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Marcel Proust

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"Contos de Máscaras"

6. Conto quinto: Telo de Atenas, um homem feliz não necessita máscaras.

Corre-se o risco de morte por valores. Telos morreu não infelicitado por dores, pela velhice que se aproximava, mas, após viver uma vida no afeto dos seus entes queridos, morreu em combate, na defesa da phylia ( da amizade) e do civismo. Ele atingiu o ápce da felicidade por ter possuído arete, virtude, vivido como kalos kagathos, a bela vida e tido, ao final, uma kalos thanatoi, uma bela morte.

                Morre-se também por valores políticos, morais, revolucionários. Corre-se frequentemente o risco de morte para não se renegar as próprias ideias, pelo seu valor de homem, por sua honra e dignidade.

É como se houvesse uma decadência do espírito da espécie e uma afirmação existencial da individualidade humana, quando um homem ou uma mulher partem para o combate com o esquecimento da morte.

Ao fim e ao cabo, como dizia em outras palavras Sólon, ninguém sabe qual sera a face de sua morte, portanto, somente poderemos julgar alguém vivo como uma pessoa, na melhor das hipótese, bem aquinhoada, jamais feliz.

........

Aconteceu que depois de muito matutar sem encontrar uma resposta que me satisfizesse, conversei com muitas pessoas consideradas sábias, realizei peregrinações pelos mais diversos livros, visitei distintas correntes filosóficas, tão difícil era o meu objetivo: encontrar o conceito sobre o que seria um homem realmente feliz.

Foi quando, quase ao final da busca me deparei com um interessantíssimo diálogo, ocorrido lá pelo século sexto antes de Cristo, travado entre Creso, imperador Lídio, e Sólon, o primeiro dos Atenienses, conversação esta reportada pelo historiador Heródoto.

Haviam transcorrido quase dois anos desde que Sólon deixara a terra ática. E deixou a querida Atenas no auge de seu poder e prestígio, ao julgar seu trabalho de legislador concluído. Realmente, pelo que conhecemos sobre os políticos e os magistrados, recusar-se a exercer o poder no auge da popularidade já faz de Sólon um ser humano no mínimo extraordinário.

Mas não somente isso. Após uma década de governança, Sólon que saiu a rodar o mundo não possuía uma única dracma a mais do que tinha ao ser eleito Arconte pelos ricos e pelos pobres de sua cidade. Outro dado de insofismável beleza!

 “Envelheço aprendendo todos os dias coisas novas”, assim justificava publicamente a longa viagem que empreenderia. Aos mais íntimos, entretanto, ele confessou que se retirava para não ser obrigado a alterar as leis que havia imposto, principalmente aquelas ao Partido dos Nobres; afinal obrigara a todos ao juramento de que as regras seriam cumpridas pelo período em que ele estivesse ausente de Atenas. E esse tempo, que duraria quase dez anos, foi o responsável pela consolidação daquelas normas. Sólon, dando o exemplo pessoal, reafirmava a crença de que “a beleza das leis cumpridas faz reinar por toda a parte a ordem e a harmonia”.

Antes de partir, como um último ato, o maior dos atenienses criou o Tribunal dos Heliastas, um júri popular, ao qual os cidadãos pobres poderiam apelar das decisões dos magistrados, escolhidos estes, em conformidade com as novas leis, não mais pelo direito de nascimento, mas pelo da riqueza. “Muitas vezes os homens de poder cedem à injustiça e servem-se da política para roubar... Eles que deveriam ser os guardiões da religião e espoliam até mesmo os templos. Aqueles cuja conduta deveria ser de obediência à Justiça, ofendem-na pelo apetite ilimitado do lucro.” Pois bem, Sólon criou o Tribunal como defesa de um povo que ele tanto amava, pois caso contrário, “A cidade sucumbiria ante os mais poderosos e o demos cairia nas mãos de um ditador.”

E, assim posto, Sólon partiu para o Egito, para conhecer os costumes das terras do Grande Faraó. Passados dois anos, já tendo visto tudo o que desejava, do delta às nascentes do Grande Rio, decidiu seguir viagem. Escolheu como próxima etapa a Lídia, terra da Ásia Menor, onde, dois séculos antes, criara-se pela primeira vez o dinheiro, graças à invenção da cunhagem em moedas do ouro e da prata. 

A Lídia, ao tempo em que nos reportamos, atravessava um momento de euforia. Fruto de campanhas guerreiras vitoriosas contra povos asiáticos de origem grega, Sardes, sua capital, vivia sob o Rei Creso dias de fausto e poder. Creso, fiel ao espírito de todo déspota asiático, acreditava-se um bem-aventurado dos deuses, ele próprio um deus, a quem nada se poderia objetar e cujas vontades constituíam as leis.  Ao saber por mensageiros da visita de Sólon, tão ilustre hóspede, o imperador ordenou festas e dedicou ao viajante toda uma ala de seu palácio real.

Sólon, para quem “tudo o que é natural é simples” e “o mais difícil é chegar à percepção inteligente da medida do invisível, ao fato de que todas as coisas têm o seu limite”, dispensou as duas dezenas de escravos e escravas colocadas a sua disposição, pois para as necessidades de hóspede ele já possuía seus poucos acompanhantes.

Sua incansável busca do conhecer não se contentou com o que encontrou no ambiente palaciano e buscou, no encontro com o povo das ruas, o entendimento dos costumes do país. Que desilusão! Fora os nobres, que em Sardes habitavam o palácio, os lídios eram simplesmente um “império de escravos”, tão diferente de sua Atenas reformada.

De todo modo, após as festas em homenagem ao grego, ornamentadas com todo o luxo oriental, finalmente, Creso pessoalmente conduziu o hóspede para conhecer os seus tesouros, que ocupavam parcela significativa do sub-solo do palácio. Foi, então, perante todo aquele esplendor, sentado em confortáveis almofadas, que ocorreu o famoso diálogo a que me referi no princípio da narrativa, tão bem reportado por Heródoto.

Creso: “A tua sabedoria caminha à frente de teus próprios passos e alcança todo homem civilizado. Tuas célebres viagens te conduziram aos mais diferentes povos, às mais distintas civilizações. Diga-me, então, Sólon, qual o homem mais feliz que até hoje encontraste?” Logicamente o soberano fazia esta pergunta por julgar-se ele próprio o mais feliz dos mortais, já que tudo o que o dinheiro e o poder poderiam proporcionar ele o possuía a um piscar de olhos.

Sem titubear ou procurar bajular seu hospedeiro, respondeu-lhe Sólon: “É Telo de Atenas. Telo é o mais feliz dos mortais. Residindo numa cidade florescente, teve dois filhos lindos e virtuosos, e, cada um deu-lhe diversos netos que viveram muitos anos, e, depois de haver usufruído de uma fortuna considerável para nosso país, terminou seus dias de maneira admirável: num combate de Atenas com seus vizinhos de Eleusis. Saindo em socorro de seus amigos, pôs em fuga os inimigos e pereceu gloriosamente. Os atenienses ergueram um monumento com o dinheiro do Estado e lhe tributaram grandes honras.”

Pode-se imaginar a decepção do orgulhoso Creso coma resposta de Sólon. No entanto, ele ainda insistiu: “Quem é, depois de Telo, o homem mais feliz que conheces?”

“Cleobis e Biton”- respondeu o ateniense. “Eram cidadãos de Argos e viviam de um pecúlio honesto. Sendo muito fortes, esses irmãos haviam conquistado a vitória nos jogos públicos. Celebrava-se naquela época em sua cidade, uma festa em honra de Juno. A mãe dos rapazes, uma sacerdotisa da Deusa, com dificuldade de locomoção precisava ir ao templo conduzida por um carro, mas os bois tardavam a chegar do campo. Então os irmãos, colocando-se as cangas nos ombros, conduziram a mãe no carro até o templo de Juno, distante mais de cinquenta estádios. Uma vez no local, cercados pela multidão, a mãe satisfeita e orgulhosa dos seus filhos, de pé junto à estátua da Deusa implorou que ela concedesse a Cleóbis e Biton a maior felicidade que pode honrar um mortal. Terminada a prece e após o sacrifício do festim solene, os rapazes adormeceram no próprio templo, para não mais despertar. Os argivos ergueram estátuas a ambos e os consagraram a Delfos como homens perfeitos.”

Neste momento Creso não mais conseguiu ocultar o seu desconforto: “Ateniense, fazes tão pouco de minha felicidade, que me julgas indigno de ser comparado aos homens comuns? Não pudeste, com tudo que viste, julgar-me plenamente feliz?”

Respondeu-lhe Sólon: “Oh, Creso, assim me perguntas sobre o que penso da vida humana; poderia responder-te de outra maneira. Numa longa peregrinação pela terra vemos e sofremos muitas coisas desagradáveis. Dou a um homem setenta anos como o mais longo tempo de vida, o que serão vinte e cinco mil, quinhentos e cinquenta dias. Durante esses milhares de dias não encontrarás um que não traga um acontecimento semelhante aos outros. É preciso convir que o homem não é senão vicissitudes. Possuis riquezas consideráveis e reinas sobre um grande povo, mas não posso responder à tua pergunta sem saber se terminarás teus dias na abundância; pois o homem cumulado de riquezas e de poder não é superior ao que possui o necessário, a menos que a boa sorte o acompanhe e, que gozando de todas estas espécies de bens, termine venturosamente a existência. Nada mais comum do que a desgraça na opulência e a ventura na obscuridade. Um homem rico como tu está mais em condições de satisfazer teus desejos e suportar grandes perdas. Aliás admitindo que esse homem esteja no uso de todos os seus membros, goze de boa saúde, não sofra desgostos, seja feliz com os filhos; se a todas essas vantagens acrescentares a de uma morte gloriosa, aí terás o homem que procuras. Ele, sim, merece a classificação de feliz. Mas, antes da morte, evita julgá-lo; não lhe dê este nome; considera-o, somente, bem aquinhoado.”

Por aí terminou a entrevista, e, após dois ou três dias, Sólon, sagaz em perceber certos recados, resolveu deixar a Lídia e seguir viagem, para maior sossego de Creso e dele mesmo.

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