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“O Conto dos Contos”

Capítulo 10 - Conto Décimo Sexto: “A Pomba”.

 Aquele que nasce príncipe não deve agir como mendigo.  O homem que é de alta hierarquia não deve produzir maus exemplos para os que estão abaixo, dado que o burrinho aprende com o grande a comer a palha.  Não é à toa, portanto, que o céu envie tormentas - como aconteceu com um príncipe que atravessou grandes dificuldades por ter maltratado e atormentando uma mulher pobre, estando próximo de até mesmo perder a própria vida.

 

            Cerca de oito quilômetros de Nápoles havia uma profunda mata de figueiras e choupos.  Nela, numa casa meio arruinada morava uma velha, que vivia sobrecarregada pelos anos.  Ela tinha uma centena de rugas no rosto, muitas mais na barriga e a cabeça era coberta pela prata; na vida passara de uma cabana de palha a outra, pedindo esmola para se manter. Como as pessoas hoje em dia dão um de monte de coroas para um espião astuto e nem um centavo para um homem pobre e carente, ela teve que trabalhar duro, dias inteiros para um prato de feijão.

Certo dia, a pobre velha, depois de ter lavado os feijões, colocou-os de molho em uma panela na janela e foi ao bosque recolher gravetos para o fogo. Enquanto ela estava fora, Nardo Aniello, o filho do rei, passou pela casa no caminho da caça e vendo o pote na janela, resolveu brincar; fez uma aposta com seus acompanhantes para ver quem deles atiraria a pedra que romperia o mesmo. E começaram a atirar no inocente vaso, e em três ou quatro lances o príncipe ganhou a aposta.

            A velha voltou logo depois que eles partiram e vendo o desastre, começou a gritar como se estivesse fora de si: "Ai, o malandro vilão que semeou meu feijão fora de época não teve piedade da minha miséria. Rezo para o céu para que ele caia de amores pela filha de algum ogro, o que irá atormentar-lhe a vida. Que sua sogra jogue sobre ele tal maldição que vivo irá se lamentar por não estar morto; ficará ainda fascinado pela beleza da filha e pelas artes da mãe, sem conseguir escapar. Terá bons motivos para lamentar o feijão que esparramou no chão ".

            As maldições da velha bateram asas e voaram para o céu de modo que, não obstante aquilo, que um provérbio diz "a maldição de uma mulher nunca é o pior", ela teve tanta fé que o príncipe quase pulou fora de sua pele. Mal duas horas tinham se passaram quando ele, separando-se de seus acompanhantes, perdeu-se no bosque e lá conheceu uma linda donzela que pegava caracóis, falando e sorrindo: "Caracol, caracol, coloca para fora o seu chifre, sua mãe está rindo por ter um filho pequeno que acaba de nascer ".

             Quando o príncipe viu a bela aparição não sabia o que acontecera; e, como os feixes dos olhos de cristal caíram em cima da mecha de seu coração ele ficou em chamas, de modo que se tornou como um forno em que os tijolos eram queimados para construir as casas das esperanças. Filadoro, assim a donzela era chamada, não era mais sábia que muitas pessoas e o príncipe, um rapaz inteligente com bonitos bigodes também perfurou seu coração por inteiro, de modo que eles ficaram olhando um para o outro com a paixão nos olhos proclamando em voz alta o segredo das almas.

            Depois de terem permanecido por um longo tempo incapazes de pronunciar uma única palavra, o príncipe finalmente encontrou voz e dirigindo-se a Filadoro falou: "De que prado esta flor de beleza surgiu? De que lado este tesouro veio à tona? Oh mata feliz, oh bosque afortunado por esta beleza que aqui habita, pela luz dos festivais de amor que irradia.”

            "Beije esta face, meu senhor", respondeu Filadoro, "não tenho pudor, pois todos os elogios que me fez pertencem às suas virtudes, não aos meus méritos. Sendo como sou, bonita ou feia, gorda ou magra, bruxa ou fada, estou às suas ordens, pois a sua forma viril cativou meu coração, o seu semblante principesco perfurou-me de um lado ao outro e desde já me entrego para sempre como uma escrava algemada."

            Ao ouvir essas palavras, o príncipe prendeu a mão da moça, beijando o gancho de marfim em que tinha preso seu coração.  Ao gesto do príncipe, o rosto de Filadoro ficou vermelho- escarlate. Nardo Aniello queria continuar falando, mas sua língua parecia amarrada. Como nessa vida miserável não há vinho do prazer sem restos no fundo do frasco, foi exatamente nesse momento que a mãe de Filadoro apareceu, e ela era uma ogra tão feia que a Natureza parecia tê-la formatado num molde para horrores. O cabelo era como uma vassoura de azevinho; a testa, uma pedra bruta; os olhos cometas que prediziam todos os tipos de males; a boca tinha dentes como presas - em suma, da cabeça aos pés, era feia além da imaginação.

            Então ela pegou Nardo Aniello pela nuca, dizendo: "Olá! Que temos agora? Um ladrão?" "Que palavras as suas!", respondeu o príncipe, "volte-se para você mesma, velha bruxa!" E ele estava para desembainhar a espada, quando de repente ficou parado como uma ovelha que vê aparecer um lobo e não pode nem se mexer ou emitir um som; de modo que a ogra levou-o como um burro pelo cabresto até sua casa, que era uma torre sem portas.

            Quando lá chegaram, ela lhe disse: "Agora você irá trabalhar como um cão, a menos que deseje morrer como um cachorro. A primeira tarefa do dia será escavar e semear um acre de terra, e lembre-se que, se eu voltar à noite e não encontrar o trabalho terminado irei comê-lo." Então, pondo sua filha para cuidar da casa, ela foi a uma reunião com outros ogros no bosque.

            Nardo Aniello vendo-se num dilema começou a banhar o peito da moça com lágrimas, amaldiçoando o destino que o levara àquele lugar. Mas Filadoro o consolava e dizia-lhe que ficasse de bom humor ou ela não iria arriscar a vida para ajudá-lo. Falou que ele não deveria lamentar o destino que o conduzira até a casa onde ela morava, já que ele a amava tanto, mostrava pouco do seu amor por estar tão desesperado com o que havia acontecido. O príncipe respondeu:

"Eu não estou triste por ter trocado o palácio real por este casebre; esplêndidos banquetes por um pedaço de pão, um cetro por uma pá, em ver quem aterrorizava exércitos agora assustado por um espantalho hediondo; por que eu deveria julgar todos os desastres da minha sorte pela troca de estar consigo e com o seu olhar?  Mas o que me dói o coração é que eu tenho que cavar até que minhas mãos estejam cobertas com pele dura, justamentre meus dedos, que são tão delicados e suaves como a lã. E o que é ainda pior, tenho que fazer mais que dois bois poderiam em um dia.  Se eu não terminar a tarefa essa noite sua mãe vai me comer;  ainda que eu não devesse lamentar muito sair desse corpo miserável, ainda terei que me separar de tão bela criatura. "

            Assim dizendo, ele soltou suspiros e derramou muitas lágrimas. Mas Filadoro, secando-lhe os olhos, disse: "Não tenha medo que a minha mãe não vai tocar em um fio de seus cabelos graças a mim e saiba que possuo poderes mágicos. Sou capaz de fazer um creme da água e de até escurecer o sol. O pedaço de terra será escavado e semeado sem que você mexa a mão."Nardo Aniello respondeu: "Se você tem poderes mágicos como diz, oh beleza do mundo, por que não voa deste lugar? Viveria como uma rainha na casa de meu pai."

            E Filadoro disse: "Certa conjunção dos astros me impede, mas esse problema logo passará e seremos felizes." Com esses e outras mil conersas agradáveis, o dia passou, e quando a ogra voltou, chamou a filha da estrada e disse: "Filadoro, deixe cair o seu cabelo", porque a casa não tinha escada, e ela sempre subia pelas tranças da filha. Assim que Filadoro ouviu a voz da mãe desatou o cabelo e deixou cair suas tranças, fazendo uma escada de ouro para um coração de ferro. A velha, subindo rapidamente, chegou até o terraço. Quando descobriu que tudo estava cavado e semeado, ficou fora de si de espanto, pois parecia impossível que um rapaz delicado tivesse realizado tal trabalho duro.

            Na manhã seguinte, mal o sol saiu para se aquecer por conta do frio que tinha apanhado no rio da Índia, a ogra desceu novamente, dizendo que Nardo Aniello tomasse cuidado porque à noite ela queria encontrar cortada a madeira que estava no porão organizada em seis pilhas, cada uma destas em quatro partes, ou de outra forma iria cortá-lo como bacon e fazer dele uma fritada para jantar. Ao ouvir outra sentença de morte, o pobre príncipe quase morreu de terror. Filadoro, vendo-o meio morto e pálido como as cinzas, disse: " Que covardia ter medo por tão pouco!"

            "Você acha pouco", respondeu Nardo Aniello, "cortar seis pilhas de madeira, cada uma em quatro pedaços, de agora até a noite? Ai, ai, vou acabar enchendo a boca dessa velha horrível." "Não tenha medo", respondeu Filadoro, "pois sem qualquer problema a madeira toda estará cortada a tempo. Mas, enquanto isso se anime se você me ama e não divida meu coração com essas lamentações."

            Quando o sol fechou a loja de seus raios a fim de não vender a luz às sombras, a velha voltou; e pedindo que Filadoro descesse a escada como de costume, ela subiu e encontrou a madeira já dividida e começou a suspeitar que a própria filha a tivesse feito. No terceiro dia, ela disse ao príncipe para limpar uma cisterna que continha mil barris de água, pois queria enchê-la de novo, acrescentando que se a tarefa não fosse concluída até a noite ela iria fazer dele picadinho. Quando a velha foi embora, Nardo Aniello começou outra vez a chorar e chorar; e Filadoro, vendo que os trabalhos aumentavam, e que a velha sobrecarregava o pobre homem com mais e mais tarefas, disse-lhe: "Fique quieto e antes do sol partir vamos dizer tchau para esta casa. Esta noite minha mãe vai encontrar o terraço vazio, e estaremos juntos, vivos ou mortos." 

            O príncipe, ao ouvir a novidade abraçou Filadoro e disse: "Tu és a estrela dessa etapa tempestuosa de minha alma! Tu és o altar das minhas esperanças."Quando a noite se aproximou, Filadoro cavou no jardim um buraco como passagem subterrânea e os dois saíram e tomaram o caminho para Nápoles.

            Quando chegaram à pousada de Pozzuolo, Nardo Aniello disse a Filadoro: "Não posso levá-la ao palácio a pé e vestida dessa maneira. Portanto espere nesta pousada e em breve vou voltar com cavalos, carruagens, servos e roupas."Então, Filadoro ficou para trás e o príncipe seguiu o caminho para a cidade.

            A ogra, voltando para casa, e Filadoro não respondendo à sua habitual convocação, começou a ficar cismada. Correu para dentro do bosque e cortou uma grande e longa vara, colocou-a contra a janela e escalou a torre como um gato.  Em seguida, caçou por todos os lados, por dentro e por fora, alto e baixo, não encontrando ninguém. Por fim, ela viu o buraco e vendo que ele levava para a liberdade, com raiva arrancou os fios de cabelo da cabeça, xingou a filha e o príncipe, e rogou uma praga: que ao primeiro beijo dado por alguém no amante de Filadoro, ele esqueceria tudo da vida passada.

            Mas deixemos a velha com suas maldições perversas e voltemos para o príncipe, que ao chegar ao palácio, onde se pensava que estivesse morto colocou toda a casa em alvoroço, cada um correndo para encontrá-lo e chorar. "Bem vindo! Bem vindo! Aqui está ele, são e salvo, o quanto estamos felizes em vê-lo de volta a esse lugar", assim como milhares de outras palavras de carinho. Subindo as escadas sua mãe o encontrou e abraçou-o e beijou-o, dizendo: "Meu filho, minha jóia, menina dos meus olhos, onde você esteve e por que se afastou tanto tempo fazendo que todos nós morrêssemos de ansiedade?" O príncipe não sabia o que responder, pois ele não queria falar sobre seus infortúnios, mas assim que sua mãe o beijou, devido à maldição da ogra, tudo o que tinha se passado apagou-se de sua memória. A rainha pediu ao filho para colocar um fim à caçada e parar de perder tempo na floresta, desejando que se casasse. Respondeu o príncipe: "Estou pronto e preparado para fazer o que deseja."

            Foi então combinado que dentro de quatro dias, uma noiva que tinha acabado de chegar do país de Flandres, seria levada até o palácio e, logo após, ocorreriam festas e banquetes.

            Enquanto isso, Filadoro vendo que o namorado estava tanto tempo longe e escutando falar (não sei como) das festas, esperou quando à noite o servidor da pousada fosse para a cama e roubando-lhe as roupas deixou o lugar. Disfarçada de homem foi para a corte do rei, onde os cozinheiros, na correria para as festas, tomaram-na por ajudante de cozinha. 

            Quando os convidados para as festas tomaram seus assentos, os pratos servidos à mesa, e o cozinheiro cortava uma grande torta inglesa que Filadoro tinha feito com as próprias mãos, eis que de fora chegou voando uma linda pomba.

            Os convidados com espanto, esquecendo-se até de comer, pararam para admirar o pássaro, o qual disse ao príncipe em voz comovente: "Já tão cedo esqueceu o amor de Filadoro e todos os serviços que dela recebeu homem ingrato? É assim que paga os benefícios que lhe fez: ela que o tirou das garras da ogra e lhe deu a vida, assim como a dela mesma? Ai da mulher que confia demais nas palavras de um homem; com o que ele retribui? Bondade com ingratidão, paga as dívidas com esquecimento. Mas vá, esqueça suas promessas, falso. Que maldições irão segui-lo é o que a donzela infeliz deseja do fundo do coração. E se os deuses não trancaram seus ouvidos, irão testemunhar o mal que você fez à moça, e quando menos esperar, virão até você relâmpagos e trovões, febre e doença. Agora comam e bebam pela infeliz Filadoro, enganada e abandonada, que vai deixar o campo livre para que o príncipe seja feliz com sua nova esposa."

            Assim dizendo, a pomba voou e desapareceu como o vento.  O príncipe, ouvindo a fala da pomba ficou por um tempo estupefato. Por fim, ele perguntou de onde tinha vindo a torta, e quando o servidor disse-lhe que um menino ajudante de cozinha a tinha feito, ele ordenou que fosse levado para o seu quarto. Então Filadoro, atirando-se aos pés de Nardo Aniello, derramando uma torrente de lágrimas, disse apenas: "O que eu fiz para você?" O príncipe, então, lembrou-se do compromisso que tinha assumido para com ela e levantando-a, sentou-a a seu lado, e foi contar à mãe a obrigação que assumira com a bela donzela e tudo o que ela tinha feito por ele, e como era necessário que a promessa fosse cumprida.

            Sua mãe, que não tinha outra alegria na vida além de seu filho, disse-lhe: "Faça o que quiser, mas não pode ofender essa senhora que eu acabo de dar-lhe como mulher." "Não se preocupe", disse a noiva, que escutara a tudo, "pois, para dizer a verdade, estou muito relutante em permanecer nesse país. Com sua permissão gostaria de voltar para os meus queridos flanders".

            Então o príncipe, com grande alegria ofereceu-lhe um belo vaso e servos; ordenou também que Filadoro fosse vestida como uma princesa. Os músicos vieram e começaram a dança que durou até a noite. Assim que a festa terminou todos foram descansar e o príncipe e Filadoro viveram felizes para sempre, provando a verdade do provérbio que diz:

 "Aquele que tropeça e não cai, é ajudado em seu caminhar, como uma bola que rola e não para."

 

Comentários

Basile conviveu ao lado dos camponeses em seu recanto napolitano, ouviu as histórias contadas pelas mães e pelas “nonas” aos seus filhos e netos, assim como exerceu tarefas administrativas e políticas. Por isso vivenciava no dia a dia os maus exemplos que as classes superiores eram capazes de produzir e de que forma os camponeses, os pobres, eram por eles influenciados em sua conduta.

Essa história mescla a irresponsabilidade e a falta de respeito de um “filho do rei” para com uma pobre mulher e o castigo que a vida lhe prepara. Ele é salvo pela “mulher selvagem” que habita o coração de Filadoro. Filadoro é aquela que se delicia ao gozar a vida no momento em que a mesma acontece, e que com toda a alegria se entrega totalmente ao amor.

Assim como em tantas outras fábulas a falta de propensão e habilidade dos ricos para com o necessário trabalho manual é ressaltada (por exemplo, o medo do príncipe de calejar os seus dedos, delicados como a lã). Príncipe que além da arrogância demonstra sempre a covardia.  Quando retorna ao palácio a presença da mãe e o conforto da corte fazem com que se esqueça de todas as promessas feitas à pobre Filadoro.

Ao final, ele é forçado a recordar-se dos favores recebidos graças às maldições anunciadas pela pomba, o alter-ego de Filadoro, que o havia salvado da selvageria que o aniquilaria. E a solução harmoniosa é encontrada.

Conto Décimo Sétimo: “Cannetella”.

O homem que deseja o que os outros jogam fora, deve se contentar com a honestidade e não desprezar o pão de trigo. Aquele que perde tudo e anda sobre as copas das árvores tem tanta loucura na cabeça quanto o perigo a seus pés; tal foi o caso que aconteceu à filha de um rei, cuja história eu tenho agora para contar.

 

            Houve o tempo em que o rei da Montanha Alta que ansiava por filhos; sua esposa, após anos, o presenteou com uma menina, a quem deu o nome Cannetella. A criança cresceu, e quando estava tão alta quanto um poste, o rei disse: "Minha filha, você cresceu tanto quanto um carvalho, e é tempo de lhe dar um marido digno de sua cara. Uma vez que eu a amo como minha própria vida e desejo de agradá-la, diga-me que tipo de marido você gostaria, que tipo de homem satisfaria seu desejo. Será que você quer um estudioso ou um burro? Um menino ou um homem passado em anos? Marrom, branco ou avermelhado? Da altura de um mastro ou curto como um gancho de parede? Pequeno na cintura ou redondo como um boi? Aquele que você escolher me satisfará".

            Cannetella agradeceu a seu pai pelas ofertas generosas, mas disse-lhe que ela não pensava em ter um marido. No entanto, sendo chamada pelo rei de novo e de novo, ela disse: "Não querendo mostrar ingratidão por tanto amor, estou disposta a cumprir o seu desejo desde que eu tenha um marido sem similar no mundo." Seu pai, encantado, assumiu um posto na janela de manhã à noite, olhando para fora, medindo e examinando todos os que passavam pela rua.  E um dia, vendo um homem de boa aparência passar, gritou o rei: "Corra Cannetella! Veja se o homem está na medida de seus desejos."

            Ela queria conhecê-lo melhor e eles fizeram um banquete esplêndido para recepcioná-lo. E quando estavam festejando, uma amêndoa caiu da boca do jovem e ele abaixou-se e pegou-a com destreza do chão, colocando-a debaixo da toalha. Quando acabaram de comer foi-se embora. Então disse o rei a Cannetella: "Bem, minha vida, esse jovem a agrada?"  Disse ela: "Um homem tão alto e tão grande, nunca deveria ter deixado cair uma amêndoa da boca."

            O rei, então, voltou a seu lugar na janela e depois, ao ver outro jovem passar, chamou a filha para saber se esse a agradava. Cannetella desejou conhecê-lo e por isso ele foi chamado, e outro entretenimento feito.  Quando tinham acabado de comer e o homem havia partido, o rei perguntou à filha se lhe tinha agradado, ao que ela respondeu: "O que vou fazer com um sujeito tão miserável que não traz ao menos um par de servos consigo para tirar-lhe a capa? "

            Disse o rei: "É evidente que essas não passam de desculpas e você está apenas à procura de pretextos para recusar-me um prazer. Então se resolva, pois estou determinado a tê-la casada." A essas palavras iradas, Cannetella respondeu: "Para dizer a verdade, querido pai, eu realmente sinto que você está cavando no mar e faz um acerto de contas errado em seus dedos. Eu nunca vou me sujeitar a qualquer homem que não tenha uma cabeça e os dentes de ouro."

            O pobre rei virou-se e emitiu uma proclamação oferecendo a qualquer um em seu reino, que correspondesse aos desejos de Cannetella, a filha e o reino. Ora, esse rei tinha um inimigo mortal chamado Fioravante, a quem não podia suportar ver nem pintado numa parede. Ele, quando soube da proclamação e por ser um mago astuto, chamou uma ninhada do mal e ordenou-lhes que lhe fizessem a cabeça e os dentes de ouro.  Então, eles atuaram como ele desejava, e quando ele viu a si mesmo com uma cabeça e os dentes de ouro puro passou por debaixo da janela do Rei, que, vendo exatamente o homem que estava procurava chamou a filha. Assim que Cannetella pôs-lhe os olhos em cima gritou: "Ai, é ele! Não poderia ser melhor mesmo se o tivesse amassado com minhas próprias mãos."

            Quando Fioravante, após o banquete, já se levantava para ir embora, o rei disse: "Espere um pouco irmão, por que tanta pressa? Eu lhe darei a minha filha e bagagem com servos para acompanhá-lo, pois quero que ela seja sua esposa." "Eu lhe agradeço", disse Fioravante, "mas não há necessidade, um único cavalo é o suficiente desde que carregue o dobro de peso, pois em casa eu tenho servos e bens tanto quanto as areias da praia do mar." Então, depois de discutirem um pouco, Fioravante prevaleceu e colocando Cannetella atrás dele em um cavalo, partiu.

            À noite, quando os cavalos vermelhos são expulsos do céu e os bois brancos unem-se em seu lugar, eles chegaram a um estábulo, onde outros cavalos se alimentavam. Fioravante falou a Cannetella: "Ouça! Tenho que fazer uma viagem para a minha casa e levarei sete anos para chegar. Portanto espere por mim neste estábulo, não saia e nem se deixe ser vista por qualquer pessoa viva, ou então vou fazer você se lembrar disso enquanto viver." Cannetella respondeu: "Tu és meu senhor e mestre, e vou cumprir tuas ordens, mas me digas o que vais me deixar para viver nesse tempo." E Fioravante respondeu: "O que os cavalos deixarem de seu próprio milho será o suficiente".

            Só pensar em como a pobre Cannetella se sentia, acho que ela só não amaldiçoou a hora e o momento em que nasceu!  Fria e congelada, fez-se em lágrimas; chorava por comida, lamentava o destino que a tinha trazido tão baixo, desde um palácio real até um estábulo, dos colchões de lã para a palha, de pedaços delicados de quitutes para as sobras de cavalos. E ela levou essa vida miserável por vários meses, durante os quais o milho era dado aos cavalos por uma mão invisível.

            Entretanto, um dia ela olhou através de um buraco na parede e viu um jardim bonito onde havia limões, pés de cidra, canteiros de flores, árvores frutíferas e treliças da vinha, uma alegria para os olhos. Teve grande vontade de comer um cacho de uvas que lhe chamou a atenção, e disse para si mesma: "Venha o que vier, saio silenciosa e sumo. O que isso irá importar daqui a cem anos? Quem irá dizer ao meu marido? E se ele por acaso souber, o que irá fazer comigo? Além disso, essas uvas não são do tipo comum." Assim dizendo ela saiu e fortaleceu o espírito enfraquecido pela fome. Um pouco depois, bem antes da data combinada, o marido voltou, e um de seus cavalos acusou Cannetella de ter pegado as uvas. Fioravante com raiva puxou a faca e estava prestes a matá-la, quando a moça caiu de joelhos e rogou-lhe para parar a mão, já que a fome leva o lobo ao alçapão. E ela implorou tanto que Fioravante respondeu: "Eu a perdôo desta vez, e concedo-lhe a vida por caridade, mas nunca mais tente desobedecer-me, e se eu souber que deixará o sol ver sua cara vai virar picadinho. Estou partindo e, mais uma vez, serão sete anos. Portanto, tome cuidado e permaneça na linha reta, pois não escapará de novo tão facilmente ".

            Assim dizendo partiu e Cannetella derramou um rio de lágrimas; torcendo as mãos, batendo no peito e arrancando os cabelos, exclamou: "Oh, nasci para ser destinada a esse destino miserável? Ah, pai, por que você me arruinou? Mas por que me queixar de meu pai, quando eu trouxe este mal sobre mim mesmo? Só eu sou a causa da minha própria desgraça. Desejei uma cabeça de ouro e vim a morrer pelo ferro! Este é o castigo do destino, porque eu deveria ter feito a vontade de meu pai e não ter tais caprichos e fantasias. Aquele que mente para o pai e para a mãe pode acabar em um caminho desconhecido".  E assim ela lamentou cada dia, até que seus olhos se tornaram duas fontes, e seu rosto ficou tão magro e pálido, que seu próprio pai não a teria reconhecido.

            Pelo final de ano o serralheiro do rei, a quem Cannetella conhecia, passou pelo estábulo e ela o chamou. O ferreiro ouviu seu nome, mas não reconheceu a pobre moça; mas quando soube quem ela era, e como estava mudada, em parte por piedade e em parte para ganhar o favor do rei, ele a colocou em um tonel vazio que tinha com ele em um cavalo de carga e, trotando em direção à Montanha Alta, chegou à meia-noite ao palácio real. Bateu à porta do palácio e, a princípio, os servos não queriam deixá-lo entrar, por vir a esta hora perturbar o sono de toda a casa. O rei, no entanto, ao ouvir o barulho e sendo dito por um camareiro qual era o problema, ordenou que o ferreiro fosse imediatamente admitido. Em seguida, este descarregou a besta e botou para fora o barril. Então, a cabeça de Cannetella surgiu. Ela precisou mais que palavras para fazer seu pai reconhecê-la, e se não fosse por uma marca de nascença no braço, isto poderia muito bem não ter ocorrido.

            Mas assim que se assegurou da verdade, ele a abraçou e beijou mil vezes. Em seguida, ordenou que lhe preparassem um banho quente; depois que foi lavada da cabeça aos pés e vestida, mandou que comida para fosse trazida. Então, o pai lhe disse: "Quem poderia me dizer minha filha, que eu a veria nesta situação? Quem a trouxe a uma condição tão triste?" E ela respondeu: "Ah, meu caro senhor, um turco bárbaro me fez levar a vida de um cão, de modo que eu estava quase às portas da morte de novo e de novo. Não posso te dizer o que eu sofri, mas agora que estou aqui nunca mais eu irei contrariá-lo. Ao contrário, serei uma serva em sua casa mais que qualquer outra rainha."

            Enquanto isso Fioravante, voltando para casa, soube pelos cavalos que o serralheiro havia levado Cannetella no barril, e ardendo de vergonha, jogando tudo no fogo com raiva, correu em direção à Montanha Alta, e ao encontrar uma velha mulher que morava em frente ao palácio, disse-lhe: "O que você cobra, boa mãe, para me deixar ver a filha do rei?" Ela pediu cem ducados e Fioravante pondo a mão na bolsa, contou-os um em cima do outro.  A velha levou-o ao telhado de onde Cannetella era vista secando o cabelo em uma varanda. Mas, como se seu coração lhe tivesse sussurrado, a moça virou e viu Fioravante assim, de repente. Ela correu escada abaixo gritando para o pai: "Meu senhor, se não me fizer uma câmara com sete portas de ferro eu estou perdida e arruinada!”

            "Não irei te perder por tão pouco", disse o pai; "gostaria de arrancar um olho para satisfazer uma filha tão querida!" Então, dito e feito, as portas foram serradas e soldadas nos batentes. Quando Fioravante soube, voltou à velha e disse: "O que devo dar-lhe agora? Vá até a casa do rei sob o pretexto de vender potes de cosméticos e faça-se chegar até a câmara da filha do rei. Quando você lá estiver ponha esse pequeno pedaço de papel entre as roupas da cama, dizendo em voz baixa: “Que todos durmam profundamente, mas Cannetella acordada deverá ficar."

            Então, tendo a velha pegado mais cem serviu-o fielmente. Como efeito do truque, um sono profundo caiu sobre as pessoas da casa, e eles pareciam mortos. Cannetella permaneceu acordada sozinha e quando ouviu as portas se abrindo, começou a chorar em voz alta, como se estivesse queimando, mas ninguém a ouviu, e não havia viva alma que corresse em seu auxílio. Fioravante abriu todas as sete portas, e, entrando no quarto pegou Cannetella com a roupa de cama e tudo para levá-la.  Mas não teve sorte, quando o papel que a velha tinha colocado nas roupas caiu ao chão, o feitiço foi quebrado.         Todas as pessoas da casa acordaram e ao ouvirem os gritos de Cannetella correram gatos, cães, e tudo, que alcançando o bruxo, o fizeram em pedaços como um atum em conserva. Assim ele foi pego na armadilha que tinha preparado para a pobre Cannetella, aprendendo a custo próprio que:

"Ninguém sofre maior dor aquele que pela própria espada é morto. "

 

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O rei da Montanha Alta, pese não ter gerado filhos com sua esposa, termina exitoso quando nasce uma filha.

Canetella jamais é descoberta por sua beleza e seus dotes parecem ser a altura (“alta como uma vara”) e pelo fato de ser filha do rei. Ela, por seu lado, não gostava de homens, o que fazia com que sempre desejasse o impossível, e para não irritar o pai concordou em casar-se com alguém com cabeça de ouro e não de carnes, ossos e sangue.

Por seu lado, Fioravante, o bruxo, tão pouco amava as mulheres e se aceitou Canetella foi exclusivamente para vingar-se de seu pai, por quem era odiado. Tanto que ele não a toca, obrigando-a a conviver com seus cavalos encantados.

Quando Canetella consegue, por fim, escapar da armadilha em que caíra, chega o arrependimento por se negar a aceitar um homem em seu leito, e ela é salva e o feiticeiro come do seu próprio veneno.

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