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Marcel Proust

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“O Conto dos Contos”

Capítulo 12 - Conto Vigésimo: “A pedra na cabeça do galo”.

 A mulher do assaltante nem sempre ri; aquele que pratica uma fraude trama a própria ruína; não há dolo que não seja, finalmente, descoberto e nenhuma traição que não venha à luz; as paredes têm ouvidos e são os espiões dos velhacos. Mas a terra sempre se abre e põe a descoberto o roubo, como eu vou provar se me prestarem atenção.

 

            Uma vez na cidade da Gruta Escura, havia certo homem chamado Minecco Aniello. Tinha sido tão perseguido toda a vida pela fortuna, que tudo o que possuía era apenas de um pequeno galo, que havia criado com migalhas do pão que comia.      Um dia, ao ser beliscado pelo o apetite, pois a fome tira o lobo do mato, ele pegou o galo para vender e levou-o ao mercado, onde conheceu dois mágicos desonestos com quem fez negócio e vendeu a ave por meia coroa.

            Os magos disseram que buscariam o galo em sua casa e que ficasse com o dinheiro. Os compradores seguiram seu caminho e Minecco Aniello, que caminhava atrás dos mesmos, ouviu-os conversarem entre si:            "Quem diria que hoje estaríamos com a boa sorte, Jennarone? Aquele galo vai fazer nossa fortuna com a pedra que, com certeza, tem na cabeça. Vamos com ela fazer um anel, e depois teremos tudo o que pudermos pedir."

            "Fique quieto, Jacovuccio", respondeu Jennarone: "Vejo-me rico e mal posso acreditar; estou ansioso para torcer o pescoço do galo e dar um chute no rosto de mendicância. No mundo ter virtude e não ter dinheiro não serve para nada, um homem é julgado pelo casaco que veste."

            Depois que Minecco Aniello ouviu essa papagaiada, virou as costas e saiu em disparada. Chegando à casa torceu o pescoço do galo e abrindo a cabeça encontrou uma pedra, que imediatamente colocou num anel de latão. Então, para fazer a prova ele disse: "Eu gostaria de me tornar um jovem de dezoito anos de idade." Mal pronunciara as palavras, o sangue começou a fluir mais rapidamente, os nervos se tornaram mais forte, os membros mais firmes, a carne mais fresca, os olhos mais ardentes, seus cabelos prateados transformados em ouro; sua boca, que era uma aldeia saqueada, tornou- se povoada de dentes; a barba, que era tão grossa como lascas de madeira, tornou-se como um viveiro de plantas. Em resumo ele foi transformado em um dos mais belos jovens do lugar.  

            Em seguida, ele pediu: "Eu gostaria de um esplêndido palácio e de me casar com a filha do rei." Eis que instantaneamente apareceu um palácio de magnificência incrível, os apartamentos, as colunas e as pinturas o surpreenderam; a prata brilhava ao redor, e o ouro no chão; as jóias deslumbraram os olhos; os servos surgiam como formigas, os cavalos e as carruagens não davam para serem contados - em suma, houve tal exibição de riquezas que o próprio rei  soube, olhou e de bom grado lhe deu sua filha Natalizia.

            Enquanto isso, os magos que haviam descoberto a riqueza de Minecco Aniello, prepararam um plano para roubar-lhe a boa sorte. Fizeram uma linda bonequinha que tocava e dançava por um mecanismo de relógio e vestindo-se como comerciantes foram até Pentella, a filha de Minecco Aniello, sob o pretexto de vendê-la. Quando Pentella viu a bela bonequinha, perguntou-lhes o preço e eles responderam que não era para ser comprada com dinheiro, mas que poderia tê-la em troca de um favor: deixá-los ver a marca do anel que seu pai possuía a fim fazerem outro como o dele.

            Pentella, que nunca tinha ouvido falar no provérbio: "Pense bem antes de comprar qualquer coisa barata", aceitou imediatamente a oferta, e, ordenando-lhes que voltassem na manhã seguinte, prometeu pedir ao pai o anel emprestado. Os magos se foram e quando o pai voltou à casa, Pentella persuadiu-o, acariciou-o, até que, finalmente, ela o convenceu a dar-lhe o anel, com a desculpa de que ela estava triste e queria desanuviar um pouco a cabeça.

            Quando o dia seguinte chegou assim que o limpador do sol varreu os últimos vestígios das sombras das ruas e das praças do céu, os magos voltaram; tão logo eles puseram as mãos no anel, desapareceram como por encanto e nenhum traço deles ficou, de modo que a pobre Pentella quase morreu de terror.

Chegando a um bosque, onde os ramos de algumas das árvores estavam fazendo a dança das espadas, os magos desejaram que o anel destruísse o feitiço pelo qual o homem velho tornara-se um jovem. Imediatamente Minecco Aniello, que estava naquele momento na presença do Rei, viu-se grisalho e os cabelos a embranquecer, a testa ganhar rugas, nas sobrancelhas crescerem pelos eriçados, os olhos a afundar, o rosto ser franzido e a boca murchar, a barba a crescer espessa, as costas se acorcundarem, as pernas a tremerem, e, acima de tudo, suas vestes resplandecentes se tornaram trapos e farrapos.

            O rei, ao ver o mendigo miserável sentado ao seu lado na mesa, ordenou que fosse levado para longe a socos e xingamentos, e Aniello, assim de repente, caiu da boa sorte e foi chorando para sua filha e pediu-lhe o anel, a fim de começar tudo de novo.  Quando soube do truque engendrado pelos falsos comerciantes, quis atirar-se da janela xingando mil vezes a ignorância da filha, que por uma boneca boba o havia transformado em um espantalho miserável.

Estando decidido a sair vagando pelo mundo como mendigo até saber notícias dos comerciantes,  jogou um manto sobre o pescoço, pegou um embornal, pôs as sandálias nos pés, arranjou um cajado, e deixando a filha partiu. Caminhou e caminhou, até que chegou ao reino do Buraco Profundo, habitado por ratos, onde, sendo pego como espião dos gatos, foi levado à presença de Rosecone, o rei dos ratos.

            O rei perguntou-lhe quem ele era, de onde vinha e que fazia por ali. Minecco Aniello, após a dar ao rei aparas de queijo em sinal de homenagem, relacionou todos os seus infortúnios, um a um, e concluiu dizendo que estava decidido a continuar viagem até saber notícias dos vilões desonestos que tinham roubado tão preciosa jóia, levando com ela a flor de sua juventude, a fonte de sua riqueza e o suporte de sua honra. Ao ouvir essas palavras Rosecone sentiu a pena mordiscando seu coração e querendo consolar o pobre homem, convocou os ratos mais velhos para um conselho, e pediu opinião sobre os infortúnios de Minecco Aniello.

            Ordenou-lhes ainda que usassem de a toda diligência e procurassem obter alguma notícia sobre os falsos comerciantes. Acontece que Rudolo e Saltariello estavam presentes- ratos que utilizavam os caminhos do mundo e tinham vivido por seis anos na taverna de um grande albergue. Eles disseram a Aniello: "Seja corajoso, camarada! Seus assuntos vão se sair melhor do que imagina. Saiba que um dia, quando estávamos num quarto na pousada do Horne, onde os homens mais famosos da loja que é o mundo se alegram, duas pessoas do Castelo entraram, e depois de terem comido e visto o fundo do seu garrafão de bebida, caíram a falar de um truque que tinham aplicado em um homem velho da Gruta Escura. Conversavam sobre como eles o tinham enganado e conseguido uma pedra de grande valor, que um deles, chamado Jennarone, disse que jamais tiraria do dedo, que não correria o risco de perdê-la, como a filha do velho tinha feito. "

            Quando Minecco Aniello ouviu o relato, pediu que os dois ratos confiassem em si e que o acompanhassem ao país onde aqueles malandros viviam, ajudando-o a recuperar o anel. Em contrapartida, iria dar-lhes um bom lote de queijo e carne salgada, que poderiam comer e desfrutar com sua majestade, o rei. Os dois ratos, após a negociação de mais uma ou outra recompensa, se ofereceram para ir até o mar e a montanha e despedindo-se de sua majestade, partiram.

            Depois de um longo caminho chegaram ao Castelo, onde os ratos disseram para Minecco Aniello permanecer sob algumas árvores à beira de um rio. Em seguida eles foram à busca da casa dos magos, e, observando que Jennarone nunca tirava o anel de seu dedo, tentaram vencê-lo por meio de estratagemas. Assim, esperaram até que a noite tivesse tingido de púrpura o rosto queimado do céu pelo sol, e os magos estivessem dormindo. Rudolo começou a mordiscar o dedo em que estava o anel, ao que Jennarone, sentindo a espetada, tirou-o e o colocou sobre a mesa na cabeceira da cama.  Assim que Saltariello viu o anel, botou-o na boca e em quatro saltos estava fora da casa, correndo ao encontro de Minecco Aniello. Este, com alegria ainda maior que um homem na forca sente quando o perdão chega, transformou os magos em dois burros; e colocando seu manto sobre um deles montou-o, enquanto que o outro ele carregou com queijo e bacon, partindo em direção ao Buraco Profundo.

            Lá, depois de ter dado os presentes para o rei e a seus conselheiros, agradeceu-lhes por toda a boa sorte que havia recebido, orando aos céus que nenhuma ratoeira conseguisse alcançá-los, que nenhum gato pudesse prejudicá-los, e que nenhum arsênico lograsse envenená-los.

            Depois voltou à Gruta Profunda ainda mais bonito que antes, onde foi recebido pelo rei e filha com o maior carinho.  E, depois de ter ordenado que os dois burros fossem derrubados de uma rocha, viveu feliz com sua esposa jamais voltando a tirar o anel de seu dedo, pois:

"O gato que foi queimado no fogo, sempre teme o forno frio. "

 

Comentários

A busca do homem pela aparência e pela fortuna é o cerne da narrativa, afinal, como afirma um dos magos, de nada vale a virtude sem o dinheiro. E de acréscimo, o retorno de um velho à juventude.

Uma história que parte de Aniello (corruptela de Agnello) um homem extremamente pobre, passa por magos, com direito a galo que possui uma pedra encantada na cabeça, e desemboca em ratos que se organizam socialmente em reinados, como os humanos e com eles conversam. Fábula de metamorfoses em que um velho remoça e depois de remoçar, envelhece e torna a remoçar; em que homens transformam-se em animais e cumprem as funções dos mesmos. As aparências exteriores no comando das relações.

Aniello, o da Gruta Profunda, que já havia vendido seu galo àqueles que viam acima das aparências, talvez por serem magos, somente poderia apelar para os habitantes do Buraco Profundo para que o ajudassem. E a moral da história que conclui com um ditado que até hoje em dia é muito utilizado: “gato escaldado da água fria tem medo”.

Conto Vigésimo Primeiro: “Os Três Príncipes Encantados”.

            Era uma vez um rei de Banco Verde que teve três filhas, perfeitas jóias por quem os três filhos do rei de Prado Agradável estavam perdidamente apaixonados. Mas esses príncipes tinham sido transformados em animais pelo feitiço de uma fada e o rei do Banco Verde recusava-se a dar-lhes suas filhas por esposas. Diante disso, o primeiro, que era um belo Falcão, convocou todas as aves a conselho; e vieram tentilhões, pica-paus, papa-moscas, papagaios, melros, cucos, tordos, e todos os outros tipos de aves.  E quando estavam todos reunidos, ele ordenou que matassem todas as flores e folhas das árvores de Banco Verde, de modo que nem uma permanecesse.

            O segundo príncipe, que era um Veado, convocou todas as cabras, coelhos, lebres, ouriços e outros animais do lugar para que assolassem todos os campos de pasto e de milho de modo a não sobrar uma única lâmina de feno ou milho para se colher.

O terceiro príncipe, que era um Golfinho, juntamente com uma centena de monstros do mar, fez tal tempestade surgir na costa que não escapou um só barco navegando.

            Quando o rei viu que as coisas estavam indo de mal a pior e que não poderia remediar o mal que esses três amantes selvagens estavam realizando, resolveu esquecer sua angústia e dar-lhes suas filhas para esposas.          Logo após, sem querer muitas festas ou músicas, eles levaram suas noivas para fora do reino.

            Na despedida das filhas, Granzolla, a rainha, deu a cada uma delas um anel, um exatamente igual ao outro, dizendo-lhes que se acontecesse de serem separadas e depois de um tempo se reunissem, ou com qualquer um de seus parentes, iriam reconhecer um ao outro por meio dos anéis. 

            E o Falcão levou Fabiella, que era a mais velha das irmãs, ao topo de uma montanha, tão alta que passava dos limites das nuvens, e ali ergueu um belo palácio, onde viveria como uma rainha.

            O Veado carregou Vasta, a segunda irmã, para um bosque, que era tão espesso que as sombras, quando convocadas pela noite. Lá, ele a colocou como convinha à sua categoria, em uma casa esplêndida, com um grande jardim.

            O Golfinho nadou com Rita, a terceira irmã, nas suas costas para o meio do mar, onde, em cima de uma grande pedra, deu-lhe uma mansão tão grande onde até três reis coroados poderiam viver.

            Tempos após, Granzolla deu à luz a um bom menino, a quem chamaram Tittone. Quando ele tinha quinze anos, ouvindo sua mãe se lamentando de que nunca tinha qualquer notícia de suas três filhas casadas com três animais, ele convenceu-a a dar sua benção e viajou pelo mundo para obter notícias das irmãs. A rainha entregou-lhe outro anel, semelhante aos que ela tinha dado às filhas.

            Tittone seguiu e não deixou um canto da Itália, um recanto da França, qualquer parte da Espanha sem pesquisar. Em seguida, passou por Inglaterra e atravessou a  Eslovênia, e visitou a Polônia, e, em suma, viajou para leste e para oeste. Por fim, deixando todos seus servos, alguns em tabernas, outros em hospitais, terminou partindo só e sem um centavo no bolso, até que chegou ao topo da montanha onde morava o Falcão e Fabiella. E ele ficou fora de si de espanto ao contemplar a beleza do palácio - as pedras angulares, as paredes de alabastro, as janelas de ouro, e as dobradiças de prata. A irmã o viu e ordenou que fosse chamado, perguntando quem era, de onde vinha, e o motivo que o trouxera até aquele país.

            Quando Tittone disse o seu país, o nome do pai e da mãe, Fabiella soube que ele era seu irmão, e comparando o anel no dedo com o que a mãe lhe dera, abraçou-o com grande alegria, e depois o escondeu, temendo que seu marido ficasse com raiva quando voltasse para casa. Assim que Falcão retornou, Fabiella começou a dizer-lhe que tinha grande vontade de rever seus pais. E o Falcão respondeu: "Que o desejo passe, esposa, pois isso não pode fazer-me perder o humor."

            "Vamos pelo menos", disse Fabiella, "enviar alguém para buscar um dos meus parentes.""E quem viria até aqui para vê-la?" respondeu o Falcão. "Não sei, mas se alguém vier", acrescentou Fabiella, "você ficaria descontente?" "Por que eu deveria ficar descontente?" respondeu o Falcão, “seria suficiente que ele fosse um dos seus parentes para tê-lo no meu coração."

            Então Fabiella tomou coragem e chamando seu irmão apresentou-o ao Falcão, que exclamou: "Vamos dar-lhe uma recepção calorosa! É nosso convidado e tudo será como gosta ". Então, ele deu ordens para que Tittone fosse servido e tratado com a mesma honra que ele próprio. Tendo Tittone permanecido duas semanas na montanha, veio-lhe à cabeça o desejo de ir adiante e buscar pelas outras irmãs. Ao despedir-se de Fabiella e do cunhado Falcão, este lhe deu uma de suas penas, dizendo: "Toma-a e valoriza-a, meu caro Tittone, se um dia estiver em apuros, vai ver que é um tesouro! Cuide bem dela, em caso de necessidade joga-a ao chão, e diga: ‘Vem cá, vem cá! ' e você terá motivos para me agradecer."

            Tittone envolveu a pena em uma folha de papel e colocou-a no bolso. Depois de mil cerimônias partiu. Viajou muito até chegar ao bosque onde o Veado vivia com Vasta; e indo, meio morto de fome para um jardim colher frutas sua irmã o viu e reconheceu-o da mesma maneira como Fabiella o fizera. Em seguida, ela apresentou Tittone ao marido, que o recebeu com a maior amizade e tratou-o verdadeiramente como a um príncipe. Ao final de uma quinzena, quando Tittone decidiu partir em busca da outra irmã, o Veado deu-lhe um de seus pelos, repetindo as mesmas palavras que o Falcão tinha dito sobre a pena.

            E definindo o lado, ele caminhou até chegar ao fim do mundo, onde parou à beira-mar e entrou num barco para procurar por todas as ilhas sua irmã.  Então zarpou e o vento o levou para uma ilha onde vivia o Golfinho com Rita.  E mal ele chegou, sua irmã o viu e reconheceu-o da mesma forma como as outras tinham feito, e foi recebido por seu marido com todo o carinho. Depois, Tittone quis partir para visitar seu pai e sua mãe a quem não via desde tão longo tempo. Assim, o Golfinho deu-lhe uma de suas escamas, dizendo-lhe o mesmo que os outros haviam dito e Tittone, montando um cavalo, partiu. 

            Mal ele tinha se afastado um quilômetro do litoral, entrou em um bosque- a morada do medo e das sombras, onde uma feira permanente de escuridão e terror era mantida - e encontrou uma grande torre erguida no meio de um lago, cujas águas beijavam os pés das árvores pedindo para não deixar o sol testemunhar suas brincadeiras. Em uma sacada da torre Tittone viu uma linda moça sentada aos pés de um dragão medonho, que dormia. Quando a moça viu Tittone, ela disse em voz baixa e comovente: "Ó nobre jovem, enviado por acaso pelo céu para me confortar em minha miséria nesse lugar onde o rosto de um cristão nunca é visto, liberte-me do poder desta serpente tirânica, que me trouxe para longe de meu pai, o rei do Valle Brilhante e fechou-me nessa torre assustadora, onde devo sofrer uma morte miserável."

            "Ai de mim, minha bela senhora!" respondeu Tittone, "o que eu posso fazer para servi-la? Quem pode atravessar esse lago? Quem pode escalar esta torre? Quem pode se aproximar do horrível dragão, que leva terror em sua aparência, semeia medo, e causa desânimo?” Mais baixo, no entanto, ele falou: “Espere um minuto, vamos encontrar alguma maneira de ajuda com outros , que ensinarão o passo da dança para a serpente".

            Assim dizendo jogou a pena, o cabelo, e a escama que seus cunhados lhe tinham dado ao chão, exclamando: "Vem cá, vem cá!" E, caindo na terra como gotas de chuva de verão, de repente apareceu o Falcão, o Veado, e o Golfinho, que gritaram todos juntos: "Eis-nos aqui! Quais são suas ordens? " Tittone  disse com grande alegria: "Eu nada mais desejo que libertar aquela pobre donzela das garras do dragão, deixá-la livre da torre, colocar tudo em ruínas e levar a bela senhora para casar-se comigo. "

            "Silêncio!" respondeu o Falcão, “o feijão brota onde menos se espera." "Não percamos tempo", disse o Veado, "problemas e macarrão são engolidos quentes." Logo o Falcão convocou um grande bando de grifos, que voaram para a janela da torre e pegaram a moça, carregando-a por sobre o lago, até onde Tittone estava com os três cunhados. Se de longe ela parecia uma lua, acreditem em mim, de perto ela parecia verdadeiramente um sol de tão linda.

            Enquanto Tittone estava abraçando-a e dizendo-lhe como ele a amava, o dragão acordou; e veio nadando pelo lago para devorar Tittone. Mas o Veado chamou um esquadrão de leões, tigres, panteras, ursos e gatos silvestres, que, caindo em cima do dragão, rasgaram-no em pedaços com suas garras. Como Tittone desejava partir, o Golfinho disse: "Também eu desejo fazer algo para ajudá-lo." E para que nenhum traço permanecesse do terrível e maldito lugar, ele fez o mar subir tão alto que, transbordando seus limites, atacou a torre furiosamente e derrubou-a desde suas fundações.

            Tittone agradeceu aos animais da melhor maneira que podia, dizendo à moça que ela deveria fazê-lo também, pois fora com a ajuda deles que ela havia escapado ao perigo. Mas os animais responderam: "Não, devemos antes agradecer a esta bela senhora já que ela foi o meio de restaurar as nossas formas corretas, pois um feitiço que foi nos colocado quando de nosso nascimento dizia que ficaríamos obrigados a permanecer na forma de animais até que conseguíssemos libertar a filha de um rei de alguma grande dificuldade! Agora eis que o tempo é chegado; o fruto está maduro, e nós já sentimos um novo espírito em nossos peitos, sangue novo nas veias." Assim dizendo, eles foram se transformando em belos jovens, e um após o outro abraçaram o cunhado e apertaram as mãos da senhora, que estava em êxtase de alegria.

            Tittone estava a ponto de desmaiar e num suspiro profundo, ele disse: "Ó céus! porque não tenho a minha mãe e meu pai aqui para participar dessa felicidade? Eles ficariam enlouquecidos de alegria ao verem esses graciosos e bonitos genros".

            “Príncipe, nós tínhamos vergonha de vermos a nós mesmos, e por isso a transformação nos obrigou a fugir da vista dos homens! Mas agora que, graças a Deus, podemos aparecer ao mundo de novo, todos nós iremos viver com as nossas mulheres sob o mesmo teto, e passarmos a vida alegremente. Vamos, partamos de imediato, e antes da manhã quando o Sol descompacta os fardos de seus raios na alfândega do Oriente, nossas esposas deverão estar conosco."

            Assim dizendo e para que não terem de ir a pé, pois só havia uma velha égua, aquela que Tittone tinha trazido, os irmãos chamaram uma bela carruagem puxada por seis leões, em que todos os cinco se sentaram; e viajando todo o dia, chegaram à noite a uma taberna, onde, enquanto o jantar estava sendo preparado, eles passaram o tempo lendo as provas da ignorância dos homens que estavam rabiscadas nas paredes. 

            Finalmente, quando comeram a se fartarem, retiraram-se para descansar. Mas os três jovens fingindo ir para a cama, saíram e caminharam a noite inteira, até que na parte da manhã, quando as estrelas como donzelas tímidas retiraram-se do olhar do Sol,  eles voltaram para a mesma pousada com suas esposas, depois do que todos se abraçaram. Em seguida, todos os oito sentaram-se na mesma carruagem e depois de uma longa jornada, chegaram ao Banco Verde, onde foram recebidos com incrível carinho pelo rei e pela rainha, que não só tinham recuperado aos quatro filhos a quem consideravam perdidos, mas também os três genros e uma nora, que eram realmente quatro colunas do Templo da Beleza. 

            E quando a notícia das aventuras de seus filhos chegou até os reis de Prado Amável e de Vale Brilhante, ambos vieram para as festas que foram realizadas, adicionando o ingrediente rico da alegria ao mingau da satisfação, e receberam plena recompensa por todos os infortúnios passados, porque:

 "Uma hora de alegria dissipa as preocupações e sofrimentos de milhares de anos. "

 

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Uma linda fábula repleta de metamorfoses. Os três príncipes encantados, seres humanos quando transformados tornam-se os líderes incontestes das aves, até mesmo das imaginárias como os grifos, dos animais terrestres e dos marítimos.

O homem selvagem, aliado à Natureza torna-se uma força de incontestável poder. Os três jovens transformados em animais submetem aos seus caprichos os reis, rainhas e princesas.

O moral final da história é assaz interessante, pois o sofrimento de longos tempos é esquecido quando o bálsamo da consolação alcança os corações.

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