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“2039: Ficção ou Profecia?”

V. Dies irae

  • Um sermão visionário

Domingos acostumara-se atravessar o Portal e sentar-se nas proximidades desse, no pátio. Lá se deixava ficar no jardim mal cuidado que abrigava bancos fabricados com divisões que impediam, propositadamente, que as pessoas neles se deitassem. Mas sentar-se já o satisfazia. De seu acento ele tinha um ponto de visão privilegiado, ao  controlar a chegada de novos “reeducandos”, sempre trazidos pelos Copas nas manhãs.

Os maus cheiros que se irradiavam das vielas das favelas, chegavam até ali de uma forma um pouco mais atenuada. O jardim abrigava algumas árvores que de quando em quando serviam de ninhos às poucas espécies de pássaros que haviam aprendido a sobreviver num mundo onde tudo era poluído. Normalmente eram pombas e pardais resistentes aos quais os imbatíveis urubus costumavam fazer companhia.

Enquanto fosse permitido, Domingos decidira se estabelecer desde o nascer do sol até lá pelas dez horas, em seu assento favorito.

Em um ângulo de noventa graus com o Portal havia duas grandes construções. Uma delas era um enorme e portentoso templo de uma autodenominada Igreja Mundial do Reino do Senhor, a outra, precisamente no lado oposto, um decadente estádio de futebol. Tanto num quanto no outro a frequência exclusiva era dos urpianos.

Manhã de domingo, dia do culto. Este costumava atrair muita gente, quem saberia quantas, milhares talvez. Nesse, não era diferente. Tantas que centenas de pessoas não conseguiam entrar no prédio e ficavam pacientemente em pé e em frente a uma imensa tela de plasma afixada na parte superior do Templo.

Os sons dos alto-falantes externos obrigavam Domingos a escutar o pastor a esbravejar anunciando tanto a chegada a todos os mortais do dia da primeira morte quanto da proximidade daquela definitiva, ou seja, a morte e a ressurreição do Juízo Final, num Apocalipse que se avizinhava:

“Meus irmãos, agora é chegada a vez de Deus. E ele não poderá ser enganado e nem ter os olhos fechados, pois todos os pecados sairão de seus esconderijos, do fundo de nossa pobre natureza humana corrompida. Do que adianta ter sido um grande na terra, ou um miserável? De que vale ser um homem da alta sociedade ou alguém que a própria sociedade julgou poder dar uma vida melhor, recuperando-o numa URT? Nada eu vos afirmo!”

“Todos, quer sejam os grandes ou os pequenos como vós, não importa, serão iguais diante da grande mesa do Julgador. E Ele recompensará os justos e punirá os culpados. E não tardará nem uma fração de segundos para que o julgamento da alma de um homem seja concluído. Num instante após a morte e a alma já será pesada numa balança, e, então, ou ela passará para a morada da felicidade celestial, ou irá para a prisão do purgatório ou, ainda, quando os pecados muito pesarem, ela será arremessada com toda fúria e rugirá no inferno”.

“Mas não basta a Deus um primeiro julgamento, esse que eu descrevi e que ocorre logo após a morte de cada um de nós. Não, a justiça divina precisa vingar-se aos olhos de todos os homens num dia D, aquele do Juízo Final. E é a chegada do Fim do Mundo, o final dos Tempos, que eu, humilde servo, dessa tribuna venho a todos anunciar! O acerto final de todas as contas, o fim de todos os Tempos, que, ao longe, ouço que os anjos já nos anunciam com seus cânticos e com suas trombetas!”

“E eis que o grande Momento está chegando; e nesse então, surgirá aquele que um dia nasceu junto aos homens como o Bom Pastor, o manso Cordeiro de Deus, o humilde Jesus de Nazaré. Mas Ele voltará transfigurado! Nós todos, os pobres humanos, iremos vê-lo no alto do céu, em todo o seu poder e majestade, rodeado pela enorme corte dos anjos e arcanjos, querubins e serafins. É Cristo que voltará à Terra como nos prometeu, mas que surgirá como um Deus Onipotente, Implacável, o Deus da Vingança!”

“Então, meus filhos, Ele, o Juiz Supremo, chamará os justos para seu lado direito, o lado dos ordeiros, o lado bom, daqueles que se arrependeram de seus pecados e ofereceram sua alma ao Senhor. Ordenará que estes entrem para o reino da felicidade eterna. Aos injustos, aos descontentes, aos revoltados, aos pecadores, aos invejosos, ele os enxotará pela esquerda, o lado de Caim, com ódio por sua presença. Dirá, então: ‘Afastai-vos de mim, oh malditos, ide para o fogo eterno preparado pelo demônio e por seus anjos! ’”

 “Nesse instante o Inferno alargará a sua garganta faminta e abrirá a sua boca”, bradou o pregador. “E o que é o inferno senão uma estreita, negra, sórdida prisão fétida, cheia de fogo e fumaça? É uma prisão feita por Deus para aqueles que se recusam a seguir as suas Leis, para aqueles que ousam se rebelar contra o destino que Ele preparou para cada mortal! Esses desgraçados permanecerão para todo o sempre nas trevas, onde arde o fogo infernal, um tipo de chamas que não emite luz, mas arde eternamente em meio a uma tempestade que jamais se extingue, feita de negras chamas e da fumaça de enxofre líquido a arder sobre os corpos dos amaldiçoados.”

“Nunca esqueçam nem por um minuto, o fogo do inferno Deus o fez para torturar e punir o pecador sem arrependimento. E o pior dos crimes é revoltar-se contra as leis, contra o destino que a cada um cumpre seguir na Terra, mesmo porque esse destino foi traçado por Ele!” “Arrependei-vos hoje e agora de vossos pecados, livrai-vos do espírito maldito da revolta, irmãos! Agora, ajoelhai-vos irmãos, os Dias de Ira do Senhor se aproximam. Sou eu, o pastor de minhas ovelhas que anuncio a chegada do Apocalipse!”

“Tenham fé, expulsem de seus corpos o Tinhoso e de vossas companhias os desordeiros e os revoltados da alma. Arrependei-vos agora, irmãos! Amém! Amém! Fora Satanás!”

Nesse instante o som amplificou-se, com cada crente batendo no peito e enxotando Satanás junto com seus pecados. Ao mesmo tempo, algumas “irmãs” de roupas brancas coletavam o dinheiro miúdo depositado pelos pobres fiéis em grandes sacolas.

 

Quanto mais penosa é a vida para os homens, quão mais oprimido e miserável é o povo, mais ele sonha, ou melhor, mais o fazem sonhar com as recompensas do Céu, desde que ele se submeta ao destino da miséria terrestre. Pela cabeça de Domingos esse pensamento passou como uma fagulha, pois o atropelou outro muito mais terreno: como arrecadar um dinheirinho extra para o caixa comunitário. No entanto, ele sabia que teria que aguardar o momento certo para a ação. Primeiro os corações dos atormentados pelas palavras do pastor teriam de ser conquistados para algum tipo de esperança na Terra. E só então, o pastor seria expulso e com as mãos abanando.

Foi nesse dia, quase ao término do culto, que ele julgou reconhecer um novo “reeducando” que chegava à Unidade. Esperou que a pessoa que se locomovia lentamente com a ajuda de uma bengala se afastasse dos controles do Portal e, perdido, buscasse qualquer uma das vielas para embrenhar-se, para somente então partir ao seu encontro.

  • Um reforço inesperado

O grupo dos companheiros organizado por Domingos, sempre tinha um de seus integrantes designado para auxiliar os recém- chegados, ajudando-os numa hora tão difícil a buscar um abrigo, oferecendo-lhes também alguma comida, toda a solidariedade possível. Por isso, muitas das adesões ao grupo eram devidas aos novos internos, que haviam sido conscientizados a não se permitirem narcotizar pelas pílulas do bem estar social e adentravam na unidade encontrando o lenitivo da solidariedade após o sofrimento.

Por isso, quando Domingos se aproximou, Jeremias já entabulava conversação com Josué, sempre disfarçando dos drones atentos com suas câmaras vigilantes. No entanto, quase de imediato os dois colegas de trabalho reconheceram-se e eles possuíam tantos assuntos a tratar!

Josué já no dia seguinte passou a pertencer aos grupos dos revoltosos. Domingos sabia que com ele a camaradagem se ampliava e o grupo de companheiros ganhava muito ao contar com um homem especializado em informática e comunicações.

Os grupos dos companheiros multiplicavam-se a cada dia que passava. Domingos que fora o responsável pelo grupo inicial de doze companheiros, teve que se retirar para assumir a coordenação de todos os grupos de trabalho, que já eram em numero de cinco. Sanjoan assumira a responsabilidade da operação com os “mortos”, enquanto que Jeremias e Zelote preparavam grupos em treinamentos de autodefesa.

De parte dos urtianos, mesmo daqueles mais tomados pelo uso do narcótico, estes mantinham com os grupos de companheiros uma relação de respeito. Floresceram mesmos novos tipos de comportamentos e envolvimentos, muito além do exclusivo respeito.

Para a maioria dos degredados, pela primeira vez na vida, os efeitos dos atos solidários faziam-se sentir e tocavam-nos nos corações entorpecidos. Atos de fraternidade eram uma incomensurável descoberta, propiciada não apenas pelo pequeno estoque de roupas e de comidas que Zelote e Jeremias tão bem administravam, como pela atitude de benevolência que os companheiros disseminavam entre as pessoas.

De certa forma, o socorro aos mais necessitados transformava os homens e essa transformação se espraiava rapidamente dentre os mais desgraçados seres da Terra, descobrindo em cada um deles reservas morais inusitadas.

A grande novidade que chegava com Josué era a notícia do panfleto distribuído na plataforma de extração de petróleo e que tanta preocupação trouxera ao Sistema.  Domingos e seus amigos mal podiam conter-se de tamanho entusiasmo. Josué conhecia partes de cor do documento como, por exemplo, o seu final: “Abaixo a escravidão, liberdade ou morte!” Aquelas palavras de ordem que, tal qual magia, terminariam por se tornar as palavras de todo o gueto.

Para Domingos e seus amigos, era chegado o momento da conscientização e da preparação das pessoas para a resistência; dizer a todos que ainda tivessem a capacidade de reagir que a revolta contra a opressão também acontecia entre os operários, apesar do Sistema, dos Copas, da Divisão de Operações Internas, das regras e das leis, enfim, de todo o monstruoso aparato social montado para a escravização, para a intimidação, para violência, para o terror e para a morte.

Os companheiros que eram alfabetizados conseguiram papel e caneta e se encarregaram de realizar tantas cópias de um pequeno panfleto quantas pudessem, baseado na memória de Josué, até que as mãos pouco acostumadas fossem paralisadas por câimbras. Os mais dotados de boas letras, fizeram, então, grandes cartazes que na noite do sábado seguinte, a cada distração de um drone, ganhavam seus lugares, colados nos muros decadentes, com a inscrição: “ABAIXO A ESCRAVIDÃO, LIBERDADE OU MORTE!”

Josué pediu uma conversa reservada com Domingos. Antes que isso aqui ferva, preciso fazer chegar uma frase muito importante para o Carlos baiano, você tem como me ajudar? Por sorte Joana prestava serviço justamente no bloco em que o trabalhador residia e fora por seu intermédio que Carlos recebera o chip com a mensagem entregue a Sophia. Temos, sim. A pessoa é de total confiança. Diga-lhe que Josué manda um abraço de Armagedon 39. Somente isso? Somente e exatamente isso, companheiro, por favor, que o mensageiro repita a frase pelo menos dez vezes antes de partir, não se pode errar.

  • A preparação para o Apocalípse

Num domingo, o pastor que vinha de moto fazer suas preleções contra Satã e os pecados humanos, deparou-se com uma Igreja esvaziada. Havia menos da metade dos crentes que, normalmente, lotavam todos os espaços. E nos bancos da frente notou que se sentavam pessoas desconhecidas e que pareciam pouco empolgadas com a prédica. Ao final da mesma, as devotas vestidas de branco, começaram a recolher os óbolos. É verdade que o dia decepcionara.

Quando o pastor foi apossar-se, como sempre o fazia das contribuições teve uma surpresa. Dois homens arrebataram-lhe os sacos com donativos. Outro, tomando o microfone disse que o dinheiro que jamais chegara a Deus teria agora uma melhor utilidade, iria para o caixa do auxílio mútuo comunitário, mas que, se algum dos presentes o desejasse, o donativo lhe seria devolvido. O silêncio se fez. Ninguém pediu a devolução de seu suado dinheiro obtido no trabalho escravo na Zona C, a dos trabalhadores. Um dos companheiros aproximou-se então do pastor e deu-lhe cinco minutos para que desaparecesse para sempre dali, ou veria “ainda agorinha o dia do juízo final acontecer com ele mesmo”. Desde esse dia, o Templo permaneceu fechado até que sua demolição ocorresse por máquinas do Sistema. Mas esse tempo ainda não havia chegado.

Como resultado das ações de propaganda e da expropriação do pastor, o que ocorreu foi um rápido aumento de adesão aos grupos dos companheiros, o que aos próprios dirigentes surpreendeu. Em poucos dias, os vinte quatro primeiros multiplicavam-se e, de repente, Domingos podia contar com doze grupos de doze pessoas, cada uma delas disposta a se envolver nas mais diferentes atividades, a resistir, a matar ou morrer. Os companheiros a partir desse momento denominaram-se “grupos de autodefesa da comunidade”. Os doze grupos especiais começaram a realizar treinamento no uso de facas, de paus, de estacas e de bombas incendiárias.

O terror e o medo pareciam que tinham sido expulsos do “Campo de Concentração”, tinham cessado de paralisar a vontade de reação dos homens, das mulheres e até mesmo das crianças.

Foi logo a seguir que, alertados pelas câmeras dos drone, um grupo motorizado de três Copas entrou Portal adentro para aprender cartazes e, possivelmente, aplicar alguma reprimenda “naqueles vagabundos”. Acostumados a agir do modo como quisessem, nada importando as vidas que ceifassem na mais absoluta impunidade, haviam se desacostumado de tomar atitudes preventivas, pois lidavam com drogados, que não consideravam como seres humanos. Agora deveria haver algum louco por trás dos cartazes. Aguardava os Copas, entretanto, uma enorme surpresa.

De algum modo, os urtianos haviam conseguido rolos de fios de aço farpado, possivelmente retirados dos lixões acumulados nas décadas de abandono. Um dos grupos de autodefesa havia estendido os fios criteriosamente pelos becos mais estreitos, onde motociclistas poderiam entrar e desenvolver alguma velocidade. Aqueles eram os caminhos naturais até os muros onde estavam colados os cartazes.

O primeiro Copa a chocar-se com o fio caíra de seu veículo praticamente degolado. Os outros dois que o seguiam também despencaram de suas motos. Os urtianos que haviam preparado a arapuca os agarraram e no espancamento até a morte que se seguiu, cada homem colocava parte das dores, das vergonhas e das violências sofridas desde que se conheciam por gente. Apossaram-se de suas armas, equipamentos e das motos. Os corpos simplesmente desapareceram em meios aos mortos de todos os dias.

A reação do Sistema não se fez esperar. No fim de tarde, um drone de combate, munido com metralhadora a lazer efetuou um voo rasante e destruiu diversos casebres, e, dentro de um deles, matou diversos companheiros que se reuniam.

No dia seguinte surgiram mais de cem Copas. Vinham com o intuito de vingança: para cada Copa morto, gritavam, cem drogados morreriam! Vinham também com a missão específica de deterem e matarem os já marcados Sanjoan e outros antigos operários que lá haviam sido jogados.

Por medo, já não se atreviam a entrar de qualquer maneira no Complexo. Executaram, então, aleatoriamente, dezenas de urtianos, aqueles mais alienados e dopados que estavam no pátio defronte ao Portal ou próximos da entrada. Não conseguiram, entretanto, prender nenhum dos companheiros buscados, bem escondidos em meio às vielas, ao lixo acumulado, atocaiados e prontos para o combate.

Os drones continuaram a desenvolver atos de puro terror e morte, matando crianças, velhos e adultos. Mas o germe da revolta e da vontade de fazer valer uma vida sem valia fora plantado e frutificara. Ao invés de se acovardarem com os ataques, os não drogados e os grupos de companheiros consolidavam a ajuda mútua e a resistência.

Enquanto isso, Josué trabalhava no que mais entendia, ou seja, em informática e comunicação. Os companheiros haviam conseguido juntar relógios como o de Domingos, pagers velhos e celulares como o de Joansan, muitas baterias elétricas e algumas de lítio. Ele trabalhava celeremente na confecção de um mecanismo que produzisse ondas de ultra frequência que pudessem interferir no direcionamento dos drones. Com os primeiros testes realizados, nada conseguiram, mas após a alteração de certos circuitos, um drone de vigilância perdeu altitude e acabou se chocando contra o antigo muro de divisão do velho Complexo do Alemão. Apenas uma coincidência para alguns, para outros, a mão divina, para poucos a habilidade de Josué que se comprovara. E afinal, que importava quem tivesse razão?

Imediatamente o drone incapacitado de alçar voo foi recolhido e todo o seu circuito interno retirado cuidadosamente. Um grupo mais agressivo de companheiros carregou a carcaça do drone caído como um totem, e o colocou à vista dos Copas, na entrada do Portal. A provocação era a primeira atitude clara de recuperação da autoestima dos desgraçados da terra.

Mal o comando da repressão se deu conta do drone abatido, preparou outra ação. Drones de combate armados com bombas e metralhadoras guiadas a raios lazer tornaram ainda mais intensa a missão de ceifar vidas. Realizaram muitos estragos durante a noite, o período em que as pessoas mais se sentem indefesas, o Complexo ardia em chamas e o cheiro da morte e da carne humana tostada misturava-se ao dos excrementos, tornando-se insuportável.

Uma nova surpresa, entretanto, os esperava na terceira noite. Josué havia conseguido reproduzir os códigos de comando e dois drones agressores, com suas bombas, chocaram-se no ar. Ocorreu inicialmente uma primeira explosão, que foi seguida por outras duas maiores e por um grande incêndio que iluminou metade do “Campo de Concentração”. Um colossal grito de “viva”, que nunca se fizera ouvir por aquelas paragens, ecoou por todo o Complexo e toda a noite foi uma grande festa para aqueles espíritos condenados. De algum lado surgiu um sambinha batucado, o que, também, há muito tempo não se ouvia mais.

As explosões e o brilho das chamas foram ouvidas e vistas até mesmo em lugares muito distantes, que incluíam praticamente todos os blocos de residência dos trabalhadores e, até mesmo, parcela das zonas privilegiadas da antiga Zona Sul. O que se passava do outro lado da cerca eletromagnética? Que, pela primeira vez em anos e anos ocorria uma revolta, todos já o sabiam, mas qual era a sua real dimensão, quão importante ela seria?

  • A respeito de paus, pedras, ratos e merda.

Na escalada da violência a iniciativa sempre estivera com a Nova Ordem. Na manhã seguinte, todos os vistos de trabalho foram caçados e um batalhão de Copas de Choque começou a se formar na área externa ao Portal da URT-1, ocupando com seus cães raivosos, motos e veículos blindados toda a área comunal.

Domingos e seus amigos esperavam o combate. Ele sempre dizia aos grupos de autodefesa que ao ódio só poderiam responder com o sacrifício e com muita coragem, cobrando caro cada vida humana que lhes fosse tirada. Que ninguém se rendesse, se algum deles fosse feito prisioneiro, esse seria torturado até a morte. Havia que lutar a luta sem quartel e sem ter a ilusão de que fazer prisioneiros pudesse ajudá-los, pois, assim como eles, perante os olhos do Sistema, a vida dos Copas, individualmente, não tinha valia alguma. Que a luta travada sem pedir quartel e nem conceder quartel poderia produzir prodígios de danos ao inimigo. Deviam, pois, “cobrar em vida os assassinatos que a Ordem cometera e cometeria”. “Basta de cordeiros! Querem nos matar, então aprendamos a morrer como homens e mulheres que se fazem reconhecer como seres humanos, e isso nós o faremos, na luta!”

“ Hoje é o Dia da Ira, o Apocalipse é chegado, meus irmãos”, assim gritavam Zelote e os demais chefes, parodiando o pastor fugitivo e buscando incentivar seus comandados, viela a viela, recanto a recanto.

Enquanto isso, Josué e seus assessores se encarregavam de limpar dos céus os drones que o sobrevoavam. Mais dois daqueles de observação haviam sido derrubados, assim como um dos grandes, de ataque, do qual fora possível retirar intacta uma moderna e poderosa metralhadora.

Por todos os cantos a resistência às tropas invasoras era preparada. Valas eram abertas e aprofundadas em todo o Complexo por milhares de mãos, inclusive nas areias enegrecidas da praia da Maré. Paus ganhavam ponteira metálica, eram fincados ao solo e recobertos por finas camadas de terra e areia. Com pedaços retorcidos de ferro retirados das antigas cercas dos muros dos tempos das UPPs, milhares de “miguelitos” foram implantados pelas ruas, com suas três pontas afiadas, prontas para dilacerar rodas, pneus e botas. Fios de aço com escarpas cortantes eram colocado em todos os becos escurecidos na altura de cabeças desavisadas.

Parecia até que a droga com que os urtianos eram mantidos como cordeiros, como que por milagre, de repente reduzira a sua proverbial eficácia. A criatividade para o combate superava-se a cada instante. Por todos os cantos eclodiam ideias.

Milhares de garrafas plásticas retiradas do lixo eram preenchidas com mistura combustível.  Uma retorta, construída com pedaços de metal, permitia que a partir da destilação de fermentados, bagaço de frutas e restos de comidas estragadas, se obtivesse um álcool mal cheiroso. Das negras águas contaminadas pelo óleo desperdiçado pelos navios tanques, obtinha-se hidrocarboneto, quando postas a secar em baldes ao sol. As garrafas ganhavam um pavio e transformavam-se em incendiárias.

A merda comunitária acumulada, curtida ao sol dentro de grossos sacos plásticos fechados sob pressão, estava pronta a ser atirada como petardos por catapultas improvisadas; montanhas de pedras e fundas podiam ser encontradas em cada esquina descansando; a bosta endurecida de animais estava a postos para arder com pneus velhos, lixo e madeiras nas barricadas levantadas.

Sem saber de onde, surgiram até mesmo algumas antigas armas de fogo, que se somaram às três metralhadoras portáteis dos Copas abatidos e a uma pesada, que poderia ser usada contra tropas ou contra ataques vindos do ar, aquela do drone de combate abatido.

Como arma de defesa pessoal, quase todo urtiano carregava um estilete que, a bem da verdade, mais se assemelhava a uma espada, afiados por mãos calejadas. Cobriam as faces com panos, única proteção de alguma eficácia contra os fedores que impregnavam os ares e as bombas de gases químicos que em breve seriam atiradas sobre eles.

Os meninos e os mais jovens caçavam ratos e ratazanas que, vivas, eram aprisionadas em redes e envoltas em trapos sujos.

Cenário de um combate absolutamente desigual, de um lado o pau e a pedra que desafiavam o que de mais recente a tecnologia da morte desenvolvera como os helicópteros, a infantaria equipada e ornamentada para a guerra, raios lazer, metralhadoras, carros de combate. Um cenário montado pela Fúria assassina do poder contra a revolta sagrada dos desgraçados da Terra.

  • Às favas com os pruridos

O Sistema sentiu em seu âmago o peso do desafio. Em reunião do mais Alto Comando da Nação, da qual participou o Supremo Mandatário e seus Ministros, optou-se pelo extermínio de todos os seres viventes da URT-1. Qualquer conciliação ou pruridos humanísticos viriam a colocar em cheque a própria Nova Ordem Social, que tanta tranquilidade trouxera à família brasileira.

Dirigindo-se ao Comando de Operações Internas, ao qual a repressão e todo o Comando Operacional dos Copas passaria a se reportar, o Mandatário foi enfático ao dizer: “Não poupem ninguém, nem nada, nem mesmo gatos, cães ou ratos. Devemos destruir tudo e esse extermínio deve ser exemplar. Não deixem pedra sobre pedra, depois incinerem e dedetizem.Terra arrasada!” O Prefeito César Augusto ainda ironizou: “Excelência, afinal ainda estaremos poupando alimento e pílulas dos nossos contribuintes” (calou-se imediatamente ao se lembrar da possível ausência da contribuição eleitoral que lhe fazia o amigo Speer, o fazedor de pílulas e anticonceptivos , e que arcaria com um belo prejuízo com a extinção da maior da URTs!).

O comandante da força aérea de helicópteros de combate ainda ousou perguntar: “Se os amotinados se renderem e o que faremos com as crianças?” O Supremo quase não conteve a irritação que tal pergunta lhe trazia: “Parece que não estou sendo bem interpretado! Que crianças, que rendição? Será que aqui alguém ainda tem dúvida da necessidade de extermínio, de limpeza? A propósito, nada de voltar a empregar drones. Eu gostaria de saber como aqueles filhos da puta aprenderam derrubá-los. E estejam atentos, aqueles desgraçados irão usar as armas dos drones abatidos contra nós, eles têm gente que sabe muito bem manejar armas e controles remotos. Depois da limpeza da área vamos analisar as responsabilidades de todos os que possibilitaram que a situação de contestação e desmoralização da Nova Ordem chegasse a esse ponto.”

O Comandante do D.O.I. desejava orientações claras: “O senhor disse para destruirmos tudo e todos. Eu preferia prender vivos alguns cabeças para interrogatório”.

Realmente a paciência do Supremo Mandatário não estava para ser testada naqueles dias. “E quem disse para não fazer isso? Só não se esqueça de matar depois de obter suas informações, fui claro? Nem pense em despejar destroços em outra das URTs.”

“E para que nada fique subentendido em nenhuma área, os voos de ataque e reconhecimento deverão ser tripulados”.

O Promotor Filinto, com um esgar maroto dos lábios finos concluiu a reunião usando uma frase que há quase um século se tornara famosa na boca de um determinado delfim: “Às favas com nossos pruridos”.

  • A primeira vitória foi do arco e flecha

A tática das forças repressivas era utilizar a infantaria e os blindados para realizar a ação de cerco e posterior aniquilamento, evitando, o máximo que pudessem o combate frontal. Não entrariam no gueto enquanto ele não estivesse ardendo sob as bombas incendiárias e explosivas que seriam lançadas dos helicópteros. A resistência que eles denominavam “da idade da pedra” teria que ser primeiramente desbaratada pela ação aérea.

Os revoltosos, por seu lado, tinham clara a necessidade de atrair as tropas para um combate franco, antes que suas defesas fossem destruídas e o moral dos combatentes abalado.

Os primeiros helicópteros ao lançarem suas bombas incendiárias e de fragmentação, assim como o fogo cerrado de saturação provocaram muitas baixas nos urtianos. Os grupos de ajuda e socorro tratavam de acudir por todos os lados, mas o desespero ocupou o seu posto e, por um momento, Domingos chegou a julgar que seriam massacrados ou dispersos, antes mesmo de poderem combater.

Na ausência aparente de resistência, os aparelhos começaram a voar mais e mais baixo aumentando a precisão dos tiros. Não contavam que alguns revoltados entrincheirados nas construções mais altas e sob o comando do experiente Zelote aguardavam justo esse momento para abrirem fogo das metralhadoras no helicóptero cabeça de esquadra. Tiveram ao lado de sua habilidade a Fortuna e conseguiram abatê-lo na primeira tentativa.

Os três Copas que o tripulavam, com o helicóptero de combate em chamas, saltaram de seus assentos de auto impulsão, indo cair no meio da massa dos combatentes. Dois deles, feridos na queda, foram imediatamente mortos a pauladas e a golpes de lanças de pontas metálicas. E em meio a tantos choros e gritos de dor ouviu-se, então, um urro inigualável, o da vingança! A pequena vitória que reerguia o ânimo dos amotinados! Pedaços dos corpos foram levados para a proximidade do Portal e colocados na ponta de paus para que fossem visíveis aos Copas da tropa de choque que, cumprindo ordens, ainda se mantinha à distância.

Pouparam, por ordem de Zelote, unicamente o capitão do esquadrão aéreo. Levaram-no amarrado e aos pontapés até onde estava Domingos. O preso caiu de joelhos e implorou pela vida. Domingos manteve o silêncio e simplesmente disse: fala! O capitão contou qual era a estratégia de ataque por ele conhecida, a ordem que possuíam de não poupar ninguém, e tudo disse sem que ninguém o tocasse. Domingos fez com que ele se levantasse e encarou-o; desaparecera dos olhos a empáfia, irmã gêmea do desprezo com que um Copa olhava para os desgraçados, assim como o ódio que lhe haviam inoculado nos anos de preparação para a repressão. Neles, Domingos apenas encontrou o medo maior, o terror da dor da morte, sua velha conhecida. Mandou que ele ficasse de costas e rapidamente enfiou-lhe num rim a lâmina de duplo corte. Percebeu que a lâmina perfurava com facilidade a carne e sentiu, pela primeira vez na vida, o sangue escorrer-lhe grosso pela mão e pelo antebraço.

Ele, desde o momento em que se decidira por encabeçar a rebelião, pensara em como se sentiria quando tivesse que matar alguém. Jamais matara nem mesmo uma galinha. Agora sabia que a resposta era nada! Não sentia absolutamente nada por aquele corpo que se estrebuchava a seus pés, nem mesmo ódio, apenas nojo pelo sangue que lhe grudava nos dedos. Com o pé empurrou-o, com um trapo limpou o sangue inimigo e disse aos companheiros ao redor: deixem que morra só. Chamou, então, os chefes de grupo para uma reunião.

Tinham que mudar a tática de combate e atacar os Copas agrupados fora do Portal. Era a única maneira de atraí-los para as emboscadas cuidadosamente preparadas dentro do Complexo. Ou fariam isso o mais rapidamente possível ou as tropas entrariam quando só restassem as crianças e alguns velhos para serem liquidados a pancadas e pelo fogo.

Compôs-se um primeiro batalhão formado por cento e quarenta e quatro membros dos grupos de autodefesa e com os revólveres disponíveis, as metralhadoras, as bombas incendiárias, facas e lanças, prepararam-se para um ataque de surpresa ao Portal. Outros homens de retaguarda posicionaram as catapultas e as centenas de bombas feitas de merda curtida ao sol em plásticos grossos nos lugares a partir dos quais poderiam atingir as tropas inimigas quando essas se aproximassem da entrada do Portal.

As tropas de contenção foram pegas despreparadas e o Portal odiado destruído e incendiado. Seus defensores, também Copas e funcionários burocráticos, foram arrancados e, como iscas, carregados para dentro da Unidade. Espetados, seus gritos fizeram com que a ordem de comando da tropa não fosse cumprida e os Copas com suas motocicletas, blindados e infantaria, começaram a invadir o Complexo antes que a força aérea completasse sua obra.

Neste momento de aproximação, as bombas de merda começaram a literalmente explodir por todos os lados, formando uma cortina que competia com a nuvem de gás lacrimogêneo lançado pelas tropas. A merda, grande arma surpresa, envolveu numa manta pútrida os Copas, ensopando os cães que, perdendo o faro e ensandecidos já não respondiam ao comando; envolvidos com uma gosma podre, os armamentos  apresentavam dificuldade para disparar. Os mais de mil petardos tornaram o ambiente próximo ao Portal totalmente irrespirável. Tudo era merda curtida e o cheiro da morte!

Como que caindo das nuvens, logo em seguida às bombas de bosta surgiam ninhadas enormes de ratos e ratazanas, desesperados pelo medo e pela fome. Enroscavam-se nas botas e nas pernas dos Copas e arrancavam pedaços dos rottweillers, pitbulls e cães pastores, que se viravam contra os próprios domadores no desespero.

Agora já não havia alternativa para os Copas, ou invadiam de uma vez o Complexo ou recuavam com perdas humanas e desmoralizados pelas bombas de merda e pelos ratos esfaimados. Receberam do comando a ordem que antes não lhes fora dada: avancem e acabem com o que começaram! Eles, que pela primeira vez na vida sentiam o medo de um combate real, nunca haviam sequer imaginado os extremos aos quais o ser humano, no desespero total pode chegar e, caindo na cilada armada, invadiram o Complexo.

Foi só então que, ao mesmo tempo, as poucas, mas bem posicionadas e protegidas metralhadoras e os velhos revólveres dos grupos de autodefesa começaram a cumprir o seu papel. Ceifaram toda uma primeira fileira de atacantes, aqueles cujos visores dos capacetes impregnados de merda lhes impediam a visão, ao mesmo tempo em que tentavam se defender das ratazanas. Atraindo o inimigo cada vez mais para o interior do Campo, os urtianos recuavam para as vielas e para as barricadas, onde a luta se acirrava ainda mais, muitas vezes no corpo a corpo.

O Sistema jamais imaginara que suas tropas de elite enfrentariam milhares de homens, mulheres e até crianças, decididas a tudo em uma luta de morte. Os urtianos combatiam com todo o tipo de material que lhes caía às mãos, utilizavam até mesmo o próprio corpo em chamas como arma ao se atirarem com as garrafas incendiárias nas torres dos carros de assalto.

As pedras acumuladas em cada esquina, essas então, produziam prodígios. Atiradas com agilidade por fundas poderosas causavam não poucos deslocamentos e quedas de motociclistas. As estacas encobertas no chão cumpriam outra parte do trabalho e muitos quando caiam não mais se levantavam. Aqueles que conseguiam se levantar, muitas vezes sem tempo de empunhar as armas, enfrentavam as lâminas aguçadas e as pauladas que fragmentavam os capacetes e as vestes de combate antes de tingir-lhes de vermelho a pele.

Grupos menores de Copas eram isolados em emboscadas e sobre eles caiam pessoas às quais já não lhes restava esperança alguma exceto morrer matando, empenhadas no mesmo combate insano, suicida. Muitos deles foram despedaçados pelas mãos nuas dos desesperados.

Em determinado momento os invasores deixaram de contar com o apoio aéreo. A proximidade dos contendores, a luta quase homem a homem, favela a favela, e o fogo de Zelote impediam a qualidade do tiro nos alvos móveis e muitos foram os corpos de Copas que ficaram estendidos no chão graças ao fogo amigo.

Nesse primeiro confronto, as forças da Nova Ordem foram vergonhosamente derrotadas.  O medo aliado à surpresa com a resistência e a audácia dos urtianos, praticamente provocou uma debandada em grande escala. Recuaram atabalhoadamente até onde se localizava o antigo e incendiado Portal e ficaram à espera de reforços, sem se preocuparem com os feridos largados no campo de luta e logo despachados dessa vida pelos vitoriosos do momento.

Desmoralizadas com os sinais e o cheiro da merda concentrada, as forças da Nova Ordem eram o próprio contraponto dos cães de ataque que, com o rabo no meio das penas, apenas lutavam contra os ratos e as pulgas com que eles os haviam empestado.

As baixas que as forças da Ordem haviam sofrido eram expressivas. Computaram mais de duas centenas de mortos ou desaparecidos, além de dezenas de cães, e muitos foram os carros de assalto incendiados ou abandonados pelas vielas dos complexo de favelas.

 

  • O holocausto

Enormes caminhões de transporte de tropas e materiais bélicos começavam a chegar ao entorno da URT-1. Novas tropas de combate, frescas e em maior número que as primeiras substituíram as batidas. Logo a elas se juntaram tanques, blindados de deslocamento rápido, peças de artilharia de guerra. Uma primeira fragata, logo seguida por outras, aproximou-se da Maré e seus canhões de bordo apontaram para a orla marítima.

Do céu, não mais se viam helicópteros, mas sim, aviões de combate em missão de reconhecimento.

As forças de artilharia de terra e mar, seguidas pelos aviões de caças no ar, iniciaram, sequencialmente, um pesado bombardeio de saturação. A Nova Ordem resolvera desencadear uma verdadeira operação de guerra, utilizando não somente Copas, mas forças militares de terra, ar e mar numa batalha contra o temível inimigo interno.

Durante mais de três horas, por incrível que possa parecer, os revoltados da URT-1 ainda resistiram ao fogo combinado que vinha do ar, de terra e do mar.

Depois, quando as tropas terrestres avançaram, fizeram-no concomitantemente com reforços de apoio de infantaria da marinha em ação de aniquilação.

Mais da metade da enorme área que um dia fora a URT-1, “orgulho” da Nova Ordem Social, estava em chamas. Por todos os lados as imagens da destruição eram absolutas. Milhares de cadáveres destorcidos, muitos calcinados, por vezes empilhados uns sobre outros; pedaços de corpos espalhados estavam em cada canto, em cada viela, atrás de cada muro destruído.

O sangue abundantemente derramado tingira de vermelho os excrementos e a lama que teimavam a escorrer a céu aberto e que ao desaguar no mar formavam uma grande mancha avermelhada que borrava os costados das  primeiras fragatas de guerra ancoradas no quebra-mar.

A cada passo dado pelas tropas terrestres eram ouvidos os gemidos dos feridos, principalmente, crianças e mulheres. Nesses casos, a ordem de extermínio foi cumprida com todo o rigor. Os feridos que não conseguiam se arrastar dos caminhos eram simplesmente esmagados pelas lagartas dos tanques; os outros, que tentavam esconder-se em meio aos escombros, incinerados pelos lança-chamas das tropas vitoriosas ou simplesmente executados a tiros.

Entretanto, por mais que fossem buscados, nenhum dos chefes revoltosos pediu clemência e por isso as tropas não conseguiram fazer os prisioneiros que o Comando de Operações Internas tanto desejava.

Uma vez completada a operação de extermínio chegaram máquinas poderosas. Retro escavadoras, empilhadeiras e tratores que se encarregavam de aprofundar as valas de defesa abertas pelos urtianos combatentes. Os corpos mutilados, misturados ao lixo, aos restos daquilo que um dia haviam sido parte da vida de mais de duas centenas de milhares de pessoas eram empilhados e, depois, arrastados para as valas alargadas e tudo sepultado. Outros cadáveres empilhados, erguidos pelos guindastes poderosos, eram colocados em caçambas que seguiam para os incineradores públicos com ordem de absoluta prioridade dada a decomposição avançada.

Quando o trabalho de faxina foi considerado finalmente concluído, as máquinas obraram para equilibrar o terreno, evitando que desníveis muito altos se erguessem, buscando fazer com que os sinais daquilo que tinha sido um campo de batalha, onde pela primeira vez o Sistema fora afrontado e derrotado, desaparecessem na terra.

De todos os modos, as forças da Ordem trabalharam com enorme eficácia, de tal forma que somente uma quinzena após o final da luta, poucos sinais restavam que atestassem sua ocorrência. Aqui e ali, ainda se percebiam clarões de chamas, pontos em que os abutres acotovelavam-se na disputa por restos que se sobressaíam da terra aplanada, no árduo trabalho disputados com ratos de desenterrar carniça humana. Mas o festim tinha hora marcada para findar. Certo dia, uma operação conjunta das autoridades sanitárias realizou pelo ar e por terra uma completa calcinação e, após, a desinfecção do local.

Terra arrasada fora a ordem. Um primeiro pensamento das autoridades era não permitirem que nunca mais uma única erva daninha conseguisse brotar do solo assassinado.

Meses após, entretanto, voltariam as retro escavadeiras, os seus tratores e o local passou a ser frequentado, diariamente, por caminhões de lixo. A cidade que um dia, num passado não tanto remoto, ostentara o título de maravilhosa, acabara de ganhar um novo aterro sanitário, é verdade que numa área absolutamente de risco, próxima ao mar e bem ao lado da dita “civilização”. Em um leilão realizado no qual apenas uma empresa, cuja sócia majoritária era a filha do Prefeito César Augusto, toda a imensa área foi por ela adquirida por preço de banana. Afinal para que serviria, senão para depósito de lixo?

Quem sabe num futuro próximo, quando as pessoas se esquecessem um pouco do que por ali se passara, não surgiria mais uma nova fronteira de expansão imobiliária? Afinal, os chineses buscavam áreas habitacionais por todo o planeta e o depósito de lixo fora adquirido quase de graça. Como no velho oeste americano, sobre cemitérios indígenas, sempre se poderiam abrir novas fronteiras para empreendedores.

  • Skandalo

Escândalo! A Nova Ordem fora contestada, enfrentada, suas tropas até mesmo haviam recuado diante do impensável, fugido abatidas no primeiro entrevero! Os urtianos haviam combatido como verdadeiros guerreiros, com uma fúria que espantou o Comando dos Copas e o Departamento de Ordem Interna! Somente a força aérea, o uso da artilharia de terra e mar e o emprego de armamentos de guerra de última geração evitaram que os prejuízos para forças da ordem fossem ainda maiores. Como aquilo tudo pudera acontecer após mais de dez anos de absoluta resignação daquela mesma população?

Intermuros, os graves fatos por nós narrados, eram tema permanente de investigações e apurações, indagações e pesquisas por parte dos líderes e respostas concretas eram exigidas da direção do Centro de Operações Internas que por sua vez, ainda aturdida, não conseguia produzir explicações adequadas.

De todos os países aliados também chegavam questionamentos, pedidos e, porque não dizer, exigências e ordem de explicações, planos de ajuste e de contenção de novos enfrentamentos. Afinal, havia nesse país, onde os negócios eram os mais lucrativos do planeta, muito dinheiro em jogo!

O Sistema, por exigência do Supremo Mandatário, tentara, a princípio, minimizar os fatos perante a elite e o público externo. Todas as imagens gravadas da luta foram imediatamente apagadas. No entanto, os satélites haviam detectado uma verdadeira batalha campal, que há muito não se via e essas eram as imagens que geravam os comentários nos noticiários de todo o mundo.

Foi assim que, uma semana após a completa aniquilação da URT-1, de um jato especial que aportou no Galeão, desembarcaram sessenta dentre os mais experts agentes de inteligência que os “países amigos” enviavam para “auxiliarem” nas investigações. Tio Sam, em especial, seguia confiando pouco em seus próprios prepostos, sinal mais que evidente que muitas cabeças iriam rolar, literalmente. Ao mesmo tempo, medidas que tornassem a Nova Ordem mais inexpugnável à desordem, aos subversivos e aos terroristas estavam sob estudos em todos os níveis.

  • A história quando escrita pelos vencedores

Enquanto buscava respostas aos gravíssimos fatos ocorridos, o Sistema decidira impor absoluto silêncio sobre os eventos. Os bloqueadores de sinais foram reforçados em todas as fronteiras da Zona C, assim como a retransmissão dos sinais de internet foi interrompida. Desta forma, as informações que chegavam aos trabalhadores, a quem o Sistema mais temia, foram as mais fragmentadas possíveis.

Da mesma forma, para evitar contágios, todas as licenças de trabalho concedidas a urtianos de outras URTs haviam sido canceladas e eles permaneceram trancafiados em seus Complexos, nos quais o patrulhamento e a vigilância foram reforçados.

A palavra oficial para o público interno, após o primeiro impacto produzido pelos confrontos, é que nada, absolutamente nada de importante havia na verdade acontecido.

Um novo decreto-lei instituiu que as URTs sempre haviam sido identificadas por letras do alfabeto, jamais por números sequenciais. Logo, a URT-1 deixara oficialmente de um dia ter existido. Afinal, o Sistema não seria na história nem o primeiro e nem o último a modificar o passado. Ao lado desse decreto, outro instituía a pena de prisão para todo aquele que divulgasse notícias mentirosas ou tendenciosas que visassem esgarçar o tecido social, especificamente a respeito de uma suposta sublevação de drogados, que na verdade não passara de uma pequena baderna realizada por uns poucos insatisfeitos, devidamente enquadrados pelas autoridades competentes.

No entanto, pese a censura imposta e o medo de qualquer comentário a respeito de que os eventos pudessem complicá-las, as pessoas em todos os recantos, em todas as classes sociais haviam tomado de um modo ou de outro conhecimento da sublevação, da batalha de morte travada e do extermínio dos urtianos. Haviam sido os trabalhadores, os operários do petróleo e do xisto, que, deslocados de seu trabalho, tinham sido convocados para as operações de faxina após a destruição da URT-1. À boca pequena os grandes feitos dos urtianos eram ainda mais amplificados, principalmente entre os trabalhadores. Para muitos destes, os urtianos haviam percorrido um caminho heroico, deixando as pílulas da felicidade de lado e partido para o pau contra a opressão, o desrespeito e o próprio extermínio premeditado e a conta-gotas.

Se até há pouco tempo, os trabalhadores viam com certa dose de desrespeito e alguns, mesmo com superioridade seus empregados urtianos, para a imensa maioria esse comportamento tornou-se passado. Tempos curiosos esses em que muitos operários, olhando para seus empregados, questionavam-se a respeito da própria coragem de dizerem não à escravatura! De todos os modos, caíra a máscara de inexpugnável do Sistema. O rei, pela primeira vez em mais de dez anos, ficara nu e os pobres, mesmo à custa do martírio, haviam declarado que ele poderia ser enfrentado e quiçá, até mesmo um dia, vencido.

Foi no bojo de todo esse contexto político, com comentários gerando uma agitação contida que, como uma verdadeira bomba ainda mais poderosa, outra notícia ecoou de tal forma que até mesmo os canais televisivos internos foram obrigados a dar-lhes foco.

A maior plataforma marítima do mundo, a P 66-6, joia do capital financeiro internacional, orgulho da Nova Ordem, um investimento de bilhões de dólares, considerada até então como a mais segura, a mais produtiva e mais moderna na exploração do óleo e do gás na camada do pré-sal de todo o mundo, sofrera três explosões consecutivas durante a madrugada e, desde então, iniciara um perigoso movimento de drenagem na proa de bombordo, com risco sério de naufrágio.

  • O naufrágio da P 66-6

A P 66-6 era uma plataforma flutuante, ancorada na linha d’água. E ela flutuava graças a dois imensos submarinos localizados em extremidades opostas, um deles na direção de proa- bombordo e outro na de popa- boreste; eram eles que, mantendo o correto balanço nos reservatórios hídricos, propiciavam o equilíbrio e a estabilidade de toda a estrutura.

Cada submarino possuía seus tanques de lastro dispostos em quatro níveis e, no centro dos mesmos, corriam os dutos de ventilação de toda a estrutura. No quarto nível de cada submarino, considerado um dos centros nevrálgicos da operação, havia dois depósitos para líquidos que eram mantidos estanques: um menor para águas utilizadas nos processamentos do óleo, contaminada com hidrocarbonetos e gases e que em determinado momento seria purificada e devolvida ao mar, e outro tanque, de maior envergadura, que funcionava como um grande reservatório preparado para operar em situações de emergência.

Como as estruturas dos submarinos se repetiam, os tanques de emergência de proa e de popa eram conectados entre si por poderosas tubulações, com suspiros e válvulas de bloqueios em cada entrada das bombas ditas de “recalque”, destinadas a equilibrar os volumes de água do mar em cada reservatório, mantendo toda a estrutura a prumo.

As sondas que buscavam os depósitos de óleo e gases do pré-sal e os traziam à superfície, partiam do corpo mesmo da plataforma flutuante que media ao redor de duzentos metros em cada lado.

Encimando uma extremidade da proa, localizava-se o heliporto, enquanto as operações técnicas mais importantes e de controle ocorriam na extremidade oposta, na popa.

Desde a construção de todo o aparato, da sua montagem, tanto a produção quanto a supervisão e a manutenção seguiam protocolos internacionais extremamente estritos. A observância de toda norma de segurança era sempre rígida e passava, no mínimo, por dupla ou tripla checagem, num objetivo sempre perseguido do erro zero.

Tanto os operários como os técnicos e os encarregados que atuavam no negócio eram monitorados permanentemente e eles sabiam que a própria vida deles era a maior garantia do nível baixíssimo de erros cometidos no trabalho.

Haviam-se passado quatro meses que o recorde de produção de óleo e de gases fora atingido e como nos recordamos, a comemoração de tão importante gol acontecera ao mesmo tempo em que determinado panfleto subversivo fora distribuído, ou, pelo menos, descoberto pelas autoridades.

Em função desses dois fatores, apenas aparentemente antagônicos, os administradores, gerentes e encarregados tinham, sob pressão da Standard, colocado objetivos ainda mais ambiciosos de produção a serem cumpridos. Ao mesmo tempo, a vigilância sobre cada trabalhador fora amplificada e agora contemplava até mesmo o tempo em que eles permaneciam nas cabines a dormir. Nada era deixado ao acaso.

Quando aconteceram os graves fatos na URT-1 que narramos, cada elemento presente na plataforma, inclusive encarregados e gerentes, passavam por revistas completas duas vezes ao dia. O Centro de Operações Internas estabelecera, inclusive, um posto fixo próprio de fiscalização, já não mais se fiando apenas nos fiscais e nos alcaguetes.

E foi no curso de uma produção intensiva e nunca realizada antes com tal esforço pelas turmas de trabalhadores que estranhos fatos ocorreram, como depois os registros captados por sensores internos e por perícias o comprovariam. Em função do ritmo acelerado, a válvula de bloqueio de uma das bombas de recalque, a do tanque de proa de bombordo, indicou necessidade de reparos e apresentou indicadores da necessidade de ser retirada para manutenção. Na pressa, a gerência, uma vez que a produção não poderia sofrer atraso algum, ordenou que ela fosse retirada, mesmo sabendo que não haveria outra para substituí-la de imediato e que o reparo tomaria umas vinte e quatro horas para ser realizado. O operador do sistema de segurança, pelo fato de que aquele procedimento já fora realizado antes, ou seja, não era inédito, e contando com que o fluxo dos tanques de popa boreste fosse interrompido e o suspiro do tanque de bombordo fosse mantido aberto, sentiu-se confortável, dado que a experiência indicava que nada ocorreria de extraordinário. Autorizou o procedimento sem interrupção da produção.

Depois dos eventos ocorridos e do enorme prejuízo causado, comentariam os gringos: “Esse jeitinho brasileiro é mesmo uma das maiores desgraças do mundo!”

O fato é que, dessa vez, tudo saiu errado. O sistema operacional, de repente, leu que o suspiro do fluxo do tanque de proa- bombordo permanecia aberto e também realizou a leitura incorreta de que a válvula de bloqueio não havia sido retirada, mas sim, que permanecia aberta, indicando, nesse caso, a necessidade de aumento do lastro de água a ser enviado pelos tanques de popa- boreste aos tanques do outro submarino.

Os tanques de drenagem de emergência, normalmente operam com cincoenta por cento de água. O bombeamento de água do mar para os tanques do submarino de bombordo, ao ultrapassar em muito aquele percentual, acarretou um grande aumento de pressão e misturou a água do mar com as águas contaminadas com hidrocarbonetos e gases que também estavam estocadas no quarto nível. As paredes dos tanques que operavam na pressão de uma atmosfera, na ausência de suspiro, pois ele inexplicavelmente permanecera fechado, receberam uma pressão interna crescente. Pressão que rapidamente alcançou o equivalente a dez atmosferas; imediatamente as paredes do submarino começaram apresentar deformações, o que terminou por levá-las à ruptura e à inundação dos compartimentos pelas águas do mar, que naqueles dias, como tudo, andavam muito revoltas.

Antes que acontecesse essa inundação a bombordo, os gases acumulados nas câmaras do submarino provocaram um primeiro incêndio que acionou todas as ações preventivas da plataforma. Uma brigada de incêndio foi ao local e quando tentaram entrar no compartimento da primeira escotilha, ela foi acolhida com a primeira das explosões. Alguns operários feriram-se e outros desapareceram no ato. Na continuidade, uma sequência de mais duas explosões ainda viriam a ocorrer, destruindo parte do submarino e da superfície da plataforma. E todos esses incidentes haviam acontecido num curto intervalo de tempo, no período das onze horas da noite até as três horas da madrugada, tão curto que poucas medidas corretivas puderam ser tomadas, justamente na ausência da válvula da bomba e do suspiro que se mantinha fechado.

Pela manhã já não havia alinhamento. A P 66-6 perdera o prumo e sofrera uma inclinação de cinco graus na posição de proa bombordo, dificultando até mesmo o pouso de helicópteros em seu campo. Foi quando toda a alta gerência abandonou a plataforma. Os operários, entretanto, que dependiam exclusivamente do transporte por barcos, somente puderam começar a deixá-la por volta das nove horas da manhã, quando a inclinação já alcançara os dez graus e ameaçava de atirá-los ao mar encapelado.

Na confusão estabelecida, o certo é que alguns operários simplesmente desapareceram, talvez mortos pelas sucessivas explosões, ou, quem o saberia dizer, engolidos pelo mar. Carlos, o baiano, que posteriormente seria denunciado como o Inimigo Número Um da Pátria, foi um dos operários dados como desaparecidos, juntamente com um veterano engenheiro de bordo de nome Joaquim, também conhecido pela alcunha de “O Velho”. De todo modo, por volta das doze horas, a inclinação da plataforma chegara a quinze graus e todo o pessoal vivente já a havia abandonado.

O Operador Nacional do Petróleo ainda tentou todas as alternativas disponíveis para reverter o desastre. Equipes especializadas em salvamento de naufrágios chegaram de todos os lugares do mundo. Debalde as tentativas de ancoragem, de injeção de ar comprimido e de nitrogênio nos tanques de bombordo. O mar vivia seus dias de glória e as ondas de mais de dois metros de altura não permitiam muitas aventuras. No sétimo dia após a primeira explosão, a Plataforma P 66-6 submergiu e foi encontrar seu repouso lá pelos dois mil e quatrocentos metros abaixo do nível das águas.

Como primeira herança, ela deixou uma inigualável mancha de mais de duzentos quilômetros quadrados de petróleo, que por um algum tempo manteve-se no alto mar, mas que as fortes ondas e uma insuspeitada corrente marítima se encarregaram de trazê-la às areias praianas da zona sul do Rio de Janeiro. Como segunda, uma nova e enorme crise que atingiria os mais diferentes pilares da Nova Ordem.

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