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Marcel Proust

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“O Conto dos Contos”

Capítulo 18 - Conto Trigésimo Segundo: “Conclusão”.

Todos ouviam a última história de Ciommetella. Alguns criticaram a falta de habilidade com que ela havia sido contada, outros murmuravam sobre sua indiscrição, dizendo que na presença da princesa expusera a culpa das atitudes de outra “certa escrava” e corria-se o risco de parar o jogo. 

Mas enquanto Lúcia, a rainha, estava sentada sobre espinhos, o tempo foi girando e retorcendo-se, a história sendo contada; de modo que a inquietação de seu corpo traiu a tempestade que agitava seu coração, ao ver no conto de outra a imagem exata de seu próprio erro. Alegremente, no entanto, ela teria terminado com a festa, mas devido ao desejo que a boneca tinha lhe dado de ouvir histórias, ela não podia conter a paixão pelas mesmas. E em parte para não dar a Taddeo motivos de suspeita, Lúcia engoliu a pílula amarga, com a intenção de praticar uma boa vingança no tempo e lugar certos. 

Taddeo, que havia se afeiçoado às diversões, fez um sinal para Zoza, então, contar a sua história; e, depois de fazer sua reverência, ela começou.

 

            "A verdade, meu senhor príncipe, sempre foi mãe do ódio, e eu não gostaria, por obedecer às suas ordens, ofender qualquer um daqueles que estão acima mim. Mas como eu não estou acostumada a tecer ficções ou a inventar, sinto-me constrangida, tanto pela natureza quanto pelo hábito de falar a verdade, embora o provérbio diga: ‘Diga a verdade e nada tema’, mas sabendo muito bem que a verdade não é bem-vinda na presença dos príncipes, eu tremo para não dizer nada que possa ofender a qualquer dos presentes. "

            “Diga tudo o que você quiser, pois nada que não seja o mais doce pode vir desses lábios bonitos," respondeu Taddeo. Essas palavras foram uma estocada no coração da escrava Lúcia. Ela teria dado um dedo de sua mão para se livrar das histórias e temia que a última fosse sempre a precursora da outra que a seguiria e de uma manhã nublada ela previu um dia ruim. 

            Mas Zoza começou a encantar a todos ao seu redor com a doçura das palavras, relacionando suas mágoas do princípio ao fim, começando com sua melancolia natural, augúrio infeliz de tudo o que tivera que sofrer. Então ela falou sobre a maldição da velha, as andanças dolorosas e a chegada à fonte, seu choro amargo, e o sono traiçoeiro que tinha sido a causa de sua ruína.

            A escrava, ouvindo Zoza contar a história em toda a sua largura e comprimento, e vendo o barco sair de seu curso, exclamou: "Fique quieta e contenha a língua! Ou eu não vou responder pelas consequências."

            Taddeo que já tinha descoberto como as coisas haviam se passado não pode mais se conter; assim tirando a máscara e jogando a sela no chão, ele exclamou: "Deixe-a contar a sua história até o fim. Eu fui feito de bobo por tempo suficiente, e se o que eu suspeito for verdade, seria melhor que você não tivesse nascido". 

            Em seguida, ele ordenou que Zoza continuasse sua história. Ela que só esperava por esse sinal, passou a dizer como a escrava tinha encontrado o jarro e havia traiçoeiramente lhe roubado a boa sorte. E, em conseqüência disso, ela ficou chorando de tal forma que cada pessoa presente foi afetada pela visão da triste moça.

             Taddeo, que das lágrimas de Zoza e do silêncio da escrava, discerniu toda a verdade, deu uma dura em Lúcia e a fez confessar sua traição pelos próprios lábios.  Então, ele deu ordens imediatas de que ela deveria ser enterrada viva até o pescoço, para que tivesse uma morte lenta. 

            E abraçando Zoza, levou-a para ser tratada com toda honra como sua princesa e esposa, e enviou um convite para o rei do Vale do Bosque para vir à festa.

E com estas núpcias estava encerrada a diversão das histórias contadas. 

E o melhor que elas podem fazer por aqueles que me ouvem é que cada um cuide de sua saúde!  E que possam tê-las escutado de boa ou de má vontade, colocando uma boa colherada de mel na boca, assim como eu mesmo o faço.

 

FINIS

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