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“2039: Ficção ou Profecia?”

VI. 2039... , 1939...

  • Maledictis

O trabalho investigativo de Larss prosseguia com celeridade e importantes etapas haviam sido vencidas com sucesso. A seleção dos dois grupos de cobaias fora realizada com rigor, os sujeitos, adequadamente monitorados, em seu isolamento e os procedimentos cirúrgicos puncionais, com sucesso.

As células assim obtidas tinham sofrido o processo de regressão até as fases mais embrionárias quando se tornaram pleno-potenciais, com capacidade de desenvolvimento de, inclusive, neurônios. Sob a influência do Indutor I-ouda 30, após algumas semanas de incubação e em conformidade com a quarta etapa prevista nos protocolos da pesquisa, o novo tecido neuronal havia alcançado a dimensão de quase meio centímetro cúbico de diâmetro, quando sofreu interrupção em seu crescimento, sendo, então, preparado para a introdução no cérebro de cada uma das cobaias.

A partir dessa fase do trabalho, Larss praticamente vivera entre o seu laboratório e o “Bloco da Geração do Futuro”, local dos jovens “adotados” pelo Estado e escolhidas para as cobaias humanas.

Agora chegara o momento de ingressar na quinta etapa, considerada de risco, pois implicava na realização de numa neurocirurgia, um tipo específico denominado de psiconeurocirurgia, destinada, em tese, a reduzir os impulsos próprios do indivíduo e a induzi-lo a comportar-se sob novos padrões, que era o objetivo final da pesquisa.

Para que nosso leitor se situe melhor com relação a esse tipo de procedimento, o emprego de uma técnica mais primitiva que a do atual protocolo que o doutor Larss coordenava, tivera seu desenvolvimento em meados do século XX, tendo sido criada em primeiro lugar em Portugal, rendendo ao médico que a descobrira e a empregara nos primeiros pacientes, o Prêmio Nobel de Medicina de 1949.

Posteriormente, a prática denominada de “lobotomia” se disseminou e fora aplicada a torto e a direito nos Estados Unidos e no Japão. Se nos anos 60 e 70 do século passado, a técnica veio a ser proibida em praticamente todo mundo, sendo considerada mesmo das mais perversas já desenvolvidas pela medicina, ela retornava em 2039, agora travestida e muito mais sofisticada.

A técnica modificada da “lobotomia” consistia na realização de uma “leucotomia parcial”, seguida pela introdução, entre os lobos cerebrais seccionados parcialmente, do pequeno “tumor” neuronal produzido sob a influência do agente indutor. Ainda antes da finalização do ato cirúrgico, o pequeno implante era conectado ao tálamo cerebral.

Essa era a grande novidade científica, guardada a sete chaves pelo sistema para a produção de comportamentos robotizados, praticamente um século após a descoberta inicial feita pelo médico salazarista Égas Muniz.

Foram necessários quinze dias para que Larss e seus dois assistentes realizassem o total das trinta psiconeurocirurgias. Eles tinham plena ciência de que estavam numa fase crucial do trabalho. Como reagiriam os pacientes? Sobreviveriam ao ato cirúrgico? Quantos? Como se adaptariam ao enxerto neurológico? E no pós- cirúrgico, que tipo de reações poderiam ser esperadas quando se iniciassem as aplicações diárias do polipeptídio indutor?

Nas primeiras noventa e seis horas do pós-cirúrgico ocorreram seis mortes, um percentual acima do previsto no protocolo, quase vinte por cento de óbitos! Larss assustou-se e partiu imediatamente para seu laboratório para verificar o que acontecera com os macacos submetidos à mesma psiconeurocirurgia com o implante de tumor neuronal, realizada dois dias após o procedimento com os humanos.

Qual não foi sua surpresa ao encontrar todos os quinze macacos mortos. Aquilo o espantou. Teriam as mortes ocorridas em função da cirurgia? Ainda ontem, entretanto, checara pelo computador e os parâmetros vitais de todos os macacos eram estáveis, nenhum deles apresentava alterações de monta! Calçou as luvas e quando ia iniciar a primeira autópsia, foi interrompido pelo telefone que o conectava diretamente com o Diretor. Aquele já sabia que os macacos estavam mortos e transmitiu-lhe uma ordem expressa de que não realizasse análise alguma para encontrar a “causa mortis”. Mas qual o por quê disso?

Como única resposta que teve foi que não havia tempo a perder pois o que interessava eram os humanos. Por favor, Larss, volte para o “Bloco” e mantenha tudo sob seu controle. Você não imagina a pressão que se abate sobre mim com as cagadas que as forças de segurança fizeram com os urtianos. Se não fossem as forças armadas a casa tinha caído! O Sistema e principalmente os gringos querem respostas para ontem. Agora, ouça bem, você tem minha ordem pessoal para ampliar as doses que deveriam ser de três miligramas ao dia do polipeptídeo, o I-ouda 30, para cada cobaia. Aplique sete em cada um. Acelere tudo, estamos entendidos? Sem esperar resposta, Phelps Andrade bateu o telefone.

Larss não largou de imediato o primeiro macaco em que iria iniciar a autópsia. Analisou seus olhos, sua boca, a espuma que dela saíra e que grudara no cadáver. Pegou um segundo e um terceiro macaco, os mesmos olhos, a boca aberta de quem sufoca e a espuma esbranquiçada. Não tinha dúvidas. Haviam matado todos os macacos com cianureto. Jamais saberia as respostas dos mesmos ao implante que realizara idêntico em humanos, pois tal não era desejado pelas instâncias superiores. Haviam concedido no controle animal apenas porque já haviam planejado aquela ação de matança com antecedência.

Mais que preocupado, deixou o laboratório com muito medo pessoal. No caminho até o Bloco da Geração do Futuro tomou a decisão de deixar o Brasil o mais rápido que pudesse. Quem tinha razão era a Anna. Até mesmo estruturou as férias para que coincidissem com a partida. Para isso, necessitava concluir aquela maldita pesquisa.

Nos dias seguintes, entretanto, para sua surpresa, não ocorreu nenhum óbito adicional entre os humanos. No entanto, a quase totalidade das cobaias urrava noite e dia com dores de cabeça, desde que a aplicação do I- ouda 30 fora aumentada. Tiveram que ser postos em camisas de força para que não rompessem as cabeças contra as paredes das celas, todas revestidas com colchões de ar.

Entretanto, o protocolo americano da sexta etapa, previra esse tipo de reação, tida como passageira e, realmente, assim ocorreu. Lá pelo décimo dia, mesmo com a dose diária de sete miligramas do polipeptídio sendo mantida, nenhum dos homens apresentava mais  sinais importantes de cefaleia ou de outros secundarismos. Pelo contrário, portavam-se de maneira extremamente dócil e obedeciam a todas as instruções que lhes eram transmitidas.

Foi, então, que Larss deparou-se com a nova surpresa que o aguardava. Dois psiquiatras americanos, que haviam chegado ao Brasil com a mesma turma da “inteligência estrangeira”, foram-lhe apresentados pelo Diretor Phelps de Andrade. Na prática e isso lhe foi comunicado, os dois americanos assumiriam a partir de então, a coordenação da preparação das cobaias humanas. No entanto, a assistência que Larss lhes prestaria, frisou o chefe, seria de ainda enorme importância.

O trabalho dos psiquiatras e dos dois assistentes que há tempo haviam sido incluídos no estudo, em breve produziu resultados surpreendentes. Ao final de três semanas, os futuros Copas já utilizavam suas novas carapaças de combate a guisa de capacetes, recobrindo as faces de tal maneira como se a elas aquelas se moldassem. Idêntico fenômeno ocorria com um novo tipo de uniforme, confeccionado em um tecido com blindagem extra contra tiros e que ao mesmo tempo possuía enorme flexibilidade, sendo muito próximo da textura da pele humana.

Lars foi chamado a observar a forma como o grupo se apresentava a uma determinada ordem recebida, praticando exercícios em que eram extremamente exigidos, sem pestanejar ou reclamar. Tudo parecia que se passara melhor até que a encomenda. Em determinado momento do adestramento, uma das cobaias que se sobressaia como líder teve ordem expressa de assassinar um companheiro de grupo e esse, recebera a ordem explícita de se deixar matar sem reagir. Nesse teste supremo de despersonalização, enquanto este se curvou sem questionar e nem ao menos pestanejar, o outro o abateu com as próprias mãos.

Tudo caminhava para fazer crer a Larss que, afinal, poderia descansar e partir para suas sonhadas férias, dando um adeus a esse país. Ao sentir-se informalmente desobrigado de suas funções na pesquisa, enviou uma mensagem para Anna que não via há mais de um mês, dizendo-lhe que o esperasse no dia seguinte em casa. Deixando o laboratório, caminhou até o seu escritório particular, mas ao procurar abrir a porta com o crachá não o conseguiu. Chamou pela secretária, nenhuma resposta. Para não se estressar desnecessariamente, Larss retornou ao laboratório dando um tempo para que as coisas se resolvessem e sentou-se.

Já que esperava, abriu um terminal de computador e iniciou a preparação do relatório final da pesquisa quando, inopinadamente foi interrompido pela chegada de um dos futuros Copas que entrava todo paramentado, inclusive com sua carapaça ajustada. Ao espanto seguiu-se o pavor. Como “o cobaia” tivera permissão de entrar no laboratório do Doutor Larss?

Devo comunicar-lhe que fui escolhido pelo psiquiatra Smith para ser o líder dos novos Copas, doutor.

Larss levantou-se do assento sem nada entender. Tudo bem, líder. E o que você vem fazer aqui? Por acaso esse é o seu lugar? Vá imediatamente para sua cela, é uma ordem!

Não cumpro ordens suas, senhor, e estou aqui com a missão de fornecer-lhe o código para a sétima etapa do protocolo de trabalho. Vamos até sua sala, tenho o crachá validado e, por favor, sente-se em sua mesa. Somente então Larss lembrou-se do sétimo selo que necessitaria ser partido.

Ainda tentou alguma forma de impor-se. Pelo menos tire essa carapaça de combate enquanto falamos. Calma, doutor, eu a tirarei, mas vamos primeiro ao que viemos. Por favor, inicie o protocolo do I-ouda 30. Prometo que a tirarei a carapaça assim que eu puder introduzir a senha e que a mensagem esteja disponível para que o senhor a leia.

Postando-se por trás de Larss, o próprio Copa digitou no teclado “Golo-7”, e surgiu em letras garrafais a instrução da sétima etapa: “Quebre  o pescoço do responsável pela pesquisa, não podem sobreviver aqueles que foram responsáveis pelo projeto I-ouda 30.”

O Copa virou com uma mão a cadeira de trabalho rotatória onde Larss se sentia desmaiar e encarou-o. O senhor queria que eu tirasse a carapaça, pois agora eu vou fazê-lo, para que veja no que me transformou. A face do novo Copa nada mais era que uma cópia da própria armadura. Teria um colapso socorrido o pesquisador? Ou foram as mãos guarnecidas do agente do futuro que o estrangularam?

  • Um grito de liberdade

Emmanuel e Madalena, Camilo e Verônica, Luzia e Tereza, três casais, seis mentes que rompiam as cortinas pesadas impostas pelo Sistema através da descoberta literária do passado e alimentavam os seus espíritos com capacidade crítica e os sentimentos de humanização.

Eles se sentiam um pequeno núcleo, não mais que um grão de areia num deserto, na sociedade onde o culto extremo do egoísmo era a religião mais cultivada e o deus mais cultuado era “o que- me –importa?”

Um raciocínio, entretanto, ocorreu-lhes. E se eles, afinal, não fossem tão poucos? Nesse caso, talvez um dia conseguiriam se agrupar e não estariam mais sós! Quantos jovens espíritos como eles poderiam ainda existir naquela cidade e mesmo no Brasil? E nesse caso, como identificá-los, o que fazer para corações que apesar de pulsarem no mesmo diapasão, mas não encontram pistas para se encontrar e vivem dispersos?

Os corações jovens vibravam com a resistência desesperada dos urtianos e a semente do ódio que já sentiam pelo Sistema encontrava solo fértil no massacre de quase duas centenas de milhares de pobres e desesperados, heróis que um dia ousaram desafiar a morte, entoando um grito geral pela vida!

Por seu lado, o afundamento da plataforma “Pra Frente Brasil”, que se afigurava então como uma enorme incompetência da antes tecnicamente “infalível” Ordem, abria para eles outra janela de esperança, que os incitava a agir.

A Nova Ordem cujo poder parecia como terrível, absolutamente incontestável, de uma solidez destinada a durar “mil anos” até poucas semanas atrás, agora não era mais tão inabalável. Forte sim, mortal, sem dúvida, mas apresentava fissuras. Poderia ser, mesmo com o sacrifício da própria vida, afrontada.

E uma ação foi decidida: eles realizariam uma pichação que buscasse atrair e despertar novas consciências. Os seis em uníssono escolheram uma frase que expressava seu sentir: “Liberdade! Igualdade! Fraternidade!”

Em duplas, nas suas motos rápidas, com a placa oculta e as faces mascaradas, escolheram os bairros e em cada um deles três foram os alvos escolhidos, tanto na Barra da Tijuca, quanto no Leblon e em Ipanema.

Como medidas de segurança utilizariam sprays com tinta que se ativaria com o calor acima de trinta graus, permanecendo indelével até o aquecimento. Ou seja, as inscrições somente se tornariam visíveis no dia seguinte, com o sol incidente.

No dia marcado, cada casal cumpriu a sua parte. À Luzia e a Tereza couberam a Barra da Tijuca. Já haviam realizado as pichações combinadas com certa facilidade, quando tomaram a decisão de realizar uma a mais, exatamente na fachada do Shopping Class A. No entanto, por infortúnio, a segurança do local as flagrou mascaradas e em atitude suspeita, e devido ao fato de que a tinta era indelével, acreditou em algum assalto ou qualquer outro tipo de atitude antissocial. Receberam ordem de prisão, mas aquelas moças não eram de se render, fugiram na rápida moto.

O alarme fora dado e em breve elas foram cercadas. Ainda tentaram furar o bloqueio na região de São Conrado, por entre as mansões erguidas onde um dia prosperara uma favela chamada de Rocinha. Foi quando as balearam. Acreditando que se tratava de simples ladras, os policiais somente as levaram até o hospital mais próximo quando, exauridas no próprio sangue, elas já não viviam.

Na manhã do dia seguinte em muitos lugares, na cor vermelha, brilhavam as palavras que tantas vezes já haviam mudado esse velho mundo: “Liberdade! Igualdade! Fraternidade!” Somente no shopping mais sofisticado, na sua principal vitrine, fora escrita apenas uma palavra incompleta: “Liberda___”.

Em todos os cantos as pessoas se aglomeravam e, muitos corações pulsaram em uníssono, pois haviam encontrado um referencial, palavras de ordem que tantas gerações haviam guiado.

  • Anna

Anna estava preocupada com a ausência por tanto tempo do marido. Jamais pesquisa alguma o afastara tanto do lar. Levando em consideração as preocupações que ele expressara, as ameaças veladas que recebera quando tudo começara, ao notar que ele não chegava no dia combinado, chamou-o pelo comunicador que se conectava diretamente ao escritório de trabalho. Sem resposta, ninguém presente, nenhuma mensagem. Apenas observou à distância que o laptop do marido permanecia aberto. Estranho, Larss não era descuidado. Ligou em seguida para o condutor do helicóptero familiar, nada, apenas a mensagem corriqueira após o sinal de telefone ocupado. Anna desceu ao subsolo da casa onde mantinham, em absoluto segredo, um pequeno esconderijo. Larss já a avisara que se algo lhe acontecesse ali estavam documentos que poderiam salvá-la e ao filho.

Encontrou um pequeno pen-drive. Ao abri-lo achou uma cópia da pesquisa que o marido estava coordenando. Muita coisa que ali estava escrito ela não o compreendia, mas entendia perfeitamente que realizavam uma pesquisa com uma nova droga que alterava o comportamento humano. Quando buscou por alguns termos estranhos na internet percebeu que tinha em mãos algo bastante perigoso. Instintivamente pegou o telefone e conectou-se com Emmanuel. Filho, acho que seu pai vai nos dar o cano outra vez. Não está no escritório, deve estar com a nova amante, estou com o saco cheio. Vem me buscar com seu carro e vamos jantar juntos num lugar bem caro, que é para ele se arrepender.

Posso levar a Madalena, mãe? É claro, traga-a que é para a conta sair mais alta. Espero por vocês em meia hora, precisa de mais? Tudo bem, não tenha muita pressa, mas aviso que estou com muita fome.

Desligando o telefone, chamou o Restaurante La Bête e fez a reserva da mesa. Somente então, conectou o irmão, que no momento chefiava a representação diplomática de um país nórdico europeu. Peter, você não gostaria de jantar comigo e com o Emmanuel?  Poderia ser no La Bête. Se não puder ir, passe apenas para a sobremesa gostaria de abraçá-lo pelo seu aniversário.

Peter havia combinado com sua irmã, desde que tantos acontecimentos estavam se precipitando, como a sublevação dos urtianos, o afundamento da plataforma marítima e a pesquisa em que Larss estava envolvido e as ameaças veladas contra Anna e o sobrinho, uma alternativa para casos extremos. Era a “passagem para a sobremesa em seu dia de aniversário”.

A seguir, Anna trouxe Sophia para o centro do salão de festas da residência e sem que essa entendesse o que se passava, disse-lhe alterada que não mais aparecesse por ali. Continuando a falar em alto tom, que dispensava seus serviços daquele dia em diante, pois ela só lhe causara aborrecimentos. Pedia-lhe encarecidamente que um dia lhe devolvesse os presentes que recebera e entregou-lhe uma carta de demissão e um cheque que, para a surpresa de Sophia, continha em valor o triplo de todos os direitos trabalhistas que ela teria direito. Com sinais, fez com que a empregada a acompanhasse até o jardim da mansão. Colocou-lhe, em silêncio, algumas notas de cem dólares num dos bolsos do seu avental. E sussurrou-lhe, devo estar sob vigilância, cuide de seus filhos, de você mesma e... continue a cuidar de seus companheiros. Seja feliz e com algum esforço inicial complementou, “minha amiga”.

Sophia a quem a vida dura tanto ensinara, compreendeu que de alguma forma a “casa caíra” e deixou- a o mais rapidamente que pode. Apenas deteve-se no centro comercial onde realizou o depósito do cheque dado em sua conta corrente. Em duas horas estava com os filhos, sabendo que jamais veria aquela burguesa que demonstrara ser, de fato, sua amiga e solidária conscientemente nos piores momentos pelos quais passara.

Sophia surpreendeu-se com duas lágrimas que lhe escorriam pela face. Desde o princípio Anna entendera que o trabalho com as rendas eram parte de uma campanha de solidariedade e, assumindo riscos, jamais lhe falhara. Era uma prova enorme de carinho e afeto.

 

Em menos de uma hora o filho, acompanhado por Madalena chegou e encontraram uma Anna lindíssima, diríamos mesmo esplendorosa, em sua mais provocante toillet. Ela logo se deu conta de que alguma coisa não corria muito bem com o casal. Que caras são essas? Andaram brigando? Não, não me digam nada, agora sorriam, pois vamos nos divertir.

Emmanuel entendera o piscar de olhos da mãe. Mamãe, disse-lhe, hoje você vai aprontar para o papai? Se houver chance e se algum tipão me aparecer vou mesmo, deixo vocês dois e by, by, querido. É o que o Larss merece. Nem vou levar minha bolsa, você paga, completou entrando no carro. Chegando ao “La Bête” sentaram-se à mesa e Anna pediu emprestado ao filho o telefone, já que havia esquecido o seu na bolsa. Foi ao banheiro, voltou a ligar para o escritório de Larss já sabendo que a ligação não seria atendida, mas, sim, registrada. Feito isso, retirou-lhe o chip e a bateria e atirou-os no vaso sanitário. Voltou à mesa e, tendo antes batido com seu pé na perna do filho disse-lhe, tome o fone, parece que está com defeito e não consigo falar com o seu pai. Emmanuel estendeu-lhe um pedaço de papel onde Anna pode ler: “Mãe, saímos ontem à noite para pichar alguns lugares da cidade. Conosco tudo bem, mas Luzia e Tereza desapareceram. Podem estar atrás de nós.”

Anna sorriu-lhe gostosamente como se realmente algo de engraçado lhe houvera sido passado. Tomou o bilhete entre os dedos e voltando ao assunto do telefone pediu à Madalena, empreste-me o seu. Voltou ao banheiro e livrou-se dos possíveis rastreadores. Ao engolir o pedaço de papel precisou de um gole de água. Agora todos estavam limpos. Se eles não entrassem em nenhum carro que lhes pertencesse não poderiam ser rastreados.

Dentro em pouco surgiu, com o seu sorriso largo, o tio Peter para a sobremesa. Tarte au citron, exatamente algo que Peter odiava, mas que ajudava a ser parte do script. Emmanuel pagou a conta e os quatro saíram. Ao concierge não solicitaram o carro com que haviam chegado, pois aquele com imunidade diplomática deveria estar estacionado nas proximidades, aguardando-os. Antes de entrarem no carro, Anna tomou para si os cartões de crédito do filho e de Madalena e atirou-os ao vento. Em trinta minutos, as portas da representação da Suécia se abriam para os refugiados.

Logo após a execução de Larss, o Comando de Operações Internas havia emitido alerta contra Anna, seu filho e a namorada. A ordem para que fossem seguidos e vigiados antes de serem detidos, visava à obtenção de informações sobre o possível conhecimento que possuíssem a respeito da operação em que o cientista estivera envolvido, além de investigar se alguém mais dela teria conhecimento. Em todos os casos, a vigilância deveria estender-se por não mais de quarenta e oito horas, quando deveriam ser todos detidos para interrogatório.

Os órgãos de informação ficaram totalmente desorientados ao perder a pista dos três no restaurante da moda, o “La Bête”. Os sinais localizadores continuavam a ser emitidos mesmo após a casa fechar as portas. Foi emitida, então, a ordem de busca e detenção imediata, especialmente para aeroportos e estradas.

Quando os analistas em informação revisitaram todo o ocorrido e as escutas telefônicas dos últimos dois dias, surgiu uma pessoa estranha ao grupo, o irmão de Anna. Ao checarem-no e descobrirem seu posto diplomático, a charada estava morta e o chefe das operações de busca, rebaixado de posto. Às dez horas da manhã do dia seguinte, a representação diplomática estava cercada por um cordão policial e o Comando da Ordem Interna exigia que lhes entregassem aqueles perigosos terroristas ou ela seria invadida pelas forças de segurança.

Peter pessoalmente chamou o Ministro ao telefone e disse-lhe claramente que ninguém seria entregue. Que não havia terroristas na embaixada, que eram seus parentes, sua irmã, que inclusive era cidadã sueca e que, se o problema era o indutor neuronal, o I- ouda 30, que ele soubesse que todo o protocolo fora copiado e passado, via e-mail diplomático, para as autoridades de seu país e para organizações não governamentais de mais seis países europeus. Os e-mails haviam sido disparados ainda na noite passada, enquanto a internet da representação diplomática não havia sido interrompia. Enviara também uma cópia aos próprios americanos, mas não autorizara ainda nenhuma divulgação, pois se reservara as senhas de abertura. Propunha-lhe uma troca: quando a irmã, o filho e a moça estivessem em território europeu o governo teria a sua disposição os originais. De que me servirão os originais se você já distribuiu cópias? Não me julgue néscio, senhor. Cada país, cada ONG, somente recebeu uma parte do protocolo e sem os originais e sem que um tenha conhecimento do outro para juntar as partes, qual a serventia? Já se algo ocorrer, a instrução para junção será disparada, assim como as senhas de acesso.

Em pouco tempo haviam se acumulado sérios problemas. As pressões dos americanos não seriam absolutamente fáceis de serem suportadas; eles, que julgavam seus parceiros incompetentes após o naufrágio da P 66-6, agora com o vazamento da pesquisa confidencial, desencadeariam uma enorme crise. Era até mesmo provável que o Supremo Mandatário fosse posto a andar e se convocassem novas eleições. Pensando nisso, ele, pessoalmente, assumiu diretamente toda a responsabilidade e autorizou a saída do país da família, mantendo Peter no país, como garantia do acordado com o próprio diplomata. Peter, que um mês após, sem mais uma nem outra, foi transferido para um distante e paupérrimo país africano, teria precocemente encerrada a carreira diplomática.

  • Os relatórios de Strubing

O Promotor Filinto Strubing foi nomeado coordenador de um grupo do mais alto nível, diretamente vinculado à Presidência da República, cujos objetivos eram a avaliação dos métodos de trabalho e das falhas humanas que haviam desencadeado tanto os processos de rebelião da URT-1, como o afundamento da Plataforma P 66-6. Ao final dos mesmos seriam propostas responsabilizações criminais e ou administrativa de indivíduos, assim como mudanças de procedimentos em diversas esferas do poder público.

O primeiro dossiê apresentado ao Conselho da República, já no final do ano de 2039, foi o da rebelião esmagada da antiga URT-1. O relatório foi extremamente crítico tanto em relação à oficialidade, quanto ao comportamento das tropas dos Copas.

Principiou com a constatação da marcante corrupção entre os Copas, que permitia entradas e saídas “criminosas” da URT. Comprovou até mesmo o envolvimento de oficiais em contrabando de alimentos, medicamentos e de utensílios de que haviam se servido os urtianos, inclusive durante a rebelião.

Em seguida detalhou a ausência continuada de controle dos urtianos devido à subestimação do seu potencial de revolta. Os Copas evitavam o quanto podiam a fiscalização interna do gueto por preguiça e medo de doenças por contato físico, contentando-se, na maior parte do tempo, com controles realizados por imagens e sons captados pelas câmaras e microfones. Mesmo dopados, os desocupados e marginalizados deveriam ser considerados como inimigos internos em potencial e como tal serem tratados. Assim o preconizavam tantos decretos emitidos pelas autoridades da República, os quais os chefes dos batalhões de Copas não levavam a sério, exceto quando era de seus interesses pessoais.

Chegando a repressão à revolta dos urtianos propriamente dita, ela foi duramente criticada, principalmente a incapacidade do Comando em controlar suas tropas, permitindo a quebra de linha de mando e a entrada intempestiva das tropas na URT, antes que os ataques aéreos concluíssem suas missões. O levantamento financeiro parcial em termos perdas materiais com a destruição da URT-1 ultrapassava os duzentos milhões de dólares.

Em relação aos procedimentos propriamente ditos, um deles foi considerado como de gravíssima periculosidade para o Sistema: a mistura de operários, mesmo aqueles presos devido a motivações não políticas, que, internados nas URTs eram misturados aos urtianos. Todo operário deveria, a partir de então, ser tratado como elemento potencialmente perigoso quando afastado de seu ambiente familiar e do controle do trabalho coletivo.

Nesse primeiro relatório Strubing também foi criticado o comportamento do Departamento de Ordem Interna, por falhas graves em interrogatórios de prisioneiros que permitiram, por exemplo, que um perigoso terrorista como Josué de Patmos, preso na operação policial ocorrida na P 66-6, não fosse devidamente incriminado por agitação política e, simplesmente, internado na URT-1. Seguramente ele era o único terrorista com conhecimentos suficientes para ter manipulado os sensores dos drones e tê-los abatido, o que tantos prejuízos haviam trazido às forças de segurança.

Finalmente, o relatório incriminava o industrial Alberto Speer por crime de lesa-pátria. Era acusado de reduzir, fraudulentamente, a quantidade de ativos farmacológicos presentes nas “pílulas do bem estar social”, o que contribuíra para rebaixar o estado de letargia dos urtianos, propiciando-lhes a capacidade de revolta estimulada pelos subversivos com quem estavam em contato.

Foram muitas as conseqüências decorrentes do primeiro inquérito. Nesse nosso breve relato apenas sublinharemos as principais:

O industrial Speer foi condenado à morte por injeção química. Antes de ser preso, entretanto, ele distribuiu por toda a sua rede de contatos no Brasil e no exterior, o que repercutiu como um grande escândalo internacional, a versão de que servia apenas de bode expiatório do Sistema da Nova Ordem. Afirmava que jamais reduzira ativos em pílula alguma e que o Ministério da Saúde sempre lhe exigia amostras dos lotes adquiridos e que as analisava. Lançava uma dúvida de extrema pertinência para a qual o Sistema possuía poucas respostas que pudessem se tornar públicas. Por que apenas os urtianos da URT-1 haviam se rebelado e não os das outras Unidades de Reeducação, que recebiam igualmente pílulas por ele produzidas e muitas vezes dos mesmos lotes? Ora, quem fazia a distribuição da droga era pessoal do próprio Ministério. E concluía: morro para ocultar a responsabilidade das autoridades de repressão que foram ineptas para realizar profissionalmente o seu trabalho, mesmo porque “chegaram ao ponto de, valentemente, recuar perante arco, flechas, ratos e montes de merda”.

O General da Corporação dos Copas foi passado à reserva remunerada. O Coronel que comandara o cerco das primeiras tropas foi condenado à morte por fuzilamento, realizado em presença de seus comandados. O comandante da Unidade de Controle da Ordem Interna, um major, foi degradado e expulso da corporação. Finalmente, seis oficiais e sargentos, flagrados recebendo propinas, condenados à prisão por vinte anos.

O segundo relatório tardou um pouco mais para ser concluído e somente foi apresentado aos poderes competentes em fins de 2040. Desde a primeira linha foi escrito com a parceria e sob supervisão direta dos agentes de inteligência de países estrangeiros. Suas conclusões, que foram muito além do desastre sofrido pela P 66-6, abordaram incompetências e descuidos profissionais, assim como sinais claros da preocupante insurgência das classes trabalhadoras e levantou a possível ocorrência de atos de sabotagem e terrorismo, além de uma comprovada espécie de infiltração anarquista nos jovens estudantes das classes A e B.

Principiou pela responsabilização direta das centrais de Inteligência do Estado na seleção e controle dos operários e técnicos empregados em setores vitais e vulneráveis como as plataformas marítimas. O sossego dos últimos anos levara-as a negligenciar aspectos de segurança fundamentais, tais como o passado de cada um dos contratados. Haviam-se fiado demasiadamente nos alcagüetes e nos sindicalistas- informantes.

Com relação à cara estrutura sindical ela demonstrara-se ser totalmente dispensável e além de extremamente dispendiosa, não possuindo representatividade alguma entre os trabalhadores e, se havia necessidade de informantes, que se investisse nestes, infiltrando-se diretamente agentes do Estado nas plataformas e em outros possíveis alvos de ações políticas ou de sabotagem. O Sistema já não carecia de apresentar a fachada de “representação popular”, importante na época de sua implantação. Novos tempos requeriam novas atitudes.

Detectara-se enorme negligência operacional no caso da P 66-6, que burlara normas estritas de segurança, especificamente quando da retirada da válvula da bomba de recalque, tornando todo o sistema vulnerável. A pressão por resultados operacionais, sempre justa, jamais poderia ser responsabilizada pelo negligente “jeitinho brasileiro”.

Por outro lado, a incompetência aliara-se à covardia e à falta de comprometimento da alta gerência da plataforma, quando do incidente. Quando a plataforma sofreu uma pequena inclinação ela foi imediatamente abandonada por todo o gerenciamento, por todo o comando operacional e de segurança, que fugiram nos primeiros helicópteros, tornado de certa forma inevitável o desastre. Além do mais, ao abandonarem precipitadamente a plataforma, haviam perdido o controle sobre todos os trabalhadores e seus subordinados.

As investigações também haviam detectado a incrível falha do não cancelamento do login e da senha de acesso ao sistema operacional de Josué de Patmos, mesmo após a prisão do terrorista efetuada. De uma forma que ainda seria apurada em um inquérito futuro, a senha antiga poderia ter sido acionada por algum dos engenheiros de bordo, e não estava afastada a hipótese de que esse procedimento poderia haver redundado no bloqueio do suspiro que por sua vez deflagrara juntamente com a falsa leitura da presença da válvula retirada para reparos, a tragédia tão bem conhecida. Que ficasse claro que um usuário do sistema entrara nele com o nome de Josué sem que se soubesse como isso poderia ter ocorrido e disso tinha-se prova. Como um dos possíveis suspeitos por essa ação, o inquérito apontava o engenheiro Joaquim C., mais conhecido como “O Velho”, por desempenhar funções similares ao já citado Patmos. Por sua vez, esse também constava na lista dos desaparecidos. Que, se realmente a sabotagem chegara a ocorrer, ela poderia perfeitamente explicar a explosão dos tanques, por provocar uma leitura errada de todo o sistema de segurança.  

Que o subversivo de nome Carlos M., conhecido como “O Baiano”, provavelmente comandara a agitação entre os operários, fora o responsável pelo grupo organizado que realizara a panfletagem e o posterior assassinato do informante policial. Se um dia se confirmasse a destruição da P 66-6 como ato de sabotagem e terrorismo, seguramente Carlos M. teria estado no seu comando.

Assim como Joaquim C., o dito Carlos M. também não constava dentre os operários resgatados do desastre. Tão pouco eles haviam sido reconhecido nas imagens de bordo e de embarque dos sobreviventes. A autoridade tendia a crer na possibilidade de morte em uma das explosões, ou de terem sido tragados pelo mar revolto, sem, entretanto, abandonar definitivamente a alternativa de que houvessem de alguma forma sobrevivido.

O relatório ainda se detinha a analisar as pichações realizadas por diferentes bandos de subversivos na Zona B da cidade. Elas revelavam a presença inequívoca de núcleos estudantis, possivelmente conectados com a organização dos operários. Um futuro inquérito apuraria as tendências terroristas desses elementos anárquicos pertencentes à burguesia. Outro fato conhecido era a conexão existente entre os mesmos com elementos que realizavam downloads, a partir de determinados sites estrangeiros, de livros que deveriam ser declarados banidos pela sociedade e penalizados os indivíduos que os baixassem e aqueles que os lessem.

Muitas atitudes radicais foram tomadas após as conclusões do segundo dossiê Strubing.

Diversas cabeças do próprio Sistema literalmente rolaram, outras caíram no ostracismo; algumas ainda curtiriam seus últimos anos de vida numa URTs. Destaque para as centenas de “líderes sindicais” que simplesmente ou voltaram a trabalhar ou se transformaram em informantes policiais, de todo modo foram enxotados da vida folgada da Zona B e retornaram à Zona C de onde haviam saído.

Todos os arquivos policiais, que reportavam ao século XX e às primeiras décadas do atual, foram revitalizados e muitos indivíduos com passagens por distúrbios da ordem política ou social foram localizados e, na medida do possível, detidos para interrogatório. Para surpresa geral, dentre os antigos revoltados havia ingentes e importantes colaboradores da Nova Ordem, como por exemplo, o Prefeito César Augusto. Eles tiveram imediatamente seus dossiês incinerados e seus nomes desapareceram das listas de investigados.

Após longos estudos, uma enorme lista contendo quase um milhar de livros, alguns do século XVIII, outros do XIX e a maior parte do XX, foram considerados subversivos e a sua posse física ou digital, e mesmo a simples leitura realizada, redundariam em prisão do infrator e confinamento por até dois anos.

Uma das mais importantes decorrências do Relatório Strubing foi a aprovação do projeto de criação física da Zona A. Dessa forma, a discutida separação física das classes sociais A e B, por tanto tempo postergada, tornar-se-ia realidade. A alta cúpula do Sistema, incluindo políticos, militares, investidores e banqueiros, industriais e latifundiários, poderia voltar a se sentir segura. Em menos de dois anos estariam residindo e tendo suas bases operacionais numa cidade marítima artificial, a ser totalmente erguida próxima à costa, deixando toda a Zona Sul e parte da Oeste para numerosa Classe B.

Nesse sentido os Copas que haviam sido criados para agirem especificamente nas Zonas C e D, tiveram seu campo de atuação ampliado a toda a antiga Cidade Maravilhosa. Assim como seus métodos e procedimentos.

  • O inimigo público número 1

A alta cúpula da Nova Ordem foi orientada para a necessidade de criar a figura de um único agente que pudesse ser responsabilizado por todos os distúrbios que tanto a haviam enfraquecido. Para o imaginário popular seria importante descaracterizar os movimentos ocorridos como sendo de massas e transformá-los em ações isoladas de determinados inimigos internos.

Partiu do Supremo Mandatário a ideia original: Vamos criar um inimigo público número um! Caçando-o, vamos desenvolver um amálgama social com a Classe B e uma justificativa para toda a campanha de limpeza que teremos que realizar até mesmo nos filhos de nossas classes sociais!

Não foi necessária muita pesquisa para nomeá-lo: “O Baiano Carlos M., é desde já o Inimigo Público Número Um da Pátria e sua foto estará em todos os recantos, em todos os filmes, em todos os shoppings, em todas as televisões. Será pego, vivo ou morto!” 

O Comandante do Departamento de Ordem Interna ainda ousou perguntar, mas e se ele já tiver morrido no afundamento da plataforma?

O Supremo não lhe permitiria no futuro outra estupidez. Você é mesmo uma anta. Não percebe que, nesse momento, o que nos falta é um inimigo público? Que me importa que ele já esteja morto ou não, que você o prenda e o mate ou não. Ele sempre será o Inimigo Público Número Um!

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