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“O Conto dos Contos”

Capítulo 4 - Conto quarto: “Vardiello”.

Quando a natureza poupou aos animais a necessidade de usar roupas e de comprar alimentos evitou que, na corrida, os quadrúpedes fossem inevitavelmente destruídos pelos bípedes.  Por isso, é que os quadrúpedes encontram sua comida sem problemas: sem o jardineiro para plantá-la, sem o comprador comprá-la e sem o cozinheiro prepará-la; enquanto sua pele defendê-los da chuva e da neve não precisarão do comerciante para o pano, do alfaiate para o corte, ou da costureira para a prova. 

Para o homem, no entanto, que tem inteligência, a natureza não se importou em conceder essas indulgências, uma vez que ele é capaz de obter para si próprio o que quiser. Esta é uma das razões pelas quais vemos homens inteligentes pobres, e outros sem cérebros ricos; como exemplifico na história que vou contar.

 

            Grannonia de Aprano era uma mulher de grande senso e juízo; ela teve um filho chamado Vardiello, justamente o maior bobo e simplório da vizinhança.  No entanto, como os olhos de uma mãe são enfeitiçados para enxergar o que não existe, enamorou-se tanto do filho que sempre o acariciava e afagava, como se ele fosse a criatura mais inteligente e bela do mundo.

            Um dia, a galinha de Grannonia postou-se para chocar um ninho de ovos, e ela acalentou a esperança de ter uma bela ninhada e fazer bom lucro vendendo-a.  Ao ter que sair para atender a algum negócio, ela chamou o filho, e disse-lhe: "Meu filho, mantenha seus olhos na galinha, e se ela chegar a sair do ninho, leva-a de volta, caso contrário os ovos esfriarão e depois não teremos nem ovos nem galinhas "."Deixe comigo", respondeu Vardiello: "você não está falando a ouvidos surdos." 

            "Só mais uma coisa", ainda disse a mãe: "Olha, meu filho abençoado, no armário está um pote cheio de certas nozes venenosas; toma cuidado para que um feio anão não venha tentá-lo a tocar-lhes, porque o faria esticar as canelas em um instante." "Deus me livre!", respondeu Vardiello, "o veneno não vai me seduzir, mas você tem sabedoria em me dar o aviso."

            Então a mãe saiu e Vardiello, para não perder tempo, foi até o jardim cavar pequenos buracos, que cobria com galhos e terra, uma armadilha para apanhar pequenos ladrões que viessem roubar frutas do pomar. Enquanto estava no meio de seu trabalho, viu a galinha sair correndo para fora da sala, ao que ele começou a gritar "chou, chou!"  Mas a galinha não se mexeu e Vardiello começou a bater com os pés;  e depois de jogar o boné, ele pegou um porrete e bateu na ave. Foi o suficiente para que ela morresse na hora.

            Vardiello, ao ver o triste acidente, tentou de alguma forma sanar o mal e fazendo da necessidade uma virtude pôs-se em cima do ninho para impedir que os ovos esfriassem, mas os pobres ovos não resistiram ao seu peso e rapidamente fez-se uma omelete.  Desesperado com o que tinha ocorrido ele estava a ponto de bater a cabeça contra a parede; no entanto, como toda a dor se transforma em fome, sentindo que seu estômago começar a resmungar, Vardiello resolveu comer a galinha.  Então ele colocou a ave em um espeto, fez um belo fogo, e começou a assá-la.  E quando ficou pronta para deixar tudo na devida ordem, estendeu um pano limpo em cima de um velho baú; e, em seguida, tomando um pote, foi até o porão para pegar um pouco de vinho. 

            Entretanto, assim que desceu ouviu um barulho. Subiu rapidamente a escada do porão e viu um grande gato do mato fugindo com a galinha, assim como outro gato correndo atrás daquele, miando e clamando por uma parte. Vardiello desesperado se lançou em perseguição ao gato, mas na sua pressa deixou a torneira do barril de vinho aberta.  Depois de perseguir o gato através de cada buraco e pelos cantos da casa, ele recuperou a galinha; mas o vinho do barril tinha todo ele se perdido.

            Quando Vardiello viu o vinho escorrendo pelo chão, ele deixou o barril de sua alma esvaziar-se através da torneira dos olhos.  Ocorreu-lhe, no entanto, um belo plano para evitar a descoberta por sua mãe do que tinha acontecido. Pegou um saco de farinha repleta até a boca e jogou-a sobre o vinho no chão.

            Contou, então, nos dedos todos os desastres que cometera e achando que perderia as boas graças de Grannonia, resolveu não deixar que sua mãe o encontrasse com vida.  Enfiando a mão no pote de nozes em conserva que sua mãe havia dito que continha veneno comeu todas; por fim, resolveu se esconder no forno e esperar a morte.

            Quando sua mãe voltou, bateu por muito tempo na porta, mas vendo que ninguém a abria, deu-lhe um pontapé e ao entrar chamou pelo filho.  Como ninguém respondesse a mãe imaginou que algum mal poderia ter acontecido, e pôs-se a gritar cada vez mais alto: " Vardiello, Vardiello! Você é surdo, não me ouve? Onde está? Onde se escondeu?" Vardiello, ao ouvir toda aquela algazarra, gritou do seu canto com uma voz comovente: "Aqui estou, aqui estou eu no forno! Mas você nunca vai me ver de novo, mãe."

            "Por que não?", preguntou a pobre mãe. "Porque eu me envenenei", respondeu. "Ai de mim! Ai de mim!"  Gritou Grannonia, "e  como fez isso? Que motivo você teve para cometer suicídio, e quem lhe deu o veneno?" Então Vardiello contou-lhe uma após outra todas as coisas bonitas que havia feito e que desejava morrer a ser por mais tempo motivo de chacota no mundo.

            A pobre mulher ao ouvir tudo aquilo se sentiu infeliz e miserável. Mas ela amava o filho, abriu o forno e deu-lhe alguns doces gostosos, e esclareceu o caso das nozes em conserva que não era um veneno, mas um elixir bom e reconfortante para o estômago.  Por fim derramou sobre ele mil carícias e puxou-o para fora do forno. 

            Em seguida, dando-lhe um belo pedaço de pano, ela mandou que ele fosse vendê-lo, mas o advertiu para não fazer negócios com pessoas de muitas palavras. Afinal, ela já desconfiava que Vardiello não fosse lá muito esperto. “Tudo bem, disse Vardiello, “fique calma, eu sei o que fazer, não tenha medo”. Assim dizendo, pegou o pano, e seguiu o caminho até a cidade de Nápoles, anunciando: “Vendo um pedaço de pano”!

            Mas sempre que alguém lhe perguntava: "Que pano que você tem aí?", ele respondia: "Você não é cliente para mim, porque é uma pessoa de muitas palavras."  E quando outro lhe disse: "Por quanto você vende o seu pano?", ele o chamou de tagarela. Finalmente teve a chance de espiar no pátio de uma casa abandonada uma estátua de gesso, e estando cansado, sentou-se em um banco. E não escutando qualquer ruído na casa, ele resolveu travar um diálogo com a estátua:

            "Diga-me, camarada, ninguém vive nessa casa?" Esperou por algum tempo, mas como a estátua não desse nenhuma resposta, pensou que era certamente um homem de poucas palavras.  Então falou: "Amigo, quer comprar o meu pano? Vou vendê-lo barato." E vendo que a estátua ainda permanecia muda, ele exclamou: "Até que enfim eu encontrei o meu homem! Pegue lá o pano, examina-o e me dá o que você achar que vale! Amanhã volto para pegar o dinheiro. " Assim dizendo, Vardiello deixou o pano no local onde estava sentado, e voltou para casa.

            Ao chegar sem o pano e dizer à mãe tudo o que tinha acontecido, ela quase desmaiou. "Quando você vai colocar essa cabeça em ordem? Veja tudo o que você fez! Mas a culpa é minha por ser muito compassiva e não lhe ter dado uma boa surra logo no início! Só agora percebo que um médico lamentável só faz a ferida incurável! Se suas brincadeiras continuarem vamos ter uma briga muito séria!” "Devagar, mãe", respondeu Vardiello, "as coisas não são tão ruins como parecem. Você me acha um idiota, mas acredita que eu não saiba o que sou? Espere um pouco até amanhã e eu trago o dinheiro do pano."

            Na manhã seguinte, Vardiello partiu para o pátio onde a estátua estava, e disse: "Bom dia, amigo! Você pode me dar os tostões que me deve? Vamos rápido, pois você já levou o meu pano! " Quando viu que a estátua permanecia muda, pegou uma pedra e atirou-a em seu peito com tanta força que pedaços dela caíram, descobrindo um pote cheio de ouro que no peito de mármore estava escondido.

            Vardiello pegou o pote com as duas mãos e correu para casa tão rápido quanto podia, gritando: "Mãe, mãe! Vê aqui o monte de tremoços vermelho que eu tenho! Quantos! São muitos! " Sua mãe ao ver as peças de ouro e sabendo muito bem que Vardiello em breve iria tornar público o assunto, disse-lhe que ficasse à porta até que um homem vendendo leite e queijo passasse para comprar. 

Então Vardiello, que era um grande comilão, sentou-se à porta e sua mãe derramou  pela janela, em cima de sua cabeça, passas e figos secos por mais de meia hora. Vardiello pegava-os o mais rápido que podia e gritava em alta voz: "Mãe, mãe, traga algumas cestas! Se continuar a chover assim nós estaremos ricos!" Enfim, com a barriga cheia, Vardiello abandonou seu posto e subiu para dormir. 

            Acontece que um dia depois, um juiz escorregou e caiu por causa de uma coroa de ouro que havia encontrado no chão e discutia com um colega sobre quem teria direito sobre ela. Ora, Vardiello que passava por eles, disse: "Por que vocês estão brigando por causa de um tremoço vermelho? Eu não lhes dou o menor valor, pois encontrei todo um pote cheio deles." Quando o juiz o ouviu, arregalou os olhos e os ouvidos, e examinando Vardiello de perto, perguntou-lhe como, quando e onde ele tinha encontrado as coroas.  E Vardiello respondeu: "Eu os encontrei em um palácio, dentro de um homem mudo, enquanto chovia passas e figos secos."

            O juiz o olhou com espanto e imediatamente decretou que Vardiello deveria ser enviado para um manicômio, o lugar mais adequado para ele.  Assim, a estupidez do filho fez a mãe rica, e sagacidade da mãe encontrou um remédio para a loucura do filho: o qual deixa evidente que:

 "Um navio quando dirigido por uma mão hábil, raramente encalha sobre a rocha ou na areia ".

 

Comentários

Vardiello talvez seja o personagem mais conhecido das fábulas para serem contadas aos pequenos, de Giambatista Basile.

A mãe era hábil e o filho um navio sem rumo, sem comandante e nem contramestre. Mas quantas pessoas incapazes de conhecerem suas limitações não se lançam a toda vela pelos mares da vida? 

A sorte, a fortuna, o sentido de oportunidade podem muitas vezes fazer de homens inteligentes pessoas pobres, e de outros, sem muito cérebro, ricos.

Conto Quinto: “A Pulga”.

 Decisões quando tomadas sem pensar trazem desastres tanto para aquele que se comporta como um idiota, quanto para um homem prudente. Foi o que aconteceu com o rei dos Altos Montes, que graças a uma insensatez sem precedentes, cometeu um ato de loucura que colocou em risco tanto a filha quanto a própria honra.

 

            Era uma vez o rei dos Altos Montes, que ao ser mordido por uma pulga pegou-a entre os dedos com grande destreza; e vendo o quão bonito e imponente o inseto era não quis matá-la.  Então, colocou-a numa grande garrafa e todos os dias alimentava o pequeno animal, olhando quanto crescia. Ao final de sete meses foi necessário mudá-la de aposentos, pois a pulga estava maior que uma ovelha.  O rei então a esfolou e vestiu sua pele. Em seguida, emitiu uma proclamação dizendo que se alguém adivinhasse a que bicho a pele pertencera, o sabichão poderia se casar com a princesa.

            Assim que o decreto foi dado a conhecer, as pessoas se aglomeraram em multidões vindas de todas as partes para tentar a sorte.  Um deles disse que ela pertencia a um macaco, outro a um lince, um terceiro a um crocodilo, e a muitos outros bichos mais; mas todos ficaram centenas de quilômetros da verdade. 

            Por fim, veio à corte um ogro, o ser mais feio do mundo cuja simples visão faria o mais ousado tremer de medo. Assim que chegou e tocou a pele ele adivinhou de imediato a verdade, dizendo: "Esta pele pertence ao rei de pulgas." O rei viu que o ogro tinha matado a charada e para não quebrar sua palavra ordenou que a filha Porziella fosse chamada.

Porziella  tinha o rosto claro como o leite, cheirava a rosas, e era tal o milagre de sua beleza que ninguém nunca se cansava de olhá-la. E disse o rei: "Minha filha, você sabe como sou. Não posso deixar de cumprir com uma promessa, quer seja para um rei, quer para um mendigo. Minha palavra foi dada e tenho que mantê-la embora meu coração vá se partir. Quem poderia ter imaginado que o prêmio cairia para um ogro? Tenha paciência e não se oponha a seu pai! Todo o meu coração me diz que você será feliz, muitos tesouros são freqüentemente encontrados dentro de um jarro de barro bruto".

            Quando Porziella ouviu a triste novidade, os olhos se turvaram, seu rosto ficou pálido, os lábios embranqueceram, os joelhos tremeram; e começou a chorar, dizendo a seu pai: "Que crime eu cometi para ser punida assim? Pai, o carinho que você tem para com a sua própria filha é para dá-la a este monstro? Este é o amor que você mostra por quem costumava chamar de a alegria da sua alma? A menina dos teus olhos? Oh pai, oh pai cruel! Melhor teria sido se meu berço houvesse sido o leito de morte". Porziella ia ainda falar mais quando o rei furioso exclamou: "Contenha a sua raiva! Vá devagar, pois muitas vezes as aparências enganam. Quer uma menina ensinar a seu pai? Quando um filho ousou se opor à minha vontade? Rapidamente, pegue-lhe a mão e parta para a casa dele. Faça-o já, pois não quero ver esse rosto atrevido nem mais um minuto à minha frente. "

            Pobre Porziella, com a aparência de uma pessoa condenada à morte, o coração de alguém cuja cabeça está situada entre o machado e o cepo, tomou a mão do ogro que a arrastou para o bosque e por entre as árvores entraram num matagal, onde homem nenhum jamais chegou, a menos que tivesse se perdido pelo caminho.

            O ogro depois de ter batido contra as pedras no escuro afugentando as feras, caminhava com segurança. Até que Porziella viu um lugar escuro, negro como uma saída de chaminé. Lá ficava a casa do ogro ornamentada toda ela com ossos dos homens que ele já tinha devorado. Pense apenas um momento no horror sentido pela pobre moça.  Mas isso não era nada em comparação com o que estava por vir.

            Antes do jantar, ela comeu algumas ervilhas e feijões secos. Em seguida, o ogro saiu para caçar e voltou para casa carregando quartos de homens que ele havia matado, dizendo: "Agora, esposa, não pode se queixar que eu não cuide bem de você; veja que belas carnes nós vamos comer e depois da janta você vai me amar e fazer-me feliz. "

            Pobre Porziella, não pôde mais suportar a visão horrível e virou o rosto.  Mas quando o ogro a viu ele gritou: "Estou atirando doces aos porcos! Não se amofine; é só ter paciência até amanhã de manhã, pois fui convidado para a caçada ao javali e trarei para casa um par deles, e nós vamos fazer uma grande festa com nossos parentes e celebrar o casamento." Assim dizendo, deixou-a e entrou na floresta.

            Como Porziella ficasse chorando na janela, uma velha passou pelo lugar e estando com fome, pediu-lhe comida.  "Ah, minha boa mulher", disse Porziella, "Deus sabe que eu estou sob o poder de um ogro que trouxe para casa nada mais que pedaços de homens que ele matou. Que levo a vida mais miserável do mundo, e ainda assim sou filha de um rei e fui educada no luxo." E assim dizendo, ela começou a chorar como uma menina que vê seu pão e a manteiga roubados.

            O coração da velha amoleceu e ela disse para Porziella: "Você tem um bom coração, minha linda menina, não estrague sua beleza com o choro, pois está com sorte, eu posso ajudá-la. Ouça bem. Tenho sete filhos que são sete gigantes, Mase, Nardo, Cola, Micco, Petrullo, Ascaddeo e Ceccone”. “Eles têm mais virtudes que o alecrim, especialmente Mase, que a cada vez que coloca o ouvido no chão ouve tudo o que se esteja passando ao redor de trinta milhas. Nardo, assim que lava as mãos, faz um grande mar de espuma de sabão. Quando Cola lança um pouco de ferro no chão este se transforma num campo de lâminas afiadas. Sempre que Micco arremessa para baixo uma pequena vara de madeira, surge uma muralha de paus. Se Petrullo deixa cair uma gota de água ela se transforma num terrível rio. Quando Ascaddeo deseja fazer surgir uma torre, ele só tem que jogar uma pedra. Já Ceccone atira tão certo com a besta que é capaz de atingir o olho de uma galinha a uma milha de distância. Com a ajuda dos meus filhos, que são todos educados e simpáticos, vou inventar algo para livrá-la das garras do ogro."

            "Não há tempo melhor que agora", respondeu Porziella, "pois meu marido está fora e não vai voltar esta noite e nós teremos tempo para fugir."

            "Não pode ser esta noite", respondeu a velha, "porque eu vivo muito longe, mas prometo que amanhã de manhã eu e meus filhos vamos nos juntar e ajudá-la para acabar com seu problema." Assim dizendo a velha saiu e Porziella dormiu profundamente com o coração leve durante toda a noite.  Mas assim que os pássaros começaram a gritar "viva o sol", eis que chega a velha com seus sete filhos e, colocando Porziella no meio deles, partiram para a cidade. 

            Ainda não tinham caminhado nem meia milha quando Mase encostou o ouvido no chão e gritou: "Atenção, o ogro voltou para a casa e viu que perdeu a esposa e está correndo atrás de nós. " Tão logo Nardo ouviu o irmão, lavou as mãos e fez um mar de espuma de sabão; quando o ogro veio e viu por todos os lados espuma, correu para casa e buscou um saco de farelo que espargiu no chão até que finalmente conseguiu superar o obstáculo, embora com grande dificuldade.

            Mase encostou o ouvido mais uma vez ao solo e exclamou: "Olhe que aqui vem ele!" Então Cola lançou um pedaço de ferro e instantaneamente um campo de lâminas surgiu.  Quando o ogro viu o caminho interrompido, correu de volta para casa e vestindo-se de ferro da cabeça aos pés retornou e também superou esse obstáculo.

            Então Mase, novamente colocou o ouvido no chão, gritou: "Up! Up! Às armas! Às armas! O ogro está chegando tão rápido que parece que voa." Mas Micco estava pronto com o seu pequeno pau, e num instante ele levantou uma enorme paliçada de madeira que de tão espessa parecia impenetrável.  Quando o ogro chegou, segurou uma faca de Carrara que ele trazia no cinto e começou a cortar os choupos, carvalhos, pinheiros e castanheiras, à direita e à esquerda; de modo que, com quatro ou cinco golpes tinha posto quase toda a floresta no solo.

            Mase, que mantinha suas orelhas em alerta como uma lebre, mais uma vez levantou a voz e gritou: "Agora temos que dar o fora, o ogro está vindo como o vento." Assim que Petrullo o ouviu, tomou água de uma pequena fonte e espargiu-a sobre o chão; num piscar de olhos, um grande rio se levantou no local.  Quando o ogro viu o novo obstáculo, despojou-se completamente da roupa e nu nadou até o outro lado do rio, com as roupas em cima de sua cabeça. Mase ouviu o ogro chegando e exclamou: "Ai de mim! As coisas vão mal! Já ouço o barulho de saltos do ogro".

            "Não tenham medo", disse Ascaddeo, "eu vou resolver isso." Assim dizendo, atirou uma pedra ao chão e imediatamente se levantou uma torre em que todos se refugiaram sem demora, e barraram a porta de entrada.  Mas quando o ogro se aproximou e viu que haviam entrado em lugar tão seguro ele correu para sua casa, e trazendo uma escada de vinhateiro retornou com ela no ombro.

            Mase ouvindo à distância a volta do ogro gritou: "Estamos no final de nossas esperanças. Ceccone é o nosso último recurso, pois o ogro está voltando em terrível fúria. Ai! como meu coração bate!"

            "Seu covarde", respondeu Ceccone, "tenha confiança em mim. Eu vou acertá-lo com uma bala." Enquanto Ceccone falava o ogro chegou, plantou a sua escada e começou a subir.  Ceccone, tendo-o na mira, disparou em um de seus olhos e o ogro caiu ao chão como uma pêra de uma árvore quando madura. Em seguida, Ceccone saiu da torre e cortou-lhe a cabeça com uma grande faca que carregava consigo, a qual fatiou a pele do ogro como a um queijo.

            Então eles carregaram com grande alegria a cabeça do ogro para o rei. Este ficou contente com a volta da filha, pois já tinha se arrependido mais de uma centena de vezes por havê-la dado a um ogro.  E, poucos dias após, Porziella desposava um príncipe, e os sete filhos gigantes e a velha mãe, que tinham uma vida miserável na floresta, foram recompensados ​​com grandes riquezas.

 

Comentários

Trata-se de uma fábula educativa, onde os impulsos exibicionistas e atitudes impensadas, como as do rei, podem conduzir a resultados desastrosos.

Pela primeira vez surge o ogro, figura que estará presente, tanto quanto as fadas, em quase todos os contos de Basile. O ogro e seus familiares (mulheres, filhos) são os seres humanos selvagens, ainda canibais, habitante das selvas e das grutas, que se encontram nos bosques, longe da civilização. Sua feiúra é a expressão de certa maldade intrínseca, embora esta nem sempre esteja presente, como veremos nas próximas fábulas. Na presente fábula, somente o homem selvagem seria capaz de identificar a origem da pele que o rei vestia.

Temos também a presença do número sete, o qual representa as defesas com as quais a princesa contava frente o avanço do homem selvagem que desejava desposá-la. O sete, cabalisticamente, é considerado o número perfeito, sendo o símbolo da totalidade do Universo em constante transformação. Ele estará, tanto quanto o número três, também presente em quase todas as fábulas de Basile.

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