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“O Conto dos Contos”

Capítulo 13 - Conto Vigésimo Segundo: “O Dragão”.

Quem procura fazer mal a outro encontra seu prejuízo; aquele que espalha as armadilhas da traição e da mentira vê muitas vezes elas caírem sobre si mesmo; foi o que sucedeu na história de uma rainha, que com suas próprias mãos construiu a armadilha com que foi pega pelo pé.

 

            Certa vez existiu um rei de Costa Alta, que praticou uma tirania e crueldade pouco vistas.

            Quando saiu a visitar um palácio, a certa distância da sua cidade, o rei teve a própria sede usurpada por uma feiticeira. E ele consultou uma estátua de madeira que era usada para dar respostas de oráculo, e esta previu que o rei iria recuperar seus domínios somente quando a feiticeira ficasse cega.

            Mas vendo que a feiticeira, além de ser bem guardada, sabia identificar as pessoas que ele enviava para irritá-la e talvez cegá-la, o rei resolveu praticar uma justiça canina sobre as pessoas: tomado pelo desespero e por despeito da feiticeira ele assassinou todas as mulheres nas quais pode por as mãos. Depois de centenas e centenas de mulheres terem tido a má sorte e perdido suas vidas, veio ao reino uma moça chamada Porziella, a criatura mais bela que pode ter sido vista em toda a terra, e o rei, não podendo deixar de se apaixonar, fez dela sua esposa.

            Mas ele era tão cruel e vingativo para com o sexo oposto que, depois de um tempo, resolveu matá-la como a todas as outras. Quando ele estava levantando a adaga, um pássaro deixou cair certa raiz sobre o seu braço e ele foi tomado por tal tremor que a arma lhe caiu da mão. Ora, esse pássaro era uma fada, que tempos atrás fora dormir no bosque e certo sátiro conhecido tinha estado prestes a raptá-la. Foi quando ela foi acordada por Porziella e, por essa bondade, passou a segui-lhe os passos a fim de protegê-la.

            Quando o rei sentiu o ocorrido com o braço achou que a beleza do rosto de Porziella o havia prendido e encantado o punhal para evitar que a perfurasse como tinha feito com tantas outras.  Resolveu, portanto, não realizar a tentativa uma segunda vez, decidindo que ela deveria morrer em um sótão construído em seu palácio. Dito e feito: a criatura infeliz foi fechada dentro de quatro paredes, sem ter nada para comer ou beber, deixada a definhar e a morrer pouco a pouco.

            O pássaro, vendo-a nesse estado miserável, consolou-a com palavras amáveis, oferecendo-lhe ânimo e prometendo ajudá-la, se necessário, com a própria vida. Vejam que apesar de todas as súplicas de Porziella, o pássaro jamais lhe dissera quem era, apenas contou que estava em dívida e não deixaria por nada de servi-la. E vendo que a pobre moça estava faminta, voou e trouxe uma faca pontiaguda da despensa do rei, e disse-lhe para fazer um furo no canto do piso do sótão onde estava encerrada. Este estava acima da cozinha, e através do buraco o pássaro traria alimento para sustentá-la. Então Porziella fez o buraco; vendo que o cozinheiro havia saído para buscar um jarro de água no poço, o pássaro desceu por ele, e pegando uma ave que cozinhava ao fogo, trouxe-a para Porziella; em seguida, para aliviar-lhe a sede, voou para a despensa, onde havia uma quantidade de uvas suspensas e trouxe-lhe um bom cacho. Isso ela fez regularmente por muitos e muitos dias.

            Porziella, que estava grávida, deu à luz a um menino, o qual amamentou e foi criado com a ajuda constante da ave. E quando ele ficou grande, a fada avisou sua mãe para tornar o buraco do piso maior e levantar algumas tábuas do chão, de tal forma que Miuccio, como a criança era chamada, passasse por ele. Então, depois de deixá-lo descer, colocou as tábuas de volta ao lugar para que ninguém visse de onde o menino viera. Porziella, no momento em que desceu o filho, pediu-lhe que jamais dissesse de onde viera e nem de quem era filho.

            Quando o cozinheiro que estava ausente retornou, viu um menino tão bonito que perguntou quem era, de onde viera, e o que queria;  então a criança, recordando o conselho da mãe, disse-lhe que ele era um pobre menino desamparado, que procurava por um mestre. Enquanto conversavam, o mordomo entrou e vendo um menino tão sorridente, pensou que iria fazer uma bela figura perante o rei.  Levou-o para os apartamentos reais e quando o rei o viu tão bonito e encantador, parecido a uma jóia, ficou muito satisfeito e tomou-o para seu serviço como a um filho, e lhe ensinou todos os exercícios condizentes com um cavaleiro, de modo que Miuccio cresceu o mais próximo do poder e o rei o amava mais do que a um enteado. 

            Acontece que o rei, por sua vez, tinha uma madrasta, que era a verdadeira rainha. Ora, a madrasta do rei começou a ter ciúmes do menino e sua inveja ganhava terreno na proporção dos favores e da bondade com que o rei agraciava Miuccio. Foi, então, que ela resolveu colocar sabão na escada de sua sorte, a fim de que ele rolasse de cima para baixo. Assim uma noite, quando o rei e sua madrasta estavam afinando seus instrumentos para a música, a rainha disse ao rei que Miuccio se gabava de que iria construir três castelos no ar.

            Na manhã seguinte, no momento em que a lua, a dona da escola das sombras, deu férias aos seus acadêmicos para o festival do sol, o rei de surpresa e para satisfazer a velha rainha, ordenou que Miuccio fosse chamado, e que construisse os três castelos no ar como havia prometido, ou então ele iria fazê-lo dançar um compasso no ar. Miuccio foi para seu quarto e começou a se lamentar amargamente pelo quão pouco tempo dura a sorte entre os cortezãos. E enquanto ele estava chorando eis que o pássaro veio, e disse-lhe: "Coragem, Miuccio, não tenha medo, enquanto você me tiver a seu lado, sou capaz de tirá-lo fora do fogo."  Em seguida tomou um papelão e cola e fez três grandes castelos e chamando três grandes grifos, o pássaro amarrou um castelo em cada um, e fez com que eles voassem pelo ar.

            Miuccio chamou pelo rei, que veio correndo com toda a corte para ver o feito; e quando ele viu a criatividade de Miuccio, teve ainda maior carinho pelo menino, o que acrescentou neve para a inveja da rainha e fogo para sua raiva, vendo seu plano fracassar. De modo que, tanto dormindo quanto acordada, ela ficou pensando em alguma maneira de remover o espinho dos olhos. Depois de alguns dias ela disse ao rei: "Filho, agora é hora de voltarmos à nossa antiga grandeza e aos prazeres de tempos passados, mas para isso Miuccio deve cegar a feiticeira e você recuperar o reino perdido."

            O rei, que se sentiu tocado em local dolorido, disse a Miuccio: "Eu estou muito surpreso com que, apesar de todo o meu amor, você permaneça descuidado em vez de se esforçar por me aliviar da miséria em que estou reduzido, de um reino a um bosque, de uma cidade a um castelo insignificante, e de comandar um povo grande para ter apenas um par de diabos morrendo de fome. Portanto, se você não me deseja mal, corra agora e cegue os olhos da feiticeira que tem a posse de minha propriedade, colocando para fora as lanternas e acendendo as lâmpadas de minha honra, que estão no escuro e na sombra."

            Quando Miuccio ouviu o pedido esteve prestes a responder que o rei estava mal informado, já que ele não era nem um corvo para escolher olhos e nem uma broca para fazer furos. E o rei ainda disse: "Nenhuma palavra a mais, faça-se! Lembre-se agora que na casa da moeda de meu cérebro tenho pronta, em escala, a recompensa, se você o fizer! No outro a punição, se você negligenciar o que mando ".

            Miuccio não podia bater a cabeça contra uma rocha e o homem não estava para ser mudado; quando foi para um canto para se lamentar, o pássaro veio até ele e disse: "É possível Miuccio que você vai estar sempre se afogando em um copo de água? Ainda não sabe que tenho mais respeito por sua vida que pela minha? Portanto não perca a coragem, venha comigo e você vai ver o que posso fazer ".  Assim dizendo voou e pousou no bosque, onde logo que começou a cantar chegou um enorme bando de pássaros, a quem ele contou a história, assegurando-lhes que quem se arriscasse a privar a feiticeira da visão, teria dele uma salvaguarda contra as garras dos falcões e dos papagaios, e uma carta de proteção contra as armas, bestas, arcos longos, e o cal dos passarinheiros.

            Tinha entre os pássaros uma andorinha que tinha feito o ninho numa viga do palácio real e que odiava a feiticeira, pois ela ao fazer suas conjurações malditas, várias vezes a expulsara com as fumigações. Em parte por um desejo de vingança e em parte para ganhar a recompensa que o pássaro prometera, ofereceu-se para realizar o serviço. Assim ela voou como um raio para a cidade e entrou no palácio, encontrando a feiticeira deitada em um sofá com duas donzelas abanando-a. A andorinha entrou e pousou sobre ela, arrancando-lhe os olhos. 

            A feiticeira, vendo a noite ao meio-dia, sabia que por encerramento da alfândega as mercadorias do reino estavam perdidas; e proferindo gritos, como os de uma alma condenada, abandonou o cetro e saiu para se esconder em uma caverna, onde bateu a cabeça contra a parede vezes e vezes, até que finalmente terminou seus dias.

            Os conselheiros enviaram embaixadores ao rei, pedindo-lhe para voltar ao castelo, uma vez que a cegueira da feiticeira lhe tinha propiciado ver este dia feliz. E, ao mesmo tempo, Miuccio sob a direção da ave, disse-lhe: "Eu o tenho servido com o melhor de meu poder, a feiticeira está cega, o reino é vosso. Portanto, se mereço recompensa por esse serviço, desejo que nenhuma outra pessoa possa ser deixada numa má sorte." O rei abraçando-o com muito carinho, deu-lhe uma coroa e sentou-o ao seu lado; e como a rainha ficou furiosa com isso! Deus sabe o vento da tempestade que estava se formando em seu coração contra o pobre Miuccio.

            Não longe do castelo vivia um dragão feroz, que nascera na mesma hora em que a rainha; e os astrólogos sendo chamados pelo pai real para falar sobre o acontecimento, disseram que a filha estaria segura na medida em que o dragão também o estivesse, e que, quando um deles morresse, o outro necessariamente morreria.  E nesse caso, somente uma coisa poderia trazer de volta a rainha para a vida: ungir seus peitos e narinas com o sangue do dragão.

            A rainha por seu lado, conhecendo a força e a fúria do animal, resolveu enviar Miuccio para suas garras, bem certa que a besta iria fazer um bocado do mesmo, e que ele seria como um morango na garganta de um urso.  Então, voltando-se para o rei, ela disse: "Escute-me, este Miuccio é o tesouro de sua casa, e você seria ingrato de fato, se não o amasse. Agora ele demonstrou o desejo de matar o dragão que é meu irmão por um lado, por outro é o seu inimigo, mas eu me importo mais com um fio de cabelo de sua cabeça do que por uma centena de irmãos ". O rei, que odiava mortalmente o dragão e não sabia como tirá-lo de sua existência, chamou Miuccio, e disse-lhe: "Eu sei que você pode colocar sua mão em que quiser, por isso, como tem feito tanto, dá-me mais um prazer, e vá matar o dragão. Saiba que por esse serviço irei recompensá-lo muito bem ".

            Miuccio ao ouvir essas palavras esteve perto de perder os sentidos, e assim que foi capaz de falar, disse ao rei: "Ai, que dor de cabeça que me dá essa provação que nunca termina! Minha vida é um tapete de pele de cabra para você usá-lo assim? Ela não é uma pera pronta para cair em sua boca. Um dragão, que com suas garras quebra em pedaços a cabeça e esmaga com a cauda, põe veneno com os olhos, e mata com a respiração. Por que você quer me mandar para a morte? Este é o benefício que me dá por ter lhe dado um reino? Que filho da perdição lhe ensinou a colocar essas palavras em sua boca?" O rei, que era mais firme que uma rocha sobre o que havia dito exclamou: "Depois de tudo que você fez vai falhar no último? Sem mais palavras; vá livrar o meu reino dessa praga, a menos que você queira que me livre de você por toda a vida".

            Pobre Miuccio, que recebeu num minuto o “por favor”, e no seguinte, uma ameaça; agora um tapinha no rosto, e logo um chute; agora uma palavra amável, depois a crueldade. Mas sabendo que responder a grandes homens é uma loucura como puxar um leão pela barba, retirou-se amaldiçoando o destino. E enquanto ele estava sentado com a cabeça entre os joelhos lavando seus sapatos com as lágrimas e aquecendo o chão com os suspiros, eis que o pássaro chegou voando com uma planta em seu bico, e jogando-a para ele, disse: "Levante-se, Miuccio e coragem! Tome esta planta, e quando você chegar na caverna desse animal horrível, joga-a e de imediato ele vai cair em sono profundo; depois, entalhando e furando-o com uma boa faca, você pode logo dar um fim ao demônio.  As coisas vão sair melhor que você pensa."

            "Está bem!" disse Miuccio. Assim dizendo, levantou-se, e colocou a faca de podar no cinto e levando a planta, seguiu o caminho até a caverna do dragão. Quando chegou, Miuccio jogou a planta dentro da caverna, e um sono profundo prendeu o dragão, e Miuccio começou a cortá-lo em pedaços. No momento em que ele estava assim ocupado, a rainha sentiu uma dor de morte em seu coração e percebeu  seu erro.  Então ela chamou o enteado e disse-lhe o que os astrólogos tinham previsto como sua vida dependia do dragão, e como ela temia que Miuccio o houvesse matado, pois ela sentia-se gradualmente morrendo. 

            O rei respondeu-lhe: "Se você sabia que a vida do dragão era o sustentáculo da sua vida e a raiz de seus dias, por que me fez enviar Miuccio? Quem está em falta? Você fez a si mesma o mal, e deve sofrer por isso; quebrou o vidro, e tem que pagar o custo ".  A rainha sussurrou: "Eu nunca pensei que esse moço teria a habilidade e força para derrubar um animal que já destruiu um exército, esperava que ele deixasse seus trapos por lá. Mas me faça um carinho se realmente me ama. Quando eu morrer, pegue uma esponja embebida em sangue do dragão e esfregue com ele todas as extremidades do meu corpo antes de enterrar. "

            "Isso é pouco pelo amor que lhe tenho", respondeu o rei. "E se o sangue do dragão não for  suficiente, vou acrescentar o meu próprio para lhe dar satisfação."  A rainha estava prestes a agradecer-lhe, mas a respiração deixou-a antes do discurso, pois Miuccio tinha acabado de matar o monstro.

            Mal Miuccio chegou à presença do rei com a notícia do que tinha feito, o rei ordenou-lhe para voltar com o sangue do dragão e mesmo estando curioso para saber a que aquilo o levaria, ele seguiu. Quando Miuccio estava saindo pelo portão do palácio, o pássaro conhecido disse-lhe: "Para onde você está indo?" E Miuccio respondeu: "Eu estou indo para onde o rei me enviou, ele me faz voar para trás e para a frente, como um serviço de transportes e nunca me deixa descansar uma hora."

            "O que vai fazer?" perguntou-lhe o pássaro. "Buscar o sangue do dragão", disse Miuccio.  E o pássaro respondeu: "Ah jovem, o sangue miserável do dragão vai ser como sangue de boi para você e fazê-lo arrebentar! Esse sangue fará brotar novamente a semente do mal de todos os seus infortúnios. A rainha está sempre o expondo a novos perigos em que você pode perder a vida; o rei, que permite que esta criatura odiosa coloque a albarda acima dele e dê ordens para você! O homem miserável não sabe que a afeição inata que ele carrega é pelo parentesco que o une a você. Além disso, os serviços que prestou ao rei devem redundar em favor da infeliz Porziella, sua mãe, que há quatorze anos foi enterrada viva em um sótão, o templo da beleza construído numa pocilga. "

            Enquanto a fada falava, o rei que tinha ouvido cada palavra adiantou-se para saber melhor a verdade sobre o assunto; e descobriu que Miuccio era seu filho e de Porziella, e que a mãe ainda estava viva no sótão; ele deu, então, ordens que ela deveria ser libertada e levada perante ele. E ao vê-la mais bonita que nunca devido aos cuidados do pássaro, ele abraçou-a com o maior carinho, e nunca esteve tão satisfeito em seu coração, primeiro a mãe e depois o filho, pedindo perdão a Porziella pelos maus tratos que lhe causara e a seu filho por todos os perigos a que o expusera. Então ele ordenou que a vestissem com os trajes mais ricos, e coroou-a como rainha diante de todas as pessoas.

            E quando o rei ouviu que sua preservação e que a salvação do filho haviam ocorrido graças ao pássaro, ele ofereceu-lhe seu reino e sua vida. Mas o pássaro disse que ele não desejava outra recompensa por seus serviços que ter Miuccio por marido; e assim que pronunciou essas palavras foi transformado em uma linda donzela, e, para grande alegria e satisfação do rei e de Porziella, foi dada a Miuccio como esposa. Em seguida, o casal para dar ainda maiores festas, foi para seu próprio reino, onde eram ansiosamente esperados, cada um atribuindo a boa fortuna à fada e à gentileza que Porziella tinha feito por ela, pois...

   "Uma boa ação nunca é perdida."

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Dragões (do grego drákon, δράκων) são criaturas presentes na mitologia dos mais diversos povos e civilizações. São representados como animais de grandes dimensões, normalmente de aspecto reptiliano (semelhantes a imensos lagartos ou serpentes), muitas vezes com asas, plumas, poderes mágicos ou hálito de fogo.

Durante a idade média as histórias sobre batalhas contra dragões foram numerosas. A existência dessas criaturas era tida como inquestionável, e seu aspecto e hábitos eram descritos em detalhes nos bestiários da Igreja Católica. Segundo os relatos tradicionais, São Jorge teria matado um dragão. Aqui, na fábula, caberá a Miuccio o filho incógnito do rei, o papel de Santo Guerreiro.

Na fábula de Basile, o dragão é o duplo da madrasta do rei. Um duplo estúpido, que contrasta com a esperteza da rainha. Esperteza esta sempre vinculada ao amor incestuoso pelo enteado.

O enteado, o rei, por sua vez, não pode, enquanto a madrasta era viva relacionar-se com mulheres. Ele as mata, seu Édipo é mais forte que qualquer paixão. Até mesmo treme perante a beleza daquela a quem esposara e a condena a morrer de fome e sede num sótão.

A feiticeira, que tomara o palácio real, por ser mulher, não pode ser pelo rei enfrentada. Ele não o conseguirá fazer enquanto ela o enxergar como homem e por isso deve ser cegada.

A moral da história reflete um primeiro ato de Porziella ao evitar que uma fada fosse estuprada por um sátiro durante o sono. Na sequência, a fada metamorfoseia-se em pássaro e a protegerá, pois:  "Uma boa ação nunca é perdida."

Obs.: O pássaro diz retoricamente para Miuccio que sangue de dragão é para ele "sangue de boi", ou seja, um veneno mortal, de acordo com o poeta romano Plínio.

Conto Vigésimo Terceiro: “Os dois bolos”.

Sempre ouvi dizer que quem proporciona prazer também o encontra; o sino de Manfredônia diz: "Dá-me, eu te dou"; aquele que não coloca a isca no anzol das afeições e da cortesia, nunca pega o peixe da bondade; e se quiserem ouvir a prova disso, ouçam minha história, e depois digam se o avarento não perde sempre mais que o liberal.

 

            Era uma vez duas irmãs, chamadas Luceta e Troccola; por sua vez, elas tinham duas filhas Marziella e Puccia.  Marziella era tão formosa quanto boa de coração; enquanto, ao contrário, Puccia tinha um rosto repleto de feiúra e um coração de peste; e a verdade é que as meninas se pareciam com suas mães, pois Troccola era uma harpia por dentro e um espantalho por fora.

            Ora, aconteceu que Luceta ferveu alguns nabos para fritá-los com molho verde; então ela disse para a filha, "Marziella, filha querida, vá e traga-me um jarro de água." "Com todo o coração, mãe", respondeu a menina, "mas se você me ama, dê-me um pedaço de bolo, que gostaria de comer com um pouco de água." "Logo", disse a mãe; então ela tirou de um cesto que estava pendurado em um gancho, um belo bolo feito no dia anterior, e deu a Marziella que colocou o jarro em uma almofada sobre a cabeça, e foi até a fonte que, como um charlatão de pé em um banco de mármore com a música da água caindo, vendia segredos para afastar a sede. E ela foi abaixando-se para encher seu cântaro, quando chegou uma velha corcunda e vendo o belo bolo que Marziella só agora ia morder, disse-lhe:

            "Minha menina bonita, dá-me um pequeno pedaço de seu bolo, e o céu irá enviar-lhe boa sorte! "Marziella, que era tão generosa quanto uma rainha, respondeu: "Leve tudo, minha boa mulher, e só lamento que não seja feito de açúcar e amêndoas, pois eu igualmente lhe daria de todo o meu coração."

            A velha, vendo a bondade de Marziella, disse-lhe: "Vá, e que o céu a recompense pelo bem que você me fez; rezarei a todas as estrelas para que você nunca deixe de ser contente e feliz! Que quando você respirar rosas, jasmins possam da sua boca sair, quando você pentear seus cachos de cabelo, pérolas e granadas possam deles cair, e quando você puser o pé sobre a terra, lírios e violetas possam surgir". Marziella agradeceu à velha e fez seu caminho para casa onde sua mãe, depois de ter preparado um pouco de jantar, pagou a dívida natural para com o corpo e terminou o dia.

            Na manhã seguinte, quando o Sol exibia no mercado local dos campos celestes a mercadoria da luz que ele havia trazido do oriente, estando Marziella penteando o cabelo, uma chuva de pérolas e granadas caíram em seu colo. A moça chamou a mãe com grande alegria e elas as colocaram em uma cesta, e Luceta foi vender grande parte delas a um agiota, seu amigo. 

            Nesse tempo, Troccola veio ver a irmã e encontrou Marziella muito feliz ocupada com as pérolas, e perguntou-lhe como, quando, e onde ela as tinha conseguido. A moça, que não entendia os caminhos do mundo, e talvez nunca ouvira o provérbio: "Não fazer tudo o que for capaz, não comer tudo o que quiser, não gastar tudo o que tiver e não dizer tudo o que você souber", contou todo o assunto para a tia. E ela não se importou mais em aguardar o retorno da irmã, e cada hora parecia feita de mil anos até voltar para sua casa. Trocolla, ao chegar, foi logo dando um bolo para a filha e enviou-a até a água da fonte.

            Lá Puccia encontrou a mesma velha. E quando a velha lhe pediu um pedaço de bolo, ela respondeu rispidamente, "Por que eu deveria dar-lhe bolo? Você acha que sou tão tola a ponto de dar o que me pertence? A caridade começa em casa". E assim dizendo, engoliu o bolo em quatro bocadas, fazendo água na boca da velha, que quando viu o último pedaço desaparecer junto com suas esperanças, exclamou com raiva: "Sempre que você respirar irá espumar pela boca como uma mula, sapos cairão de seus lábios, e toda vez que você colocar os pés no chão, samambaias e ervas daninhas surgirão!"

            Puccia pegou a jarra de água e voltou para casa, onde estava a mãe que era só impaciência para ouvir o que tinha acontecido na fonte.  Mas assim que Puccia abriu os lábios, uma chuva de sapos caiu deles, uma visão a que a mãe acrescentou o fogo da raiva e a neve da inveja, pondo chamas e fumaça pelo nariz e pela boca.

            Ora, aconteceu algum tempo depois que Ciommo, irmão de Marziella, estando na corte do rei do Chiunzo, participava de uma conversa que corria ligada à beleza das mulheres. Foi quando ele deu um passo à frente sem ser convidado e disse que todas as mulheres bonitas podiam esconder a cabeça onde sua irmã fizesse aparição, que ao lado da beleza da forma tinha a harmonia musical de uma alma nobre, possuindo virtudes maravilhosas, cabelos, boca e pés, tudo dado a ela por uma fada. Quando o rei ouviu esses louvores disse para Ciommo trazer a irmã para a corte, acrescentando que se ele a visse como fora representado, iria tê-la por esposa.

            Ciommo não queria perder a chance e então mandou um mensageiro até sua mãe dizendo-lhe o que tinha acontecido e pedindo-lhe para vir imediatamente com a filha, a fim de não deixar escapar a boa sorte. Mas Luceta, que se sentia bem elogiando o cordeiro ao lobo, pediu à irmã ter a gentileza de acompanhar Marziella à corte de Chiunzo para tal e tal coisa. Ao que Troccola, sentindo que as coisas estavam ao alcance da mão, prometeu levar Marziella sã e salva até o irmão, e embarcou com sua sobrinha e Puccia em um barco. Quando elas estavam no mar, enquanto os marinheiros dormiam, ela jogou Marziella na água, e a pobre garota esteve a ponto de se afogar, até ser socorrida por uma linda sereia que a tomou nos braços, salvando-a.

            Quando Troccola chegou a Chiunzo, Ciommo que não via a irmã há muito tempo, confundiu-se e recebeu Puccia como se fosse Marziella, e levou-a até o rei. Mas assim que ela abriu os lábios, sapos caíram ao chão e quando o rei olhou para ela mais de perto, viu uma espuma sair de sua boca, que mais parecia um tanque de lavar roupa; e olhando para o chão ele viu um prado de plantas fedorentas. Com isto, ele mandou Puccia e sua mãe para longe, e enviou Ciommo, em desgraça, para dar de comer aos gansos da corte.

Ciommo, em desespero e sem saber o que havia acontecido, levava os gansos aos campos, e deixando-os seguir o seu caminho ao longo da costa, costumava retirar-se para um pequeno galpão de palha, onde chorava a sua má sorte de manhã à noite, quando era hora de voltar para casa.  No entanto, todas as vezes que os gansos corriam pela praia, Marziella, que por lá estava, saia da água e alimentava-os com doces e dava-lhes água de rosas para beber; então os gansos cresciam e ficavam  grandes como ovelhas e gordos como nunca se vira.

            E uma noite, quando eles entraram em um pequeno jardim sob a janela do Rei, os gansos começaram a cantar:"Pire-pire-pire! O sol e a lua são brilhantes e claros, mas aquela que nos alimenta é ainda mais linda ". O rei, ao ouvir a canção dos gansos por noites e noites, ordenou que Ciommo fosse chamado, e perguntou-lhe onde, como, e com o que ele alimentava os gansos. 

            Ciommo respondeu: "Eu lhes dou nada para comer, exceto a frescura da relva do campo." O rei não ficou satisfeito com a resposta e mandou um servo fiel seguir Ciommo, para ver onde ele levava os gansos. O homem seguiu seus passos e viu-o entrar no pequeno galpão de palha, deixando os gansos por si mesmos; e seguindo-os, nem bem haviam chegado à costa, viu Marziella que se levantava do mar e fazia a alegria dos gansos. O servo do rei correu para seu chefe fora de si de espanto e contou-lhe o espetáculo incrível que havia visto na praia. A curiosidade do rei foi tanta que teve o desejo de ver por si próprio a cena.

            Assim, na manhã seguinte, quando o galo, líder dos pássaros, que anima os braços dos homens após a noite, cantara e Ciommo saíra com os gansos para o lugar de costume, o Rei seguiu-o de perto; e quando os gansos vieram para o mar sem Ciommo, que permaneceu como sempre no pequeno galpão, o rei viu Marziella surgindo fora da água.  E depois de dar aos gansos uma cesta de doces para comer e um copo cheio de água de rosas para beber, ela sentou-se em uma pedra e começou a pentear os cabelos, dos quais caíam punhados de pérolas e granadas; ao mesmo tempo, uma nuvem de flores saia de sua boca, e sob seus pés formava-se um tapete sírio de lírios e de violetas. Quando o rei teve essa visão, ordenou que Ciommo fosse chamado, e apontando para Marziella, perguntou-lhe se ele sabia quem era a linda donzela.  Então Ciommo, reconhecendo a irmã, correu a abraçá-la, e na presença do rei teve notícias de todos os comportamentos traiçoeiros de Troccola, assim como a inveja daquela criatura perversa que trouxera o fogo do amor para habitar nas águas do o mar.

            A alegria do rei não pode ser contada. Voltando-se para o irmão, disse que ele tinha bom motivo para louvar a irmã, e que, na verdade ele a via três vezes mais bonita do que Ciommo lhe descrevera; ele a considerou, portanto, mais que digna de ser sua esposa e receber o cetro do reino. "Ai de mim, estaria no céu se assim pudesse ser!" respondeu Marziella, "e eu o serviria como escrava de sua coroa! Mas vejo que não viu a corrente de ouro no meu pé pelo qual a fada me tem prisioneira. Quando eu tomo muito ar fresco e fico muito tempo na costa, ela me chama para as ondas e, assim, mantém-me em escravidão, presa a uma rica corrente de ouro. "

            "Qual o caminho", disse o rei, "para livrá-la das garras da sereia?" "O caminho", respondeu Marziella, "é cortar essa cadeia com uma lima bem suave.""Espere até amanhã de manhã", respondeu o rei. "Virei com tudo o que for necessário e vou levá-la para casa comigo, onde você será o aluno de meus olhos, o núcleo do meu coração, e a vida de minha alma."

            E, em seguida, trocando um aperto de mãos como penhor de seu amor, ela voltou para a água e ele ao fogo - e em tal fogo que na verdade não teve uma hora de descanso durante todo o dia. E quando a velha bruxa negra da noite saiu para ter uma dança rural com as estrelas, ele não fechou o olho ruminando as belezas da Marziella, discursando no pensamento das maravilhas de seu cabelo, os milagres de sua boca, e as maravilhas de seus pés; e aplicando o ouro de suas graças como a pedra de toque do julgamento, descobriu que ela tinha vinte e quatro quilates.  Mas censurou a noite por não deixar de fora o bordado das estrelas, e repreendeu o Sol por não chegar com o carro de luz para enriquecer sua casa com o tesouro que ele desejava: uma mina de ouro que produzia pérolas, uma ostra de pérolas de onde brotavam flores.

            Mas enquanto ele estava assim no ar, pensando naquela que passava todo o tempo no mar, eis que os pioneiros do sol apareceram, suavizaram a estrada pela qual ele tem que passar com o exército de seus raios. Então o rei vestiu-se e foi com Ciommo à beira-mar, onde encontrou Marziella; o rei, com sua própria mão, cortou a corrente da perna do objeto amado usando a serra que trouxera, e o tempo todo forjou ainda mais forte o seu coração.

            Após o que a colocando na sela do cavalo, partiu para o palácio real, onde todas as senhoras nobres da terra foram apresentadas e receberam Marziella com a devida honra. Em seguida, o rei se casou e houve uma grande festa. Ele ainda ordenou que Troccola tivesse a boca calada jogando-a em um poço, sofrendo pela traição que havia praticado contra Marziella. Em seguida, enviou para Luceta e Ciommo o suficiente para viverem como príncipes.

            Quanto a Puccia, expulsa do reino, perambulava como mendiga como recompensa por não ter dado um pouco de bolo, sofrendo pela falta constante do pão; pois é a vontade do Céu que:

 "Aquele que não mostre piedade não a encontre."

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A fábula é repleta de nomes com duplo significado. Por exemplo, o reino de Chiunzo, lembra a denominação de uma antiga montanha perto da costa amalfitana, mas que também significa “tolo”, “idiota”. O nome Trocolla nos traz o conhecido reco-reco de madeira, antigamente utilizado no acompanhamento de procissões. Puccia é um tipo específico de massa para pães que assume diferentes formatos ao forno.

Todo o moral da história é voltado para a prática de boas ações para com os idosos e necessitados. De uma forma ou de outra, seriam recompensados, ao contrário da inveja e das ações egoístas.

Obs.: Manfredônia é uma pequena comuna italiana localizada na Foggia.

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