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"Contos de Máscaras"

7. Conto sexto: A Árvore de Natal

Ivan Karamazov nos relata que existe um pendor especial, em muitos, para o prazer de atormentar crianças; essas mesmas pessoas que em sociedade mostram-se amáveis e ternas, mas fazer as crianças sofrerem é sua forma de amá-las.

A confiança angélica das criaturas sem defesa seduz os seres cruéis. Pois cada homem oculta em si um demônio que se manifesta por acessos de cólera, de sadismo, por paixões ignóbeis e doenças contraídas na devassidão.

No caso que ele narra ao irmão Aliosha, os pais da criança, pese serem instruídos, praticavam muitas sevícias numa pobre menina. Açoitavam-na e seu corpo vivia repleto de equimoses. Refinaram, então, sua crueldade: nas noites de inverno encerravam a menina na privada para que ela não perdesse tempo se urinando na cama. Esfregavam os excrementos na pequena face e a mãe obrigava-a a comê-los. E essa mãe dormia tranquila, insensível aos gritos da pobre criança. E o pequeno ser, sem saber ao certo o que acontece, bate em seu pequeno peito, chamando o bom Deus em socorro! “Ora, toda a ciência do mundo não vale as lágrimas de uma criança”.

                Nossa pequena história nos trás uma criança, pobre como tantas o são. Que perde o carinho e o seio de sua mãe, mas mantém a ilusão do Natal. A máscara de Perséfone, na ausência de uma ação humana que mitigasse o completo abandono do pequeno ser, assume a mais bela feição, de Deusa- mãe e o abraça com a mesma ternura com que o faria a mãe, já ausente.

…..

A casa antiga de três andares um dia abrigara uma família de posses, elegante. Quem saberia dizer desde quando havia sido abandonada aos gatos, aos ratos, aos insetos e aos pássaros? Parte do telhado havia cedido e as marcas da umidade que avançava eram visíveis mesmo do lado de fora do imóvel.

Há algum tempo, dizia a vizinhança, uma empresa surgira e apropriara-se do imóvel. Três ou quatro trabalhadores haviam erguido um muro na porta de entrada e cerraram as janelas com tábuas. Pouco importava a deterioração pela qual passava o sobrado, aliás, aparentemente contava-se com que o tempo tudo destruísse.

Certo dia o sobrado abandonado foi descoberto por um pequeno grupo de desvalidos da sorte que polvilham minha cidade. Sem muita discussão ou pedido de licença, a um primeiro pontapé bem aplicado seguiram-se outros; como por acaso, um dos arrombadores trazia em sua carroça de trastes da rua uma barra de ferro. Logo a paliçada foi ao chão e cada qual foi se acomodando como podia.

Existem notícias que circulam com as asas do vento. O certo é que não tardou para muitos moradores sem teto, dos mais diferentes pontos da cidade, descobrissem aquela ancoragem e a ocupassem.

As famílias maiores e as mais fortes ocuparam os melhores quinhões do imóvel, o que logicamente excluía o porão escuro e úmido da casa antiga. Somente este espaço foi o que restou para as mulheres sem companheiros, algumas com crianças enfraquecidas.

No porão triste, um menino por volta dos seis anos de idade despertou na manhã da véspera de Natal. Umidade e quentura, cheiro de mofo e escuridão, o garoto tiritava de frio embrulhado nos restos de um esfarrapado cobertor. Despertara-o cedo. Então ele se levantou e sentou-se num pequeno banco de madeira.

Um gato, antigo habitante local, buscando aconchego no calor do pequeno corpo do menino, saltou para seus braços e enquanto ele o acariciava, o felino olhava fixamente para o vão da porta do porão que nunca fechava. Esperto, a fraqueza não lhe apagara o instinto de caçar algum rato que por acaso por lá andasse.

O menino não sentia propriamente fome, não lhe doía estômago, já tão pequeno se acostumara a comer se e quando algum alimento estivesse disponível.  O fogareiro feito de pedaços de madeira e papelão estava apagado e a mãe não despertava.

Acostumara-se pela manhã senti-la ao seu lado, mas hoje ela permanecia deitada no colchão. O pequeno sabia que a mãe andava doente; quase sempre, já cedinho, ela saía à rua e voltava com um pedaço de pão, às vezes até mesmo com leite e lhe dava contente. Mas, desde algum tempo, ela dera para reclamar de dores e de arrepios, de um tipo “que lhe roía até os ossos”.

O menino, largando o gato no chão, deitou-se a seu lado na cama, mas quando se aconchegou à mãe sentiu-a fria, muito fria. Chamou-a e nenhuma resposta. Balançou-a, inutilmente. Teve que desencostar seu corpo, agora o nariz escorria e começou a espirrar. Chamou pela mãe muitas e muitas vezes, e ela nada de acordar. Aquele sono o incomodava.

Hoje era véspera de Natal e eles haviam combinado caminhar até o parque do Ibirapuera, onde os homens haviam plantado uma linda árvore, a maior de todas, uma árvore toda feita  de enfeites, estrelas e luzes. Ver a Árvore de Natal e, afinal rezara tanto para o Papai Noel! Quem sabe ele se lembraria de deixar na linda árvore o presente que em suas preces tantas vezes pedira!

A mãe não acordava, até parecia não querer despertar por mais que a chamasse, que nela mexesse com toda a sua força infantil… Mas ela prometera e ele tanto queria!

Do outro lado do porão ouviu um gemido, o da velha que repartia com eles o pequeno espaço, e que fazia às vezes o favor de olhar por ele quando a mãe saía para batalhar algum trocado ou alguma comida. Comida e trocado que repartia com a velha.

No entanto, o menino tinha verdadeiro pavor da pobre mulher sem dentes; ela quando se irritava berrava e atirara o que possuía nas mãos, nunca o acertara, é verdade, mas ela cheirava mal, sempre resmungava, esmurrava o ar e a vida. Só se alegrava quando alguma garrafa de cachaça lhe fazia companhia.

Com o passar das horas, o vapor úmido do porão diminuiu um pouco o frio sentido pelo garoto e ele voltou a sentar-se com o gato sujo e magro em seu banquinho. A mãe não acordava e ele precisava sair, ver a Árvore de Natal, fazer seu pedido diretamente para o Papai Noel, rezar para Nosso Senhor.

Foi evitando o olhar da velha, e esquecendo-se de ouvir o repetitivo chamado da voz rouca “aonde vai peste?”, que ele conseguiu esgueirar-se do porão e, já no quarto de cima encontrou alguma água para beber. Novo lance de escada, e, pé-anti-pé, o menino alcançou a calçada e o sol invadiu seu rosto magro e terminou por aquecê-lo.

Somente então ele se deu conta de que não sabia por aonde ir. A rua era tão larga, os carros amontoados disputavam corrida entre si, sempre para um mesmo lado; o menino pensou, pensou e concluiu que todos deveriam, naquela pressa, estar indo para o Ibirapuera ver a Árvore. E seguiu caminhando.

Mas como é grande esta cidade, como é sem fim a avenida para passos tão curtos como os de uma pequena criança!

A tarde foi caindo lentamente e a quantidade de gente aumentando. Cuidado com os pezinhos metidos em havaianas… poderiam até pisá-los se ele não ficasse esperto. Passou por um policial que se virou tapando o nariz para não ter que enxergá-lo e nem senti-lo, tampouco prestar algum socorro. E o menino prosseguiu em seu caminhar. Agora sim, o estômago cismara de roncar e um tremor a tornar conta das articulações doloridas. Fecha, então, com força os dedinhos que doem e as unhas compridas enterram na própria pele.

De repente, como por milagre, surge ao seu olhar uma vitrine de loja iluminada, com tudo o que ele poderia em sonhos imaginar comer. Doces, bolos, guloseimas de chocolate, coisas incríveis. E o cheiro que tudo aquilo junto produzia! O menino parou. Por alguns instantes esqueceu-se da Árvore.

Ao redor, postas na calçada, algumas mesas com outras crianças comendo iguarias na companhia de seus pais. Pensa em sua mãe, mas a lágrima que verteria estanca-se em meio à fome que salta. Um cliente abre a porta para sair e o menino escorrega loja adentro. Dirige-se ao balcão e na pontinha dos pés consegue balbuciar “tenho fome”. A seu lado, um garoto bem arrumado comia seu bolo; num impulso misto de medo e de compaixão, reparte seu  quinhão, que, no entanto, para no caminho e não chega até a boca faminta. A funcionária do estabelecimento segura o repasto e com uma nota de cinco reais na mão, empurra o menino para fora do estabelecimento. O dinheiro dado ela precisa enfiá-lo na mãozinha, que pouco se abre. Acontece que o garoto não queria dinheiro, apenas e tão somente alguma coisa para comer.

E o menino volta a caminhar. Afinal, a Árvore não pode estar tão distante. Ele irá encontrá-la, não tem nenhuma dúvida. Pena que a mãe não conseguisse acordar de seu sono, mas ele voltaria, entregaria o trocado ganho e contaria tudo o que visse. No Ibirapuera lhe darão o que comer, é festa, e quem sabe, talvez até peça um belo pedaço de chocolate e não o desejado carrinho de madeira para Papai Noel, quem sabe, afinal, é Natal, a festa do Menino Deus!

Sempre andando chega a noite, mas as luzes da rua são claras, tão iluminadas que ele acha estar chegando ao seu almejado lugar. De repente sente-se cercado por três meninos mais velhos, tão miseráveis quanto ele próprio. O dinheiro em sua mão pendurado os atrai. O pequeno pergunta se eles também estariam indo ver o Papai Noel, mas o único que houve é “passa essa grana, meu!” O menino não entende… O mais velho tenta arrancar a nota de cinco reais, mas a mãozinha do menino não consegue se abrir. Outro soca lhe a nuca e o dinheiro é roubado.

O menino cai e sua pequena cabeça bate numa pedra, ele sente forte dor e um líquido morno lhe ensopa a testa. Sente-se dormir por um tempo, algum tempo, mas a seguir um brilho forte o circunda.

A dor agora se foi e ele não está mais só, vê outros garotos ao seu redor, sorridentes e bem vestidos, que o tratam bem. Um lhe oferece o mesmo doce que quase chegara à sua boca, ele aceita e se sente saciado, o estômago já não provoca contrações e o frio se foi. E com grande surpresa ao olhar para o lado esquerdo encontra a própria mãe que lhe abre os braços e o aconchega. Sorri e como num passe de mágica vê aos pés de si a tão desejada Árvore de Natal!

Mas ela era muito, muito mais linda que um dia pudera imaginar! Alta, tão alta que seus ramos tocam o céu. Bolas grandes, pequenas, vermelhas, azuis, brilhantes. E muitas luzes, estrelas a acender e a apagar. Os pássaros aboletados em seus galhos saúdam-no com seus trinares.

Sente-se feliz como nunca o fora até então.  Um forte abraço e depois um beijo na testa e a mãe diz: “Feliz Natal, Jorge! Papai Noel mandou um carrinho, pegue-o, é todo seu, meu filho”.

 

No dia seguinte pela manhã, o entregador de jornais encontrou num beco entre duas frondosas construções modernas os corpos sem vida de uma mulher e de uma criança abraçadas. Mas seus rostos eram lindos, como se a máscara da morte os houvessem embelezado. O menino tinha nas mãos um pequeno carrinho. O entregador se ajoelha enternecido. Teria sido somente a emoção que o faria acreditar que na morte mãe e filho por sua vez lhe sorriam e desejavam um Feliz Natal?

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