trabalhadores. Ele sabia que essa violência, que muitas vezes no passado era de certa maneira dissimulada, transformara-se em aberta, e era muito mais dura e descarada. Os poderosos, donos do poder político-militar haviam construído uma sociedade absolutamente excludente; o Estado e o país com todos os seus recurso e riquezas, fora por eles transformado em feudo próprio, sem contemplação alguma nem qualquer concessão aos direitos dos homens, consagrados há mais de dois séculos. Valiam tão somente o poder, o dinheiro e a força bruta.

Por isso mesmo a privacidade das pessoas assemelhava-se a esses sonhos nos quais se entra para se despencar num pesadelo. Ela começara por ser cerceada, coibida, até que desaparecera de todo.  Em cada esquina do bloco havia uma câmera, em cada canto oculto, um microfone, quando não um alcaguete barato, pois em cada vizinhança, em cada posto de trabalho, a Nova Ordem mantinha informantes.

Até mesmo assuntos corriqueiros do dia a dia dos trabalhadores passaram a ser evitados de serem comentados abertamente entre amigos ou parentes, sempre que a pessoa desejasse permanecer com seus direitos, sua família e seu emprego. Pois nada passava despercebido da entidade denominada “o Administrador”. Acontece que, cada bloco possuía seu Administrador, embora fosse certo que ninguém sabia quem ele realmente fosse, pois jamais nenhum deles fora visto. Mas sua presença se fazia sentir sempre, e como! A qualquer momento, um trabalhador poderia se ver cercado pelos Copas e conduzido para algum Centro de Interrogatório e Detenção, mediante simples denúncia por atos considerados lesivos às regras da convivência social. E essa providência sempre partia daquela odiada, presente e temida figura do Administrador e de seus asseclas, ou melhor, assessores.

Desde que um trabalhador fosse internado em um CID, todo o seu futuro tornava-se incerto. Poderia retornar em horas, dias, ou simplesmente a família era comunicada que o companheiro Fulano de Tal fora enviado para uma URT, para ser reeducado. Como eram poucos os casos de um rápido retorno ao lar, a família passava a ser assistida durante determinado período pelo seguro social, o que era uma maneira de mantê-la sob controle e evitar que a solidariedade voltasse a se espraiar entre as pessoas; ao mesmo tempo, notícias e boatos eram expressamente proibidos de serem espalhados, porque poderiam disseminar algum tipo de revolta ou de pânico. Ou seja, nesses casos, além de sofrer a perda de um familiar, as pessoas eram obrigadas a permanecerem caladas, amargurando a perda em silêncio e sem apelação.

Era comum, dias após a detenção de um dos seus, que a família recebesse aviso para mudança para outro bloco de tal modo que o trabalhador “sob reeducação” não tivesse a tentação de procurar alguma maneira de fugir da detenção e correr para o aconchego familiar, pois ele dificilmente a encontraria.

Não era incomum que quando um trabalhador fosse enviado para uma URT e a esposa tivesse dificuldade para assumir o seu lugar e perdesse a capacidade da manutenção financeira da família, que os filhos do casal simplesmente passassem para a assistência do Estado. Inicialmente essa assistência ocorria por um período de um a dois anos. Caso a criança demonstrasse adequação para tarefas comunitárias ela era, então, desligada em definitivo do ambiente familiar. Estas crianças e adolescentes ganhavam outra identidade, e passavam a ser alojados em um local especial, na Zona dos chamados Blocos Intermediários, que se localizava geograficamente em um ponto estratégico em que as Linhas que dividiam as Zonas D e C se bifurcavam.

Os jovens filhos de operários “sem família”, uma vez internados nos Blocos Intermediários, eram educados dentro da mais estrita disciplina, no espírito da política da Nova Ordem. Em alojamentos de alta segurança, o Estado mantinha um controle diuturno de todas as atividades e, até mesmo de cada pensamento dos internos. Eles recebiam condicionamento físico e a preparação cívica necessária para exercerem, quando adultos, funções sociais administrativas ou de segurança pública, no caso de serem julgados aptos para a função de Agentes Comunitários da Paz.

Nesse último caso, o rigor sobre o condicionamento físico e espiritual era ainda maior. Desde cedo aprendiam que a tortura física e psicológica, que a eliminação de seres inferiores era uma ordem natural das coisas. Que eles seriam, no futuro, o esteio da sociedade, portanto deveriam estar sempre prontos para defendê-la dos inimigos internos e dos indesejados. Ao alunos mais destacados recebiam até mesmo ordem para matar friamente os companheiros de turma indisciplinados, de tal forma que o único elo, a ligação exclusiva que cada um possuía era com quem o comandasse. Nenhuma ordem era passível de discussão ou mesmo de questionamento interior. Deveria ser cumprida, qualquer que fosse e em cumprimento de uma ordem, jamais poderiam ser incriminados ou punidos. O termo “excesso” havia sido suprimido para sempre do vocabulário e substituído pelo “realizado em serviço sob ordem direta”.

Normalmente, a cada turma de cem jovens destinados a serem Copas, apenas a metade terminava a preparação. Muitos morriam por esgotamento, pelas torturas recebidas ou mesmo assassinados por ordens superiores executadas pelos colegas, mas aqueles que se formavam haviam aprendido a banalizar e a praticar, dentro de seus corações, toda a maldade possível, a excluírem deles todo resquício de solidariedade ou, mesmo, de auxílio mútuo.

Ao restante dos jovens adotados pelo Estado, quando não transformados em Copas, restava a alternativa de integração às tarefas administrativas, ou mesmo, de retornarem aos Blocos C como assessores do Administrador.

  • A Inter- Zona e áreas especiais

Ao lado dos Blocos Intermediários, localizavam-se aqueles assim chamados “Blocos da Segurança”, locais onde residiam os Copas com suas famílias. Certas alas eram alocados aqueles que pertenciam às tropas de choque e elementos de elite subordinados ao Comando das Operações de Ordem Interna, o cerne da segurança do Estado.

Os Centros de Investigação e Detenção, os CIDs também estavam localizados na proximidade desses conjuntos residenciais, na assim denominada Inter-Zona. Havia, dentre eles um especial, aquele destinado aos assim denominados inimigos do Estado, sob controle do Comando da Ordem Interna.

Finalmente, existia ainda um grande prédio que, mesmo estando inserido nessa região de segurança era absolutamente interditado até mesmo aos Copas e a seus chefes. Era considerado como de segurança máxima e seu acesso era absolutamente restrito a determinados cientistas, pesquisadores e agentes da Segurança do Estado. Denominava-se o “Bloco da Geração do Futuro”.

 

Com o tempo, áreas especiais voltadas para o turismo haviam sido criadas, sempre nas proximidades da área de segurança. Depois que os sangrentos distúrbios sociais dos anos dez e vinte quase que haviam reduzido a zero o turismo, regiões especiais foram desenvolvidas, com ampla restauração do patrimônio histórico, numa tentativa de voltar a atraí-lo.

Aos trabalhadores somente era possível a permanência daqueles que lá trabalhassem, jamais em visitas ou passeios, enquanto que toda e qualquer presença de urtianos era expressamente proibida. Além de turistas estrangeiros, livre acesso a todos os antigos e belos locais artísticos e históricos era unicamente garantido às classes A e B. Numa dessas áreas estavam incluídos o Teatro Municipal, o edifício da antiga Assembléia Legislativa, a Biblioteca Nacional e alguns museus.

O novo estádio do Maracanã, herança preciosa de certa Copa do Mundo realizada no passado, era local dos grandes eventos desportivos, totalmente reservados às classes sociais mais elevadas e a seus convidados.

  • Os trabalhadores e a Zona B.

Nos poucos dias em que passava em terra, Domingos despertava cedo, por volta das cinco horas da manhã, preparava o café da família, acordava os filhos que iriam à escola e a esposa, a qual prestava serviços domésticos no outro lado da linha demarcatória. Após o café, encaminhadas as crianças, em seu pequeno carro ele deixava Sophia em um dos Portais de entrada da Área B, que praticamente coincidia com o princípio daquela que, no passado, havia sido a região do Flamengo, no princípio da antiga zona sul.

Ele gostava de apreciar, ao longe, as ruas cuidadas, limpas, o paisagismo apurado, a bela arquitetura de antigos prédios preservados da ação deletéria do tempo. Parecia que a poluição, que ardia os olhos, irritava a garganta e dificultava o respirar, fosse única ponte a conectar os dois universos em tudo diferentes, separados exclusivamente por uma cerca eletromagnética invisível, e pela presença de um Portal de passagem.

A Zona B era conhecida como o local dos Burgueses, e lá viviam, trabalhavam e se divertiam as ricas classes médias e altas, composta pelos administradores, gerentes e diretores das enormes plataformas marítimas e terrestres de extração do petróleo, das usinas de xisto, industriais locais e globais, representantes de importantes oligopólios financeiros; também aquela pequena parcela de ex- operários que haviam optado por seguir a carreira sindical, os inúmeros políticos e seus assessores, os comerciantes, os professores dos centros de Desenvolvimento da Tecnologia Social, novo nome de batismo das antigas faculdades e universidades, com seus mestres e pesquisadores; os médicos, os profissionais liberais e uma imensa e inesgotável burocracia estatal.

Assim como os serviços de faxina dos proletários eram executados pelos habitantes das URTs, na Área Social Burguesa, onde jamais um urtiano fora admitido, todos os serviços braçais eram executados, mediante permissão, pelos proletários do nível C, ou seja, pelos trabalhadores e seus parentes.

As relações de trabalho entre os trabalhadores e seus empregadores desfrutavam de determinados privilégios que eram terminantemente negados aos urtianos, dentre eles o emprego fixo, o descanso semanal remunerado, o direito a quinze dias de férias e demissão abonada.

Domingos a princípio achara estranho que o ônibus que o trazia e o conduzia ao cais de onde embarcava para a plataforma marítima, realizasse inúmeras paradas, nos mais diversos e distantes blocos para apanhar outros trabalhadores que, a final, atuavam todos no mesmo local. Um dia perguntara a seu chefe de turma por que não se fazia algo mais lógico e prático, colocando colegas de trabalho no mesmo local de residência. Esse lhe dissera como confidência, baixando a voz: “Não fale mais nisso! Os Administradores e os gerentes das plataformas não veem com bons olhos a aproximação entre aqueles que trabalham juntos.” Com o tempo ele entendeu perfeitamente que, impossibilitados de impedirem a convivência de colegas no ambiente de trabalho, tratavam de travá-la nos locais de residência. Por esse motivo, o único colega que tinha, residindo na mesma superquadra que ele, era Eduardo, um operário mais antigo, muito comunicativo e cordial para com todos, dono de inesgotável bom humor.

O Sistema se articulava no isolamento das pessoas, trabalhava em manter apagada toda e qualquer chama de companheirismo, de solidariedade e fraternidade entre os iguais e entre os diferentes. Em sua superestrutura, o individualismo era uma das bases essenciais sobre as quais ele se mantinha.

 

Sophia, a esposa de Domingos, era contratada para serviços domésticos no bairro do Jardim Botânico, na casa de um eminente pesquisador do mais importante centro tecnológico do Rio de Janeiro, uma residência luxuosa em que o casal residia com o filho. Mister Joseph Larss não era brasileiro, viera da Suécia contratado há muito tempo por uma empresa pública- privada de Biotecnologia. Por evitar comunicar-se com empregados e com aqueles que ele jocosamente denominava “aborígenes do Brasil”, mesmo após tantos anos, Larss arrastava um péssimo português. Sua mulher, Anna, também sueca, diferentemente do marido, se entrosara de forma natural em nossa sociedade. Assim que chegaram ao Brasil tiveram um filho, Emmanuel, que nos tempos que relatamos, teria por volta dos vinte anos de idade.

 

Hoje, Domingos sentia saudade daquilo que um dia fora a sua realidade. A solidão quando é forçada dói muito e até desata a personalidade. Como ele se sentia só! Tão só que lhe voltava à memória, desperto ou em sonhos, a plataforma marítima em que trabalhara, esquecendo-se do quanto, naquele mundo que já não lhe pertencia, também se sentira solitário, distante dos outros seres tais quais ele mesmo. Artifícios da memória que sempre tingem com um bom tom o que é passado, que terminou depois de vivido, e carregam nas cores a infelicidade do presente.

Os trabalhadores das plataformas marítimas realizavam turnos extenuantes de doze horas de trabalho por doze de repouso. O descanso ocorria nas tabernas das plataformas, nos pequenos cinemas e salas de televisão, e em um cubículo onde, em cada beliche, cada um se encaixava para dormir.

Todos os recantos dos locais de trabalho e repouso eram permanentemente monitorados. Muitos eram remunerados para se dedicarem a espionar, mantendo a cabeça erguida, os olhos e os ouvidos abertos e atentos. Já os verdadeiros trabalhadores, aqueles que batalhavam na extração de óleo e do gás da camada do pré-sal, na manutenção e nos múltiplos controles de uma operação complexa, esses mantinham nos seus afazeres a cabeça baixa, cansados e sempre preocupados com possíveis falhas que os Administradores, gerentes, e encarregados poderiam, por acaso, perceber e castigar; seguiam rigorosamente as normas de segurança estipuladas, calados, cada um em seu canto, evitando a comunicação com o próximo, exceto por questões inerentes ao labor de cada qual.

De tempos em tempos, entretanto, uma doce voz feminina lembrava-os através dos visores existentes nos quatro extremos da imensa plataforma, a respeito da enorme importância do trabalho de cada companheiro petroleiro para o bem do Brasil. E complementava: “graças ao trabalho realizado pelos trabalhadores em cada plataforma marítima, em cada estação de tratamento do xisto betuminoso, em cada fazenda produtora de soja, e nos imensos pastos dos rebanhos nacionais, os maiores do mundo, o Brasil é hoje a quarta potência mundial! E essa riqueza, no futuro, será sua e de seus filhos, será repartida entre todos. Precisamos do progresso, com a benção de Deus  e seguir crescendo, aumentando o bolo da abundância para reparti-lo melhor!”

Outras vezes, a mesma odiada voz, interrompia-lhes o horário de descanso para recordar a meta de tantos barris de óleo e gás a serem alcançados, para que a Plataforma P 66- 6, também conhecida como “Pra Frente Brasil”, assumisse a liderança mundial das plataformas de exploração! “E isso deverá ocorrer ainda nesse mês!” Chamavam esses intervalos arrancados do lazer de mensagens de emulação cidadã e, como tal, eram transmitidas em todos os recantos de trabalho coletivo.

Domingos há muito não acreditava na propaganda da Nova Ordem e o próprio som da voz melosa dava-lhe ímpetos de estrangular a portadora. Pensava mesmo que só não o fazia porque ela estava no éter. Seria de se estranhar que jamais Domingos houvesse sido premiado com uma única medalha, nunca obtivera qualquer menção honrosa, que dizer aumento algum de salário, em mais de dez anos de profissão?

Mas existe uma verdade que precisa ser dita: muitos companheiros, mesmo nas horas de lazer, aplaudiam as mensagens transmitidas. À boca pequena comentava-se que eles seriam fortes candidatos à carreira sindical; os operários mais intransigentes falavam pelos cantos que deveriam marcar cada um dos que aplaudissem, “porque o puxa-saquismo é o pai dos alcaguetes”. Domingos devotava nojo aos puxa-sacos e permanecia apenas na proximidade daqueles companheiros de trabalho que, mesmo sem explicitarem abertamente suas ideias com ele comungavam.

Um dia muito próximo aos eventos que abaixo narraremos, quando Domingos foi ao cinema da plataforma, ao seu lado sentou-se Carlos, um baiano forte, mistura de negro com imigrante italiano, muito respeitado dentre os companheiros. Disse-lhe apenas: Companheiro, nós precisamos conversar. Seguir sendo escravos só depende de nós mesmos. Não se preocupe que nós o contataremos. Passado de mão para mão, um papel dobrado. Nada mais falou. Levantou-se e buscou outro lugar na pequena sala.

  • O filho da dor

Mas a vida de dura labuta também recheada de momentos alegres e de descontração. Para Domingos, um destes ocorria quando descia ao barco que rapidamente o transportava ao cais e ele iniciava o retorno à casa para a família que amava, a qual revia apenas a cada quinze dias. Eram sempre quatro dias de folga até que o mesmo e velho ônibus passasse a recolhê-lo e ao seu companheiro o senhor Eduardo, levando-os ao ancoradouro do porto de partida.

Mas agora, que isso era um passado cada dia mais distante, Domingos Passos massageava o local da perna em que a tornozeleira lhe produzia escaras. Sentia no peito a profunda dor de não poder rever os filhos, enorme saudades de Sophia. Apenas o ódio, um ódio gerado pela injustiça, pela mentira, pela violência de que fora vítima, mas também pelo total desnudamento de todo o cinismo em que se baseava a Nova Ordem, ainda o mantinha vivo, ódio que somente a morte ou a ação poderiam aliviar.

Ocorrera num final de noite, quando do retorno do trabalho. Estava contente e, coisa rara, assoviava antiga modinha carnavalesca que ouvia sempre seu pai cantar, algo como “a sua cor não nega, mulata, porque é mulata na cor, mas como a cor não pega mulata, mulata eu quero teu amor”. Modinha um pouco preconceituosa, mas que lhe importava se ele mesmo era negro; na sua consciência ela provinha de um tempo em que a inocência assassinada, ainda teimava em sobreviver, num mundo de outro sabor.

Ao abrir a porta do apartamento familiar que era localizado no térreo, ouviu um ruído às suas costas. Voltou sobre seus passos e, justamente no vão da escada que subia, deparou-se com uma faxineira, uma urtiana que gemia agachada de dor, buscando esconder-se das implacáveis câmaras das proximidades. Não conseguia ver-lhe as feições muito bem, mas o lusco-fusco permitia que visse em sua pele o contraste da letra D escarlate que trazia pregada ao peito. Era uma mulata clara, muito jovem e Domingos surpreendeu-se com os ritos de dor que percebia naquela face que o olhava fixamente, com os olhos arregalados, afogueados de medo.

Um sinal de alerta tocou em sua cabeça. Os trabalhadores tinham ordens expressas do Administrador para acionar a segurança para qualquer evento fora das regras do condomínio. Era ilegal a presença de uma “dopada” durante o horário noturno em qualquer bloco proletário! Mas Domingos não o fez. Poderia até mesmo ignorá-la, entrar em seu apartamento, mas uma força interna qualquer o impedia de voltar as costas para a criatura que implorava ajuda. Ela estava dando à luz. Domingos compadeceu-se.

Agachou-se ao seu lado e amparou a criança cuja cabecinha avançava pela pélvis. Com um canivete que trazia no bolso cortou o cordão umbilical e amarrou-o. A parturiente cessou de gemer assim que a criança abandonou seu ventre e com os olhos banhados em lágrimas implorou que ele não deixasse que a levassem de volta para a URT junto com o filho. Lá todas as crianças morrem cedo! Tenha compaixão! Não tenho doenças, foi a primeira vez, fui obrigada, tenho só dezesseis anos. Fique com meu filho, pelo amor de Deus! E eu o verei sempre quando vier trabalhar aqui, se o senhor deixar.

Domingos sentiu que seu peito se abria solidário para um poço sem fundo, repleto de dor e de sofrer, que é o sofrer daquele que caminha lentamente para a morte, arrastando atrás de si o rebento recém parido. Não conseguiu raciocinar, não pensou em si, nem no que fazer, mas tomou uma resolução, uma resolução que mudaria para sempre todo o seu mundo, toda a vida de sua família, assim como o de milhares de outros seres.

Dê-me seu filho. Tirou a própria blusa do trabalho e envolveu a criança. Você caia fora daqui, prometa-me que não contará nada a ninguém. Você nunca me viu, lembre-se, nunca me viu!

Deixando-a na escada a se limpar com alguns trapos, entrou no apartamento. Sophia não estava, pois o avisara que talvez tivesse que pernoitar no emprego. Melhor, uma vez feita a coisa, era até bom mesmo que ela não estivesse. Se ocorresse algum problema ele o enfrentaria só. Encontrou os filhos dormindo e beijou-os. Nos braços, tinha um pequeno ser que parecia lhe sorrir e dizer “que assim seja”! Vou dar um jeito de adotá-lo, como se fosse filho de outro trabalhador. Afinal, quantos companheiros não possuem um filho adotado de outros trabalhadores? Sophia me ama, ama às crianças, ela irá me apoiar. E quem sustenta dois pode sustentar três.

Colocou o recém- nascido em seu próprio leito, improvisou uma mamadeira com leite que tirou da geladeira e esquentou, tentando alimentá-lo. Por curiosidade olhou seu sexo, era menino. Decidiu-se por um nome: eu o batizo “Benjamin”.

Tinha agora uma necessidade enorme de falar com Sophia, mas receava a escuta telefônica. Aguardou que ela ligasse. Quando o fez, confirmou-lhe que deveria pernoitar no emprego, Domingos apenas disse que estava cansado, com muitas saudades, mas que tinha uma novidade importante para contar e que torcia para que ela o apoiasse. Adormeceu com a criança nos braços. Não acordou quando os filhos despertaram e foram à escola. Seguiu dormindo, até que soou a campainha. E como soou! Deixou o bebê aconchegado na cama e, sonolento abriu a porta.

O primeiro Copa a entrar em sua casa o agrediu com um soco no estômago. Cadê o pirralho que você teve com a dependente, seu filho da puta! Quem mandou você foder com essa gente? Agora quem vai se foder é você! Enquanto isto, um segundo Agente da Paz invadira o apartamento e recolhera o pequeno que despertava e começava a chorar. Pára de mugir, desgraçado, berrou antes de tapar-lhe a boca com a mão enluvada, quase sufocando o pequeno Benjamin.

No pátio, um carro de patrulha aguardava por Domingos e pelo recém-nascido. Ao entrar, deparou-se com a pobre menina à qual ajudara a dar à luz. Ela chorava e, cabeça baixa, sem conseguir olhá-lo no rosto, pediu-lhe perdão. Domingos percebeu que o sangue escorria de suas gengivas feridas, os dentes despedaçados. O chefe da equipe dos agentes deu ordem para que o bebê fosse entregue à mãe e ambos foram conduzidos até o Portal D e, mãe e filho lá despejados. Ouviu-se do carro a ordem do chefe dos Copas transmitida aos agentes do Portal. Tranquem essa puta e o rebento. Ela não sai mais para trabalhar.

Domingos foi, então, levado para o Centro de Interrogatório e Detenção, o CID. Lá chegando, ordenaram-lhe que tirasse toda a roupa e entregasse todos os pertences pessoais. Colocaram-no em uma cela fria, muito fria, onde a luz nunca era desligada. De tempos em tempos uma música eletrônica era conectada e se ele não tampasse os ouvidos seus tímpanos explodiriam. O petroleiro perdeu, gradualmente, toda a noção do tempo decorrido naquela pocilga, onde urina e merda de outros presos que por lá haviam passado, misturavam-se às suas. Aos poucos, a preocupação que tinha pelos filhos e por Sophia, sentiu que se esvaziava. Ele estava só, era só, ele mais o frio, a merda e a urina que impregnavam seu corpo. Tinha sede, apenas sede, uma enorme sede. Sentia-se enlouquecer um pouco a cada batida do coração.

A que momento a porta pela qual entrara fora aberta? Não o saberia. Dois Copas, munidos de máscaras, agarram-no pelos braços e o conduziram até um beco onde ordenaram que se sentasse. Nesse beco havia uma tela de televisão que logo se acendeu. Um homem de paletó e gravata identificou-se como a Autoridade. Fora comunicado que o companheiro cometera um delito muito grave. Mesmo sendo casado, tivera relações com uma urtiana de dezesseis anos e tentara ocultar o fruto da relação ilícita. Talvez planejasse até mesmo ocultar o recém- nascido da própria esposa. Ou ela teria sido sua cúmplice? Por diversas vezes o prisioneiro tentara interromper o locutor, mas a mão pesada de um Copa o impedira. Que esperasse a vez de falar, porra!

Afinal deram-lhe a autorização. Domingos declarou-se um homem feliz em seu casamento, um operário sem máculas no currículo. Não conhecia a moça que estava dando à luz no beco da escada. Apenas pegara a criança por caridade. Mentira rugiu o homem da gravata! Você não tem máculas no trabalho, mas também nenhuma menção honrosa, nenhuma medalha de mérito! Um trabalhador banal é o que você é. E se continuar a mentir vai voltar para a cela! A dependente confessou que você é o pai da criança. Portanto, você praticou não um, mas vários crimes graves!

Não fiz nada disso. Vocês a torturaram, eu vi como sangrava a boca da pobre menina com os dentes quebrados. Por que não fazem um teste genético? Eu só quis ser cristão!

O outro lado da tela esmurrou a mesa. Cala a boca, criminoso ateu de merda e escuta. Caridade se você quisesse praticar, que o fosse com os de sua família! Os dependentes não são gente, eles são simplesmente um lixo social! Falarei mais uma vez: um trabalhador não pode ser solidário com mais ninguém que não seja a própria família e com o Sistema! E o Estado não tem tempo e nem dinheiro para ficar fazendo testes genéticos para esses casos idiotas! Casos de merda! Pura tara! E você não viu tortura nenhuma! Aqui não se tortura e quem fala mentiras o faz com objetivos subversivos. Por um acaso você quer ser tratado como um comunista?

Após um pequeno silêncio, o engravatado um pouco mais calmo prosseguiu, reconheço que a mulata era gostosa e que, afinal, a carne é fraca. Você foi fraco! Mas agora está sendo acusado pelos seguintes crimes: primeiro, sedução de menor; segundo, manter relações com uma pessoa residente em uma URT; terceiro, a ocultação do parto; quarto, a tentativa de apossar-se do filho bastardo, possível portador de enfermidades que poderiam contaminar seus próprios filhos e os de outros trabalhadores. As suas culpas são gravíssimas!

Vou lhe dar duas escolhas: assina essas cartas reconhecendo seus crimes e os atos pusilânimes contra a ordem constituída, reafirme o seu arrependimento e o desejo de regenerar-se na URT para onde a Autoridade o designar. As cartas em três cópias serão entregues uma ao Juiz que irá se encarregar de seu caso, outra à sua família e a última à segurança social, que irá amparar os seus enquanto você estiver ausente, sendo reeducado para o trabalho. É claro que sempre, a qualquer momento, o Juiz poderá absolvê-lo, ou julgar que a sua reeducação terminou e você poderá retornar à companhia de sua família. Lembre-se que “Só o Trabalho Liberta”! E, olhando para o Copa mais próximo urrou-lhe: dê-lhe as cartas!

Qual a minha segunda escolha, perguntou-lhe Domingos. Voltar para a solitária e lá vai ficar até morrer ou enlouquecer. Faça a sua escolha. Nesse momento, desligou-se a tela.

Domingos pegou os papéis em que, definitivamente se incriminava e vacilou. Saberia Sophia que ele jamais a traíra, que ele seria incapaz de seduzir uma adolescente? Poderia, quem sabe, um dia contar-lhe toda a história? Domingos tinha certeza de que Sophia acabaria por encontrar a verdade, mas poderia perdoá-lo por haver posto em jogo a vida de toda a família? Olhou para o Copa e disse-lhe: não tenho motivo para ter esperança, não é?

Assina esta merda logo, porque você vai acabar assinando de qualquer maneira, só vai sofrer mais, e se morrer nós falsificamos o papel, seu idiota, respondeu-lhe o Copa! Ele assinou.

Incapaz de caminhar pelas próprias pernas, levantaram-no pelos dois braços e o conduziram para a ducha. Depois disso recebeu suas roupas, os poucos pertences que trouxera consigo, um relógio barato que, afinal, para que lhe serviria para o lugar para onde o mandariam? E, enfim, enfiaram-lhe a tornozeleira na perna esquerda. Na manhã em que a névoa se confundia com a poluição, uma viatura o conduziu até o Portal da URT-1.

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