Espaço Literário

Marcel Proust

Redes sociais

  • White Facebook Icon

© 2019 por Carlos Russo Jr.

Todos os direitos reservados

“O Conto dos Contos”

Capítulo 14 - Conto Vigésimo Quarto: “Os Sete Pombos”.

Aquele que propicia prazer termina por encontrá-lo; a bondade é o vínculo da amizade e o gancho do amor; quem não semeia não colhe; se vocês tiverem em mente o que Cato diz "fale pouco à mesa", tenham a bondade de me emprestar seus ouvidos por algum tempo.

 

            Era uma vez, em Arzano, uma boa mulher que a cada ano dava à luz um filho, até que, finalmente, havia sete deles que se pareciam com os tubos do deus Pã, sete bambus um maior que o outro. E quando o último deles tinha mudado os dentes de leite, os filhos disseram para Jannetella, a mãe: "Pobre da senhora, se depois de tantos filhos, desta vez não tiver uma menina, estamos decididos a sair de casa e vagar pelo mundo, como os filhos dos melros."

            Quando a mãe ouviu esta triste imposição, orou aos Céus para remover de tal intenção os filhos e impedi-la de perder as sete jóias que, para ela, eles eram. Quando a hora do novo nascimento estava próxima, os filhos disseram à Jannetella: "Vamos para o topo da colina. Se você der à luz um filho, coloca um tinteiro e uma caneta na janela; mas se tiver uma menina, coloca uma colher e uma roca. Se virmos que o sinal é de uma menina voltamos para casa e passaremos o resto de nossas vidas sob suas asas; mas se o sinal for um filho, então se esqueça de nós, saiba que partiremos ".

            Aprouve aos Céus que Jannetella trouxesse uma bonita menina; então ela disse à parteira para fazer o sinal aos irmãos, mas a mulher era tão estúpida e confusa que colocou o tinteiro e a caneta.  Assim que os sete irmãos viram o sinal partiram, e caminharam sobre e sobre, até o final de três anos quando chegaram a um bosque, onde as árvores estavam realizando a dança da espada ao som de um rio que fazia sua música sobre as pedras. Neste bosque ficava a casa de um ogro cujos olhos, tendo sido cegados enquanto dormia por uma mulher, era inimigo daquele sexo e devorava a todas que podia pegar.

            Quando os jovens chegaram à casa do ogro, cansados da caminhada e com fome, rogaram-lhe pelo amor de Deus para dar-lhes um bocado de pão. E o ogro respondeu que se eles o servissem, ele lhes daria comida. Que não teriam nada mais a fazer que guardá-lo como um cão, um de cada vez, todos os dias.  Os jovens pensaram haver encontrado um pai e uma mãe; consentiram e mantiveram-se a serviço do ogro, que tendo decorado seus nomes, chamava uma vez por Giangrazio, em outro momento por Cecchitiello, agora por Pascale, agora Nuccio, agora Pone, agora Pezzillo, e agora Carcavecchia, e dando-lhes um quarto na parte inferior da casa, ofereceu-lhes sempre o suficiente para viver.

            Enquanto isso a irmã dos jovens crescera e ouvira falar que seus sete irmãos, devido à estupidez da parteira, tinham decidido percorrer o mundo e que nenhuma notícia jamais tinha sido recebida. Ela tomou como seu dever partir em busca deles e pediu tanto para sua mãe e rezou que, finalmente, superada por suas súplicas esta deixou-a ir vestindo-a como um peregrino.        A moça andou e andou, perguntando em cada lugar que chegava se alguém tinha visto sete irmãos.  E, assim, ela viajou até que, finalmente, recebeu notícia deles em uma pousada; seguiu o caminho do bosque e numa manhã, na hora em que o sol com o canivete de seus raios sai arranhando a  noite na folha do céu, chegou à casa do ogro.

            Reconhecida pelos irmãos com grande alegria, todos amaldiçoaram o tinteiro e a caneta que escrevera falsamente a desgraça de todos. Em seguida de mil carícias, pediram-lhe que ficasse quieta em seu quarto, pois o ogro não poderia vê-la. Recomendaram, ao mesmo tempo, que parte de tudo do que ela tivesse para comer, desse-o a um gato que estava na sala, para evitar que lhe fizesse algum mal. Cianna, pois este era seu nome, escreveu o conselho no bolso de seu coração, e compartilhou tudo com o gato, sempre cortando com justiça, e dizendo: "Isto para mim, isto por ti e este para a filha do rei", dando ao gato uma parte do último pedaço.

            Ora, aconteceu um dia que os irmãos tendo ido para caçar para o ogro, deixaram para Cianna um pequeno cesto de grão de bico para cozinhar; e quando ela foi pegá-los, por má sorte ela encontrou dentre estes uma avelã, que comeu sozinha. Por ter engolido sem dar a parte do gato, este por despeito, saltou sobre a mesa e apagou a vela. Cianna não sabendo o que fazer, saiu do quarto contrariando a ordem de seus irmãos, e indo à câmara do ogro implorou por um pouco de luz. O ogro, ao ouvir a voz de mulher, disse: "Bem vinda, senhora, espere um pouco, você encontrou o que estava procurando." E assim dizendo, ele pegou uma pedra e começou a aguçar suas presas. Cianna, que viu seu carro em rota errada, tomando um pedaço de vela acesa, correu para o quarto; e trancando a porta por dentro, colocou contra ela bancos, estrados, mesas, pedras e tudo o que havia por lá.

            Assim que o ogro terminou de afiar os dentes, ele correu para a câmara dos irmãos, e encontrando a porta fechada, começou a chutá-la para quebrá-la. O barulho fez com que os sete irmãos voltassem à casa e, ouvindo serem acusados pelo ogro de traição por fazerem de sua câmara um refúgio para seus inimigos, as mulheres, Giangrazio, que era o mais velho e tinha mais senso que os outros, disse ao ogro: "Não sabemos nada desse assunto, e pode ser que essa mulher perversa tenha entrado por acaso na sala enquanto estávamos na caça, mas como ela se fortificou venha comigo, que vou levá-lo para um lugar onde podemos agarrá-la sem que possa se defender. "

            Em seguida ele tomou o ogro pela mão e levou-o à beira de um poço profundo, onde, dando-lhe um empurrão jogou-o de cabeça no fundo; e tomando uma pá, cobriu tudo com terra. Em seguida, os irmãos mandaram Cianna desentulhar a porta, mostraram-lhe o erro que tinha cometido e o perigo em que ela mesma tinha-se colocado.

            Disseram-lhe para ser mais cuidadosa no futuro, e que se precavesse de arrancar a vegetação sobre o local onde o ogro fora enterrado, pois se isso ocorresse, os irmãos seriam transformados em sete pombos.             "O céu me impedirá de trazer essa desgraça para vocês!"  respondeu Cianna. Assim, tendo a posse dos bens móveis do ogro e donos de toda a casa, eles viviam lá alegremente, esperando até o inverno passar, e que o sol tomasse posse da casa de touro, dando de presente para a Terra um vestido verde bordado com flores, quando poderiam partir de volta para a própria casa.

            Ora, aconteceu que um dia, quando os irmãos tinham ido às montanhas buscar lenha para se defender contra o frio que aumentava dia a dia, um pobre peregrino veio ao bosque do ogro, e fez caretas para um macaco que estava empoleirado em um pinheiro; o macaco atirou maçãs verdes do alto da árvore na cabeça do homem e uma delas o acertou, de forma que o coitado gritou. Cianna ouviu o barulho e saiu. Por piedade do desastrado, pegou rapidamente um raminho de alecrim de um tufo que crescera sobre o túmulo do ogro e em seguida fez-lhe um curativo com pão e sal grosso, e depois de dar ao homem um café da manhã, mandou-o embora.

            Enquanto Cianna estava deitada esperando pelos irmãos, viu que sete pombos vinham voando, e lhe diziam: "Ah! melhor que a sua mão tivesse sido cortada, você é a causa de nossa desgraça, arrancou um alecrim maldito e trouxe a calamidade sobre nós! Já comeu cérebro de gato, oh irmã, é ele que comanda o seu raciocínio? Viramos pássaros, presa das garras de papagaios, gaviões e falcões! Eis o que nos fez companheiros de galinhas de água, narcejas, pintassilgos, pica-paus, gralhas, corujas, corvos, gralhas, gralhas, estorninhos, galinholas, galos, galinhas e frangos, perus, melros, tordos, tentilhões, pintarroxos, cotovias, tarambolas, maçaricos, pardais, patos, pombos torcazes! Uma coisa rara de se fazer! E agora podemos voltar à nossa terra para encontrar redes e substâncias viscosas para nos prender! Para curar a cabeça de um peregrino você quebrou a cabeça dos sete irmãos. Não há qualquer ajuda para nossa infelicidade, a menos que você encontre a Mãe do Tempo, que irá lhe dizer o geito de nos tirar desse apuro."

            Cianna, parecendo uma codorna, viu a falha que havia cometido, pediu perdão a seus irmãos e se comprometeu a dar a volta ao mundo até encontrar a morada da Velha. Em seguida, rezou para não saíssem da casa até que voltasse. Partiu e viajou sem nunca se cansar; ela que ia a pé, no desejo de ajudar seus irmãos, fez mais de três quilômetros por hora. Ao fim ela chegou à beira-mar, onde os golpes das ondas batiam nas rochas, e viu uma baleia enorme, que lhe disse: "Minha linda donzela, o que você está procurando?"  Ela respondeu: "Eu estou procurando a morada da Mãe de Tempo". " Ouça o que você deve fazer ", respondeu o cetáceo," vá direto ao longo da costa até o primeiro rio, aí siga-o até à fonte, e você vai encontrar alguém que irá mostrar-lhe o caminho, mas me faça um favor, quando encontrar a boa velha, peça dela a gentileza de me ensinar algum meio pelo qual eu possa nadar em segurança, sem me bater tantas vezes contra as rochas que estão me jogando para as areias."

            "Confie em mim", disse Cianna e agradecendo à baleia por apontar-lhe o caminho, partiu ao longo da costa; depois de longa viagem encontrou o rio, que como um funcionário do tesouro desembolsava dinheiro de prata nas margens do mar. Tomou o caminho até a nascente e chegou a um bonito campo, onde o prado disputava com o céu, mostrando um manto verde, tendo estrelas como flores; e lá ela encontrou um rato que lhe disse: "Para onde você está indo sozinha, minha linda menina?" Cianna respondeu: "Estou procurando a Mãe do Tempo". "Você tem um longo caminho a percorrer", disse o rato; "mas não desanime, tudo tem um fim. Caminhe em direção à montanha que como os senhores livres desses campos assume o título de Alteza, e em breve você terá mais novidades do que está procura. Mas me faça um favor, quando você chegar ao lugar que você deseja encontrar, peça à boa velha para dizer o que se pode fazer para nos livrarmos da tirania dos gatos, então me conte e serei seu escravo. "

            Cianna, depois de prometer o favor para o rato, partiu em direção às montanhas, que, embora dessem a impressão de estar ao alcance da mão, pareciam que nunca seriam alcançadas. Mas, tendo chegado por fim, sentou-se cansada em uma pedra e lá viu um exército de formigas, carregando uma grande quantidade de grãos, uma dos quais se voltando para Cianna disse: "Quem és tu e para onde vais?" Cianna, que era cortês com todos, disse-lhe: "Eu sou uma menina infeliz, que por um problema que criei estou procurando a morada da Mãe de Tempo."

            "Vá em frente", disse a formiga, “e onde essas montanhas abrirem-se em uma grande planície que você terá mais notícias. Mas me faça um grande favor, obtenha com a mulher velha um conselho, o que nós, as formigas, podemos fazer para viver um pouco mais, pois me parece uma loucura acumular uma grande loja de alimentos para uma vida tão curta ".            "Fique à vontade", disse Cianna, "Vou retribuir a gentileza que me fizeram."

            Em seguida, ela atravessou as montanhas e chegou a uma ampla planície; e prosseguindo até um grande carvalho, que era um monumento à antiguidade, cujos frutos tinham gosto de doce para a moça, já que ela se satisfazia com muito pouco. O carvalho, tornando lábios sua casca e língua sua medula, disse a Cianna: "Para onde você está indo tão triste, minha filhinha? Venha e descansa debaixo da minha sombra." Cianna agradeceu-lhe muito, mas desculpou-se, dizendo que ela estava indo com pressa para encontrar a Mãe do Tempo. O carvalho respondeu-lhe: "Você não está longe, antes de mais um dia verá em cima de uma montanha uma casa, onde encontrará a quem busca. Mas se você tem tanta bondade como beleza, eu preciso pedir para mim um conselho, que posso fazer para recuperar minha honra perdida, pois em vez de ser comida por grandes homens, agora sou a comida de porcos ".

            "Deixe isso para mim", respondeu Cianna: "Vou atendê-la." Assim dizendo, ela partiu, e andando sem parar, sem nunca descansar, chegou afinal ao pé de uma montanha impertinente, que estava cutucando sua cabeça no rosto das nuvens. Lá ela encontrou um homem velho cansado, deitado em cima de um pouco de feno; e assim que ele a viu reconheceu-a, pois fora ela quem havia curado a lesão de sua cabeça por certa maçã verde.

Quando o velho ouviu o que ela estava procurando, disse-lhe que o tempo era um tirano que usurpa tudo no mundo, cobrando tributo de todos, e especialmente das pessoas mais jovens; e acrescentou que, tendo recebido uma bondade de Cianna, agora iria retribuir cem vezes, dando-lhe algumas dicas sobre sua chegada ao monte, uma vez que estava arrependido por não poder acompanhá-la até lá, já que sua idade avançada o condenava, fazendo-o ir mais para baixo que para cima, obrigando-o a permanecer ao pé das montanhas e acertar as contas com os funcionários do Tempo - que são os trabalhos, os sofrimentos e as fraquezas da vida - e pagar a dívida da vida vivida para com a Natureza. O velho ainda disse: "Agora, minha criança inocente, escute-me. No topo dessa montanha você encontrará uma casa em ruínas, que foi construída há muito tempo, em tempos imemoriais. As paredes estão rachadas, as fundações esfarelando, as portas comidas, os móveis desgastados, pois, em suma, tudo se foi num destruir e arruinar-se. De um lado, são vistas colunas quebradas, de outro, estátuas quebradas e nada é deixado em bom estado, exceto um escudo de armas sobre a porta, em que você vai ver uma serpente que morde a cauda, ​​um veado, um corvo, e uma fênix. Quando entrar, vai ver pelo chão uns arquivos, serras, foices, foices e foices, e centenas e centenas de navios cheios de cinzas, com os nomes escritos sobre eles, como ventosas na loja de um boticário; e irá ler as placas de Corinto, Sagunto, Cartago, Tróia, e milhares de outras cidades, cinzas que as Horas preservam como troféus de suas conquistas.

            "Quando você chegar perto da casa, esconda-se até que o Tempo saia, e assim que ele sair entra e encontrará um Velho com uma barba que toca o chão e uma corcunda que chega ao céu. Seu cabelo, como a cauda de um cavalo tordilho, envolve os calcanhares, seu rosto se parece com um colar trançado com as dobras enrijecidas pelo passar de anos. A Velha, a Mãe do Tempo, está sentada em cima de um relógio, que está preso a uma parede, e suas sobrancelhas são tão grandes que cobrem os olhos, para que ela não seja capaz de ver.”

            “Assim que você entrar, rapidamente tira os pesos fora do relógio, em seguida chama pela Velha, e peça-lhe responder às suas perguntas; então ela irá chamar o seu filho para vir te comer. Mas o relógio, sobre o qual a velha senta, tendo perdido seus pesos, impede o filho de se mover, e ela vai, portanto, ser obrigada a dizer o que você deseja. Mas não confie em qualquer juramento que ela faça, a não ser que ela jure pelas asas de seu filho e então você poderá ficar satisfeita."

            Assim dizendo, o pobre velho caiu e desmoronou, como um cadáver trazido de uma catacumba para a luz do dia. Então Cianna pegou as cinzas e misturou-as com um litro de lágrimas, fez uma cova e enterrou-as, orando ao céu para conceder-lhe calma e repouso.  E subindo a montanha até quase ficar sem fôlego, ela esperou que o Tempo saísse. Viu que ele era também um homem velho, com uma longa, longa barba, e que usava um casaco muito velho coberto com tiras de papel, onde estavam escritos os nomes de incontáveis pessoas. Tinha grandes asas, e voou tão rápido que ficou fora de suas vistas em um instante.

            Quando Cianna entrou na casa da Mãe do Tempo, começou a ter muito medo, mas pegando rapidamente os pesos do relógio, disse o queria à velha, que num grande grito, chamou o filho. Mas Cianna falou-lhe: "Você pode meter a cabeça contra a parede quanto quiser, mas não vai ver seu filho enquanto eu segurar esses pesos do relógio." Então a Velha, sentindo-se frustrada, começou a persuadir Cianna, dizendo: "Deixe-os de lado, minha querida, e não pare o curso de meu filho, pois nenhum homem vivo jamais conseguiu fazê-lo! Eu prometo a você, pelo ácido de meu filho com o qual ele corrói tudo, que eu não vou fazer nenhum mal a você ".

            "Perda de tempo", respondeu Cianna, “você deve-me dizer algo melhor.""Eu juro por esses dentes, que roem todas as coisas mortais, que vou dizer-lhe tudo o que deseja." "Isto é tudo do nada", respondeu Cianna, "porque eu sei que você está me enganando."       "Bem, então", disse a velha, "eu juro a você pelas asas que voam sobre tudo que vou lhe dar mais do que imagina."

            Então Cianna, soltando os pesos, beijou a mão da Velha, tendo uma sensação de mofo e um cheiro desagradável. E a velha vendo a cortesia da menina, disse-lhe: "Esconda-se atrás da porta, e quando o Tempo chegar em casa vou lhe dizer tudo o que você deseja saber, pois já li em sua cabeça todas suas perguntas. E assim que ele sair novamente, pois ele nunca fica quieto em nenhum lugar, você pode se afastar. Mas não se deixe ser ouvida ou vista, pois ele é como um glutão que não poupa sequer os próprios filhos, e quando tudo falha, devora a si mesmo e depois nasce novamente”.  

            Cianna fez o que a velha disse e eis!  Logo após o Tempo veio voando rápido, rápido, alto e roeu o que viera entregar e até a cal das paredes; ele estava prestes a partir novamente quando sua mãe lhe disse tudo o que tinha ouvido de Cianna, rogando-lhe pelo leite que lhe havia dado que respondesse exatamente a todas suas perguntas.  Depois de mil solicitações, o filho falou: "Para a árvore pode ser dito que nunca poderá ser apreciada pelos homens desde que guarde tesouros enterrados sob suas raízes; para os ratos, que eles nunca estarão a salvo do gato, a menos amarrem um sino na perna deste para saberem quando ele está chegando; para as formigas, que elas viverão cem anos se puderem deixar de voar, pois quando a formiga quer morrer, coloca asas; à baleia, que deve ter ânimo e fazer amizade com o mar, que lhe servirá como guia para que não bata em lugar errado; e aos pombos, que, quando estiverem em cima da coluna da riqueza, eles voltarão ao seu estado anterior ".

            Assim dizendo, cumpriu com o seu costume; e Cianna, despedindo-se da mulher idosa, desceu até o pé da montanha, apenas no exato instante em que os sete pombos, que seguiram os passos da irmã, chegavam lá. Cansados com o vôo, eles pararam para descansar no chifre de um boi morto; e tão logo pousaram, foram transformados em belos jovens como o eram no início. Ficaram maravilhados, quando ouviram a resposta que tinha dado o Tempo e viram que o chifre, como o símbolo da abundância, fora a coluna da riqueza da qual aquele havia falado.

Em seguida, abraçando a irmã com grande alegria, todos partiram pela mesma estrada pela qual Cianna havia chegado. E quando chegaram ao carvalho e disseram o que Cianna tinha ouvido falar pelo Tempo, a árvore implorou-lhes que levassem o tesouro que estava em suas raízes, uma vez que era a causa pelas quais suas bolotas tinham perdido reputação. Então os sete irmãos, tendo uma pá que encontraram em um jardim, cavaram até que chegaram a um grande monte de ouro, que dividiram em oito partes entre si e a irmã, levando-o convenientemente repartido. Mas, cansados da viagem e da carga, se deitaram para dormir debaixo da cobetura da árvore.

            Logo, um bando de ladrões chegou e vendo os pobres coitados dormindo com a cabeça sobre os sacos de dinheiro, amarraram suas mãos e pés a algumas árvores e levaram os sacos, deixando-os para lamentar não só a sua riqueza, que tinha escorregado por entre os dedos, mas também a vida; sem esperança de socorro, eles estavam em perigo de morrer de fome ou de apaziguar a fome de uma fera selvagem. Quando lamentavam a sorte infeliz, até eles chegou o rato, que tão logo ouviu a resposta que tinha sido dada pelo Tempo, em troca do bom serviço mordiscou as cordas com que estavam amarrados. E, tendo ido um pouco mais longe pelo caminho, eles se encontraram na estrada com a formiga, que ao ouvir o conselho do Tempo, perguntou a Cianna qual era o problema porque ela estava tão pálida e abatida. E quando Cianna contou-lhe seu infortúnio e o truque dos ladrões, a formiga respondeu: "Agora posso retribuir a gentileza que me fez. Enquanto eu estava levando uma carga de grãos, vi o lugar onde esses cães assassinos escondem seus saques. Eles fizeram alguns buracos sob um edifício antigo para todas as coisas que roubam. Quando saírem para novo assalto, eu irei com vocês e mostrarei o lugar, para que possam recuperar o seu dinheiro. "

            Assim dizendo, tomou o caminho de algumas casas demolidas e mostrou aos sete irmãos a boca de um poço; Giangrazio, que era mais ousado que o resto entrou e encontrou lá todo o dinheiro de que tinham sido roubados. Em seguida partiram e caminharam em direção à beira-mar, onde encontraram a baleia, e disseram-lhe o bom conselho que o Tempo, que é o pai do conselho, lhe enviara. 

            Ao mesmo tempo em que falavam de sua jornada e tudo o que lhes havia acontecido, eles viram os ladrões aparecerem de repente armados até os dentes, pois tinham seguido seus passos.  Exclamaram: "Ai de nós, ai de nós! agora estamos totalmente perdidos, pois aí vêm os assaltantes armados, e eles não vão deixar nem a pele em nossos corpos.""Não tenham medo”, respondeu a baleia, “posso salvá-los e retribuir o amor que me demonstraram; subam sobre as minhas costas,  vou levá-los para um lugar seguro."  Cianna e seus irmãos ao verem o inimigo em seus calcanhares e a água até nas gargantas subiram na baleia, que se mantendo longe das rochas levou-os para dentro da baía de Nápoles. Mas com medo de colocá-los na rota dos cardumes e baixios, disse, "onde vocês gostariam que eu os deixasse? Na costa de Amalfi?"

            E Giangrazio respondeu: "Veja se isso pode ser evitado meu querido peixe, eu não desejo pousar em qualquer lugar por aqui; pelo Massa se ​​diz os ladrões de Sorrento são muitos, em Vico eles dizem que cada um o pode ser à sua maneira, em Castel-a-Mare ninguém diz como se é. " A baleia para agradá-los virou-se e foi em direção à Rocha do Salto onde os deixou; e eles foram colocados em terra pelo primeiro barco de pesca que por ali passava.  Então voltaram para seu lugar de origem, sãos, salvos e ricos, com grande alegria e consolação para sua mãe.  E, graças à bondade de Cianna, eles desfrutaram de uma vida feliz pelos tempos dizendo:-

 "Faça o bem sempre que puder, e esqueça-o."

 

Comentários

Se por um lado “Os sete pombos” assume a característica de novela fantástica, tal a diversidade dos simbolismos nos mais diferentes temas abordados, por outro ela é profundamente enraizada no sentido do Tempo, racionalmente equacionado pelo homem do Renascimento.

Principiamos pelo abandono da mãe por parte dos sete filhos, nascidos a cada ano consecutivo. Eles o fazem quando o último troca os dentes de leite, ou seja, o mais velho estaria por volta dos quatorze e o mais jovem, sete. Eles a deixam quando, grávida, julgam haver nascido um menino, o qual, como todo filho caçula seria o predileto. No entanto, nascera uma menina que jamais poderia concorrer com os mesmos pelos benefícios da mãe.

O símbolo masculino está ligado às letras, às artes e o feminino ao trabalho de fiação, aos afazeres domésticos. O próprio Basile tivera diversos irmãos, mas quase todos seus sucessos em vida e até mesmo a posteridade de sua obra, deveu-os à irmã, à sua Cianna, voltada às belas artes.

Temos novamente a figura de um ogro, um ser humano tornado selvagem pela traição de uma mulher. A traição cegara-o para o sexo feminino e o levara a odiá-lo.

Mas ogro misógeno é assassinado pelos irmãos na defesa de Cianna. De sua cova nasce uma planta com poder de cura e de transformação dos jovens protegidos pelo ogro (e que também o traíram) em pombos. Somente o Tempo poderá dar-lhes o caminho da nova metamorfose, transformando-os de aves em seres humanos.

No caminho em busca do Tempo Cianna encontrará o pedinte a quem socorrera e que lhe retribui a gentileza, alertando-a sobre como tratar com a Mãe do Tempo, para que o Tempo dê seus conselhos a todos quantos lhe pediram pelo caminho. O velho pedinte, próximo à morada do Tempo, transforma-se em cinzas ao toque da moça.

Na segunda parte da novela surgirá o Tempo, que não é eterno, mas imemorial, por ser fruto da mente humana, que possui como abrigo uma antiqüíssima casa, por homens construída e pelo Tempo sempre corroída. O Tempo, um tirano que destrói e transforma tudo o que toca, mas que não se nega a ser um bom conselheiro para ouvidos atentos!

Capítulo 14 - Conto Vigésimo Quarto: “Os Sete Pombos”.

Um belo provérbio diz: "antes um olho torto que um juízo torto". Entre o que é dito e o que é feito pelas pessoas vai um longo caminho, sendo mais fácil que estas batam cabeça que serem consequentes. Pois, no mar dos assuntos humanos, a maior parte são pescadores de águas rasas que pegam apenas caranguejos; aqueles que pensam ter direção mais exata do próprio objetivo, muitas vezes atiram muito longe do alvo. Em decorrência, os homens correm desordenadamente, labutam no escuro, seus pensamentos são tortos, agem como em brincadeira de criança, todo julgamento é ao acaso, e o golpe fortuito de uma resolução tola traz sobre si um amargo arrependimento.

Tal foi o caso do rei do Pomar da Sombra e vocês saberão como tudo ocorreu se me derem um pouco de atenção.

 

            Diz-se que houve uma vez um rei do Pomar da Sombra de nome Milluccio, que era tão desligado que negligenciava os assuntos mais necessários ao Estado e os da própria família, para seguir a pista de uma lebre ou o vôo de um sabiá. Dizem também que ele permaneceu nesse caminho até que o acaso um dia o levou a um matagal, que havia formado um quadrado cheio de árvores para evitar que os cavalos do sol nele rompessem.  Lá, em cima de uma bela pedra mármore ele encontrou um corvo, que tinha acabado de ser morto.

            O rei, ao ver o sangue vermelho brilhante aspergido sobre o mármore branco, deu um suspiro profundo e exclamou: "Oh céus! Por que não posso ter uma mulher branca e vermelha como esta pedra, com cabelos e sobrancelhas tão negros como as penas deste corvo?" E ele ficou parado por um tempo, parecendo uma imagem de mármore fazendo amor com outro mármore. Com essa fantasia fixa na cabeça, ele procurou por todos os lados a cornucópia do desejo, de modo que pensava em mais nada que não a imagem do objeto incrustado em seu coração. 

            Para onde quer que voltasse os olhos aquela forma era-lhe sempre apresentada, pois era o que carregava no peito. Esquecendo-se de tudo o mais ele não tinha nada mais que o mármore na cabeça; e este mármore era uma pedra de moinho que esmagava sua vida, uma laje de pórfiro em que as cores de seus dias eram moídas e misturadas, um isqueiro que incendiara o pavio de enxofre de sua alma, a magnetita que o atraíra, e por último, um rolar de pedras do qual jamais poderia descansar.

            Um dia seu irmão Jennariello vendo-o tão pálido e quase morto, disse: "Meu irmão, o que aconteceu para que carregue a dor que apresenta nos olhos e o desespero sob a bandeira pálida do rosto? O que se abateu sobre você? Fala, abre o coração com o seu irmão. Abra seus lábios e me diga o qual é o problema, tenha a certeza de que se eu tivesse mil vidas, em todas iria ajudá-lo ".  Então Milluccio, entre palavras e suspiros agradeceu seu amor, dizendo-lhe não ter dúvida da afeição, mas que não havia remédio para o doente, uma vez que surgira a partir de uma pedra onde ele havia semeado desejos sem esperança, uma pedra de Sísifo que ele trazia para a montanha dos desejos, e quando ele chegava ao topo, rolava mais e mais para baixo. 

            Por fim, depois de mil pedidos, Milluccio disse ao irmão tudo sobre o seu amor. Após o que Jennariello confortou-o tanto quanto podia e aconselhou-o a não se entregar a uma paixão infeliz; por fim resolveu, a fim de satisfazê-lo e percorrer todo o mundo até encontrar uma mulher que fosse a contrapartida de uma pedra.

            Embarcou num grande navio cheio de mercadoria, vestido como um comerciante, e partiu para Veneza, a beleza da Itália, o receptáculo de homens virtuosos, o grande livro das maravilhas da arte e da natureza; e tendo procurado um salvo-conduto para passar para o Levante, foi, depois, para o Cairo. Quando lá chegou e entrou na cidade, viu um homem que levava um bonito falcão, e Jennariello comprou-o para levar ao irmão, que era esportista.  Logo depois, conheceu outro homem com um cavalo esplêndido, que também comprou; finalmente parou em uma pousada para se refrescar após as fadigas do mar.

            Na manhã seguinte, quando o exército da estrela, sob o comando do general da luz, tingiu as tendas do acampamento do céu e abandonou o antigo posto, Jennariello saiu perambulando pela cidade. Seus olhos brilhavam como um lince olhando cada mulher, para ver se por acaso poderia encontrar a semelhança de uma pedra em cima de uma cara de carne e osso. E como vagava a esmo encontrou um mendigo carregando uma montanha de farrapos nas costas, que lhe disse: " Meu nobre senhor, o que o faz tão assustado? "

            "Tenho de falar-lhe de meus negócios?" retrucou Jennariello. "Calma, meu justo jovem," respondeu o mendigo, "o corpo de um homem não é vendido por seu peso. Se Dario não tivesse contado seus problemas a uma noiva ele não teria se tornado rei da Pérsia. Não seria de pouca importância você contar seus problemas para um pobre mendigo, pois não há um galho tão delgado que não possa servir de palito de dentes."

            Quando Jennariello ouviu o pobre homem falando de forma sensata e com razão, contou-lhe a causa que o levara ao país, após o que o mendigo respondeu: "Veja agora, meu filho, como é necessário fazer conta de cada pessoa, pois se eu fosse apenas um amontoado de lixo ainda seria capaz de enriquecer o jardim de suas esperanças. Agora, escuta. Sob o pretexto de pedir esmolas, vou bater na porta da filha jovem e bonita de um mágico; em seguida, abra bem os olhos, olhe para ela, contempla-a, observa-a, meça-a da cabeça aos pés, você vai encontrar a imagem que seu irmão deseja." Assim dizendo, bateu à porta de uma casa e ao abri-la, Liviella atirou-lhe um pedaço de pão.

            Assim que Jennariello a viu, ela pareceu-lhe construída segundo o modelo que Milluccio lhe dera; então ele deu uma boa esmola ao mendigo e o mandou embora. Indo para a pousada vestiu-se como um mascate, transportando em dois caixões toda a riqueza que podia. E assim ele andava para cima e para baixo diante da casa de Liviella falando de suas mercadorias, até que finalmente ela o chamou e deu uma olhada nos bonés, capuzes, enfeites, gaze, orlas, rendas, lenços, colares, agulhas, cosméticos, e enfeites para a cabeça dignos de uma rainha e que com ela ornavam. 

            E quando ela examinou todas as coisas de novo e de novo, disse-lhe para mostrar ainda mais; e Jennariello respondeu: "Minha senhora, nesses caixões tenho apenas mercadorias baratas e insignificantes, mas se você se dignar a vir até o meu navio, vou mostrar-lhe coisas do outro mundo, porque tenho lá uma série de bens dignos de qualquer grande senhora." Liviella, cheia de curiosidade, como para não desmentir a natureza de seu sexo, respondeu: "Se o meu pai na verdade não estivesse fora, ele me daria algum dinheiro."

            "Não, tanto melhor que ele esteja fora", respondeu Jennariello, "pois talvez não quisesse lhe permitir o prazer, e eu prometo lhe mostrar essas coisas esplêndidas que irão fazer você delirar, tais como colares, brincos, pulseiras e faixas. Vou surpreendê-la, verá!" Quando Liviella ouviu falar de todas essas coisas elegantes, chamou uma amiga para acompanhá-la e foi para o navio. Mas assim que ela embarcou Jennariello mantendo-a encantada com a visão das coisas belas, astuciosamente ordenou que a âncora fosse erguida e as velas abertas, de modo que antes que a moça levantasse os olhos das mercadorias, eles já tinham percorrido muitos quilômetros. 

            Quando ela percebeu o truque começou a agir ao inverso de Olympia; enquanto Olympia chorou ao ser deixada sobre uma rocha, Liviella lamentou estar deixando as rochas. Mas quando Jennariello disse a ela para onde ele a estava carregando e a boa sorte que a aguardava, e que ela imaginasse a beleza de Milluccio, seu valor, suas virtudes, e, finalmente, o amor com que ele iria recebê-la, conseguiu pacificá-la e ela ainda rezou para que o vento empurrasse a embarcação mais rapidamente. Estavam navegando alegremente ouvindo as ondas reclamando abaixo do navio; e, embora elas falassem em voz baixa, o capitão compreendeu o significado e gritou: "Todos os homens à bordo! Aí vem uma tempestade e que Deus nos salve!" 

            Mal pronunciara essas palavras, veio o testemunho de um assovio do vento e eis que o céu ficou encoberto por nuvens e o mar com ondas de cristas brancas.         Jennariello correu para a proa para ver com um telescópio se poderia descobrir qualquer terra onde pudessem ancorar. Enquanto estava olhando à distância com dois metros de telescópio, ele viu uma pomba e seu companheiro, os dois voando e pousando na vela de jardas.

            Então o pássaro macho disse: "Rucche, rucche!" E sua companheira respondeu: "Qual é o problema marido, o que está lamentando?" "Este pobre príncipe comprou um falcão, que logo deverá estar nas mãos de seu irmão e vai atacar os olhos de seu novo dono, mas se ele não levá-lo, ou se avisar o irmão sobre o perigo, o próprio se transformará em mármore."

            E nisso ele começou novamente a chorar, "Rucche, rucche!" E a companheira disse-lhe: "O que ainda lamenta! Há algo de novo?" "Ah, na verdade ele também comprou um cavalo, e pela primeira vez que o seu irmão montá-lo cairá e quebrará o pescoço, mas se ele não levá-lo, ou se avisar o irmão sobre o perigo, o próprio se transformará em mármore. " 

            "Rucche, rucche!"  ele gritou de novo.  "Ai de mim, com todos esses resmungos", disse a pomba fêmea, "qual é o problema agora?" E seu companheiro disse: "Este homem está levando uma bela esposa para o irmão, mas na primeira noite quando eles forem dormir, o casal será devorado por um dragão terrível, mas se ele não levá-la ou se avisar o irmão sobre o perigo, ele se transformará em mármore”.

            Enquanto os pássaros conversavam, a tempestade cessou e as fúrias do mar e do vento diminuíram.  Mas uma tempestade muito maior surgiu no peito de Jennariello e mais de vinte vezes ele esteve a ponto de jogar todas as coisas ao mar, a fim de não levar ao irmão a causa de sua ruína. Mas, por outro lado ele pensou em si mesmo e refletiu que a caridade começa em casa; e temendo que, se não levasse as coisas ao irmão ou se o avisasse do perigo, ele se tornaria de mármore, resolveu olhar um pouco para o fato da possibilidade de, uma vez que a camisa estava mais perto dele, vestir-se.

            Quando chegou ao Pomar da Sombra, encontrou seu irmão na praia aguardando com grande alegria o retorno do navio que tinha sido visto à distância. Em seguida, abraçando-o com fervor, disse-lhe: "Que belo falcão que você carrega no punho?" E Jennariello respondeu: "Eu comprei de propósito para dá-lo a você."  "Vejo claramente que você me ama", respondeu Milluccio, " já que foi em busca de meu prazer. Na verdade, se você tivesse me trazido um tesouro caro, não poderia ter me dado mais felicidade que este falcão”.

            Como Milluccio estava indo para pegá-lo na mão, Jennariello rapidamente sacou uma grande faca que trazia ao seu lado e cortou a cabeça da ave. O ato horrorizou o rei, que pensou estivesse o irmão louco, por ter realizado um ato tão estúpido, mas para não interromper a alegria da chegada, permaneceu em silêncio.

            Depois viu o cavalo, e perguntou a Jennariello de quem era, ouviu que era seu. Então ele sentiu um grande desejo de montá-lo, e quando estava ordenando o estribo, Jennariello cortou rapidamente as pernas do cavalo com a faca. O Rei ficou em ira, pois seu irmão parecia ter feito isso de propósito para irritá-lo e a cólera começou a subir. No entanto, ele não achava que era a hora certa para mostrar ressentimento, para que não envenenasse o prazer da noiva que o irmão lhe entregara, a quem ele nunca podia contemplar o suficiente.

            Quando chegaram ao palácio real, Milluccio convidou todos os senhores e senhoras da cidade para uma grande festa, e o salão pareceu uma escola de equitação cheia de cavalos de pé e empinados, com um número de potros na forma de mulheres.  Mas quando a boda terminou todos se retiraram para descansar.

            Jennariello, que pensava em nada mais que salvar a vida do irmão, escondeu-se atrás da cama do casal de noivos; e ele ficou observando para ver se o dragão viria. Eis que a meia-noite, um dragão feroz entrou na câmara enviando chamas dos olhos, fumaça pela boca, e o terror no olhar. Assim que Jennariello viu o monstro, pegou a lâmina de Damasco que tinha escondido sob o manto e atingiu-o num golpe tão furioso que cortou ao meio um poste da cama do rei. Com o ruído o rei acordou, e o dragão desapareceu.

            Quando Milluccio viu a espada na mão do irmão e o pé da cama em partido em dois, ele deu um forte grito, "Ajudem aqui! O traidor de meu irmão veio para me matar!" Pelo que, ouvindo o barulho, um número de empregados que dormiam na antecâmara vieram correndo, e o rei ordenou que Jennariello fosse pego e mandado na mesma hora para a prisão.

            Na manhã seguinte, assim que o sol abriu o seu banco para entregar o depósito de luz para o credor do dia, o rei convocou o conselho; e quando ele lhes contou o que havia se passado, a perversão de matar o falcão e o cavalo como o propósito de irritá-lo, eles julgaram que Jennariello merecia morrer. As orações de Liviella foram todas inúteis para amolecer o coração do rei, que disse: "Você não me ama esposa, pois tem mais respeito por seu cunhado  que por minha vida. Viu com os próprios olhos esse cão assassino vir com uma espada que cortaria até um fio de cabelo no ar para me matar, e se a cabeceira da cama, a coluna da minha vida, não tivesse me protegido, você seria uma viúva." Assim dizendo, deu ordens para que a justiça seguisse seu curso.

            Quando Jennariello ouviu a sentença e viu-se tão mal recompensado por fazer o bem, ele não sabia o que pensar ou fazer. Se ele falava, ruim; se não falava, pior. Permanecendo em silêncio, devia perder a cabeça sob um machado; falando devia terminar seus dias em uma pedra. Finalmente, ele resolveu revelar o assunto ao irmão; e uma vez que ele devia morrer de todos os modos, achou melhor dizer toda a verdade e terminar seus dias com o título de um homem inocente, ao invés de manter a verdade para si mesmo e ser enviado para forca do mundo como traidor. 

            Assim enviou uma mensagem ao rei de que ele tinha algo a dizer de importância para o Estado; foi levado à presença do rei, onde primeiro fez um longo preâmbulo do amor que sempre tinha tido por ele; então, passou a falar do embuste em que tinha feito cair Liviella a fim de dar-lhe um prazer; e o que ele tinha ouvido das pombas sobre o falcão, e que para evitar que ele virasse mármore, não tinha revelado o segredo e matado o falcão, não o vendo sem os olhos.

            Enquanto falava, Jennariello sentiu suas pernas endurecerem-se e se transformar em mármore.  E quando ele passou a relacionar o caso do cavalo da mesma forma, ele ficou visivelmente de pedra até a cintura, endurecendo miseravelmente. Por fim, quando chegou ao caso do dragão ele parecia uma estátua no meio do salão, pedra da cabeça aos pés.  Quando o rei viu isso, reprovando-se pelo erro que havia cometido e a sentença imprudente que ele havia passado para tão bom e amoroso de irmão; ele o lamentou por mais de um ano, e cada vez que pensava nele derramava um rio de lágrimas.

            Enquanto isso Liviella deu à luz dois filhos, que eram duas das mais belas criaturas do mundo.  E depois de alguns meses, quando a rainha foi para seu país para ver o pai, e por acaso estando Milluccio com os dois meninos em pé no meio da sala, olhando com os olhos cheios de lágrimas a estátua - o memorial de sua loucura, que havia tirado dele a flor da potência- eis que um velho imponente e venerável entrou, com longos cabelos que caiam sobre os ombros e uma barba cobrindo o peito. E fazendo uma reverência ao rei, o velho disse: "O que daria sua majestade para ter o irmão nobre em seu estado anterior? "E o rei respondeu:" Eu daria meu reino ".

            " Não", respondeu o homem velho", isso não é uma coisa que exige o pagamento de riqueza;  pois sendo um caso de vida, deve ser pago com um outro tanto de vida. " Então o rei, em parte por causa por amor que carregava por Jennariello e em parte por ouvir-se difamado com a ação que tinha praticado, respondeu: "Acredite em mim, meu bom senhor, eu daria a minha própria vida para salvar a dele, ele saindo de uma pedra ,eu deveria ser incluído em outra."

            Ouvindo isso, o velho disse: "Sem colocar a sua vida em risco, uma vez que leva tanto tempo para se fazer um homem, o sangue destes dois meninos untado sobre o mármore, seria suficiente para fazê-lo voltar à vida." O rei respondeu: "Crianças eu posso ter novamente, mas tenho um único irmão e outro nunca mais." 

            Assim dizendo, ele fez um lastimável sacrifício dos dois pequenos inocentes diante de um ídolo de pedra, e besuntando a estátua com o sangue tornou vivo o irmão; pelo que o rei o abraçou e sua alegria não pode ser contada. Então eles puseram as pequenas criaturas em um caixão de modo a dar-lhes sepultura com a devida honra. 

            Mas naquele instante a rainha voltou para casa e o rei, ordenando que seu irmão se escondesse, disse à sua esposa: "O que você daria, meu coração, para ter meu irmão de volta à vida?"         "Eu daria todo este reino", respondeu Liviella. 

            E o rei respondeu: "Você daria o sangue de seus filhos?" "Não, na verdade, não", respondeu a rainha; "Eu não poderia ser tão cruel a ponto de arrancar com minhas próprias mãos a menina dos meus olhos."

            "Ai de mim!", disse o rei, "a fim de ver um irmão vivo, eu matei meus próprios filhos! Esse foi o preço pela vida de Jennariello!"

            Assim dizendo ele mostrou à rainha os meninos no caixão; e quando ela viu o triste espetáculo gritou como uma louca, dizendo: "Ó meus filhos! adereços da minha vida, alegrias do meu coração, fontes do meu sangue! Quem pintou de vermelho as janelas do sol? Quem sem licença de um médico sangrou a principal veia da minha vida? Ai, meus filhos, meus filhos! Minha esperança agora tirada de mim, a minha luz agora escureceu, minha alegria agora envenenada, meu apoio perdido! Estou esfaqueada pela espada, perfurada pela dor.

E o rei, afogado em sangue e em lágrimas, ainda ouviu que aquele que, para dar vida a um tio, matou também a mãe, por que eu não sou mais capaz de tecer o fio de meus dias sem meus filhos, os contrapesos justos do tear da minha vida infeliz. O órgão da minha voz deve ser silenciado agora que seus foles foram retirados. Oh filhos, crianças!  por que não respondem à sua mãe, que uma vez lhes deu o sangue de suas veias e agora chora por vocês? Mas desde que o destino me mostra que a fonte da minha felicidade secou, não vou mais viver a fortuna do mundo, pois quero ir encontrá-los novamente! "

            Assim dizendo, ela correu para a janela para se atirar, mas nesse instante seu próprio pai entrou pela mesma janela em uma nuvem, e chamou-a:

"Pare, Liviella! Eu já consegui o que pretendia, e matei três coelhos com uma só cajadada. Vinguei-me de Jennariello, que veio à minha casa para me roubar a filha, fazendo-o ficar todos esses meses como uma estátua de mármore em um bloco de pedra”. “Castiguei-a por seu mau comportamento  indo embora em um navio sem  minha permissão, mostrando-lhe seus dois filhos, suas duas jóias, mortos por próprio pai”. “E castiguei o rei pelo capricho que ele teve, fazendo-o pela primeira vez o juiz de seu irmão, e, posteriormente, o carrasco dos filhos. Mas como eu só queria machucar e não esfolar, desejo que agora todo o fel se transforme em mel. Por isso vá, pegue seus filhos, meus netos, que são as mais bonitas criaturas que já existiram. E você, Milluccio, me abrace. Recebo-o como meu genro e como meu filho. E perdôo Jennariello por sua ofensa, tendo feito tudo o que fez por amor a tão excelente irmão".

            E enquanto ele falava os meninos reviveram, e o avô ficou satisfeito abraçando e beijando-os; e Jennariello agora estava como que nadando no caldo de macarrão. Mas apesar de tudo, dos prazeres que ele gostava na vida, os perigos passados ​​nunca deixaram a sua mente; e ele estava sempre pensando no erro que seu irmão tinha cometido, e no cuidado que um homem deve ter para não cair na vala, desde que:

 "Tudo o julgamento humano é falso e perverso."

 

Comentários:

Ovídio do século XVII, Basile trabalha com um rei estabanado e alienado do mundo onde vivia que um dia encanta-se com a metamorfose de um pedaço de mármore branco onde estava abatido um corvo. A metamorfose ocorre na mente de Milluccio, onde a pedra molhada pelo sangue da ave adquire a face da mulher por quem se apaixona. Afinal, preconizando o simbolismo, “vemos aquilo que temos em nosso coração”.

Somente a filha de um mago poderia apresentar uma face tão lívida, Lívia, tão branca quanto o mármore. E ela será raptada pelo irmão do rei para dar-lhe um grande prazer na vida, ou se quisermos, abrandar sua neurose.

Tudo gira em torno de metamorfoses. Jennariello, que salva o irmão de ser cegado, derrubado por um cavalo, devorado por um dragão. Mas é condenado à morte por Milluccio. Por isso revela a magia que escutara de uns pássaros que acompanhavam o navio do rapto, sabendo que será transformado em mármore.

O rei pesaroso pelo destino do amoroso irmão, cedendo ao mago que surge dos ares e que não sabe ser o seu sogro ( e quem tudo engendrara à distância, desde o corvo e a pedra), sacrifica seus filhos junto ao mármore, para que seu irmão “saia” da pedra.

Mas afinal tudo se equilibra até mesmo a volta da morte para a vida. As crianças sacrificadas ressuscitam nos braços da mãe, disposta a igual sacrifício.

O moral da história cumpre-se, com a falibilidade, a falsidade e a perversidade dos julgamentos humanos.

Este site não possui patrocinadores, contamos com doações espontâneas para sua continuidade.