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“2039: Ficção ou Profecia?”

III. Incubus

Larss gostava de levantar cedo. Era o momento de maior relax, pois sabia que o dia que o esperava no Instituto de Biotecnologia e no “Bloco da Geração do Futuro” era sempre tenso e puxado. Mesmo tendo uma academia particular em casa, preferia caminhar algumas quadras, munido de sua máscara antipoluente compacta e praticar os exercícios matutinos junto a alguns amigos. A ele se juntavam o Prefeito César Augusto, o industrial Alberto Speer e o Promotor Público Filinto Strubing, e normalmente, após a malhação, sentavam-se para jogar conversa fora durante meia hora, quarenta minutos.

Hoje, entretanto, o Promotor estava ausente. Larss, envolvido em temas familiares, ao invés de puxar pelos assuntos de praxe como as mulheres e o futebol, preferiu reparti-los, com arrependimento como se poderá ver, com os amigos. Imaginem que minha mulher está preocupada com a empregada de casa, uma proletária que teve o marido preso, começou. Preso porque é ladrão, perguntou Speer. Não, cara, preso porque é tarado. O negrão comeu uma mulatinha urtiana de dezesseis anos e ainda lhe fez um filho! Pelo menos era gostosa? Insistiu o industrial. Sei eu. O que eu acho, disse Larss, é que cada um, mesmo que seja um simples operário, deve ser livre para comer quem quiser. Vá lá um sabão pela garota ser uma urtiana, drogada, o que quer que seja, mas daí a prenderem o cara, é um salto e, o pior, parece que será mandado para alguma URT, um grande exagero.

A expressão facial descontraída de César Augusto de momentos atrás se transformara. Ele era dessas pessoas capazes de expressar um sorriso amplo que parece que abrange todo o mundo, e no instante seguinte adquirir o semblante endurecido e o olhar de onde toda humanidade recolheu-se numa impiedade única. Com o cenho carregado, seu olhar de harpia encarou o semblante do amigo Larss. Eu só o desculpo por você ser um cientista e em seu meio é mais difícil compreender a profundidade e o perigo de certas concepções sociais que ainda insistem nas malditas posturas liberais do passado. O que você acabou de dizer é um enorme disparate. Sabe o esforço que a sociedade e nisso incluímos, sem dúvida, nós três e nossos pais, pusemos para que tivéssemos paz social, para que nos apartássemos dessa chaga que não serve para nada, a qual decidiram apelidar de urtianos? E por que tudo isso? Para que tivéssemos paz para as nossas famílias e, principalmente, para que os negócios prosperassem sem riscos com nossos sócios estrangeiros. Quantas vidas nos custaram os embates com esses subumanos que no passado assaltavam, sequestravam, matavam e praticavam o baixo tráfico? E que depois passaram a depredar a propriedade, na prática de atos de terrorismo explícito? E agora, só porque um operário não resistiu a um par de coxas, fez um filho numa escória, vamos retroagir no tempo? Considerar um ato de tal gravidade como apenas uma trepadinha, caro Larss, isto já é passar dos limites!

Speer permanecera calado, mas sentindo o clima azedo provocado por César Augusto e procurando manter o ambiente de descontração, virou-se para Larss dando-lhe um tapinha no joelho, meu amigo, para que mexer em time que está ganhando? Hoje temos os operários que colaboram com a produção, os sindicatos interessados em resultados, confiáveis e parceiros do capital. Esse pessoal das URTs tem que ficar no seu lugar, de preferência ser afogado no mar, meu amigo, não tem jeito não.

Agora você está se contradizendo, Speer, retrucou Larss com seu português complicado. Se não fossem os drogados o que você faria com as pílulas do bem estar social e com os anticoncepcionais, pagos pelo governo e distribuídos para todas os urtianos? O que produziria a sua enorme fábrica para vender para o governo? Mas calma, amigos, eu sei perfeitamente que um urtiano não tem, praticamente, grande serventia social e que somente com a exclusão foi possível submeter os operários à disciplina e estabelecermos a paz social. Mas não vamos ser hipócritas, se os urtianos ainda existem é porque eles, trabalhando para os operários, reduzem o valor da mão de obra pela qual os industriais pagam e o Speers aqui que não me deixa mentir, significam também mercado para as indústrias farmacêuticas, as alimentícias e por que não, até para a de armamentos dos nossos amigos gringos. Os urtianos só existem porque também significam negócios, senão já teriam sido jogados ao mar. Mas calma lá comigo gente, não se esqueçam de que eu também tenho todo interesse no “negócio” e trabalho pela Nova Ordem!

Assim é, retomou o Prefeito, mas eles são drogados, párias, lixo social e não se pode permitir que voltem a se misturar nem mesmo com os proletários ou nós perderemos estes também. Eles contaminariam uma mão de obra que tardou tanto para tornar-se cordata, amansada. Escuta-me, Dr. Larss, e novamente a expressão de harpia retomou o lugar naquela face, tudo começa assim, primeiro uma exceção, depois outra e, então outra e voltamos aos anos dez, vinte, com agitações, quebra-quebras, revoltas, assaltos, assassinatos e os tais dos direitos humanos voltarão a surgir e a nos encher o saco. Tudo o que custou dinheiro, sangue e luta para se resolver, pode-se colocar a perder. Esse não é o momento para vacilações! O país está lutando para conseguir se manter como a quarta potência mundial nos próximos anos! Meus amigos, se a condução da sociedade com o controle das classes inferiores não for feita com punho de ferro, jamais poderemos desfrutar os prazeres da vida com a segurança e com a comodidade e a largueza com que hoje fazemos. Não nos podemos enganar permitindo-nos fraquezas e luxos como a piedade ou a compaixão dos ultrapassados humanistas de quase dois séculos. Amigo Larss, o sorriso voltara-lhe, não se trata de simples capricho, ou por gosto particular que devemos conduzir a sociedade dentro das nossas leis, não. Ou é assim, com firmeza e sem vacilações, ou teremos a volta da baderna, e, quem sabe, talvez até desentulhem o desgraçado do anarquismo, do socialismo, até mesmo o velho e carcomido comunismo!

Amigos, vocês me desculpem, mas continuo achando que estão exagerando e vendo pelo em ovo.

Não, Larss, nós estamos perfeitamente informados sobre tudo o que se acontece e foi bom que tenha puxado por esse assunto, seguiu César Augusto. Você sabia que a Anna andou bisbilhotando sobre a sorte do marido da empregada e tentou mexer uns pauzinhos a favor do meliante? Você precisa arrumar outras coisas para ela se divertir. Agora mais uma novidade que eu tenho certeza que você ainda não sabe: sua esposa levou a empregada corna para o Shopping Class A, só para dar uma voltinha, distrair a pobrezinha e, quem sabe, deu-lhe também algum rico presentinho. Você não percebe que não se pode exibir para os trabalhadores aquilo que eles jamais terão? Isso é uma temeridade que tanto foi feita no passado? Para vocês terem uma ideia de até onde necessitamos nos prevenir, recentemente obrigamos o Canal Global de televisão a gravar novelas, comerciais e noticiários para a transmissão exclusiva para os proletários, toda uma produção realizada com ideias edificantes, direcionadas a não se provocar nas classes inferiores cobiças inatingíveis. E agora o que faz a sua mulher? Leva a empregada para o shopping mais sofisticado do Rio, quiçá do Brasil? O que ela comentará com seus amigos e com suas amigas no reduto onde reside? O que pensará a respeito do luxo em que vivemos?

Por essa o cientista não esperava e teve que se curvar aos parceiros, o que o incomodava profundamente. Baixou a cabeça e começou a limpar o suor do copo de limonada gelada.

 Larss, não se amofine agora, o que passou, passou. Só tenha, por favor, certa conversinha com a Anna, peça para ela tratar a empregada como se deve. E, olhando para os dois amigos, o Prefeito concluiu com a severidade com que conseguia impor a sua personalidade. Vocês sabem perfeitamente que nada escapa ao controle da Autoridade da Pátria. Fomos nós, as classes A e B que optamos, conscientemente, por esse caminho de força, de reafirmação de nossa raça e ele não tem volta! 

O cientista, acuado, buscava qualquer assunto para que a conversação tomasse outro rumo. Mas a família ainda o impedia de buscar algum tema mais adequado para o momento. Em todo caso, tenho mais uma novidade para contar para vocês. Imaginem que meu filho, o Emmanuel, veio me perguntar que se nós que somos a alta burguesia e residimos na Zona B, quem é que vive na Zona A e o que é necessário para se mudar para lá?

Agora os três senhores esboçaram cada um ao seu modo, um sorrir, que aos poucos se tornou uma gargalhada.

Pensando bem, disse Speer, falando sério, essa é uma pergunta que os nossos jovens terminarão por nos fazer um dia, pois moramos com os todos os burgueses, sendo que somos a própria classe superior. Antes de entrar para o ramo farmacêutico eu fui arquiteto, e não é simples explicar aos jovens e mesmo dentre nós, que a Zona A é antes de tudo um estado de espírito que se conquista com esforço, relações e dinheiro, muito dinheiro é claro. Mas, César Augusto, eu acho que de certa forma, já nas nossas escolas, os alunos deveriam ser instruídos sobre esse conceito de classe superior, do qual também fazem parte as classes médias alta e que ambas são todas estágios de uma mesma classe social.

Amigos, foi o Prefeito que tomou a palavra, não nos esqueçamos de que essa diferenciação entre as classes A e B que, num passado recente julgáramos de importância, só se diluiu nos últimos tempos. Nós mesmos precisamos trabalhar um pouco mais essa questão de estado de espírito. Eu diria que alguma separação física, nem que seja diluída, talvez ainda venha a se fazer necessária. Em centros de excelência do exterior tem gente brasileira, os futuros dirigentes desse país, discutindo essa questão. Mas será que não chega por hoje de assuntos sérios? E tudo por causa do operário tarado do Larss. Que tal falarmos um pouco sobre mulher e futebol?

Foi quando Speer o interrompeu. César Augusto, espera aí. Já que você tocou no assunto, não me vai fugir agora. Vamos voltar a uma antiga conversa, pois acho que você está me levando na lábia. Quando afinal você vai colocar a minha amante na Prefeitura? Já lhe pedi há mais de um mês. Você sabe que não posso fazer nada na minha empresa por conta da cobra da minha mulher. Tem que ser um emprego público, afinal, uma mão lava a outra, não é mesmo?

O Prefeito sabia que muito em breve teria que recorrer aos bolsos de Speer para a próxima campanha política. E eu não prometi fazê-lo? Mas não dá para arrumar emprego de dez mil dólares, que é como você quer, em vinte e quatro horas, não acha?

Hoje a conversa havia sido longa e um pouco desagradável para Larss. Deixou-os discutindo sobre o emprego e futuras contribuições políticas e se despediu dos amigos. Caminhou até sua residência onde a condução iria apanhá-lo. No caminho pensou nos toques que César Augusto lhe dera. Mas não estava a fim de afrontar Anna, de quem ele conhecia muito bem a opinião. E sabia que, numa briga familiar, Emmanuel estaria sempre ao lado dela. Tudo já, já, iria passar e, quem sabe ele no futuro desse algum modo de Anna livrar-se daquela empregada, mas o nada fazer era o melhor caminho por hora.

Ao chegar à casa, o helicóptero estava no jardim posterior já com o motor aquecido pronto para partir. Estava um pouco atrasado para seus compromissos e isso o irritava. O mordomo trouxe-lhe imediatamente o terno claro com a gravata azul; trocou-se e tomou assento ao lado do piloto. Rapidamente chegou ao Centro Desenvolvimento da Tecnologia Social-1.

  • O agente indutor neuronal

O Centro era formado por um grande conjunto de prédios voltados ao estudo, em diferentes áreas de pesquisas. O departamento do qual Larss era o chefe, e para o qual fora contratado na Suécia há mais de vinte anos, era o de genética humana aplicada.

Era uma área estritamente reservada, voltada ao desenvolvimento de pesquisas de ponta. Ao contrário das demais, a ela não tinham acesso nem estudantes, nem estagiários. Por isso, com o sueco trabalhavam não mais de cinco assistentes, altamente especializados em decodificação do genoma humano e das relações dos genes e cromossomas com as funções cerebrais.

No último mês Larss fora chamado a coordenar uma importante pesquisa de protocolo multicêntrico internacional, especificamente voltada para o desenvolvimento de alterações comportamentais a partir do implante de células troncos em organismos púberes e adultos. O projeto de pesquisas que era centralizado em laboratórios norte-americanos, tinha como parceiros principais o Brasil e Israel.

A parte da manhã passou célere, parte dedicada ao planejamento semanal com o time de trabalho e a outra, trancado em seu laboratório particular, dedicando-se ao estudo do tal projeto piloto, voltado ao desenvolvimento de substâncias modificadoras de comportamentos.

O Instituto recebera a muito pouco tempo a primeira partida de um mediador químico até então desconhecido da ciência, certo polipeptídio de síntese, com funções indutoras neuronais. Esse indutor era destinado à utilização na cultura de células-tronco, que, uma vez amadurecidas e já funcionais, seriam implantadas em organismos considerados adultos.

Essa nova droga denominada I-ouda-30, por tudo o que pudera ler e aprender sobre a mesma, assim como os testes com ela realizados, ao mesmo tempo em que excitaram sua curiosidade científica, deixaram-no preocupado. Não encontrara no protocolo testes de toxicidade no uso prolongado da droga, passando pela ausência de resultados claros no desenvolvimento de possíveis mutações genéticas nos descendentes das cobaias utilizadas.

Além do mais, outra questão lhe chamou a atenção foi que todos os testes de mudanças comportamentais reportados nos estudos com o I-ouda-30, haviam sido realizados exclusivamente em macacos do tipo “rhesus”. Em conclusão, o indutor americano não atendia diversas normas básicas de segurança para a sua aplicação em humanos, o que os transformaria simplesmente em cobaias. No fundo ele sabia que esse era exatamente o caso.

Ademais de tudo, havia na documentação uma etapa de desenvolvimento da pesquisa, precisamente a sétima, à qual ele não possuía acesso; o protocolo indicava que a senha de acesso somente lhe seria enviada dentro de seis meses. Por quê? Jamais em seus trinta anos de vida profissional ele trabalhara daquela maneira, bem no escuro. Mesmo vivendo em uma sociedade em que pouco se explicava e em que menos ainda se deveria perguntar, sentiu-se extremamente incomodado com o tal do item sétimo, secreto inclusive para o principal pesquisador.

Enquanto buscava se aprofundar conceitualmente nos protocolos da nova droga, a secretária interrompeu-o para avisá-lo da reunião que teria em duas horas no Bloco da Geração do Futuro. Mas que, antes disso, esperava-o para almoçar seu chefe, o Diretor de toda a Unidade de Pesquisas. Precisava apurar-se.

Phelps de Andrade, o Diretor, fazia parte, dado suas importantes funções, do Conselho da República. Ele era um pouco mais velho que Larss, aí por volta dos seus setenta anos. Phelps se por um lado gostava e admirava o trabalho científico sério de seu subordinado, com ele não privava socialmente por achá-lo um pouco liberal à moda antiga. De todo modo, o longo relacionamento entre eles apesar de frio, sempre fora cordial e respeitoso.

Antes mesmo da sobremesa, Larss foi diretamente ao assunto do indutor e aos aspectos em que esse o preocupava. A droga já se destinava à aplicação em humanos, sem que os testes de toxicidade de uso em longo prazo em animais e os de possíveis reações mutagênicas tivessem sido enviados ou realizados. Além disso, nenhum teste de fase três ou quatro em humanos voluntários. Os americanos de certa forma jogavam toda a responsabilidade por resultados, inclusive por erros, nos ombros do parceiro brasileiro.

Prezado Larss, eu entendo perfeitamente as suas preocupações científicas. Esses protocolos que, seguramente, foram seguidos pelos americanos, não nos foram enviados propositalmente. Veja que eu acho isso uma falha de procedimento e mesmo certa inconsistência na parceria, mas conhecendo nossos amigos, posso assegurar-lhe que os testes foram realizados, sim senhor. Se não foram incluídos no “packaging” foi por não terem permitido conclusões definitivas que eles, infelizmente, não se dispuseram a conosco compartir.  

Ou seja, chefe, os estudos ainda estão em andamento e a fase de testes com animais foi atropelada e eles esperam que utilizemos o indutor em humanos, certo? Veja, Larss, não somente eles esperam, assim como eu e o Ministro de Ciência e Tecnologia também. Vamos ser claros, mas quero que saiba que esse assunto é estritamente confidencial e que não pode e nem deve vazar para absolutamente ninguém o que estamos conversando. Muito bem, sendo absolutamente sincero consigo, esse projeto está em suas mãos por você ser um dos maiores especialistas na área em todo o mundo e muito contamos com a sua total dedicação a ele. Esqueça, pelo menos durante esse trabalho, seu liberalismo fantasista e ultrapassado. Depois você poderá voltar a adotá-lo.

Agora vou lhe falar sobre um segredo de Estado que daqui também não poderá sair. Estamos de certa forma, sentindo que o comportamento dos Agentes Comunitários da Paz começa a nos fugir ao controle. Não vamos perder muito tempo falando sobre assuntos de segurança pública, pois não somos do ramo, mas quero que saiba que todos os adestramentos, os acondicionamentos, a preparação psicológica que lhes é dada e monitorada vinte e quatro horas por dia começa a apresentar falhas. Eles começam a se corromper, buscando o enriquecimento pessoal, extrapolando funções, os seus oficiais intermediários aspiram possuir cada vez mais poder, extrapolam ordens, ou as cumprem com pouca voltade, exatamente aqueles comportamentos que, no passado, fizeram com que as Polícias Militares degenerassem e fossem extintas. Enfim, o nosso projeto de produção de agentes adequados, perfeitamente enquadrados ao comando, absolutamente previsíveis em suas reações passa pelas alterações que os implantes de células tronco, sob a ação do agente indutor que você tem em mãos, possa obter.

Se os testes de toxidade a longo prazo produziram resultados dúbios ou mesmo positivos, segue minha pergunta para o cientista e cidadão Larss. O quanto isso importa? Queremos que os Copas, como o populacho os denomina, sejam imortais? Ou preferimos Agentes da Lei que tenham um tempo de vida útil determinado, de preferência apenas médio? Antes que você me responda, os testes sobre efeitos mutagênicos não vieram porque foram positivos. Eu sei que você já o supunha. Logo, como Agentes da Lei induzidos e que possam apresentar mutações, não é interessante que tenham um ciclo de vida curto? Temos por acaso carência de mão de obra? É claro que não, hoje temos filas de gente esperando por essa função. Tem ideia da quantidade enorme de jovens os quais o Estado ampara e prepara para torná-los agentes da lei? Ora, ora, Larss, nossos amigos americanos não são os líderes mundiais a troco de nada, eles pensam em tudo e à frente!

A aplicação do indutor tem que ser realizada aqui, em nosso país, antes que possa ser usado em outros lugares, pois nós já superamos antigos preconceitos, determinadas regras sociais ultrapassadas e dignas de um século XIX, que outros ainda não conseguiram fazer. Estamos encetados em um longo caminho de pureza conceitual, o da Nova Ordem. Você é sueco, mas nós, os brasileiros, somos uma enorme miscigenação de raças, que precisa de algum modo, passar por uma purificação. Estamos no caminho de prepararmos uma Ordem Política e Social que dure pelo menos mil anos e que nos traga uma prosperidade crescente! É preciso planejar o futuro para que ele ocorra, meu caro cientista.

Agora, Larss, sem rodeios, você sabe os benefícios pessoais e a projeção internacional às quais você e eu chegaremos caso esse projeto frutifique? Sinta-se livre para dizer se aceita ou não o desafio, se consegue mandar às favas os seus pruridos liberais ou não. E tem que ser agora.

Larss conhecia perfeitamente o jogo e que não tinha escolha alguma a fazer. Era encabeçar o projeto ou algo poderia suceder com seu helicóptero, ou com sua casa, quiçá a ele mesmo diretamente. Muito bem, chefe, mais uma pergunta. Por que recebi um anexo codificado, especificamente o anexo sete, programado para ser aberto somente dentro de seis meses, que é quando deverão me enviar a senha? Jamais trabalhei desse modo.

Não se inquiete Larss, com toda certeza devem ser os resultados dos testes dos quais você agora sente falta.

Então, chefe, tenho um pedido a lhe fazer. Faça-o, meu amigo. Eu gostaria de conduzir, em paralelo, os testes com animais, apenas para certificar-me do que encontrarei para frente em humanos. O senhor me conhece. Eu odeio surpresas, amo as previsibilidades.

Sem problema algum, acho até que ainda faremos um favor adicional aos nossos parceiros do norte. Apenas inicie imediatamente os trabalhos em humanos.

Hoje mesmo, professor Andrade, estou me estou pondo a campo! Ótimo, Larss, nossa sociedade tem toda a pressa do mundo!

Retornando ao laboratório, o cientista pediu à secretária que comunicasse à sua esposa que não tinha hora para retorno. Soube que outra pessoa o esperava a quase uma hora no local para onde se dirigiria à tarde. Em menos de cinco minutos o helicóptero chegava ao Bloco da Geração do Futuro. Com toda a história do indutor do comportamento se esquecera de perguntar à secretária quem era que o esperava para mais uma reunião e, justamente, no local de segurança máxima.

Ao chegar ao Bloco caminhou diretamente para o gabinete de trabalho. Para sua enorme surpresa encontrou, sentado a esperá-lo alguém que ele jamais suporia ver por ali. Filinto Strubing, o Promotor Público. Juro que não esperava vê-lo hoje, Filinto. Não foi à academia e agora vem ao meu trabalho! A que devo a honra?

No fundo, a visita da autoridade, imediatamente após a conversa com o Diretor, abalava-o um pouco. Aproveitou para pedir café com bolo de milho do qual ele sabia ser o visitante um devorador pertinaz.

Larss, eu estou aqui extraoficialmente. Não quis ir à academia porque buscava uma conversa particular, tranquila, entre amigos, eu e você. Com esse intróito, Larss sentiu-se ainda um pouco pior, ele sabia a que conduziam os rodeios das autoridades “amigas”.

Após o café e alguma conversa jogada fora, Larss arriscou. Você vai falar sobre a Anna, a empregada dela e o marido? Não, meu amigo, de modo algum. Esse assunto é bobagem. Esquece. A atitude despretensiosa da autoridade, apenas serviu para que ele se preocupasse um pouco mais. Preparou-se para alguma bomba.

Vim até aqui tomar um café consigo para poder lhe transmitir uma preocupação que é minha, pessoal, de amigo para amigo. Preciso que você esteja a par de algumas informações sigilosas sobre o que passa no nosso meio, bem debaixo dos nossos narizes. Eu sei como são os cientistas, vivem metidos em seus assuntos e muito pouco olham ao redor. Pois muito bem, os Serviços de Informação do Estado têm detectado nos últimos tempos movimentações extremamente suspeitas. Não somente movimentações, mas o ressurgimento de células operacionais inimigas do Estado e lhe posso assegurar que elas estão se infiltrando por todos os lados, em todas as partes. É verdade que se encontram principalmente entre os proletários, começaram pelos trabalhadores do xisto e do petróleo, mas também estão nas URTs, e, por incrível que possa parecer em nossas próprias classes sociais superiores.

Larss não sabia onde iria parar aquela conversa, mas dela gostava nadinha. Filinto, entendo tudo o que você está me dizendo, só não sei o porquê você está aqui me falando disso. Hoje pela manhã o César Augusto chamou-me de liberal, meu Diretor voltou a me chamar também do mesmo e agora você vem com essa conversa. Você vai me chamar do que, de socialista, de cripto-comunista, de anarquista?

Deus me livre, Larss. Tudo isso que você está falando não tem nada a ver com o motivo de minha visita. Você sabe perfeitamente a posição estratégica para o Sistema que ocupa. Não tem absolutamente nada a ver consigo. Eu disse que estava aqui extra oficialmente e assim estou. Vou ser direto, então, meu amigo. Trata-se do seu filho, o Emmanuel.

Larss sentou-se, de repente sentiu que perdia o solo. O que tem o Emmanuel? Nada, Larss, por enquanto, pelo menos. Como você sabe, os romances e os livros em papel do passado foram abolidos há muitos anos e temos controle sobre tudo o que seja editado e distribuído eletronicamente no presente. Entretanto, com algum trabalho e técnica, muitos livros de antes da Nova Ordem ser implantada podem ser baixados nos e-books de todos nós, a partir de sites piratas de certas regiões do mundo. E como é função e dever do Estado proteger a sociedade, controlamos todos os livros que são baixados irregularmente, assim como quem o faz. O Emmanuel baixou alguns livros extremamente complicados no último ano. Diria, até mesmo, comprometedores.

Cite-me alguns exemplos, Filinto. “A condição humana”, “1984”, “O Processo”, “A Ressurreição”, “Irmãos Karamazov”, “Capitães de Areia”, esses são somente alguns exemplos.

Ora Filinto, são todos romances antigos, velhos, ultrapassados, fora de moda ainda no meu tempo de estudante! Alguns têm até mais de um século! Veja, amigo, o meu garoto é diferente, não se interessa por área tecnológica alguma, em troca lê muito, mas eu, sinceramente, não consigo ver qual é o problema.

Larss, você realmente nem chega a ser um liberal, é, sim, um ingênuo! Emmanuel não é mais seu garoto, ele é um homem! Não consegue perceber que se Emmanuel prosseguir com essas leituras, terminará chegando à filosofia política, uma matéria deletéria que foi extirpada e proibida em todo ensino? Que nesse caminho de humanismo babaca acabará nas mãos desses que são, e aqui não tenha nenhuma dúvida, os inimigos do Estado? Preocupe-se Larss, você é o exemplo que seu filho deve seguir! Aja antes que seja tarde, conselho de amigo.

Mas chega, agradeço pelo café e pela paciência. Vou deixar você trabalhar, sei que tem muito que fazer. Mas, para todos os efeitos, lembre-se que eu nunca estive aqui. Deram-se as mãos cordialmente e Filinto, ao sair, segredou-lhe ainda ao ouvido: boa sorte nos novos experimentos!

Quando o amigo saiu, o cientista voltou a deixar-se cair pesadamente na poltrona. Haviam armado para que ele não lhes escapasse das garras e permanecesse sob controle na pesquisa do projeto americano incompleto, que o Diretor tinha certeza que ele teria relutância em tocar! Primeiro, a conversa com o Prefeito, é verdade que fora ele próprio quem dera a abertura para o papo sobre “seu liberalismo”, e o outro querendo ensinar-lhe como deveria cuidar da própria mulher; depois o toque dado pelo Diretor ao seu “liberalismo ultrapassado”; agora, o Promotor, colocando na berlinda seu filho. Tudo muito bem concatenado. Não era somente o seu pescoço que estaria em jogo caso falhasse, isso estava claro! Como o jogo era pesado no tipo de trabalho em que se metera! Mas não reclamava da vida. Tinha tudo o que poderia desejar e mesmo que pudesse aspirar a ter. Depois do salário de Phelps Andrade, o seu era o maior de toda a Unidade de Pesquisas. Respirou fundo.

Tenho que seguir o protocolo à perfeição! E pensando bem, quem entra na dança é para bailar. Afinal, não criara resistência a tantas pesquisas realizadas com seres humanos desde que a Nova Ordem se implantara, pesquisas que há menos de trinta anos seriam totalmente condenadas pela ética e, quem sabe, o levariam à cadeia? Não começaria a criar dificuldades agora. Primeiro ele e depois os seus. Além disso, à noite teria uma boa conversa com o filho e com a mulher.

Mandou, então, que os dois assistentes médicos, que o esperavam, entrassem em sua sala.

Temos um novo desafio pela frente, amigos. Talvez esse seja o maior que já nos foi destinado pela sociedade à qual servimos. Creio inútil ressaltar que, como todas as experiências científicas que realizamos nesse bloco especial, essas são igualmente de caráter estritamente confidencial. A Direção controlará diretamente todos os passos que dermos. E lhes peço um favor. Cada um deve cumprir o papel científico que dele se espera, sem perguntas ou curiosidades que não sejam absolutamente atinentes às funções de cada. Nenhum comentário será permitido fora dessas paredes.

Agora, vamos às ações concretas. Precisamos selecionar dois grupos de indivíduos. Um primeiro de jovens entre quinze e dezessete anos de idade e, um segundo, na faixa dos dezoito a vinte. Cada grupo deverá ser formado por indivíduos saudáveis sob todos os parâmetros físicos e estarem psiquicamente perfeitamente integrados à disciplina formadora dos agentes comunitários da paz.

É importantíssimo que trabalhemos com consciências que já se livraram, através dos processos utilizados no estabelecimento da “Geração do Futuro” de todos os preconceitos e valores familiares aprendidos no passado. É particularmente necessário que os jovens selecionados não possuam muito fortes as lembranças da infância ou dos pais, e eu digo isso principalmente em relação aos filhos de trabalhadores que hajam perdido a guarda dos filhos por motivos de inadequação social ou por serem inimigos do Estado. Que realmente estejam “limpos” para a uma nova vida sem escrúpulos que não sejam o cumprimento estrito de ordens. Para isso vocês deverão se valer não somente de suas folhas corridas, mas também do trabalho dos psiquiatras desta unidade de trabalho.

Qual o tamanho da amostra, professor Larss, um dos assistentes perguntou. Necessitamos de dois grupos de quinze elementos. Sei que teremos algumas dificuldades em selecionar espécimes para o grupo mais velho e, nesse caso, se for necessário, solicitaremos agentes da paz recém- formados na academia comunitária. Creio que esse não será um empecilho, pelo contrário.

O cientista prosseguiu. Deveremos nos preparar para retirada de células da medula óssea de todos os elementos, realizadas por punções femorais. As células serão tratadas em laboratório no Instituto de Biotecnologia até regredirem ao estágio de células-tronco. Esse trabalho levará em torno de dois meses e meio. Também necessitaremos realizar uma trepanação craneana lateral em cada cobaia, com retirada de meio centímetro cubico de córtex. Quando as células-tronco estiverem prontas, submeteremos cada indivíduo a uma cirurgia neurológica para implantação cerebral de um nicho neuronal no local da trepanação. Enquanto isso não ocorre, cada participante da pesquisa deverá ser totalmente isolado dos demais, colocado em quartos individuais e mantido sob o mais rigoroso sistema de controle das funções vitais e psicológicas.

Depois do implante haverá um período de aplicações diárias de um agente acelerador das reações comportamentais que também necessitará de um acompanhamento minucioso, diário e sob total isolamento individual. Alguma pergunta senhores?

Duas perguntas professor: Qual o objetivo da pesquisa? Além dos psiquiatras, com quem poderemos contar como auxiliares?

A primeira resposta é que estamos trabalhando para o estabelecimento de padrões comportamentais e isso é tudo o que vocês precisam saber.  A segunda é que receberão o auxílio de duas colegas americanas nos próximos dias. Serão as inspetoras de campo do experimento, pois o estudo é multicêntrico e multinacional. Já adianto que seremos extremamente exigidos quanto à qualidade do trabalho realizado e o cumprimento de prazos. Com relação aos psiquiatras, o trabalho com eles encerra-se no momento da retirada de fragmentos da medula óssea.

Bom, nessas pastas encontrarão todas as atividades esperadas de vocês, passo a passo. Cada etapa deve ser cumprida à risca. Por favor, que não surja entre vocês, que eu selecionei tão criteriosamente, nenhum tipo de preconceito ou falso moralismo pelo que deve ser feito para o bem da ciência e de toda a sociedade. Não temos tempo a perder, principiem a seleção dos espécimes ainda hoje.

Tarde da noite retornou à sua casa. Sentia-se extenuado. O dia que começara tão cedo e fora extremante tenso não o convidava a conversar nem com o filho e, muito menos com a mulher. Deixaria para outra oportunidade. Seu celular tocou duas vezes e depois, uma mais. Era Karin, sua mais recente conquista. Larss enviou à merda o cansaço.  Vamos relaxar um pouco, a morena vale à pena. Tomou duas doses de um uísque doze anos, pegou seu Porsche e correu revigorado até a Barra.

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