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"Contos de Máscaras"

3. Conto segundo: Zero

O símbolo da Fenix é a vida natural que prepara eternamente sua própria fogueira e nela se consome. Uma nova vida, rejuvenescida e fresca, sai eternamente de suas cinzas. Da morte, então, renasce uma nova vida.

Perséfone, a de muitas máscaras também coabita com Koré dentro de nossos corações. Tantas e tantas vezes, parcelas do self tem que assassinar imagens, conceitos e valores para que da Fenix consumida ressuja a ave revigorada, enfim, livre.

Um dia me pediram que preparasse uma palestra para jovens “incorformados”. Socorri-me de Benjamin, para quem uma das máscaras do adulto chama-se experiência, e comuniquei-lhes que a rebeldia da juventude trava sua luta principal contra esse ser mascarado, o adulto. Que no embate contra ele, a consciência jovem muitas vezes se intimida, se amargura, retrai-se e em outras, revolta-se.

O jovem, que é Koré, que tão pouco da vida experimentou, necessita rasgar a máscara com que o adulto crê tudo abraçar: conhecimentos, juventude, ideais, esperanças, sexo. O adulto mascarado é aquele intimidou-se um dia e jamais conseguiu libertar-se de seus velhos pais. Quando esse adulto ele envelhecerá e por trás de sua persona  acreditará a Vida lhe ensinou que seus velhos pais sempre tinham tido razão.

Foi quando me surgiu à memória a experiência de Zero. Zero era jovem que não se juntava ao rebanho. Ele percorreu o caminho longo e doloroso do aprendizado, assolado por tantos monstros, monstros que assombraram o seu espírito, por  sua inquebrantável necessidade de penetrar na “Grande Floresta do Conhecimento”. Afinal, ao levantar do rosto dos adultos a máscara que ocultava-lhe a perspectiva de conhecer-se, ele teve, por seu turno, que utilizar outra máscara, a de Perséfone. E com ela matou a morte das trevas que ocultavam-lhe a vida, que o escravizavam na ignorância e na tristeza. 

Foi só após haver conquistado a liberdade que Vida lhe sorriu e como presente enviou-lhe  um pequeno pedaço de papel, que Bóreas, o vento, fixou numa determinada árvore, a Árvore da Vida de Zero. Eis o que dizia o pequeno escrito:

 

 “Conduza-me da confusão para a Realidade. Conduza-me das Trevas para a Luz. Conduza-me da Morte para a Imortalidade!

O fogo é a morte e o alimento da água. Aquele que sabe isto vence a morte repetidas vezes.

O Ser que permeia todas as coisas é o que você é.”

 (Brihadaranyaka Upanishad)

Que lugar mais claro aquele em que o piscar de olhos custava tanto! Menos mal que eles tivessem a tal da membrana que os humanos chamam por um nome estranho, nictante, a terceira que a natureza lhes legara, agindo por antecipação às granjas, que um dia ainda atormentaria os pintinhos com tamanha claridade, dia e noite, para que rapidamente crescessem e estivem prontos.

Certa vez, numa conversa ouvida de passagem e muitas coisas na vida tornam-se conhecidas assim, apenas de passagem, um funcionário disse a um colega novato a respeito da luz que nunca era desligada: os pintinhos tinham que crescer em quarenta e cinco dias para o abate e por isso o “sol” deveria estar sempre aceso. Foi desta maneira que, conversa vai, conversa vem, os pintinhos passaram a crer que na parte superior daquela caixa ficava o tal “sol”, que nada mais era que a luz que nunca poderia ser desligada. Mas como atormentava aquele sol! Não os deixava dormir!

E o que fazer senão comer a ração, sempre a mesma, acrescida de um líquido mal cheiroso, um hormônio, e que nunca terminava? Engordava-se sempre, crescia-se de um modo incômodo; ficava-se flácido, sem músculos, as asinhas para nada serviam a não ser juntar penas e pelancas. E eles cresciam uns sobre os outros; não se concedia um mínimo de privacidade ou de um conforto como um poleiro, por exemplo, para sentar, descansar, dormir. Viviam os pobres uns sobre os outros.

O outro termo que os pintinhos, tão redondinhos e assemelhados aos ovos dos quais haviam nascido, não entendiam era o tal do “abate”. E uns interrogavam os outros e nada de encontrarem uma resposta. Afinal, a vida de tão nova não permitira que o hábito se transformasse em rotina. Sol e abate. Um sempre presente e o outro ainda uma inquietude, distante.

Foi do cercado próximo, onde viviam os pintos mais crescidos, já frangos, que veio a resposta: “meninos, abate é quando nos empurram até uma máquina que manda nossa alma para o pai, o sol”, dissera-lhes aquele frangote que provavelmente seria o líder da turma. Ah, agora se sentiram satisfeitos os miúdos em sua curiosidade, aquela que sempre gera o desassossego e este, a insegurança. Afinal, o futuro estava garantido. Os funcionários da granja os engordavam para isso: para uma máquina que os levariam até o sol, seu pai. E voltaram, cabeça baixa a ciscar, como faziam desde que se sabiam por pintinhos.

Zero era um pinto um pouco estranho e talvez por isso mesmo seus irmãos de chocadeira, e nela todos são irmãos, não lhe davam a menor bola quando se punham a conversar. Afinal, dentre toda aquela igualdade, ele destoava. Seu bico era quadrado e suas penas não tinham aquele lindo tom amarelo que vinha do sol e que era para onde seus irmãos estavam destinados. A penugem dele era mais para o branco e o preto, e era um cismador. Questionava o que seria a “máquina” e não entendia direito o que era e para onde iria após o tal “abate”.

Levado por essas dúvidas ou quem sabe quiçá pelo isolamento que os outros pintinhos lhe impunham, ele se tornou matutador, um tipo pensativo e, foi pensando que se afastou também do calor do grupo, recolheu-se em um estreito canto e lá permaneceu sem comer. Seus irmãos não encontraram outra palavra para designá-lo que não fosse “filósofo”. E por estarem conformados com a vida vivida, e a vida de poucos dias é mais longa do que possa crer para quem a veja de fora. Enfim, de certa forma conformados a uma vida com um futuro delineado e sem incertezas, afastaram-se do irmão que “filosofava” ao invés de, simplesmente, comer, ver o sol, respirar e viver.

Ora, Zero foi pensando, pensando e começou a ensimesmar. Agora não queria saber apenas o destino, mas também a origem, de onde eles teriam vindo. Do ovo que se quebrava, como acreditavam seus irmãos, era uma não resposta que não lhe bastava. E foi matutando, matutando, que um belo dia, de surpresa, foi literalmente pego!

O mesmo funcionário, o ser gigantesco e sobrenatural que revelara aos pintinhos a presença do sol, olhou bem para o bico de Zero e disse ao colega: “Aqui alguém confundiu a mãe. Esse não é um pinto, mas um pato! Vamos separá-lo já do grupo.”

E assim foi feito. Zero foi retirado da companhia dos outros pintos, que afinal, sentiram-se aliviados da presença daquele indivíduo tão diferente, e, reproduzindo as palavras de um de seus líderes, “um tipo meio estranho, revoltado, um pobre filósofo destes que não se contentam com viver a realidade”.

Colocaram Zero fora do quadrado e da luz que nunca desligava. Deixaram-no num pátio que não tinha um sol e ele conheceu a noite. Olhou para o alto e lá estava uma bola branca, linda, que não o cegava ao olhar. Era cercada de infinitos pontos luminosos, tão belos, tão estranhos, emoldurados por uma cor não cor, azul não azul, tão linda... E fez uma primeira descoberta: havia um mundo sem o sol! O que seria feito do tal “pai”? Atento, também guardara na memória as duas palavras novas que escutara e, quem sabe, talvez contivessem as chaves da origem que tanto buscava. As palavras eram “mãe confundida” e “pato”.

Dormiu pensando nelas. E sonhou uma grande caixa, muito maior do que aquela que abrigava os ex- irmãos e, no sonho ela o chamava com uma voz doce que dizia: “sou a Mãe, venha para minha tenda”; como um contraponto, vinda de um local distante onde tudo era brilho, trovejou outra voz, agora em falsete: “venha para o abate, para os braços de seu pai”.

Quando despertou do sono profundo, sentiu uma sensação de frio e aquilo o incomodou. Olhou ao redor e viu que seus irmãos não estavam ao seu lado para repartirem o calor dos corpos. Entendeu, então, como se pode sentir frio quando se está só, quando não se pertence a qualquer grupo.

Por sorte a sensação não durou muito tempo ou sabe-se lá se Zero teria sobrevivido a ela. Inicialmente começou a sentir um calor que era pequeno, mas que crescia. Ao buscar de onde ele vinha, seu olhar deslumbrou um enorme disco, muito, muito maior e mais alto do que o “sol” do quadrado onde vivera, um disco lindo que a tudo fazia brilhar, renascer. E sua luz era forte, muito mais forte que todo o pouco que já vira na sua curta existência.

Deixando o olhar voltar para a terra, Zero se viu num lugar que lhe parecia imenso, sem fim, ele que sempre pensara que a vida reduzia-se a um pequeno cercado, via um imenso mundo abrir-se aos seus olhos curiosos. Logo reparou também em uns pintos estranhos, independentes, que pulavam daqui para ali, piando, cantando, provocando uma algazarra divertida, e ele pensou: será isso o que chamam liberdade?

Tão intrigado ficou que por algum tempo esqueceu-se do que procurava com toda a força de sua alma de pequeno pato. Foi quando sentiu fome e, ciscando, enxergou pegadas no chão parecidas com as suas e resolveu segui-las. Caminhou pouco tempo e entrou em um lugar coberto e, surpreso, viu-se ao lado de pintinhos menores, mas muito parecidos consigo mesmo. Eles tinham um bico quadrado, penas brancas e pretas, nada mais parecido com o amarelo uniforme de seus primeiros irmãos.

Foi quando escutou o mesmo funcionário comentar com o colega: “o patinho já encontrou uma família, deixa estar”. E Zero, “o filósofo”, matou a primeira charada do dia: ele era um patinho, não um pintinho, provavelmente fora colocado no quadrado dos futuros frangos por engano! Sentiu-se feliz, pois avançara no conhecimento da própria origem, um enorme passo fora dado! É verdade que ainda não compreendera bem o significado da palavra família, mas pensando com suas penas chegou à conclusão de que deveria ser o grupo de patinhos com quem se metera.

Colocou-se todo animado e prosa, tentando se enturmar com os miúdos que o rodeavam, mas esses não o aceitaram tão facilmente, afinal Zero era muito maior que eles, suas asinhas já começavam a se encorpar, e não, definitivamente ele não era da mesma família deles, concluíram os patinhos e assim lhe falaram. Ele que pensava que todos seriam irmãos, iguais na vida e no destino, agora percebia a existência de uma barreira, o tal do grupo familiar.

Mas aquilo o incomodou por pouco tempo, porque viu que os patinhos corriam atrás de uma ave poderosa, imensa, a quem eles chamavam “mãe”! E ele colocou-se no grupo a acompanhá-los por todos os lados. Depois de decorrido algum tempo de caminhada, verificou que até mesmo os patinhos que lhe haviam dito que ele não pertencia à família, pelo fato de ele ser maior e poder dar-lhes algum calor, terminaram por aceitá-lo no grupo. Então, Zero pôs-se todo feliz e sentindo-se perfeitamente enturmado, no seu quaquaquáquá arriscou e passou também a chamar a imensa líder de “mãe”!

“Ela é a minha origem, eu a encontrei! Nunca vou deixá-la nunca mais! Eu já a amo, e ela me amará, tenho certeza, mais ainda que a esses meus irmãos raquíticos que são tão bobinhos, mas tão bobinhos que nem sabem que, no fundo, são meus irmãos também! Afinal sou maior, a mãe irá amar-me, que importa que me chamem de filósofo, era até verdade quando eu me sentia bobinho, mas agora eu cresci e encontrei a resposta das coisas e, afinal, não me importo muito com apelidos e não filosofarei mais, quero estar e viver como todos.” A bem da verdade e pensando francamente, Zero ainda carregava uma última dúvida importante: o que seria e onde estaria o tal do “pai”?

Zero foi lentamente ­se aproximando da pata, tentado tocá-la, encostar-se às suas asas, recuperar o tempo perdido em que não tivera uma mãe. Quando ele estava muito, mas muito próximo, o grupo todo parou. A mãe descobrira no chão uma pequena presa e, pegando-a no bico, virou-se para dá-la aos patinhos famintos. Mas eles ainda ingênuos, inexperientes, estavam aprendendo a arte da sobrevivência e puseram-se a jogar com a pequena larva sem saber ao certo o que fazer. Logo, logo, esquartejariam a pobre, sem se decidirem a comê-la. Zero achou que este era o momento de fazer-se notar pela mãe e dar uma lição nos patinhos miúdos e num salto apossou-se do acepipe. Disse aos patinhos: “vejam, é assim que se faz” e devorou-o de golpe.

Pobre Zero. A mãe dos patinhos teve uma reação com a qual ele jamais poderia contar. Arremeteu-se contra ele com toda a fúria de que é capaz uma pata na defesa do alimento de sua prole. Ele foi jogado ao chão e imobilizado pelo peso da mãe. E como ela pesava! Por segundos ele ainda julgou que aquele ato demonstrasse algum tipo de afeto especial, afinal o que ele entendia de mães e de carinhos? A primeira bicada pensou que fosse parte de alguma recompensa, um tipo especial de demonstração de afeto, deveria ser assim mesmo. Mas, em seguida, as demais bicadas começaram a feri-lo e ele teria sido muito machucado se não conseguisse, utilizando todas as suas forças, libertar-se do peso da mãe.

Ele o conseguiu, a conta foi paga por algumas penas perdidas. Entretanto, livrar-se do peso não era o suficiente, pois para qualquer lado que corresse, a mãe o perseguia, desejando tê-lo novamente sob suas garras, e Zero teria se dado muito mal se não conseguisse, afinal, alçar um pequeno vôo e colocar-se ao abrigo da endoidecida, do outro lado da cerca. E de lá, inconsolável, Zero a olhava e a cada olhar via apenas e tão somente o ódio aceso nos olhos amarelados de pata nervosa. Ele disse-lhe: “Eu sou Zero, você é a mãe, por que você quer me massacrar?”

Cercada pelos seus pequenos patinhos, a pata recompôs-se em toda a sua majestade e disse-lhe antes de dar-lhe as costas: “Eu sou quem eu sou”!

Pobre Zero! Teria que outra vez procurar solitário um novo rumo na vida. Por sorte, já que conseguira voar de susto, e quase sempre o medo provoca atos de heroísmos, não tardou muito para conseguir voar de fato, de tal maneira que acabou por enturmar-se com um bando de jovens patos selvagens, que, ocasionalmente, pela região passavam.

Não pensando mais em abates, nem nos sóis ou em máquinas, pela primeira vez ao voar sentiu-se livre e as angústias do passado, dia a dia, cutucavam-no menos.

No entanto, se por acaso, algum outro pato de seu bando lhe perguntasse de onde  viera, ele desconversava. Somente para os amigos mais íntimos confessava: “Eu conheci a Mãe. Ela é um ser enorme, terrível, que um dia quis me massacrar!” Os amigos lhe diziam: “Tudo bem, algumas mães são assim mesmo, mas continuamos não sabendo por que o chamam Zero.” “É que não me bastou ter tal mãe, eu ainda tenho certo “pai” que pensa ser um Sol todo poderoso, capaz de deter em suas mãos o poder de minha vida e da morte! Se eu pudesse eu os teria esquecido, mas como não o consegui, um dia decidi matá-los. Estão mortos dentro de mim.

É, amigos, para eu sobrou ser o meu próprio princípio, tem jeito não! Sem dúvida, por isso me chamam Zero desde que me conheço por gente”, retrucava ele a voar livre com o bando de amigos selvagens.

                Dias após, Zero ao pousar num dos galhos de sua Árvore de Vida, encontro o escrito da “Grande Floresta do Conhecimento”, que o vento amigo lhe trouxera. Depois de lê-lo sorriu, no sorrir bonito dos patos libertos.

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