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Marcel Proust

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"Contos de Máscaras"

9. Conto oitavo: No Reino de Hypnos, irmão gêmeo de Tânatos.

Porém dentro de seus limites, minha capacidade de sofrimento também marcará um termo às minhas dores, além do qual o padecimento não poderá prolongar-se, sendo como é, limitado. Tu me pintas o prazer e a dor como incomensuráveis, mas exageras, porque nenhum dos dois ultrapassa a capacidade humana.

( Thomas Mann, José e seus irmãos)

 

Primeiro sonho

Ele fora derrotado. Lutara pela vida, contra a escravidão a que queriam submeter sua liberdade, revoltara-se e perdera. Perdera?

Agora está nas mãos do inimigo que já o amarrava para a tortura. Tortura a que não escaparia a não ser pelo caminho da morte. Mas a morte estava distante, antes dela provaria da loucura.

O homem olha para seus algozes, pois são dois. O mais magro, o chefe,  afasta, num gesto, o bruta-montes e tal qual o Inquisidor este o encara e pergunta ao aprisionado: “Por quê, para que?”

O revoltado responde-lhe: “Porque ainda acredito em alguma coisa, mas você deveria fazer-se a mesma pergunta:  para que?” “Mas eu não suportaria a tortura, eu imploro, mate-me”.

O Inquisidor lhe diz que não pode matá-lo. “Tenho minhas ordens, você terá que ser torturado até falar tudo o que queremos saber.”

“Mas falar o que é que você mesmo já não o saiba? Suplico-lhe, mate-me”.

Neste momento o Inquisidor revolta-se com suas ordens, chama alguém, talvez um médico. Ele se aproxima do amarrado e lhe injeta na perna uma injeção.

O supliciado sente-se hipnotizar e vê quando o outro aplica-lhe um golpe com o pé no pescoço, matando-o. O derrotado somente tem uma fração de segundo para dizer ao que o abate: “Obrigado”. E repara em seu sonho que o Inquisidor tem as mesmas feições que sempre encontrara ao espelho.

 

Segundo sonho

Estou morto porque me sinto como tal. Vivo num cemitério, mas caminho à luz da lua, pelos seus caminhos. Passam por mim outros que eu sei também estarem mortos. Mas ninguém parece enchergar o outro; serei o único a visualizá-los?

Percebo-me cantando e só então me dou conta que todos também cantam. Mas as canções não se compartilham. Os mortos cantam cada um a sua música sem se importarem com a dos outros, num ouvir-se sem escutar-se.

Ao meu lado caminham duas moças, uma das quais em farrapos e a outra com uma enorme cicatriz na face. Não encontro seus olhares e percebo que cantam sem moverem seus maxilares.

Após uma curva, aproximo-me da capela e lá encontro minha mãe. Eu a reconheço e me alegro. Ela está muito mais magra que eu a supunha em vida, mais moça que a imagem que dela eu tinha. Aproximo-me e tento entrelaçar nossas mãos, mas o máximo contato que eu consigo estabelecer é agarra-lhe um braço e caminhar juntos. Então me dou conta de que ela é totalmente indiferente à minha presença, tão ausente como os demais mortos.

Também murmura uma canção que eu identifico como de ninar. É quando eu sinto um brilho e um calor muito forte. Mas não tenho medo, ao meu lado a terra se abre acolhedora a me proteger.

 

Terceiro Sonho

Sei que estou morrendo, o ar já não me basta, sufoco mais e mais; a falta de oxigênio me leva ao delírio e é nele que me ocorrem imagens que valem por toda a vida.

Uma antiga lenda familiar desfila pelos aos meus olhos como um filme no qual eu era protagonista e espectador. Revejo morimbundos queridos, conhecidos ou trazidos à memória com através de flashs fotográficos, que no instante derradeiro da vida são socorridos um ente ser querido, pai, mãe ou irmão já mortos, que lhe estende a mão, um guia seguro para a longa viagem. Primeiro surge minha avó e seu filho, meu tio, assassinado há meio século; depois seguem meu avô e seu pai. Finalmente encontro-me ao lado do catre de meu próprio pai e ele dizia ver na minha, a figura a de sua mãe a sorrir enquanto ele aguonizava.

Em meu sonho eu continuo a sufocar, a falta de ar a me matar. Então, por minha vez,  sinto a mão forte de meu pai  a apertar-me o braço. Abro os olhos e encontro o sorrizo amigo que sempre esteve ao meu lado. Muito além do consolo, o contato me trás esperança de vida, de salvação, de reencontro e de reinício.

Já não me afoga a falta de ar. A dor e a ansiedade se me afiguram como um nada, a morte tão desprovida de sentido quanto a própria vida que se esvai.

Foi então que despertei. Quiça um dos despertares mais felizes de minha vida, uma sensação de paz com meu pai falecido, numa relação repleta de tensões, recriminações, amores e ódios.

 

Quarto Sonho: Lasciate ogni speranza voi che entrate!*

    *"Deixai toda a esperança, vós que entrais!"

Algum poeta escreveu que “somos feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos.” Há circunstâncias em que a vida assemelha-se a um sonho e os sonhos, à vida; dessas espécies de sonhos dos quais demoramos como que uma eternidade para nos livrar e despertar, e que, ao retornarmos ao mundo do real, percebemos que o sonho ainda não terminou, pois nosso universo, tal qual um sonho, ainda continua dentro de nós. Essa foi a percepção que Alexandrino guarda daquela noite, até os dias de hoje.

 

 Com o passar dos dias, a ingestão exclusiva de água gradualmente levava aquelas pessoas a uma fraqueza crescente. As gorduras de reserva eram transformadas pelo metabolismo, que atua sem considerações político- ideológicas, em energia que mantinha vivos os corações e as mentes. Uns ressentiam-se mais que outros, dado que o poder de resistir a uma ausência absoluta de alimentos por um tempo maior ou menor depende de fatores individuais. De um modo geral todos, já nos primeiros dez dias  de greve de fome, apresentavam uma queda acentuada na pressão arterial, com as consequentes tontura e atordoamento; em alguns, dificuldades urinárias já se manifestavam.

Alexandrino se recorda dos joelhos que doíam ao somente se tocarem e das articulações maiores que se esqueciam de que ele não era, ainda, nenhum velho reumático, e insistiam em fazerem-se notar.

Os grevistas foram levados a uma ala denominada “enfermaria” da penitenciária, onde estavam presos. As celas, como todas as demais, eram de total isolamento, rompido duas a três vezes ao dia pela visita de um enfermeiro e, dia sim, dia não, pela de um médico plantonista. Examinavam-lhes o pulso, a pressão arterial, a temperatura e, ocasionalmente, uma auscultação cardíaca era realizada. Inevitavelmente perguntavam-lhes pela frequência e volume da urina.

Determinada manhã, Alexandrino, deitado em seu catre e voltado para a parede, adormecera profundamente. Sonhava com a mãe e essa preparava um prato de nhoques napolitanos, como somente ela sabia fazer.  Aliás, os sonhos de um prisioneiro, que são na maioria das vezes são voltados  para o sexo irrealizável, haviam mudado do quarto de dormir para a cozinha, ao lado. Agora eram comidas, refeições copiosas e delícias que, como única consequência, produziam, ao despertar, certa dorzinha de estômago, numa sensação de vazio.

Ouviu, então, a abertura do ferrolho da cela, o que assinalava a chegada do médico ou do enfermeiro, interrompendo-lhe o sonho. O acordar abrupto deixara-lhe ainda o cheiro do molho de tomates nas narinas; quando se virou, viu que um homem vestido de branco trazendo um estojo de enfermagem a tiracolo, puxara um pequeno banco de madeira e sentara-se folgadamente a observá-lo.

Ele era forte, fisionomia enérgica onde o maxilar profundo contrastava com a testa baixa e larga. Mas Alexandrino sentiu ser seu olhar desconcertante e obliquo, nunca olhava  diretamente nos seus olhos; os lábios, um pouco separados, pareciam prontos ao sorriso ou à fala, o que contribuía para seu aspecto decidido, do tipo que “vende” energia. Quando o enfermeiro  começou a falar, entretanto, sua voz soava estranha.... Alexandrino lembrou-se que, num dia distante, seu pai levara-o menino até um circo e lá ele vira um ventríloquo que conversava com a plateia por intermédio de seus bonecos. Aquilo o impressionara...

“Vim para ver como você está, aliás, para o que mais seria, não é mesmo?”, falou com um sorriso largo. Após tomar a pressão, a temperatura e o pulso, como de praxe, disse-lhe: “Assim não vamos bem, você e seus companheiros estão emagrecendo rapidamente, perdendo massa. Como a gordura se acabou vocês vão começar a comer seus próprios músculos. Você, por exemplo, com sua altura de um metro e oitenta, já não chega a mais de sessenta quilos. Além disso, ou talvez seja o pior, é que estão todos altamente desidratados. A sua pressão está em dez por seis. Você imagina o que pode acontecer se persistirem nessa insensatez, meu rapaz?”

E continuou com sua voz de barítono em ressonância: “Agora  você, mal que mal, ainda consegue se levantar da cama, mas em breve a tontura aumentará e a fraqueza tomará conta de vez. Nenhum de vocês conseguirá sair do lugar. Bebem muita água, mas isso não basta porque não ingerem sal e a desidratação já- já irá afetar os rins, a pressão cairá ainda mais e depois chegará a vez do estômago começar a sangrar, talvez, depois coma e... adeus! E isso é a melhor das hipóteses, para vocês, logicamente, pois podem sobreviver com sérias lesões nos rins, no cérebro, sei lá onde mais. Por meu lado, eu sou um profissional, nada tenho nem a favor e nem contra vocês, só o que prezo é o meu emprego e, talvez me apraza ajudá-los.”

Depois de pequena interrupção, prosseguiu: “Faço um trato com você. Ninguém, nenhum de seus amigos ficará sabendo de nada. Prometo e não consta que eu não cumpra com o prometido. Isso nunca aconteceu antes, veja bem. Vamos lá, o que custa tomar um chazinho, comer umas bolachas salgadas, só por uma vez, só por hoje?”

Alexandrino, percebendo o rumo que seguiria a conversa simplesmente fez um sinal negativo com a cabeça, mas o enfermeiro insistiu, encarando-o pela primeira vez: “Muito bom, vamos por outro caminho, então. Que tal colocarmos um soro com glicose em sua veia? É tão simples. Você me estende o braço, eu pego a veia, coloco uma agulhinha que levará para dentro de você o conteúdo do frasco, um simples sorinho que trocaremos a cada seis horas. Sua pressão melhora, os rins vão funcionar e o nível de glicose vai impedir as vertigens. Talvez, depois, quem sabe, lhe façamos um sanguinho na veia para começar a recuperar a forças. Sabe, você não precisa nem mesmo comer, aliás, eu nem cozinheiro sou, como você pode ver...” E soltou uma longa risada.  

Alexandrino exercendo toda a paciência, que, diga-se de passagem, nunca foi a bem dizer o seu forte, respondeu-lhe: “Meu amigo, eu sei que você pouco tem a ver com isso, mas não entramos, eu e meus companheiros nessa greve por diversão. Se aqueles que mandam não reconhecerem os nossos direitos de seres humanos, estamos dispostos a ir até o fim e o fim é a morte. Por isso não quero seu chá e nem lhe estendo o meu braço. Se você me aplicar o soro à força, vou arrancar tudo nem que seja a última coisa que faça, é só esperar para ver.”

“Não nos desafie, não. Se eu quiser você tomará o meu sorinho nem que eu tenha que amarrá-lo nessa merda de cama, mesmo que tenha que colocá-lo pra dormir. Não que eu me interesse por sua vida, mas, nesse momento, meu jogo é que você viva e que me implore para que lhe dê o soro e a comida e, então, você se empanturrará e me agradecerá por tê-lo deixado comer.” Agora a risada soou avacalhada e a voz de barítono perdeu sua sonoridade e buscou notas mais altas, parecendo até mais natural.

“Agora você fala no plural e na linguagem que eu estou acostumado a ouvir dos de sua espécie, a dos meus inimigos. Falava antes como um enfermeiro ou um médico, com a fantasia que tomou  emprestada de alguém”, respondeu Alexandrino.

A metamorfose do visitante seguiu num crescendo. A expressão facial se modificando, tornando-se dura. Seu olhar encarava de frente e desafiadoramente. De repente, ganhara um par de óculos, talvez para ocultar a vermelhidão de seus olhos profundos. O corpo já não se representava tão musculoso e o que perdera em imponência, ganhara de acanalhamento.

“Engana-se, idiota, aliás está errado como em tudo o mais. Nunca fui a escola alguma de enfermagem, ou melhor, a nenhuma e a todas as escolas ao mesmo tempo. Tudo o que eu utilizo são máscaras! O Nelsinho, seu odiado juiz auditor, o delegado de primeira-classe Fleury, o chefe do DOI-CODI , o tal coronel Tibiriçá, é por esse nome de guerra que vocês o conhecem, não? Eles são meus discípulos, servos, corja da qual me utilizo para meus próprios desígnios. Mas não pense nem por um instante que eu os tenha escolhido, não. A canalha vem até mim por si só, rasteja, implora para se colocar aos meus serviços. Eu não forço ninguém a fazer nada que não queira, que não seja próprio de seu espírito.Tão somente acolho aos que a mim chegam espontaneamente. Veja bem que, tudo o que eles fizeram ou farão, será exclusivamente por eles mesmos.”

E prosseguiu: “O que eu tenho para dar a quem me procura? Simplesmente tempo, mas não pense que se trata de qualquer tipo de tempo. O meu é um tempo especial, especialíssimo, que a todos satisfaz, de conformidade com cada espírito. Eu dei, por alguns anos, àqueles que querem a destruição de vocês, o poder de desfrutarem o prazer sobre a vida e a morte, o poder de ganhar muito dinheiro e de fama entre seus pares! Isso não é pouco, não. Entretanto, faço questão de frizar que o gozo de destruir é deles, o de matar e de torturar, igualmente, o de esquartejar e, ainda, fazer evaporar os cadáveres daqueles de sua espécie, também! E de permanecerem impunes por todos os seus crimes, é claro, fui eu que lhes concedi esse privilégio por um tempo, que, até mesmo, pode se extender até a morte, ou não... Pode até mesmo ser que alguém, no futuro, lhes proporcione um tempo especial, pois também com o tempo de empréstimo eu trabalho, mas basta por aqui, estou falando  demais e me precipitando nas coisas, num futuro que ninguém sabe, nem mesmo eu, como acontecerá”.

E  ganhando uma expressão ainda mais velhaca, prosseguiu: “O que quero deixar claro é que todas as bestialidades que Fleurys, Ustras cometem, são eles que as realizam e não eu, apesar de que, afinal, tudo será colocado sobre meus ombros! Sabe, prisioneiro 3218, vou lhe fazer uma confissão. Essa canalha de que me cerquei são violentos ao meu sabor, corrompidos até a raiz de seus cabelos, não possuem nenhum desses freios morais e éticos decadentes, daqueles que  eu odeio; mas apesar de tudo isso eles são uns merdas de incompetentes. E sabe por quê? O trabalho que fizeram não foi completo ou vocês todos não estariam aqui e em greve de fome, teriam, isto sim, desaparecido há muito tempo. E ouça bem: no futuro, um daqueles que de mim se acercará repetirá as mesmas palavras que estou dizendo”. A gargalhada alta ressoa pela cadeia silenciosa, assemelhando-se a um ganido de cão selvagem.

“Você não existe, não está aí, estou tendo ou um pesadelo ou uma alucinação”, resmunga Alexandrino.

“Não está alucinando, isso é que não. Estou na sua frente e você poderia me tocar se o quisesse. Mas vou lhe dizer mais uma coisa. A ninguém eu forço a fazer nada que não queira realizar, tudo é de livre e espontânea vontade. Por isso não o forcei a tratar-se amarrando-o na cama. Por outro lado, se você  tivesse aceitado o meu chazinho com bolachas, ou houvesse estendido o seu braço magro para receber meu sorinho, teria perdido toda essa batalha, porque após o chá ou o soro, desde que recebidos espontaneamente, viriam outras concessões e você terminaria por comer, até mesmo por implorar comida, de joelhos aos meus pés”.

“Eu sou ateu, não sei de nada de você,  e quer saber, não tenho negócios nem com você e nem com quem o criou. E, veja, esta é apenas e tão somente uma suposição que faço, e pergunto para minha ilusão, afinal, por que o diabo nos odeia tanto? Não somos nenhuma espécie de santo e alguns de nós creem seriamente em Deus.”, questionou Alexandrino.

“Quem me criou, você falou? Então, se fui criado, se tenho uma origem é porque você reconhece minha existência. Mas vamos ao seu ponto, meu caro ateu de merda. É claro que, com vocês eu sei que não trato com santos e por acaso, onde já se viu santos revoltados? Não é minha especialidade, mas tão pouco isso nunca se viu! Claro que não! Já crer ou não em um deus ou em outro, ou em nenhum, essa é uma questão própria de cada um  e declaro com todas as palavras que nada tenho a ver com isso. Quer saber mesmo por que eu os odeio? Simplesmente porque a rebelião de vocês me desafia: ela quer estabelecer padrões de comportamento humano que me são detestáveis, tais como fraternidade, igualdade, lealdade, ética. É somente por isso que fico do outro lado, e, insisto, nada existe de pessoal nisso, percebe agora?”

“E já que eu não consegui convencê-lo a espontaneamente tomar meu chazinho vou indo, pois tenho mais clientes a visitar e o meu tempo é precioso. Mas saiba que estarei sempre por perto, inclusive de você. E algo que também espero dizer até mesmo a outros seus companheiros de jornada, aqueles que talvez não sejam tão intratáveis como vocês, é que eu estou sempre às ordens na venda de tempo, tempo da melhor qualidade.  Vendo o tempo que para alguns significa o gozo da violência, da destruição, da sensação de a tudo poderem perverter ao bel-prazer, sem terem de acertar as contas com ninguém; que para outros, no entanto, o tempo vendido significará tão somente o enriquecimento, o poder, o esquecimento desses velhos preconceitos como honra, comportamento, lealdade, socialismo, esses valores idiotas e ultrapassados. O que unirá tanto uns quanto outros é o fato de que se divertirão a fartar-se no tempo de mim adquirido.” Nesse momento o enfermeiro trocara de máscara, transformara-se num ser franzino, mal vestido, encurvado.

“Ah, mas ainda faltou lhe contar uma última coisinha, antes de deixá-lo. Na minha senda não existe arrependimento, não tem retorno. Na testa de cada um que compra pedaços de meu tempo poder-se-ia escrever: “laciate ogni speranza voi che entrate”. Afinal, quem você pensa que inspirou Dante?” e uma nova risada acafajestada afugentou o silêncio da noite. “A minha ampulheta sempre esteve e estará pronta, cheinha até o topo de areia, com um furinho muito fininho para escorrer quando ativada, num tempo que, para o homem, até mesmo parecerá  infinito, apesar de que um dia se extinguirá.”

Alexandrino virou-se para a parede. Não queria ouvir mais nada daquele ser que lhe provocava náuseas. Quando deu por si, teve um novo sonho. Nele retornava ao presídio Tiradentes, via-se na cela coletiva que se localizava acima do lugar onde residiam os “corrós”, presos comuns ainda sem julgamento. Era noite. Olinto Denardi, diretor do presídio estava embaixo, ao lado de um poço de água que desde a época em que o presídio era um depósito de escravos servia ao mesmo propósito: o castigo. No seu sonho, três carcereiros faziam com que um pobre sujeito afundasse a cabeça no poço, provocando-lhe sucessivos afogamentos. O homem gritava muito, o som da própria  tortura voltava aos seus ouvidos. Muitos presos começavam a gritar para que parassem com o martírio, enquanto outros, retraíam-se por medo de reprimendas. No meio dos gritos, soa, então, um mais alto: “Torturadores filhos da puta”!  Seu autor: Chiquinho, nordestino pobre, gari nas ruas de São Paulo, semi-alfabetizado. Para Chiquinho, filho-da-puta era filho-da-puta, não importava  se o torturador agia contra um preso político ou um outro irmão preso comum... Chiquinho com seu modo simples, expressava o que lhe vinha n’alma. Alexandrino despertou e lembrou-se de que Chiquinho estava apenas algumas celas adiante da sua.

Disse para com seus botões: “ Que aquele  enfermeiro vá vender seu tempo em outra freguesia.”

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