"Contos de Máscaras"

8. Conto sétimo: O Lobo e o Coelho

“O risco da morte é a própria aventura humana. Sem risco tudo seria fácil demais, portanto inútil, portanto impossível”

(E. Morin, O homem e a morte)

 

Quando eu caminhava pela mata e perseguia alguma presa eu me sentia livre, no entanto, o coelho pulsava em meu coração. Quando eu fugia dos meus bestiais caçadores, eu me sentia livre e um homem pulsava em meu coração.

Mas um dia, na louca disputa para me alimentar, sentei numa armadilha e dei-me conta de que era uma armadilha para lobos. Só então ocorreu-me ser um lobo; enredilhado na malha contorci-me até o desespero, de meu coração desaparecera o coelho e o homem.

Foi com o tempo que fui me adaptando à prisão e a perda da liberdade deixou de me pesar. Vivi um longo tempo na armadilha. Até que um instinto, nada mais que um instinto obrigou-me a lutar contra a teia da vida. Lutei, então, com todas as minhas forças na tentativa de escapulir, mas os nós bem arranjados não permitiram e como prêmio aos meus esforços, tive um bocado de minha pele arrancada.

Aquela mata, meu pedaço de chão estranhou-me. Senti muito frio, talvez todo o inverno do mundo tenha-se feito presente naquele canto.

Desejei novamente escapar, fugir da armadilha ou ao menos arrumar uma manta emprestada, pois a pele perdida na tortura não tornara a crescer, tosada todo o tempo pelas infindáveis culpas que só o conhece aquele que já teve um coração de lebre e de caçador no peito de um lobo.

Não fugi da armadilha, pois foi ela quem se abriu e eu saí. Novamente solto na mata perdera, entretanto,  a habilidade de construir uma toca, um abrigo onde pudesse me esquentar. Busquei sim uma pele, mesmo que fosse um arremedo para enfrentar o frio de minha alma. Vasculhei todos os cantos e por um acaso, somente por sorte me deparei com uma toca vazia. Acreditei-me que, finalmente livre iria me aquecer.

Tomei-a como meu lar. Tratei de decorá-la de tal forma que se transformasse no recanto mais lindo do mundo, pois só é capaz de aquilatar a importância de um verdadeiro refúgio aquele que haja estado dentro de uma arapuca por quase toda uma vida.

Foi então que quis respirar outra vez o ar puro da mata.

Como eu poderia imaginar que a toca era uma nova armadilha? Eu não pude escapar, não antes que minha perna fosse amputada pela mola que travava a saída. Senti o coelho se soerguer ainda por um momento, em seguida o caçador abandonou-me, no derradeiro momento em que meu coração sangrou.

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