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"Contos de Máscaras"

1. A Primeira Máscara

O fone estava ligado e o grito que se ouviu era repleto de surpreza e dramatismo, prazer e horror. Grito enorme que percorreu vales e montanhas, céus e mares, até chegar aos ouvidos da Mãe que se angustiou.

A chamada caíra e a filha desaparecera e o grito lhe pertencia, disso a Mãe tinha certeza, seria capaz de distingui-lo dentro um milhão. Largou todas as urgentes tarefas que executava, deixou que o verão inclemente queimasse as sementes de sua imensa fazenda, afina, que lhe importavam as fontes puras de água que secavam e as represas a se esvaziavam se sua filha desaparecesse? Sem a filha Corina tudo perdia sua cor, sua beleza, era cinza e fumo.

Ligou para irmãs e irmãos, todos os amigos, tentou localizar o aparelho do qual partira o grito e o máximo que conseguiu foi saber que a última chamada anterior à desconecção partira de um campo na Sicília.

Tomou sua decisão de partir imediatamente para a ilha mediterrânea e, lá chegando, decidiu que pelos campos iniciaria a busca.

Conversando aqui e ali, soube que a filha era muito conhecida pelos cantos de Taormina, que amava e era amada por todas as moças gentis que com ela se compraziam a correr, colher flores e mesmo a ofertá-las a jóvens que as cobiçavam. Corina, embora paquerasse tanto quanto as amigas tinha alguma paixão oculta, assegurou-lhe uma amiga da filha, a Leucipe. E a Mãe sabia ser Corina linda e  sexualmente irresistível, e também estranhava que se mantivesse virgem. Leucipe apenas fizera confirmar o que intuía: Corina desejava um himeneu mantido em segredo.

O drito que a Mãe ouvira ao telefone também fora ouvido pelas moças de Taormina, tão alto partira. Inclusive, outra amiga, Ciana, assegurou à Mãe que por um instante Corina, que sempre corria à frente do grupo, desaparecera de repente, como se tivesse sido engolida pela terra ou tragada pelo céu!

A Mãe começou a ter certas ideias. Mas eram apenas intuições. Fazia noite, ela não queria perder um minuto em suas buscas. De posse de dois archotes revirou o campo de centeio e flores onde Corina desaparecera. Vasculhou que vasculhou até que seus olhos brilhantes encontraram o celular caído. No chão, mas inteiro, apenas descarregado! Sua filha não fora levada aos céus ou o aparelho caindo estaria em pedaços. Logo, restava apenas a alternativa da terra, concluiu.

Passaram-se, desde esta descoberta, nove dias e nove noites. Demetra, a Mãe, negava-se a banhar-se, comer, beber. Abatida, chorava a filha desaparecida e engolida pela terra. Ela apenas caminhava a esmo. Seu marido distante, enviava-lhe recados para que voltasse às suas responsabilidades. Nas fazendas o calor devastava os campos, a água acabava, a colheita estava totalmente comprometida, e até mesmo os homens, de fome, principiavam, aqui e ali, a morrer.

Foi em uma de suas andanças que Demetra encontrou uma comadre que dizia ter certos tipos de visões em seus sonhos. Ela era muito estranha, corria o boato de que fosse meio bruxa, até seu nome, Hécate, quando pronunciado, causava certo arrepio. E o que ela disse à Mãe foi que, enquanto dormia, ouvira o grito de Corina, e a vira sendo agarrada por um raptor, homem forte, mas os seios da moça impediram-na de reconhecê-lo.  Disse mais, que Corina gritara de susto, mas que, de certa forma, consentira no rapto. A Mãe que saber mais e Hécate segredou-lhe que seu sobrinho, aquele de nome Hélio, um curioso que a tudo via, andava pelos céus naquela tarde de sol e que, seguramente saberia identificar o autor do estranho rapto.

Agora Demetra tinha certeza de que a filha fora raptada e levada para alguma gruta ou para até mesmo, para as profundezas da terra. Procurou por Hélio que não se fez de rogado. O raptor era, nem mais e nem menos o tio, Hades, um tipo de ares estranhos e soturnos.

Ora, Hades era também tio de Corina, irmão mais moço do próprio marido da Mãe. A Mãe voou assim que soube para o palácio de Zeus, onde exigiu que a filha lhe fosse devolvida. E tão pouco se importava com a perda da virgindade da filha. Queria a filha e pronto! Que ela voltasse a caminhar pelos campos e eles um dia voltariam a florir.

O Pai chamou, então, aos seus aposentos seu irmão mais novo. Era incestuosa a relação do tio com a sobrinha, mas o que se poderia fazer? Os costumes evoluiam tanto ultimamente... Hades lhe fez ver isto, afinal, o irmão mais velho tinha se apegado a um garoto, um tal de Ganimedes, verdade ou mentira? Quando a deusa do amor nos toca, rendemo-nos, não? O Pai compreendeu o irmão. Mas precisavam de um acordo, pois a Mãe da moça ameaçava colocar fogo no mundo! Parece que ela se confunde com a filha, não sabe viver separada, um horror!

Hades não era de largar o que agarrava, aliás, em todos os tempos, ninguém se recordava de que isto houvesse um dia acontecido. Quando se apaixonava a coisa era séria. E para que o irmão soubesse, já cingira a sobrinha com os aparatos do matrimônio, e ela provara os grãos e os poderes da romã. Para falar a verdade, após a surpresa do rapto, Corina estava era muito feliz. É bem verdade, também que ela e a Mãe tinham uma relação muito forte, que a cada quatro palavras ditas, três eram sobre a mesma.

Este ponto fez o Pai gritar “eureka”, achei! E todo Olimpo despertou com o estrondo! “Pois Corina ficará no teu reino durante o inverno, bem guardadinha nas tuas carícias e na primavera, verão e outono, estará com a Mãe, semeando, cuidando das flores, dos campos e participando das colheitas”.

Estamos acordados, disse. Ainda não totalmente, retrucou o tio. Corina só será jóvem enquanto permanecer com a Mãe. No meu reino, o das sombras, ela será Perséfone, a rainha que utiliza perfumes, cosméticos e tinturas para se disfarçar, assim como Máscaras, muitas Máscaras, para se apresentar aos homens na hora da morte de cada um deles. Logo, a Mãe precisa saber que Corina será e não será a mesma, pois o uso de máscaras modifica tanto pessoas quanto deuses. Deram-se as mãos e Hades partiu para seu próprio reino.

A Mãe, avisada do acordo, vibrou de felicidades. Sua filha, Corina, seria uma e muitas, compartiriam o mistério de serem duas e tantas. Além disso, estaria a seu lado por três quartos da vida.

Com o retorno de Demetra aos campo, toda a Terra voltou a cobrir-se de verde, as águas brotaram das fontes, as represas se encheram e os homens voltaram a plantar, colher, comer e a cantar.  

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