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“O Conto dos Contos”

Capítulo 16 - Conto Vigésimo Oitavo: “A Raiz Dourada”.

Uma pessoa excessivamente curiosa quer saber mais do que convém; ela carrega sempre na mão o pó que pode incendiar um quarto: o de sua própria sorte, pois quem interfere nos assuntos dos outros é freqüentemente um perdedor nos seus próprios. Geralmente quem que cava buracos para procurar tesouros, faz uma vala onde ele próprio cai - como aconteceu com a filha de um jardineiro, da maneira como contarei.

 

            Era uma vez um jardineiro tão pobre que, por mais duro que trabalhasse, não conseguia ter pão para a família. Do quase nada que possuía, deu três porquinhos para as suas três filhas, afim de que elas pudessem criá-los e conseguir alguma coisa como dote. Pascuzza e Cice, as filhas mais velhas, levaram seus porquinhos para se alimentar em um belo prado, sem deixarem que Parmetella, a irmã mais nova, fosse com elas e mandaram-na alimentar seu porco em outro lugar. 

            Então Parmetella levou seu pequeno animal para um bosque, onde as folhas tapavam as agressões do sol.  Chegou a um pasto no meio do qual fluía uma fonte, assim como a anfitriã de uma pousada onde a água é oferecida aos transeuntes sedentos, e por lá encontrou certa árvore com folhas douradas. Arrancando uma destas levou-a ao pai, que com grande alegria a vendeu por mais de vinte ducados, servindo para tapar um buraco em suas dívidas. E quando ele perguntou onde Parmetella a havia encontrado, ela disse: "Pegue-a, senhor, e não faça perguntas, a menos que queira estragar a nossa boa sorte." 

            No dia seguinte ela voltou e fez o mesmo e passou a arrancar as folhas da árvore até que essa ficou inteiramente nua, como se tivesse sido saqueada pelos ventos do outono. Só então ela percebeu que a árvore tinha uma grande raiz de ouro, mas que não conseguiria arrancar do solo com as próprias mãos.            Parmetella foi para casa e buscou um machado e tratou de por nua a raiz ao redor do pé da árvore. O que ela conseguiu foi cavar um buraco ao lado da árvore e, para sua surpresa, encontrou uma escada de pórfiro muito bonito. Ela, que ficou curiosa além de toda medida, desceu a escada e viu-se caminhando por uma caverna grande e profunda.

            Chegando ao fim, encontrou-se numa bela planície e nela um esplêndido palácio, onde apenas ouro e prata eram pisados, enquanto pérolas e pedras preciosas estavam por todos os lugares onde os olhos pousavam. Parmetella vendo essas coisas esplêndidas, e não encontrando qualquer pessoa que se movesse entre as mesmas, entrou em um aposento no qual havia um grande número de quadros pintados; e neles, pinturas de várias coisas bonitas, especialmente a imagem da ignorância do homem conhecido como sábio, a injustiça de quem realizou as leis, as agressões vingadas pelo céu, coisas realmente de surpreender qualquer um. E na mesma câmara também havia uma mesa esplêndida com preciosidades para comer e beber.

            Não encontrando ninguém, a moça que estava com muita fome, sentou-se à mesa para servir-se; enquanto ela estava no meio da comilança eis que um belo escravo entrou, e disse: "Fique! não vá embora, porque eu a quero para a minha esposa e você será a mulher mais feliz do mundo."       Apesar de seu medo, Parmetella levou ao coração a boa oferta e concordou com o que o escravo propusera; então, uma incrível jóia lhe foi ofertada, era uma carruagem de diamantes puxada por quatro cavalos de ouro, com asas de esmeraldas e rubis. E um bom número de macacos, vestidos em panos dourados, lhe foram dados como seus servos. Então, os símios a vestiram da cabeça aos pés, enfeitando-a para que se parecesse com uma rainha.

            Quando a noite chegou, e o sol, desejando dormir às margens do rio da Índia sem ser perturbado por mosquitos apagou sua luz, o escravo disse a Parmetella: "Minha querida, agora vamos para a cama, mas lembre-se primeiro de apagar a vela e da mente o que se passar, ou algo de mal sucederá a você." Parmetella fez o que ele pediu e assim que ela fechou os olhos, o mouro transformou-se  em um jovem branco como um cristão e deitou-se ao seu lado.

            Na manhã seguinte, antes do alvorecer sair para procurar ovos frescos nos campos do céu, o jovem se levantou e retomou sua antiga forma, deixando Parmetella cheia de admiração e curiosidade. Mais uma vez, na noite seguinte, quando Parmetella foi para a cama e apagou a vela como tinha feito na noite anterior, o jovem veio como de costume e se deitou.  Mas assim que ele fechou os olhos, Parmetella se levantou e pegou um pedaço de mecha para acender um pavio e tomando a vela, levantou a colcha para ver o ébano tornar-se marfim.

            Enquanto ela ficou olhando com a boca aberta, contemplando a mais bonita criatura que a Natureza já tinha produzido, o jovem acordou e começou a censurar Parmetella, dizendo: "Ah, ai de mim! Por causa de sua curiosidade tenho que sofrer mais sete anos desse castigo maldito. Mas vá embora! Corra, pula fora! Fora da minha vista! Você não imagina a sorte perdeu." E assim dizendo, ele desapareceu como Mercúrio. A pobre moça saiu do palácio, fria e dura de medo, com a cabeça inclinada para o chão.

Mas assim que deixou a caverna, encontrou uma fada que lhe disse: "Minha menina, como o meu coração se entristece ao ver o seu infortúnio! Menina infeliz, você pode estar caminhando para o matadouro. Terá que passar por uma ponte que não é mais que um fio de cabelo”. “Contra todos os perigo, tome estes sete espetos com sete figos, um pote de mel, e estes sete pares de sapatos de ferro. Coloque os sapatos de ferro e ande sem parar e sem parar, até que os sapatos caiam fora dos pés, o que demorará sete anos. Só então você verá sete mulheres em cima da uma varanda de uma casa, girando de cima para baixo até o chão, com um fio preso no osso de um morto. Permaneça bastante quieta e escondida, e quando os fios caírem, retira o osso e coloca em seu lugar os espetos lambuzados de mel com um figo preso. Então, assim que as mulheres pegarem os fusos e provarem o mel, elas dirão:

            Aquele que fez o meu espeto doce, deve, em troca, sorte encontrar! "“E depois de repetir estas palavras, elas irão dizer uma após a outra, ‘oh você que nos trouxe essas coisas doces apareça! ’ Aí então você deverá responder: ‘Não, por que vocês irão me comer’. E elas irão dizer: ‘Nós juramos pela nossa colher que não vamos te comer!’  Não se mexa e elas vão continuar: ‘Nós juramos pela nossa saliva que não vamos te comer!’ Mantenha-se firme, como se presa ao chão e elas vão dizer: ‘Nós juramos pela nossa vassoura que não vamos te comer!’. Ainda não acredite nelas; quando disserem: ‘Nós juramos pelo nosso balde que não vamos te comer!’ cala a boca, e não diga uma palavra, ou vai te custar a vida. Por fim, elas dirão: ‘Nós juramos por Trovão e pelo Relâmpago que não vamos lhe comer!’ Agora, então, tome coragem e mostre-se porque elas não irão fazer-lhe mal. "

            A fada partiu e Parmetella caminhou por montes e vales, até que ao final de sete anos os sapatos de ferro foram se desgastando e um a um se desprendendo de seus pés. Foi quando chegou a uma casa grande, com uma varanda saliente, onde viu sete mulheres girando. Ela fez o que a fada havia aconselhado; e depois de mil artimanhas e seduções, as mulheres  juraram pelo Trovão e pelo Relâmpago, ao que ela se mostrou.  Então as sete, disseram: "Traidora, você é a causa porque o nosso irmão viveu duas vezes sete longos anos na caverna longe de nós, na forma de um escravo. Mas não importa. Apesar de ter sido inteligente o bastante para parar a nossa garganta com o juramento, você deve na primeira oportunidade pagar tanto pelo velho quanto por essa nova conta. Mas agora ouça o que deve fazer. Esconda-se atrás desta calha e quando nossa mãe vier querendo a engolir, levanta e pegue-a pelas costas, segure-a com firmeza e não a deixe ir até que ela jure por Trovão e Relâmpago não atacá-la".

            Parmetella fez o que lhe foi mandado e após a ogra ter jurado pelo fogo, pela pá, pela roda de fiar, pelo carretel, pelo aparador, e pela vassoura, enfim por Trovão e Relâmpago, Parmetella soltou-a e mostrou-se à ogra, que disse: "Você me pegou dessa vez, mas tome cuidado, traidora, pois no primeiro chuveiro vou mandar você se lavar!".

            Um dia a ogra, que estava na espreita de uma oportunidade para devorar Parmetella, levou doze sacos de várias sementes, ervilhas, grão de bico, lentilhas, feijão e tremoços e misturou-os todos; então ela disse: "Traidora, toma essas sementes e separa-as e se elas não estiverem cada uma em seu monte nesta noite, vou engoli-la como a uma torta." Pobre Parmetella! Sentou-se ao lado dos sacos chorando e disse: "Ó mãe, mãe, como uma raiz de ouro foi a raiz dos meus problemas! Por ver que um rosto negro virou branco, tudo se tornou escuro diante dos meus olhos. Infelizmente estou arruinada e desfeita e não existe nenhuma ajuda para mim, é como se já estivesse na garganta da ogra horrível, não há ninguém que me ajude ou aconselhe, ninguém para me consolar! "

            Enquanto ela se lamentava, eis que Trovão e Relâmpago apareceu, pois o banimento a que fora confiado pelo feitiço havia recentemente terminado. Embora estivesse irritado com Parmetella e o sangue não podia voltar a ser água, ele disse: "Traidora, o que a faz chorar assim?" Então ela falou sobre os maus-tratos de sua mãe e o desejo de lhe dar um fim, comendo-a.  Logo Trovão e Relâmpago respondeu: "Acalme seu coração, pois não será como ela disse." 

            E espalhou as sementes pelo chão, o que fez um dilúvio de formigas brotar e imediatamente começarem a trabalhar, amontoando as sementes separadamente por cada tipo e Parmetella encheu cada saco com elas. Quando a ogra chegou em casa e encontrou a tarefa feita quase entrou em desespero, e gritou: "Foi esse cão do Trovão e Relâmpago quem preparou o truque, mas você não me escapará! Tire os feixes de capim de cama desses doze colchões, arranque todos os carrapatos e que ainda nessa noite os colchões estejam cheios de penas, ou então eu vou fazer picadinho de você ".

            A pobre moça tomou os colchões e sentando-se no chão começou a chorar e a se lamentar amargamente, fazendo duas fontes de seus olhos. Mas novamente Trovão e Relâmpago apareceu e disse-lhe: "Não chora, traidora, deixa comigo que vou levá-la ao porto, deixa que os carrapatos se espalhem sobre o capim, e comece a chorar e lamentar gritando que o rei dos pássaros está morto, então você vai ver o que vai acontecer." Parmetella fez o que lhe foi dito, e eis que uma nuvem de pássaros de repente pareceu e escureceu o ar; ao chegarem comeram os piolhos e ao bater as asas deixaram cair suas penas por cestos, de tal forma que em menos de uma hora os colchões ficaram todos cheios. Quando a ogra chegou em casa e viu a tarefa feita, ela inchou de raiva até quase explodir, dizendo: "Trovão e Relâmpago está determinado a me atormentar, mas posso ser arrastada pelo rabo por um macaco, se deixar essa moça escapar!" Então ela disse para Parmetella: "Vá para a casa da minha irmã e diga-lhe para me enviar os instrumentos musicais, pois resolvi que Trovão e Relâmpago deva se casar e vamos fazer uma festa digna de um rei".

            Ao mesmo tempo, a velha ogra enviou um recado para a irmã: quando a pobre menina chegasse para pedir pelos instrumentos, deveria matá-la e cozinhá-la, e que ela mesma iria participar da comilança. Parmetella, ouvindo as ordens para executar uma tarefa mais fácil foi com grande alegria, pensando que o tempo tinha começado a tornar a velha mais branda.

            Ah, como torto é o julgamento humano! No caminho ela encontrou Trovão e Relâmpago, que a vendo alegre, disse-lhe: "Para onde você vai, menina miserável? Não vê que está a caminho do matadouro? Quer forjar seus próprios grilhões, afiar a faca e misturar o veneno para você mesma? Você foi enviada para a ogra te engolir. Mas me escute e não tenha medo. Tome este pedaço de pão, este pacote de feno, e esta pedra. E quando você chegar na casa de minha tia vai encontrar um bulldog, que vai voar latindo para mordê-la, mas dê-lhe este pequeno pão, que irá parar a sua boca.  E quando passar o cão vai ver um cavalo solto, que será mandado para escoicear e pisá-la,  mas dá-lhe o feno, que irá paralisar seus pés. Finalmente você vai chegar a uma porta que abre para lá e para cá sem parar; coloca esta pedra e você vai parar a sua fúria.” 

            “Em seguida, subindo as escadas, você encontrará a ogra com uma criança nos braços, e o forno pronto e aquecido para assar você. Ao que ela dirá: “Segure esta pequena criatura e espere aqui que eu vou buscar os instrumentos de música.” Ela mente, só vai aguçar as presas para rasgá-la em pedaços. Então, joga a criancinha sem piedade no forno antes da ogra voltar, ou você estará perdida. Os instrumentos musicais estão em uma caixa, mas tome cuidado ao abri-la, ou você vai se arrepender."

            Parmetella fez tudo o que Trovão e Relâmpago lhe disse; mas no caminho de volta com os instrumentos, ela abriu a caixa e eis que todos eles voaram para fora e ficaram aqui uma flauta, lá um flautim, aqui um tubo, lá uma gaita de foles, fazendo mil sons diferentes no ar, enquanto Parmetella ficou olhando e arrancando os cabelos em desespero. Enquanto isso, a ogra desceu as escadas e não encontrando Parmetella, foi até a janela e gritou para a porta, "Esmague a traidora!" Mas a porta respondeu:

            "Eu não vou pegar a pobre garota doente, pois ela me deu uma posição definida". Em seguida, a ogra gritou para o cavalo, "Pisa a ladra!" Mas o cavalo respondeu: "Deixe a pobre moça seguir seu caminho, ela me deu feno. "            E, por último, a ogra chamado para o cão, disse: "Morda a malandra!" Mas o cão respondeu:     "Não vou tocar num fio de cabelo de sua cabeça de quem me deu o pão ".

            Quando Parmetella corria chorando atrás dos instrumentos, encontrou Trovão e Relâmpago, que a repreendeu dizendo: "Traidora, você não vai aprender na vida que a curiosidade é mortal e que para você só traz sofrimento?" Então ele chamou de volta os instrumentos com um apito e fechou-os na caixa, dizendo a Parmetella para levá-los à sua mãe. Mas quando a ogra a viu voltar gritou, "Oh destino cruel! Até mesmo minha irmã está contra mim e se recusa a me dar um prazer."

            Enquanto isso, a noiva prometida pela mãe para Trovão e Relâmpago chegou. Era uma peste horrorosa, um composto de feiúra, uma harpia, uma sombra do mal, um horror, um monstro, uma grande banheira que com uma centena de flores e galhos na cabeça parecia uma pousada recém-inaugurada. A ogra fez um grande banquete e cheia de fel e malícia colocou a mesa com as comidas perto de um poço, onde ela sentou suas sete filhas, cada uma com uma tocha na mão; para Parmetella ela deu duas tochas e a fez sentar-se à beira do poço, com o propósito de que, quando ela adormecesse, caísse ao fundo.

Enquanto os pratos passavam para lá e para cá, e o sangue começava a ficar quente, Trovão e Relâmpago, que ficara desesperado com a visão da noiva, disse a Parmetella: “Traidora, você me ama?""Até o topo do telhado", respondeu-lhe. "Se você me ama, dá-me um beijo." "Não", disse Parmetella, você já tem uma criatura muito bonita a seu lado! O céu preserve-a para você por cem anos, com saúde e abundância de filhos!"

            Por seu lado a nova noiva falou: "Claro que você é uma tola e assim continuará a ser mesmo que viva cem anos, fazendo-se de puritana como você se faz, se recusando a beijar tão bonito jovem, enquanto eu deixo um pastor me beijar por um par de castanhas." Com essas palavras o noivo se encheu de raiva como um sapo, de modo que a comida parou na garganta; no entanto, ele fez uma cara boa e engoliu a pílula, com a intenção de fazer o acerto de contas e liquidar o saldo depois.

            Mas quando os pratos foram removidos, e a ogra mãe e suas irmãs tinham ido embora, Trovão e Relâmpago disse à noiva: "Esposa, você viu essa criatura orgulhosa recusar-me um beijo?""Ela é uma boba", respondeu a noiva, “ recusar um beijo a um jovem tão bonito, enquanto eu deixo um pastor me beijar por um par de castanhas."

            Trovão e Relâmpago não se conteve mais; a mostarda levantou-se em seu nariz e com o ato de desprezo e os trovões da ação, ele agarrou uma faca e esfaqueou a noiva, e depois cavou um buraco no porão e a enterrou. Em seguida, abraçando Parmetella disse: "Você é minha jóia, a flor das mulheres! Vire os olhos para mim, dê-me as mãos, coloque para fora esses lábios, aproxime-se de mim e de meu coração! Ele será seu enquanto o mundo durar!

            Na manhã seguinte, quando o sol despertou os corcéis de fogo de seu estábulo e levou-os para pastar nos campos semeados pelo amanhecer, a ogra veio com ovos frescos para o casal recém-casado, esperando que a esposa dissesse: "Feliz é quem se casa e recebe uma sogra!" Mas encontrou Parmetella nos braços do filho, e ao ouvir o que se tinha passado ela correu para a irmã, pois precisava algum meio de remover o espinho dos olhos, sem que seu filho fosse capaz de impedi-lo. 

            Mas quando descobriu que a irmã, estando de luto pela perda da filha pequena, se jogara no forno a ela mesma morrendo queimada, seu desespero foi tão grande que de uma ogra ela tornou-se um carneiro, e bateu com a cabeça contra a parede até quebrar os chifres.

            Então Trovão e Relâmpago fez a paz entre Parmetella e suas cunhadas, e todos viveram felizes e contentes, no provérbio que se tornou realidade:

 " A paciência tudo conquista."

 

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A inspiração de “A raiz dourada” pode ser encontrada tanto nas fábulas contadas pelos camponeses da região de Nápoles e da Sicília, quanto no mito de Eros e Psiquê, narrado por Lucio Apuleio.

Nesse mito, Psiquê é uma bela mortal por quem Eros, o deus do amor, se apaixonou. Tão bela que despertou a fúria de Afrodite, mãe de Eros. A deusa mandou seu filho atingir Psiquê com suas flechas, fazendo-a se apaixonar por um ser monstruoso que à noite se metamorfoseava em deus. Mas, ao contrário do esperado, Eros acaba se apaixonando pela moça- acredita-se que tenha sido espetado acidentalmente por uma de suas próprias setas.

À noite, uma voz suave a chamava e, levada por Eros, se entregava às delícias do Amor nas mãos do próprio deus, que, entretanto, não podia ser identificado.

Mas Psiquê não resiste à curiosidade e após perceber que seu marido entregara-se ao sono, levantou-se tomando uma vela e viu sua verdadeira face. Com a vela derretida, Eros acorda- o lugar onde caiu o óleo fervente de imediato se transforma numa chaga: o Amor está ferido.

Percebendo que fora traído, Eros enlouquece, e foge, gritando repetidamente, pois o Amor não sobrevive sem confiança!

Então o castelo desaparece. Psiquê, tal qual Parmetella, caminha noite e dia, sem repouso nem alimentação em busca do Amor, até que resolve consultar-se num templo da mãe, Afrodite. A deusa decide impor à pobre alma uma série de tarefas, esperando que delas nunca se desincumbisse, ou que tanto se desgastasse que perdesse a beleza e a vida.

Os quatro trabalhos de Psiquê assemelham-se aos trabalhos de Parmetella impostos agora pela mãe ogra de seu amado, no desempenho dos quais também é auxiliada pelo amado. Na luta pela vida, pela beleza e pelo amor, Trovão e Relâmpago, afinal, tal qual Eros, é antes de tudo paixão: trovão e relâmpago.

Na Metamorfose de Apuleio, ao final da história sob as bênçãos dos deuses, Psiquê é tornada imortal e fica unida a Eros, e ambos têm uma filha cujo nome é Prazer. Na fábula de Basile, Trovão e Relâmpago consegue, ao final, estabelecer a paz entre Parmetella e suas cunhadas, e todos vivem felizes e contentes.

Conto Vigésimo Nono: “O Sol, a Lua e Tália”.

 É fato conhecido que um homem cruel torna-se muitas vezes seu próprio carrasco; e aquele que joga pedras ao céu freqüentemente sai com a cabeça rachada. O reverso da medalha nos mostra que a inocência é um escudo feito de madeira de figueira, em que a espada da malícia se quebra, ou fica entalada; de modo que, quando se imagina uma pessoa já morta e enterrada, ela revive novamente em carne e osso, como ouviremos na história que eu vou tirar do barril da memória com o toque de minha língua.

 

            Era uma vez um grande senhor, que ao nascer da filha por ele chamada Tália, mandou que os videntes e sábios de seu reino viessem adivinhar sua sorte. Depois de vários conselhos, chegaram à conclusão de que um grande perigo a aguardava vindo de um talo de linho. O rei, então, emitiu uma ordem proibindo que qualquer linho, cânhamo ou coisa do gênero fosse levado para sua casa, esperando assim conjurar o perigo.

            Quando Tália estava crescida, estando um dia à janela, viu uma mulher idosa passar tecendo.  Ela nunca tinha visto uma roca ou um eixo e ficou muito impressionada com a torção e giro do fio, a curiosidade foi tão grande que ela fez com que a velha subisse as escadas do palácio. Tomando a roca na mão, Tália começou a estirar o fio, quando por um azar um pedaço de talo do linho ficou sob sua unha, e ela caiu como morta ao chão. Na confusão, a mulher idosa correu para a rua tão rapidamente quanto pode. O pai infeliz ao saber do desastre que se abatera sobre Tália, depois de chorar amargamente, colocou-a num outro palácio deitada sobre uma cama de veludo com um dossel de brocado. Em seguida fechou todas as portas do palácio, isolando para sempre o lugar e os fatos que tinham sido a causa de tanto infortúnio, limpando a lembrança da própria mente.

            O tempo passou. Certo dia, um determinado rei saiu para caçar e um falcão escapou do seu domínio e voou para a janela daquele palácio desconhecido. Quando o rei viu que a ave não retornava ao seu chamado, ordenou que os servos batessem à porta, pensando que o prédio fosse habitado; depois de bater por algum tempo em vão, o rei ordenou que buscassem a escada de um vinhateiro para subir e ver o que lá dentro se passava. O rei subiu, entrou e caminhou por todo o palácio, ficando horrorizado ao não encontrar qualquer pessoa que vivesse.

            Por fim ele chegou ao quarto em que Tália estava deitada, como se estivesse encantada. Ele a viu e chamou-a pensando que estivesse dormindo; tudo em vão, a moça dormia tão profundamente que nem os gritos a despertavam. Então, depois de   admirar a beleza de Tália por certo tempo, o rei voltou para o seu reino e por muito tempo esqueceu o que havia ocorrido.

            Nesse meio tempo, dois pequenos gêmeos, um menino e uma menina, que pareciam duas pequenas jóias e que vagavam não sei por aonde, chegaram ao palácio e encontraram Tália em seu transe.  No início, as crianças ficaram com medo depois de tentarem, em vão, acordá-la; sendo mais ousada, a menina colocou delicadamente o dedo de Tália em sua boca e mordeu-o para despertá-la. E de fato assim ocorreu e a lasca de linho saiu. 

            Então Tália pareceu acordar como de um profundo sono. A princípio a princesa se espantou ao ver-se tão só num palácio com duas crianças, onde a comida e as bebidas eram trazidas por mãos invisíveis; mas tendo as pequenas jóias ao seu lado, colocou-os em seu coração e amava-os mais que a própria vida.

            Depois de certo tempo, o rei lembrando-se de Tália, aproveitou a ocasião de ir à caça e tornar a vê-la. Foi quando ele a encontrou desperta, e com duas belas pequenas crianças ao seu lado, ficando mudo em arrebatamento. O rei disse a Tália quem ele era e tornaram-se grandes amigos. Ele permaneceu no palácio vários dias prometendo, ao partir, retornar e buscá-los.

            Tendo voltado a seu próprio reino, o rei repetia constantemente os nomes de Tália e dos pequenos, de modo que, quando estava comendo ele tinha Tália na boca, e Sol e Lua, pois assim ele denominou as crianças e quando dormia não deixava de chamá-los, primeiro um e depois o outro. A madrasta do rei suspeitara da longa ausência quando da caça, e quando o ouviu falar em Tália, Sol e Lua, sentiu-se indignada e disse ao secretário do rei: "Ouça, meu amigo, você está em grande perigo, entre o machado e o cepo; se me disser por quem é que meu enteado está apaixonado vou fazer você ficar rico, mas se esconder de mim a verdade, vou fazê-lo se arrepender."

            O homem, movido por um lado pelo medo, e por outro, picado por interesse, que é um curativo para os olhos da honra, disse à rainha toda a verdade. Ao que ela enviou-o em nome do rei até Tália, dizendo que seu patrão gostaria de ver as crianças. Tália, então, enviou-os com grande alegria. Entretanto, a rainha quando as crianças chegaram ordenou ao cozinheiro que os matasse e os servisse de várias maneiras para que seu enteado os comecesse num banquete.

            Já o cozinheiro, que tinha um coração terno, vendo os dois lindos garotos dourados, teve compaixão pelos mesmos e deu-os à sua esposa para que os mantivessem escondidos; em seguida, ele matou e preparou duas pequenas crianças, preparando-os em uma centena de maneiras diferentes.

            Quando o rei entrou, a rainha ordenou que os pratos fossem servidos e ele sentou para comer com grande alegria, exclamando: "Como isso é bom!” A velha rainha durante todo o tempo ia dizendo: "Come sempre, você sabe o que come."

            A princípio o rei não prestou atenção ao que ela disse; mas, ouvindo a música continuar ele falou: "Sim, eu sei muito bem o que eu como, pois você não trouxe nada para a casa."  E levantando-se em fúria, partiu para a vila próxima para esfriar a raiva. Enquanto isso a rainha, não satisfeita com o que já tinha feito, chamou novamente o secretário e enviou-o para buscar Tália, fingindo que o rei desejava vê-la. Tália viajou no mesmo instante, desejando ver a luz de seus olhos, e não sabendo que só a fumaça a esperava. 

            Quando ela apareceu ante a rainha, esta última disse-lhe com o rosto de um Nero cheio de veneno de víbora: "Bem vinda, Senhora Enganadora! É você quem pratica o mal? Erva daninha que chamou a atenção de meu filho e me tem dado todo este trabalho?" Quando Tália ouviu isso ela começou a desculpar-se, mas a rainha não queria ouvir uma só palavra; e tendo um grande fogo aceso no pátio, ordenou que Tália fosse jogada nas chamas.

            Pobre Tália, vendo seus assuntos irem tão mal, caiu de joelhos diante da rainha, suplicando-lhe que pelo menos lhe concedesse tempo para tirar as roupas das costas. Diante disso a rainha, não tanto por pena da menina infeliz, quanto para obter a posse de seu vestido, bordado todo ele com ouro e pérolas, disse-lhe: "Dispa-se, permito que você o faça." Na medida em que Tália começava a se despir, a cada peça de roupa tirada ela soltava uma exclamação de dor; e quando ela já havia tirado a capa, o vestido e a jaqueta, e estava a tirar a saia, as roupas a agarraram e a arrastaram para longe do fogaréu. 

            Foi quando o rei apareceu e vendo o espetáculo quis saber toda a verdade; e quando ele pediu também para ver as crianças e ouviu que sua madrasta ordenara que eles fossem mortos, o infeliz rei entregou-se ao desespero. Ele então ordenou que a madrasta fosse lançada no mesmo fogo que tinha sido preparado para Tália, e o secretário com ela, que era parte do jogo cruel, tecelão perverso da mesma rede. 

            E ia fazer o mesmo com o cozinheiro, pensando que tivesse matado as crianças; mas esse se atirou aos pés do rei e disse: "Em verdade, senhor rei, eu não vejo nenhum benefício pelo serviço que realizei em ser jogado num fogo cheio de brasas. Eu espero é uma grande recompensa por ter salvado as crianças, e trazê-los de volta para sua Majestade, apesar daquela criatura má que queria matá-los." Quando o rei ouviu estas palavras pareceu que sonhava e não podia acreditar no que seus ouvidos lhe contavam. Então ele disse ao cozinheiro: "Se é verdade que você salvou as crianças, a mesma certeza de que iria virar espeto tenha de que vou recompensá-lo, e você irá se achar o homem mais feliz do mundo."

            Enquanto o rei falava, a esposa do cozinheiro trouxe Sol e da Lua, que com Tália e as crianças, ele beijava uma atrás da outra. Dando ao cozinheiro uma grande recompensa, ele o fez seu camareiro; e tomou Tália para esposa, que teve uma longa vida com o marido e os filhos, reconhecendo que...

 "Quem tem sorte pode ir para a cama, que a felicidade irá chover sobre sua cabeça".

 

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O conto de Basílio é o precursor daquele que seria escrito pelo francês Charles Perrault, cinqüenta anos após: “A Bela Adormecida” que, no século XIX, ganhou uma nova versão, a dos alemães Irmãos Grimm (com o nome “Little Brier-Rose”).

Tália é uma das Três Graças com que Zeus alegra o Olimpo. Tália, aquela de quem brotam as flores, que trazem consigo o encanto e a alegria. E a fábula de Basile é repleta de simbolismos extraídos da mitologia grega, de onde provém tanto o canibalismo quanto a relação incestuosa do rei com a madrasta, substituta da mãe natural.

Mesmo quando a Graça Tália encontra-se em catalepsia não perde seu encanto. O rei que a visita e a estupra, é aquela que é capaz de fazer brotar “flores”, dar à luz de forma espontânea às duas “crianças- pérolas”, o Sol e a Lua. Um dia um dos bebês não encontra o seio para mamar e coloca a boca no dedo da mãe e o suga. Suga com tanta força, que extrai a farpa e a faz despertar do sono encantrado.

O rei retorna e encontra-se com a amante desperta e os filhos por ele gerados, mas embora os abandone por temor à rainha- madrasta, já se encontra inoculado com o “vírus” da paixão.

O ciúme da rainha- madrasta tudo precipita, cumprindo-se o ditado de que aquele que sorte possui até deitado numa cama por ela é encontrado.

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