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“O Conto dos Contos”

Capítulo 7 - Conto Décimo: “A Salsa”.

Esta é uma das histórias que a boa alma da avó de meu tio, a quem o céu levou para a sua glória, costumava contar; e, a menos que eu tenha colocado meus óculos de cabeça para baixo, imagino que vai lhes dar prazer.

 

            Havia certa vez uma mulher chamada Pascadozzia. Um dia estando junto à janela de sua casa, que dava para o jardim de uma ogra, viu uma linda plantação de salsas e ela quase desmaiou de desejo de comer algumas. Então, quando a ogra saiu, não conseguiu conter-se por mais tempo, pulou o muro e arrancou um punhado delas. 

            Quando a ogra voltou e foi cozinhar seu guisado descobriu que alguém tinha roubado a salsa e disse: "Que má sorte a minha, mas vou pegar esse malandro de dedos longos e fazê-lo arrepender-se e ensiná-lo o custo que se deve ter por comer fora do próprio prato e a não se meter com o dos outros."

            Pascadozzia ainda foi uma e outra vez até o pomar, até que numa manhã a ogra a encontrou e com uma raiva furiosa, exclamou: "Eu acabo de pegar um ladrão. É você que paga o aluguel do jardim para vir roubar minhas plantas? Vou fazer você se penitenciar sem ir a Roma ".

            Pobre Pascadozzia, depois do susto terrível começou a dar desculpas dizendo que a culpa era da gula, que o desejo de sua fome era uma tentação do diabo, que tinha medo de que o filho que iria nascer teria a imagem da salsa sobre a face. "As palavras são como o vento, respondeu a ogra, pode ir fechando o balanço da sua vida a não ser que me prometa dar-me a criança, menino ou menina, depois que nascer.”

            A pobre mulher, a fim de escapar do perigo em que se encontrava, jurou, com uma mão sobre a outra, cumprir a promessa e assim a ogra deixou-a livre.

Quando o bebê nasceu, era uma menina tão linda, uma alegria de se ver e a mãe deu-lhe o nome de Salsa. A menina cresceu dia após dia, até que, quando tinha sete anos de idade a mãe mandou-a à escola. Caminhando pela rua a menina encontrou a ogra e a velha lhe disse: "Diga para a sua mãe se lembrar do prometido." 

            E ela continuou repetindo essa mensagem tanto e tanto que a pobre mãe não tendo mais paciência de ouvir o refrão, disse um dia a Salsa: "Se você encontrar a velha e, como de costume, ela lembrar a promessa, responda-lhe: 'leve-a’. "

            Quando Salsa encontrou-se com a ogra de novo e ao ouvi-la repetir as palavras de sempre, respondeu inocentemente o que sua mãe tinha dito. A ogra agarrando-a pelos cabelos levou-a até um bosque onde os cavalos do sol nunca entraram sem terem antes pagado pedágio às sombras. Então ela colocou a pobre moça em uma torre que não tinha nem porta e nem escada, mas apenas uma pequena janela através da qual ela subia e descia, usando os cabelos de Salsa que eram muito compridos e fortes, assim como marinheiros sobem e descem por cordas dos mastros de um navio.

            Ora aconteceu que um dia, quando a ogra havia deixado a torre e Salsa colocou a cabeça para fora da pequena janela, soltando seus cabelos ao sol, que o filho de um rei ia passando e viu aqueles fios de ouro tão belos. Qual foi a surpresa ao enchergar no meio daquelas ondas brilhantes um rosto que encantava a todos os corações. Então, ele se apaixonou  enviando seus suspiros, e Salsa os recebeu com gosto. A moça aproveitou a oportunidade e contou-lhe seus problemas, implorando que a resgatasse. 

            Mas foram contar o caso para a ogra, pois sempre existem curiosos para as coisas que não lhes dizem respeito; disseram à mulher má para que estivesse atenta, pois Salsa tinha sido visto conversando com determinado jovem.   A ogra agradeceu às  fofoqueiras pela informação e disse que iria cuidar bem de seu quintal, também falou como era impossível que Salsa fugisse, visto haver colocado um feitiço de modo que, a menos que a moça tivesse na mão três nozes, que estavam no alto de uma viga na cozinha, ela seria incapaz de sair do lugar.

            Enquanto elas estavam conversando, Salsa que mantinha os ouvidos bem abertos ouviu toda a conversa.  E quando a noite tinha se espalhado com suas roupas pretas e o príncipe chegado como eles haviam combinado, ela deixou deixar cair seus cabelos. Ele agarrou-os com as duas mãos e gritou: "Levantar"! Quando ele subiu, ela o fez primeiro ir até ao teto e encontrar as nozes do feitiço. Fizeram uma escada de corda e os dois desceram para o chão, e saíram correndo em direção à cidade. 

            As fofoqueiras que estavam passando, vendo-os sair começaram a gritar e fizeram tanto barulho que a ogra acordou, e, vendo que Salsa havia fugido, desceu pela mesma escada que ainda estava presa à janela, e seguiu o casal em saltos mais rápidos que um cavalo solto.

            Salsa lembrando as nozes do feitiço, rapidamente jogou uma na terra, e eis que, de imediato, um bulldog surgiu. Uma besta tão terrível, que, com a boca aberta e latindo alto, voou na ogra como se fosse engoli-la em um bocado. Mas a velha, que era mais astuta e vingativa, colocou a mão no bolso e tirando um pedaço de pão deu-o para o cão, acalmando sua fúria.

            Então ela voltou a correr atrás dos fugitivos, mas Salsa vendo-a jogou a segunda noz ao chão, e eis que um leão feroz surgiu, sacudindo a crina e a abrindo a boca selvagem em mais de um metro, preparando-se para matar a ogra; foi quando ela arrancou a pele de um burro que pastava no meio de um prado e correu para o leão, que imaginando que fosse um burro de verdade, saltou assustado e fugiu tão rápido quanto podia.

            A ogra voltou a perseguir os pobres amantes; ouvindo o barulho de seus saltos, e vendo as nuvens de poeira que subiam até o céu, eles sabiam que ela estava chegando. Mas a velha mulher, que ainda estava com medo do leão, não tinha tirado a pele do burro, e quando Salsa lançou a terceira noz, brotou um lobo que, sem dar o tempo de a ogra utilizar qualquer truque novo, devorou-a enquanto ela tinha a forma de asno.

            Então, a Salsa e o príncipe, agora livres do perigo, caminharam até o reino deste, onde com consentimento do pai eles se casaram.  Assim, depois de todas essas tempestades do destino, eles conheceram a verdade que:

            "Uma hora no porto, o marinheiro livre de perigos, esquece as tempestades de cem anos ".

 

Comentários

A Salsa de Basile é a fábula precursora de versões que a transformaram em um dos mais populares contos para “os pequenos”. Charlotte-Rose de Caumont de La Force realizou uma primeira adaptação do conto, sob o nome de “Persinette”, em 1698. Seguiu-se outra versão, publicadas por Friedrich Schultz (1762-1798) em sua “Kleine Romane”, em 1790.

Posteriormente, a Salsa de Basile ganhou o nome de Rapunzel, mas manteve o seu significado lingüístico. Em alemão, “rapunzel” significa "salada do campo", "salada de milho", ou "a alface-de-cordeiro".

 A história dos Irmãos Grimm, “Rapunzel”, é uma adaptação do conto de fadas escrito por Charlotte. Esta foi publicada pela primeira vez em 1812 e modificada por Wilhelm Grimm em 1857, quando Rapunzel como princesa toma sua configuração atual e é compilada no livro “Contos para a infância e para o lar”.

Os cabelos de Salsa são frutos da vontade pela qual passara sua mãe, Pascadozzia na gravidez, como era crença até algumas décadas atrás. Pascadozzia, derivado do termo popular “pascazzio”, que significa tonto, uma pessoa pouco esperta que se dispõe a desafiar uma ogra, a mulher selvagem, por um capricho alimentar.

Conto Décimo Primeiro: "As três irmãs"

Uma verdade é que da mesma madeira são esculpidas as estátuas dos ídolos e as vigas de forca, os tronos e os acentos dos sapateiros; e a partir dos mesmos tecidos são feitos o papel em que a sabedoria dos sábios ficará gravada e o pano em forma de coroa, colocado na cabeça de um tolo.

O mesmo também pode ser dito de crianças embora tudo o que pertencesse a uma mesma família deveria ter a igual natureza: uma filha é boa e outra ruim; uma ociosa, outra uma boa dona de casa; uma feia, outra linda; um rancoroso, outro cordato; um infeliz, outro nasce para a boa sorte.  Mas, deixando esse assunto para aqueles que sabem mais sobre isso, eu simplesmente lhes darei o exemplo da história das três filhas da mesma mãe, onde vocês verão a diferença de costumes que levou as perversas para uma vala, e a boa para o topo da roda da fortuna.

 

            Era uma vez uma mulher que tinha três filhas, duas das quais eram tão azaradas que nada de bom lhes acontecia, todos seus projetos davam errado e as esperanças se tornavam palha. Mas a mais nova, Nella, nascera com a boa sorte, e no seu nascimento todas as coisas conspiraram para conceder-lhe os melhores e mais escolhidos dons. O Céu deu-lhe a perfeição da sua luz; Venus, a beleza incomparável da forma; Eros, o poder de seu dardo; a Natureza, pétalas da flor. Nella nunca realizava qualquer trabalho que não saísse à perfeição; nunca teve nada na mão que não tivesse êxito, jamais se levantou para dançar sem ser aplaudida.

            Logo passou a ser invejada pelas irmãs e ela, mesmo não sendo amada, desejava boa sorte para as outras.

Ora, havia no país um príncipe encantado que estava tão atraído por sua beleza que se casou secretamente com ela.  E, a fim de que pudessem desfrutar um do outro sem excitar a suspeita da mãe, que era uma mulher má, o príncipe fez uma passagem de cristal que levava do palácio real diretamente ao quarto de Nella, a umas oito milhas de distância. O príncipe deu à amada certo pó, dizendo: "Toda vez que você desejar ver-me jogue um pouco deste pó no fogo e virei através desta passagem, tão rápido como um pássaro, correndo pela estrada de cristal para contemplar essa face de prata." 

            Tendo-se arranjado assim, não passava uma noite sem que o príncipe não entrasse e saísse através da passagem de cristal. Isso foi se passando até que as irmãs, estando espionando as ações de Nella, descobriram seu segredo e traçaram um plano para pôr fim à brincadeira. Elas quebraram a passagem aqui e ali, de modo que, quando a menina infeliz jogou o pó no fogo dando o sinal ao príncipe, ele se machucou de tal maneira com o cristal quebrado que era algo lamentável de se ver. E, incapaz de seguir adiante, retornou ao palácio de seu pai todo cortado.

            Então vieram examiná-lo todos os médicos da cidade, mas como o cristal era encantado as feridas eram mortais, e nenhum remédio humano poderia ser aproveitado. O rei, desesperado pela condição do filho, fez uma proclamação de que quem curasse as feridas do mesmo se fosse mulher, ela o teria por marido, se homem, teria a metade de seu reino.

            Quando Nella, que definhava pela perda do príncipe ouviu isso, tingiu o rosto, disfarçou-se, e sem o conhecimento de suas irmãs, saiu de casa para vê-lo antes que morresse. Mas como a essa altura a bola dourada do sol com a qual se joga nos campos do Céu corria em direção ao oeste, a noite ultrapassou-a em um bosque perto da casa de um ogro, onde a fim de se livrar do perigo, ela subiu em uma árvore.

O ogro e sua esposa estavam sentados à mesa com as janelas abertas a fim de desfrutar o ar fresco enquanto comiam; assim que eles esvaziaram seus copos e apagaram as lâmpadas, começaram a conversar de uma coisa e outra, de modo que Nella, estando próxima, ouviu cada palavra falada.

            Entre outras coisas: "Minha linda Hide, me diga quais são as novidades, o que é dizem no mundo lá de fora?" E ela respondeu: "Confie em mim que não há nada de bom, tudo vai às avessas e errado."  "Mas por que isso?" indagou o ogro à mulher.

            "Eu poderia contar belas histórias sobre a confusão que está acontecendo", respondeu a ogra, “ouvem-se coisas que são de louco, como palhaços que são recompensados ​​com presentes, idiotas estimados, covardes e ladrões honrados que são protegidos e homens honestos de quem se pensa mal. Mas vou falar sobre a desgraça que se abateu sobre o filho do rei, ele que tinha feito um caminho de cristal para visitar uma moça bonita, mas que de uma maneira ou outra, eu não sei como, o caminho foi quebrado,  e ele que estava indo ao longo da passagem feriu-se de tal modo que antes que se possa parar o vazamento do sangue, sua vida vai acabar.  O rei emitiu uma proclamação com grandes promessas para quem curasse seu filho; mas tudo é trabalho perdido, e o melhor que ele pode fazer é rapidamente decretar o luto e preparar o funeral”.

            Quando Nella ouviu a causa da doença do príncipe, ela chorou e chorou amargamente e disse para si mesma: "Quem foi a alma perversa que quebrou a passagem e causou tanta tristeza?"  Mas, como a ogra voltasse a falar, Nella, como um rato, a escutou quieta. "E é possível", disse a ogra, "que o mundo esteja perdido para esse pobre príncipe e que nenhum remédio possa ser encontrado para a doença?"

            "Ouça-me, vovó", respondeu o ogro, "os médicos não encontram soluções que possam ultrapassar os limites da natureza. Essa não é uma enfermidade que se vá render à medicina e à dieta, pois não são as feridas comuns que exigem fiapos e azeite, porque o encanto que estava no vidro quebrado produz o mesmo efeito que faz suco de cebola nas cabeças de ferro de setas, o que torna a ferida incurável. Há apenas uma coisa que poderia salvar a vida, mas não o sabem. "

            "Não me diga, querido!" gritou a ogra; "diga-me, morro de curiosidade." Disse-lhe o ogro: "Eu falo desde que você me prometa não fazer confidências para qualquer alma viva, pois seria a ruína de nossa casa e a destruição de nossas vidas."

            "Você poderá ver suínos com chifres, macacos com caudas, minhocas com olhos, antes que uma única palavra passe por meus lábios." respondeu a ogra; e assim dizendo, ela colocou uma mão sobre a outra e jurou-lhe. "Saiba então", disse o ogro, "que não há nada sob o céu, nem acima do solo que possa salvar o príncipe dos laços da morte, apenas a nossa gordura. Se suas feridas são ungidas com ela, a alma do príncipe seguirá presa na habitação do corpo".

            Nella, que ouvira tudo, deu tempo ao tempo para deixá-los terminar o bate-papo; em seguida desceu da árvore e tendo coragem bateu na porta do ogro gritando: "Ah! meus bons mestres, peço por caridade uma esmola, algum sinal de compaixão. Tenham um pouco de piedade por uma pobre, miserável, infeliz criatura que é banida pelo destino para longe de seu canto e privada de toda a ajuda humana, que está morrendo de frio e de fome ". E chorando, assim, ela continuou batendo e batendo na porta.

            Ao ouvir o barulho, a ogra ia jogar-lhe metade de um pão e mandá-la embora.  Mas o ogro, que era mais ganancioso por carne que esquilo por nozes, urso por mel,  gato por peixes, ovelhas pelo sal, disse a sua esposa: "Deixe a pobre criatura entrar, pois se ela dormir nos campos, quem sabe, poderá ser comida por algum lobo". Em suma, ele falou tanto que sua esposa abriu a porta para Nella que enquanto fingia buscar caridade, estava em contagem de tempo em fazer quatro bocados dela.

            O ogro e sua esposa beberam até que ficaram bastante embriagados. Quando se deitaram para dormir, Nella pegou uma faca de um armário e matou-os.  Então ela tirou-lhes a gordura e colocou-a toda em um frasco e seguiu direto para a capital, onde se apresentando perante o rei ofereceu-se para curar o príncipe.  O rei ficou muito feliz e levou-a para a câmara de seu filho, e antes que anoitecesse a gordura havia fechado a ferida, como se fosse água sobre o fogo.

            O rei, vendo o ocorrido, disse ao filho: "Esta boa mulher merece a recompensa prometida pela proclamação e você deve se casar com ela."

            Mas o príncipe respondeu: "É impossível, pois não tenho uma dispensa cheia de corações em meu corpo e o meu já está com outra mulher, é o amante dela." Nella, ouvindo-o, respondeu: "Você não deve mais pensar naquela que foi a causa de toda a sua desgraça."

            “Minha desgraça foi trazida pelas irmãs dela”, respondeu o príncipe. " Então você realmente a ama? ", perguntou Nella. Ao que o príncipe respondeu: “Mais que a minha própria vida."

            " Abrace-me, então ", disse Nella, “porque eu sou o fogo do vosso coração". Mas o príncipe não a reconhecia: "Eu prefiro estar num caixão”. Diante disso, Nella pediu uma bacia de água limpa e lavou o rosto. Assim que a nuvem de fuligem foi removida e o sol brilhou, o príncipe a reconhecendo apertou-a contra o coração e ela foi sua esposa. Então ele mandou que suas irmãs fossem jogadas em um forno, provando assim a verdade do velho ditado:

"Nenhum mal passou sem punição."

 

Comentários

Esse conto constitui um dos mais complexos e abrangentes “de li cunti”. Questões de extrema relevância na formação dos jovens do século XVII que são atemporais e encontram-se inseridas numa narrativa preciosa:

  1. O ambiente e as relações familiares atuando na formação da personalidade das crianças e dos adolescentes. De uma forma ou de outra, o filho mais novo quase sempre é protegido quer pela sorte, quer pelas relações familiares, sendo, tal como no caso bíblico de José e seus irmãos, alvo da irritação dos mais velhos.

  2. O acaso, a fortuna que sorri para uns também cria a inveja em outros. E a inveja possui o potencial de arrastar seus sujeitos cada vez mais para o infortúnio.

  3. A “boa” criatura Nella não vacila em assassinar friamente seres mais selvagens que ela própria, como é o caso dos dois ogros que de malfeitores tornam-se vítimas e protagonistas da salvação do amante da boa moça.

  4. A crítica social de Basile é expressa pela Ogra ao referir-se “aos palhaços que são recompensados ​​com presentes, idiotas estimados, covardes e ladrões honrados que são protegidos e homens honestos”.

  5. O elo entre os amantes que vence todos os obstáculos é possível somente entre aqueles que por um lado são abençoados por Vênus, e por outro, alcançados pelas compridas flechas do cupido.

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