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Marcel Proust

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"Contos de Máscaras"

10. Conto nono: Un ballo in maschera

 “Em o Tempo Recuperado”, após aguardar na biblioteca do Palácio de Guermantes que o término de um concerto ocorresse, Marcel penetra no salão de recepções. Ele que estivera tanto tempo afastado da sociedade tinha a impressão de adentrar nos bastidores de um teatro ou num baile à fantasia, com a diferença que no teatro real busca-se  exagerar a dificuldade em reconhecer a pessoa fantasiada. Contrariamente, naquele teatro da vida, ele deveria dissimular ao máximo, sentia que nada possuía de lisongeiro em não reconhecer as pessoas, pois nenhuma transformação fora intencional. E a mesma dificuldade que o Narrador apresentava, os outros também as tinham em relação a ele.

O fato é que todos tinham levado tanto tempo para incorporar a própria máscara que esta em geral passava desapercebida daqueles com quem conviviam. Muitas vezes  lhes concediam uma dilação, mediante a qual podiam continuar a ser eles mesmos até bem mais tarde. Mas então, o disfarce prorrogado se fazia com mais pressa; de qualquer modo, era inevitável.  Como Marcel havia estado  por tantos anos ausente, era se como se as fantasias fossem recém incorporadas a cada personalidade que reencontrava.

Deixe-mo-lo descrever: “Mais que a um simples baile de máscaras, o que eu encontrara, então, estava mais próximo de um teatro de fantoches, onde, para se identificarem as pessoas conhecidas, fazia-se necessário decifrar, a um só tempo, vários planos situados por detrás delas, e que lhes conferiam profundidade, obrigando a um trabalho mental, pois devia-se ver esses velhos fantoches tanto com os olhos como com a memória; um teatro de fantoches banhado pelas cores imateriais dos anos, exteriorizando o Tempo, o Tempo que de hábito é invisível, que para deixar de sê-lo, procura corpos e, onde quer que os encontre, deles se apodera a fim de mostrar, acima deles sua lanterna mágica.”

E sendo através de mudanças permanentes que percebemos que as criaturas, observadas a intervalos demasiado grandes, são tão diversas; e verificamos ter seguido a mesma lei destas criaturas que se transformaram de tal maneira que já não se assemelham ao que foram outrora sem ter deixado de sê-lo, aliás, justamente por não terem deixado de sê-lo.

Algumas pessoas são, entretanto, identificáveis imediatamente, porém como retratos ruins delas mesmas, retratos reunidos numa exposição em que o artista mal intencionado endurece as feições de uns, retira o frescor da tez ou a leveza do talhe da outra, entristecendo seu olhar. Comparando essas imagens às que estavam sob os olhos da memória, gostava-se sempre menos das que eram mostradas por último.

Havia ainda outras pessoas que, mesmo envoltas em rugas e cabelos brancos, mantinham em seus rostos rosados a jovialidade dos dezoito anos. O talhe era esbelto, a aparência do rosto, jovem. Mas quando deles nos aproximávamos distinguiam-se várias manchas em suas peles que repugnavam e as linhas de expressão não resistiam ao aumento causado pelas lentes. Outros ainda, não eram velhos , e sim rapazes de dezoito anos, apenas extremamente murchos.

As mulheres eram casos sempre especiais. As feições em que se gravara, se não a mocidade, ao menos a beleza, tendo esta desaparecido, elas procuravam, com o que lhes sobrara, construir um novo rosto e em torno dessa nova feição fazer florescer uma mocidade nova. Somente as mulheres muito bonitas ou muito feias é que não podiam acomodar-se a tais transformações. As primeiras, esculpidas como um mármore de linhas definidas do qual nada mais se pode mudar, pulverizavam-se como estátuas. As outras, que possuiam certas deformidades no rosto, tinham mesmo certas vantagens sobre as belas. Eram as únicas a serem reconhecidas de pronto, e por sempre terem sido feias ou aparentado determinados defeitos que as diferenciavam dos demais humanos, mantinham-nos e até mesmo pioravam com o tempo: essas nem pareciam ter envelhecido. É que a velhice é algo humano; elas eram monstros e não pareciam mudar mais do que as baleias.

Assim, há mulheres que durante a sua vida, tal qual num conto de fadas, são condenadas a parecer primeiro como uma mocinha de corpo escultural, depois feito uma espessa matrona, que se transforma, a seguir, numa velha trêmula, esquálida e encurvada.

Certos homens do presentes no “baile” coxeavam, e logo se via não se tratar de nenhum acidente, pois como se diz, já possuiam um pé na sepultura. As mulheres, meio paralíticas, pareciam não conseguir retirar totalmente o vestido que ficara preso à lage do túmulo, e, incapazes de se aprumarem, inclinadas como estavam, descreviam uma curva que era a sua posição atual entre a vida e a morte, antes da última queda.

Marcel conclui que  o ser humano pode sofrer metamorfoses como as de certos insetos, mas que elas serão sempre o reverso da borboleta ao libertar-se da crisálida. Pois “a velhice fizera desabrochar novos valores, as feições envelhecidas produziam sensações mais doces, as maldades dos jovens se agudizaram ou se desfizeram naqueles, agora, velhos”.

Pois quando ouvindo falar de um velho célebre, fiamo-nos previamente de sua bondade, sua justiça, sua doçura de alma; pois Marcel sentia que quarenta anos antes, eles haviam sido jovens terríveis cuja vaidade, velhacaria, soberba e astúcia, nada permitia supor que não as houvessem conservado.

O narrador de “Em busca do Tempo Perdido” cita como exemplo o sr. de Argencourt, que até  parecia boa pessoa, mas que a falta de meios físicos era uma forma que o impeia de expressar que ainda era mau por tras de sua perpétua hilariedade compulsiva. Teria sido excessiva a comparação com um ator, e, destituído como estava de toda alma consciente, era um pouco um boneco trepidante com barba postiça de lã branca, que se agitava passeando pelo salão, tal qual num teatro de fantoches, uma advertência à vaidade de todos e de exemplo de história natural.

Por outro lado, em completo contraste, Marcel também teve a surpresa de conversar com homens e mulheres outrora insuportáveis, e que haviam perdido quase todos os seus defeitos, talvez porque a vida, frustando ou realizando seus desejos, lhes extinguira a pretensão ou a amargura; quiças o conhecimento lentamente adquirido de valores outros que aqueles em que acreditavam numa juventude frívola, permitiram-lhes suavizar o caráter, demonstrar suas qualidades. Estes, envelhecendo, pareciam ganhar nova personalidade, como as árvores que o outono, variando-lhe as cores, parece mudar-lhe a essência. Neles, a velhice manifestara-se de fato, mas como algo moral.

Era como o que se denominava outrora um “panorama”, mas um panorama dos anos, a visão não de um momento mas de uma pessoa situada na perspectiva deformante do Tempo.

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