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Marcel Proust

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"Contos de Máscaras"

2. Conto Primeiro: Um Hotel chamado Tempo

Estámos no alto Nilo, e seguindo sua margem oriental chegamos às ruínas da antiga necrópole de El Kab, que nos tempos dos primeiros faraós era chamada de Nekheb. Num mundo de símbolos, Nekheb era  uma espécie de mãe- deusa e seu abutre branco, o meio de transporte das almas para o céu.

Ceran, amigo de longa data, arqueólogo de formação e humanista de coração, era o responsável pelas escavações e estudos na necrópole; assim que nos recepcionou,  permitiu nosso acesso a todos os locais já seguros para visitação.

Dentre tanto, foi um túmulo cavado numa rocha que me chamou a atenção de forma especial. Dento dele já não havia qualquer Osiris mumuficado, nem mesmo peças rituais ou alegorias, apenas e tão somente uma inscrição incrustada numa pedra tumular. Copiei cuidadosamente seus hieróglifos que o amigo arqueólogo em poucos minutos os traduziu. Eles me contavam:

 

“Tu passas o rio de barco, não és repelido,

Teu coração te pertence em verdade,

Teu coração te pertence como outrora”.

Ceran contou-me que o túmulo pertencera a uma mulher e a inscrição fora seguramente realizada pelo marido ou por um amante, quem o poderia afirmar? Disse-me mais. Que o antigo Egito da era matriacal tinha temas poéticos e místicos geniais, próprios de um mundo encantado e harmônico. Naquela época, o dualismo da vida e da morte conseguiam dissolverem-se num êxtase de maior conforto para os humanos. Disse-me Crean que era lógico que o medo da morte existia como uma ruptura extrema, mas que era percebida com mais harmonia, numa perspectiva associada ao nascer, morrer e renascer.

E essa conversa nos acompanhou até Luxor, separada da necrópole pelas águas do Nilo. Senti, então, que os mundos da natureza e do espírito podiam não estar separados, ou melhor, houvera um tempo em que não o haviam estado. Águas cristalinas separando a terra dos que vivem daquela dos que são somente sombras, e que precisa ser cruzadas na grande travessia da morte. São águas não repelem aquele que mantém seu coração e dentro nele, uma alma. Um coração feminino que o amante reconhece sempre haver pertencido a mais niguém, a não ser à própria amada. Que modo delicado de consignar o respeito por quem se amou e comunicá-lo para a eternidade dos tempos!

Finalmente chegamos a nosso destino, onde a Luxor dos mortos da espaço à Luxor, cidade turística, cidade dos vivos.

Ceran preprava-me uma uma surpresa. Quando chegamos, convidou-me para um encontro que ocorreria em exatamente sete dias, assegurou-me que teria a oportunidade de conhecer uma pessoa que me auxiliaria nas histórias que conto. Não era um simples contador de histórias, mas um tipo muito, muito especial, daqueles que nos trazem aventuras impossíveis e nos asseguram, por todos os deuses, tê-las vivido.

O encontro seria para o café da manhã no Hotel do Palácio de Inverno, onde meu amigo estava hospedado. Recomendou-me que viesse com tempo e trouxesse comigo um gravador. Despediu-me dizendo que eu jamais esqueceria a personagem.

Minha curiosidade impediu-me que conciliasse o sono na primeira noite. Imaginava como seria esse menestrel que Ceran me apresentaria. Enfim os grãos escoaram e, um a um deixaram a ampulheta da espera, de tal modo que uma hora antes do combinado estava eu a postos no luxuoso hotel.

Ceran nos apresentou e pediu que ele me contasse, em detalhes a experiência que com ele já compartira. Tudo acontecera num hotel do qual ainda era o gerente. O nome do estabelecimento que nada tinha de especial era simplesmente Tempo.

O meu novo conhecido, o rosto taciturno coberto por longa barba juntadas ao cabelo a escorrer, pouco deixava para se ver. Apenas uns olhos apertados, profundos, que buscavam o infinito enquanto falava e o nariz, no mais claro estilo grego. O mais marcante nele era a voz. Pausada, ressentida, magoada, transmitia um cansaço de nunca terminar. Cansaço estranho, logo me daria conta, por ser incansável no contar.

Sua idade era impossível de se definir. Seriam setenta, cem, duzentos anos, quem o poderia dizer? Para mim, indefinível.

Enfim estvemos juntos um longo período durante o qual gravei a estranha  narrativa pelo narrador denominada “peripécia em uma existência inesgotável”. O centro da mesma era o tal do hotel chamado Tempo, onde se hospedara um certo ancião de nome Archibaldo, outro chamdo Ramon e uma tal de Benvinda.

Nada mais irei  antecipar porenquanto, pois poderia, inadvertidamente, modificar o sentido daquilo que me foi confiado. Desta forma, meu papel será tão somente o de transcritor de tudo o que aquele senhor, que me foi apresentado como Aion, revelou-me.

 ......

 

E foi desse modo que Aion principiou sua narrativa:

O que fazer quando o momento, que é presente, procura se ocultar em minha Memória e se refugiar junto a seu irmão, o Tempo? Um presente que é tão somente o instante que desaparece em ruínas já no momento mesmo no qual se esgota.

Como a água plácida de um lago que o calor do sol transforma em vapor que pelo ar se espraia, mas que um dia retornará como chuva e voltará a ser vapor, meus movimentos e a dos personagens que me cercam reproduzem-se em ciclos repetidos que se abrem e fecham para se reabrirem, num construir que desmorona seguido pelo reerguer, para logo após voltar a desabar.

E, mesmo sabendo que assim é o viver, os ciclos a se alternarem, o que me leva a buscar por notícias, olhar para os ponteiros de um relógio ou a um calendário, tentando me integrar a um instante que eu sei será passado, ou mesmo já haver sido vivido, na circularidade do tempo e do movimento?

Talvez o faça apenas pelo anseio de manter uma relação com o que passou num momento esgotado. Ou talvez, quem sabe, eu procure nesse presente-passado, alguma intuição a indicar o lado para o qual o futuro me aponta a sua preferência.

Porque, de uma forma ou de outra, os homens precisam crer que maior e mais auspicioso que o presente será sempre o futuro, um devir que será sempre grande e consolador para um coração que se sinta oprimido pelo suspirar. Sei que é exclusivamente nesse sentido que o futuro pode ser considerado como uma benção, uma oferta dos deuses para que os humanos possam viver sempre na expectativa de que algo ainda irá melhorar. E aqueles seres que se especializaram na venda do futuro são como anjos que servem a deuses ocultos, fazendo transbordar dos peitos algo que lhes foi incutido ao nascer, ou seja, aquilo que está além do amanhã.

Então você, caro amigo de Ceran, saiba que em volta de cada um de nós existe todo um universo, no qual você é tão somente o centro do seu próprio e exclusivo mundinho, enquanto eu o sou do meu, muito mais amplo pois é feito por todo o Tempo.

Digo-lhe isso, porque além do presente do instante e do futuro que já começou, acompanha-nos sempre um passado vivido. E como é mesquinho o confronto entre a vastidão dos tempos e o olhar que podemos lançar sobre o passado de um só indivíduo! A imaginação dirigida para a vida pessoal perde-se em devaneios, assim como os olhos da alma dirigidos com mais amplidão se perdem nos alvoreceres e nas distâncias da vida da humanidade, comovidos com a averiguação de uma unidade que nela se repete.

A História é o que aconteceu, acontece e o que continua a suceder na evolução temporal. Mas é também o solo abaixo de nós. Eu, meu pequeno Hotel, os hóspedes, os funcionários que os servem, eles todos foram e continuam a ser o meu solo, minhas raízes e o único presente em que me é dado estar.

Recolho por isso mesmo os traços com que a Memória, no Tempo, me marcou. Ah, o tempo, ele não tem o mesmo significado, nem o mesmo peso, ou quiçá igual intensidade nos momentos da vida nem mesmo de um único indivíduo. Imaginem no caso de meu viver eternal! Então me dou conta que é tão profundo o poço do meu passado que acredito nunca chegar ao seu fundo por mais que o tente. De um passado que se unirá como num passe mágico a um futuro que ainda não existe, o que me resta apanhar? Unicamente o instante presente que é poderoso por estar aí diante de mim e de todos.

É nessa dimensão inalcançável que reconheço os campos de minha alma, e neles vejo o quanto foram fecundados pelos felizes efêmeros já mortos e o que de cada um deles incorporei como meu próprio, o quanto de minha filosofia de vida é simplesmente uma herança outorgada, apropriada e, de certa forma relida pelo meu espírito. Com efeito, nós caminhamos nas pegadas dos que nos precederam e toda a vida é um presente modelado em formas místicas.

Mas você, meu novo amigo, deve estar cansado de meu filosofar. Basta! Vamos diretamente à narrativa de um episódio dentre tantos, que mais marcou a minha vida sem morte.

Archibaldo

Era noite, dessas em que tudo parecia imponderável, incerto, escuro. A luz refletida da lua não se fazia notar; as nuvens, que o vento se encarregava de expandir e agrupar, não permitiam que as estrelas que despontavam firmassem a luz própria, inutilizando-as como guias seguras para viajantes noturnos, tornando toda jornada incerta.

Em idos tempos confesso carregara comigo certa habilidade em surpreender às pessoas antecipando determinadas coisas a acontecer. Debito à minha infinitude o desgaste dessa capacidade de portar, nos momentos de aflição e de perigo, lá no fundo do meu inconsciente, uma flecha a sinalizar o futuro. Com o tempo interminável sobreveio-me o desassossego, num peito onde um deus implacável implantou um coração que desconhece o repouso.

Estava na solidão dos tempos, na portaria do Hotel quando soou a sineta. Seria o breu da noite fria o único responsável pelo arrepio que me percorreu as costas? Quando abri as portas dei com a presença do hóspede que chegava trazendo consigo uma pequena valise, nada mais. Tudo nele lembrava o velho, o incomensuravelmente antigo. A estatura arqueada de quem já carregou muitas venturas e desventuras por anos sem fim; o rosto talhado em rugas compondo um plissado de depressões sobre depressões; o caminhar lento e coxo de quem já percorreu um mundo inteiro, o ar de quem já vivera muitas vidas. Naquele homem velho, somente os olhos pequenos irradiavam energia e, penetrantes, interrogavam antes que fossem perguntados.

Solicitou-me um quarto. Surpreendi-me com o timbre baixo e profundo de sua voz, vibrante de insondável decisão, em sintonia única com o olhar e não com o corpo. Disse-me não saber quanto tempo ficaria hospedado, eis que aguardava a chegada de uma amiga, certa mulher, Benvinda, alguém que o abandonara e saíra a rodar pelo mundo.

Como se chama o senhor? Preciso registrá-lo no livro do Tempo. Archibaldo escreva-o se quiser. De onde vem? Da Cítia. Cítia? Parei e procurei no mapa da memória, assim como naquele que permanece esparramado no balcão. Não vi nada parecido, mas a verdade é que já não enxergo mais tão bem quanto no passado, e tão pouco a memória ajude-me tanto quanto já o fez. O nome, entretanto, soava-me  familiar. Que o senhor venha da Cítia ou de qualquer outro lugar não importa, minha obrigação é, mediante honesta paga, abrigá-lo.

Dei-lhe um quarto confortável, ele retirou-se sem nem ao menos solicitar uma refeição, após um tão penoso caminhar. No entanto, antes de chegar aos seus aposentos, no patamar da escada, fez-me um único pedido. Desperte-me quando minha amiga chegar. Mas como poderei saber quem é ela? O senhor saberá, pois Benvinda sempre se faz reconhecer, disse-me com paixão na voz.

Eu pensava que para despertar em homens velhos o sentimento, a excitação, ou algo que vagamente e com suavidade nos recorde as sofreguidões de nossa juventude, requerem-se coisas fora do comum, por exemplo, uma admiração por alguém possuidora de uma atração como a de Afrodite, ou que se mostre espiritualmente ávida de nossa sabedoria, alguma coisa que torne a amiga mais rica e o velho seu senhor no saber doado. De todo modo, Benvinda me provocou uma curiosidade que há muito não sentia.

Os ponteiros do relógio, encimado na coluna de madeira, deram uma, duas, três, quatro e na quinta volta completa, temi que pudesse haver acontecido algum inconveniente com meu hóspede. Bati-lhe à porta. Entre, a voz vigorosa imediatamente convocou-me. A vida de tão longa e vivida me ensinou a me surpreender com pouquíssimas novidades, de tal forma que não me espantei ao encontrar o velho deitado com a mesma roupa com que chegara ao hotel, a cama ainda composta e muito pouco pregueada, sinais de quem simplesmente nela deixara cair o corpo, sem nem ao menos dar-se ao trabalho de desfazê-la.

Archibaldo, pelo que vejo o senhor está bem. E o senhor tinha dúvidas? Eu lhe disse que esperaria por Benvinda, já não me resta alternativa, outro fazer, ou mesmo qualquer encanto na vida. Há muito o senhor não a vê? Sim, faz tempo, tanto tempo que deixei de contar quantas vezes as flores desabrocharam, quantas vezes a primavera nos visitou desde que ela nos deixou.

Percebi que meu hóspede constantemente substituía o eu por nós. O senhor, então, tem certeza de que sua amiga virá? Meu hóspede respondeu-me com sofreguidão. Saiba que Benvinda sempre cumpre sua palavra e se disse que viria, chegará! O que seria dos seres viventes se assim não o fosse? Ela, como o senhor, é uma cita, perguntei-lhe. Sim e não, o mais correto seria dizer-lhe que Benvinda é suméria, sármata, egípsia, cita, universal. Percebendo que Archibaldo ansiava falar, pedi-lhe que me contasse um pouco sobre o seu povo, o seu “nós”.

Os citas vivíamos felizes enquanto cavalgávamos livres pelas estepes. Alguns nos chamavam nômades, outros bárbaros, outros ainda assaltantes, mas aprendi com a vida que cada homem vê no outro muito daquilo que ele próprio o é ou gostaria de sê-lo. De todo modo, sempre fomos um povo de bravos, de guerreiros. Quando foi preciso atacar, atacamos, conquistar, conquistamos. E foram muitas as cidades daqueles que haviam decidido ter uma vida estabelecida, sedentária por nós tomadas. Quando o fazíamos, apropriávamo-nos do que nos apetecia e destruíamos o que não desejávamos. Em seguida, deixávamos os vencidos e marchávamos sempre adiante como o vento que jamais estanca.

Vocês eram piratas, atrevi-me a dizer. Diga-me se alguma grande cidade ou algum império, uma única vez na História, acumulou fortunas e tesouros de outra forma que não através o roubo. Nós roubávamos e muito! Mas não acumulávamos a riqueza obtida; ou a deixávamos para trás ou a dissipávamos em festas, em enfeites, no amor.

Dentro de nossa tribo não havia grandes disputas, posso até mesmo dizer, para um povo de bravos guerreiros, vivíamos em harmonia. Quando brigávamos e lutávamos entre nós não o fazíamos por motivos mesquinhos como o poder, dinheiro e bens. Não, nossas razões eram superiores. Podíamos até matar por amor, ciúmes, ódio ou crenças. Matar e morrer por razões superiores, quer dizer, por paixões humanas.

Saiba que nossas tribos jamais temeram algo ou alguém. Certa vez, há muito tempo, os filhos daquele que os civilizados de sua época denominavam “O Grande Rei”, o persa imperialista, tentaram nos dominar. Queriam nos transformar em súditos, subservientes, escravos. Invadiram com o mais poderoso exército daquela época nossas estepes. Nossos antepassados fizeram com que o persa, Dario seu nome, caminhasse com as tropas por meio mundo sem jamais nos encontrar. Num dia estávamos aqui, noutro ali, em outro acolá. Eles que desejavam cidades para cercar, dominar, destruir, em vão procuraram alguma, o que encontraram pelo caminho eram apenas fogueiras apagadas dos acampamentos onde não mais nos estávamos. E enquanto buscavam por nós, pela retaguarda os atacávamos em pequenos grupos; matávamos muitos de seus soldados, roubávamos os seus suprimentos antes de desaparecer nos campos sem fim, na estepe amiga que nos acolhia, o seio da mãe amorosa. Dario, o invasor, perseguia fortuna, queria escravos, nós somente a liberdade, a felicidade compartida. Ao “Grande Rei” saiu caro se haver metido com meu povo. Em determinado momento o exército persa desmoralizado empreendeu a fuga. Por sorte eles haviam mantido uma ponte de barcas num estreito de mar ou seus prejuízos seriam muito maiores.

O que eu posso lhe afirmar é que enquanto éramos livres, nômades, nunca ninguém nos submeteu. Diga-me, estou aborrecendo-o contando fatos tão antigos, talvez nem nos livros mais se encontrem? O senhor me crê?

Os fatos mais antigos não o são mais que eu próprio, disse-lhe eu. Crer é a grande delícia da alma. Com efeito, o que é verdadeiro não é a verdade. Não se conhecem limites à verdade, como não se conhecem ao discurso, portanto, siga contando seu fado, meu amigo.

Dario foi o primeiro de tantos inoportunos que pusemos a correr, outros também tentaram nos subjugar, mas não nos dobramos jamais. Foi duro aprender que a destruição da alegria e da harmonia em que vivíamos viria exclusivamente de nós próprios, o fruto de nossa perdição estava dentro de cada um de nós, mas é cedo para chegarmos lá... Nisso meu hóspede baixou a cabeça e calou-se. Pude enxergar uma lágrima a deslizar por sua face muitas vezes centenária.

Ser nômade, meu amigo, significa ser irmão, compartir as dificuldades que são de todos; a caça, quando abundante nos torna alegres, quando ela escasseia, entristecemos. O poço de água encontrada é a mesma que saciará o gado e o homem. Viver na natureza é com ela comungar, compartir seu céu, seu ar, seu chão. Ancorar a tenda em árvores e agradecer pela sombra, pela hospitalidade, amar e ver nossos rebentos nascerem livres. Lutar pela lebre com as mesmas armas da raposa; despertar ao som dos pássaros que defendem seus ninhos e ensinam os menores a chilrear, da mesma forma que fazemos com nossas pequenas crias humanas.

O tempo da permanência em um local de acampamento estendia-se somente enquanto as forças da natureza estivessem ao nosso lado, não nos faltando a bebida, a comida, o prazer e a beleza. Mas, assim que os cavalos começassem a resfolegar, a empinarem-se em suas patas traseiras temerosos dos lobos, a caça a fugir do alcance de nossos arcos, sabíamos que eram sinais da hora de retomar a marcha. Caminhos a seguir, veredas a abrir, novas estepes a conhecer, conquistar, esposar.

Um caminhante faz pausas enquanto aguarda novas direções que somente os sentidos lhe abastecem; pouco depois sente seu coração bater forte, quer de desejo, quer também de medo e de angústia da carne, mas sempre como sinal de que deve tomar a estrada à cata de novas aventuras, que devem ser de qualquer forma vividas até os seus mais remotos detalhes, de acordo com a vontade do espírito infatigável.

Para se poder viver e morrer desse modo, é necessário que se seja livre de toda a riqueza que exceda os ornamentos dos corpos e que toda a fortuna de um homem possa ser suportada pelo cavalo a caminhar. E assim cavalgamos por espaços e tempos sem fim, sempre guiados pela luz da aurora até o poente, pois luz é o meio e o centro de onde a afinidade se irradia para a beleza, para o amor e para o conhecimento da verdade. E é na luz que estas três coisas são uma só. A luz é beleza tanto quanto verdade e sabedoria.

Mas a maioria dos homens é uma raça de desorientados, prosseguiu Archibaldo. Não sabem fazer nada que lhes parta do íntimo; de si mesmos, espontaneamente, não lhes ocorre a mínima coisa que seja. O que sabem fazer é arremedar os deuses, e a imagem que deles pintam na imaginação, eles as copiam e lhes dão vida própria. Por isso têm a tentação de criarem prisões para se encarcerarem a si mesmos: inventam os anos, os meses, as horas, quando o que realmente conta, aquilo pelo que vale a pena viver, são os dias e as noites. E somente quando se é livre pode-se assim viver.

Foi num alvorecer que a tribo parou. Chegáramos a um chão que se abria a nos acolher, a uma terra que arroxeava de tanta vida, onde os frutos brotavam suculentos dos galhos vertidos de cada árvore, onde a caça era abundante de não acabar mais. Minha gente cansada de caminhar desde todos os tempos, queria se estabelecer, como tantos outros povos já o tinham feito um dia. E foi assim que a força que vinha daquele pedaço de terra nos prendeu.

O Conselho dos Anciões reuniu-se à sombra do carvalho centenário, que a partir de então se chamou Árvore do Conselho. Eu era o mais velho, aliás, sempre fui velho, disse-me Archibaldo. Tínhamos importantes decisões a tomar. Decidimos que toda a terra seria repartida igualmente entre as famílias da tribo. Ora, umas famílias eram maiores que outras, tinham mais bocas para alimentar, mas o que poderia ser feito? Nós agimos com a melhor das intenções, pois as pessoas queriam ficar, ter sua posse e nós pensávamos que seguiríamos felizes como sempre havíamos sido, quem sabe, talvez ainda mais.

Na reunião apenas uma voz se ouviu dissonante dentre os antigos nômades: a de Benvinda! Ela que sempre foi jovem e velha como o Tempo, talvez por isso permanecesse dona de uma vontade inquieta. Levantou-se e disse que não pararia como todos. O mundo todo continuaria a ser, como sempre fora, aliás, seu lar. Dirigiu-me a palavra: “Archibaldo, você deveria impedir que sua gente se infelicitasse”. Acontece que eu estava tão cansado de cavalgar quanto meu povo, e mesmo que tentasse convencê-los a partir eu não o conseguiria... Ao se despedir de mim ela ainda falou: “Velho, nos veremos num lugar chamado Tempo, aguarde por mim”. O cavalo que a amava tanto ou mais que eu, ao sentir a amazona montada, sorriu-nos num relinchar festivo e pôs-se a cavalgar na velocidade do vento em direção ao Oriente. Isso faz muito, muito tempo, mas, afinal está se aproximando o momento do nosso reencontro e posso confessar que o espero ansiosamente.

Percebo que falo sozinho. Como posso chamar o amigo?

Tenho muitos nomes que me foram dados, alguns me chamam Íxion, o deserdado pelos deuses, sempre preso ao Tempo. Pedi-lhe, então, que me falasse um pouco mais sobre Benvinda.

Benvinda é a última amante. Se você e ela o permitirem, ela conquistará o seu coração. Mas não se engane, nunca conte com seu amor, pois ela não ama, tudo o que deseja é posse. De qualquer modo, com ou sem amor, ela sempre teve os homens e as mulheres que quis. Escolheu-os, jamais foi escolhida e se ela o tocar você a terá. Quando a encontrar nunca se esqueça disto! Sei que os homens passam toda uma vida a temê-la, eles a temem e não sabem que no momento extremo da vida ela revelará sua beleza única, perene, aquela beleza e suavidade que conforta, harmoniza e aquieta. Você a verá, Benvinda aquela que possui a força de todos os deuses imaginados pelo homem, uma potência encerrada num corpo delicado, dono das mais perfeitas formas, esculpido à imagem e semelhança de Afrodite e de Perséfone, no mármore da beleza, da reconciliação e da harmonia.

Íxion, a beleza feminina pode ser a beleza encarnada num molde feminino, servindo o feminino de expressão do belo. Mas o que seria se as relações do espírito e da matéria se invertessem e em vez de falar da beleza feminina falássemos antes da bela feminilidade, tendo o feminino se tornado o elemento essencial, e não sendo a beleza mais que um atributo seu, em vez de ser a feminilidade um atributo da beleza? Você teria então o espírito da paixão encarnado no da guerreira. Uma beleza perigosa, sinistra, a atração do belo por meio do sexo que lhe toma o lugar. Benvinda não é uma beleza respeitável e espiritual, manifestada sob uma forma feminina, mas uma beleza que expressa a própria feminilidade, uma explosão que se compara ao sexo, uma beleza de feiticeira.

Archibaldo suspirou, encheu os pulmões de ar e seguiu falando-me sobre sua amiga. Benvinda chegou à Cítia atravessando, no alvorecer dos tempos humanos, o mar de Azov. Navegava numa pequena balsa, construída por suas próprias mãos. Assim que nos encontrou, enturmou-se rapidamente com nosso povo. Logo, a sármata, que alguns chamavam de suméria, aprendeu nosso idioma do mesmo modo como se sempre o houvesse falado durante toda vida. Ela que ao chegar só nos fez uma exigência: que não a obrigássemos a seguir os costumes das mulheres citas, mas que, aquelas que o quisessem, seriam livres para imitá-la. Nós a respeitamos. Afinal, quem ousaria contrariá-la? E muitas foram as que a seguiram em sua independência, no seu modo de viver e sentir, de apaixonar-se sem ser tocada e de lutar.

Benvinda, como companheira guerreira, sempre surgiu na primeira linha de assalto às fortalezas e às cidades que se atravessaram em nosso caminhar. Exímia caçadora, Artêmis nunca escondeu sua inveja pelo arco ao qual poucas caças poderiam um dia se gabar de haver escapado. Nesse momento, o velho, lendo no fundo de meus olhos, sentiu o surgimento do meu desejo. Compreendo que esteja ansioso por conhecê-la, mas não a provoque, não antecipe o destino, mais vale que se aguarde o momento certo, pois poderia ocorrer-lhe como com Hera e você, Íxion, tomaria em seus braços por uma segunda vez, apenas uma nuvem. Mas voltemos ao meu povo.

Era tempo de falarmos sobre a repartição das terras. Apesar de terem idênticos tamanhos, seria impossível tornar cada fração absolutamente igual à outra, pois existem coisas que não se igualam, mesmo que se queira muito. Além disso, algumas terras divididas ficavam à beira dos córregos de águas límpidas, outras, distantes. Por isso, alguns dentre nós deveriam atravessar a propriedade dos outros para obterem água para si e para o gado. A princípio, estes o permitiam como cortesia, e até se animavam com as visitas.

Algumas famílias eram maiores que outras e o número de bocas a alimentar requeriam mais terras para o plantio e para o gado. E foi assim que pessoas passaram a trabalhar nas terras que não lhes pertenciam.

Nos primeiros tempos todos eram como irmãos, herança do passado errante, as coisas se arrumavam sem normas ou leis, apenas com o bom senso, na amizade mantida dos tempos de livre cavalgar e usufruir a vida. Infelizmente a memória desses dias foi se esmorecendo e a harmonia nos abandonando. Aqueles que tinham as terras ribeirinhas agora desejavam cobrar para que elas fossem pisadas. Os outros, por seu lado, reclamavam que a demarcação inicial das terras é que não fora bem feita. E, por fim, os agricultores que trabalhavam terras alheias começaram a sentir-se explorados pela parte que os proprietários se reservavam das colheitas.

Reunimos novamente o Conselho, meu povo precisava reencontrar o perdido equilíbrio. Caberia a eu propor soluções para tudo o que começava a infelicitá-lo, para as pequenas brigas e disputas. Afinal, a terra nos dava tudo o que necessitávamos e em perfeita abundância. O que nos faltava, assim pensávamos, eram algumas leis a serem definidas e seguidas. Resolvemos que, entre as propriedades, deveriam ser abertos caminhos para a livre circulação das pessoas e do gado, mesmo que as propriedades ribeirinhas fossem um pouco diminuídas. Mal sabíamos, então, que dávamos o primeiro passo para que cada proprietário construísse suas cercas e porteiras; primeiro foi a de madeira, depois veio o arame e, finalmente, o arame farpado.

Resolvemos também que cada trabalhador que lavrasse a terra alheia teria direito à metade da colheita. O que não previmos é que, com o excedente se acumulando, os proprietários de algumas glebas comprariam outras terras e criaríamos, com o tempo, um enorme grupo de famílias que teriam de seu apenas a mão de obra, e seus filhos, assim como os filhos de seus filhos, trabalhariam exclusivamente na terra de outros, que, por sua vez, seriam proprietários de mais e mais terras, numa fome de terra de nunca saciar.

Experimentávamos o que alguns chamam de progresso. Foi quando visitantes começaram a ser atraídos para nossas bandas. Eles trouxeram consigo o fruto com que os lídios disseminaram a discórdia em todo o mundo: o dinheiro! Chego às vezes a amaldiçoar Creso e seu pai, os tiranos que se banharam nas águas que infelicitaram para sempre o próprio rei Midas. Um dia a Lídia de Creso desapareceu, suas cidades se evaporaram, pois tudo o Tempo transforma, corrompe, destrói. Restou, entretanto, a Memória e o tal invento, o dinheiro, que qual a última praga deixada na caixa de Pandora, sobreviveu e reina majestoso hoje em todo o mundo. Todos os povos lhe prestam reverência.

Pois bem, quando esses visitantes introduziram o dinheiro em minha tribo, como num passe de mágica as coisas se transformaram. Não se trocavam mais os frutos que a terra produzia em excesso. As pessoas referiam-se a um valor abstrato que, logo a seguir, executava a magia de comprar tudo, até mesmo gentes e suas consciências. E como eram fáceis de serem estocadas as moedas de prata e de ouro! Num dado momento, até mesmo a fome por mais e mais terras chegou a ser superada pela gula inesgotável dos metais.

Realizara-se a sementeira que geraria a árvore da violência daqueles que acumulariam dinheiro e poder. E não tardaria para que surgisse entre nós outra faceta da violência, a crua, a dura, a daqueles que nada possuíam e que, se antes roubavam para comer, agora passavam a roubar para comprar e vender.

O Conselho dos Anciões foi chamado a reunir-se novamente. Contra minha vontade e por desgraça, ele autorizou que homens fossem contratados e armou-os para que as propriedades e os caminhos fossem defendidos. Por desgraça já não sei, se o que aconteceu tinha de acontecer e se o fato de ter acontecido é uma prova de que devia acontecer. Muita coisa sucede no mundo e como não podemos desejar que as coisas fiquem sem acontecer, também não podemos maldizer as paixões que são seus instrumentos, pois sem paixões e crimes nada poderia ir adiante.

Ainda havia povos de outras terras, que, desde então, passavam a cobiçar aquilo que ao nosso grupo pertencia. Se no passado, perante qualquer ameaça externa, todos os homens e mulheres se armavam para a defesa do grupo, agora essa defesa era delegada a um grupo especial de pessoas, dentre as mais brutalizadas que, mediante salário, cuidavam da segurança do coletivo, dos inimigos externos e dos internos.

Havia que pagá-los de alguma forma. Foi, então, que os impostos foram criados. Sem que o percebêssemos, gradualmente fomos constituindo um poder acima dos cidadãos, aquilo que posteriormente se conheceu como Estado, e com ele, uma burocracia. Os líderes naturais deixavam de ser necessários porque agora, os indispensáveis não eram os líderes, mas os chefes. Votamos e foi escolhido um Presidente, aquele que comandaria os burocratas, os cobradores de impostos e a polícia. O eleito era quase tão velho quanto eu, mas diferentemente de mim, ele possuía um rosto talhado no marfim, era depositário de um orgulho sombrio, implacável nas ordens e na manutenção das antigas e das novas leis que começaram a ser inventadas ou copiadas dos povos vizinhos. Fica-se afinal sem saber se aquele homem de fato desprezou conscientemente uma vida de paz e descanso, se conscientemente desafiou o destino e não desejou outra coisa senão viver no meio de sobressaltos e com uma espada pendente sobre a cabeça.

O destino dispôs também que o Presidente se transformasse rapidamente em um sacerdote do dinheiro. Então dispensou os trabalhos da terra e passou a viver de um salário e dos “frutos do ouro”, que nas mãos dele e de seus filhos se multiplicava sempre. Os juros, como dizem, foram inventados na velha Babilônia, mas eles os adotaram prazerosamente. Um dia, quando o Presidente decidiu que sua casa imensa já não lhe bastava para viver, contratou trabalhadores sem terra para que erguessem um palácio para o governo do povo. Na casa, que passou aos cuidados dos filhos, mandou afixar uma tabuleta: “Banco Cita: depósitos e empréstimos a juros”!

Eles também haviam aprendido que não se pode escravizar uma população recalcitrante sem primeiro agradá-la, convencê-la de que seus pensamentos são iguais ao de todo o povo e que as algemas e cadeias que lhe forjaram são nada mais que um mal necessário. Para isso, o povo deve esquecer que um dia possa ter sido livre. Haveria que incutir-lhes o desejo do consumo, do supérfluo. Afinal, diziam, é justamente esse deleite com o supérfluo, essa submissão a hierarquias superficiais e o tranqüilo desperdício de tempo por amor a elas que diferencia o civilizado do natural. Eles decidiram “civilizarem-se”.

O Conselho dos Anciões perdera sua função e jamais voltaria a se reunir. A Árvore do Conselho certo dia apareceu abatida, desfolhada e seu lindo caule de tantos veios centenários foi transformado em lenha e queimado ao fogo, para que ninguém recordasse de um tempo passado que não convinha aos poderosos.

Confesso que sofri, sofri muito quando descendo às profundezas de minha própria alma, obriguei-me a sorver lentamente o fel do que havia se tornado a existência. Poderia servir-me de algum consolo o igual sofrer da maioria de meu povo? Tentavam dizer às pessoas que o sofrimento redime-as de seus pecados, que as torna melhores, que as aproximam da divindade. Que logro! Sofrer não nos torna melhores. Para alguns raros como eu, o sofrer consegue apenas tornar-nos mais profundos, nada mais que isso. A maioria se embrutece. Foi com o embrutecimento que senti a mentira penetrar no meu povo até a sua medula.

Confesso que odeio e não posso suportar a mentira, não porque eu seja mais decente ou mais digno que os demais. É que a mentira é das poucas coisas que me assusta. Ela possui certo laivo de morte, não da morte benfazeja, mas da morte prematura, aquela que sufoca os valores da vida. Tenho para mim que a verdade, por ter como mãe a História e como guardiã a Memória, é o depósito das ações e a testemunha do passado, aviso e exemplo para o presente, advertência para o futuro. Por isso tudo, a mentira me aflige e enoja. A suspeita, a desconfiança recíproca, um homem a desconfiar do outro, não permitindo ao outro a paz que ele próprio não tem, e daí estar continuamente a rezingar, a espreitar, a debicar, a depreciar e a moer-se a si mesmo enquanto parece que está só a apoquentar o outro, assim é a suspeita, a incurável desconfiança que a mentira incutiu na alma dos homens.

Veja meu amigo, que tudo se desenvolveu lentamente; primeiro foram alguns passos; depois se foi um pouco mais longe, até que se caminhou tão longe que os possíveis caminhos de volta haviam se perdido no Tempo e na Memória coletiva. Enfim, eu me recolhi a meu pedaço de terra. Fui me estranhando de tudo e de todos. Passei a ser um observador das pessoas, das coisas e de mim mesmo.

Com o passar dos anos, se alguém por um acaso tivesse se ausentado de nossas terras e a elas retornasse, nada reconheceria. Antes os homens trabalhavam em suas propriedades, agora, os que não tinham terras, procuravam trabalho e dificilmente o encontravam. Máquinas haviam assumido seus postos. Novamente diziam que nos desenvolvíamos, era o preço a pagar pelo crescimento, pelo progresso. Eu, pessoalmente, farei uma confidência ao amigo. Apesar de haver trabalhado toda uma longa vida, não gosto do trabalho pesado e creio mesmo que ninguém dele goste. Mas tem uma coisa que aprecio no trabalho: é a chance de a pessoa se encontrar consigo mesma, de sentir-se útil. Em nossa tribo, agora se negava até mesmo essa chance à maioria delas.

Quando no passado nos estabelecêramos na estepe que ousáramos domesticar, vivíamos em simples tendas, levantadas por nossas próprias mãos. Com os frutos da terra, nós as havíamos substituído por casas pequenas e bem cuidadas, quase todas bastante iguais. Aquele que se ausentara e depois retornasse não encontraria nem sinal dessas habitações. Nos seus lugares surgiram algumas mansões, poucos palacetes e ao lado destes, como um cordão, inúmeros casebres decadentes de pau-a-pique. E se esse viajor caminhasse pelas ruas, agora pavimentadas, encontraria cavalheiros vestidos com aprumo, mas veria ao lado, acotovelando-se, mendigos em farrapos, com as mãos estendidas a implorar esmola.

Para falar claramente a verdade, nosso povo transformara-se num aglomerado de escravos miseráveis, em um punhado de patrões prepotentes, em pagadores de impostos que sustentavam burocratas corruptos e policiais que protegiam à força o patrimônio dos que detinham o dinheiro e o poder.

Onde havíamos errado? Perguntavam-se alguns dos mais velhos que ainda sorviam de um passado de liberdade, da harmonia dos iguais que imperara em nossa tribo. Aquelas antigas leis que havíamos definido para a sociedade haviam sido cumpridas, mas o certo é que falháramos redondamente. Enquanto éramos uma tribo nômade, desprovida de bens, todos lutavam como um só homem para a sobrevivência. Agora que o progresso tornara muita gente rica, cada um lutava por si próprio e se possível, tentava explorar ao máximo seus semelhantes. Exaurira-se a fraternidade, esgotara-se nosso estoque de harmonia e o povo trazia uma tristeza extrema, tristeza que embrutece, que se transforma em uma forma de apatia. Teremos, então, como já ocorre há tempos, o bravo guerreiro cita transformado no conformado cordeiro de rebanho.

Quando deixei o meu canto de mundo e caminhei em busca do Tempo, a cada passo dado pensei sobre as sendas que os humanos desbravam e qual seria o sentido das dores que não são as naturais. Coisa engraçada é a vida. Este misterioso arranjo de uma lógica que chega a ser implacável, mas cujo objetivo é totalmente fútil. Eu que, por algum tempo, fiquei cego como a minha tribo, não tardei muito para abrir os meus olhos!

E chegar até o Tempo somente para aguardar aquela que tantas vezes percorreu o mundo, que a tudo viu com olhos que vêem, mas que não podem enxergar. O que de novo poderia me trazer Benvinda? Quem sabe, talvez me fale sobre modos que os homens de outras terras tenham descoberto para encontrar a felicidade... Novidades que poderiam sacudir até mesmo um povo como o meu da letargia, na perspectiva de um reviver. Ou, o mais provável é nada me diga que eu já não o saiba, e então, que ela me reencontre, e ao chegar me redima com a libertação de que só ela é capaz.

Dito isso, o velho cerrou os olhos e eu, procurando ser discreto, fechei a porta do quarto e retomei o meu posto na recepção do Hotel.

Ramón

Algum predador poderia tê-lo visto desembarcar na calada da noite ou farejar seu corpo que se esgueirava pelo caminho que conduzia ao Tempo. O homem ensimesmado, desconfiado, precavido, alerta, caminhava com esforço, ele que vinha do sul e também do norte, do oeste e também do leste, de todas as direções, de sua Pátria que fora desde sempre tão ampla quanto a própria Terra. Os idiomas, ele os dominava todos, indo-europeus, caucasianos, sino-tibetanos, falava e ouvia a linguagem universal. O certo é que o homem acinzentado, resfolegante do esforço, utilizou as últimas energias para subir as rampas que conduziam ao hotel.

O cenho fechado de quem não se permitia preocupar com os pés descalços, que se dilaceravam nas pedras do caminho e deixavam um rastro de sangue. Tão pouco atentava para as mãos machucadas, amareladas, purulentas do líquido que gotejava a cada apalpadela, escorrendo dos baixios das unhas dilaceradas, arrancadas. A barba negra que crescia agressiva por todo o rosto, misturava-se a uma basta cabeleira negra onde se prendia uma boina já gasta, com uma gota vermelha; os lábios, encimados por um ralo bigode, ressecados pela secura do caminhar. Aquele homem não escondia a dificuldade com que sorvia o ar para avançar, avançar sempre fora o seu destino.

Quando entrando através das portas do Tempo ele se deteve frente a mim, percebi que a cada passo dado as feridas cicatrizavam; as unhas, ao tocarem o tampo da mesa onde eu me sentava, se recompunham. A respiração ofegante, asmática, sossegava, os lábios sorriam para mim mostrando os dentes brancos. Ele todo irradiava a felicidade que se tem na chegada a um porto seguro. Olhou-me e pude ver que, agora, não expressavam medo ou amargura, tristeza ou dor os olhos castanhos, duros e meigos, ternos no mirar. Um olhar onde a pureza e a transparência se abrigavam, num arder como eu nunca havia visto outro igual, nem em deuses ou mortais.

A perspicácia de meu viver encontrou nos olhos castanhos a expressão de um cansaço enorme, extremo, a terrível estafa de quem vivera uma eternidade de criações e desmoronamentos, de um ser sempre destinado a se recriar como se obedecesse a um impulso ainda mais forte que qualquer compromisso com o viver.

Ofereci-lhe um quarto. Nada me respondeu, pois o cansaço não o permitia. Caminhou lentamente e ao encontrar o sofá da recepção, com um sorriso nos lábios deitou-se, fechou as pálpebras pálidas e logo repousou, talvez por fraqueza do corpo ou quiçá simples determinação da alma guerreira. Nunca o saberei.

Intui que, finalmente, no Tempo onde aportara, era-lhe concedido o direito ao repouso, a salvo dos predadores, tão universais quanto ele próprio e que inúmeras vezes o haviam atacado, a ele e à maioria de seus, um dia, companheiros de viagem. Para o recém-chegado, entretanto, a corrida e o labor, finalmente haviam chegado ao fim; ele que nada poderia fazer enquanto o sonho cataléptico durasse, aquele homem que escolhera ter na vida a obrigação exclusiva de sonhar e lutar para tornar suas utopias realidades, para que os homens um dia compartissem do mesmo sonho.

Conhecera no tempo inesgotável de minha existência muitos seres iguais a ele, homens que dos próprios devaneios retiravam o alimento único para a alma combalida que a tais e treemendos embates era conduzida. E agora o espírito, mais que faminto, necessitava dormir. E o sono trnsformava o seu belo semblante e seu corpo todo, absolutamente imperturbáveis. Pressenti que se o acaso o despertasse, seu espírito poderia esvaziar-se e todo o seu ser se reduziria a uma morte radical, a morte da alma, ao nada. Eu não o permitiria.

Sentei-me a seu lado. O que passaria pelos olhos fechados dos quais eu não conseguia despregar os meus? Num instante descortinei uma fileira de homens, mulheres e crianças livres de todas as amarras, a caminharem nus e de mãos entrelaçadas pela senda sem fim da vida; eles, meninos todos, entregues à aventura do existir, do compartir, de um sentir de maneira íntegra e superior, a desfrutar de uma experiência coletiva, de um gozar, amar, viver, sofrer e morrer.

Fora a esse projeto mágico que se dedicara desde todo o sempre o âmago daquela alma ao meu lado, alma que desesperadamente buscava por iguais em todo o universo, aos homens, mulheres e crianças libertas para compartirem, sempre juntos, sonhos imortalizados.

E a cada sonho sonhado, ele e seus companheiros de viagem combatiam forças muito superiores às suas, forças que os destruíam, que os matavam, esquartejavam, mas que jamais os impediam de tornar a reviver, de se multiplicarem em outros corpos no sonhar coletivo. Mesmo um sonho que visite a tristeza, o próprio sonhar consola.

De uma forma lenta e cuidadosa, fui caminhando para dentro do universo de meu hóspede, até sentir-me incluído em seu sonhar. Percebi, então, que ele também me penetrava, e ambos nos descortinávamos no mais íntimo de nossa intimidade. E nesse instante vi seu olhar emergir como a luz que se cria na aurora; compreendera que não sonhava mais só, não havia nenhum segredo a nos separar, num ápice do seguir irmanado.

Expressei-lhe meu desejo, ele me desse um nome pelo qual pudesse chamá-lo, justamente a quem já os tivera, os próprios e os emprestados. Possuo tantos nomes, mas se sentir que isto lhe seja importante, chame-me Ramón, aquele pelo qual era conhecido  em minha última batalha nas montanhas que um dia haviam sido libertas por um Simon Bolívar e depois tornada carne de chacais.

Dei-me conta que o acinzentado da pele de Ramón desaparecia, transformando-se em num branco, negro e amarelo, numa tez a adquirir todos os matizes da raça humana. Ramón deixara-se agigantar ao estender-me a mão que eu apertei nas minhas. Seu porte avolumado levou-me a percebê-lo numa dimensão superior a todos os seres que eu conhecera. Vamos meu amigo, precisamos caminhar, disse-me baixinho. Mas não faça ruídos, não tropece, permaneça bem junto a mim, pois nos sonhos como na vida muitos são os caminhos e os descaminhos, os vãos e desvios pelos quais podemos deixar ganhar ou escapar nossa alma. E eu o segui atentamente, em silêncio.

Percorremos um longo corredor onde tudo era escuro, silêncio, ausência; um longo  caminho repleto de portas fechadas, algumas que se abriam ao nosso passar. A essas, meu companheiro astutamente evitava. Ao final de um tempo sem tempo, aquilo que parecia ser um caminho infinito abriu-se, como que num passe de mágica, em uma clareira luminosa e o ar puro trouxe-nos o perfume de todas as flores e o som da água cristalina a correr num rio da Memória. Não foram necessárias palavras, eu sabia havermos chegado ao lugar que meu hóspede desejava encontrar.

Pressentidas presenças, percebi que não estávamos mais sós. Espectros, sombras, foram adquirindo formas e de nós se aproximando. Ramón colocou uma mão em meu ombro a me amparar sem o necessitar.

De uma primeira Sombra ouvi, talvez em forma de um poema, que a vida não passa de uma sombra errante e cada mortal não é nada além de um pobre comediante a se pavonear e lamentar durante sua hora num palco. Pobre comediante cuja voz e imagem perdem-se no Tempo, mas que sobrevivem nos ecos escorregadios dos desfiladeiros da Memória. E mais: “Amanhã, amanhã e amanhã, desliza assim passos miúdos até a última sílaba que o Tempo escreve em seu livro. E todos os nossos ontens iluminaram, para alguns loucos, o caminho da morte poeirenta”.

A mesma sombra fazendo-se mais próxima prosseguiu: “A vida é o conto narrado por um idiota, cheio de alarde e fúria, que nada significa. Todo homem é também um deus fanático a imitar um louco. Nossos atos são os nossos anjos bons e maus a andarem ao nosso lado”. E, antes de afastar-se, dissolvendo-se no éter, a sombra ainda sussurrou: “Nós somos essa matéria de que se fabricam os sonhos, e nossas vidas efêmeras têm por acabamento o sono”.

Caro Íxion, era a primeira vez que Ramón pronunciava o meu nome, não existem nem relatos e nem poemas imparciais, pois cada um vê o mundo de seu próprio modo. Eu sou parte desta sombra, como de todas as que lutaram o bom combate do conhecer a si mesmo, do deslumbrar os limites de cada individualidade, tornando o homem livre das correntes que o escravizam às tradições, aos preconceitos e aos outros homens. Creia-me, sempre a humanidade necessitou e necessitará de uma luz, de um sinal que a conduza no sentido inverso da animalidade, pois “se as estrelas se acendem é porque alguém precisa delas, é porque, em verdade, é indispensável que sobre todos os tetos, cada noite, uma única estrela, pelo menos, se alumie,” segredou-me meu acompanhante.

Pressenti uma nova Sombra de nós a se aproximar. Um suave e agreste perfume de gerânio a acompanhava, e num instante, pude senti-la amável, doce, e se fosse permitido a um espectro sorrir, abraçar-nos, esse o faria com certeza: “Aqui temos só a sombra e a morte, mas lá longe, do outro lado da montanha, o sol ainda irá se levantar sobre um mundo novo! Lá, além da planície, sempre o solo estremecerá sob os passos inumeráveis de homens impávidos e livres.” “Saibam vocês, homens, amados e não amados, conhecidos e desconhecidos, que desfila por esse pórtico um vasto cortejo, o homem livre de que lhes falo virá, acreditem, acreditem-me!”

Ao afastar-se de nós ainda tentei retardá-la, inútil. Deixou-nos também aquela que não nos ouve, não nos obedece, não se abre para nós, ao contrário, apenas se apropria de nossos próprios sonhos para transportar como sua as mensagens das Musas e as de sua mãe, a Memória que apenas ao sonhador pertence.

Disse-me, então, meu hóspede: “Eu renasci muitas vezes, desde o fundo das estrelas derrotadas, reconstruindo o fio das eternidades que povoei com as minhas mãos”. Se agora vou morrer, que a terra cubra com carinho o meu corpo, ele que é destinado a ser terra. Aqueles que sonharam, agiram e viveram como nós, ah, esses sempre souberam que outros viriam após eles, trazidos por tantas vozes do passado, desde o começo dos tempos quando os homens compartiram os mesmos ideiais, os do homem livre!

Ramon ainda prosseguiu. Devo a essas sombras, aos meus iguais, tudo o que sou e fui neste mundo. A eles pertence o crédito pela fraternidade para com quem eu não conheço, e a liberdade que desconhece o egoísta. Elas me ensinaram com o fogo da alma a acender a labareda da bondade, e a possuir a retidão de espírito de que necessita uma rocha, como um farol que precisa luzir para refererenciar tantos barcos à deriva. Com elas também aprendi a entender o que une e distancia os homens, a sofrer por todos os que morreram para que outros iguais a eles tivessem o direito de viver e de melhorar seus mundos. Que a vitória de um, nada mais pode ser que o avanço do coletivo, de todos. E é assim, nessa escola de compreender e ensinar que surgimos os homens livres, em todos os tempos, no Tempo.

Após a frase dita por meu companheiro, uma última Sombra, que trazia consigo o peso das descobertas do mais íntimo dos seres humanos, de nós se achegou e sussurrou: “Foi a partir das almas libertas de preconceitos que a humanidade aprendeu que o divino e o maravilhoso convivem em perpétua luta com o pérfido e com o demoníaco, o criativo com o conservador, o revolucionário com a reação às mudanças que, um dia, tornar-se-ão inevitáveis.” “Permanecem­­­­­­ sempre jovens as almas que, libertas, rasgam o véu nauseante da rotina, arrebatam e são ao mesmo tempo, arrebatadas por um impulso, um ímpeto que se torna senhor de suas ações, que desperta o desejo de ir avante, seja para onde for e a qualquer preço”.

“Os homens livres buscam um mundo inexplorado, que se inflama e crepita em todos os sentidos, quando de sua presença. São espíritos que sorvem da fonte preciosa de uma nova criatividade antes insuspeitada; eles sentem nas entranhas um desejo tumultuoso, vulcânico de andança e de negação de tudo que não acompanhe a sua própria mutação. Eles preferem a morte à vida mesquinha de antes!”

Ao se afastar, Ramón pegou-me pelo braço e caminhamos ainda um pouco mais pelos campos floridos que a cada momento se desvirginavam para meus olhos. Confidenciou-me: “Foram ainda as sombras que me forjaram rígido como as pedras que um dia terminarão por dilapidar os corpos e as almas dos malvados. E mais importante é  elas terem-me ensinado a ver a luz, que o mundo pode ser claro e digno, desde que o direito de sonhar permaneça e seja exercido pelos homens.

Igualmente com elas aprendi que se o sonho e a utopia, por um acaso morressem, o mundo se transformaria num lugar inóspito, fétido, onde os predadores em sua maldade e os administradores e gerentes de negócios, em seu egoísmo perverso  transformariam o viver em escravidão, o belo em feio, o claro em escuro”.

Antes que retornássemos pelo imenso corredor por onde havíamos chegado, Ramón decidiu-me falar um pouco sobre seus perseguidores,. Meus inimigos são os mesmos de todos os que se libertam das amarras da escravidão. Essa matilha humana acanalhada emporcalha, infesta o mundo e trata de torná-lo brutal à sua imagem e semelhança. Com os malditos predadores não se pode permitir complascência e nem o luxo da outorga do perdão, pois eles nunca se redimem e nem se transformam, mas sim, multiplicam-se, misturam-se e se camuflam para melhor explorarem e escravizarem a humanidade. Ao seu toque conseguem conspurcar o que melhor existe em cada humano.

Somente então entendi porque Ramón evitara desde no princípio de nossa caminhada, no longo corredor que percorrêramos, as portas fechadas e que às vezes se abriam ao nosso passar. Lá viviam no Tempo os ferozes perseguidores de milhares de face que nunca davam trégua àqueles que ousavam rebelar-se, por terem a utopia de um mundo compartido entronado nas almas.

Sem que me desse conta havíamos percorrido quase todo o corredor do retorno, quando nos deparamos, num último quinhão de parede, uma longa escrita esmaecida, um pouco esmaecida pelos anos:

“Coragem ainda, meu irmão ou minha irmã! Segue em frente - a Liberdade está para ser submetida, aconteça o que acontecer. Não se trata de algo que será suprimido em virtude de falhas, que são sempre humanas, ou pela indiferença ou ingratidão das pessoas, ou por qualquer traição. Ou ainda pela demonstração dos dentes do poder, soldados, canhões, tribunais penais. Aquilo em que cremos nos aguarda latente para sempre em todos os continentes, a ninguém convida, nada promete, desconhece o medo. Espera paciente o seu tempo.”

“Não são canções apenas de lealdade, mas gritos de insurreição também, pois que sou o poeta jurado de todos os rebeldes destemidos no mundo inteiro, aquele que deixa para trás a paz e a rotina e arrisca a vida que pode ser aniquilada a qualquer tempo. O infiel, o traidor, supõe que triunfa: prisão, cadafalso, algemas, colar de ferro e bolas de chumbo fazem seu trabalho. Os heróis conhecidos e os milhões de anônimos pertencem a outras esferas. Mesmo na derrota, a causa permanece dormente, e enquanto as mais poderosas gargantas estão engasgadas no próprio sangue, os jovens abaixam suas pestanas na direção do solo quando se encontram. Mas ainda assim a Liberdade não perdeu o seu lugar e nem o dominador obteve o domínio completo.”

E mais prosseguia a escrita, embora cada vez mais gasta, agora de difícil leitura. Ramón, que lia no indelével, repetiu-me: “Coragem rebelado, pois ainda que tudo cesse, tu não deves cessar. Não conheço o sentido de tua vida (nem mesmo conheço o sentido da minha vida, nem o sentido que move qualquer coisa), mas procurarei cuidadosamente por ele, mesmo que esteja frustrado na derrota, na pobreza, no equívoco, na prisão- pois também todas essas experiências são grandes! Nós pensávamos que a vitória era grande? De fato ela o é- mas agora me parece, quando a vejo sem poder ser auxiliada, que a derrota é grande, que o desalento e a morte são grandes”.

Procurei, então, descobrir no desgaste da escrita uma assinatura, mas encontrei tão somente uma letra irregular, uma letra V seguida por um provável W.   

Chegávamos ao final do corredor quando Ramón, tomando-me pelo braço, disse-me palavras que como ferro em brasa marcaram marcaram meu coração. É preciso encontrar encanto no encontro da vida e da morte, porque o verdadeiro encanto existe somente onde o sentimento de uma equilibra o sentimento de outra. O pressentimento da morte em si produz rigidez e melancolia enquanto que o sentimento de sentir-se apenas vivo produz vulgaridade insípida, sem nenhuma graça. Encanto e simpatia só vêm à tona quando a veneração pela morte é moderada e esquentada pelo calor da vida, enquanto esta, por outro lado, recebe daquela profundidade e valor.

Justo para quem Ramón dizia aquelas tão sábias palavras? Para mim que na ausência do consolo da morte, senti-me evaporar a graça e a simpatia pelo viver!

Sobressaltei-me ao despertar de nosso sonho compartido. Teria sido a sineta da porta a tilintar insistentemente? Não o saberia dizer. Ramón, sorrindo, disse-me: eu espero por Benvinda, o meu tempo é dado!

Pensei com meus botões na mesma medida em que meus hóspedes a esperavam talvez eu pudesse ter a chance de repousar em seus braços. Confesso que me sobreveio alguma esperança.

Benvinda

Ao abrir o Portal do Tempo, eu a encontrei. O céu nublado rendera-se e a luz crua e dramática do luar fornecia àquele rosto a alvura do resplandecer.

Tentei olhá-la de frente, mas não consegui, a claridade impediu-me e a impressão que, ainda hoje guardo, é o de feições mal divisadas e mesmo assim atrevidas, de sombras profundas que eram apostas em todas as concavidades, contribuindo para que o maior relevo de olhos grandes e encovados se destacasse. Ao contrário do rosto brilhante seus cabelos pareceram-me pálidos e foscos, nem castanhos e nem louros, num tom intermediário, indefinível.

Sem conseguir encará-la meus olhos se satisfizeram, nesse momento, com o corpo e o que me foi dado ver, excitou-me. Um corpo que mesmo se a Fídias fosse dado esculpir, a pedra jamais conseguiria figurar minimamente a beleza do original que eu tinha à minha frente. Sim, eu o comparei a uma escultura, um corpo precisamente talhado em mármore, com inimagináveis acabamentos, alguns visíveis, outros fáceis de presumir, todos igualmente fixos, pétreos.

Sobre sua pele descansava um fino tecido a realçar as angulações, os contornos e as reentrâncias. Os seios pequenos, recortados pela luz, impunham-se como duas pequenas elevações agressivas. Os braços e as pernas descobertos, longos e bem torneados, fortes, sensuais. Um todo talhado para o amor e para a guerra, assim como... para a morte!

Essas percepções me ocorreram instantes antes que a luz da lua se ocultasse nas nuvens e, deixando de me ofuscar, eu olhasse frente a frente a face de Benvinda. Ela, então, surpreendeu-me ao exibir-me um sorriso que a um só tempo era franco e inquietante. Teria sido esse o instante em que senti a presença de mais alguém na porta do Tempo? Sim, para minha surpresa havia mais uma mulher no Portal.

Então eu mais intuí que percebi que a Benvinda deixara de ser una, perante meus próprios olhos se duplicara. Sentia-me alucinar, quando uma voz profunda tirou-me do torpor. Sou Benvinda, conheço-o desde sempre, Íxion, disse-me a primeira. Você, pela eternidade adquiriu o direito de visualizar aquela que é uma e, ao mesmo que ao tempo, somos duas. Ao meu silêncio, ela prosseguiu.

Sempre viajamos juntas no Tempo, mesmo que os humanos acreditem que somos uma a antípoda da outra e que cumprimos destinos opostos. Ao contrário, eu e minha irmã gêmea, Vida, somos como a dupla face de uma mesma moeda. Não existimos uma sem a outra e para a outra.

Nesse instante, qual sua irmã o fizera, também Vida sorriu-me, mas ao contrário de sua gêmea, não o fez de uma maneira franca, mas enigmática; no seu olhar não consegui encontrar certezas, apenas contradições e acasos. Sorriu-me, olhou-me dentro de mim mesmo e permaneceu calada.

Tal qual seu duplo, Benvinda, Vida tinha a mesma formosura resplandecente, mas algo me assegurava que seu corpo possuía a plasticidade que ao da irmã era negado.

Supõe-se que haja regras reguladoras da beleza. Mas uma regra, um padrão, dirige-se ao entendimento e não às sensações. As sensações escapam ao entendimento.  A beleza é uma magia exercida nas nossas sensações e, como tal, sempre um tanto ilusória, muito vacilante, e sempre efêmera. Na verdade quanta ilusão, quanta artimanha, quanto engano andam envolvidos no assunto e ao visualizar Vida e Benvinda lado a lado, não procurei entendê-las, apenas sentir a sensação do Belo que emanavam, cada uma despertando em mim uma espécie diferente de êxtase.

Tornou-se mudo, Íxion, retomou Benvinda? Quer-se assemelhar a Vida que não fala? Afinal, para que ela falaria, Vida que se comunica por outros, pela boca dos viventes e sonhadores. Dentre nós duas, somente eu tenho voz, somente eu me antecipo ao enunciar-me, ao chegar.

Em muitas coisas somos diferentes. A minha irmã é aquela que, da mesma maneira que faz florescer, realiza também o trabalho de fazer murchar; enche os seres de alegria, mas também de tristeza, de felicidade e, igualmente, de dor.

Por ser Vida, entretanto, goza da mais alta reputação em todo o mundo, sendo amada, saudada, esperada. Eu não, sei que sou indesejada pelos que não me compreendem. Entretanto, minha irmã pouco se importa com o destino dos que vivem, ela não ama aqueles que tanto a veneram. Vida sabe que a qualquer momento e inevitavelmente ao final de cada jornada, abandonará todos os que a amaram.

No entanto, nós somos a consequência necessária uma da outra. Mas veja, Aion, aqui no Portal do Tempo ela nada tem a cumprir, ela só vive para um presente, o único instante que dela necessita.

Como num teatro mágico, assim como chegara, a imagem de Vida desapareceu, deixando-nos sós, a mim e a Benvinda.

Íxion sou eu quem liberto as pessoas da dor, reconforto-as em meus braços e devolvo-as à Terra. Pouco me importo se os homens sempre procuram culpar-me por infâmias, loucuras e deleites que são deles próprios, mas que, muitas vezes me obrigam a intervir, e insisto, a contragosto, prematuramente. Tanto nesses casos como quando o desgaste dos anos traz a velhice com suas dores, suas impossibilidades e demências, quando surjo o faço encurtando martírios e sofreres que, de outra forma, não teriam fim. Enquanto tudo em minha irmã Vida é incerto, imprevisível, apenas e tão somente provável, em mim encontra-se a uma certeza, a certeza da harmonia ao final de toda e qualquer jornada.

Dizendo essas palavras Benvinda, recusando-me a mão que lhe estendia, esquivou-se ao meu toque e entrou no Tempo. Na proximidade procurei naqueles olhos encovados algum outro brilho, algum significado especial, mas meus esforços tão somente prestaram para desiludir-me. Nada encontrei naqueles olhos fundos que não fosse o meu próprio reflexo. Recusara meu toque sem uma única palavra, e ao passar à minha frente, voltou-se e sorriu-me com ironia. O que você esperava encontrar em meu olhar? Não há nunca nada para ser visto, pois eu sou um mito criado pelos homens e olhando-me nos olhos, você estará sempre vendo tão somente você mesmo.

Você me nega o seu toque, pelo menos me deixe compreendê-la melhor. Quero que você saiba que a espero há muito, muito tempo.Tenho dois hóspedes que também a esperam, disse-lhe. Archibaldo contou-me um pouco da história, da maneira como você se revelou no tempo em que ele e seu povo eram livres. Além dele, Ramón, aquele que sonha, igualmente a aguarda.

Ixon, sei que sou Benvinda exclusivamente para aqueles que tiveram tempo de perderem o medo, o medo do prenúncio da morte e me aceitem sem preconceitos, do modo como sou. Somente com um amor duplo se pode amar o que é duplo na Natureza: a Vida e a Morte. Sou guerreira para uns, amante para outros, a médica que cura quando nenhum remédio mais pode produzir efeito. De qualquer modo, enquanto a Vida provoca as desigualdades, sou a única que tudo e a todos iguala: o rico ao pobre, o feliz ao infeliz. Eu harmonizo, pacifico, encerro.

Sou sármata, cita, egípcia, gerada entre os rios Tigre e Eufrates, nascida desde que o homem reconheceu-se como homem. Parida ao tempo da aurora do pensamento humano, no princípio mesmo de toda a Memória e do Tempo. Vesti-me de deusa, de mulher, de combatente, de amazona, de feiticeira.

Ao observar que certo espanto meu espírito assaltara, complementou. Sou a feiticeira do amor exacerbado, que é levado ao seu paroxismo de maneira ilícita e sedutora. Saiba que a feitiçaria foi sempre tarefa e obra exclusivamente feminina e o sortilégio do amor representa a minha magia integral, meu objeto preferido, ou o favor da paixão que serve para que eu me aposse daquele que me agrade tocá-lo.

Para aqueles dentre os efêmeros que não podem ver na mulher um poder que suplante o seu próprio, inventaram máscaras que cobrissem a minha verdadeira face. Até mesmo fui concebida como um homem horrível, possuidor de dentes caninos e unhas de aço. Apelidaram-me de Tânatus e, após este, juntaram-se tantas descrições de monstruosa fealdade que me causam riso e confesso, certo espanto, tantas as máscaras e nomes com que travestiram a minha beleza, que eu sei, lhe excitou!

Justamente eu que existo exclusivamente para o homem e a para mulher como que um mito incorporado. Para todas as outras criaturas da natureza, não existo, pois simplesmente sou. Aconteço como acontece à Vida. Já o medo da morte pertence exclusivamente aos humanos que desejariam a imortalidade esquecendo-se do desagregar da velhice. Para estes sou a desconhecida, a fonte de todo o medo e o desespero, a desgraça final. Que enorme injustiça me fazem, justamente a mim que sou tão e simplesmente apenas o final. O medo, o terror que da vida finita leva os homens a crerem que eu não tenho que ser! Mas eu sou!

Inventam, então, novas vidas após a morte, recompensas pelos sofrimentos do ser mortal numa vida futura. A mim, o que me importa? Mas tudo isso é inútil, pois simplesmente aconteço. Basta, Ixon, eu estou aqui pelos seus hóspedes. Leve-me até eles.

Encontros

Quando nos aproximamos, a porta do quarto de Archibaldo se abrira. Benvinda tomou a minha frente e estendendo a mão auxiliou meu hóspede a levantar-se da cama. Prometi que o encontraria no Tempo, que bom estar consigo novamente! 

O velho sentiu-se feliz e, praticamente ignorando a minha presença, beijou-a na face. Você tinha razão quanto ao destino de minha tribo, disse-lhe. Previu que a posse da terra levaria um povo que era nômade à desarmonia e à perda da liberdade. Se pelo menos eu a tivesse escutado...

Não se esqueça, meu querido Archibaldo, que sou ainda mais velha que você; assisti sem número de vezes a tudo o que o homem pode fazer e, nele nada me surpreende, nada é uma novidade. Mesmo que me tivesse ouvido, teria sido inútil, meu amigo. Não coloque tanta responsabilidade nos ombros que se curvaram no viver. Você deveria saber que um homem só é relevante para si mesmo, o seu povo estava decidido a seguir os mesmos caminhos de tantos outros, nos círculos do tempo das raças dos humanos. Vocês que sabem tão bem construir e destruir e para somente então se lembrarem novamente de que é necessário reconstruir. É assim que sempre fizeram.

Você me diz que tudo o que aconteceu ao meu povo seria inevitável? Percorrer todo um mundo para, afinal, nem ao menos sugerir de que modo minha tribo poderia agir para reencontrar a harmonia perdida?

Archibaldo, você já deveria saber que não sou capaz de responder a essa questão, mesmo porque no fundo, nada mais sou que uma criação individual e coletiva de vocês mesmos. Em todo caso, se Vida aqui estivesse ela diria que o destino do ser humano é o mesmo dos animais, o de lutar pela sobrevivência antes de tudo individual e depois, se inevitável, a coletiva. O carnívoro é o predador do herbívoro. Os humanos são os maiores predadores de toda a natureza e de seus semelhantes; o raciocínio, esse presente obíquo dos deuses que desenvolveu a cobiça, a fome por terras, a necessidade por dinheiro, pela posse e pelo consumo. Vida diz que a exploração do homem pelo homem é o seu estado natural. O restante é articial, uma dádiva piedosa dos deuses, os  fruto de intelectos mais sensíveis, os pensares que criam as amizades e que socializam os frutos do trabalho. Foi exclusivamente na faculdade de sonhar um mundo melhor que vocês desenvolveram um contraponto à animalidade que lhes é o estado natural. Ao desenvolver suas utopias, os homens insurgem-se contra a brutalidade de que somente ele é capaz.

Com o braço direito estendido, Benvinda sustentava o corpo solto de Archibaldo. Quando dorme o homem se aproxima de mim. E ao dormir, ele liberta-se do raciocínio, das matemáticas, dos números e abre a porta ao sonho. Um poeta disse que sonhar é preludiar a morte, zerar o jogo, que tudo iguala, nivela e irmana.

Virando-se me sorriu sem realmente me ver e pediu-me que eu chamasse Ramón. Desperte-o, a ele também abraçarei.

Quando Ramón juntou-se aos dois, ela disse-lhes: “Archibaldo, Ramón é aquele que foi capaz de imaginar um mundo novo, ele e todos aqueles que sempre repartiram este sonhar. São aqueles que transformam a própria vida em luta por um sonho, uma utopia, um ideal que somente se realiza com o regrame dos instintos da Vida. Não por acaso aqui vocês se juntaram, pois, no Tempo, os Ramóns e Arquibaldos compartilham os mesmos anseios, procuram dizer ao mundo que nada nunca estará perdido, pronto e acabado. Eles sabem que Vida é um eterno construir, desmoronar, reconstruir.

Abraçando-os, Benvinda prosseguiu. Espero que a paz esteja para sempre com vocês, pois podem agora seguir o caminho da consolação! Não têm que se preocupar mais com coisa alguma; encontem-se em meu seio e sintam como a paz e o desafogo são belos!

Alegrem-se, nada mais lhes dê cuidado! Não se preocupem com seus corpos, nem com os negócios dos homens, nem consigo mesmos, nem com quem irá substituí-los em seus afazeres, em seus ideais, pois seres já nasceram e sempre renascerão.

Não se preocupem com o que nem como será a vida que fica do outro lado desta. Nada lhes dê cuidado, deixem tudo como está, pois que de alguma forma deve ser já que existe e a Mãe- natureza, da melhor maneira possível, providenciou para que as coisas se passem desse jeito e não de outro; não lhes cabem mais providenciar sobre nada e podem simplesmente descansar. Entendam como tudo isso é simplesmente cômodo e tranqüilizador. Agora lhes é permitido repousar, dormir eternamente! Todos os aborrecimentos se acabaram, todas as tribulações, todos os incômodos.

Adeus os sofrimentos físicos, os terrores dos desastres, o ódio e as dores esparramados pelos predadores. Eles jamais poderão alcançá-los, pois se abriram as portas dos cárceres onde vocês estavam recluídos. Saiam deles, livres e incólumes e vamos juntos pela senda que nos leva à consolação, à paz que a cada passo nos conduzirá  mais profundamente para as mansões da profunda liberdade.

Caminhemos sem pressa de tal forma que vocês nem sequer percebam os passos que para lá os levem seus pensares, andemos pelos prados da mais completa bonança onde nem de longe, nem do modo mais inconsciente, lhes tocará qualquer responsabilidade, onde imediatamente ficarão livres de toda enfermidade, de todas as dores, das desilusões que são as dores do espírito, de qualquer dúvida a respeito do que é lá e do que será de vocês e de suas idéias no futuro.

Espantar-se-ão no meu regaço de terem algum dia se atormentado com tais receios porque tudo é como é, e acontece do modo mais natural, mais justo, melhor, na mais profunda harmonia, pois o que é, é, e o que cada coisa e cada um de vocês será, será. A partida da Vida terminou e já resta apenas o nada consolador!

Ao terminar sua peroração, Benvida ficara só. Arquibaldo e Ramón já não existiam no Tempo. Eu a olhei e ela entendeu meu desejo e por isso falou-me. Íxion, nada posso fazer por você. Deuses que já morreram o condenaram, no Tempo, à eternidade, a viver todo o tempo humano. Não está em minhas possibilidades propiciar-lhe o agazalho que tanto estimaria.

Ajoelhei-me e prendi suas pernas em meus braços, disposto a tornar inevitável seu toque, mas percebi que, como no meu princípio, da maneira prevista por Archibaldo, repetia-se circularmente minha sina: não abraçava mais que uma nuvem de fumaça.

 

FINIS

 

Notas do autor.

  1. Íxion era um mortal, personagem da mitologia grega, que foi condenado por Zeus a viver a eternidade no Tártaro.  Preso a uma roda em chamas, Íxion é condenado a girar em círculos por toda a eternidade. Seu crime foi assediar a esposa do deus, a própria Hera, filha do Tempo. Depois, enganado pelo marido ciumento, sonhou haver possuído a deusa, quando na verdade, dormira abraçado a uma nuvem com a forma da mesma.

  2. Ramón é o último “nome de guerra” dado a si mesmo por Ernesto Che Guevara, quando na serra da Bolívia, pouco antes de sua prisão e assassinato.

  3. As Sombras: Primeira, W. Shakespeare. Segunda, S. Maiakovski. Terceira, F. Nietzsche.

  4. Escrita na parede: Valter Whitman.

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