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“O Conto dos Contos”

Capítulo 15 - Conto Vigésimo Sexto: “Os Meses”.

Um ditado digno de ser escrito em letras garrafais: “o silêncio nunca fez mal a ninguém”.  Os caluniadores que nunca falam bem dos outros, mas são sempre de cortes e picadas, de beliscar e morder, às vezes ganham pela picardia; quando os sacos são sacudidos, uma boa palavra de amor é fonte de ganhos e lucros, enquanto a calúnia traz sempre inimizade e ruína.  Ouvindo o que contarei como a história que aconteceu, vocês saberão que falo com razão.

 

            Era uma vez dois irmãos, Cianne, rico como um lorde, e Lise, que tinha apenas o suficiente para viver, tão pobre de fortuna, quanto o irmão rico era lamentável em raciocínio. Cianne não daria ao irmão um centavo nem mesmo para lhe salvar a vida; de modo que Lise, em desespero, deixou sua terra e saiu perambulando pelo mundo. Vagou até que numa noite úmida e fria chegou a uma estalagem, onde encontrou doze jovens sentados em torno de uma fogueira que ao verem Lise, pobre em roupas e entorpecido pelo frio, convidaram-no para sentar-se perto do fogo.

            Lise aceitou o convite, e começou a aquecer-se.  Então um dos jovens, cujo rosto era o retrato da própria melancolia, como para fazer alguém morrer de tristeza, disse-lhe: "O que acha conterrâneo desse tempo?"          "O que eu acho? Eu penso que todos os meses do ano cumprem seu dever, mas nós que não sabemos o que temos, desejamos dar leis ao céu, e querendo ter as coisas à nossa maneira, não pensamos o suficiente fundo para descobrir se o que vem á nossa mente é bom ou mau, útil ou prejudicial. No inverno quando chove, queremos que o sol esteja em leão; no mês de agosto que as nuvens se descarreguem; sem refletir que se caso as estações fossem postas de cabeça para baixo, a semente semeada estaria perdida, as colheitas seriam destruídas, os homens iriam desmaiar de fome, e a natureza iria ficar também de cabeça para baixo. Portanto, vamos deixar o céu com o seu próprio curso e enquanto isso que a árvore mitigue com sua madeira a gravidade do inverno e com suas folhas o calor do verão".

            "Fala como Sansão!" respondeu o jovem. "Mas você não pode negar que o mês de março em que estamos é muito impertinente para enviar toda essa geada e chuva, neve e granizo, vento e tempestade, que fazem da vida um fardo." “Você diz apenas os males deste pobre mês”, respondeu Lise, “mas não fala dos benefícios que ele traz, pois ao antecipar a primavera começa a reprodução das coisas, e é por si só que o sol comprova a bondade do momento caminhado para a casa de carneiro.”

            O jovem ficou muito contente com o que Lise disse, pois ele era, na verdade, ninguém menos que o mês de Março, o qual tinha chegado na pousada com seus onze irmãos.

            E recompensou a bondade de Lise, que não tinha encontrado nada de mal a dizer sobre um mês tão triste que os pastores nem gostam de nele falar, dando-lhe uma pequena e bela caixa disse:"Tomai-a, e se quiser alguma coisa é só abri-la e pedir-lhe, e encontrará o desejado diante de si."

            Lise agradeceu o jovem com muitas expressões de respeito, e colocou a pequena caixa embaixo do travesseiro e foi dormir. Logo que o sol com o lápis de seus raios retocou as sombras escuras da noite, Lise despediu-se dos jovens e partiu. Mas mal dera cinquenta passos da pousada, dirigiu-se à caixa e disse: "Ah, minha amiga, eu gostaria de ter uma cama forrada com pano e com um pouco de calor dentro, para que pudesse viajar quente e confortável através da neve! "

            Assim que pronunciou essas palavras, surgiu uma liteira com carregadores, que o levantando colocaram-no na mesma, e então ele pediu-lhes que o levassem para casa. Quando chegou a hora de preparar as mandíbulas para trabalhar, Lise abriu a caixinha e disse: "Eu gostaria de algo para comer." E imediatamente surgiu uma profusão de alimentos selecionados, e era um banquete em que até dez reis coroados poderiam se banquetear.

            Uma noite, tendo chegado a um bosque que não dava ingresso ao Sol, Lise abriu a pequena caixa e disse: "Gostaria de descansar a noite nesse belo local, onde o rio entra em harmonia com as pedras, sob o acompanhamento do canto das brisas frescas." Imediatamente apareceu sob uma tenda um sofá escarlate, bem como colchões cobertos com uma colcha espanhola, tão leve como pluma. Então ele pediu algo para comer e em um instante apareceu um aparador coberto de prata e ouro, e em outra tenda uma mesa foi preparada com iguarias, com um cheiro que se estendia a uma centena de quilômetros.

            Depois de ter comido o suficiente, Lise deitou-se para dormir. Assim que o galo, que é o espião do sol, anunciou a seu mestre que as sombras da noite estavam usadas ​​e cansadas e era a hora dele, Lise abriu a caixinha e disse: "Eu gostaria de ter uma roupa bonita, pois hoje vou ver meu irmão e gostaria de lhe fazer água na boca." Dito e feito, logo uma roupa de príncipe dos mais ricos apareceu em veludo preto, com orlas vermelhas e um forro de pano amarelo bordado que parecia um campo de flores. Após vestir-se, Lise entrou na liteira e logo chegou à casa de seu irmão.

            Quando Cianne viu o irmão chegar com todo o esplendor e luxo, queria saber que boa fortuna lhe tinha sucedido. Lise falou-lhe sobre um dos jovens com quem se encontrara na estalagem, e do presente que ele lhe havia feito, mas guardou para si a conversa com os mesmos. Cianne ficou todo impaciente para estar longe do irmão, pedindo-lhe que fosse descansar, pois deveria estar fatigado. Então partiu a toda pressa e logo chegou à pousada onde, encontrando os mesmos jovens, entrou em bate-papo com eles. 

            E quando o jovem lhe fez a mesma pergunta, o que ele pensava do mesmo mês de Março, Cianne, abrindo uma grande boca, disse: "Eita mês miserável! Inimigo dos pastores, ele desperta todos os maus-humores e traz a doença aos nossos corpos. Um mês do qual sempre que se anuncia a ruína de um homem dizemos que março raspou nele! Um mês que, quando você chama um homem de presunçoso, diz ser ele de março. Um mês em suma tão odioso, que seria a melhor sorte do mundo, a maior bênção para a terra, o maior ganho para os homens, se fosse excluído do grupo de seus irmãos."

            Março, que ouviu a si mesmo assim ser caluniado segurou sua ira até a manhã seguinte com a intenção de recompensar Cianne por sua calúnia; e quando Cianne quis partir ele deu-lhe um fino chicote, dizendo-lhe: "Sempre que você desejar algo, apenas diga: Chicote me dá uma centena!  e vereis pérolas delicadas surgirem em um instante". Cianne, agradecendo o jovem, seguiu seu caminho com muita pressa sem querer fazer uso do chicote até que chegasse à sua casa.  Assim que chegou, entrou em uma câmara secreta com a intenção de esconder as pérolas que ele esperava receber do chicote. 

            Então ele disse, "Chicote, dá-me cem!" Imediatamente o chicote deu-lhe mais do que ele procurava, fazendo uma pontuação de pérolas vermelhas, róseas e brancas em suas pernas e no rosto como um compositor musical, de modo que Lise, ouvindo os gritos, veio correndo até o local; e quando viu que o chicote, como um cavalo desgovernado não conseguia parar por si mesmo, abriu sua caixa e pediu que parasse. Então lhe perguntou o que tinha acontecido e ao ouvir a história disse a Cianne que não tinha ninguém a culpar além de si próprio, pois como uma besta ele havia causado seu infortúnio, agindo como o camelo que queria ter chifres e perdeu a corcova.

            Pediu-lhe também que pusesse um freio na língua, que fora a chave a abrir-lhe o armazém do infortúnio. Pois se ele tivesse falado bem dos jovens, talvez tivesse tido a mesma sorte, principalmente porque falar bem de alguém é uma mercadoria que não custa nada, e geralmente traz um lucro não é esperado. Em conclusão, Lise consolou-o, dizendo-lhe que não buscasse mais riqueza do que o céu já lhes havia dado, pois sua pequena caixa seria suficiente para preencher as casas de trinta avarentos, e Cianne deveria ser o chefe de tudo o que possuíam, já que para um homem generoso o céu é seu tesoureiro.

            E acrescentou que se fosse outro irmão poderia não suportar a má vontade e a crueldade com que Cianne o havia tratado em sua pobreza; no entanto, ele refletira que sua avareza tinha sido o vento favorável, o qual o trouxera ao porto, e, portanto, desejava mostrar-se grato pelo benefício. Quando Cianne ouviu estas palavras implorou o perdão de seu irmão pelo passado, e entrando em harmonia gozavam juntos a boa sorte e a partir desse momento, e Cianne passou a falar bem de tudo, por pior que fosse; pois:

 "O cão que foi escaldado com água quente, para sempre teme a água fria. "

 

Comentários

“Os Meses” é um conto educativo sobre a importância da união do homem com a Natureza, assim como sobre a importância das diferentes estações do ano, mesmo daquelas tão duras como o inverno. Que do respeito às leis naturais surge a abastança.

Também frize-se que no relato de Basile, os poderosos como Cianne tendem a não respeitarem a Natureza, ao contrário dos mais pobres que possuem o coração mais aberto, que compreendem suas peculiaridades e dela tornam-se aliados.

Estes sempre contarão com a boa sorte e para os outros, restará o chicote.

Conto Vigésimo Sétimo: “Pintosmalto”.

Sempre foi mais difícil para o homem manter que conseguir; em muitos casos, a sorte ajuda a injustiça, mas em outros, o bom senso prevalesce. Por isso, muitas vezes encontramos uma pessoa deficiente em esperteza ascender à riqueza, e depois, por falta de senso, descer ao fundo; como verão claramente na história que vou contar.

 

            Um comerciante teve uma única filha, a quem ele desejava ver casada. Mas todas as vezes que ele achava que a agarrara, ela estava a cem milhas do lugar que o pai desejava, pois a tola jamais consentia em casar, e o rico pai sentia-se, em decorrência, o homem mais infeliz e miserável do mundo. Ora, aconteceu que um dia ele estava indo para uma feira e então perguntou à filha, de nome Betta, o que ela gostaria que lhe trouxesse na volta. 

            E ela disse: "Papai, se você me ama, traga- me metade de um quintal de açúcar Palermo, e outro tanto de amêndoas doces, quatro a seis garrafas de água perfumada, um pouco almíscar e âmbar, como também quarenta pérolas, duas safiras, algumas granadas e rubis, fios de ouro e, sobretudo, uma tina e uma espátula de prata".     Seu pai achou o pedido extravagante, no entanto, ele não o recusaria; no retorno da feira  trouxe tudo o que ela tinha sido pedido.

            Assim que Betta recebeu a encomenda, trancou-se em no quarto e fez uma grande quantidade de pasta de amêndoas e açúcar, misturada com água de rosas e perfumes. Trabalhou sem descanso até modelar um lindo jovem, fazendo seu cabelo com os fios de ouro, os olhos de safiras, seus dentes com pérolas, os lábios de rubis; e ela deu-lhe tal graça que, se quisesse até ele até falaria. Quando terminou o trabalho, tendo ouvido dizer que as orações para certa deusa de Chipre fariam uma estátua vir à vida, ela rezou para a deusa do amor, até que, finalmente, a estátua começou a abrir os olhos; aumentando suas orações, aquela começou a respirar; e depois de respirar, as palavras saíram; finalmente, desengatou todos os seus membros e começou a andar.

            Com alegria muito maior que se tivesse ganhado um reino, Betta abraçou e beijou o jovem, e tomando-o pela mão levou-o ante seu pai e disse-lhe: "Meu senhor e pai, você sempre me disse que queria ver alguém se casar comigo para agradá-lo. Eu já escolhi um marido segundo o meu coração". Quando o pai viu o belo jovem sair do quarto da filha a quem ele não tinha visto entrar, ficou espantado. Mas com a visão de tal beleza que muita gente teria pagado meia coroa só para olhar, consentiu com que o casamento ocorresse. 

            Assim, uma grande festa foi realizada, na qual dentre as senhoras presentes apareceu uma grande e desconhecida rainha, que vendo a beleza de Pintosmalto, pois este era o nome que Betta lhe dera, caiu desesperadamente apaixonada por ele.

Pintosmalto que só tinha aberto os olhos sobre a maldade do mundo três horas antes, era tão inocente quanto um bebê; acompanhava os estrangeiros que haviam chegado para celebração de suas núpcias, tal qual sua noiva lhe mandara fazer. Quando ele fez o mesmo com a rainha, ela tomou-o pela mão e conduziu-o silenciosamente para sua carruagem puxada por seis cavalos que estava no pátio. E ordenou ao cocheiro para correr até a sua terra distante.

            Depois de Betta ter ficado um bom tempo esperando em vão Pintosmalto retornar, foi até o pátio para ver se ele estava conversando com qualquer alguém; em seguida, enviou gente para o telhado para ver se ele tinha ido tomar ar fresco; e sem encontrá-lo em lugar algum, imaginou que por conta de sua grande beleza havia sido roubado. Então ordenou que as proclamações habituais fossem feitas; enfim, como nenhuma notícia fosse trazida, tomou a resolução de percorrer todo o mundo à sua procura. Vestiu-se como uma menina pobre e partiu. 

            Depois de alguns meses, chegou à casa de uma velha que a recebeu com grande bondade; quando esta ouviu o infortúnio de Betta, tomou-se de compaixão e ensinou-lhe três frases.  A primeira foi: "Tricche varlacche, na casa chove!"; a segunda: "Anola tranola, na fonte jorra!";  a terceira: "Scatola matola, o sol brilha!" - dizendo-lhe que repetisse as frases sempre que estivesse com problemas.

            Betta não acreditou muito nesse presente de palha, no entanto, disse para si mesma: "Aquele que sopra em sua boca não quer vê-lo morto e a planta que atinge raiz não murcha. Tudo tem o seu uso, quem sabe a boa sorte pode estar contida nessas palavras?" Assim pensando agradeceu à velha, e partiu. Depois de longa viagem, chegou a uma cidade bonita chamada Monte Redondo, onde foi diretamente até o palácio real, e pediu pelo amor de Deus um abrigo no estábulo.

            As damas da corte deram-lhe uma pequena sala debaixo das escadas e enquanto a pobre Betta lá estava, viu Pintosmalto passar. Ao avistá-lo, sua alegria foi tão grande que esteve a ponto de escorregar para baixo da árvore da vida. Então Betta quis fazer prova da primeira palavra que a velha lhe dissera e mal ela repetiu as palavras: "Tricche varlacche, a casa chove!"  Imediatamente apareceu diante dela uma pequena e bela carruagem de ouro contida em um estojo de jóias, uma maravilha de se ver.

            Quando as damas da corte viram aquela maravilha contaram à rainha, que sem perda de tempo, correu para o lugar onde estava Betta. Quando esta viu a pequena e bela carruagem, perguntou se Betta a venderia, e se ofereceu para dar tudo o que pudesse exigir. Mas Betta respondeu que, embora fosse pobre, não iria vendê-la por todo o ouro do mundo, mas se a rainha a quisesse deveria permitir que ela passasse uma noite na porta do quarto de Pintosmalto. A rainha ficou surpresa com a loucura da pobre moça que, embora em trapos, dispensava riquezas por um mero capricho; no entanto, ela resolveu tomar o bom bocado que se lhe oferecia, e concordando em satisfazer à moça com o projeto de dormir perto de Pintosmalto, deu ópio a este, pagando Betta em má moeda.

            Assim que a noite chegou, quando as estrelas no céu e os vaga-lumes na terra eram passados em revista, a rainha enviou Pintosmalto para a cama, já que ele fazia tudo o que lhe era dito. E mal se jogou no colchão, caiu dormindo como um esquilo. Pobre Betta, pensou que a noite resolveria todos os seus problemas, caiu a se lamentar, culpando-se por tudo o que tinha feito. Do mesmo modo que a menina infeliz não fechou a boca, Pintosmalto tão pouco abriu os olhos, até que o sol apareceu com a água régia de seus raios para separar as sombras da luz.

            Foi quando a rainha chegou e pegando Pintosmalto pela mão, disse a Betta, "agora você deverá estar contente." "Que também você seja contente todos os dias de sua vida!"  respondeu-lhe Betta em voz baixa: "Eu passei tão mal a noite que não esquecerei dela tão cedo."

            A pobre moça não pôde resistir a seu desejo e resolveu usar do segundo ditado, e repetiu as palavras: "Anola tranola, a fonte jorra!" Imediatamente apareceu uma gaiola dourada com um belo pássaro feito de pedras preciosas e ouro, que cantava como um rouxinol. Quando as mulheres viram o prodígio foram anunciá-lo à rainha, que desejou ver o pássaro;  em seguida, ela fez a mesma pergunta sobre a pequena carruagem, e Betta deu-lhe a mesma resposta de antes. Diante disso, a Rainha pensou que Betta era uma criatura boba e prometeu cumprir seu pedido, levando a gaiola com o pássaro. E assim que a noite chegou, ela deu a Pintosmalto ópio como antes e enviou-o para a cama.

            Quando Betta viu que ele dormia como um morto, a pobre voltou a chorar e lamentar-se, dizendo coisas que teriam movido uma pedra à compaixão. Assim ela passou outra noite cheia de choro e arranca-cabelo. Assim que amanheceu, a rainha veio buscá-la do cativeiro e deixou a pobre Betta em dor e tristeza, mordendo as mãos de desgosto.

            Pela manhã, indo Pintosmalto a um jardim fora da porta da cidade para colher figos, conheceu um sapateiro, que vivia em uma sala perto de onde Betta chorara e que não tinha perdido uma palavra de tudo o que ela havia dito. Ele contou a Pintosmalto sobre o choro e a lamentação da infeliz garota mendiga e quando Pintosmalto, que já começava a ficar um pouco mais esperto ouviu-o, imaginou como as coisas se passavam e decidiu que, se o mesmo acontecesse de novo, ele não beberia o que quer que a rainha lhe desse antes de ir para a cama.

            Betta quis ainda fazer uma terceira tentativa, e disse as palavras "Scatola Matola, o sol brilha!"            Imediatamente apareceu uma grande quantidade de seda e ouro em lenços bordados com uns cálices; em suma, a própria rainha não conseguiria ter reunido tão belos ornamentos. Quando as senhoras da corte os viram, disseram à rainha, que se esforçou para obtê-los, como fizera nas outras vezes. Betta respondeu como antes, que se a rainha desejava tê-los ela deveria deixá-la passar a noite na porta da câmara. Então a Rainha disse para si mesma: "O que eu posso perder por satisfazer essa menina tola, a fim de obter coisas tão lindas?"

            Tendo todos os tesouros que Betta lhe oferecera, assim que a noite apareceu ela deu ópio para Pintosmalto, somente que desta vez ele não o engoliu e com uma desculpa saiu da sala para cuspi-lo e somente depois foi para a cama. Betta recitou a mesma música outra vez, dizendo como ela o tinha amassado com as próprias mãos a partir de açúcar e amêndoas, como tinha trançado o seu cabelo de ouro, os olhos e a boca de pérolas e pedras preciosas, de como ele estava em dívida com ela, como os deuses haviam atendido às suas orações. Por fim como ele havia sido roubado, e ela saíra a procurá-lo com muita labuta e tantos transtornos. Disse-lhe também como tinha estado duas noites na porta do seu quarto e tinha desistido de dois tesouros, sem ter sido capaz de ouvir uma única palavra do moço, de modo que esta era a última noite de suas esperanças e a conclusão de sua vida.

            Quando Pintosmalto, que estava acordado, ouviu essas palavras, veio-lhe à memória o que se passara como num sonho. E ele levantou-se e abraçou-a. Como a noite havia acabado de se apresentar com sua máscara preta para dirigir a dança das estrelas, ele foi muito calmamente à câmara da rainha que estava em sono profundo, e tomou dela todas as coisas que ela tinha tirado de Betta, assim como jóias e dinheiro, que estavam em uma mesa, para indenizar a si mesmo pelos danos passados. 

            Em seguida, fugiu com sua esposa e eles viajaram até chegarem à casa do pai, que se encontrava vivo e bem, que da alegria de ver sua filha novamente, comportou-se como um menino de quinze anos. Quando a rainha não encontrou nem Pintosmalto, nem a garota mendiga, nem as jóias, nem o dinheiro, ela arrancou os cabelos, rasgou os vestidos, e lembrou-se do ditado:

 "Aquele que engana não deve reclamar de ser enganado."

 

Comentário

A fábula “Pintosmalto” tem clara inspiração no poeta Ovídio, que nas “Metamorfoses”, nos conta a história de Pigmaleão, sendo que a fábula escrita por Basile pode ser considerada como o próprio mito invertido.

Pigmaleão, rei de Chipre, havia decidido viver em celibato na terra “das mulheres libertinas”, como não poderia deixar de ser uma terra consagrada a Afrodite, a deusa do amor. Ele era escultor e tentou reproduzir na pedra a mulher ideal e pudica, pela quem terminou por se apaixonar.

Seu sonho é que a mesma se metamorfoseasse em ser humano; Afrodite se apiedou de seu sofrer e o atendeu, transformando a estátua numa mulher de carne e osso, Galathea, com a qual Pigmaleão casou-se.

O mito de Pigmaleão traduz um elemento do comportamento humano: a capacidade de determinar os próprios rumos. Em Pintosmalto é a mulher que exerce a determinação de seu rumo pessoal e afetivo.

Após Basile, a lenda de Pigmalião tem atraído vários artistas. Uma das versões mais modernas da lenda é a peça de George Bernard Shaw, “Pigmalião”, que recebeu o nome de “My Fair Lady” na versão cinematográfica, em que, ao invés de uma estátua transformada em mulher, temos uma mulher do povo transformada em espécime da alta sociedade.

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