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Marcel Proust

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“O Conto dos Contos”

Capítulo 6 - Conto Oitavo: “Cara- de- cabra”.

Todos os maus atos que o homem comete podem ter uma desculpa: ou provocados pelo desprezo, ou pela necessidade que obriga, ou pelo amor que cega, ou ainda pela a raiva que transtorna.  Mas a ingratidão é uma coisa que não tem desculpa que a possa corrigir e por isso é o pior dos vícios, uma vez que seca a fonte da compaixão, apaga o fogo do amor, fecha o caminho dos benefícios, causa irritação e impede que o arrependimento brote no coração do ingrato.  Como vocês verão na história que estou prestes a contar.

 

            Um camponês tinha doze filhas, pois a cada ano sua mulher lhe presenteara com uma menina. Para que o homem pobre pudesse sustentar a família com alguma decência, levantava cedo todas as manhãs, trabalhando duro todo o dia.  Entretanto, com o que produzia apenas mantinha os pequeninos quase mortos de fome.

            Aconteceu de um dia estar cavando no sopé de uma montanha quando encontrou uma caverna tão profunda e escura onde até o sol tinha medo de entrar.  E dela saiu um lagarto verde tão grande quanto um crocodilo. O pobre homem ficou aterrorizado que não podia nem mesmo correr, esperando a cada momento que o fim de seus dias terminasse num um gole do feio animal. Mas o lagarto, aproximando-se dele, disse: "Não tenha medo, meu bom homem, porque eu não vim aqui para lhe fazer mal, mas para o seu bem."

            Quando Masaniello, este era o nome do camponês, ouviu o que o lagarto disse, caiu de joelhos: "Senhor não-sei-o-nome, estou totalmente em seu poder. Tenha compaixão deste pobre tronco que tem doze ramos para apoiar."

            "É nesse assunto, disse o lagarto, que estou disposto a ajudá-lo. Para isso me traga amanhã de manhã a mais jovem de suas filhas, porque irei educá-la como minha própria e amá-la como à vida. "

            O pobre pai ficou mais confuso que um ladrão quando os bens roubados são encontrados em suas costas.  Ouvindo o lagarto pedir-lhe uma de suas filhas, e que por sinal era a mais tenra, ele concluiu que a capa não era sem lã, e que o lagarto queria a criança como petisco. Então ele disse para si mesmo: "Se lhe dou minha filha, dou-lhe minha alma. Se recusar, ele vai levar este meu corpo e eu acabo por perdê-la de todo modo, logo, estou roubado. Se negar ele vai sugar meu sangue; se eu concordar, ele tira parte de mim. Que fazer? Que desgraça choveu do céu sobre mim!”

            Enquanto ele falava assim consigo mesmo, o lagarto disse-lhe: "Resolve rapidamente fazer o que eu quero ou você vai deixar apenas seus trapos aqui, pois irei comê-lo." Masaniello ouvindo a ameaça e não tendo ninguém a quem pudesse recorrer, voltou para casa muito triste, amarelo como se tivesse icterícia; e sua mulher, vendo sua cabeça pendurada como a de um pássaro doente e os ombros caídos, disse: "O que lhe aconteceu, marido? Teve uma briga? Ou o burro morreu? "

            "Nada disso", disse Masaniello, “um lagarto de chifres me deu um susto ameaçando que se eu não lhe levar nossa filha mais nova, vai me fazer sofrer por isso. Minha cabeça está girando como um carretel, o amor me constrange. Se por um lado eu amo Renzolla, também amo minha própria vida. Se eu não dou ao lagarto esta parte de meu coração, ele ficará com todo o meu corpo infeliz. Então, agora, querida esposa, aconselha-me o que fazer ou estarei arruinado! "

            A esposa disse-lhe: "Quem sabe, marido, não seria o lagarto aquele que poderia fazer a nossa fortuna? Quem sabe se ele poderia por fim a todas as nossas misérias? Quantas vezes vemos uma águia voando ao nosso encontro para nos dizer boa sorte e colocamos um pano diante dos olhos e sentimos cãibras nas mãos? Então vá, leva-a, o meu coração diz que a sorte aguarda a pobrezinha! " Estas palavras consolaram Masaniello e na manhã seguinte logo que o sol com a escova de seus raios chegava do Céu, onde antes as sombras da noite haviam escurecido, tomou a menina pela mão, e levou-a para a caverna. 

            O lagarto saiu e pegando a criança deu ao pai um saco cheio de coroas, dizendo: "Você seja feliz. Renzolla encontrou um pai e uma mãe."Masaniello muito feliz agradeceu o lagarto e foi para casa.  O dinheiro era o suficiente para eles e todas as outras filhas que, até quando se casassem, podiam desfrutar com prazer de uma vida sem labutas.

            O lagarto, por seu lado, construiu um belíssimo palácio para Renzolla e propiciou-lhe tal estado de magnificência que teria deslumbrado os olhos de qualquer rainha.  A menina tinha uma centena de donzelas que a cuidavam e com tal tratamento, ela cresceu tão resistente como uma árvore de carvalho.

            Um dia aconteceu de o rei estar caçando naquele lugar e enquanto olhava à sua volta viu uma luz num palácio.  Então ele enviou um dos seus servos para pedir abrigo ao proprietário.  Quando este chegou ao palácio, o lagarto apareceu diante dele na forma de uma linda mulher que, depois de ouvir a mensagem, disse que seu mestre era mil vezes bem-vindo. 

            O rei no palácio foi recebido como um cavaleiro.  Uma centena de pajens saiu para encontrá-lo, uma centena de outros auxiliares trouxeram os pratos para a mesa.  Outras pessoas tocaram música.  Mas, acima de tudo, Renzolla serviu o rei de beber com tanta graça que ele bebericava mais o amor que o vinho. Ele então sentiu que não podia viver sem Renzolla e pediu a ela para ser sua esposa.  A fada que para si nada queria não só consentiu, mas deu à noiva um dote de sete milhões em ouro. O rei, muito feliz com a boa sorte, partiu com Renzolla que, mal-educada e ingrata por tudo o que a fada tinha feito por ela, saiu com o marido sem proferir uma única palavra de agradecimento. 

A fada vendo tamanha ingratidão a amaldiçoou desejando que o seu rosto ficasse como o de uma cabra; e assim que ela pronunciou essas palavras, a boca de Renzolla estendeu-se, uma barba pontuda nasceu, suas mandíbulas encolheram, a pele endureceu, nas bochechas cresceram pelo, e os cabelos entrançados tornaram-se chifres pontiagudos.

            Quando o pobre rei viu aquilo ficou atordoado sem saber o que havia acontecido, como tão grande beleza pudesse assim ter-se transformado. Com suspiros e lágrimas exclamou: "Onde estão os trejeitos que me apaixonavam? Onde estão os olhos que me paralisavam? Devo, então, ser o marido de uma cabra? Não, não, o meu coração se quebraria se tivesse esta cara- de- cabra! " Assim dizendo quando chegou ao seu palácio, colocou Renzolla em uma cozinha junto com uma camareira e deu a cada uma delas dez feixes de linho para tecer, ordenando-lhes que queria todo o tecido pronto ao final de uma semana.

            A empregada, em obediência ao rei, começou a cardação do linho, preparando-o e colocando-o na roca, girando seu eixo e trabalhando sem cessar.  Mas Renzolla, não tendo espelho para se olhar e pensando que ela ainda era a mesma da casa da fada, jogou o linho para fora da janela, dizendo: "Coisa bonita o rei me trazer para trabalhar! Se ele quiser camisas vá comprá-las. E lembre-se que eu trouxe sete milhões de ouro para a sua casa e sou sua mulher e não sua serva. Parece-me, também, ser ele um pouco burro por me tratar dessa maneira! "

            Quando chegou sábado pela manhã, vendo que a empregada tinha realizado toda a sua parte de tecelagem, Renzolla teve muito medo; foi até o palácio da fada e contou-lhe sobre seu infortúnio.  A fada a abraçou com muito carinho e lhe deu um saco cheio de fio já pronto para apresentar ao rei e mostrar que era uma dona de casa notável e trabalhadora. 

            Renzolla pegou a bolsa e sem dizer uma palavra de agradecimento foi ao palácio real; assim novamente a fada ficou bastante irritada com a conduta da menina.  Quando o rei tomou o tecido, ele deu dois cães pequenos, um para Renzolla e outro para a empregada, dizendo-lhes para alimentá-los e criá-los. 

A empregada cuidou do seu com migalhas de pão e tratou-o como uma criança; mas Renzolla resmungou, dizendo: "Que coisa bonita realmente! Como meu avô costumava dizer: Estamos vivendo sob os turcos? Estou de fato para pentear e esperar por cães?" E ela jogou o seu cão pela janela.

            Alguns meses depois, o rei mandou recolher os cães; Renzolla, com medo, fugiu novamente para a fada e no portão encontrou um velho, o porteiro.  "Quem é você", disse ele, "e que quer?"  Renzolla respondeu-lhe: "Você não me conhece, seu velho barba de cabra?"

            "Por que  me maltrata?" disse o porteiro.  "É o ladrão acusando o policial, na verdade você é uma cara de cabra barbada, e merece isso por sua presunção. Espere um pouco, mulher insolente! Você vai ver o que seus ares e impertinência trouxeram para si! " Assim dizendo ele correu até o quarto, e trazendo um espelho colocou-o diante Renzolla, que ao ver seu rosto feio e peludo quase morreu de horror. 

            Ao que o velho disse: "Você deve lembrar-se, Renzolla, que é filha de um camponês e que a fada a criou para ser uma rainha. Mas você rude e grosseira mostrou somente ingratidão e jamais demonstrou o menor sinal de afeição. Trouxe o mal para si; sua ingratidão trouxe o feitiço da fada, que mudou não só o rosto, mas sua própria condição. Mas faça o que estas barbas brancas aconselham: lance-se aos pés da fada, arranque sua barba, bata em seu peito e peça perdão pelos maus tratos que fez. Ela é bondosa e levará em conta o seu infortúnio ".

            Renzolla, rapidamente sentiu que havia batido com o prego na própria cabeça e seguiu o conselho do velho. A fada abraçou-a e beijou-a e restaurou-lhe seu antigo aspecto, vestiu-a com um manto com brocados de ouro; colocou-a em um magnífico trenó e acompanhada de uma multidão de servos ela voltou para o rei. 

            Quando o rei a viu tão bonita e esplendidamente vestida, tornou a amá-la como à sua própria vida, culpando-se por toda a miséria que ele a tinha feito sofrer, mas desculpando-se pela odiosa cara- de- cabra que tinha sido a causa do mesmo.  Assim Renzolla viveu feliz amando seu marido, honrando a fada, e mostrando-se grata ao velho homem, tendo aprendido com custo que:

 "É sempre bom ser educado."

 

Comentários

Uma fábula singela, com objetivo educador evidente, sobre a importância da gratidão por favores recebidos. A beleza das pessoas é impressão percebida. A deformação provocada pela fada em Renzolla, a irritável, era a imagem de um vício, de acordo com Basile o pior deles, pois seca a fonte da compaixão, apaga o fogo do amor, causa irritação ao próximo e impede que o arrependimento brote no coração: a ingratidão! 

Capítulo 6 - Conto Nono: “O Dragão Encantado”.

Grande é o poder da amizade que nos faz de bom grado suportar fadigas e perigos somente para servir a um amigo.  Valorizamos nossa riqueza e a vida quando podemos dá-las pela causa de um amigo.  Fábulas nos ensinam isso e a história está cheia de exemplos; e eu vou dar aquele que minha avó costumava contar para mim.  Então abram seus ouvidos, fechem a boca e ouçam o que vou dizer.

 

            Era uma vez um rei chamado Giannone que desejando ter muitos filhos, rezava sempre aos deuses para que o satisfizessem; e, para incliná-los mais ao seu pedido era tão caridoso com mendigos e peregrinos que terminou por compartilhar com eles tudo o que possuía. No entanto, vendo que essas coisas de nada serviam, deu um fim de colocar a mão no próprio bolso, trancou a porta, e dava tiro de besta em todo aquele que se aproximava.

            Ora, aconteceu um dia que um peregrino com uma longa barba estava passando e sem saber que o rei tinha mudado, ou talvez, sabendo e desejando fazê-lo mudar de idéia mais uma vez, foi até Giannone e implorou abrigo em sua casa.  Com um olhar feroz e terrível rosnado, disse o rei a ele: "Se você não tem outra vela pode ir para a cama no escuro." Quando o velho perguntou qual era a causa de tal mudança, o rei respondeu: "Para alcançar o meu desejo de ter filhos passei a atender a todos os que chegavam e se iam, e desperdicei todo o meu tesouro. Vendo a que a barba tinha acabado, parei de me barbear e deixei de lado a navalha". "Se isso é tudo, respondeu o peregrino, você pode ficar tranqüilo. Prometo que seu desejo será imediatamente atendido, sob pena de eu perder meus ouvidos."

            "Que assim seja", disse o rei, "prometo que lhe darei a metade do meu reino." E o homem respondeu: "Ouça-me agora - se você quiser acertar na mosca só tem que conseguir o coração de um dragão marinho, cozinhá-lo e fazer a rainha comer. Você vai ver que funciona e rapidamente". "Isso não me parece possível", disse o rei, "mas o pior é nada tentar. Logo eu preciso conseguir o coração de um dragão". O rei enviou uma centena de pescadores à caça; e eles prepararam todos os tipos de pesca possível, redes de arrastar, redes de laçar e linhas de pesca; indo para todas as direções finalmente pegaram um dragão, em seguida tiraram seu coração e trouxeram-no para o rei, que o deu à rainha para cozinhar e comer.  E depois que ela comeu o reino viveu grande alegria, pois se cumpriu o desejo do rei e ele se tornou pai de dois filhos idênticos, que somente a rainha poderia dizer qual era qual.

            Os meninos cresceram juntos em tal amor um pelo outro que não podiam ficar separados nem por um momento.  A ligação era tão grande que a rainha começou a sentir ciúmes ao ver que o filho destinado a ser o herdeiro de seu pai, cujo nome era Fonzo, demonstrava mais afeto por seu irmão Canneloro do que para a própria mãe. E a rainha não sabia o modo de remover o espinho de seus olhos.

            Um dia Fonzo planejou ir à caça com o irmão. Em seu quarto ele acendeu um fogo onde derretia o chumbo para fazer balas, mas por estar em falta de não sei o quê, saiu da habitação. Nisso a rainha chegou, e não encontrando ninguém, e sabendo que Canneloro estava no quarto de baixo, a rainha teve ganas de colocá-lo para fora do mundo. Então, inclinando-se, ela abriu um buraco no assoalho e virou o líquido quente de moldar balas no rosto do filho, que produziu uma feia ferida na testa do rapaz.  Quando ela estava prestes a repetir a façanha, Fonzo voltou e a rainha fingiu que só entrara para ver como ele estava, fez-lhe algumas carícias e foi-se embora.

            Canneloro, escondendo a testa ferida com o chapéu, não disse nada a Fonzo, permaneceu silencioso, embora sentisse uma dor que queimava, ele disse a seu irmão que deveria deixá-lo. Fonzo, espantado com a decisão repentina, perguntou-lhe a razão e ele respondeu: "Não pergunte mais, meu caro Fonzo, é suficiente dizer que sou obrigado a partir e deixá-lo, você que é meu coração, minha alma e o sopro de meu corpo. Uma vez que não pode ser de outra forma, adeus, e me mantenha na lembrança."

            Em seguida, depois de se abraçarem derramando muitas lágrimas, Canneloro foi para o próprio quarto. Vestiu uma roupa de viagem, uma espada e se equipou da cabeça aos pés; pegou um cavalo no estábulo e quando estava terminando de colocar o pé no estribo, Fonzo veio chorando e disse-lhe: "Já que você está decidido a me abandonar, deve pelo menos deixar-me algum sinal de seu amor, para diminuir a angústia da sua ausência."

            Então Canneloro atirou seu punhal no chão e imediatamente uma fonte de água se levantou.  E disse ao seu irmão gêmeo: "Esta é a melhor que posso deixar-lhe. Pelo que flui desta fonte você vai seguir o rumo da minha vida. Se você vir que corre clara, saiba que minha vida está igualmente clara e tranqüila; se estiver turva, estarei passando por problemas, e se ela secar é que o óleo da minha vida foi consumido e devo voltar à Natureza." Em seguida, fincou a espada no chão e um pé de murta nasceu, e ele disse: "Enquanto esta murta estiver verde, saiba que eu também estou verde como um alho-porró. Se você a vir murchar, saiba que a minha fortuna não é das melhores do mundo, mas se secar, você pode chorar pelo seu Canneloro ".

            Assim dizendo, Canneloro partiu. E viveu tantas aventuras que precisaria muito tempo para se contar; por fim chegou ao reino de Água-Clara, no momento em que se realizava um torneio esplêndido, com a mão da filha do rei prometida ao vencedor. Canneloro apresentou-se e atuou tão bravamente que derrubou todos os cavaleiros que tinham vindo de diversas partes do mundo. Diante disso, ele se casou com a princesa Fenícia, e uma grande festa foi dada. Quando Canneloro já estava por lá há alguns meses, em paz e tranquilidade, uma fantasia infeliz veio-lhe à cabeça e vamos direto ao ponto.  Ele contou ao rei que desejava caçar na floresta onde assombrava um ogro, e este lhe disse: "Tome cuidado não se iluda. Seja sábio e mantenha abertos os olhos, porque um ogro é tanto mais perverso por mudar de forma a cada dia: uma vez aparece como um lobo, outra como um leão, agora como um veado, depois como um burro, como uma coisa e depois outra. Usa mil estratagemas e chamarizes como aqueles que atraem um infeliz para uma caverna onde o devora. Então, meu filho, não coloque sua segurança em perigo, ou poderá deixar os trapos por lá."

            Canneloro, por não saber o que fosse o medo, não prestou atenção ao conselho do sogro. Assim que o sol com a vassoura de seus raios retirou a fuligem da noite, ele partiu para a caça e chegou a um bosque onde, sob o toldo das folhas, as sombras conspiravam contra o sol. O ogro vendo-o chegar transformou-se em uma corça bonita; tão logo Canneloro a viu começou a persegui-la. A corça dobrou, virou e levou-o de lá para cá num ritmo tal que o conduziu até o coração da floresta, onde criou uma tempestade de neve tão forte que parecia que o céu desabava.

            Canneloro terminou em frente de uma caverna e nela entrou em busca de abrigo; e estando entorpecido pelo frio, reuniu achas que lá encontrou e acendeu uma grande fogueira. Quando estava de pé ao lado do fogo para secar suas roupas, a corça chegou à entrada da caverna, e disse: "Senhor cavaleiro, pode deixar-me entrar e aquecer-me um pouco, pois estou tremendo de frio?" Canneloro, que era de uma disposição gentil, disse-lhe: "Seja bem-vinda.""Eu gostaria de entrar", respondeu a corça, "mas tenho medo que você me mate."

            "Não tema nada", respondeu Canneloro, "confia na minha palavra." "Se você quiser que eu entre", respondeu a corça, "amarre os cães para não me machucarem e o cavalo, para não poder me escoicear." Canneloro amarrou os cães e o cavalo, e a corça disse: "Agora, a menos que você se livre de sua espada, não me atrevo a entrar." Então Canneloro, que desejava tornar-se amigo da corça, guardou a espada.  Assim que o ogro viu Canneloro indefeso, retomou a sua própria forma, e agarrando-o atirou-o em um poço no fundo da caverna, que fechou com uma pedra, mantendo-o vivo para depois devorá-lo.

            Enquanto isso Fonzo, que todas as manhãs e tardes visitava a murta e a fonte para saber notícias sobre o destino do irmão, encontrou um ramo murcho e outro quebrado, concluindo que seu irmão estava passando por infortúnios. Então, para ajudá-lo, montou seu cavalo sem pedir licença ao pai ou à mãe e armando-se bem, ao lado de dois cães encantados, passou a correr o mundo. Ele vagava aqui, ali e por toda parte, até que, finalmente, chegou a Águas-Claras e encontrou as pessoas de luto pela suposta morte de Canneloro. No entanto, quando estas o viram, pensaram que ele fosse Canneloro e apressaram-se a dar a Fenícia a boa notícia, que desceu as escadas aos saltos, e abraçando Fonzo falou: "Meu marido ! Meu coração! Onde esteve todo esse tempo? "

            Fonzo deu-se conta de que Canneloro tinha vindo a estas terras e que as havia deixado; então resolveu examinar o assunto com esperteza e saber da Princesa onde seu irmão poderia ser encontrado.  E ouvindo-a dizer que ele tinha-se colocado em grande perigo na caçada maldita de um ogro cruel, concluiu que Canneloro deveria estar na floresta. Na manhã seguinte, assim que o sol tinha saído para dar seus bordados dourados ao céu, ele pulou da cama e nem as orações de Fenícia, nem as ordens do rei puderam segurá-lo de partir para a busca.  Montou em seu cavalo e foi com os cães encantados para a mata, onde aconteceu com ele a mesma coisa que havia acontecido com Canneloro; e entrando na caverna, viu a arma, os cães do irmão e o cavalo, compreendendo que aquilo era a armadilha. Logo a corça apareceu e falou-lhe da mesma maneira para desarmar seus braços, cães e cavalos; Fronzo, ao contrário, atiçou os cães para cima dela e eles fizeram-na em pedaços. Foi então que ouviu uma voz baixa vindo do poço e levantando a pedra que o tampava de lá tirou Canneloro, junto com todas as outras pessoas que o ogro havia encarcerado vivas para engordar.

            Em seguida os irmãos gêmeos voltaram para o palácio. Fenícia vendo-os tão parecidos, não sabia qual era seu marido, até que Canneloro tirou o boné e ela viu a marca da velha ferida e o reconheceu. Fonzo ficou lá um mês, e depois voltou para a sua terra, e Canneloro escreveu para a mãe, pedindo-lhe para colocar de lado a inimizade e ir visitá-lo e participar de sua grandeza, o que ela fez.  A partir daquele momento, ele nunca mais quis saber de caça, relembrando o ditado:

 "Infeliz é aquele que se corrige só a seu próprio custo."

 

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Uma história em que temos presente uma gravidez sob o signo do dragão do mar, um pequeno animal cujo macho cuida dos ovos, pois não sendo assim a mãe os devoraria. Da gravidez nasce um casal de gêmeos, e o amor incestuoso da rainha pelo filho mais velho e sucessor do rei, leva-a à tentativa de infanticídio do mais novo.

Como nas melhores fábulas esta agrupa metamorfoses dos seres mais selvagens como o ogro; a sexualidade da corça que impressiona os menos avisados levando-os à perda; o ramo murcho de murta simbolizando Vênus, que é a sexualidade enfraquecida de Canneloro, atirado ao porão da engorda, após ser seduzido pela corça. De qualquer forma, o elo de amor entre os dois irmãos dá o tom moralista da história, sublinhando o enorme valor da verdadeira amizade.

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