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"Contos de Máscaras"

5. Conto quarto: A visita esperada

Um filósofo francês dizia que nem o sol e nem a morte podem ser vistos de frente; os antigos gregos acreditavam que a verdade não pode ser vista de modo frontal.

Tão grande é a dificuldade do ser humano em aceitar a vida e a morte, quanto a de que a maturidade constitui já o topo da escada, após a qual principia a decadência até o final. Acontece que demoramos muito tempo a nos apercebermos disso e essa é a razão pela qual aceitamos  a decadência sem mesmo a notarmos, pois ela se instala sorrateira e lentamente. Quando, finalmente, ela é conscientemente aceita,  traz como resultado tornar as pessoas menos exigentes no tocante àqueles com quem se resignam a conviver, menos exigentes quanto ao espírito, tanto quanto ao resto.

Tal negligência produz, entre outros resultados, o de agravar esta tendência, tão comum quando se atinge certa idade, a de considerar agradáveis as palavras que lisonjeiam o nosso modo de pensar e as nossas inclinações; essa é a idade em que um intelectual prefere, ao convívio de espíritos originais, o de seus discípulos e de seus bajuladores, que só têm em comum com ele a letra de sua doutrina, mas que o escutam ou o incensam.

É somente na maturidade que começamos a compreender o que seja a velhice- a velhice que, de todas as realidades, é talvez aquela de que guardamos na vida uma noção meramente abstrata, observando os calendários, vendo os nossos filhos se casarem tanto quanto os filhos de nossos amigos, sem compreender por medo ou por preguiça do espírito exatamente o que significa tudo isto.

Quando uma doença, um acidente, um câncer, nos fazem ver a morte de perto somos sacudidos por sentimentos como aquele de que teria havido maneiras de podermos haver gozado de modo mais intenso  a vida. Se por um acaso o perigo passa, o que descobrimos é a mesma vida morna, anterios ao susto.

Alguém já disse que somente muito tarde aprendemos a amar o que nunca será visto duas vezes.

Nós jamais somos os mesmos no dia que passa. A partir de certo grau de enfraquecimento causado seja pela idade ou pela doença, todo o prazer tomado à custa do sono, fora dos hábitos, toda desregramento torna-se um fastio. Aliás até mesmo o prazer momentâneo já se acabou, pois o corpo e o espírito estão muito desprovidos de suas forças para que possam acolher agradavelmente o que parece uma diversão a outrem. O aniquilamento da juventude, a desaparição da maturidade conduzem à inevitável destruição de uma pessoa que já foi vivaz, cheia de força e agilidade, sendo  um primeiro passo rumo ao nada.

Da mesma maneira, nas relações amorosas, com o passar do tempo, sob a crisálida de dores e carinhos, por algum tempo tornam-se invisíveis ao amante as piores  metamorfoses da criatura amada, o quanto o rosto amado teve tempo de envelhecer e mudar. Pode-se às vezes se reencontrar uma criatura que uma vez amamos, mas não abolir o tempo. Já não nos sentimos com suficientes atrativos para agradar, nem com forças para amarmos. Não que a gente esteja impotente, e quanto a amar , amar-se-ia como nunca. Mas sente-se que é uma empresa demasiado grande para o pouco de forças que nos restam.

A velhice nos torna primeiramente incapazes de empreender, mas não de desejar. Só num último período, aqueles que vivem até uma idade muito avançada, estes renunciam ao desejo, assim como já haviam tido de abandonar a ação. Limitam-se pequenos passeios fora de casa, a comer e beber, a ler os jornais quando este hábito foi adquirido na juventude, ligam sem ouvir os televisores e sobreviverem a si mesmos.

.....

Os velhos evitam os espelhos. Quando não o fazem ou é porque suas visões se tornaram baças, ou eles se ficaram simplesmente cegos, ou ainda porque mantiveram muito ativa a imaginação.

Tratemos desse último caso. Quando uns velhos buscam seu reflexo que a luz revela, buscam unicamente na imagem uma tentativa de se verem, mas no tempo que passou. A imagem que o velho verá de si não tem mais nada a ver com o tempo real. Seu vulto será aquele dos dias de maturidade, dos tempos de força e vontade, em que a vida aspira realizar-se. Uma máscara é tudo o que de si mesmos enchergam.

Isso não ocorre apenas com a visão. Sei por experiência própria que é possível que um homem torne-se surdo para tão somente preferir ouvir a própria voz. E impedir que os outros falem.

Esses dois fatos provam por si mesmos ser a fusão da alma com o corpo algo de  tão profundo que o físico, por ser mais maleável, sujeita-se à alma.

Depois de todas essas descoberta, estava eu na velha cozinha da centenária casa de minha avó, onde os picumãs formados pela gordura evaporada e retida nas teias de aranha, pendiam das telhas nuas e negras, cismamdo gotejar aqui e ali, principalmente sobre o grande fogão à lenha no seu canto.

Não estava só, comigo Ana, minha mulher e companheira de toda uma vida. Tomávamos uma chícara de chá. No silêncio da noite ela dizia ter escutado ruídos e  perguntava-me quem poderia estar no quintal. Eu não a escutei, mas sim, aos passos fortúitos que se aproximavam da porta.

Ela não o poderia saber, só eu possuia ciência de quem me procurava. Afinal  nosso encontro fora marcado há já algum tempo e eu somente esperava que ele ocorresse. Nada dissera a Ana, pois para que o faria?

Sentado em minha cadeira de rodas, que em um dos braços amparava o medicamento conduzido para uma veia, deixei-me ficar onde estava. Que a visitante entrasse e que caminhasse até mim. Para que a pressa em abrir a tranca de madeira da porta? Ana estranhou meu comportamento mas atendeu ao meu pedido, deixou-me ficar  e retirou-se para seu quanto.

Então eu avistei minha visita. Ela caminhara pela porta, sem se importar com a nudez total que expunha. Tentava-me olhar-me diretamente nos olhos, mas os meus não se desgrudavam da nudez de curvas e protuberâncias perfeitas. Foi quando me dei conta que o corpo que possuia defronte a mim era incapaz de atrair o desejo, na verdade ele, tal qual um seio de mãe, pedia e irradiava conforto.

Levantei a cabeça e vi uma  face clara, quase branca, parcialmente oculta por uma  longa cabeleira esbranquecida que esparramava-se no recosto do velho banco onde ela se sentara, num canto em que recebia os pálidos reflexos dos fugidios raios da lua minguante que penetravam pela pequena janela.

Quando notei que ela voltara a procurar meus olhos eu a encarei. Naqueles olhos profundos fui obrigado a sentir-me perante um espelho, objeto que desde muito tempo  eu exilei de minha presença, onde minha própria imagem estava refletida. Não havia como enganar-me apelando para a cegueira amiga, eis que toda minha senectude avultava-se.

Nosso encontro que tanto me afligira realizava-se num clima ameno, de paz. Nenhuma surpresa, nenhum temor, nós dois sabíamos a que vinha o nosso encontro, pois tanto quanto eu a esperava,  ela ansiava por mim, sabendo-se mais que querida, temida. Fora a maneira pela qual se aproximara que realizara o milagre de que meus temores se dissolvessem.

Toquei-lhe a mão e ela me disse: “Preciso de meus sapatos”. Somente então  reparei nos mesmos ao lado do banco. Eram negros, brilhantes, com altos saltos. “Com eles posso escalar os muros e sentir-me mais elegante. Você não percebeu que eu entrei sem bater, sem alertar”, perguntando-me ao mesmo tempo em que me aconchegava em seus braços e nesse movimento, sua face como por um acaso também buscou o abrigo de meu peito. Desse modo deixamos a cozinha da casa antiga. Há tanto tempo eu só me locomovia numa cadeira de rodas e em anos, abraçado na visitante consegui caminhar por minhas própria pernas.

Minha mulher despertara e viu-nos passar unidos pela porta de seu quarto. Em seus olhos vi tristeza, a infinita tristeza do adeus. Parei, toquei-lhe com os dedos seu rosto tão querido, beijei-lhe os cabelos e balbuciei: “Sinto-me bem, meu amor!”.

Segui meu caminho conduzindo e sendo conduzido pela minha nova amiga até o meu quarto. Anseios, desejos, angústias, as muitas dores esvaíam-se como num passe de mágica. Medo? Medo de quê? Da morte? Não havia medo porque também não havia a morte. Não havia nada e no nada, o repouso, a paz, o fim. Minha amiga soprou-me ao meu ouvido: “Estamos livres, tudo acabou, você não tem que ter cuidados, preocupar-se com nada, nem mesmo comigo”.

Sob o velho relógio carrilhão do quarto de dormir havia uma cama, deitamo-nos. Foi então que minha amiga disse-me ao ouvido uma única frase. Lembre-se de algum momento em sua infância, de um só instante de felicidade, isso o ajudará e antes que a memória se apague já seremos apenas um.

Recordei-me de meu pai a transportar-me, garoto, na garupa de sua bicicleta. Foi quando percebi que nossos corações produziam a harmonia do pulsarem em igual frequência. Que eu e ela deixávamos, a cada segundo, de sermos  dois, transformávamos em apenas um. A face de minha amiga adquiria gradualmente as minhas feições, seu lindo corpo transmutava-se no meu alquebrado despojo de velho.

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