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“O Conto dos Contos”

Capítulo 17 - Conto Trigésimo: “Nennillo e Nennella”.

Ai daquele que pensa que encontra uma governanta para seus filhos dando-lhes uma madrasta!  Ele só traz para casa a causa de sua ruína. Nunca houve uma madrasta que olhasse com bons olhos os filhos de outra; ou se por acaso tal pessoa fosse encontrada, seria considerada um milagre e chamada de corvo branco.

Além dos muitos casos de que vocês devem ter ouvido falar, agora vou acrescentar-lhes outro, para ser adicionado à lista das madrastas cruéis, e vocês concordarão que mereceu a punição, que comprou para si com o próprio dinheiro.

 

            Era uma vez um bom homem chamado Jannuccio, que tinha dois filhos, Nennillo e Nennella, a quem amava tanto quanto a própria vida.  Mas depois que a morte tendo com o arquivo suave do tempo cortado os pilares da alma de sua esposa, ele tomou para si uma mulher cruel. Nem bem ela acabara de pôr os pés em sua casa, começou a andar de salto alto, dizendo: "Venho aqui para cuidar dos filhos de outra? Belo negócio eu fiz com todo trabalho que tive, e ter que brincar com um casal de pirralhos! Eu deveria era ter quebrado o meu pescoço antes de vir para esse lugar! Comida ruim, pior bebida e não dormir à noite, certamente é essa a vida que vou levar. Cheguei como uma mulher e não como uma serva e devo encontrar meios de me livrar dessas criaturas ou isto vai me custar a vida: melhor corar uma vez que empalidecer uma centena de vezes, pois estou decidida a mandá-los embora ou sair desta casa para sempre ".

            O pobre marido, que tinha carinho pela mulher, disse-lhe: "Calma, esposa. Não fique com raiva, pois o açúcar é doce! E amanhã de manhã, antes que o galo cante, acabarei com seu aborrecimento." Então, na manhã seguinte, antes que o amanhecer tivesse pendurado para fora a colcha vermelha na janela do oriente para arejá-la, Jannuccio levou os filhos, um de cada lado, com uma boa cesta cheia de alimentos no braço, até a um bosque onde um exército de choupos e faias estavam segurando os raios solares sitiados.

            Jannuccio disse: "Meus filhinhos, fiquem aqui, comam e bebam alegremente e se quiserem alguma coisa, sigam esta linha de cinzas com que marquei o caminho que levará vocês de volta." Em seguida, dando-lhes um beijo, voltou chorando para casa. Na hora em que todas as criaturas convocadas pelos policiais da noite pagam à natureza o imposto do repouso indispensável, as duas crianças começaram a sentir medo daquele lugar solitário, onde as águas de um rio se debatiam impertinentes contra as pedras que obstruíam seu curso.       Os meninos, então, resolveram seguir ao longo do caminho de cinzas e já era meia-noite quando chegaram à casa do pai.

            Quando Pascozza, a madrasta, viu as crianças não agiu como uma mulher, mas como uma perfeita fúria; gritando, torcendo as mãos, batendo os pés, bufando como uma égua assustada, e exclamando: "Que bela peça me foi aprontada! Não há maneira de livrar a casa dessas criaturas? É possível, marido, que você esteja determinado a mantê-los aqui para atormentar minha vida? Tire-os já de minha vista. Não vou esperar o cantar dos galos e o cacarejar das galinhas, e garanto que amanhã de manhã volto para casa dos meus pais, pois você não me merece. Eu não lhe trouxe  tantas coisas boas só para ser a escrava de crianças que não são minhas ".

            Pobre Jannuccio que viu a bronca crescendo e, não muito contente, tomou das crianças e voltou para o bosque. Lá deu às mesmas outra cesta cheia de comida, e disse-lhes: "Vocês vêem, meus queridos, como essa mulher veio à minha casa para ser sua ruína e um prego no meu coração, ela os odeia; por isso permaneçam nesse bosque onde as árvores, mais compassivas, lhes darão abrigo do sol; onde o rio, mais caridoso, dará de beber sem veneno; a terra, mais amável, vai dar-lhes um travesseiro de grama, sem riscos. E quando vocês quiserem comida, sigam este caminho que fiz para vocês em uma linha reta com farelo." Assim dizendo, ele virou a rosto para não deixar ser visto a chorar e desanimar as pobres criaturinhas.

            Quando Nennillo e Nennella comeram tudo o que havia no cesto, quiseram voltar para casa; mas ai de mim! Um asno, filho da má sorte, tinha comido todo o farelo que fora espalhado no chão, logo eles perderam o caminho e perambularam desamparados no bosque  durante vários dias, alimentando-se de bolotas e castanhas que encontravam caídos no chão. Mas como o Céu sempre estende o braço sobre o inocente, por acaso um príncipe veio caçar no bosque. Nennillo, ouvindo os latidos dos cães, ficou tão assustado que se escondeu em uma árvore oca; já Nennella saiu correndo a toda velocidade até sair do bosque e chegar à beira-mar.

            Ora, aconteceu que alguns piratas haviam desembarcado na praia para obter lenha e ao virem Nennella, raptaram-na. Seu capitão a levou com ele para casa, onde ele e a esposa, tendo recentemente perdido uma menina, tomaram-na como filha.

            Nennillo, que se escondera na árvore, foi cercado pelos cães, que fizeram um latido tão furioso que o príncipe enviou gente para descobrir a causa. Quando ele encontrou um bonito menino, tão jovem e que não podia dizer quem eram seu pai e sua mãe, mandou um dos caçadores colocá-lo em cima da sela do cavalo e levá-lo até o palácio real.    O príncipe criou-o e instruiu-o em várias artes com muito cuidado, dentre outras a de escultor. Em menos tempo que três ou quatro anos, Nennillo se tornou tão bom em sua especialização que poderia esculpir até os próprios cabelos.

            Tempos depois, as pessoas descobriram que o capitão do navio, aquele que tinha levado Nennella para casa, era um ladrão do mar, e desejaram prendê-lo; mas recebendo um aviso dos funcionários da lei e da corte que eram os amigos para quem ele pagava propinas, fugiu com toda a família. Foi decretado, no entanto, talvez pelo julgamento do céu, que aquele que tinha cometido seus crimes sobre o mar, sobre o mesmo deveria sofrer o castigo; por ter viajado em um barco pequeno, assim que estava em mar aberto, veio uma tempestade de vento com o tumulto das ondas. O barco afundou e todos morreram afogados, todos exceto Nennella, que não tendo qualquer participação nos assaltos do corsário, o que não era o caso da esposa e dos outros filhos, escapou ao perigo.

            Então, um grande peixe encantado, que estava nadando ao lado do barco, abriu a sua enorme boca e engoliu-a. A menina pensou que seus dias tinham chegado ao fim, mas encontrou uma coisa que a surpreendeu dentro do peixe: belos campos e jardins requintados, assim como uma esplêndida mansão, com tudo o que um coração poderia desejar, onde podia viver como uma princesa. 

            Um dia ela foi levada pelo peixe até uma rocha, onde por acaso o príncipe tinha vindo para escapar do calor abrasador do verão e para desfrutar da brisa do mar. Enquanto um grande banquete estava sendo preparado, Nennillo saiu ao balcão do palácio sobre a rocha, para afiar algumas facas. Foi quando viu Nennella, que através da garganta do peixe, clamava em alta voz:            "Irmão, irmão, a sua tarefa está cumprida e as mesas são dispostas para os convidados; mas aqui, no peixe, devo sentar e suspirar. Oh irmão, sem você eu logo morrerei."

            Nennillo a pricípio não deu atenção à voz, mas o príncipe, que estava em pé na varanda e também a ouvira, virou-se na direção de onde vinha o som, e viu o peixe. E quando ele ouviu novamente as mesmas palavras, espantou-se e pediu que seus empregados tentassem por todos os meios que pudessem seduzir o peixe e fazê-lo ancorar. Finalmente, ouvindo as palavras "irmão, irmão!" continuamente repetidas, ele perguntou a todos os seus servos, um a um, se algum deles tinha perdido uma irmã. E Nennillo respondeu que ele lembrava como num sonho de ter tido uma irmã quando o Príncipe encontrou-o no bosque, mas que ele nunca mais tinha ouvido qualquer notícia sobre a mesma. 

            Então o príncipe disse-lhe que se aproximasse do peixe. Assim que Nennillo foi chegando, o peixe levantou a cabeça sobre a rocha e abrindo a boca em seis palmos de largura, permitiu que Nennella saísse tão linda que parecia uma ninfa a caminhar de um encantamento mágico. E quando o príncipe perguntou-lhe como tudo tinha acontecido, ela disse-lhe uma parte de sua história triste, e o ódio de sua madrasta, mas não era capaz de lembrar o nome do seu pai nem onde seria sua casa.

            O príncipe recebeu-a e preparou uma proclamação ordenando que quem tivesse perdido dois filhos em um bosque, chamados Nennillo e Nennella, deveria vir ao palácio real para receber uma alegre notícia. Jannuccio, que durante todo esse tempo, passara uma vida triste e desconsolada acreditando que seus filhos tinham sido devorados por lobos, correu na maior alegria em busca do príncipe e disse-lhe que havia perdido os filhos.

            E quando ele relatou a história de como ele havia sido obrigado a levá-los ao bosque, o príncipe deu-lhe uma boa bronca, chamando-o de tonto por permitir que uma mulher tivesse colocado o calcanhar em cima de seu pescoço, até que ele mandasse embora duas jóias como seus filhos. Mas depois que ele abriu a cabeça de Jannuccio com essas palavras, fez-lhe um gesto de consolo mostrando-lhe as crianças que o pai abraçou e beijou por meia hora sem ficar satisfeito. 

            Em seguida, o Príncipe o fez tirar a roupa que ele mesmo vestiu como se fosse sua e indo pessoalmente até a esposa de Jannuccio, mostrou-lhe os dois meninos dourados e perguntou-lhe o que uma pessoa que lhes tivesse feito mal, ou até mesmo colocado em risco suas vidas, mereceria. E ela respondeu: "De minha parte, gostaria de colocá-la em um barril fechado, e mandá-la rolar abaixo numa montanha."

            "Pois isso será feito!"  disse o príncipe. "A cabra foi alvo de si mesma. Você deu a sentença e deverá sofrê-la, por ter tratado esses belos enteados com tanta maldade." Então ele deu ordens para que a sentença fosse executada. Em seguida escolheu um senhor muito rico entre seus vassalos e deu-lhe Nennella por esposa e a filha de outro grande senhor para Nennillo, permitindo-lhes ter o suficiente para viverem bem com o próprio pai, de modo que eles nada mais queriam do mundo. Mas a madrasta, fechada em barril continuou chorando enquanto respirou...

"Aquele que procura o mal pode em suas travessuras cair;  e chega a hora que a todos recompensará por seus atos."

 Comentário

O conto “Nennillo e Nennella” serviu de inspiração aos Irmãos Grimm numa fábula intitulada “Os pequenos irmão e irmã”.

Trata-se basicamente de uma fábula moralista, que envolve magia e certa crítica social e de costumes, dado que a presença de pirata dos mares era fruto da corrupção dos agentes do Estado.

O guardar-se dentro de si mesmo nas adversidades (Nennella no ventre de um peixe e Nennillo dentro do oco de uma árvore) é o contraponto ao castigo imposto a quem se obriga ao isolamento para a morte como é o caso da madrasta dentro do barril.

Conto Trigésimo Primeiro: “Os Três Limões”.

Um sábio disse: "Não diga tudo o que sabe, nem tudo de que seja capaz", pois caso contrário podem surgir perigos desconhecidos e até mesmo uma ruína imprevista. Vocês ouvirão a respeito de uma determinada escrava (o que contarei o farei com toda a reverência por minha senhora, a princesa), que depois de fazer todo o mal que podia contra uma menina pobre, saiu-se tão mal, que como a juiza de seu próprio crime, terminou condenada ao castigo que merecia.

 

            Uma vez o rei de Torre Alta teve um filho, a menina dos seus olhos, sobre quem construíra todas suas esperanças. E esperava com impaciência o momento em que deveria encontrar algum bom enlace matrimonial para ele. Mas o príncipe era tão avesso ao casamento e obstinado que sempre que uma mulher era citada, ele balançava a cabeça e desejava estar a uma centena de milhas de distância; o pobre rei, sendo seu filho teimoso e perverso, e prevendo que sua raça chegaria ao fim, foi ficando mais aborrecido, triste e abatido, como o espírito de um comerciante cujo sócio faliu ou de um camponês cujo burro morreu. 

            Nem as lágrimas do pai demoviam o príncipe, nem as súplicas dos cortesãos amoleciam-no, nem os conselhos dos sábios o faziam mudar de idéia; em vão traziam diante de seus olhos a vontade do pai, o querer das pessoas e seu próprio interesse, dado ser ele o ponto final da linha na corrida real. Com a obstinação e a teimosia de uma mula velha com pele de quatro dedos de espessura, ele plantou o pé resolutamente, parou os ouvidos e fechou o coração contra todas as sugestões. 

            Mas como muitas vezes acontece em uma hora o que não ocorre em cem anos, e ninguém pode dizer por aqui ou por lá, sucedeu que um dia quando todos estavam à mesa, e o príncipe estava cortando um pedaço de queijo fresco, escutando o bate-papo que corria ao lado, teve acidentalmente cortado um dedo. Duas gotas de sangue derramadas em cima do queijo fizeram uma bela mistura de cores, que ou como um castigo infligido pelo amor, ou pela a vontade do céu para consolar o pobre pai, o evento trouxe ao príncipe a vontade de encontrar uma mulher exatamente com o branco e o vermelho, tal qual o queijo misturado ao sangue. 

            Então ele disse ao pai: "Senhor, a menos que eu tenha uma esposa branca e vermelha como esse queijo, não vou me resolver; se você quiser-me ver vivo e bem, dê-me tudo de que preciso para percorrer o mundo em busca de uma beleza como essa ou vou acabar a vida morrendo aos poucos. " Quando o rei ouviu esta louca decisão, pensou que a casa estava caindo sobre suas orelhas; a cor veio e se foi, e assim que ele se recuperou e conseguiu falar, disse: "Meu filho, vida da minha alma, o suporte da minha velhice, uma louca fantasia fez você se despedir da sua razão. Você perdeu o juízo ao querer tudo ou nada. Primeiro você não quer se casar com o propósito de me privar de um herdeiro, e agora está impaciente para ser expulso do mundo onde vivemos. Para onde você iria vagar, desperdiçando a vida e deixando sua casa, seu lar, sua casa? Você não sabe a que labutas e perigos trazem para si mesmo aquele que sai sem destino? Deixa passar esse capricho, meu filho. Seja sensato e não queira ver a minha vida desgastada, esta casa caída ao chão, a família na ruína. "

            Mas estas e outras palavras entravam por um ouvido e saiam pelo outro; o pobre rei, vendo que o filho estava tão imóvel quanto uma torre com seu sino, deu-lhe um punhado de dinheiro e dois ou três serviçais. Ao dar-lhe adeus sentiu como se sua alma fosse arrancada do corpo e chorando amargamente foi para a varanda desde onde seguiu o filho com os olhos até que ele se perdesse de vista. O príncipe partiu deixando o pai com sua dor e caminhou através de campos e bosques, sobre montanhas e vales, colinas e planícies, visitou países, vários povos, sempre com os olhos bem abertos para ver se ele encontrava o objeto de seu desejo. 

            Ao fim de vários meses chegou à costa da França, onde deixando seus servos com os pés machucados em um hospital, embarcou sozinho em um barco genovês para chegar até o Estreito de Gibraltar.  Lá pegou um navio e partiu para as Índias, em visita a todos os lugares, de reino em reino, de província em província, de país em país, de rua em rua, de casa em casa, em cada buraco e canto, para ver se conseguia encontrar o original que se assemelhasse à imagem bonita que ele tinha guardada no coração. Perambulou até que chegou ao que se denominava de a Ilha dos Ogros, onde ancorou.

Lá ele encontrou uma velha, murcha e enrugada, com uma cara horrorosa, a quem relatou o motivo que o trouxera ao país. A velha ficou fora de si quando ouviu com espanto o estranho capricho que era a fantasia do príncipe, e as fadigas e perigos que ele havia se submetido para satisfazer-se; então ela disse-lhe: "Apresse-se e vá embora, meu filho, porque se minhas três filhas o encontrarem eu não daria um centavo por sua vida! Meio vivo e meio assado, uma frigideira seria o seu esquife e uma barriga, a sepultura. Corra tão rápido quanto uma lebre ou não irá muito longe para encontrar o que está procurando! "

            O príncipe ouvindo-a sentiu-se assustado, aterrorizado e espantado, partiu correndo a toda velocidade, e correu até que chegou outro lugar, onde mais uma vez encontrou uma mulher velha, ainda mais feia que a primeira, a quem contou toda a sua história. Essa velha disse-lhe de igual modo, "Dê o fora a menos que deseje servir de café da manhã para os pequenos ogros de minhas filhas! Mas vá em frente e em breve encontrará o que busca."

            O príncipe saiu correndo tão rápido quanto um cão com uma chaleira na cauda; e ele continuou e continuou, até que conheceu outra mulher de idade, que estava sentada em cima de uma roda, com uma cesta cheia de pequenas tortas e doces em seu braço, alimentando uma série de burros, que pulavam num riacho, pateando alguns pobres cisnes.        Quando o príncipe chegou até a velha, depois de fazer uma centena de salamaleques, contou-lhe a história de suas andanças e a velha, confortando-o com palavras amáveis, deu-lhe um bom café da manhã de tal forma que ele lambeu até os dedos. E quando ele acabara de comer ela deu-lhe três limões, que pareciam serem frescos, colhidos da própria árvore; entregou-lhe também uma bonita faca, dizendo: "Você agora está livre para voltar para a Itália, o seu trabalho está terminado e já tem o que estava procurando. Ide, portanto, e quando você estiver perto do seu reino, pare na primeira fonte que encontrar e corte um limão. Então uma fada sairá dele, e dirá a você: ‘Dá-me de beber’.’ Dê-lhe de pronto a água ou ela irá desaparecer como o mercúrio. Mas se você não for rápido o suficiente com a segunda fada, tenha os olhos abertos e esteja atento para que a terceira não escape, dando-lhe rapidamente de beber, e você terá uma esposa como seu coração deseja. "

            O príncipe muito feliz beijou a mão peluda da velha, que parecia a parte traseira de um ouriço, quase uma centena de vezes. Após se despedir ele deixou a região, e vindo para a beira-mar navegou até as Colunas de Hércules, e chegando ao nosso mar, depois de mil tempestades e perigos, aproximou-se de seu próprio reino. Lá ele aportou e caminhou até um lindo bosque, onde as sombras formavam um palácio para a campina, evitando que fossem vistas pelo sol;  e descobriu uma fonte, que com uma língua de cristal, estava convidando as pessoas para refrescar seus lábios.

Sentou-se sobre um tapete sírio formado por plantas e flores.  Em seguida sacou a faca da bainha e começou a cortar o primeiro limão. Imediatamente apareceu como um raio de luz a mais bela donzela, branca como leite e vermelha como um morango, que lhe disse: "Dá-me de beber!"  O príncipe ficou tão espantado, perplexo, e encantado com a beleza da fada que não lhe deu água rápido o suficiente. Então ela desapareceu. Isso foi uma pancada na cabeça do príncipe, como se depois de ter um presente nas mãos, deixasse-o escapar pelos dedos.

            Em seguida o príncipe cortou o segundo limão, e a mesma coisa aconteceu novamente; e este foi um segundo golpe que bateu em sua cabeça.  Fazendo duas pequenas fontes dos olhos ele chorou, lágrima por lágrima, gota por gota, e suspirando exclamou: "Meu Deus, por que é que eu sou tão infeliz? Duas vezes eu deixei-a fugir, como se minhas mãos estivessem atadas e aqui eu me sinto como uma rocha, quando deveria correr como um galgo. Mas coragem, o homem ainda existe! Outro limão e três é o número da sorte; esta faca me dará um fim ou transformará minha vida!" Assim dizendo, cortou o terceiro limão e surgiu à sua frente uma terceira fada, dizendo como as outras: "Dá-me de beber"! O príncipe rapidamente entregou-lhe água e eis que estava em pé diante dele uma jovem delicada, branca como uma coalhada e com tintas vermelhas, coisa de uma beleza incomparável, nunca antes vista no mundo, algo mesmo para além da imaginação, uma graça mais de a mais.

            Naqueles cabelos, Jove tinha derramado ouro, dos quais o Amor fez suas flechas para perfurar todos os corações; o rosto, o deus do amor tinha tingido de vermelho; os olhos, o sol tinha iluminado como dois fogos de artifício para incendiar os foguetes dos suspiros no peito de quem os veja; as rosas sobre os lábios, aos quais Venus tinha dado sua cor, aquela cor da ferida de mil corações apaixonados por espinhos. Em uma palavra ela era linda da cabeça aos pés. O príncipe não sabia o que acontecera consigo e ficou perdido em assombro olhando para o belo fruto de um limão, e disse para si mesmo: "Você está dormindo ou acordado, Ciommetiello? Estão seus olhos enfeitiçados? Que criatura branca é esta que surge de uma casca amarela? Que fruta doce que surge do suco azedo de um limão? Que linda donzela surgiu a partir de um limão cortado?"

            Por fim vendo que tudo era realidade e não sonho, ele abraçou a fada, dando-lhe uma centena e uma centena de beijos; e depois de mil palavras ternas entre eles se passarem - palavras que, como cenário, tiveram um acompanhamento de beijos açucarados - o príncipe disse: "Minha alma, eu não posso levá-la para o reino de meu pai sem vestes dignas de tão bela pessoa e um acompanhamento ao nível de uma rainha, portanto suba nessa árvore de carvalho, onde a natureza parece ter feito propositadamente um esconderijo na forma de um pequeno quarto, e aqui aguarda meu retorno, pois voltarei em asas, antes que uma lágrima possa secar, com vestidos e servos para levá-la ao meu reino ". Assim dizendo, depois das cerimônias de costume, o príncipe partiu.

            Logo após, uma escrava sarracena enviada por sua patroa com um jarro para buscar água na fonte, lá chegou. E vendo por acaso o reflexo da fada na água, pensou que fosse o dela mesma, e exclamou com espanto: "Pobre Lúcia, o que eu vejo? Sou tão bonita e é justo que a patroa me envie aqui? Eu não sou um urso!" 

            Dizendo isso ela quebrou o jarro e voltou para casa; quando a patroa lhe perguntou: "Por que você cometeu essa maldade?" Ela respondeu: "O vaso fugiu sozinho e quebrou-se sobre uma pedra." Sua senhora engoliu a história, mas no dia seguinte deu-lhe um barril, dizendo-lhe para ir e enchê-lo com água. A escrava retornou à fonte, e vendo novamente a imagem refletida na água, disse com um suspiro profundo: "Não, não sou uma escrava feia, sou até mais bonita que minha patroa e não devo mais vir à fonte! " Assim dizendo esmagou o recipiente da patroa. O barril ficou quebrado em setenta peças e ela voltou para casa resmungando: "Um asno vinha passado e o barril caiu no poço, quebrando-se em pedaços."

            A pobre senhora ao ouvir a história não se conteve mais, e pegando um cabo de vassoura, bateu na escrava tão duro que ela sentiu-o por muitos dias; depois, dando-lhe uma bolsa de couro,  disse: "Corra ou vou quebrar seu pescoço, sua miserável, gafanhoto de pernas! Corra e traga-me este saco cheio de água, senão vou pendurá-la como um cão e dar-lhe uma boa surra. " A escrava saiu aos saltos, pois já tinha visto o relâmpago e temia o trovão.  Enquanto estava enxendo o saco de couro, virou-se para olhar novamente a bela imagem e disse: "Sou tola por buscar água! Uma menina tão bonita servindo a uma má patroa". Assim dizendo, tomou um grande alfinete que usava no cabelo e fez buracos na bolsa de couro, que ficou parecida com um regador fazendo uma centena de pequenas fontes. 

            Quando a fada viu a cena riu alto e a escrava ao ouvi-la virou-se e a avistou em seu esconderijo na árvore. Então disse para si mesma: "Oh! você me fez ser espancada, mas não importa!" Olhando para a fada falou-lhe: "O que você está fazendo aí em cima, moça?" E a fada, que era a própria mãe da cortesia, contou-lhe tudo o que sabia, assim como o que havia acontecido com o príncipe a quem ela estava esperando de hora em hora e a cada momento, com vestidos finos e servos para levá-la ao reino do pai, onde viveriam felizes juntos.

            A escrava, cheia de rancor, pensou que tinha um prêmio nas mãos; então respondeu à fada: "Enquanto você espera seu marido, eu subo e penteio seus cabelos, tornando você ainda mais bela". E a fada respondeu: "Ah, seja bem vinda como o Primeiro de Maio!" A escrava subiu na árvore e a fada estendeu a mão para ela, que parecia nas mãos da escrava sarracena um espelho de cristal em um quadro escuro.

            A escrava assim que começou a pentear a fada, enfiou-lhe um grampo na cabeça. A fada sentindo-se ferida gritou: "Pomba, pomba!" e imediatamente se transformou numa pomba e voou para longe. Depois que a escrava se despiu, e fazendo um feixe de todos os trapos que usava, jogou-os a um quilômetro de distância. E lá estava ela em cima da árvore, quando em pouco tempo o príncipe voltou com grande acompanhamento, e ao encontrar um barril de caviar onde tinha deixado uma panela com leite, ficou um tempo fora de si de espanto. 

            Finalmente, disse: "Quem fez esta grande mancha sobre o papel fino sobre o qual eu pensei em escrever os dias mais brilhantes da minha vida? Quem pendurou o luto na casa recém-caiada de branco onde eu pensei em gastar uma vida feliz? Como posso encontrar uma pedra onde deixei uma mina de prata?" A escrava astuta, observando o espanto do Príncipe, disse: "Não se admire, meu príncipe, porque fui transformada por um feitiço perverso."

            O pobre príncipe, vendo que não havia remédio para o mal, pendeu a cabeça e engoliu a pílula; e ajudando a escrava a descer da árvore, ordenou que ela fosse vestida da cabeça aos pés com os novos vestidos. Triste, pesaroso e cabisbaixo, tomou o caminho de volta com a escrava para o seu canto, onde o rei e a rainha, que tinham caminhado seis milhas ao encontro deles, recebeu-os com o mesmo prazer que um prisioneiro sente ao anúncio de uma pena de enforcamento, vendo a escolha que o seu filho insensato tinha feito, depois de viajar por tanto tempo para encontrar uma pomba branca.

            No entanto, como não poderiam fazer de modo diferente, eles desistiram da coroa em pró de os seus filhos, e colocaram o tripé de ouro em cima da cabeça da escrava. Enquanto eles preparavam festas esplêndidas e banquetes, e os cozinheiros estavam ocupados agarrando gansos, matando porquinhos, esfolando crianças, regando o assado de carne, deslizando potes, picando carne para bolinhos, castrando capões, e preparando milhares de outras iguarias, uma bela pomba veio voando até a janela da cozinha, e disse:

            "Cozinheiro da cozinha, diga-me, eu imploro, o que o rei e a escrava estão fazendo hoje? " O cozinheiro à pricípio deu pouca atenção à pomba; mas quando ela voltou uma segunda e uma terceira vez, repetindo as mesmas palavras, ele correu para o refeitório e comentou o prodígio. Tão logo o fez, a senhora ao ouvir essa música deu ordens para que a pomba fosse imediatamente capturada e transformada em picadinho. O cozinheiro conseguiu pegar a pomba e fez tudo o que a escrava tinha ordenado.  E tendo escaldado o pássaro a fim de depená-la, jogou a água com as penas fora no terraço, onde em três dias brotou um lindo limoeiro que cresceu rapidamente até o tamanho de um pé adulto.

            Ora, aconteceu que o rei, passando por acaso por uma janela que dava para o jardim, viu a árvore que ele nunca tinha visto antes; chamando o cozinheiro perguntou-lhe quando e por quem ela havia sido plantada. Mal ouviu os argumentos do chefe de cozinha, começou a suspeitar de como as coisas haviam ocorrido. Então deu ordens, sob pena de morte, de que a árvore não fosse tocada, devendo ser cuidada com o maior cuidado. Ao fim de mais alguns dias, três belos limões apareceram semelhantes àqueles que a ogra dera a Ciommetiello. E quando eles ficaram maiores, arrancou-os; e fechando-se em uma câmara, com uma grande bacia de água e a faca, trazida sempre a seu lado, ele começou a cortar os limões.

            Então tudo aconteceu com o primeiro e com o segundo tal como havia sido antes; mas quando, finalmente, ele cortou o terceiro limão e deu água à fada que viera beber, eis que ficou em pé diante dele a mesma donzela que havia deixado em cima da árvore, e que lhe contou todo o mal que a escrava lhe havia feito.

            Quem pode dizer ao menos uma parte do prazer daquele que, agora rei, sentiu com a volta da boa sorte?  Quem pode descrever seus gritos e os pulos de alegria?  O rei estava nadando em um mar de prazer e flutuou para o céu em uma maré de arrebatamento. Em seguida ele abraçou a fada e ordenou que fosse regiamente vestida da cabeça aos pés; e tomando-a pela mão, levou-a até o meio do salão, onde todos os cortesãos e os grandes da cidade haviam se reunido para celebrar a festa. 

            Depois o rei perguntou-lhes um a um: "Diga-me o castigo que merece uma pessoa que faça mal a essa bela senhora?" E um respondeu que essa pessoa mereceria um colar de cânhamo; outro, um pequeno almoço de pedras; uma terceira, uma boa surra; um quarto, um pouco de veneno; o quinto, uma pedra de moinho como broche - em suma, um disse uma coisa e outra, outra. Por fim, ele chamou a rainha sarracena e fez a mesma pergunta a que ela respondeu: "Essa pessoa mereceria ser queimada e as cinzas jogadas do telhado do castelo." Quando o rei ouviu a sentença ele lhe disse: "Você acertou o próprio pé com o machado, fez os próprios grilhões que aguçaram a faca e misturaram o veneno, pois ninguém fez a esta senhora tanto mal quanto você! Saiba que essa é a linda donzela a quem você feriu com um grampo de cabelo, que é a bonita pomba que você mandou que fosse morta e cozida em fogo brando. O que me diz agora?”

            “Aquele que pratica o mal deve esperar o mal em troca".  Assim dizendo, ele ordenou que a escrava fosse amarrada e lançada viva em uma grande pilha de madeira e suas cinzas foram jogadas do topo do castelo para os ventos do céu, verificando-se a verdade do ditado...

 "Aquele que semeia espinhos não deve andar descalço."

Comentários

O moralismo das fábulas caminha para o desmascaramento da escrava sarracena que enganara Zoza e a fizera perder seu príncipe, por quem caminhara e chorara tanto. A seguir teremos o conto que encerra o retábulo em que todos foram inseridos.

Novamente faz-se presente o preconceito em relação à cor negra de muitos escravos sarracenos, que, na medida do possível, sem interferir no colorido da narrativa, abreviamos, mas optamos por não exclui-lo, mantendo, de certa forma, o espírito do tempo.

Obs.: O dia Primeiro de Maio é citado como dia festivo no século XVII por se tratar da festa de São Giluiano, patrono da cidade natal de Giambatista Basile, nada tendo a ver com o Dia Internacional do Trabalho, que somente surge ao apagarem-se as luzes do século XIX.

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