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“2039: Ficção ou Profecia?”

II. Sophia

Desde há algum tempo, o transporte aéreo havia parcialmente substituído os carros particulares na alta sociedade. Os patrões de Sophia haviam ido a uma ópera no Teatro Municipal e depois jantado fora. O helicóptero da família viera trazê-los muito tarde da noite. Por isso, ela permaneceria no serviço até o dia seguinte.

Logo pela manhã, a caminho de casa tentara falar ao celular com o marido, mas ele não a atendera. Estranhou. Ao chegar, deparou com a porta fechada, mas o ferrolho não estava corrido. Teria Domingos saído, ele sempre tão caseiro e cansado quando retornava do trabalho? Estranho, não escutar nenhum som ao redor. Tudo era silêncio, os vizinhos cada qual fechado em sua própria casa. Os filhos, Samuel, um menino forte de dez anos e Yara, que completara sete, ainda estavam na escola, mas ela sentia que alguma coisa deveria estar errada. Foi até o quarto, nenhum bilhete, nada! A cama desarrumada estava com uma pequena mancha, ainda úmida, ao encostar o nariz percebeu certo cheirinho de xixi, xixi de bebê, que ela já os tivera. Começou a procurar algo diferente no apartamento. Na sala encontrou, caído a um canto, o celular do marido, com a ligação perdida que lhe fizera. Começou a preocupar-se. Sentou-se e esperou as crianças saírem da escolinha, que já era tempo.

Elas haviam saído cedo sem esperar que o pai acordasse. Mas vocês não viram nada estranho essa manhã? Samuel contou-lhe que tinham preparado os lanches e descido para o pátio da escola. Nada de estranho, mamãe, disse-lhe Samuel e parou... uma sombra fugaz passou-lhe pelos olhos. Mãe parece que eu ouvi um choro, choro de nenê muito fraquinho... Sophia ia sorrir quando se lembrou da pequena marca no lençol. Arrepiou-se dos pés à cabeça. Como foi isso, Samuel? Sei não, eu devo ter sonhado. Tudo soava muito estranho para Sophia, parecia até que também ela, ao fim, estava no tal sonho do filho. Crianças, vocês vão brincar no quarto de vocês, eu vou sair. Passem o ferrolho na porta e não abram para ninguém que não sejam eu e ou o papai.

Sophia era uma mulher forte, no auge de seus trinta anos. Não era muito bonita, mas sentia-se dela o desprender da energia, num exalar de força. A relação que tinha com o marido sempre fora sólida. É verdade que Domingos não externava muito seu carinho, mas ela o amava e sabia ser correspondida. Tanto um quanto outro costumava consultar-se sobre o que pensavam fazer e entre ambos havia aquela enorme cumplicidade que somente a certeza da verdade e da lealdade produz. Em vista disso, o sumiço do marido sem nenhum aviso prévio, a deixava ainda mais preocupada. Precisava saber o que se passara, onde se metera ou onde fora metido seu Domingos.

Primeiramente percorreu todo o andar do prédio, perguntando de porta em porta se alguém sabia algo do mesmo. Poucas portas se abriam e dessas as poucas bocas lhe disseram nada saber. Um nada saber que o medo inspirava. Sophia percebeu-o. As pessoas sabiam algo que não podiam ou não queriam revelar.

Foi então à Administração. Não tinha ilusão alguma conseguir entrevistar-se com o Administrador, o que ninguém, pelo que soubesse, jamais o lograra, mas falaria com algum de seus odiosos assessores. Quem a recebeu só a conhecia de vista. O que a companheira deseja? Quero saber o que aconteceu com meu marido. Mas o que poderia haver acontecido, perguntou-lhe o desentendido?

Todos conheciam o funcionamento da estrutura. Sua imagem, sua conversa, tudo estava sendo devidamente gravado e, em algum lugar, assistido. Eu é que não sei. Saí para trabalhar, retornei hoje pela manhã e Domingos, com quem falei à noite por telefone e que me esperava em casa, não estava. A porta sem o ferrolho passado e ele nunca faria isso se saísse. O funcionário pediu-lhe que aguardasse e entrou por uma porta que se abria ao comando de algum um controle interno. Sophia esperou por seu retorno, mais de uma hora. Não foi, entretanto, o mesmo rapaz a retornar. Companheira, eu estou a par dos problemas que me foram transmitidos pelo outro assessor, mas sinto informá-la que não temos nada a dizer-lhe. Nada de anormal aconteceu. Seu marido deve ter ido dar uma volta. Já tentou chamá-lo ao celular?

O celular de meu marido estava jogado no chão de casa. Vocês têm tudo gravado, nada ocorre fora do controle de vocês. Calma companheira, por favor, não se exalte, isso poderia ser terrível se, por um acaso, um azar da vida, algo de mais sério houvesse acontecido com o seu marido! A senhora possui dois filhos para cuidar! Filho de uma puta, Sophia sacou que Domingos havia sido preso ou algo pior, o tom de voz do canalha encobria a ameaça e a chantagem. Sorrindo-lhe com sarcasmo perguntou quanto tempo o companheiro acha que devo aguardar antes de acionar o Administrador, o sindicato, Deus, o Diabo ou quem quer que seja?

Seja razoável companheira Sophia. Não blasfeme. Nós estaremos sempre a seu serviço. Não precisa procurar mais ninguém. Volte para sua casa, acalme seus filhos, não comente esse assunto com outros, entendeu? Isso é fundamental para que tudo entre nos eixos e que tenhamos um final feliz, que é o que todos desejamos nesse caso. Boca fechada é muito importante, mantenha sua rotina, o emprego, crianças na escola, que, em nome do Administrador, posso lhe assegurar que no máximo em dois ou três dias a senhora terá notícias do Sr. Domingos. Muito bem, fique tranquila companheira, disse dispensando-a e também desaparecendo pela porta que se fechou para não mais abrir.

Ao sair da administração, Sophia teve a sensação do desamparo, da inutilidade de seguir buscando pelo marido, pois agora adquirira a certeza de que ele estaria realmente preso. Só não conseguia ainda imaginar o porquê.

Ouvira por alto comentários sobre casos semelhantes em que o marido ou a mulher havia simplesmente desaparecido por algum tempo em mãos dos Copas e, depois, retornado ao lar. Em outros casos, naquele dos considerados inimigos do Estado, esses não. Eles jamais retornavam, simplesmente desapareciam e nem mesmo o corpo era entregue à família. Não era o caso do Domingos, ele não praticara vandalismo, nem era agitador, pelo menos que ela soubesse. É verdade que tinha opiniões fortes, tinha nojo da Nova Ordem, mas ela tinha lá suas dúvidas de que ele fosse um real contestador do Sistema. Homem honesto como todo trabalhador. Não, nem em sonhos poderia ter sido preso como inimigo do Estado. Ela, com seu sangue espanhol, era muito mais propícia a incendiar-se e colocar fogo no mundo que o comedido do Domingos.

Juntou-se aos filhos. Tinha medo que qualquer palavra que lhes dissesse pudesse por um acaso, descuido ou brincadeira de criança, complicar mais ainda a vida do marido e de todos eles. Falou-lhes que o pai tivera que voltar ao trabalho, pois tinha havido um problema qualquer na plataforma. Samuel ouvia-a, mas a expressão de sofrimento e aflição contidos da mãe não o convenceu. Mamãe, você tem certeza de que está tudo bem com o papai, não é? Sem dúvida meu filho. Façam suas lições de casa que dentro de alguns dias ele volta.

Aproveitou o sono das crianças para esquadrinhar cada canto de sua casa buscando por algum microfone ou câmara plantados. Quando chegou à conclusão de que a casa estava “limpa” sentiu-se mais tranqüila, principalmente pelo marido. Se o crime fosse grave, pois já pensava em crime, a casa estaria, seguramente, grampeada.

Poderia ela fazer alguma coisa? Teria a quem apelar, aconselhar-se? Na zona C a que pertencia, tudo era diferente da B, onde trabalhava, ou assim lhe parecia ser. Entre os Burgueses não circulavam Copas. Somente existia a Polícia nos seus velhos moldes. Quem necessitasse poderia contratar um advogado. Existiam juízes visíveis, cortes de apelação e quando alguém era preso, era certo que apareceria em alguma delegacia, em algum centro de detenção e poderia receber a visita dos parentes, amigos, defensores. A exceção, comentada apenas de boca em boca, era em relação aos inimigos Estado, indivíduos excepcionais, que mesmo na classe B, vez por outra surgiam. Destes se encarregavam os do Centro de Operações da Ordem Interna e, então, não havia apelação, nem tribunal, nem advogados. Tal e qual na Zona C, os subversivos simplesmente evaporavam.

Foi então que pensou em pedir conselho à sua patroa; trabalhava para ela há mais de quatro anos e era tão bem tratada, os seus modos eram finos, educados, já até a tinha como confidente. Talvez pudesse até mesmo ajudá-la. Faria isso no dia seguinte. O que se comentasse na Zona dos Burgueses, não deveria chegar aos ouvidos do Administrador e ela acreditava não correr o risco de complicar-se.

E dito e feito, a primeira pessoa com quem se abriu foi com Anna. Esta lhe sorriu e abraçando-a disse-lhe, você tem certeza de que já é tempo de estar tão preocupada? Seu marido perdeu o celular, sei eu, às vezes o Larss dá alguma escapadela, eu fico sem saber, ele esquece o celular, sabe como é, muito tempo de casamento, a gente busca algum relax, não é? Sophia se deu conta dos diferentes mundos em que viviam. Mas Anna não estava lhe dando as costas, realmente pensava assim, pois ela e o marido agiam desse modo entre si.

Percebeu que uma lágrima escorria dos olhos da empregada. Sophia, não fique assim, eu só quis acalmá-la. Então a trabalhadora contou-lhe sobre a conversa com os assessores do Administrador, ocultando-lhe, todavia a mancha no lençol e o “sonho” de seu filho, afinal o que poderiam indicar aqueles indícios malucos? Falou-lhe de suas preocupações pelo o que ouvira de comentários. Anna tomou-lhe as mãos e disse-lhe: falam tantas coisas, correm tantos boatos que a gente não deve dar ouvido. Mas diga-me com sinceridade, o seu marido tem ideias subversivas, poderia ter cometido atos que o levassem à prisão como um inimigo do Estado? Falam muito de uma organização entre os trabalhadores... Não, apressou-se a dizer-lhe Sophia, de modo algum. Domingos é pacífico e bom trabalhador.

Anna parou, pensou e sorriu. Nesse caso, eu sei como posso tentar ajudá-la. Conheci em uma festa um homem extraordinário, um verdadeiro líder operário. Ele foi, no passado, petroleiro em uma dessas plataformas, mas realizou cursos, trabalhou influências e hoje é um dos chefes. Rolou até certo clima entre nós... Ele reside em Botafogo, não distante daqui. Hoje mesmo vou lhe fazer uma visitinha, pedir-lhe que se informe e, quem sabe, aproveitar o tempo. Depois disso, concluiu com um sorriso malicioso, tenho certeza de que ele terá como obter notícias sobre o seu marido, ou eu não o perdoarei.

Primeira esperança. Tão frágil quanto um galho de árvore que na enchente alguém se agarra. Mas ela necessitava de qualquer amparo, onde grudar-se. Sophia voltou um pouco mais cedo para a casa, bondade de dona Anna. Preparou a comida das crianças e não retornou ao seu quarto, que sem Domingos perdera o sentido. Deitou-se ao lado dos filhos, queria apertá-los contra si. Protegê-los, impedir que qualquer outro mal os acometesse.

No dia seguinte, quando chegou ao trabalho, a patroa já a esperava desperta. Venha, tome um café comigo. Tenho notícias sobre Domingos, mas você tem que me prometer manter segredo absoluto porque o sindicalista poderia ser prejudicado se algum superior soubesse que me passou uma informação que é sigilosa. Domingos está preso num CID por acusação de atentado contra o pudor e contra o convívio social. Como assim, perguntou Sophia, quase sem acreditar no que ouvira.

O sindicalista me disse que nada ainda é definitivo, que a investigação está em andamento. Mas minha amiga, não entre em desespero. Não se trata de agitação operária, nem política. Está tudo bem, você verá que logo será comunicada dos fatos. Eu lhe digo, creia-me, poderia ser muito pior. Tenho uma ideia, vamos fazer o seguinte, Sophia. Você hoje não trabalha. Vou lhe emprestar umas roupas e você virá comigo ao Shopping Center Class A, é disso que você precisa: distrair-se, relaxar. Larss me disse que esse tipo de acusação acaba sempre por não dar em nada, talvez uns três meses de detenção e que o Domingos volta. E você tem suas crianças para cuidar. Vem, vou chamar minha cabeleireira e maquiadora para deixá-la linda e vamos sair. Não quero nada de cara triste!

Anna realmente demonstrava carinho por quem a servia, uma forma de solidariedade humana que Sophia, mesmo a contragosto, foi obrigada a aceitar e, no fundo, sentia-se grata com a vida pelos gestos da patroa. Foram a um dos shoppings mais exclusivos da Burguesia, não por ostentação da parte de Anna, mas por ser aquele o seu ambiente natural.

Um mundo novo, diferente de tudo o que já vira, descortinou-se aos olhos de Sophia. De repente ela se deu conta que todas as personagens que desfilavam pelos corredores livres de agentes poluidores, mostravam umas às outras tudo o que tinham. Pernas, peitos siliconados ou não, mas empinados e pouco cobertos por sedas naturais tão em moda, bundas definidas por malhação ou por implantes artificiais, pernas bem torneadas, maquiagem rodeada por colares e brincos de pedras preciosas ou rosto ao estilo “descolado”, sapatos, bolsas, carteiras da última moda. Todos estavam ali justamente para exibirem-se perante os outros, exatamente na hora de comprar, de gastar.

Anna cumprimentou ao longe alguns conhecidos. Não poderia dar-se ao risco de apresentar Sophia, uma proletária, por melhor vestida que estivesse, mas cujas mãos calejadas não poderiam ser estendidas para cumprimentos. Seria um escândalo! Entraram em uma confeitaria, pediram chá com algumas iguarias. Para a sorte de Sophia o passeio foi rápido, não tomou mais que duas horas.

Quando retornou ao seu bloco residencial havia um aviso para que se apresentasse à Administração. Sentiu suas pernas tremerem, o coração disparar. Com as mãos úmidas, foi primeiro até o apartamento, beijou os filhos e desceu. Quando chegou ao local já havia se controlado e seu rosto esculpido em pedra aguardava o que tinham a lhe dizer.

Foi convidada a atravessar a mesma porta através da qual entravam e saiam os assessores. Sentou-se frente a um visor que dominava todo o ambiente. Em instantes, uma mulher bem arrumada e perfeitamente maquiada, olhos que as lentes artificiais tornavam azuis, aproximadamente de sua idade, do outro lado da tela a cumprimentava. Companheira Sophia Passos, infelizmente temos uma comunicação muito, mas muito desagradável a fazer. De mulher para mulher, eu peço que seja firme. Aguardou por segundos alguma manifestação, mas a face de Sophia permaneceu imperturbável. Continuou. O seu marido, Domingos Passos cometeu graves crimes contra a comunidade. Sinto informar-lhe que seduziu uma menor, faxineira de 16 anos, uma urtiana, com ela teve um filho e tentou acolhê-lo em sua casa. Sabemos que a senhora nada sabe sobre o caso, não teve nenhuma participação nos atos. No entanto, a autoridade tem provas contra seu marido que são não somente contundentes como definitivas. Temos a confissão da seduzida, o bebê foi encontrado na posse do seu marido e, finalmente, seu próprio marido confessou os crimes pelos quais foi acusado pela Autoridade da Pátria. Agora, disse dando certo intervalo, a senhora pode dizer o que quiser, perguntar-nos, sinta-se livre para até chorar se sentir necessidade, nós sabemos como são essas coisas.

Sophia nem ao menos pestanejou. Tenho exclusivamente uma pergunta a fazer, onde e quando poderei ver o meu marido. Isso, infelizmente, não será possível por ora, respondeu-lhe a voz magnética. Quando existem provas consistentes e o próprio acusado confessa seus crimes, como é o presente caso, ele deve ser submetido a um regime de reeducação. Não tem o direito de retornar à sociedade, pois pode contaminá-la antes de um processo em que sua personalidade readquira os verdadeiros valores da civilidade e seja regenerado. Seus crimes irão agora à apreciação da Autoridade Judicial. A senhora, companheira, gostaria de ler o depoimento de seu marido? E dirigindo-se ao assessor, ordenou que lhe mostrasse a confissão assinada por Domingos.

Sophia não moveu um músculo e nem tocou nos papéis que lhe chegavam à mão. Não quer lê-los, Sra. Passos? Não preciso ler nada. Quando meu marido será liberado? Veja companheira, retornou a voz feminina, não existe um prazo certo. Um Juiz analisará o caso e a jurisprudência aponta que a libertação do réu dependerá exclusivamente dele mesmo, da “cura pelo trabalho”, de alterações na personalidade de seu Domingos, que aparentemente não é exatamente a pessoa que a senhora julgava ser.

Desculpe-me senhora, mas como mulher quem julga o meu marido sou eu e ninguém mais. A propósito, para onde ele foi levado, quando poderei visitá-lo? Já lhe disse companheira que, nesse momento, nada disso é possível. É necessário primeiro que ele adquira consciência dos erros que cometeu. Seu marido, infelizmente, poderia contaminar psicologicamente a senhora e os próprios filhos. A senhora possui mais alguma dúvida? Deseja enviar alguma mensagem ao Administrador? Ao balançar negativamente a cabeça, nem mesmo os olhos de Sophia piscaram. Pois bem, agora o Governo Republicano da Nova Ordem quer que a companheira saiba que terá todo o suporte da assistência social. O salário de seu marido continuará a ser pago à família por seis meses. Durante esse período, também a assistência social do Estado realizará visitas voltadas a acompanhar e fornecer suporte ao processo educacional de seus filhos.

Acontecerá alguma coisa com eles? Pela primeira vez a voz firme de Sophia titubeou. Não, se a educação voltada ao trabalho, se os valores da nossa civilização forem mantidos e se a senhora, após seis meses, demonstrar capacidade de trabalhar para mantê-los. Nesse caso, eles permanecerão sob sua guarda. Caso isso não ocorra, o Estado assumirá o papel de tutor e seus filhos irão para Unidades Especiais da Juventude. Alguma outra pergunta? Nenhuma. Passe bem, companheira. A tela fora desligada.

O assessor que estava ao lado estendeu-lhe outro papel que trazia dentro de uma pasta. Senhora Sophia, o Administrador comunica que, em razão do ocorrido e da redução, pelo menos provisória, de sua família, a senhora e seus filhos deverão deixar o apartamento em que vivem e passarão a habitar o segundo andar. Foi-lhes concedida permanência nessa mesma superquadra para que seus filhos não sofram com a perda das amizades já adquiridas com outras crianças. Dê-me um visto.  

Sophia sabia que desde esse momento estaria sob observação. Não entendera absolutamente o que, enfim, sucedera. Por que haviam armado para seu marido, pois em nenhum instante sequer acreditara na sedução da menor. Tão pouco entendia o que levara Domingos, uma pessoa tão previsível, trazer um bebê para a casa. Bebê que com ele dormira no colchão de sua cama. Disso não tinha dúvida, apenas não encontrava qualquer lógica para aquele comportamento.

Caminhando pela alameda que conduzia ao seu edifício, de repente parou. Meu Deus, exclamou para si mesma! Estivera tão atormentada que até se esquecera! Domingos, quando ela ligara à noite dissera-lhe que tinha uma novidade importante para contar. Falara-lhe com tranquilidade, com ternura, com amor. Na sua voz nada havia de culpa, dissimulação, nada. Como até agora ela se esquecera disso? O marido mais não falara devido às escutas telefônicas, todos se sabiam ouvidos e monitorados. Sentiu-se acalmar um pouco. Confissões, ora todos sabem como elas são arrancadas. A tortura, tão proibida de ser mencionada, era corriqueira na sociedade e poderia ser praticada livremente contra os operários e contra os urtianos e a qualquer hora. Não havia a quem recorrer. O tal Juiz era uma entidade tão abstrata e inatingível quanto o Administrador. Mas ela precisava saber mais, como o bebê, que o Sistema acusava de ter como pai o seu marido, entrara em sua vida.

Voltou para deitar-se com as crianças. Tentaria tudo para poupá-las, mas teria que inventar alguma história para a mudança de apartamento que ocorreria no dia seguinte. Antes que a porta se abrisse ela viu que a esperava fora, sentado no primeiro degrau da escada, o pequeno Samuel. Mamãe, eu sei sobre o papai. O que lhe contaram meu filho? Que ele foi preso na manhã que eu tive o sonho. Quem lhe falou isso? Foram os meninos da escola que ouviram os pais falarem sobre o caso. Você acreditou no que lhe disseram filho? Sim, mãe. Eu não tive um sonho, eu ouvi mesmo um bebê chorar. O que mais lhe falaram? Que meu pai chegou e uma das faxineiras, aquela mulata da URT que chamavam de Sara, estava aqui mesmo onde nós estamos, nesse vão da escada dando à luz ao filho. Que papai a ajudou e trouxe o nenê para dentro de casa. Sara tentou ir embora, fugir, mas desmaiou no pátio. Alguém chamou os Copas que a prenderam e depois voltaram para pegar papai. Mãe, o Zequinha disse que papai é um cafajeste e eu soquei a cara dele. Mas me diz você se meu pai fez coisa errada, me diz, por favor, preciso saber!

Sophia abaixou-se como se o fosse beijar encostou os lábios nos ouvidos do filho e falou. Tem coisas que eu não posso dizer, porque poderiam nos separar de vez. Mas você tem-se mostrado um menino maduro e o que eu posso afirmar é que os homens podem ser maus e mesmos as crianças também podem fazer maldades. O seu pai é um homem bom, um trabalhador. Tenho no meu coração que ele só pensou em ajudar essa pobre moça. Tenha isso no seu coração também. Quem sofre hoje é o papai e sofre por ter tentado ajudar uma desgraçada, guarde isso consigo, dentro de você. Não o diga jamais a alguém. Quando outra criança ou um adulto falar mal do seu pai não brigue, nem responda, afaste-se. Você me promete? Samuel e Sophia não mais puderam evitar as lágrimas que rolavam enquanto se abraçavam, lágrimas que selavam um amor infinito e uma união que triunfaria em todas as adversidades.

A mudança de apartamento ocorreu logo cedo. Dois voluntários surgiram para ajudá-los, casa de proletário não tem muita coisa mesmo. Terminaram antes do almoço e como era domingo, Sophia resolveu manter a rotina com as crianças. Boa parte do antigo aterro do Flamengo fora incorporada à Zona C, e era lá que os trabalhadores curtiam a praia nos dias de folga.

 

A família Passos, quando ia à praia, costumava ficar sempre lá pelo início do Aterro. Rapidamente os meninos encontraram alguns conhecidos e puseram-se a brincar. Sophia levantou-se para tomar um banho de mar. Ao passar junto a dois homens, um deles sorriu-lhe e perguntou alto se ela sempre vinha só à praia. Era alto e forte, um moreno pouco escuro, com amplas entradas numa cabeleira parca. Sophia virou-lhe as costas, o que menos desejava naqueles dias era ser paquerada. Mas o homem insistiu e começou a caminhar ao seu lado. Antes que ela tomasse qualquer atitude ele, mantendo um sorriso maroto, disse-lhe quase ao ouvido, não me encare, você nunca me viu. O Domingos foi preso porque tem um bom coração. Ele não tinha nada a ver com a moça. Está na URT-1. Não faça nada por enquanto, mas se resguarde. Agora, mande-me alto à merda e entre na água. Nós ainda voltaremos a nos contatar.

Sophia jamais poderia supor a surpresa que Yemanjá, no seu dia, lhe preparara. Respirou com todo gosto, mandou o companheiro à merda como lhe fora pedido e dizendo para si mesmo “obrigado” saltou a primeira das três ondas.

Quando retornou aos filhos seu semblante rejuvenescera. Samuel logo se deu conta, mamãe você está feliz! Foi Yemanjá meu filho. Mas a Rainha do Mar ainda não terminara de enviar-lhe as suas bondades. Quando chegou à casa, notou um pequeno bilhete passado por baixo da porta. Dizia simplesmente, Dona Sophia, se precisar um ombro amigo, suba ao apartamento 11-C. Com as crianças banhadas, trocadas e jantadas, a mãe deixou-as e subiu, sem fazer ruído. A porta não estava fechada, apenas encostada, como a esperá-la. Sou Archibaldo, dona Sophia, disse-lhe o velho recostado em uma cama desfeita. Obrigado por ter vindo, entre, fique à vontade.

A primeira demonstração de solidariedade da parte de um vizinho, de um trabalhador como ela própria, partia de um senhor que deveria ter mais de setenta e cinco anos, há pouco tempo aposentado. As pessoas têm medo de falar dona Sophia, a Nova Ordem veio para proibir a solidariedade entre os pobres, os poderosos querem que ninguém se dê a mão numa necessidade ou numa desgraça. Mas eu sou de um tempo em que as coisas não eram assim, em que os homens tinham compaixão por quem sofria, auxiliavam-se. São tempos antigos que agora parecem um sonho. Às vezes chego a pensar que vivemos um maldito pesadelo coletivo. Mas a senhora era muito pequena nessa época para lembrar-se dessas coisas velhas. Vamos, entre e sente-se, façamo-nos um pouco companhia.

Todos me evitam senhor Archibaldo, ninguém quer falar comigo, acreditam que meu Domingos teve relações com uma menor de dezesseis anos e que queria esconder o filho. Eles parecem até mesmo desejar que meu marido nunca mais apareça por aqui. Somente o senhor me chamou para conversar.

Minha filha, a minha é uma situação mais tranquila. Tenho mais de setenta anos, mas às vezes sinto que tenho mais, muito mais. O que poderiam fazer comigo de pior que as doenças que me corroem já não o fazem? Eu, na minha idade, doente, não tenho o direito de ter medo. Os nossos vizinhos, no geral, têm medo, e esse medo congela-lhes a alma. Não pense que não se sentem maus por serem impotentes, terem-se tornado acovardados. Mas temos que compreendê-los.

Boa parte dos trabalhadores de hoje já nasceu sob a repressão, o terror vivo que são os controles eletrônicos, as escutas, as câmeras, a espionagem da vida alheia pela internet, pelo telefone, o Administrador, os Copas. A Nova Ordem, Sophia, é um Sistema onde tudo se controla e esmaga. O trabalhador é um escravo. Somente os mais velhos ainda guardam lembranças de um tempo em que ainda havia algum respeito por quem trabalhava. Por isso tudo eu a chamei para conversar e saiba que você não é a primeira pessoa e nem será a última a quem estenderei a mão. Quero que sinta que não está só e isso faz a diferença nesses momentos. Eu aprendi na vida que mesmo no mais escuro pântano ainda pode brotar uma delicada florzinha de esperança, e que essa flor tem muitos apelidos, como fraternidade, amizade, amor ao próximo. E que ela floresce, assim como tudo, só depende de cada um de nós.

Nossas conversas terão, inicialmente, de serem curtas, pois estão de olho na companheira. E é melhor não chamar atenção sobre si mesma e evitar prejudicar-se e aos seus filhos. Se perguntarem o que veio fazer aqui, diga que ouviu os gemidos das minhas dores e das próximas vezes, sempre traga consigo umas aspirinas. Outros também ousam me visitar quando a noite cai, por isso, mantenho minha porta apenas encostada. Alguns até gostam de ouvir histórias do passado, essas que foram borradas dos livros escolares. Quando tudo se acalmar em sua volta eu prometo contá-las.

Sophia, temo que afugentar o sentimento da solidão e da desesperança, pois eles juntos nos destroem, fazem com que baixemos a cabeça, impedem que reajamos. O caminho para a transformação do ser humano em cordeiro sem vontade, um cordeiro que consente tudo, passa pelo medo e pelo desespero. E é exatamente isso o que essa maldita Nova Ordem deseja. Agora vá, vá minha irmã, mas volte quando tiver vontade ou sentir necessidade de uma palavra amiga. Minha porta estará sempre aberta.

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