“O Conto dos Contos”

Capítulo 11 - Conto Décimo Oitavo: “Corvetto”.

Certa vez ouvi dizer que Juno foi até Cândia, capital de Creta, para encontrar-se com a Falsidade.  Mas, se alguém me perguntasse onde a Fraude e a Hipocrisia podem mais facilmente serem encontradas, diria que em nenhum outro lugar além das Cortes, onde a detração sempre usa a máscara da piada; onde ao mesmo tempo as pessoas cortam e costuram, ferem e curam, quebram e colam e do que vou dar um exemplo na história que vou lhes contar.

 

            Era uma vez, um excelente jovem chamado Corvetto que estava a serviço do rei de Rio Largo.  Por conta de sua boa conduta era amado por seu mestre e pela mesma virtude era odiado por todos os cortesãos. Estes viviam cheios de rancor, maldade e inveja pela bondade que o rei demonstrava para com Corvetto. Todos os dias, por todos os cantos do palácio, os cortesãos não faziam nada além de bisbilhotar e sussurrar, murmurar e resmungar sobre o pobre rapaz, dizendo: "Que magia este sujeito colocou no rei? Como ele tem a sorte de não passar um dia sem receber algum novo favor, enquanto nós estamos sempre indo para trás, como um fazedor de corda, e ficando de mal a pior, tais quais escravos, cães, trabalhando como camponeses, e correndo como veados pelo prazer do rei?  Realmente é preciso nascer com boa sorte neste mundo, e quem não tiver sorte pode muito bem ser jogado ao mar. O que pode ser feito? Só nos resta olhar e invejar?" Essas e outras palavras caíam das bocas como flechas envenenadas que visavam à ruína de Corvetto.

            Ai de quem esteja condenado pelo covil da corte, onde a bajulação é vendida aos montes, a malignidade e os maus ofícios são medidos em acres, o engano e a traição são pesados por tonelada! Mas quem poderia enumerar todas as tentativas que esses cortesãos fizeram para provocar dor, ou as coisas falsas que eles disseram ao rei para destruir a reputação do preferido?

            Corvetto, que estava encantado, percebia as armadilhas e descobria os truques, estando ciente de todas as intrigas e emboscadas, tramas e conspirações de seus inimigos. Mantendo os ouvidos sempre alerta e seus olhos bem abertos para não dar um passo em falso, sabia que a fortuna dos cortesãos é frágil como o vidro. Quanto mais o rapaz subia, mais baixos os outros caíam; até que, finalmente, como as calúnias não colavam, os cortesãos pensaram em levá-lo à perdição pelo caminho da lisonja, o que engendraram pelo modo que segue.

            Dez milhas distantes da Escócia, onde era a sede desse reino, habitava um ogro; uma selvagem e desumana criatura, que perseguido pelo Rei, tinha-se estabelecido em uma fortaleza solitária no topo da uma montanha, onde nenhum pássaro voou e por lá a mata era tão espessa e emaranhada que nunca se podia ver o sol. Este ogro tinha um belo cavalo que entre outras coisas maravilhosas podia falar como qualquer homem o faz. Os cortesãos, que sabiam o quão ímpio era o ogro, a espessura da muralha da fortaleza, a elevação da montanha, e como era difícil chegar até seu cavalo, foram até o rei, e contando-lhe minuciosamente sobre as perfeições do animal, coisa digna de um rei, acrescentaram que ele deveria esforçar-se por todos os meios para tirá-lo de garras do ogro, e que somente Corvetto seria capaz de fazê-lo, pois era experiente e inteligente para escapar do fogo inimigo. 

            Pois muito bem. O rei não sabia que sob as flores dessas palavras falava uma serpente escondida e de imediato chamou Corvetto, e disse: "Se você me ama, veja se de uma forma ou de outra consegue o cavalo de meu inimigo, o ogro, e não terá motivo para se arrepender por ter me feito este serviço " Corvetto sabia muito bem que o tambor soara por aqueles que lhe desejavam mal; no entanto, para obedecer ao rei, ele partiu pegando a estrada para a montanha. Então, indo até o lugar do ogro, selou e montou o tal cavalo e fixando os pés firmemente no estribo tomou o caminho de volta.  Mas assim que o cavalo se viu levado para fora da fortaleza, clamou em alta voz: "Ei! Em guarda! Corvetto está me levando embora!"

            Com o alerta o ogro voltou de onde estava junto com os animais que o serviam, para fazer Corvetto em pedaços. De um lado pulou um macaco, de outro foi visto um grande urso, aqui brotou um leão, depois, um lobo. Mas o jovem, com a ajuda do freio e da espora, distanciou-se da montanha, e galopando sem parar até a cidade chegou à Corte, onde entregou o cavalo ao rei. O rei abraçou-o mais que a um filho e puxando da bolsa encheu-lhe as mãos com coroas.  A fúria dos cortesãos não tinha limites; se no início eles estavam inchados com um pouco de gás, agora estavam estourando como as explosões do fole de um ferreiro, vendo que os pés de cabra que eles puseram para arrancar a boa fortuna de Corvetto, na verdade só serviam para suavizar seu caminho para a prosperidade. 

            Sabendo, no entanto, que as paredes não são destruídas ao primeiro ataque do aríete, eles resolveram tentar a sorte uma segunda vez, e disseram ao rei: "Desejamos alegria pelo belo cavalo! Na verdade, será um ornamento para o estábulo real. Mas que pena que o rei não tenha a tapeçaria do ogro, que é a coisa mais bonita que as palavras podem expressar; ela espalharia a fama de sua majestade por toda a parte! Não há ninguém, no entanto, capaz de conseguir esse tesouro, exceto Corvetto." O rei, que dançava conforme a cada música, chamou Corvetto e pediu-lhe para conseguir a tapeçaria do ogro. Lá se foi Corvetto, e logo chegava ao topo da montanha, onde o ogro vivia; em seguida, passando despercebido pela câmara onde aquele dormia, escondeu-se debaixo da cama, esperando imóvel como um rato até a noite que faz as estrelas rirem colocando uma máscara carnavalesca no céu. 

            Assim que o ogro e sua esposa foram para a cama, Corvetto despojou as paredes da câmara calmamente, e como desejava também roubar a colcha da cama do casal, começou a puxá-la suavemente.  Então, o ogro de repente virou-se e falou para a sua esposa para que não puxasse tudo para o seu lado ou ele morria de frio. "Você é que está a me descobrir!"  respondeu a ogra.

            "Onde está a colcha?" respondeu o ogro; e estendendo a mão para o chão tocou o rosto de Corvetto e deu um grande grito. "O que é isso aqui? Acenda as velas imediatamente!" Toda a casa foi posta às avessas com o barulho. Corvetto, depois de jogar as roupas fora pela janela, deixou-se cair em cima delas. Fez um belo pacote e fugiu para a cidade, onde se reuniu ao rei; o vexame e o rancor a que chegaram os cortesãos não podem ser aqui narrados.

            Mas não desistiram e prepararam um plano ainda mais malandro para pegarem Corvetto pela retaguarda. Foram novamente ao rei e o encontraram quase fora de si de alegria com a tapeçaria - que não era apenas de seda bordada com ouro, mas tinha mais de mil dispositivos de beleza e encanto, e se bem me lembro, até um galo no ato de cantar pela madrugada. E em outra parte havia heliotrópios caídos, enfim, eram tantas as coisas maravilhosas que exigiriam uma memória melhor e mais tempo do que eu tenho para contá-las.  Quando os cortesãos chegaram, disseram: "Como Corvetto fez tanto para atendê-lo, não seria nenhum grande problema para ele dar-lhe um prazer ainda maior, conseguindo para o senhor a fortaleza do ogro, que está mais que preparada para um imperador viver; pois tem tantas salas e câmaras, por dentro e por fora que pode conter até um exército. E ninguém acreditaria na quantidade de pátios, pórticos, colunas, varandas, e chaminés em espiral que lá estão - construídos com uma arquitetura maravilhosa que, se por um lado a Arte deles se orgulha, a Natureza se envergonha".

            O Rei chamou Corvetto outra vez e falou-lhe sobre o grande desejo que tinha de possuir a fortaleza do ogro e pediu-lhe para adicionar esse serviço a todos os outros que ele já lhe tinha feito, prometendo uma nota assinada com o giz de gratidão na taverna de memória.        Corvetto partiu e chegando ao palácio do ogro descobriu que a ogra, enquanto seu marido saíra para convidar alguns parentes, estava ocupando-se com a preparação de uma festa. Corvetto entrou na fortaleza com olhar de compaixão e disse: "Bom dia, minha boa mulher! Você é uma dona de casa verdadeiramente corajosa! Mas por que atormentar a própria vida dessa maneira? Ainda ontem você estava doente de cama e agora trabalha como escrava. Não tem piedade da sua própria carne?"

            "O que você quer que eu faça?" respondeu-lhe a ogra.  "Eu não tenho ninguém para me ajudar.""Eu estou aqui", respondeu Corvetto, "pronto para ajudá-la, com unhas e dentes."

            "Bem vindo, então!"  disse a ogra; "e já que você me oferece tanta bondade, ajude-me a cortar quatro troncos de madeira." "Com todo o meu coração", falou Corvetto. E, tomando um machado recém-afiado, em vez de bater na madeira, golpeou a ogra no pescoço, o que a fez cair ao chão como uma pêra. Em seguida, cavou um buraco profundo antes da entrada e cobriu-o com arbustos e terra, escondendo-se, então, atrás da porta. Assim que Corvetto viu o ogro chegando com seus parentes, ele gritou no pátio: "Pare, pare! Viva o rei de Rio Largo!"

            Quando o ogro ouviu o desafio, veio como um louco contra Corvetto para fazê-lo em bifes. E correndo aloucado em direção ao portão, caiu com todos os seus companheiros de ponta-cabeça no fundo do buraco que Corvetto preparara, e ele os apedrejou até a morte. Fechou a porta da fortaleza, pegou as chaves e deu-as ao rei, que vendo a bravura e a inteligência do rapaz, apesar da inveja e da irritação dos cortesãos, deu-lhe por mulher sua filha; de modo que as cruzes da inveja colocaram a vida de Corvetto no mar da grandeza e seus inimigos permaneceram atônitos e cheios de raiva, pois:

 "O castigo dos maus feitos passados, embora tardem, por fim chegam. "

 

Comentários

Corvetto, aquele capaz de realizar toda e qualquer acrobacia, é o personagem da fábula que aponta uma crítica contundente ao comportamento das Cortes da época em que viveu Giambatista Basile, como os locais de residência da Fraude e da Hipocrisia. Mas o rei e o príncipe são responsáveis pelo comportamento dos cortesões, dado que da falsidade dos mesmos tiram sempre proveitos.

Corvetto não titubeia em se apossar em nome do rei de tudo o que pertencia aos seres “selvagens”, que viviam em contato íntimo com a Natureza, nada fazendo a não ser angariar a inveja que pelos seus bens possuía o rei. Chega até mesmo a tirar-lhes a vida, graças às recompensas prometidas. Afinal, Corvetto também era parcela da mesma Corte, não?

Conto Décimo Nono: “O Simplório”.

Um ignorante que se junte a pessoas inteligentes sempre é mais elogiado que um homem prudente que mantenha relações com tolos. Se o lucro e a fama podem ser ganhos ao lado de certas pessoas, a riqueza e a honra podem ser perdidas graças aos tolos. E como a prova da qualidade do pudim está em comê-lo, vocês saberão através dessa história se a minha ideia é verdadeira.

 

            Era uma vez um homem tão rico quanto o mar em água, mas como não pode haver felicidade perfeita no mundo, ele tinha um filho tão ocioso e bom para nada que não distinguia o feijão de um pepino. Assim, sendo incapaz conviver com tal estultice, o homem deu-lhe um bom punhado de coroas e enviou-o para o comércio no Levante, pois bem sabia que conhecer vários países e misturar-se com diferentes pessoas pode despertar o gênio e aguçar o raciocínio.

            Moscione, assim se chamava, pegou um cavalo, e começou sua jornada em direção a Veneza, o arsenal das maravilhas do mundo, para embarcar a bordo de algum navio com destino ao Cairo. Lá chegando encontrou uma pessoa que estava ao pé de um álamo, a quem perguntou: "Qual o seu nome, meu rapaz? De onde você é, e qual o seu negócio?"  O rapaz respondeu: "Meu nome é Relâmpago, sou do Campo da Flecha, e posso correr como o vento." 

            "Eu gostaria de ver uma prova disso", disse Moscione e o rapaz respondeu: "Espere um momento, e você vai ver se é pó ou farinha." Enquanto esperavam, uma corça veio pulando sobre a planície e Relâmpago deixando-a passar para dar-lhe alguma distância, correu atrás tão rápido que se o lugar fosse coberto com farinha nem deixaria a marca do sapato, e em quatro tempos trouxe a corça de volta. Moscione, espantado com tal façanha, perguntou-lhe se ele viria trabalhar com ele, prometendo pagar-lhe regiamente. Relâmpago concordou e eles seguiram o caminho juntos.

            Não tinham viajado muitos quilômetros quando conheceram outro jovem, a quem Moscione disse: "Qual o seu nome, camarada? De onde você é? E qual é o seu negócio?" "Meu nome", respondeu o rapaz, "é Ouvido Longo, sou do Vale Curioso, e quando coloco minha orelha no chão ouço tudo o que está passando no mundo; sem me mexer do lugar percebo os acordos dos comerciantes para elevar os preços das mercadorias, os maus ofícios dos cortesãos, as nomeações das amantes, as divisões entre os salteadores, os relatórios dos espiões, as queixas dos funcionários, a fofoca das velhas e os juramentos de marinheiros, de modo que ninguém jamais foi capaz de descobrir tanto quanto minhas orelhas."

            "Se isso é verdade", disse Moscione, "diga-me o que estão dizendo agora em minha casa."Então, o rapaz colocou o ouvido no chão e respondeu: "Um velho está falando com sua mulher: Louvado seja sol em leão! Livrei-me da visão daquele Moscione, aquela cara de louça antiquada, um peso em meu coração. Ao viajar pelo mundo ele irá, pelo menos, tornar-se um homem, e não será mais tão estúpido, um simplório; aqui tal homem se perderia como a... '"

            "Pare, pare!" gritou Moscione, "você fala a verdade e eu acredito. Venha comigo, pois acabou de  encontrar o caminho da boa sorte.""Muito bem!" concordou o jovem.  Então todos eles foram juntos e viajaram mais dez milhas, quando encontraram outro homem, a quem Moscione disse: "Qual o seu nome, meu companheiro corajoso? Onde você nasceu? E o que você faz no mundo?" 

            E o homem respondeu: "Meu nome é Tiro Certo, eu sou do Castelo do Bom Braço, e posso atirar com uma besta à queima-roupa e também cortar um caranguejo ao meio." "Gostaria de ver a prova", disse Moscione. 

            Então o rapaz pegou sua besta, mirou e acertou numa ervilha posta no topo de uma pedra e Moscione também o levou com os outros em sua companhia. E eles viajaram até que chegaram a algumas pessoas que estavam construindo um grande embarcadouro, no calor escaldante do sol. Então Moscione teve compaixão por elas, e disse: "Meus senhores, o que é que vocês têm na cabeça em ficar nesse forno que dá até para assar um búfalo?"

            E um deles respondeu: "Oh, nós estamos tão frescos como uma rosa, pois temos um rapaz aqui que sopra sobre nós de tal modo que parece como se o vento estivesse soprando a oeste." "Deixe-me vê-lo, eu imploro” pediu Moscione. O pedreiro chamou-o e Moscione disse: “Diga-me, qual seu nome? De onde você é? Qual é a sua profissão? "

            E o menino respondeu: "Meu nome é Explosão! Eu sou de Terra Selvagem e posso fazer todos os ventos com minha boca. Se você quiser um zéfiro vou soprar um que irá transportá-lo; se desejar uma tempestade, vou derrubar casas. "   "Ver para crer", disse Moscione.

            Ao que Explosão soprou primeiro muito suavemente, de modo que parecia o vento que alisa o Posillipo à noite; em seguida enviou uma explosão tão furiosa que desenraizou uma fileira de carvalhos. Moscione levou-o junto também. Viajando ainda conheceu outro rapaz, a quem disse: "Qual o seu nome, se me permite a ousadia? De onde você é se posso perguntar? E qual é o seu negócio, se é uma justa pergunta? "

            E o rapaz respondeu: "Meu nome é Costas Fortes , eu sou de Valentino, e tenho tanta força que posso carregar uma montanha nas costas como se fosse  apenas uma pena."      "Se for esse o caso", respondeu Moscione, “você deve ser escolhido como porta-estandarte no dia Primeiro de Maio. Mas eu gostaria de ver uma prova de que fala."

            Então Costas Fortes começou a carregar-se com pedaços de rocha, troncos de árvores, e tantos outros pesos que mil grandes carroças não poderiam fazê-lo. Vendo isso, Moscione chamou o rapaz para acompanhá-lo. Então, eles viajaram até chegarem a Flor Tranquila, onde o rei tinha uma filha que corria como o vento, podendo passar por cima do milho crescido sem dobrar a espiga. O rei fizera uma proclamação de que aquele conseguisse ultrapassá-la poderia tê-la por esposa, mas quem fosse deixado para trás por ela na corrida perderia a cabeça.

            Quando Moscione ouviu o anúncio foi direto até o rei e se ofereceu para correr com a filha, fazendo o acordo de ganhar ou deixar por lá a cachola.  Pela manhã, entretanto, ele pediu que informassem o rei de que estava doente e seria incapaz de executar por si mesmo o desafio, mas iria enviar em seu lugar outro jovem.

            "Venha então!" disse Ciannetella, a filha do Rei. "Eu não me importo um figo, tudo é o mesmo para mim". A grande praça estava cheia de gente para ver a corrida; os homens tinham invadido as ruas como formigas, as janelas e os telhados estavam tão cheios como um ovo.

            Foi quando Relâmpago saiu e tomou seu posto no topo da praça, à espera do sinal. Logo mais veio Ciannetella vestida com pouca roupa e um belo sapato para corridas. Colocaram-se ombro a ombro, e assim que o tara-tara-tata das trombetas foi ouvido, correram a um ritmo tal que seus calcanhares tocavam seus ombros; na verdade, os dois pareciam lebres com cães na cola, cavalos se soltado do estábulo, ou cães com chaleiras quentes amarradas nas caudas. 

            Relâmpago deixou a princesa mais de um corpo atrás de si e chegou em primeiro lugar. Então, ouviram-se aplausos e gritos, os assobios e as palmas das mãos de todas as pessoas. "Hurra! Longa vida para o estrangeiro!" O rosto de Ciannetella ficou rubro como o de um colegial que vai ser chicoteado, ficando com vergonha e confusa ao ser vencida pela primeira vez.  Mas como ainda haveria duas baterias de corrida, começou a planejar como se vingar da afronta.

            Em casa, Ciannetella colocou um feitiço num anel, com poder tal que se alguém o tivesse no dedo, suas pernas iriam cambalear, o possuidor não seria capaz de andar e muito menos correr. Em seguida, ela enviou-o como um presente para Relâmpago, implorando-lhe para usá-lo no dedo por amor a ela.

            Ouvido Longo, que escutara o truque planejado entre pai e filha não disse nada, e esperou para ver o desfecho do caso. E ao trombetear dos pássaros, o Sol tendo chicoteado a Noite que estava montada no burro das sombras, todos voltaram para o campo, onde ao sinal de costume, saíram para assediar seus calcanhares. Mas se Ciannetella era como Atalanta, Relâmpago parecia ter-se tornado um burro velho ou um cavalo naufragado, pois não conseguia dar um passo. Tiro Certo, que viu o perigo pelo qual passava  seu companheiro e Ouvido Longo que lhe contara o que ouvira, segurou sua besta e disparou uma flecha tão precisa que bateu no dedo de Relâmpago e fez voar a pedra do anel.

            Imediatamente as pernas que tinham sido amarradas foram libertadas, e com quatro trancos ele passou Ciannetella e, novamente, venceu a corrida. O rei vendo a vitória de um cabeça-dura, sentindo-se trapaceado por um simplório, frente ao triunfo de um tolo, pensou se deveria ou não lhe dar sua filha. Tomando conselho com os sabichões da corte estes responderam que Ciannetella não era bocado para o dente de um cão miserável, e que, sem quebrar sua palavra, ele poderia trocar a promessa da filha por um presente em coroas, o que estaria mais para o gosto de um pobre mendigo como Moscione que todas as mulheres do mundo.

            O conselho agradou ao rei e ele perguntou a Moscione quanto dinheiro ele gostaria em vez de ter a esposa prometida. Então Moscione, após consulta aos outros, respondeu: “Vou levar todo o ouro e prata que um dos meus camaradas puder carregar em suas costas." O rei consentiu e eles trouxeram Costas Fortes em quem começaram a carregar fardos de ducados, sacos de patacas, grandes bolsas cheias de coroas, barris de cobre com dinheiro, baús cheios de correntes e anéis. No entanto, quanto mais carregavam mais firme o homem ficava em pé, assim como uma torre para o qual o tesouro, os bancos, os agiotas, e o dinheiro dos traficantes da cidade não conseguiam ser o suficiente.         Logo o Rei ordenou que as pessoas de posses emprestassem seus castiçais de prata, bacias, jarros, pratos, bandejas e cestas; e ainda tudo não foi suficiente para compensar a plena carga. Por fim, Moschione e seus amigos foram embora, cansados e satisfeitos.

            Quando os conselheiros viram as montanhas que os seis cães miseráveis ​​estavam levando consigo disseram ao rei que grande parte de toda a fortuna do reino se ia, e que seria bom enviar pessoas para diminuir a carga que Atlas que carregava nos ombros. O rei deu ouvidos ao conselho, e despachou um grupo de homens armados, a pé e a cavalo, para segurar Moscione e seus amigos. Mas Orelha Longa, que tinha ouvido o conselho, informou seus camaradas, e Explosão, vendo que as coisas chegariam a um mau ponto, começou a soprar numa velocidade tal que não somente fez os inimigos caírem ao chão, mas os fez voar a mais de uma milha de distância. 

            Então, sem encontrar qualquer outro obstáculo Moscione chegou à casa de seu pai, onde ele dividiu o espólio com seus companheiros, já que, como diz o ditado, uma boa ação merece um bom galardão. Então ele os mandou embora contentes e felizes; e ficou com o pai rico além da conta não desmentindo o ditado:

 "O céu envia biscoitos a quem não tem dentes."

 

Comentários

Moscione significa o fermento que crece no mosto. O pai acerta ao colocar o filho para que se abrisse para o mundo, a única maneira dele se superar.

Em sua viagem repleta de encontros, Moscione encontra companheiros de jornada que, assim como ele próprio, não se distinguiam propriamente pela inteligência, mas eram suficientemente adequados para enfrentar desafios coletivos. E como os enfrentaram.

O jovem que partira desacreditado pela família retorna rico e feliz, graças à sua capacidade de liderança, que consiste em estar nas companhias adequadas e extrair de cada o melhor de si.

Nesse conto, Basile expressa de forma clara sua crítica social, assim como o desprezo pelos “acordos dos comerciantes para elevar os preços das mercadorias, os maus ofícios dos cortesãos, as nomeações das amantes, as divisões entre os salteadores, os relatórios dos espiões, as queixas dos funcionários, a fofoca das velhas e os juramentos de marinheiros”, assim como pelas fortunas que amealhavam os reis e suas cortes, os banqueiros, os agiotas e os traficantes da cidade, em comparação com a miserabilidade do povo.

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