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“O Conto dos Contos”

Capítulo 5 - Conto sexto: “Cenerentola”.

 No mar da inveja, a malícia frequentemente se perde na profundidade das águas; enquanto a pessoa está esperando ver se o outro se afogou, ela é que se afoga ou se choca contra uma rocha, como aconteceu com algumas meninas invejosas, sobre as quais vou contar uma história.

 

            Certa vez havia um príncipe viúvo, que contraíra novas núpcias. De seu primeiro casamento ele tinha uma única filha, que lhe era tão cara que ele não enxergava senão os seus olhos. Um dia ele contratou uma governanta para ensinar à filha o trabalho de tricotar e pontos de renda.

            Esta governanta logo demonstrou pela moça tal carinho que as palavras não o podem expressar. Por ser muito solitária, a filha do príncipe falou para a governanta: "Oh, você me trata com tanta bondade e amor que até poderia ser a minha mãe”. Ela disse isso tantas vezes que, finalmente, a governanta respondeu-lhe um dia: "Se você seguir os meus conselhos eu serei uma mãe para você, e você será tão querida para mim como a menina de meus olhos."

            Ela ia dizer mais quando Zezolla, pois esse era o nome da princesa, disse: "Eu sei que você me quer bem, portanto, basta-me mostrar o caminho. Você escreve e eu assino."

            "Bem, então", respondeu a governante, "abra os ouvidos e escute. Para eu ser sua mãe, sua madrasta deve morrer. Pois faça o que eu digo: quando seu pai sair, peça a ela para dar-lhe um dos vestidos velhos que estão dentro do grande baú. Então ela, que gostaria que todas as coisas que você possui se transformassem em trapos e farrapos, abrirá o grande baú e dirá, ‘segure a tampa’, e enquanto a estiver segurando e ela farejando lá dentro, você deixa cair a tampa com todas as suas forças, de modo a quebrar o pescoço da malvada”. E disse mais: “Você sabe muito bem que seu pai até mesmo cunharia dinheiro falso para agradá-la, de modo que a madrasta estando morta, se lhe suplicar que se case comigo ele irá fazê-lo”.

            Desde que Zezolla ouviu essa instrução, cada hora pareceu-lhe um milhar de anos, até que tivesse realizado tudo o que a governanta havia aconselhado.  E assim foi feito. Logo que o luto pela morte da madrasta terminou, ela começou a seguir seu pai e a suplicar-lhe para que se casasse com a governanta. No início, o príncipe tomou isso como uma piada, mas Zezolla continuou atirando tanto tempo na mesma marca que ele resolveu atender suas súplicas. Então, ele pegou Carmosina (que era o nome da governanta) para esposa, e deu um grande banquete no dia do novo casamento.

            Durante a festa, enquanto os recém-casados dançavam, Zezolla estando de pé na janela viu uma pomba vir voando e pousar em cima do batente e dizer-lhe: "Sempre que você precisar de alguma coisa envie um pedido para a Gruta das Fadas que fica na Ilha da Sardenha, e seu desejo se realizará. "

            Durante cinco ou seis dias a madrasta cercou Zezolla de carícias, deu-lhe o melhor lugar à mesa, os pedaços seletos de carne para comer e o mais rico vestuário. Mas dentro em pouco, esquecendo completamente os bons serviços que tinha recebido (ai daquele que tem um mestre ruim!), ela apresentou suas seis filhas, pois nunca tinha dito a ninguém que era uma viúva com um bando de moças. Elogiou-as de tal forma junto ao marido, que as enteadas passaram a ter tudo a seu favor, e o sentimento do príncipe pela filha foi deixando seu coração. 

            E todas elas passaram a falar tão mal da pobre moça, mal hoje e pior amanhã, que ela foi caindo da câmara real para a cozinha, da sala de estar para a lareira, de esplêndidas roupas de seda e ouro para os panos de cozinha, do cetro para o espeto. E não foi apenas sua condição que mudou, mas até mesmo o nome que em vez de ser Zezolla agora passara a ser Cenerentola.

            Acontece que certa vez o príncipe teve necessidade de viajar para a Sardenha e chamando as seis enteadas perguntou-lhes uma a uma o que gostariam que ele lhes trouxesse ao retorno. Uma desejou vestidos esplêndidos, outra, ornamentos para o cabelo, outra ainda, ruge para o rosto, outra e outra, brinquedos e quinquilharias.

            Por fim, o príncipe perguntou à própria filha: "E o que você o que você quer minha filha?"  "Nada, pai", ela respondeu, "apenas que você me recomende à Gruta das Fadas, e peça-lhe que me envie  algum presente; se você esquecer o meu pedido será incapaz de caminhar para trás ou para a frente, por isso lembre-se dele."

            O príncipe seguiu seu caminho para a Sardenha, onde adquiriu todas as coisas que suas enteadas tinham solicitado, mas a pobre Zezolla estava completamente fora de seus pensamentos.  E quando chegou a bordo do navio para retornar, aconteceu que este não pode deixar o porto e lá ficou preso.  

O capitão do navio, que estava quase em desespero e bastante cansado, deitou-se para dormir e em seu sonho viu uma fada, que lhe disse: "Sei o motivo pelo qual você não pode manejar o navio para fora do porto. É porque o príncipe que está a bordo quebrou uma promessa feita à filha". O capitão em seguida acordou e contou o sonho para o príncipe que, envergonhado, foi até a Gruta das Fadas, e trazendo a recomendação de sua filha pediu que lhe enviassem algo.  Eis que na entrada da gruta surgiu uma linda donzela, agradecida pela lembrança amável e ordenou-lhe que dissesse à filha para que fosse sempre alegre e mantivesse o bom coração. Deu-lhe uma muda de árvore, uma enxada para cavar, assim como um pequeno balde de ouro para molhar a planta, assim como um guardanapo de seda para limpar as folhas.

            O príncipe, maravilhado com os presentes despediu-se da fada, e voltou para o seu país.  E ele deu a suas enteadas todas as coisas compradas e, finalmente, à filha o que a fada havia lhe enviado.  Então Zezolla fora de si de alegria, levou a árvore e plantou-a num lugar bonito cavando a terra, regando-a e limpando suas folhas pela manhã e à noite com o guardanapo de seda. 

            Em poucos dias a árvore havia crescido tanto quanto uma mulher, e surgiu uma fada, que perguntou a Zezolla: "O que você deseja?" Zezolla respondeu que desejava, por vezes, poder sair de casa sem o conhecimento das irmãs. A fada respondeu: "Sempre que tiver esse desejo, venha até a árvore e diga: ‘Minha pequena árvore, minha árvore de ouro, com uma enxada de ouro eu cavei, com o pote de ouro tenho te regado, com o pano de seda a mantenho limpa, tire de si e me vista depressa’. E quando você quiser se despir, altere as últimas palavras e diga: ‘Tire-me e vista-se’."

            Quando o tempo das festas chegou, as filhas da madrasta se arrumaram muito bem, todas com fitas e flores, chinelos e sapatos, cheiros e sinos, rosas e poesias; Zezolla correu para a árvore e assim que repetiu as palavras que a fada havia lhe dito, viu-se vestida como uma rainha, e uma bela carruagem servida por doze pajens, todos com as melhores roupas à sua disposição.  Ela, toda feliz, foi para a festa e as irmãs morreram de inveja daquela beleza desconhecida.

            Até mesmo o jovem rei assim que a viu ficou preso por sua magia e ordenou que um servo fiel descobrisse quem era aquela linda donzela e onde morava.  Então o servo seguiu seus passos; no entanto, quando Zezolla percebeu o truque, jogou ao chão um punhado de moedas que a árvore lhe dera para esse fim. O servo ficou tão ocupado pegando as moedas que se esqueceu de seguir a carruagem.

            Zezolla chegou à casa com bastante segurança e mudou de roupa como a fada dissera, antes que as irmãs malvadas chegassem; estas para provocarem  sua inveja, contaram-lhe as coisas incríveis que tinham visto. Por seu lado, o rei ficou muito irritado com o servo, e avisou-o que da próxima vez descobrisse quem era a bela jovem e onde morava.

            Logo houve outra festa e mais uma vez as irmãs foram todas deixando a pobre Zezolla em casa, na lareira da cozinha.  Então ela correu até a árvore e repetiu a magia; imediatamente apareceram donzelas, uma com um espelho, outra com uma garrafa de água de rosas, outra com pentes, outra com sapatos, outra com vestidos, e outra com capas e colares.  E elas a enfeitaram e a colocaram em uma carruagem puxada por seis cavalos brancos, servida por lacaios de “libré”.  E nem bem ela apareceu no salão de festas, os corações das irmãs ficaram cheios de espanto e o do rei, de amor.

            Quando Zezolla voltou para casa, o servo seguiu-a novamente; ela pegou um punhado de pérolas e atirou-as, como havia feito antes. E ele foi buscá-las.  Então ela teve tempo de escapar pela segunda vez e, chegando em casa, colocou sua roupa de borralho. Quando o servo voltou para o Rei de mãos abanando, ouviu: "Pelas almas dos meus antepassados, se não descobrir quem ela é, vai levar tal surra como nunca antes se ouviu falar!"

            Quando a próxima festa ocorreu e as irmãs estavam fora da casa, Zezolla foi até a árvore e mais uma vez repetiu o pedido.  Em um instante, ela encontrou-se esplendidamente vestida e sentada em uma carruagem de ouro, com tantos servos ao redor que mais parecia uma rainha. 

            Mais uma vez as irmãs ficaram fora de si de inveja; mas desta vez, quando ela deixou o salão de baile, o servo do rei não vacilou. Zezolla, vendo que o homem já estava quase ao lado dela, gritou: "Cocheiro, corra", e num instante a carruagem partiu a um ritmo tal que ela perdeu um de seus chinelos, a coisa mais bonita que já se viu. O servo não pode alcançar a carruagem, que voou como um pássaro; entretanto, pegou o chinelo e levou-o ao rei, dizendo-lhe tudo o que acontecera. O rei pegando o sapato em sua mão, disse: "Se o porão é tão bonito, imagino como deva ser o prédio. Sapato, você que até agora era a prisão de um pé branco, é agora o grilhão de um coração infeliz!"

            Então ele fez uma conclamação para que todas as mulheres do país comparecessem a um banquete, para o qual foram preparadas tortas e bolos, ensopados e guisados, massas e doces - o suficiente para alimentar um exército inteiro. E quando todas as mulheres estavam reunidas, nobres e plebe, ricos e pobres, bonitos e feios, o rei tentou colocar o chinelo em cada uma das convidadas para ver em quem cabia, e, assim, ser capaz de descobrir com a ajuda do chinelo, a moça que buscava. Debalde, em nenhum pé o sapato serviu.

            Somente então o príncipe confessou que ele havia deixado uma filha para trás "mas ela está sempre na lareira, é uma simplória sem graça que não é digna de se sentar e comer à sua mesa."          Mas o rei disse: "Quero nela provar o sapato. Faremos nova festa com todas as mulheres juntas."

            No dia seguinte o príncipe retornou com as irmãs malvadas e com Zezolla. Depois da festa veio o julgamento do chinelo. Assim que este se aproximou do pé da moça foi atraído como o ferro pelo ímã.  Vendo isso, o rei correu para Zezolla e tomando-a nos braços assentou-a sob o dossel real, colocou a coroa sobre a sua cabeça, e obrigou que todos a reverenciassem como sua rainha. 

            Quando as irmãs malvadas viram isso se encheram de veneno e raiva, e, não tendo paciência para olhar para o objeto de seu ódio, deslizaram silenciosamente na ponta dos pés para casa de sua mãe, confessando a despeito de si mesmos, que:

 "Só um louco que resiste às estrelas."

 

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Todos nós conhecemos e amamos o caráter de “A Cinderella”, um dos contos de fadas mais populares da Humanidade. A versão mais conhecida é a de Charles Perrault, de 1697, mas poucos sabem que a história desta menina, antes de ser trazida para o sucesso pelo escritor francês, ao estilo da corte de Luís XIV, havia chegado aos ouvidos do napolitano Basile e por ele reescrita sobre o título de “Cenenterola”, aquela que vive em meio às cinzas, cinqüenta anos antes.

Basile a desenhou a partir de relatos dos camponeses da Campânia, como a fábula daquela que vive ao lado de um fogão, após assassinar uma madrasta para colocar em seu lugar outra ainda pior, que a escravizará com a complascência paterna. 

Posteriormente, no século XIX, os Irmãos Grimm desenvolveram sua versão própria de “A Cinderela”, mais sanguinolenta que a de Basile e de Charles Perrault.

Diversos psicanalistas vêem na história de “A Cinderela” mais que uma fábula maravilhosa e moralista. Por ter origem atemporal e ter surgido em várias civilizações diferentes, pois existe uma versão ainda mais antiga,originária da China, por volta do século II a.C., a trajetória da protagonista traduziria uma espécie de arquétipo fundamental: o anseio natural da psiquê humana em ser reconhecida como especial e levada a desejar uma existência superior àquela em que vive.

Conto sétimo: “O Mercador”.

Tidas como problemáticas, são as vassouras e as pás que geralmente suavizam o caminho da boa fortuna de um homem.  Muitos amaldiçoam a chuva que cai sobre sua cabeça e não sabem que é ela que traz a abundância para afastar a fome; tal fato aconteceu a um jovem sobre quem eu vou falar.

 

            Existiu certa vez um comerciante muito rico chamado Antoniello, cujo filho chamava-se Cienzo.  Quando Cienzo brincava na praia de atirar pedras com o filho do rei de Nápoles, por acaso uma delas bateu e rachou a cabeça de seu companheiro.  Quando ele contou o sucedido ao pai, Antoniello ficou furioso com medo das consequências e brigou com filho. Cienzo respondeu: "Senhor, eu sempre ouvi dizer que não há julgamento melhor que o de sua própria família. Não teria sido pior se ele tivesse quebrado minha cabeça? Foi ele quem começou e me provocou. Somos apenas meninos, e para uma briga existem sempre dois lados. Afinal foi a minha primeira falta e o rei é um homem de razão. Mas o pior que pode acontecer, o maior dano que ele pode me fazer é eu perdeu meu lar, mas o grande mundo não é o maior dos lares? E quem quiser viver com medo que se mantenha em guarda".

            Mas Antoniello não ouviu os motivos do filho.  Ele tinha medo de que o rei pudesse mata-lo e disse: "Não fique aqui arriscando a vida, parta de modo que ninguém ouça uma palavra sobre o que fez. Uma ave no mato é melhor que um pássaro na gaiola. Aqui está o dinheiro. Pegue um dos dois cavalos encantados que eu tenho no estábulo e junto com o cão, que também é encantado, fuja. Se você não pegar a mochila e der o fora nenhum santo poderá ajudá-lo! "

            Pedindo a bênção do pai, Cienzo montou o cavalo e colocando o cão encantado debaixo do braço seguiu o caminho para fora da cidade.  Vivendo num inverno de lágrimas e de suspiros, ele seguiu até a noite, quando chegou a um bosque. Caminhando por ele encontrou uma velha casa ao pé de uma torre. Cienzo bateu à porta da torre, mas o dono por medo de ladrões não quis abri-la; o jovem foi obrigado a permanecer na velha casa em ruínas.  Deixou que o cavalo pastasse no prado, e se atirou sobre um pouco de palha que encontrou, tendo o cão ao lado. 

            Mas mal fechara os olhos quando foi acordado por latidos e ouviu passos na casa.  Cienzo corajoso e ousado pegou sua espada e começou a dar golpes no escuro, mas percebendo que estava apenas agredindo o vento, virou-se para dormir novamente.  Depois de alguns minutos, sentiu-se puxado delicadamente pelo pé.  Virou-se para pegar novamente o cutelo, e saltando exclamou: "Ei, vamos parar com isso! Ou, então, veremos quem manterá o último pé calçado! "

            Ele ouviu uma gargalhada e, em seguida, uma voz cavernosa disse: "Venha aqui e eu vou lhe dizer quem sou." Cienzo, sem perder a coragem, respondeu: "Espere um pouco, eu já vou." Assim, tateando até encontrar uma escada, chegou até uma adega, que era de onde provinha a voz; descendo, viu uma vela acesa e três figuras com aparência de fantasmas que faziam um clamor comovente, lamentando-se: "Ai, meu belo tesouro, devo te perder!"

            Nisso, pensando na própria vida, Cienzo também começou a chorar e a se lamentar; e depois que ele chorou por algum tempo e a Lua perdeu o seu lugar no Céu, as três figuras que se lamentavam disseram a Cienzo: "Tome este tesouro, cuide dele."  Em seguida desapareceram.  Cienzo, olhando a luz do sol que chegava através de um buraco na parede, quis retornar de onde viera, mas não encontrou a escada. Gritou de tal modo que o dono da torre o ouviu e foi buscar outra escada. Ao ver o tesouro que estava em sua propriedade quis dar parte dele para Cienzo, mas este se recusou. Então, tomando seu cão e a montaria reiniciou a peregrinação.

            Depois de um tempo chegou a uma floresta selvagem e triste, tão escura que o fez estremecer.  Ali, à margem de um rio, ele encontrou uma fada cercada por um bando de ladrões.  Cienzo, vendo a má intenção dos mesmos pegou da espada e logo fez uma matança.  A fada agradeceu-lhe pelo ato corajoso em sua defesa e convidou-o a ir para seu palácio onde ela poderia recompensá-lo divinamente.  No entanto, Cienzo respondeu: "Não é necessário mais que me agradecer gentilmente. Em outro momento aceitarei o convite, mas agora tenho pressa, negócios importantes me esperam."

            Assim dizendo ele se despediu e percorrendo um longo caminho chegou ao palácio de um rei, que estava todo enlutado. Quando Cienzo perguntou a causa do luto alguém respondeu: "Um dragão de sete cabeças apareceu por aqui. É o mais terrível monstro que jamais foi visto, tem a crista de um galo, a cabeça de um gato, olhos de fogo, a boca de um buldogue, as asas de um morcego, as garras de um urso, e a cauda de uma serpente. Desde que chegou, o dragão engole uma donzela a cada dia e agora é a vez de Menechella, a filha do rei. Por isso há grande choro e pranto no palácio real, já que a criatura mais bela em toda a terra está condenada a ser devorada pelo monstro horrível".

            Enquanto Cienzo ouvia a história teve que dar um passo para o lado ao ver Menechella passar enlutada e acompanhada pelas damas da corte que torciam as mãos, arrancavam os cabelos aos punhados, lamentando o triste destino da pobre menina.  Logo a seguir o dragão saiu de sua caverna. Cienzo pegou a espada e cortou-lhe a cabeça; o dragão recuou e esfregou o pescoço em uma determinada planta não muito distante do lugar e, de repente, a cabeça juntou-se novamente ao corpo.  Cienzo, vendo isso, exclamou: "Aquele que não ousa, não vence". Cerrando os dentes, desferiu um golpe tão furioso que cortou as sete cabeças do monstro, que voaram do pescoço como ervilhas da panela.  Logo ele arrancou-lhes as línguas, e colocando-as no bolso atirou as cabeças para longe, de modo que elas nunca poderiam voltar a se juntar. Então ele enviou Menechella para a casa de seu pai e foi repousar em uma taverna.

            Quando o rei viu a filha, seu contentamento não teve limites e tendo ouvido a maneira pela qual ela tinha sido libertada ordenou que uma proclamação fosse feita e que aquele que matara o dragão deveria apresentar-se imediatamente e casar com a princesa. 

            Ora, um malandro que por lá vivia, ao ouvir a proclamação, recolheu as cabeças espalhadas do dragão e disse: "Menechella foi salva por mim, essas mãos libertaram a terra da destruição, eis as cabeças do dragão, as provas de meu valor, e promessa é dívida ".  O rei, então, levantou a coroa de sua cabeça e a colocou sobre a de seu conterrâneo.

            A notícia da proclamação voou por todo o país e também chegou aos ouvidos de Cienzo, que disse para si mesmo: "Em verdade, eu sou um grande imbecil! Tive agarrada a Fortuna pelo topete e a deixei escapar da mão. Lá estava um homem que se oferecia para me dar a metade de um tesouro que eu encontrara, e eu me importo tanto quanto um alemão com água fria; uma fada quer me receber em seu palácio, e eu me importo tão pouco quanto um burro para com a música, e agora que eu sou chamado para a coroa, aqui estou e deixo um ladrão malandro enganar-me e jogo fora minha carta de trunfo"! 

            Assim murmurando ele arrumou um tinteiro, pegou uma pena e abrindo uma folha de papel começou a escrever: "Para a mais bela jóia das mulheres, Menechella. Tendo por testemunha o Sol em Leão, a tua vida fui eu quem salvou; tu que estiveste presente no momento da morte do dragão, pode garantir ao rei qual é à verdade e impedir que outro venha a ganhar o grande prêmio, enquanto eu tive toda a labuta. Pois o certo da graça real será recompensar o  justo e merecido punho deste teu forte. Concluindo, beijo tuas mãos delicadas. "

            Tendo escrito e selado a carta, colocou-a na boca do cão encantado, dizendo: "Corra o mais rápido que puder e leva isso para a filha do rei. Não a dê para ninguém, somente para ela.”

            O cachorro correu para o palácio como se estivesse voando, e subindo as escadas encontrou o rei que ainda cumprimentava o malandro, seu súdito. Quando o homem viu o cão com a carta na boca, ele ordenou que fosse tirada, mas o cão não a daria a qualquer um, e saltando até Menechella colocou-a em sua mão. 

            Menechella levantou-se da cadeira e fazendo uma reverência ao rei, deu-lhe a carta e quando o rei a leu ordenou que o cão fosse seguido para ver para onde iria, e que seu dono deveria ser levado até o palácio.

            Assim dois cortesãos seguiram o cão até a taberna onde encontraram Cienzo, e o conduziram à presença do rei.  Então o rei perguntou como ele se gabava de ter matado o dragão, uma vez que as cabeças tinham sido trazidas pelo homem coroado que estava sentado ao seu lado. 

            E Cienzo respondeu: "Esse sujeito merece uma mitra de papelão em vez de uma coroa, já que teve o descaramento de dizer uma mentira tão grande. Mas, para provar-lhe que eu fiz a escritura e não este patife ordene às cabeças que falem. Nenhuma delas pode falar sem a língua, e estas que trouxe comigo são as provas da verdade. " Assim dizendo, puxou as línguas fora do bolso, enquanto o patrício do rei não sabia como tudo chegaria ao fim. Ainda mais quando Menechella acrescentou: "Esse é o herói! Ah, seu cachorro trapaceiro, disse ao outro!" 

            Então o rei tirou a coroa da cabeça do falsário e colocou-a sobre a de Cienzo e estava a ponto de enviar o impostor às galés, quando Cienzo implorou que tivesse misericórdia pelo mesmo. Em seguida casou-se com Menechella e um banquete real foi feito; pela manhã enviaram as novidades para Antoniello e para toda a família. Antoniello veio verificar a verdade e disse:

 "Um porto reto para um navio torto."

 

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Cienzo, vocábulo próximo a “sciente”, é a fábula que reporta a história de um jovem cuja consciência advém de um bom caráter e do despojamento por ganhos em situações de oportunidades. Num primeiro instante após um incidente com o filho de um rei, deseja permanecer em sua casa, acreditando que a razão o abrigaria da vingança. Sai a correr o mundo por ordem do pai que não crê que os nobres ajam pelo bom senso. E por isso o filho lhe parece um “navio torto”.

Mas nessa história maravilhosa triunfam os bons predicados e a atitude sempre desprendida do jovem Cienzo o conduz, finalmente, ao poder e à fortuna.

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