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“2039: Ficção ou Profecia?”

Ao final

  • Sobre os Copas

Decorreram dois anos dos acontecimentos narrados. Nesse período aconteceram alguns fatos relevantes que merecem ser relatados.

A experiência com o indutor neuronal provou ser um grande desastre. Nos primeiros meses os novos tipos de Copas tiveram um comportamento absolutamente em conformidade com o esperado pelos responsáveis pela pesquisa. Eram seres absolutamente previsíveis, desprovidos de vontade própria e as ordens recebidas eram executadas sem pestanejar.

A experiência, entretanto, no afã de substituição rápida dos antigos Copas, foi estendida quase que imediatamente para mais trezentos sujeitos. Pretendia-se, no prazo de um ano e meio se criar pelo menos dois batalhões de elite, reduzindo-se a formação dos antigos, até que, com o tempo eles fossem extintos pela nova raça robotizada.

Acontece que os primeiros vinte e três novos Copas que haviam sobrevivido ao primeiro experimento, somente mantiveram o comportamento previsível por não mais que uns dez meses, a partir dos quais as ordens que lhes eram transmitidas pelos psiquiatras e pelos adestradores americanos deixavam de ser cumpridas. Inicialmente, alguns apresentavam um preocupante alheamento da realidade e simplesmente deixavam-se ficar como que jogados pelos cantos da “Geração do Futuro”. Aumentaram, nesses, as doses do indutor neuronal diário. A melhora no comportamento obtido foi passageira, e afinal, terminaram entrando em profunda depressão e pouco reagiam até mesmo a reflexos básicos como comer.

Outros, por seu lado, apresentavam atitudes consideradas psicóticas, mesclando momentos em que encarnavam aspectos da personalidade que haviam tido na juventude, antes das intervenções cirúrgicas, atitudes muitas vezes infantis e irresponsáveis, com outros de extrema violência, onde primeiro se agrediam uns aos outros e, depois, aos próprios adestradores se esses não se fugissem.

Foi quando os responsáveis pelo projeto tomaram consciência do perigo que corriam com os novos trezentos jovens nos quais se praticara a lobotomia parcial com o implante de células neuronais. Deveriam ter esperado um tempo maior com as primeiras cobaias. Mas a pressão por resultados, a insatisfação com os Copas com resquícios de alguma humanidade, a velha tendência a se corromperem, e que precisavam ser substituídos, tudo isso influenciara na adoção de uma medida absolutamente temerária.

Não possuímos informações de como os distúrbios finais se precipitaram. O que sabemos é que, em determinado momento, os psiquiatras e os adestradores foram despedaçados pelas primeiras cobaias. O Sistema imediatamente ordenou que os antigos Copas cercassem o edifício e destruíssem a tudo e a todos, numa operação em código que ganhou o nome de “Colibri”.

Aquela que passaria para a História como a “Segunda Noite dos Longos Punhais” terminou com todos os jovens robotizados exterminados e com o Bloco da Geração do Futuro transformado em cinzas. Entre os Copas que participaram do massacre, a imagem daqueles que um dia iriam sucedê-los, possivelmente após liquidá-los, não se apagaria tão facilmente de suas lembranças.

  • Os livros

A enorme lista de livros proibidos pelas autoridades, assim que foi publicada, criou em diversos setores da juventude uma verdadeira febre de curiosidade sobre os mesmos. De tal maneira que os livros caçados passaram a ser baixados de determinados sites com nomes e autores absolutamente diferentes daqueles originais. Passaria um bom tempo até que os censores se dessem conta de que um escritor inócuo do século XX, com nome de certo roedor, algo como um coelho, jamais poderia, por mais que escrevesse obviedades, ser autor das mais de trezentas e cincoenta obras baixadas pela internet.

 

Num determinado dia de fevereiro, caminhando com os filhos crescidos pela praia do antigo Aterro do Flamengo, uma operária de nome Sophia, sentiu-se incomodada. Tinha a clara sensação de estar sendo seguida. Ela nunca deixara a militância da solidariedade e do apoio às famílias dos resistentes. Mandou os filhos se banharem e aguardou. Deve ser a minha vez. Em épocas de terror as pessoas que ousam resistir têm vida curta. A dela durara mais de dois anos. Sentou-se na areia e deixou escorrer pelos dedos a areia quente, olhou em paz para o mar, talvez pela última vez na vida. Poderia jurar que nunca o encontrara tão lindo e amável. O primeiro toque que sentiu no ombro surpreendeu-a. O contato era com uma mão humana e não uma mão provida de garras de combate. A voz familiar disse-lhe, como vai, companheira. Sophia olhou o homem que se abaixava e sentava na areia ao seu lado. Por baixo da cabeleira de mau gosto identificou a face de Carlos, o baiano.

 

FINES

04/ 2014

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