Espaço Literário

Marcel Proust

Redes sociais

  • White Facebook Icon

© 2019 por Carlos Russo Jr.

Todos os direitos reservados

"Contos de Máscaras"

11. Conto décimo: Meu Outro

"Eu sei que aquele que caminhou tão longe, para o Antigamente como eu fiz, perdeu o direito de ter esperanças, ambições. Afinal, faz parte do jogo, não se pode reclamar e seria injusto qualquer tipo de reivindicação nesse sentido. No entanto, por uma única vez quebrarei a regra, talvez como despedida do presente: meus meninos não tratem o Antigamente de cada um de vocês como se Passado fosse. Não se mudem para ele, mas visitem-no e, quem sabe, encontrem nele forças para se humanizarem, respeitarem-se, perdoarem-se e, principalmente, se auto perdoarem. Deixem de lado, mesmo que seja por breves momentos, sentimentos que são tão próprios do ser humano como a inveja, a prepotência e o ressentimento. Quem o conseguirá?"

Sempre ali onde eu quis dormir,

Sempre ali onde eu quis morrer,

Junto de mim veio sentar

Um infeliz de roupa negra

Igual a mim como um irmão.

(Rank, Don Juan)

 

O passado não é o elemento e a atmosfera natural do narrador de histórias, a que ele se apega como o musgo nas pedras do caminhar? Ao falar assim, nem por isso o meu coração cessa de pulsar com agitação e, não nego, medo, provavelmente porque o passado ao qual agora desço me faz tremer: é o passado de minha vida, o mundo que se foi e que morreu, no entanto ao qual a minha existência cada vez mais fortemente há de pertencer.

Mesmo sabendo que o centro da vida é o presente, sinto o sabor da morte e de vida quando me aventuro pelo passado, e venho sôfrego com meus medos, sentindo em cada momento a presença dos diferentes “eus” que fui e produziram tantos cadáveres insepultos a seguirem meus passos. Mas a sofreguidão leva a melhor sobre as fobias e não nego a que venho, na medida em que é de minha essência a natureza do homem que não se conforma.

Eu sei, se meu passado por um lado foi terrível, dele também me restaraminstantes de indescritíveis felicidades que trago como fotografias preto-e- branco que habitam meu relembrar.

Afinal, quarenta anos não é um espaço de tempo, é toda uma vida, a vida mesma, seu âmago e medula.

Disse um autor que o mistério de toda existência encontra-se na esfera, ela que permite correspondência e reintegração, como uma dupla metade que se transforma em uma coisa única quando junta-se uma metade superior com a uma inferior, num todo. Roda a esfera, pois isso é próprio da natureza das esferas, e a cada volta uma revolução. O fundo é daí a pouco o alto e o alto é o fundo, tal quanto seja possível falar em alto e baixo. Não somente o celeste e o terrestre se reconhecem um no outro, mas mercê da revolução da esfera, o celeste pode mudar-se em terrestre e este naquele, donde decorre que os deuses podem tornar-se homens e por outro lado, os homens podem tornar-se deuses novamente.

De repente o que ali existia do passado era ele próprio.

 

Estávamos entrados em março de 2009 e eu, que desde minha aposentadoria, adquiri o feliz hábito de caminhar pela manhã no Parque da Aclimação, naquele dia de sol oblíquo e temperatura agradável, nada mais fazia além de procurar um banco com encosto para sentar-me e estar a ler o jornal do dia.

Quem conhece este belo e centenário Parque teve o deleite de deitar seus olhos no pequeno, mas delicioso lago central, em torno do qual a atividade dos seres nele viventes e, também, a dos eventuais pássaros visitantes se organiza. As pessoas aproveitam a sombra amiga de tantas árvores ao seu redor para passearem, praticarem suas caminhadas, quando não apenas conversarem.

Logo na primeira volta que dei ao redor do lago, consegui acento num banco privilegiado, localizado numa espécie de promontório onde as águas morriam no cimento logo abaixo de meus pés, e nele me estabeleci. Desde o meu privilegiado observatório, possuía a sensação de me condominiar com os patos, com os gansos e, porque não, com as centenas de tilápias a nadar. Sentir cada ser vivente, cada recanto que a natureza nos oferece, até mesmo uma pequena pedra que nos chega às mãos, sempre expressou para mim, um sentimento de amor, a integrar-me a todos os cantos em que me apraz estar.

Olhando para as águas que se agitavam sob o vento e formavam ondas benignas que ali morriam, via aqui e ali as rápidas beliscadas dos peixes, disputando na superfície das águas insetos e pedaços de alimentos atirados por crianças e alguns adultos. Vez em quando um caçador virava caça e um pelicano vagabundo, em um vôo rasante, trazia no bico uma pequena refeição até uma das margens barrentas.

Aquilo tudo me produzia uma enorme sensação de bem estar. Foi com certo deleite que abri o jornal para iniciar a rotineira leitura.

Lembro de me haver distraído na leitura do jornal- provavelmente coisa de velho que transforma uma simples página em um corolário de letras que formam palavras-, e entre uma piscadela mais curta e outra mais longa, os olhos que voltam sempre ao mesmo local e à página que nunca termina, num entrecortar de cochilos, vigílias, poucas mensagens retidas. Tão distraído que quando dei por mim já não estava só no banco. No outro extremo havia se sentado um rapaz muito jovem que, ao perceber que o mirava, virou-me o rosto, como se estivesse evitando o contato.

De alguma forma meu interesse pelo papel escrito reduziu-se até desaparecer. Sentia que o jovem atraía-me muito mais. Não sabia absolutamente porque isso ocorria, mas de toda forma, a presença do desconhecido tirou-me não somente de minha concentração, mas igualmente absorveu-me de tal modo, que como por um encanto o lago e seus comensais deixaram de existir, o parque se esfumaçara e não restava mais ninguém exceto nós dois.

Notei que meu companheiro de banco dera-se conta de minha agitação e que minha agitação, se é que a isso devo denominar o meu estado de espírito, também o contaminara. Ele olhava para todas as direções e ao mesmo tempo para nenhuma em particular, evitando claramente estabelecer contato comigo.

Foi quando me dei conta daquilo que num primeiro momento me havia passado despercebido. Havia coisas que nele destoavam, a começar pelo vestir-se, uma roupa absolutamente inadequada àquele local de descontração e deleite. Um terno escuro de corte antigo, no colarinho apertado uma gravata muito fina com laço mal feito, que há décadas já não se usa. O cabelo cortado rente no qual se refletia um gel assentador. Um pequeno bigode aparado. Desde o momento em que se sentara, acendera dois cigarros. De repente passou-me pela mente que eu tinha diante de mim um figurino esculpido no passado, num tempo de quase meio século.

Neste momento apossou-se de mim a percepção de já ter vivido aquele momento em algum instante no passado, algo que os psicólogos chamam de uma sensação de “dejá vue”. Sentia-me a cada instante mais e mais incomodado, talvez receoso. Restavam-me duas alternativas: ou levantava-me do banco e fugia ou forçava o início de uma relação qualquer. Instintivamente sabia que optaria por aproximar-me do rapaz e puxar conversa.

“Desculpe-me, mas eu tenho a impressão de que já nos conhecemos”. Perante o silêncio, resolvi nova fazer investida. “Você mora neste bairro e vem sempre a este lugar?” A resposta que obtive foi um lacônico não, numa voz de tom forçadamente baixo; pelo menos o meu vizinho voltara para mim seu rosto e me encarava. “Francamente, desculpe-me se sou inconveniente, mas eu tenho a sensação de conhecê-lo”.

Ora eu me encontrava em uma situação privilegiada em relação ao rapaz. Por maior pasmo que possamos sentir na situação e o meu é dificilmente descritível, é mais fácil reconhecer-se num instantâneo do passado do que o passado desvendar o futuro de um rosto marcado pelas rugas do viver, envelhecido de quase meio século.

Eu precisava tentar algo, quebrar de alguma forma o gelo. “O teu jeito é que você não é aqui de São Paulo. Estou certo?”- perguntei-lhe de um só fôlego.

Penso haver notado no olhar que o jovem me retornou um quê de alívio em sua permanente aflição, mais que qualquer sinal de irritação.

“Não sou daqui e isso é fácil de perceber, não é mesmo. Sou o único a vestir paletó e gravata e assim, só posso chamar atenção, não é mesmo? Para falar a verdade, de repente eu me senti estranho nesse ambiente. Não é a primeira vez que venho a esse parque, mas sinto hoje tudo estranho, mudado”.

Como assim mudado, perguntei-lhe.

_ “As pessoas andam mais soltas, usam roupas muito justas, pedalam umas bicicletas estranhas, seu eu. Não me situo muito bem. Estou em São Paulo procurando emprego e por isso ando assim vestido.”

Notei que o rapaz começava a suar; mesmo sendo o mês de março ainda fazia calor. Não recordo exatamente o momento em que resolvi abrir o jogo, no absolutamente inusitado da situação_ “Olhe-me bem, você não nota a semelhança que possuímos? Será que não tem idéia do por quê? Tanto você como eu sabemos que você não veio a São Paulo em busca de emprego e o seu nome é Carlos. Acontece que este também é o meu nome”.

Eu acredito sinceramente que o rapaz que eu tinha ao meu lado ainda não atinara com a situação, ou não teria realizado um movimento brusco de buscar junto ao sovaco por sua arma. “Você é algum tipo de polícia?”, perguntou-me, já se levantando do acento.

E pedi que ele olhasse nos meus olhos e não se precipitasse. Ocorreu entre meu pedido e a atitude de meu parceiro um tipo de interregno que poderia ter durado um segundo, uma hora ou uma vida.

“Isto não pode estar acontecendo na realidade, eu devo estar sonhando ”- retorquiu-me o rapaz. “Você é diferente de mim, é muito mais velho, ou melhor, você é um velho! Olhe suas roupas, elas são muito estranhas, ou melhor, a roupa de todas estas pessoas que caminham por aqui é estranha”.

“Veja, retorqui-lhe, eu também acho tudo isto estranho, incrível, simplesmente o impossível. No entanto, estamos juntos, nós que somos um feito dois, num tempo que não é o seu, mas que me pertence. Para que você se convença de que somos o mesmo e não o somos, experimente soltar o seu olho esquerdo, você ficará tão, mas tão estrábico quanto eu, que, na minha idade, não consigo evitá-lo mais”.

O jovem Carlos olhou-me profundamente, suspirou e disse-me numa última tentativa de identificação: “Se eu não estou aqui para procurar emprego, o que eu estou fazendo nesta cidade?”

“Você está em São Paulo fugindo da repressão política. Ficar em seu, ou melhor, no nosso Estado, seria a prisão e a tortura, quem sabe a morte... Não foi por isso que você veio para cá? Esta foi sua opção, foi a forma como você exerceu a sua liberdade. Ao contrário de vir para cá poderia ter fugido para o exterior, seus pais o ajudariam e lá você encontraria muitos de seus amigos e companheiros; nossos pais até que tentaram isto, não é verdade? Amigos seus, isto é, nossos, fizeram isto, mas você não, você veio para São Paulo para seguir lutando, não é a verdade? E agora, tendo abandonado todo e qualquer conforto ou segurança, deve estar morando numa mais que modesta pensão na Mooca, é ou não é a verdade dos fatos? Quando você recuou no banco, pronto para levantar-se, já tinha empunhado um revólver, não é assim? Aquele que foi a minha arma de defesa pessoal.”

“O que eu nem estou tentado entender ainda é como tudo isso possa estar ocorrendo. Mas você e seus companheiros de organização, ou melhor, os nossos, acreditam que podem ganhar esta guerra, também não estou certo?”

“Você está certo, você sabe que está certo, tão somente não moro mais na Mooca, mudei de pensão. E eu sei que vamos vencer a nossa luta, pois é a luta de todo o povo brasileiro. Nesta guerra revolucionária é vencer ou morrer, ou já se esqueceu”.

Comecei a notar certo incômodo no meu outro eu, incômodo por saber que não havíamos morrido, pois encontrava a si mesmo no futuro e eu, em bermudas e camiseta, em nada me assemelhava a um comandante revolucionário.

Resolvi tentar entender um pouco melhor a situação. Mas meu outro teria que se abrir comigo. “Você veio aqui cobrir um ponto de encontro, não? Com quem?”

“Adiantaria negá-lo? Vim cobrir um ponto de encontro com o Antônio e mais outro companheiro que ele iria me apresentar. Como ninguém cobriu o ponto, dei duas voltas pelo parque e terminei sentando no mesmo banco que você.”

“Mais uma pergunta, em que dia você está no seu tempo?”

“Segunda-feira, dia nove de abril”.

“Nesse dia, meu caro, no Parque da Aclimação, morreu o companheiro Antônio quando cobria um ponto de encontro com um cachorro, um desses companheiros que quando preso, muda de lado e passa a buscar pessoas para a morte.”

  Meu segundo eu perdeu a cor e disse-me: “Isso significa que nós deixamos de morrer num ponto que era uma armadilha, é isso?”

Eu simplesmente assenti com a cabeça. “Até hoje eu não sabia o porquê do desencontro que nos salvou a vida, mas não a do camarada Antônio”.

“Agora, diga-me, senhor Carlos, se é que posso chamá-lo assim, em que ano estamos?”

“Estamos em 2009 e o seu ponto que ocorreu no mesmo dia e mês, foi há quarenta anos. E não me pergunte mais nada sobre esse mistério que nos sucedeu, parece algo mágico e sobre o qual eu nada entendo”

O jovem Carlos, agora mais calmo, pegou-me pelo braço e convidou-me a nos sentarmos novamente.

“Para Termos sobrevivido, devemos ter vencido de um modo ou outro, conte-me, é isso?”

Senti-me realmente confuso. O que dizer a mim mesmo no passado, o que falar? Com que direito poderia destruir os sonhos de um jovem cujo amor desinteressado pelo seu povo, pela sua Pátria, no qual a crença similar a de um cristão novo pelo socialismo, o haviam levado a abandonar a perspectiva de uma vida burguesa mais ou menos previsível, colocando em permanente risco o único bem que lhe restara, a própria vida? E para quê? Eu sabia com a certeza da mãe terra que o passado nunca poderia ser alterado. Que quando o jovem Carlos despertasse de seu sonho de nada se recordaria, pois eu não me lembrava de havê-lo tido. Resolvi tangenciar-lhe a resposta:

“Os militares voltaram aos seus quartéis. Aqueles dentre eles que constituíam o corpo da repressão, hoje se escondem para não serem julgados como assassinos e torturadores. Muitos companheiros de luta que tombaram foram homenageados, ganharam nomes de rua, outros ainda foram anistiados, indenizados. Hoje, enfim, vivemos em um regime de democracia liberal e alguns de nossos antigos companheiros sobreviveram. Sei que isso deve espantá-lo, pois não era bem por isso que lutávamos”

Ainda complementei: “Você, entretanto, ou melhor, nós, fizemos parte de um dos momentos especiais na História, um daqueles que assinalam o surgimento dos espíritos livres. Saiba que muitos de nossos companheiros, talvez os melhores, morreram e ainda morrerão na luta que abraçamos; já outros, no futuro, entretanto, trocarão a própria liberdade individual por nacos de poder e dinheiro; outros, ainda que a duras penas, seguirão livres, acreditando no homem e no socialismo. Nós, em 1970, que é o seu momento de vida, nós nos acreditávamos puros, o sal da terra, mas com o tempo, você verá que éramos e somos apenas e tão somente humanos. Tão pouco o halo de pureza de que nos cingíamos era real, mas éramos parte de um processo histórico”.

O jovem Carlos olhou-me como se procurasse em meus olhos uma resposta mais objetiva à sua pergunta. Talvez tenha sido o olhar mais inquiridor que eu já tenha enfrentado: o olhar dentro da própria alma daquele que fomos, no qual nos transformamos. Não tenho ideia de quanto tempo se passou, mas de repente a magia se desfez e o jovem Carlos, com um movimento de alisar os cabelos com os dedos- trejeito que eu possuía enquanto tinha cabelos, mudou radicalmente de assunto. “Você ainda tem o jornal que estava lendo quando cheguei?

“Está aqui comigo. Você poderá lê-lo, mas ou muito me equivoco, ou não conseguirá levá-lo daqui consigo”.

Meu passado pegou o jornal, folheou-o rapidamente e, simplesmente, mo devolveu. “Se isto é um sonho para que vou olhar o futuro? Ele, de todo modo, não poderá modificar o meu presente, você não concorda?”

“Este encontro será importante para mim até a minha morte, eu lhe disse. Para você não terá valor algum, pois quando você, de alguma maneira dele despertar, de nada se recordará. Uma pena porque eu poderia prepará-lo para viver momentos de extrema dor, abandono, descrédito por si próprio, de desespero e solidão, pois você, digo eu, será preso, torturado, esmagado, exilado de sua própria terra. Depois, já em liberdade, desilusões e também alegrias, muitas alegrias, amores, muitos amores e também tristezas e desilusões, enfim, toda uma nova vida se abrirá para você”.

Neste momento o jovem Carlos levantou-se e olhando-me novamente nos olhos, com aquele mesmo olhar com que me vejo todos os dias, inquiriu-me: “Diga-me uma coisa: para o Carlos de hoje, valeu a pena a luta armada que estamos travando?”

Eu desviei os meus olhos e procurei refletir sobre o que diria ao meu eu dos vinte anos: “Valeu e, ao mesmo tempo, não valeu; deixe-me ver como eu lhe explico. Vamos começar pelo jornal que temos aqui”. E dispus-me a mostrar-lhe a foto do Presidente Lula na primeira página.

Entretanto, o jovem Carlos já não queria ouvir-me. Interrompeu-me e levantando-se, disse-me: “De qualquer modo, eu vivo e viverei meu tempo. Não me importa a sua resposta, eu a encontrarei, por mim mesmo, no futuro, em você.”

Como ele se afastasse e um ruído de fundo se fazia ouvir, aumentei o tom de minha voz, numa pueril iniciativa de tentar alterar o passado: “Diga para o Velho não ir ao encontro do traidor do Pará. Se ele for, será assassinado e tudo irá desmoronar!”

Falei em vão, o jovem Carlos caminhava longe de mim e do alcance de minha voz. Foi, então, que tive a certeza de que eu não estivera a sonhar, mas que fora a minha presença que esteve  presente no sonho dele, no meu próprio passado distante.

Neste momento o barulho que ao fundo se ouvia aumentou de volume. Ao olhar para o lago do parque eu a imagem da destruição, da morte. Toda a imensa quantidade de água era sorvida para a rede de esgotos, arrastando consigo toda a vida que nela vivia.  O que restava era pura e simplesmente uma lama salpicada dos peixes maiores a morrer. Foi quando tentei levantar-me do banco onde estava sentado e não o consegui.  Senti-me como solto no ar, a cair, a cair... O jornal fugitivo das mãos, o vento levara. Minhas vistas se nublaram e eu nada mais vi.

Um último pensamento me ocorreu: fora a água a escorrer que, de alguma maneira, havia unificado pelos instantes em que eu tivera a mim mesmo comigo, o presente e o passado, que agora se esvaia.

 

Nota do autor: numa manhã de abril de 2009, o Lago do Parque da Aclimação, por incúria dos poderes públicos, foi todo ele sugado pela rede de esgoto, com seus milhares de metros cúbicos de água, sua fauna e flora.

Este site não possui patrocinadores, contamos com doações espontâneas para sua continuidade.