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Marcel Proust

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“2039: Ficção ou Profecia?”

IV. Eppur si muove

Larss adiou o quanto pode a conversa que deveria ter com Anna e com o filho. Quando decidiu pedir explicações à mulher sobre o tal passeio ao shopping com a empregada, o que obteve foi um redundante fracasso. Faço o que me der na teia. Não sei por que você se abaixa tanto para esse Prefeito, mande-o à merda. Você é um dos maiores cientista desse país, reconhecido em todo o mundo e se quiser, amanhã, podemos até nos dar o luxo de fazermos as malas e irmos viver num lugar menos poluído, melhor com as pessoas, menos opressivo que esse país. Emprego para você não faltará. Agora, quem paga e cuida dos meus empregados sou eu. O que o César Augusto deveria era ser menos corrupto e filho da puta, que se metesse com os próprios cornos... e foi por aí que ela mandou ver sobre o que se comentava nas altas rodas sobre o Prefeito em quarto mandato.

De nada adiantaram os argumentos do marido de que ele mesmo se sentia sob enorme pressão por conta de determinado experimento científico e que já estava até mesmo amadurecendo a ideia de voltar com a família para a Suécia, uma vez que a pesquisa estivesse concluída. A pesquisa era tão importante que nada lhe poderia contar sobre a mesma, mesmo porque tão pouco a interessaria.

Você que fique com os seus segredos, que se me der vontade, volto a sair com a Sophia e levá-la às minhas compras. E quer saber de uma coisa? Ela é uma mulher de fibra e eu gosto dela. De minha parte, faça-me o favor, mande o César Augusto à merda.

Com o filho, tão pouco ele se saiu muito melhor, também, pudera, apoiado pela mãe, tudo ficava mais difícil. Pai, o que eu faço de errado em me interessar pela literatura? O que o Promotor Público tem a ver com isso?

Larss, você tem que reconhecer que nosso filho não se dá bem com estudos técnicos e muito menos com aquilo que seria o seu sonho, a genética. Não confunda as coisas, o sonho é seu, somente seu. Emmanuel tem como vocação a aplicação literária.

Ele sabia que a última tacada passível com alguma chance de êxito seria apelar para o medo, para o destino que esperava qualquer contestador na Nova Ordem, e o fez. Mesmo assim, o máximo de compromisso que conseguiu arrancar por parte do filho foi de que ele e seus amigos dariam um tempo na realização de downloads em sites não recomendados pela autoridade social.

Já quando a temível figura do Promotor Público passou a ser referência, Anna sentiu medo, temeu pelo filho. A sós com o marido, chegaram a um consenso: seria interessante enviar Emmanuel para realizar algum estudo superior em área de humanas fora do Brasil, lá pela velha e um pouco conservadora Europa do Norte. Larss sentiu-se, de certa forma, aliviado.

  • Um sopro de amor

Pois eu digo que, de repente, me senti incandescer; cada página virada parecia que um incêndio tomava conta de minha alma. Madalena, essa é a maneira mais direta de falar sobre foi o efeito que essas obras de arte me provocaram. E, de repente, febrilmente, passei a questionar tudo ao meu redor, até a mim mesmo, a meus pais, o estilo e o nível de vida que nós, o suprassumo dos privilegiados, levamos. Foi como se, de golpe, o mundo se apresentasse para mim com toda a frieza, a maldade, a hipocrisia e, mais que tudo, com toda a sua falta de sentido. Querida, somos um povo que perdeu todo coração e se algo dele restou se encontra envolto em trevas muito profundas. Quando nos tiraram a capacidade crítica que os antigos possuíam, perdemos também a esperança de um entendimento entre os homens. Fomos ensinados a ver em cada ser um provável concorrente, um possível inimigo. E tudo o que nos foi arrancado aos corações, nos compensaram com os enormes estômagos que tudo devoram, consomem.

Foram as obras de arte de cem anos atrás que me mostraram outro universo, que sei que é passado, mas também sei que por já haver existido talvez muitos de seus valores ainda possam ser resgatados. Quem sabe, no fundo, mas bem no fundo do coração de muitos homens eles não tenham se travestido simplesmente para não serem identificados e destruídos? Os livros me trouxeram uma incrível necessidade de me sentir livre, de não ter medo a não ser o de mentir para mim mesmo, nós que vivemos numa sociedade em que tudo é mentira, que nos obriga a mentir a todos e a nós mesmos todo santo dia. Infelizmente, Madalena, ninguém de nossa geração chegou a conhecer a fraternidade, a compaixão pelo próximo. Antigamente havia liberdade e uma luta por sua ampliação, com a qual nós jamais sonhamos. Por tudo isso, a cada página que percorri na leitura eu senti em meu peito a necessidade de encontrar uma forma de romper com o presente mesquinho que hoje me sufoca e que se eu nada fizer, irá terminar por me enlouquecer.

Emmanuel, eu tenho a mesma sensação que você. Quanto mais leio, mais me sinto deslocada, perdida nesse tempo em que tudo é ordem, progresso e paz, não a paz do amor, da comunhão, mas a paz dos silenciados, daqueles que são incinerados nos crematórios secretos. E tudo sobre a bandeira da Pátria e de um deus de ocasião. Ao mesmo tempo, a poluição e uma destruição da natureza que não tem fim. E ninguém se pergunta se isso é a felicidade e muito menos se outro mundo seria possível. Já não respiramos fora de casa a não ser através dos filtros das máscaras. Começo a odiar essa tal de Nova Ordem que copia e exacerba certo Hitler e o nazismo de cem anos atrás. Dizendo isso, Madalena aconchegou-se mais no abraço do namorado. Precisava de abrigo, amparo.

No princípio, ainda me lembro, nós e nossos amigos queríamos apenas conhecer a literatura do passado e procurávamos respostas a alguns porquês. Tínhamos a sede do conhecer, de descortinar o que a escola oficial não nos permitia. Quando nos demos conta, de repente, vimos que na verdade descobríamos a cada livro lido novos mundos que nos soam agora maravilhosos se comparados à realidade torpe em que vivemos­­­­­­. Querido, na mesma medida que você, eu me sinto deslocada... Gostaria de fugir, fugir para muito, muito longe...

Madalena, meu pai falou comigo ontem à noite. Os serviços de inteligência do Estado estão na nossa mira. Eles detectaram que conseguimos realizar downloads de livros não recomendáveis para a juventude, que é o nome que eles dão à censura. Precisamos avisar nossos amigos e preveni-los para darmos um tempo. Soube que Camilo e Verônica estavam ainda ontem tentando baixar “O homem revoltado” e “Ensaio sobre a cegueira”. Meu pai acha que é problema grosso na certa, que, de certa forma, após o aviso dado pelo Promotor chegaríamos àquilo que as autoridades chamam de contestação ao regime.

Penso que se juntarmos toda a nossa biblioteca já passaremos de trinta obras. Antes de seguir baixando mais livros, vamos ver se nos encontramos todos e conversamos sobre o que já foi lido. E temos tanto o que trocar entre nós, pensar, procurar caminhos para fazermos alguma coisa que não seja o banal a que sempre somos levados...

Emmanuel e Madalena, Camilo e Verônica, Luzia e Tereza, três casais enamorados, seis mentes que rompiam as cortinas pesadas impostas pelo Sistema através da descoberta literária do passado. Assim agindo eles contrariavam a própria essência ideológica da Nova Ordem, que não admitia o “pensar”, e muito menos o “julgar” ou “questionar”.

Mas eles queriam mais, já não bastava rasgar a interdição e alcançar o espírito crítico. E eles próprios se perguntavam: somos um pequeno grupo de seis pessoas, qual o sentido das autoridades estarem preocupadas e buscando identificar leitores de obras proibidas? Somente se eles não fossem tão poucos... De repente não estariam sós, seriam muitos! Quantos jovens de espíritos despertos como eles existiriam naquela que um dia fora a Cidade Maravilhosa? E nesse caso, como identificá-los, agrupá-los?

  • A solidariedade e a revolta caminham juntas

Sanjoan sentou-se ao lado de Domingos. A partir de hoje os Copas devem começar a me procurar. Meu irmão não tem como deixar de confessar que revendia droga para os pessoas do bloco C e eles irão concluir também que por aqui tem gente que ainda pensa, raciocina, e que por isso se recusa a tomar as pílulas. Por sorte o Copa corrupto deixou muito pouco dinheiro no bolso de Joansan. Espero que ele só incrimine a mim pelo repasse de droga não consumida. Chamei parte do nosso pessoal para vir aqui à praia para a gente conversar.

Os primeiros dias na URT haviam sido terríveis para Domingos. Absolutamente só, ferido no espírito e no corpo, amargurado, desesperado. Mas o desespero inicial encontrou um contraponto quando após os primeiros impactos, seu espírito começou a incorporar o ar da revolta. Ele logo se deu conta que o primeiro passo para dizer não ao Sistema que desejava destruí-lo era manter-se íntegro e jamais engolir a tal droga do bem estar.

Passou dias olhando ao redor, procurando outros que também se negavam a usá-la. Não foi, pois, por acaso que ele e Sanjoan se conheceram: os diferentes sempre vivem cheirando rastros uns dos outros. Os dois se perceberam fora do bando de zumbis que vivia de um lado para outro, arrastando-se e morrendo pelos becos do Complexo. Aos poucos eles haviam se tornado amigos. E uma amizade estabelecida em condições extremas é forte, pode ser uma catalisadora poderosa para a atração de semelhantes e ser o fermento de uma verdadeira irmandade.

Outros indivíduos que não se drogavam foram, gradativamente, com eles estabelecendo ligações, e o grupo cresceu. Em algum tempo descobriram que os urtianos que apenas fingiam ingerir a droga eram muito mais numerosos do que haviam imaginado inicialmente. E com o crescimento do grupo a amizade espalhou-se, aninhando-se primeiramente em doze corações, corações onde o não, filho legítimo da revolta, começara o longo processo em que o medo seria vencido e a desesperança afastada.

Quando marcavam um encontro na praia dividiam-se em dois ou três pequenos núcleos para não atrair a atenção dos drones com suas câmeras. Sentados na areia suja, Domingos e Sanjoan sentiram a aproximação de Zelote, de Jeremias e de Joana, no gingar cambaleante do disfarce.

O problema com a confissão de Joansan é que aqueles que se negam a se dopar serão excluídos da distribuição gratuita de alimentos, começou por falar Sanjoan. Deve começar por mim, mas a repressão estará mais atenta. Como os alimentos que nos entregam mensalmente não são suficientes nem para os primeiros quinze dias, será impossível dividi-los com quem não os recebe.

Zelote, um negro feito forte graças a seus Orixás aportou uma ideia em tudo genial. Dá para a gente ser mais rápido que os dopados e pegar a comida de todo mundo que morre. Vamos ficar espertos e começar a juntar o que pudermos dos mortos, não somente a comida que sobrou, mas as roupas, os bagulhos e tudo o mais. Aí vamos arrumar um mocó seguro e guardá-los. Assim poderemos administrar as carências dos que forem excluídos dos alimentos e ajudar outros necessitados.

Domingos gostava muito de Zelote, a quem fora apresentando por Sanjoan. Ele era um antigo Copa caído na desgraça por ser pouco enérgico com os urtianos. Um dia o prenderam, tiraram-lhe a mulher que filhos não os tinham, e o haviam jogado para morrer ao lado daqueles “de quem tinha pena”, apenas para dar “um exemplo para a tropa”. Ele sabia que a mulher já o dava por morto e voltara a se casar com outro colega de profissão. No fundo, sempre desconfiara daquele tipo; hoje tinha certeza de que o delatara por cobiça. Que se danassem. Da preparação para ser Copa trouxera para a favela a força física, a frieza e a disciplina de um militar. Com a convivência e com o tempo, auxiliado pelo negro Domingos e por Sanjoan, de seu passado longínquo voltavam-lhe gradualmente à memória cenas da infância decepada, quando as forças do Sistema haviam levado para sempre seu pai trabalhador, antes de ser “adotado” pelo Estado. Tinha por isso mesmo um ódio próprio, genuíno até à raiz dos cabelos à Nova Ordem.

Todos concordaram, a ideia era boa. Domingos aproveitou o ensejo e acrescentou: como já nos tratam como mortos nós vamos, então, também nos dedicar ao negócio da morte. Tem outra coisa que precisamos tornar clara entre a gente. Temos que nos comprometer a nunca, sob nenhuma circunstância, roubar qualquer coisa dos vivos. Precisamos que as pessoas que conosco convivem não somente nos respeitem como também em nós confiem. Por outro lado, concluiu, elas nos respeitarão se demonstrarmos união, se souberem que se alguém tocar em um de nós estará arrumando briga com todos os outros.

Sanjoan trouxe a proposta de Domingos para o popular. Ninguém esculacha quem quer que seja do grupo dos doze sem sangrar. Não tem negócio. Se algum malandro roubar comida do grupo vai apanhar até se arrepender. Se houver alcaguetagem, morre. Aqui é um por todos, todos por um!

Para que não fossem captados pelos drones, ao invés de palmas, todos acordaram com o polegar. Domingos retomou a fala. Havia muitas coisas que necessitavam ficar claras naquele grupo de futuros líderes da resistência que já se esboçava. Nós não vamos espalhar terror algum entre os moradores. Para isso bastam os Copas, mas temos que nos fazer respeitar e nisso concordo com  Sanjoan. E o grupo precisa se multiplicar. Todo aquele que não fizer uso das pílulas do bem estar ou que quiser parar de usá-las, poderá ser nosso companheiro. Além disso, há as novas pessoas trazidas pelos Copas para internação. Elas, na maioria dos casos, ainda não estão viciadas. Busquemos ser seus companheiros.

Companheiros, palavra que quando usada com sinceridade e propriedade é capaz de unir os espíritos que comungam juntos. E nunca mais ela seria esquecida enquanto a URT-1 existisse.

Voltando ao negócio dos mortos, o importante é levantarmos dinheiro para subornarmos algumas vigilâncias, adquirir algum alimento de contrabando e distribuirmos para nossos companheiros, para as crianças e para os mais desesperados pela fome e pelas doenças. Não vamos consentir que nos condenem a morrer com o rabo entre as pernas, juntos encontraremos maneiras de reagir. E a primeira ação que temos que desenvolver será a organização da solidariedade entre os desgraçados, ou seja, entre todos nós. Estando todos de acordo, ainda disse Domingos, Zelote chefiará o negócio dos mortos. Ele comandaria o segundo grupo de doze companheiros a ser formado.

Zelote então propôs que com o seu grupo iria fazer parte da brigada de busca e transporte dos mortos. Obteriam uma pequena remuneração, mas que pingaria todos os dias.

Acho que também temos que tentar fazer contato com o mundo de fora, com os proletários que são tratados como escravos por seus patrões. Falara Jeremias, fazendo jus à sua antiga profissão de mensageiro. Ele era um dos mais velhos moradores do Complexo, fora removido da antiga favela do Vidigal para o dito Alemão ainda antes de a Nova Ordem ser estabelecida, quando um empreendimento de expansão imobiliária fora iniciado. Fora removido à força, após ter o casebre e todos os pertences incendiados “acidentalmente” durante uma noite qualquer de outono.

Além disso, nós precisamos obter o máximo de autorizações para trabalho na Zona C. Para mim, infelizmente, foi ontem negada, disse Domingos e complementou que com o Sanjoan não deveriam nem tentar qualquer autorização. Ao primeiro que conseguir estar do outro lado da barreira eu pedirei que estabeleça alguns contatos, que nos serão necessários.

Ele pensava em Sophia, por motivos pessoais, e em Carlos, o baiano, seu colega na plataforma marítima. Não citaria nomes a não ser quando absolutamente necessário, afinal, aprendera com a tortura a falar exclusivamente o necessário com as pessoas e apenas com aquelas envolvidas em determinada ação.

Domingos, já descobrimos onde está quem desgraçou sua vida. Era Joana a falar. Nascida ali mesmo, no antigo Complexo das favelas da Maré, que na vida fizera de tudo um pouco, empregada doméstica, ladra, prostituta, catadora de lixo. Falei com Sara e ela me contou que enroscou o Domingos por fraqueza, porque é uma idiota; que quem a estuprou foi um Copa em uma das vezes que saiu para trabalhar. O bebê, que era dele, morreu duas semanas depois que veio para o Campo de Concentração (esse nome de rebatismo quem dera à URT fora Domingos, lembrando-se da Guerra Mundial que ocorrera há cem anos).  Agora, se o Domingos concordar, nós damos conta dela. Quem delata deve sangrar.

Não, amigos, ela foi torturada e havia parido naquela mesma noite. Nós não somos como o Sistema. Agradeço muito, mas não quero que lhe façam mal. Temos que ser solidários na dor. No Campo de Concentração podemos, no mínimo por nada mais termos a perder, sermos diferentes do que o Sistema espera. Somos os condenados da terra, a Nova Ordem espera que aqui dentro tenhamos uns com os outros o mesmo comportamento que ela tem com a gente. Que nos destruamos mutuamente. Temos que desenvolver o respeito e a amizade aqui, ou a vida que já não vale grande coisa, passará a não valer nada. Depois, Joana, você me levará até ela.

Foi então que Joana, com seu sorriso gostoso, anunciou uma boa nova: conseguira emprego na Zona C. Domingos não se conteve. Abraçou-a e disse-lhe ao ouvido, vou lhe confiar um segredo e você entregará uma mensagem num chip de celular para determinada pessoa que, depois, você esquecerá. Promete-me? Você tem como passar pela revista com um chip? Joana como que lhe piscando o olho respondeu, com um pouco de cheirinho, passará. Posso saber para quem? Para minha mulher, mas terá que chegar até ela por outras pessoas. É justo meu mano, só preparar o chip que entrego.

Lentamente, a humanização dos deserdados da vida era despertada pelo trabalho e exemplo de uns poucos. Domingos, o operário, em pouco tempo tornara-se líder no pequeno grupo dos desesperados que se negavam a serem dopados e mantidos como desgraçados à espera da morte. Pequeno grupo que cresceria com a malandragem de Sanjoan, com a força de um Zelote, o empenho de Jeremias e a astúcia de Joana. Em todos esses espíritos a semente da revolta começava a germinar, humanizando-os e exigindo o troco pela existência vil a que haviam sido condenados. Afinal, a história da humanidade não fora sempre assim? Por que seria diferente em 2039?

  • Surge um primeiro panfleto contestador

A plataforma de extração marítima de petróleo do pré-sal, a P 66- 6, chamada de “Pra Frente Brasil”, conseguira atingir o patamar histórico de produção de duzentos mil barris de óleo por dia, assim como de dois milhões de metros cúbicos de gás, o que a creditava como número um em todo o mundo. A diretoria da “Standard Oil and Gas”, a empresa global responsável pela exploração do campo, decidira, em comum acordo com o sindicato da categoria, celebrar o evento.

Em meio ao trabalho extenuante de quinze dias consecutivos, os trabalhadores ganharam um período extra de descanso para a comemoração. A produção entrou, pela primeira vez desde a inauguração há cinco anos em stand by e todos os trabalhadores foram chamados para celebrar, exceto aqueles vinculados aos setores de segurança do processo. Todos se reuniram no grande espaço na plataforma localizada acima do tanque de drenagem de bombordo para ouvirem a palavra do gerente, do delegado sindical e de um dos representantes dos trabalhadores por eles escolhido.

Aproveitando-se do momento festivo, Carlos e uns poucos companheiros reuniram-se num dos recantos de descanso, mantido excepcionalmente no escuro, com as câmaras desligadas por um defeito qualquer.

No dia seguinte aos festejos, misteriosamente, nas mãos de quase todos os trabalhadores apareceu um panfleto, com um texto que a muitos causou surpresa e descoberta, a outros, alegria, e em muito poucos, raiva.

Dizia: “Companheiros, o dia de ontem simbolizou uma conquista do trabalho, mas também e principalmente um lucro incomparável do capital. É com o nosso sangue e suor, no mar do Brasil, que a plataforma é hoje a primeira em todo o planeta a produzir óleo e gás. Nós sabemos que vivemos num país onde a exploração chegou a um ponto em que não somos mais que números nas mãos de burocratas e de pelegos sindicais. A repressão a toda e qualquer reivindicação é brutal, e qualquer tentativa de mudança é uma agressão ao Estado. A nossa vida, assim como a dos pobres desgraçados dos urtianos, que são dopados para que morram sem aborrecer os ricos e poderosos desse país, nada vale”.

E prosseguia: “Mas a vida não foi sempre assim e nem pode seguir sendo assim. A Nova Ordem significa a escravidão dos trabalhadores e o extermínio planejado dos pobres, daqueles que já não têm muita serventia para o Sistema. Os poderosos excluíram do mundo valores como o amor, a fraternidade e a solidariedade. Criaram uma sociedade assassina, policial, esmagadora. Os direitos dos humanos foram aniquilados há quase vinte anos. O Sistema pretende a cada dia destruir todo e qualquer anseio por liberdade. Mas não o conseguirá! É chegada a hora da revolta, de dizermos NÃO! Precisamos nos unir contra esse estado imposto e nos organizarmos. Juntos, com coragem e luta poderemos exigir que nos considerem como seres humanos! Abaixo a escravidão, LIBERDADE ou MORTE!”

“P.S.: Quando terminar de ler esse folheto, rasgue-o, jogue-o fora, não repasse a ninguém que não seja um companheiro de confiança!”

Logo após o surgimento dos panfletos, um barco de deslocamento rápido vindo do cais aportou na plataforma trazendo a bordo investigadores da Divisão de Ordem Interna acompanhados por Copas, aqueles dos chamados “serviços especiais”. Antes do cair da noite o barco partiu levando consigo cinco homens algemados, dentre eles Josué, um técnico de alta qualificação e Eduardo, o amigo de Domingos, operário dos mais antigos, que em dois meses se aposentaria.

O serviço social da “Standard Oil and Gas Corporation” tornou a convocar os operários, agora por turnos, para o cinema. Antes que um filme qualquer fosse exibido, o locutor leu, a cada sessão, um comunicado oficial da plataforma marítima “Pra frente Brasil”, de repúdio aos subversivos e perigosos terroristas infiltrados entre os bons trabalhadores, os verdadeiros chefes de família.

O Sindicato dos Petroleiros também emitiu rapidamente um comunicado declarando o panfleto apócrifo uma ingratidão para com a Nova Ordem, escrito por aqueles que esqueciam todos os benefícios sociais de que os operários usufruíam. Que os autores do mesmo, que não tinham a coragem de buscar um diálogo franco com as autoridades e nem com o seu próprio representante, o Sindicato, não mereciam crédito. Por fim, dizia claramente que o chamamento à revolta era obra de covardes, de maus brasileiros que não acreditavam em Deus, que traria o mal para as famílias dos verdadeiros patriotas. Que os companheiros não pensassem duas vezes em apontar, perante seus líderes, quem eram os distribuidores do panfleto e que, aqueles que o fizessem seriam plenamente recompensados.

Carlos e seus amigos mais próximos haviam se distribuído pelo cinema. Ele comunicou-lhes que apenas Eduardo, como uma pessoa próxima ao grupo havia sido preso. Os outros, talvez o tivessem sido devido à delação de algum trabalhador do time dos conhecidos puxa-sacos. Carlos, que tinha quase a mesma idade de Eduardo, afiançou aos companheiros que eles não deveriam temer nenhuma traição, pois o conhecia de longa data e que aquele velho operário não colaboraria com o inimigo. Mas, por via das dúvidas, a tortura era terrível e pediu que todos se cuidassem, que se desfizessem de todo material que pudesse comprometê-los e que nada fosse comentado em família ou com os amigos.

Propositalmente, entretanto, Carlos se calara sobre a prisão de Josué, um companheiro cuja ligação exclusiva era com ele próprio.

Ao final da sessão de cinema, quando as lâmpadas se acenderam, uma pessoa não levantou da cadeira onde se sentara. Seu pescoço fora quebrado.

  • Uma via crucis

Os cinco trabalhadores presos foram levados para o Centro de Investigação e Detenção destinado às Operações de Defesa da Ordem Interna. Lá, seguindo um protocolo, foram todos eles obrigados a se desnudarem e empurrados para pequenas celas de isolamento individual.

Os investigadores as denominavam de “jaula de anão”. Eram caixas de um metro e trinta centímetros em todas as dimensões, onde uma pessoa jamais conseguiria erguer-se e nem deitar-se, seus músculos e articulações mantidos em permanente retesamento. Os cubículos eram, também, hermeticamente fechados. Os carcereiros detinham o controle de todas as variáveis internas: o fluxo de oxigênio, a regulagem da temperatura que permitia que os presos fossem submetidos, intermitentemente, aos extremos de calor e de frio, um sistema de alto falantes que transmitiam determinadas variedades de sons, desde os gritos de pessoas sob tortura até músicas, sempre em níveis de decibéis capazes de explodirem os tímpanos mais sensíveis. Cada movimento do detido era, além disso, controlado por câmaras embutidas e por microfones; ordens de “sente-se”, “levante-se”, eram constantemente emitidas. Em caso de desobediência, os circuitos internos eram acionados e as paredes da cela passavam a emitir choques elétricos.

Permitiam-se de tanto em tanto alguns instantes de sono e o despertar era feito ou por descargas elétricas ou por sons estridentes. O jogo da tortura era fazer com que o prisioneiro jamais pudesse imaginar o que o aguardaria no momento seguinte.

Por outro lado, todas as necessidades fisiológicas dos prisioneiros eram realizadas na própria “jaula”. A merda e a urina acumulavam-se, muitas vezes adicionadas ao vômito e ao suor que escorria dos corpos indefesos.

Quando necessário, para que um preso não morresse de fome ou de sede, antes do interrogatório propriamente dito que viria a seguir, os policiais abriam um pequeno vão na porta e empurravam alguma água ou um pedaço de pão seco imerso em um líquido amorfo.

Essa etapa quando da detenção de possíveis inimigos do Estado não era obrigatória, mas sim, altamente recomendável e quase sempre considerada como norma rotineira. O Sistema de Informações preconizava a sua utilização para o “amaciamento do prisioneiro”.  Já o tempo de permanência na jaula era bastante variável, podendo durar algumas horas ou, mesmo, dias. Como sempre havia o risco de que um preso enlouquecesse, e a experiência dos investigadores indicava quando determinado preso já não suportaria uma permanência maior na “jaula”, davam-lhe algum “sossego”.

Logo no segundo dia após a prisão três operários receberam ordem para deixarem suas celas. Incapacitados de caminhar foram carregados pelos braços até uma ducha fria. De seus corpos imersos em merda, urina e suor, subia um forte odor que obrigava os carcereiros ao uso de máscaras e sprays perfumados eram aspergidos no ambiente.

Após a ducha aplicada, deram-lhes alguma roupa básica, serviram-lhes água à vontade e uma sopa de farinha e foram deixados para recuperação em uma cela coletiva, sem nenhum interrogatório.

Algum tempo após foram colocados frente a uma tela de plasma e um senhor engravatado comunicou-lhes que seriam transportados para suas casas, pois o Estado nada apurara contra os mesmos. Mas que a prisão lhes servisse de alerta, a autoridade tinha olhos em todos os lugares! E mais: nada do que haviam visto ou passado poderia ser comentado com quem quer que fosse sob pena de voltarem às “jaulas”, agora sim, sob acusação de agitação política! Para a libertação deveriam ainda assinar um termo em que agradeciam ao Departamento de Defesa da Ordem Interna pela cordialidade com que haviam sido tratados, sendo testemunhas, em qualquer caso, de que nenhum operário, em sua presença, jamais havia sofrido qualquer tipo de agressão física ou psicológica.

O mesmo tratamento benevolente, entretanto, não havia sido reservado para Josué e muito menos para o mais velho, Eduardo. Após cinco dias de solitária na “jaula” foram submetidos, separadamente, ao primeiro interrogatório no qual os torturadores exigiam os nomes de outros agitadores, a que organização delinquente eles pertenceriam, como se organizavam, quais eram seus objetivos, etc., etc..

 

Entende-se que por quase dez anos os Serviços de Inteligência tinham tido pouco trabalho e que, de certa forma, haviam perdido a mão fina para interrogatórios mais sofisticados. Depois das batalhas de rua dos anos dez, da violenta repressão desencadeada nos anos vinte, praticamente pouco sobrara da resistência dos jovens e dos trabalhadores, assim como da imensa massa daqueles que nada possuíam na vida, contra a Nova Paz Social. O pacto da Nova Ordem, imposto pelos poderosos com suas novas leis, polícias e seus sequazes, implantara-se sobre muita dor, tortura e sangue, que haviam exaurido os movimentos sociais e massacrado suas lideranças.

Mas depois que as separações sócio-econômicas haviam sido concluídas, apartando os diferentes; que os resquícios de quaisquer pruridos a respeito dos direitos humanos e da ironia das igualdades perante desiguais haviam sido abolidos; que a instauração dos Copas como força altamente organizada, disciplinada e implantada sem nenhum dos escrúpulos do passado tornara-se uma realidade e que o avanço tecnológico que permitia praticamente o controle de cada cidadão, tudo isso propiciara a disseminação do medo, do terror e da aversão à pratica da contestação política.

Ao mesmo tempo, a economia do país se desenvolvera, o Brasil enriquecera como nunca com os campos de óleo e gás das camadas do pré e do pós-sal, assim como com o faturamento das usinas de processamento do xisto betuminoso. De tal modo que propiciara um nível de abastança e riquezas jamais imaginadas pelas classes médias e altas, elas que haviam se encarregado de construir uma sociedade decadente em que o consumismo, o exibicionismo, o divertir-se, nunca tinham fim.

Depois de quase uma década de quase absoluta calmaria como poucas classes dominantes antes haviam podido vivenciar, nos últimos tempos alguns sinais de alerta tinham sido acionados. Parecia que os revoltosos de forma lenta, mas inexorável, retornavam de suas tumbas, no dizer de um dos chefes de Equipe de Interrogatório, daqueles com maior experiência por estarem no serviço há quase trinta anos.

 

De certa forma, o dedo-duro cujo pescoço fora partido no cinema da plataforma “Pra frente Brasil”, contribuiu para uma sorte melhor destinada a Josué. Durante um dos interrogatórios, enquanto choques elétricos eram aplicados em seus escrotos e na língua, um dos Agentes do Estado, perante todas as negativas do preso, perguntou-lhe: e por que teriam matado o cara para quem você deu o panfleto? Josué descobriu o porquê de sua prisão e tortura. Amparou-se nisso. Caso não suportasse a tortura seria morto e ainda arrastaria mais gente. Pedi para que o Tonhão jogasse fora aquele papel que eu nem mesmo lera. Ele era meu amigo, colega de equipe de trabalho. O senhor está dizendo que o mataram, eu sinto muito, mas não tenho ideia do porquê. Minha prisão não deve ter nada a ver com isso.

Josué firmou-se sempre no mesmo ponto da história. Depois de algumas horas de interrogatório retornou, quem diria com certo alívio, para a “jaula”, onde permaneceu por ainda uma noite, antes que o enviassem para a cela coletiva. Voltaria ao interrogatório, mas a violência física que sofrera, agora era apenas uma ameaça velada.

A mesma sorte não estava reservada a Eduardo. Aquela não era a sua primeira prisão. Antes de a Nova Ordem ser implantada, estivera em determinada lista do pessoal de informações. Mas o tempo passara e dele a autoridade havia se esquecido. No entanto, há dois anos fora acusado de “fraudar as regras de convivência social”, ao prestar solidariedade a um urtiano, evitando que fosse espancado pelos Copas. Por isso cumprira quinze dias de detenção em um CID comum. Mas agora era diferente. Ele era um dos sobreviventes de um passado em que os revoltados brotavam de quase todas as classes sociais, principalmente dentre os trabalhadores. Sobre ele a mão implacável da Nova Ordem desabou com todo o peso.

Percorreu uma “via crucis” antes que a morte o socorresse. Por mais de quinze dias foi, dia e noite, interrogado. Nada lhe pouparam de toda a técnica conhecida pelo aparelho investigador do Estado. Choques elétricos, pau de arara, afogamentos, espancamentos. O método da injeção “indutora da verdade”, apesar de aplicado pelas mãos competentes de um médico, não produziu os resultados esperados, mas permitiu que Eduardo repousasse por mais de seis horas, seu penúltimo repouso. Quando acordou, uma última tentativa para que delatasse seus companheiros foi feita pelos assassinos. Amarram-no numa mesa de ferro, e em meio a choques elétricos, com o uso se uma furadeira lhe perfuram um olho. Quando lhe decepavam os primeiros dedos da mão direita, a morte o acolheu em seus braços, protegendo-o e isolando-o dos algozes.

Quando a morte de Eduardo foi conhecida pela estrutura do Sistema de Informação, o comandante da Unidade foi imediatamente afastado. Com a morte mais ou menos rápida de Eduardo, perdera-se uma fonte de informações que poderia ter sido preciosa, pois o Sistema estava atuando às cegas. E tudo por haver sido o preso confiado aos “idiotas” dos Copas dos “serviços especiais”, que tinham se metido a esquartejar um subversivo em vida.

Ao mesmo tempo, a estrutura acionou Phelps de Andrade para cobrá-lo a respeito dos resultados na produção biogenética de Copas mais confiáveis. O Sistema tinha pressa, que o sueco pago a peso de ouro se apressasse em suas pesquisas.

Josué, por seu lado, recebeu uma condenação por “distribuir material subversivo”. Foi sentenciado à internação em uma URT por tempo indeterminado, “até que comprove sua recuperação moral e espiritual perante as leis e as regras da Nova Ordem”. Numa manhã de domingo o despejaram na URT-1.

  • O verdadeiro sentido de determinada palavra

Alguns meses haviam se passaram desde que Domingos fora arrancado do convívio de Sophia e de seus filhos. Nos primeiros tempos ela tinha o hábito quase diário de dirigir-se ao Administrador e perguntar sobre novidades no processo do marido ou pedir alguma previsão sobre possível visita. Invariavelmente, um empolado assessor, implantando nos lábios o mesmo esgar de praxe, repetia-lhe a frase de encomenda. Companheira, não se dê o trabalho de vir até aqui, pois nada há que possa ser feito. Assim que houver novidades nós a chamaremos. Confie em nossas autoridades. Tudo dará certo e da melhor maneira possível. Na frase final inevitável de despedida, “cuide de sua família”, a ameaça embutida da perda da guarda dos filhos. Percebendo a inocuidade dos seus esforços ela foi rareando as cobranças, até que essas se transformassem em semanais e, depois, mensais, apenas para marcar posição.

Por outro lado, ao mesmo tempo em que sua visibilidade declinava para o Sistema, ela ampliava as visitas ao senhor Archibaldo. E quantas surpresas não a aguardavam num processo contínuo de aprender sobre a vida. Aos poucos ela viu que muita gente, que dela se escondia desde a prisão do marido, também frequentava vez ou outra o apartamento do operário aposentado. Sophia foi se conscientizando de que pequenas coisas mudavam no seu interior, ou seria a dor da perda que, gradualmente, obrigava o medo a ceder espaço à fraternidade? Percebeu que sua desgraça poderia ser compartida, pois ela não era de modo algum única, como antes imaginara. De repente, descobria que a compaixão podia unir e dar força às pessoas mesmo quando estas estivessem atravessando os abismos mais profundos. Era a partir desses pequenos quartos, cujas portas nunca eram trancadas ao anoitecer, quem sabe quantos existiriam pela imensa Zona C, que “pequenas flores brotavam do pântano”, de que um dia o velho lhe falara. Lentamente, ela também compreendeu o verdadeiro valor sentido e compartilhado do termo companheiro.

Archibaldo, por seu lado, sentia-se cada vez mais próximo de Sophia. Próximo e confiante. Um dia em que o visitava, o velho tirou o par de óculos, olhou Sophia na profundidade de sua alma e perguntou-lhe se não gostaria de fazer parte de uma rede de solidariedade. Ela deveria saber que essa atitude representava certo risco a ser assumido, para o qual deveria estar preparada.

Sophia aprendera com a vida e com o que sucedera a seu marido a odiar em silêncio a Ordem e o Sistema que os escravizavam. Compreendera que seria uma forma de enfrentar a Nova Ordem no seu calcanhar de Aquiles, que a prática da fraternidade humana que aquela tentava permanentemente abolir era a flecha mais certeira a ser disparada. No entanto, o medo de perder a guarda dos filhos tolhia-lhe os movimentos. Pediu algum tempo para pensar.

Era uma decisão extremamente difícil de ser tomada. Resolveu conversar com o filho. Sem contar-lhe nada sobre o plano, perguntou-lhe a opinião sobre a ajuda entre as pessoas. Qual a imensa surpresa quando Samuel abraçou-a, mamãe, o que somos nós os pobres se um não ajudarmos uns aos outros?  Sophia, como única resposta beijou-o intensamente. A resposta a Archibaldo estava pronta para ser dada, saíra dos lábios de um pré-adolescente.

A rede de solidariedade tinha por objetivo a ajuda financeira às famílias em apuros, não importando se as dificuldades surgidas fossem devido a prisões, à perda do emprego, doenças ou à morte de um dos membros de determinada família.

A situação da viúva do operário Eduardo era muito pior que a de Sophia. Acabara de receber a notícia, dada pelo escritório do Administrador de que Eduardo era um terrorista que se suicidara na prisão, tão forte fora o seu arrependimento quando confrontado com as ações subversivas e destruidoras que realizara. Quanto ao corpo, a viúva não o teria, pois infelizmente, os corpos dos inimigos do Estado eram automaticamente enviados à incineração. Apenas um relógio, a caneta e as roupas do morto lhe foram entregues.

Naturalmente as famílias dos inimigos do Estado, quando eles faleciam, eram desmembradas e a viúva não tinha direito a aposentadoria alguma. No caso da viúva de Eduardo, como eles não possuíam filhos em idade que pudessem vir a ser “adotados pelo Estado”, a regra dizia que ela poderia residir no bloco da área C desde que pudesse se alimentar sem o auxílio social. Caso contrário sofreria remoção para algum Abrigo Social, que as pessoas jamais haviam acreditado que existisse. O que todos achavam é que o destino certo era um das URTs, onde a morte seria acelerada.

Somente agora Sophia tomara conhecimento sobre aquele trabalhador bem humorado que sempre tomava o ônibus com o marido. E que, por seu lado, ele era um velho conhecido e companheiro de Archibaldo.  A primeira incumbência que Sophia recebeu foi organizar a solidariedade a Tia Maria, a viúva do operário assassinado. Um dia ambas se encontraram no apartamento do velho aposentado. Abraçaram-se e recusaram-se a ocultar de quem quer que fosse o vínculo de amizade que as unia.

Na coletividade havia mulheres de certa idade, hábeis em tecer rendas manuais que, vendidas por preços pequenos a intermediários, alcançavam valor dentre as classes A e B. Sophia contatou-as, contou-lhes a história de Tia Maria e, qual não foi sua surpresa com a boa vontade com que as mulheres rendeiras concordaram em acelerar a produção e na aceitação imediata ao ensino da técnica para a viúva do companheiro assassinado.

Após isso, Sophia deu um segundo passo, não sem certo receio. Conversou com Anna, sua patroa, buscando convencê-la de que ela, sem o Domingos, precisava de uma renda extra. Que produzia, com algumas amigas, rendas manuais de boa qualidade. Não foi muito complicado convencê-la a comprá-las e mesmo a realizar encomendas. Em pouco tempo, como a rede de amizades da patroa era grande, sendo as rendas belíssimas e o preço muito mais barato que o exigido nos shoppings, o pequeno comércio tornou-se viável.

De tal maneira que uma primeira rede de auxílio mútuo foi estabelecida entre as mulheres do bloco C denominado “O Lar dos Iguais”. Afinal, pensou Sophia, o Sistema é poderoso, nos destrói, mas muitos medos somos nós mesmos que os criamos e eles nos empurram ao isolamento, uma maneira de impedir que construamos a fraternidade.

Nos domingos pela manhã Sophia se desfazia de todos os compromissos e mantinha a rotina de levar os filhos à praia. E foi, inesperadamente, que num desses dias ensolarados do mês de setembro, ela observou um homem de pele bem morena, meio careca, forte, que procurava algo na areia. Caminhava de um lado para o outro, aparentemente, sem nada encontrar. A Sophia ele lhe parecia levemente familiar. Sentada na areia viu, então, um pequeno pedaço de papel quase a seus pés. “Levante-se, deixe seu celular cair na areia. O bilhete, disfarçadamente, coloque-o na boca e engula-o”. Ela pegou-o, realizou um movimento como se limpasse os próprios dentes e ao levantar-se fez com que o celular caísse casualmente da bolsa e caminhou lentamente ao encontro dos filhos na beira-mar. Quando voltou, o homem havia desaparecido e um celular que ela poderia jurar que seria o seu próprio estava praticamente no mesmo lugar onde o havia deixado cair.

Chegando a casa, deixou os filhos no quarto e trancou-se para ver a mensagem que ele deveria conter. Como num sonho, a imagem e a voz amada de Domingos surgiram-lhe.  Contavam, em resumidas palavras, a história de sua prisão, compartia sua tristeza e saudades; pedia-lhe, entretanto, que não alimentasse esperanças de que eles voltassem a se reencontrar e a viverem juntos. Sophia precisava ser forte para tocar a vida e criar os filhos que eles tanto amavam. Que não se preocupasse com ele, já fizera amigos e sabia muito bem se defender, que mesmo do lugar onde estava, recebera e voltaria a receber informações suas e dos filhos; que os sabia bem, e muito se orgulhava das atitudes que ela estava tomando na construção da fraternidade. Que a amava e a admirava ainda mais que antes.

Sophia provou os lábios salgados das lágrimas que escorriam de seus olhos e seu suspiro foi de tristeza. Após o primeiro impacto, outro sentimento se juntou a este, um sentir muito forte de orgulho por seu homem, por seu amante, por seu companheiro de toda a vida. Domingos ainda lhe dizia que combateria a Nova Ordem até o último instante que respirasse. Já que fora exilado junto aos urtianos, um lugar de onde poucos conseguiam sair, a eles se juntaria; o ódio que o Sistema devotava a ele e a seus companheiros de sina seria pago com uma “ira santa, com o ódio dos humilhados e ofendidos”. Por fim, pedia-lhe que, por motivos de segurança, destruísse o chip imediatamente.

Sophia não conseguiu fazê-lo de imediato. Precisava compartir com duas pessoas. Chamou Samuel, seu filho que tanto amadurecera prematuramente e que, de certa forma, tornara-se seu confidente. Abraçados, ela tornou a ver e a ouvir toda a mensagem. Tenho orgulho de meu pai e quero lutar para destruir esses filhos da puta! Samuel, nunca diga isso a ninguém mais, vivemos numa sociedade em que tudo é perigoso para os pobres e para os trabalhadores. Temos que nos vigiar para resistir, entendeu? Boca calada, ouvidos abertos, meu filho! Um dia chegara a sua vez de agir, não precipite nada! Eu e seu pai confiamos em você!

Deixou-o e subiu alguns degraus até o apartamento de Archibaldo. Naquela noite o chip se evaporou ao calor de uma vela no quarto do aposentado, unindo para sempre aqueles corações e mentes que pulsavam em uníssono.

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