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“O Conto dos Contos”

Capítulo 2 - Conto Primeiro: “Como os contos Devem ser Contados”.

Um velho ditado diz que aquele que busca o que não deve, encontra o que não gosta.  Muitos já ouviram falar do macaco, que na tentativa de calçar botas, foi pego pelo pé.  De modo semelhante, uma escrava que não tinha sapatos buscava colocar uma coroa na cabeça. 

O caminho reto é o melhor e, mais cedo ou mais tarde, um dia as contas são acertadas.  Tudo o que foi usurpado, um dia, cai ao chão; e quanto maior a altura, maior a queda - como vocês verão.

            Era uma vez o Rei do Vale do Bosque que tinha uma filha chamada Zoza que nunca ria. O pai infeliz, não tinha outro conforto na vida, tudo experimentou para afastar a melancolia da filha.  Trouxe pessoas que andam em pernas de pau, outros que saltam através de arcos, pugilistas, ilusionistas, malabaristas para que executassem truques, cães de dança, palhaços, jumentos que bebiam em copos de vidro - em suma, ele tentou todas as coisas para fazê-la sorrir.  Mas tudo foi tempo perdido.

            Então, finalmente, o pobre pai numa última tentativa ordenou que uma grande fonte de óleo fosse colocada em frente aos portões do palácio, de modo que o líquido correndo pela rua obrigava as pessoas que passavam para não caírem e sujarem as roupas, umas a saltarem como gafanhotos, outras como cabras, e ainda outras correrem como lebres; aquelas que caíam, mesmo assim, rastejavam em busca das paredes para se levantarem. 

             Estando Zoza um dia ao pé na janela, grave e recatada, olhando no seu modo azedo como vinagre, por acaso veio uma velha que, coletando o óleo com uma esponja, começou a encher um jarro que trouxera consigo.  E estando ela trabalhando em sua engenhoca, um jovem pajem da corte atirou-lhe uma pedra que bateu no jarro e partiu-o em pedaços.  Ao que a velha, sem papas na língua, virou-se para o pajem e cheia de ira exclamou:

            "Ah, seu jovem impertinente, mula, safada! Má sorte para você! Que seja atravessado por uma lança! Ladrão, sem-vergonha!”

            O rapaz, que tinha pouca barba e menos ainda discrição, ouvindo os xingamentos e querendo devolver à velha na mesma moeda, disse: "Você é uma bruxa velha que vive a estrangular crianças!"

            Quando a velha ouviu esses impropérios, saltou com tanta raiva que agiu como uma louca, cortando o ar com sua esponja e sorrindo como um macaco.  Vendo este estranho espetáculo Zoza explodiu em tal ataque de riso que quase desmaiou.  A velha vendo-a rir daquela maneira, então, lançou-lhe um olhar feroz e exclamou:

            "Que você nunca consiga um marido a menos que se case com o Príncipe do Campo Redondo. "

            Ao ouvir isso, Zoza ordenou que a velha se aproximasse; desejava saber se o dito era uma maldição ou se a intenção da mesma fora apenas insultá-la. E a velha respondeu:

            "Saiba que o Príncipe de quem falei é uma criatura muito bonita de nome Taddeo, que pelo feitiço perverso de uma fada teve a vida interrompida, sendo colocado em um túmulo fora dos muros da cidade. Acima desse túmulo tem uma pedra onde está escrito que se uma mulher em três dias encher de lágrimas um jarro que lá está pendurado, o príncipe voltará à vida e será seu marido. Mas, como é impossível que dois olhos chorem tanto, joguei essa praga em você em troca do escárnio e zombaria por mim." Assim dizendo, a velha correu a descer as escadas com medo de levar uma surra.

            Zoza ponderou sobre as palavras da velha e depois de conectar centenas de pensamentos até que sua cabeça virou um moinho de dúvidas, foi finalmente atingida por um dardo de paixão, destes que cegam o juízo do homem. Então, ela pegou um punhado de dinheiro dos cofres de seu pai e saiu do palácio.

            Foi andando sem parar até chegar ao castelo de uma fada, com quem desabafou o coração.  A fada, com pena de uma menina tão jovem, resolveu ajudá-la no amor por um homem desconhecido e deu-lhe uma noz, dizendo: "Tomai-a, minha querida filha, e mantenha-a com cuidado; somente a abra numa hora da grande necessidade".Deu-lhe também uma carta de recomendação para uma irmã, que também era fada.

            E esta a recebeu também com grande bondade e, na manhã seguinte, quando a noite que comanda os pássaros que voam nas sombras negras havia passado, a segunda fada deu-lhe uma castanha, advertindo-a da mesma forma que fizera sua irmã. Entregou-lhe também uma carta, recomendando-a ainda a outra irmã.

            A terceira fada a recebeu com igual carinho.  E, na manhã seguinte, deu-lhe uma avelã, sendo que ela nunca a deveria abrir, a menos que uma necessidade maior a obrigasse.

            Zoza seguiu sua jornada, atravessou muitas florestas e rios, até que ao final de sete anos, justamente na aurora de um lindo dia chegou muito cansada ao Campo Redondo.

            Aí, justamente na entrada da cidade, viu um túmulo de mármore, ao pé de uma fonte onde a água, como gotas de cristal, enchia um jarro. Parecia-lhe que a fonte chorava pelo Príncipe morto. Zoza, levantando o jarro, colocou-o no seu colo e começou a chorar dentro dele, tal qual a fonte fazia antes.  E assim ela permaneceu sem levantar a cabeça da boca do jarro, até que ao final de dois dias ele estava quase cheio de suas lágrimas.  Cansada de tanto chorar, então, foi surpreendida pelo sono.

            Enquanto isso, certa escrava com as pernas ágeis de um gafanhoto veio como era de costume até a fonte, para encher um vaso de água. Ela conhecia o significado da fonte e do túmulo, que naqueles cantos eram conhecidos.

            Quando viu Zoza chorando tão intensamente e que de seus olhos vertiam pequenos riachos, ela a espionou; e quando dormiu, a escrava se aproximou para adicionar ao jarro as últimas gotas que nele faltavam. Com destreza retirou o mesmo das mãos de Zoza e colocando os próprios olhos sobre o mesmo, encheu-o em quatro segundos. 

            Imediatamente o Príncipe surgiu de dentro do santuário de mármore branco, como acordando de um sono profundo, e abraçou a usurpadora, levando-a para seu palácio. Muitas e maravilhosas festas foram feitas quando ele tomou a escrava por esposa.

            No entanto, quando Zoza acordou e viu o jarro no chão e o santuário aberto, seu coração ficou tão pesado como se estivesse a ponto de desembarcar os fardos da alma na aduana da Morte.  Mas, afinal, vendo que não havia nenhuma alternativa para seu infortúnio e que ela só podia culpar os próprios olhos, entrou na cidade. 

            Assim que ouviu falar do casamento do príncipe e das festas,  intuiu como tudo havia acontecido, e disse para si mesma suspirando: "Ai de mim, duas coisas escuras atiraram-me ao chão, o sono e uma escrava sarracena." Então ela comprou uma bela casa em frente à residência do príncipe, de onde  poderia ao menos olhar para as paredes do palácio e suspirar pelo que perdera.

            O príncipe Taddeo, à distância, teve a chance de perceber Zoza e ficou fascinado por sua beleza. Deixava-se ficar à janela olhando-a. Quando a escrava deu-se conta enfureceu-se e prometeu que se o marido não deixasse a janela, ela mataria o filho que trazia no ventre quando nascesse. Taddeo, que tanto desejava um herdeiro, teve medo de ofender a esposa e afastou-se da visão de Zoza.

            Isso desesperou a pobre Zoza, mas recordando-se dos presentes das fadas, abriu a noz.  Dela saltou um anãozinho com uma boneca, o brinquedo mais gracioso já  visto no mundo.  Então, em cima da janela, o anão começou a cantar com tal trinado que parecia um verdadeiro rei dos pássaros.

            A escrava quando ouviu o trinar ficou tão extasiada que chamando Taddeo disse-lhe: "Traga-me o menino que está cantando ou eu vou matar a criança quando nascer." Então o príncipe ordenou que um servo fosse até Zoza para perguntar se ela venderia o anão, mas esta respondeu que não era comerciante, mas que o príncipe o aceitasse como presente. Taddeo aceitou a oferta ansioso por manter a esposa de bom humor.

            Quatro dias depois, Zoza abriu a castanha e dela saiu uma galinha com doze pintinhos de ouro puro. Zoza colocou-os na janela e a escrava novamente se encantou. Chamando Taddeo ela mostrou-lhe a maravilha e ordenou que obtivesse a galinha e os pintinhos para si.  Então Taddeo mandou outro enviado até Zoza oferecendo-lhe qualquer valor que ela pudesse pedir pelas avezinhas.  Zoza, entretanto, deu-lhe a mesma resposta de antes e Taddeo aceitou mais uma vez o belo presente.

            No terceiro dia Zoza abriu a avelã e dela saiu uma boneca também de ouro - uma visão impressionante!  Assim que foi colocada na janela a escrava a viu e chamando Taddeo disse-lhe: "Eu preciso ter essa boneca ou vou matar a criança."

            Taddeo não teve coragem de enviar novamente o servo até Zoza para negociar a boneca e resolveu ir pessoalmente, relembrando os dizeres: "nenhum mensageiro é melhor do que você mesmo".   Então ele suplicou que Zoza perdoasse sua impertinência pelos caprichos da esposa e Zoza, que estava em êxtase ao contemplar a causa de sua tristeza, sentiu enorme prazer em deixá-lo suplicar, mantendo à sua frente o objeto de seu amor.  Por fim, ela deu-lhe a boneca, como tinha feito com as outras coisas, mas antes de colocá-la em suas mãos ordenou que a bonequinha colocasse um desejo no coração da escrava: que ela adquirisse o desejo de ouvir histórias contadas pelas pessoas.

            E quando Taddeo viu a boneca em sua mão sem o pagamento de uma única moeda, espantou-se tanto com a cortesia que lhe ofereceu seu reino e até a própria vida pelo presente.  Então, voltando para o palácio, colocou a bonequinha de ouro nas mãos da esposa e, instantaneamente, o desejo de ouvir histórias contadas a tomou.

            A escreva chamou o marido e disse: "Chame algumas contadoras de histórias e que venham até aqui ou eu prometo que irei matar a criança."

            Taddeo para se livrar desta loucura ordenou que uma proclamação de imediato fosse feita, e convocou todos os súditos a comparecerem no dia marcado.  E, naquele dia, na hora em que desperta o Amanhecer, todos se reuniram no palácio.

            Taddeo escolheu apenas dez das melhores contadoras de histórias da cidade, as mais capazes e eloquentes.  Em seguida ele e a escrava foram para o jardim do palácio, onde os ramos das árvores frondosas estavam tão intimamente entrelaçados que o Sol não conseguia separá-los com seus raios.  E assentando-se, Taddeo falou:

            "Não há nada no mundo mais glorioso, minhas gentis damas, que ouvir os feitos dos outros. Nem foi sem razão que o grande filósofo disse que a maior felicidade do homem está em ouvir histórias bonitas, coisas agradáveis. Ele ​​disse que as tristezas desaparecem, os pensamentos incômodos são postos em fuga e a vida é alongada. E, por essa razão os artesãos deixarão suas oficinas, os comerciantes suas casas de campo, os advogados largarão seus casos, os lojistas seus negócios para ouvirem histórias, ficções ou verdades, aqui sentados ao ar livre. Peço também que desculpem a minha esposa, que tomou essa estranha fantasia: ouvir a narração de contos”. 

            “Vocês terão o prazer de satisfazer o capricho da princesa e de cumprir com os meus desejos. Nos próximos quatro ou cinco dias, cada um nos contará diariamente um daqueles contos que as mulheres mais velhas costumam falar para a diversão dos pequeninos."

            Ao ouvirem essas palavras, todos se sentaram à mesa para comer.  E o príncipe pegou o papel de suas anotações e foi convidando cada contador por sua vez para que  contasse suas histórias, assim que os demais habitantes de Campo Redondo chegavam.

 

Comentários:

“Cunto de li cunti” foi estruturado em torno dessa história fantástica que a todas as demais emoldura. O primeiro conto combina motivos que aparecerão em outras histórias: a princesa que não consegue rir, o aconselhamento de pessoas idosas, a maldição de casar apenas com determinada pessoa a ser encontrada, a heroína que adormece ao tentar salvar-se e ao herói e que depois o perde graças a uma trapaça, metamorfoses com o sempre  presente elemento líquido, as palavras de rei que não voltam atrás, o castigo moralizador, etc..

Zoza, a heroína do conto, no dialeto napolitano significa “a lama, aquela que gruda”, aquela que não desiste de seu objetivo. Perigrinará até o Campo Redondo e prepará uma armadilha para desmascarar quem a usurpou, tirando-lhe a chance de tornar a sorrir na vida.

A escrava trapaceira, que foi transformada por um golpe de sorte e de astúcia em princesa, não conhece seus limites. Usa e abusa da chantagem para com o marido, ameaçando todo o tempo em matar o próprio filho que iria nascer. Basile destaca aqui  o excesso de ganância que toma conta do pobre que ascende de modo rápido na escala social, quer por estar agarrado à roda da fortuna, quer por ato de engodo ou maldade. Um tema que será recorrente em outros contos.

E a armadilha que colocará as coisas em seu devido lugar irá se fechando ao longo de cinco dias, em que dez contadoras de histórias relatarão seus casos, até a última fábula que será narrada pela própria Zoza. Então, a trama terminará desmascarada e a trapaceira castigada, o que acontecerá na trigésima segunda fábula, continuidade da primeira, quando se fechar a moldura em que os demais contos estão inseridos.

A guisa de observação, não devemos nos esquecer de que fábulas populares foram escritas no século XVII, quando era acirrada a luta entre cristãos e sarracenos, que em sua expansão haviam invadido a Sicília e o sul da Itália (ainda na Idade Média), expressando  um preconceito racial de grande intensidade. Logo, teremos presente na narrativa original de Basile a figura da escrava ou do escravo, normalmente referenciado pela cor escura da pele. Nós trabalhamos os textos no sentido de reduzirmos o impacto dos preconceitos mais explícitos, tendo o cuidado de realizá-lo sem a perda do brilho narrativo.

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