Espaço Literário

Marcel Proust

Redes sociais

  • White Facebook Icon

© 2019 por Carlos Russo Jr.

Todos os direitos reservados

“O Conto dos Contos”

Capítulo 3 - Conto Segundo: “A Murta”.

            Viviam na aldeia de Miano, um homem e uma mulher que não tinham filhos, mas que queriam um herdeiro.  A mulher era a mais angustiada dentre os dois e sempre dizia: "Oh, céus, eu quero um bebê, nem que ele seja um raminho de murta." Ela repetiu esta frase tantas vezes que terminou por cansar os céus. Finalmente seu desejo foi atendido e ao cabo de nove meses, em vez de um menino ou de uma menina, ela entregou nas mãos da parteira um raminho de murta.

            Em seguida, plantou-o em uma grande panela, ornamentada com muitas figuras bonitas, e a colocou na janela cuidando do galho pela manhã e pela noite.

            Um dia o filho do rei passou pelo lugar que ficava na direção das matas onde ele caçava, e foi tomado como por um encanto prodigioso para com a bela planta. Enviou um emissário para perguntar à dona da casa se ​​ela a venderia.  A mulher, depois de opor mil dificuldades e recusas, seduzida pelas ofertas e promessas, assustada com as ameaças, recorreu a suas orações e deu-lhe o pote com a planta, rogando-lhe para guardá-la com amor, pois ela a amava mais que a uma filha. O príncipe recolheu o vaso com o maior cuidado do mundo e colocou-o em seu próprio quarto, regando-o todos os dias.

            Aconteceu numa noite, quando o príncipe tinha ido para a cama e todos no palácio dormiam, dele ouvir o som de alguém andando pela casa e vindo cautelosamente em direção à sua cama. Como era corajoso, fingiu-se de morto esperando o desfecho do caso.  Quando o sujeito estava bem próximo, agarrou-o. Para sua surpresa, ao invés de por a mão sobre os espinhos de um ouriço, sentiu que tocava em algo suave, numa pele mais macia e fina que a lã, mais flexível que a cauda de uma marta, mais delicada que o cardo. Imaginou que tocava em uma fada, como de fato ela o era, e em seu coração surgiu um enorme afeto pela mesma. 

            Na manhã seguinte, antes de nascer o Sol, a desconhecida se levantou e desapareceu deixando o príncipe cheio de curiosidade e admiração.

            Durante sete dias a visitante retornou e desapareceu antes da aurora, deixando o príncipe queimando de amor e derretido com o desejo de conhecer melhor o que a sorte lhe tinha destinado. 

            Então, uma noite aproveitando um momento em que a donzela estava dormindo, o filho do rei amarrou uma das suas tranças e os braços na cama, de modo que ela não pudesse fugir; em seguida, chamou um camareiro e ordenou-lhe que acendesse as velas. O que viu foi a flor da beleza, o milagre das mulheres, o espelho de Vênus, a isca do amor, uma bonequinha, uma bela pomba, a Fada Morgana enfeitada com um berloque de ouro - ele viu, em suma, um espetáculo que o surpreendeu.

            Em espanto gritou: "O sono, o sono doce que me traz aos olhos esta linda joia! Que prazer em ver o triunfo da beleza! Oh, lindos olhos que inflamam! Oh, lindos lábios que me refrescam! Oh, lindos peitos que me consolam! Em que loja das maravilhas da Natureza foi feita esta estátua viva? Foi a Índia que deu o ouro para esses cabelos? A Etiópia, o marfim para os dentes? O mar, o azul desses olhos? A neve das montanhas polvilhou a alvura dos seios? "

             Assim dizendo ele abraçou-a e ela despertou do sono e respondeu com um sorriso gentil aos suspiros do príncipe encantado. Vendo-a abrir os olhos, ele falou: "Oh, meu tesouro, se na escuridão este templo do amor a mim me amarrava, o que será da minha vida agora que o vejo à luz das velas? Seus olhos são tão belos que as estrelas têm ciúmes! Você tem preso o meu coração, pode fazer dele uma omelete se quiser. Oh minha linda doutora, tem piedade de alguém que está doente de amor! Que tendo trocado a escuridão da noite para a luz é tomado por uma febre! Coloque a sua mão sobre o meu coração, sinta meu pulso, dê-me uma receita para a minha alma, que precisa ainda mais que meu corpo. Não desejo nenhum outro conforto que um toque de sua mão”.

            Ao ouvir estas palavras a linda fada avermelhou sua tez e respondeu: "Não me louve tanto, senhor meu príncipe, pois sou sua serva e faria qualquer coisa no mundo para servir-lo! Considero uma grande sorte ter nascido de um ramo de murta plantado num pote de terra, eu que me transformei num ramo de louro pendurado sobre o seu coração, onde há tanta grandeza e virtude! " O príncipe começou de novo a abraçá-la e selando o último afago com um beijo deu-lhe a mão, dizendo: "Dou minha palavra que você será minha esposa, a dona de meu cetro, terá a chave desse coração, segurará o leme de minha vida." Depois destas juras e de uma centena outras eles se levantaram.

            E assim continuou por vários dias.  Mas como desmancha-prazeres, o destino é sempre um obstáculo para o Amor, o príncipe foi chamado para caçar um grande javali que amedrontava o país.  Assim, forçado a deixar sua futura esposa.

            Por ele ama-la mais que a própria vida; por ver que ela era linda além de todas as coisas mais belas, brotou-lhe um sentimento de ciúme, que é uma tempestade no mar do amor, um pedaço de fuligem que cai no caldo da felicidade dos amantes – o ciúme é uma serpente que pica, um verme que corrói, um fel que envenena, uma geada que mata, tornando a vida inquieta, a mente instável, o coração sempre suspeito.  Então, ele disse: "Sou obrigado, meu coração, ficar longe de casa por dois ou três dias. Deus sabe com quanta dor eu me separo de você, minha alma, e Deus sabe que não posso deixar de ir à caça para agradar meu pai. Devo deixá-la. Peço-lhe, por todo o amor que me tenha, que volte para o vaso e dele não saia até que eu retorne, o que será o mais breve possível. "

             "Farei isso", disse a fada, "porque não posso recusar o que lhe agrada. Vá, pois, e que a boa sorte vá consigo. Mas me faça um favor, deixe no topo da murta amarrado um sino por fio de seda, e quando voltar da caçada puxe o fio e, imediatamente, eu sairei e direi: aqui eu estou!”

            O príncipe assim fez e chamou um camareiro dizendo-lhe: "Venha cá! Abra seus ouvidos e a cabeça ao que eu digo. Arrume esta cama todas as noites como se eu mesmo fosse nela dormir. Regue com água este vaso regularmente e conte suas folhas; se eu ao voltar encontrar ao menos uma que falte, você vai se haver comigo”. Assim dizendo ele montou em seu cavalo e foi, como uma ovelha que é levada ao matadouro, perseguir o tal do javali. 

            Como no harém do príncipe havia outras sete mulheres que ele deixara de  visitar, há muito elas ferviam de ciúmes e curiosidade pelo que se passava. Buscando conhecer o segredo escondido, chamaram um pedreiro que por uma boa soma de dinheiro escavou uma passagem subterrânea até a câmara do príncipe.  Em seguida, elas atravessaram a passagem aberta. Com surpresa nada encontraram, mas abrindo a janela viram o belo pé de murta e cada uma delas arrancou-lhe uma folha; a mais jovem das concubinas tirou uma folha da parte superior da planta, justamente onde o sino estava pendurado. Então, o sino tilintou e a fada, pensando que fosse o príncipe, saiu imediatamente fora da planta.

            Assim que as mulheres viram a linda criatura tornaram-se más e penduraram suas garras sobre ela, berrando: "Você é aquela que destrói as nossas esperanças! É quem tem roubado os favores do príncipe. Mas seus truques chegaram ao final! Não vai conseguir fugir de nós".

            Assim dizendo, voaram sobre a fada e fizeram-na em pedaços e cada uma delas pegou uma parte.  Somente a mais nova das mulheres não aderiu ao ato cruel, mas as outras fizeram com que ela ficasse com pelo menos um punhado dos cabelos dourados.  Fugiram, então, pela passagem através da qual tinham chegado.

            Quando o camareiro veio fazer a cama e colocar água no vaso, vendo o acontecido, quase morreu de terror.  Então, roendo as unhas de medo, recolheu os restos de carne e ossos que estavam espalhados e depois de limpar o sangue do chão, empilhou-os todos no pote; regou-o, fez a cama, trancou a porta, colocou a chave embaixo da mesma e fugiu da cidade.

            Quando o príncipe voltou da caça tocou a sineta da porta e chamou pelo criado, mas ninguém atendeu. Assim, ele foi direto para o quarto e sem paciência para chamar o camareiro ou pedir a chave, deu um chute na porta e entrou. Quando abriu a janela e viu o pé de murta todo desfolhado ficou muito triste e começou a chorar, e gritava: "Oh, sou um miserável! Um infeliz! Quem fez isto? Sinto-me arruinado! Oh, minha murta murcha e desfolhada! Minha fada perdida! Oh, vida miserável! Minhas alegrias viraram fumaça! Meus prazeres, vinagre! Homem infeliz! Fui roubado de todos os tesouros! Onde está você, minha murta? E que alma mais dura que o mármore destruiu aquele belo vaso? Oh perseguição amaldiçoada, estou derrubado, arruinado, darei um fim aos meus dias! Não é possível passar a vida sem a minha vida; devo bater as canelas já que sem o amor o sono será lamentação, comida será veneno, o prazer sem gosto e a vida azeda. "

            Estas e muitas outras lamentações, que moviam às lágrimas até as pedras das ruas, foram proferidas pelo príncipe; depois de repeti-las uma e outra vez, e cheio de tristeza e aflição, sem nem ao menos fechar o olho para dormir, ou abrir a boca para comer, ele tomou a  forma do luto: seu rosto, que era antes rosado, tornou-se dourado e o vermelho dos lábios desbotou.

            A fada, que brotava novamente dos restos que estavam no pote, vendo a miséria e tribulação de seu pobre amante, condoeu-se de compaixão; e saltando fora da janela, como a luz de uma vela que se espraia fora de uma lanterna escura, ficou diante do príncipe e abraçando-o disse: "Coragem, coragem, meu príncipe! Chega de lamentos, esfrega os seus olhos, apazigua sua raiva, suaviza seu rosto. Eis me aqui viva e bonita, apesar das mulheres perversas que tanto me maltrataram." O príncipe, quando menos se esperava, ressurgiu da morte para a vida, e a cor voltou ao seu rosto, o calor ao seu sangue, a respiração ao peito. 

            Depois de mil carícias e abraços ele quis conhecer o assunto da cabeça aos pés; e quando soube que o camareiro não era o culpado, ele ordenou que fosse chamado e com pleno consentimento de seu pai, anunciou um grande banquete para casar-se com a fada. Convidou para a festa todas as pessoas do reino, inclusive as sete serpentes que haviam cometido o massacre de sua doce amada.  Assim que todos haviam terminado de comer o príncipe pediu-lhes, um após o outro, que julgassem o que mereceria aquele que houvesse ferido a bela donzela apontando a fada tão linda a ponto de destruir todos os corações.

            Então, o rei disse que a pessoa mereceria a forca, outro, a morte na roda, um terceiro, as pinças, um quarto, que deveria ser lançado de um precipício, e os outros todos descreveram algum tipo de punição.             Finalmente, as sete mulheres perversas, por não reconhecerem na fada a moça que haviam atacado, sentenciaram que somente aquele que tivesse um coração vil poderia tocar na quintessência dos encantos do amor. Então, mereceria ser enterrado vivo em um calabouço.

            "Como ouvimos de seus lábios", disse o príncipe, "vocês julgaram a própria causa, assinaram o decreto. Resta-me fazer com que a sentença seja executada, uma vez que têm um coração negro e a crueldade de Medeia. Destroçaram esta linda cabeça e cortaram seus membros maravilhosos como salsicha de carne. Não vamos perder um momento! Joguem-nas num grande calabouço onde terminarão seus dias miseravelmente. " A ordem foi imediatamente cumprida, exceto para a irmã mais nova das criaturas malignas. O príncipe casou-a com seu camareiro.  E dando também ao pai e à mãe da murta meios para viverem confortavelmente, ele passou seus dias felizes com a fada. Enquanto isso, as mulheres más terminaram suas vidas em amarga angústia, assim, verificando o provérbio dos velhos sábios que diz:

 "A cabra coxa saltará se não encontrar obstáculos que a parem".

 

Comentários

A murta é um pequeno arbusto do sul da Europa. Possui folhas verdes, flores brancas perfumadas e seus frutos são aromáticos. Na Idade Média era considerada emblemática do amor e, na Antiguidade, uma planta consagrada à Vênus.

Na fábula temos um nascimento não natural: uma camponesa, após muito desejar um filho dá à luz um galho de murta e por ele irá se apaixonar um príncipe. Acontece que no galho vive uma linda fada, digna filha de Vênus, que na primeira oportunidade se esgueira para a cama do príncipe, tornando-se sua amante mais ardente. O príncipe, sentindo-se totalmente satisfeito, dispensa os cuidados das sete concubinas que mantinha em seu harém.

Em determinado momento do conto, como a reforçar a origem venusiana da fada, Basile utiliza o termo de origem celta “Fada Morgana”, que simboliza “aquela que veio do mar”. Quase contemporâneo, um idêntico nome, “Morgana Le Fay”, surgirá na Grã-Bretanha, nas histórias do Rei Artur.

No nosso conto, as amantes abandonadas tratarão na primeira chance de esquartejar a fada, do mesmo modo como se faz com uma árvore que é abatida e tornada lenha.  Mas Vênus se refaz como Fênix e torna a reinar na cama do amante por ela escolhido.

Este conto não possui um intróito moralista, mas ao final, o mesmo se faz presente na “cabra coxa” que não para se não se deparar com um obstáculo.

O reequilíbrio é encontardo quando as rivais da Murta são, afinal, destruídas por seu desrespeito à Divindade do Amor, na forma da sentença que se auto- impuseram, a uma privação semelhante a que haviam sido submetidos os restos da murta quando dilacerados.

Conto Terceiro: “Peruonto”.

Uma boa ação não se perde.  Aquele que semeia a cortesia colhe benefícios e aquele que reúne bondade junta amores. O prazer de uma mente grata sempre produzirá uma boa recompensa: e essa é a moral da história que vou contar.

 

            Era uma vez uma mulher chamada Ceccarella que vivia em uma aldeia, que tinha um filho de nome Peruonto, um dos rapazes mais estúpidos que já nasceu.  Isso fez sua mãe muito infeliz, e durante todos os dias ela chorava por causa da desgraça.  O tolo, além do mais, quase nada fazia para ajudá-la nos trabalhos domésticos. Aconteceu que, depois de mil tapas na cabeça e sempre dizendo "eu te digo" e "eu te disse", dia após dia, certa vez a mãe precisava de madeira para o fogo e dizendo: "Vá buscar lenha para a gente comer, e se você fugir vou lhe dar uma surra. E não se esqueça do caminho, volta o mais rápido possível para cozinharmos algum repolho."

            O estúpido Peruonto com a cabeça baixa como se fosse para a prisão lá se foi, andando como uma gralha pisando em ovos, contando seus passos, no ritmo do galope de um caracol, fazendo todos os tipos de ziguezagues pelo caminho até o bosque.  E quando chegou ao meio de uma planície, através do qual corria um riozinho murmurante, ele viu três jovens que tinham feito uma cama de grama e um travesseiro de uma grande pedra, dormindo deitados sob um sol abrasador. Quando Peruonto viu as pobres criaturas, sentiu pena das mesmas e cortou alguns ramos de carvalho, fazendo um belo caramanchão sobre eles. Os jovens, que eram filhos de uma fada, acordaram e vendo a bondade e a cortesia de Peruonto, deram-lhe um encanto: cada coisa que ele pedisse deveria se realizar!

            Peruonto retomou o caminho para buscar a madeira; entretanto, quando a encontrou, as toras eram muito grandes para serem carregadas nas costas. Passava pelo local um grande cervo e Peruonto expressando seu desejo gritou: "Oh, que sorte que seria a minha se este animal me deixasse cavalgá-lo!" E a palavra mal saíra de sua boca quando o veado aceitou-o e trotou a galope, como um cavalo. E lá se foi Peruonto cavalgando o cervo com as toras abaixo das pernas.

            Quando chegou frente ao palácio do rei, o veado empinou e Peruonto se deixou admirar.  As senhoras que estavam em uma das janelas ao verem algo tão maravilhoso correram para chamar Vastolla, a filha do rei, que indo até a janela e observando os belos chifres do veado, explodiu a rir coisa que, por ela ser uma pessoa melancólica, nunca se lembrava de ter feito antes.  Peruonto levantou a cabeça e vendo que era para ele que ela estava rindo, exclamou: "Oh, Vastolla, eu desejaria ser seu marido e que parassem de rir de mim!"  E assim dizendo, ele bateu com os calcanhares no animal  e num galope arrojado chegou rapidamente em casa.

            O rei, pai de Vastolla, queria que ela se casasse com um excelente príncipe do qual possuía referências e convidou-o a visitá-lo a fim de prestar suas homenagens à princesa.  Mas ela se recusou e disse: "Eu não vou me casar com ninguém, a não ser com o jovem que cavalgava o veado." O rei foi ficando cada vez mais irritado com recusas, e quando foi incapaz de se conter por mais tempo, chamou seu Conselho, e disse: "Vocês sabem como estou envergonhado: a minha filha agiu de tal maneira que todas as crônicas de histórias falarão de mim, por isso decidi aconselhar-me. Digo que ela é indigna de viver, pois me trouxe tal descrédito que eu gostaria de colocá-la para fora do mundo, antes que me faça mais mal". 

            Os conselheiros que tinham muita sabedoria, disseram: "É verdade que ela merece ser severamente punida. Mas, afinal de contas, é esse patife audacioso que provocou tal aborrecimento, e não é certo que ele deva escapar através das malhas da rede. Vamos esperar, então, até que ele venha à luz, e descobrirmos a raiz desta desgraça, e depois vamos pensar o que de melhor possa ser feito." Esse conselho agradou ao rei, pois ele viu que falava com homens sensíveis e prudentes e disse: "Vamos aguardar e ver o final desse negócio."

            O rei, então, deu um grande banquete, e convidou todos os nobres e senhores de seu reino para virem. Ficaram todos a observar a princesa, pois: "quando ela reconhecer o sujeito, nós veremos os olhos dela se voltarem para ele, e vamos agarrá-lo e colocá-lo para fora de nosso caminho." Quando a festa acabou, e todos os convidados passaram em fila, Vastolla não tomou conhecimento de nenhum deles e o rei ficou mais irritado do que nunca, e desejou matá-la sem mais demora. 

            Mais uma vez, porém, o Conselho pacificou-o e disse: "Vamos devagar, Sua Majestade! Acalma sua ira. Façamos outro banquete amanhã, não mais para pessoas de condição, mas para um tipo inferior. Algumas mulheres sempre se juntam ao pior, e vamos procurar entre os cuteleiros, fabricantes de grãos, vendedores e achar a raiz de sua raiva, já que não descobrimos ninguém dentre os cavaleiros". Essa astúcia agradou o rei e ele ordenou que um segundo banquete fosse preparado e a este compareceu toda a ralé da cidade, pessoas ladinas como os limpadores, os funileiros, os mascates, os varredores e mendigos, e estavam todos em grande alegria! E ocupando seus lugares em uma grande mesa como os nobres, eles começaram a festejar e devorar o que se trazia.

            Quando Ceccarella ouviu a proclamação, começou a insistir que o filho Peruonto atendesse à mesma, convencendo-o afinal.  E mal ele chegou Vastolla gritou sem pensar: "Esse é o meu cavaleiro do feixe de madeira".  Quando o rei ouviu isso arrancou a própria barba vendo que a moça, que seria o maior prêmio de uma loteria, estava caída por um palhaço feio, com uma cabeça desgrenhada, com olhos de coruja, nariz de papagaio, boca de cervo, pernas nuas e tortas.  Então, com um suspiro profundo, ele disse: "O que é que uma filha minha pode ter visto neste homem fantasiado de ogro? Ah, vil, falsa criatura, que lançou um feitiço sobre ela! Mas por que não deixá-la sofrer a punição que merece? Não posso suportar nem olhá-la."

            Em seguida, o Conselho foi novamente reunido e, juntos, e eles resolveram que a princesa, assim como o malfeitor, deveriam ser postos dentro de um barril e atirados ao mar, de modo que sem manchar as mãos do rei com o sangue de alguém da família, a natureza se encarregaria de executar a sentença.  Mal o julgamento foi pronunciado, um barril foi trazido e ambos os jovens nele colocados; entretanto, algumas das senhoras, amigas da Vastolla, chorando e soluçando, puseram lá dentro uma cesta de uvas passas e figos secos.  E o barril,  fechado e lançado ao mar, foi levado pelo vento a flutuar.

            Vastolla dentro dele chorava tanto que de seus olhos corriam lágrimas como se fossem rios; disse a Peruonto: "Que triste desgraça é a nossa! Ah, se eu soubesse do truque que me prendeu neste calabouço! Ai, ai, por que me encontrar nesta situação sem nem saber como? Diga-me, diga-me, oh homem cruel, o encantamento foi você quem o fez?" Peruonto respondeu: "Se você quiser que eu diga o feitiço, com figos e passas tem que me alimentar bem! "

            Então Vastolla, para conhecer o segredo, deu-lhe um punhado de ambos e assim que ele os comeu, contou-lhe toda a verdade, desde o acontecido com os três jovens, com o veado e com ela mesma na janela. Ao ouvir a história Vastolla tomou coragem e disse: "Meu amigo, vamos então deixar nossas vidas acabarem em um barril? Por que você não deseja que esta banheira se transforme em um belo navio e escapemos desse perigo?" E Peruonto respondeu: "Se você quiser que eu diga o feitiço, com figos e passas tem que me alimentar bem! "

            Então Vastolla encheu-o com suas frutas.  E eis a maravilha!  Assim que Peruonto pronunciou o desejo, o barril foi transformado em um belo navio com tudo o que se pudesse desejar: velas, marinheiros, armas e trombetas, assim como uma esplêndida cabine para o casal. Sendo a hora em que a lua começava a percorrer o caminho do sol, Vastolla disse para Peruonto: "Meu bom rapaz, agora faça este navio ser transformado em um palácio, pois você conhece o ditado: "Louvado seja o mar, mas mantenha-se preso à terra." E Peruonto respondeu:"Se você quiser que eu diga o feitiço, com figos e passas tem que me alimentar bem! "

            Então Vastolla alimentou-o novamente e Peruonto engolindo passas e figos teve outro desejo; e logo o barco chegou à terra e transformou-se em um belo palácio montado de forma suntuosa, tão cheio de móveis e cortinas que não restava nada a pedir. Assim é que a vida de Vastolla, que pouco antes não valia um centavo, mudou da noite para o dia, sendo servida e tratada como uma rainha.  Em seguida, para colocar um selo em toda a sua fortuna, ela rogou a Peruonto a graça de ele mesmo se tornar bonito e polido, para que pudessem viver felizes juntos, pois se sua aparência e modos fossem alterados, ela se sentiria a mulher mais feliz do universo. E Peruonto respondeu como antes: "Se você quiser que eu diga o feitiço, com figos e passas tem que me alimentar bem! "

            Então Vastolla rapidamente abriu-lhe os lábios, e mal ele pronunciou as palavras, aconteceu como se uma coruja fosse transformada em um rouxinol, um ogro em um belo jovem, um espantalho em um cavaleiro.  Vastolla vendo tal transformação apertou-o nos braços e ficou quase fora de si de tanta alegria. Em seguida eles se casaram e viveram felizes por muitos anos.

            Enquanto isso, o rei envelhecia muito triste de modo que um dia os cortesões o convenceram a ir à caça. Porém a noite o alcançou e ele vendo luz em um palácio, mandou um servo saber se poderia se dirigir até lá;  a resposta é que tudo estava à sua disposição.  Então o rei foi até o palácio e passando por uma grande câmera para convidados não viu nenhuma alma viva, mas dois meninos surgiram gritando: "Bem vindo, bem vindo!" O rei, surpreso e atônito, ficou como se vivesse um encantamento, e sentando-se para descansar à mesa, para seu espanto viu uma toalha estender-se sobre ela, pratos cheios de carnes assadas e todos os tipos de iguarias chegarem. E ele foi tratado como um verdadeiro rei e pode ouvir o som dos alaúdes e dos pandeiros, enfim, jantou ao som de uma música deliciosa. Quando terminou de comer, uma cama de repente apareceu, toda ela feita de ouro e suas botas foram retiradas por mãos invisíveis e ele descansou, assim como todos seus cortesãos. Quando amanheceu, o rei quiz agradecer às crianças que o haviam recepcionado, mas com eles apareceram Vastolla e seu marido. Lançando-se aos seus pés, ela pediu-lhe perdão e relatou-lhe toda a história.  O rei, vendo que tinha encontrado dois netos que eram duas jóias e no genro um nobre filho, abraçou-os todos; e tomando as crianças em seus braços, todos voltaram para a cidade onde houve uma festança de muitos dias.

 

Comentários

Peruonto é uma junção das palavras  peri + onto, que expressam “os poros pelos quais se esvai o conhecimento”.

Ao mesmo tempo em que Peruonto era parco de raciocínio expressava, sempre que podia enorme cordialidade e bondade. A moral da história é plenamente estabelecida ao final, quando aquele que semeou simpatia e bondade tornou-se próspero e feliz, até mesmo belo aos olhos daqueles que o amavam, sem deixar de ser, entretanto, um “peruonto”.

Este site não possui patrocinadores, contamos com doações espontâneas para sua continuidade.