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“O Conto dos Contos”

Capítulo 8 - Conto Décimo Segundo: “Violeta”.

A inveja é um vento que sopra com tal violência que lança para baixo os adereços da reputação de bons homens, e joga ao nível do solo as conquistas da boa sorte.  Mas, muitas vezes, como um castigo do céu, quando a explosão invejosa parece que atiraria uma pessoa ao chão, esta o auxilia. E traz a felicidade mais cedo que se esperava, como vocês ouvirão na história que passo a contar.

 

            Era uma vez um bom tipo chamado Cola Aniello, que tinha três filhas: Gerânio, Rosa e Violeta, a última das quais tão bonita que seu olhar era o xarope do amor a curar os corações de toda a infelicidade.

            O filho do rei estava em chamas por ela, e quando passou pela pequena casa de campo onde as três irmãs se sentavam ao trabalho, ele tirou o boné e disse: "Bom dia, bom-dia, Violeta," e ela respondeu: "Bom dia, filho do rei! Eu sei mais do que você." Ao ouvir essas palavras as irmãs resmungaram e murmuraram: "Você é uma

criatura mal-educada e fará com que o príncipe fique com raiva." Mas, como Violeta não prestava atenção ao que elas diziam, fizeram uma queixa rancorosa ao pai, dizendo-lhe que ela era muito ousada, que respondera ao príncipe sem qualquer respeito, como se estivesse na mesma altura dele; e que, um dia ou outro, ela iria ficar em apuros e sofrer a punição pela falta.

            Cola Aniello, que era um homem prudente, a fim de evitar qualquer dano, mandou Violeta ficar com uma tia. O príncipe quando passou pela casa como de costume não mais vendo o objeto de seu amor, ficou por alguns dias como um rouxinol que perdeu seus passarinhos longe do ninho, e vai de galho em galho chorando e lamentando a perda.

No entanto, ele colocou o ouvido tantas vezes nas fendas das paredes que, finalmente, descobriu onde Violeta vivia. Foi, então, até a casa da tia e disse-lhe: "Senhora, você sabe quem sou, e que poder eu tenho, por isso cá entre nós, faça-me um favor e depois peça o que quiser."

"Se eu puder fazer alguma coisa para atendê-lo", respondeu a velha, "estou inteiramente a seu dispor." "Não peço nada de vocês", disse o príncipe, "mas deixe-me dar um beijo em Violeta."

            "Se isso é tudo", respondeu a velha, "vá e se esconda no andar de baixo, no quarto do jardim, e vou inventar um pretexto ou outro para que Violeta vá até você ". O príncipe foi para o quarto sem perda de tempo e a velha, fingindo que queria cortar um pedaço de pano, disse à sobrinha, "Violeta, se você me ama, vá até em baixo e traga-me um quintal medido." 

            Então Violeta fez o que sua tia lhe tinha ordenado, mas quando chegou ao quarto percebeu a emboscada, pegou o quintal de pano e saiu tão agilmente quanto um gato, deixando o príncipe com o nariz vermelho de pura vergonha e cheio de aflição.  Quando a velha viu Violeta voltar tão rápida, suspeitou que o truque não houvesse funcionado;  assim, ela disse para a menina: "Vá lá embaixo, sobrinha, e traga-me o novelo de linha que está na prateleira de cima do armário." 

            Então Violeta correu e pegando o fio escorregou como uma enguia das mãos do Príncipe.  Depois de algum tempo a velha disse novamente, "Violeta, minha querida, se você não descer e buscar-me a tesoura, eu não posso fazer o trabalho."

            Então Violeta desceu novamente e saltou tão vigorosamente como um cão para fora da armadilha; quando voltou com a tesoura, cortou uma das orelhas da tia, dizendo: "Tome isso, minha senhora, como recompensa para suas dores, pois toda ação merece uma reação. Se eu não corto seu nariz é para que sinta o mau cheiro da sua reputação".

            Assim dizendo ela fez o caminho de volta para casa do pai, saltando e pulando, deixando a tia só com uma orelha e o príncipe cheio de solidão. Pouco tempo depois, o príncipe passou novamente pela casa do pai de Violeta e vendo-a na janela onde ela costumava ficar, começou sua velha canção: "Bom dia, bom dia, Violeta!"  Ao que ela respondeu rapidamente, "Bom dia, filho do rei! Eu sei mais do que você." 

            As irmãs de Violeta não podiam suportar mais aquele comportamento e planejaram em como se livrar dela. Como uma das janelas da casa dava para o jardim de um ogro, elas quiseram que a pobre moça fosse até ele; e deixando cair no jardim um novelo do fio com o qual estavam trabalhando para a cortina da porta da rainha, exclamaram: "Ai de nós! Infelizmente estamos em ruínas e não seremos capazes de terminar o trabalho a tempo se Violeta, que é a menor e mais leve, não descer por uma corda e pegar o novelo que caiu."

            Violeta não podia suportar ver suas irmãs sofrendo, e aceitou o encargo; assim, amarrando-a numa corda, baixaram-na para o jardim.  E assim que ela chegou ao chão, cortaram a corda. Aconteceu que nesse momento o ogro saiu para olhar o jardim, e apanhando frio da umidade do solo, deu um espirro tão tremendo, como o barulho de uma explosão, que Violeta gritou de terror, " Oh, mãe, me ajude!"  O ogro olhou em volta e vendo a bela donzela atrás dele, recebeu-a com o maior cuidado e carinho, tratou-a como uma filha e colocou-a sob o encargo de três fadas, pedindo-lhes que cuidassem da moça.

            O príncipe, já não vendo Violeta e sem saber de notícias, caiu em tal dor que seus olhos ficaram inchados, seu rosto ficou pálido como cinza, os lábios lívidos; e ele não comeu um pedaço de carne, nem dormiu ou pestanejou.  Tentou todos os meios possíveis e ofereceu grandes recompensas e ele mesmo andou espiando e perguntando por todos os cantos, até que, finalmente, descobriu onde Violeta estava. Então foi até o ogro e disse-lhe que, encontrando-se doente, implorava permissão para passar um único dia e noite em seu jardim, acrescentando que uma pequena câmara seria suficiente para repousar. Como o ogro negociava com o pai do príncipe, não podia recusar-lhe o prazer insignificante. Ofereceu-lhe todos os quartos de sua casa e se não fosse o suficiente, a própria vida. 

            O príncipe agradeceu e escolheu um quarto, que por sorte ficava perto do de Violeta; e assim que a noite saiu para brincar com as estrelas, o príncipe achando que Violeta tinha deixado a porta aberta por ser verão e o lugar seguro, entrou suavemente em seu quarto, e tomando o braço de Violeta deu-lhe dois beliscões. 

            Esta acordou e exclamou: "Ah, pai, o que é que é? Serão pulgas?" Então foi para outra cama e o príncipe fez o mesmo novamente e ela gritou como antes. Violeta  mudou primeiramente o colchão e depois o lençol, e assim a brincadeira durou a noite inteira, até o amanhecer trazer a notícia de que o sol estava vivo e que o luto pendurado em volta do céu fora removido.

            Ao amanhecer, o príncipe tornou a passar por aquela casa e vendo a moça à porta disse como costumava fazer: "Bom dia, bom dia, Violeta!"  e quando Violeta respondeu: "Bom dia,  filho do rei! Eu sei mais do que você!"  o príncipe respondeu: "Ah, principalmente sobre pulgas!"

            Violeta adivinhou de imediato que o príncipe tinha sido a causa de sua irritação na noite passada e ela correu contar para as fadas. "Se é ele", disseram as fadas, em breve vamos dar-lhe o troco, olho por olho. Apenas peça para o ogro um par de chinelos cobertos com pequenos sinos, e deixa o resto para nós. Vamos pagar-lhe em boa moeda. "   Violeta, que estava ansiosa para se vingar, pediu ao ogro para fazer-lhe os chinelos; esperando ficar como uma mulher genovesa, envolveu em tafetá preto o rosto e foram todas juntas até a casa do Príncipe, onde as fadas e Violeta se esconderam na câmara.

 Assim que o Príncipe fechou os olhos, as fadas fizeram um grande barulho e Violeta começou a bater com os pés a um ritmo tal que com o barulho de seus saltos e o tilintar dos sinos, o príncipe despertou em grande terror e gritou: "Oh, mãe, mãe, ajuda-me! " E depois de repetir isso duas ou três vezes, elas fugiram da casa.

Na manhã seguinte, o príncipe foi dar um passeio pelo jardim.  E, vendo Violeta de pé à porta, ele disse: "Bom dia, bom dia, Violeta!" E respondeu Violeta, "Bom dia, filho do rei! Eu sei mais do que você!" Então o príncipe disse: "Oh, principalmente sobre pulgas!" Violeta respondeu: "Ah, mãe, mãe,  ajuda-me!"

            Quando o príncipe ouviu isso, ele disse que a Violeta, "Você venceu - o seu raciocínio é melhor que o meu, eu me rendo. Conquistou-me e agora que eu sei que realmente você sabe mais que eu, vamos nos casar sem mais delongas."

            Então, ele chamou o ogro e pediu-a para sua esposa; mas o ogro disse que não era o caso, pois ele havia sabido naquela mesma manhã que Violeta era filha de Cola Aniello.  Assim, o príncipe ordenou que seu pai fosse chamado e falou-lhe sobre a sorte de sua filha; após o que a festa de casamento foi celebrada com muita alegria, e a verdade do ditado confirmou-se:

 "A donzela delicada consegue se casar."

 

Comentários

Os ogros, como criaturas selvagens com já vimos, surgiram pela primeira vez no conto fantástico pela pena de Basile. Nessa fábula, ao se aproximarem dos seres civilizados, o ogro também perde em selvageria e crueldade, tornando-se um ser benigno e acolhedor.

Violeta, a última das flores do jardim de Cola Aniello, representa a cor fria e associada à noite. Ela desde o princípio da história sabia que se quisesse conquistar definitivamente o príncipe deveria desafiá-lo, uma forma de lhe chamar a atenção, tornando-se difícil.

A inveja sempre ou quase sempre presente nos contos aqui se representa, mas com todos seus truques, mostra-se infrutífera. Ela é sempre retribuída com doçura por parte de Violeta.

E ao final, Violeta prova ao príncipe que ela realmente era mais sábia que ele na questão da conquista amorosa.

Conto Décimo Terceiro: “Pippo”.

A ingratidão é um prego que martelado na árvore de cortesia faz com que ela murche.  É um cano quebrado pelo qual os fundamentos do afeto escorrem; um pedaço de fuligem, que caindo no prato da amizade, destrói seu aroma e sabor. Como é visto em exemplos diários e na história que passo a contar.

 

            Tempos atrás, em minha querida cidade de Nápoles, havia um velho homem que era tão pobre quanto só um verdadeiro pobre pode ser.  Tão miserável, tão nu, tão pronto e sem um centavo no bolso, quanto uma pulga. E estando prestes a bater as botas ele chamou seus filhos, Oratiello e Pippo, e disse-lhes: "Eu estou sendo chamado para pagar a dívida que tenho para com a Natureza. Acreditem-me que eu deveria sentir grande prazer em deixar essa morada de miséria, este antro de desgraças, mas infelizmente deixo atrás de mim um par de filhos miseráveis, sem um ponto para apoiar as costas, tão limpos quanto uma bacia de barbeiro, secos como uma ameixa seca, com tanto quanto uma mosca pode carregar em cima do pé. A má sorte, de fato, levou-me a tal penúria que tenho a vida de um cão, fico boquiaberto de fome e vou para a cama sem uma vela. Entanto, agora que estou para morrer, gostaria de deixar-lhes alguma lembrança de meu amor”.

            “Você, Oratiello, meu primogênito, pegue a peneira que pende ali na parede, com a qual você pode ganhar o seu pão; e você, Pippo, leva o gato e lembre-se do seu pai." Assim dizendo, ele começou a choramingar, e logo depois disse: "Deus esteja com vocês - pois é noite."

            Oratiello conseguiu que seu pai fosse enterrado por caridade; depois levou a peneira e foi para qualquer lugar tentar ganhar seu sustento; e quanto mais ele tentou, mais ganhou.

            Pippo, tendo o gato, disse: "Só agora vejo o que é o legado que meu pai me deixou. Não sou capaz nem de me sustentar, devo agora fornecer comida para dois. Quem viu tão miserável herança?" O gato, que ouviu a lamentação, disse-lhe: "Você está sofrendo sem necessidade e tem mais sorte que juízo. Pouco sabe sobre a sua sorte oculta. Se eu desejar, sou capaz de torná-lo rico."

            Quando Pippo ouviu isso, agradeceu ao gato, acariciou-o três ou quatro vezes nas costas, e assim o gato teve compaixão pelo pobre Pippo. Na manhã seguinte, quando o sol com a de luz espantou a sombra da noite, o gato foi para a praia e pegou uma tainha considerável e, pondo-se a caminho do palácio levou-a para o rei e disse: “Meu senhor Pippo, o mais humilde servo de Vossa Majestade, envia-lhe esse peixe com toda a reverência, e complementou,“um pequeno presente para um grande senhor”. Então o rei, com o rosto alegre como se costuma mostrar aos que trazem um presente, respondeu ao gato: "Diga a esse senhor que não o conheço, mas lhe agradeço de coração."

            Numa outra vez, o gato correu para os campos e quando os passarinheiros tinham derrubado um melro, pegou-o e levou-o ao rei com a mesma mensagem.  E repetiu este truque de novo e de novo, até que numa manhã o rei lhe disse: "Eu me sinto infinitamente grato a esse senhor Pippo e estou desejoso de conhecê-lo para agradecer-lhe a atenção que me tem demonstrado." 

            E o gato respondeu: "O desejo do meu senhor Pippo é dar a vida pela coroa de Vossa Majestade, e amanhã de manhã, sem falta, assim que o sol colocar fogo na palha dos campos, ele virá e apresentará os seus respeitos." Quando chegou a manhã, o gato foi só até o rei, e disse: "Senhor, meu senhor Pippo envia-me para desculpar-se por não ter vindo, pois ontem à noite alguns de seus servos lhe roubaram e fugiram, não deixando uma única camisa para suas costas ". 

            Quando o rei ouviu isso, imediatamente ordenou aos servos para tirar de seu próprio guarda-roupa uma quantidade de roupas e lençóis e enviou-os para Pippo. Depois de duas horas, Pippo foi ao palácio conduzido pelo gato, onde recebeu mil elogios do rei, que o fez sentar-se e ofereceu um banquete de surpresa.         Enquanto comiam, Pippo de vez em quando se virava para o gato e dizia-lhe: "Meu gato, toma cuidado para que os trapos não nos escorreguem por entre os dedos."

Em seguida, o gato respondeu: "Fique quieto, fique quieto; não fale dessas coisas desprezíveis." Ao rei, que desejava saber o assunto de sua conversa, o gato respondeu que Pippo tinha desejo de um pequeno limão; o rei mandou imediatamente do jardim trazerem um cesto.  Mas Pippo voltou à mesma melodia sobre velhos casacos e camisas, e mais uma vez o gato disse a ele para segurar a língua.  Então o rei mais uma vez perguntou qual era o problema e o gato inventou outra desculpa para reparar a grosseria de Pippo.

            Por fim eles comeram e conversaram por mais algum tempo sobre uma coisa e outra. Pippo despediu-se e o gato ficou com o Rei, a quem descreveu o valor, a sabedoria, e a inteligência de Pippo; e acima de tudo, a grande riqueza que ele tinha nas planícies de Roma e na Lombardia, que bem lhe conferiam o direito de se casar na família de um rei coroado. 

            Então o rei perguntou qual seria a sua fortuna e o gato respondeu que ninguém poderia contar os bens móveis, luminárias e mobiliário doméstico, sendo ele um homem tão rico, que nem sequer sabia o que possuía. Se o rei quisesse ficar mais bem informado, teria apenas que enviar mensageiros com o gato, e ele iria provar-lhe que não havia nenhuma riqueza no mundo igual a de Pippo.

            Então o rei chamou algumas pessoas de confiança e ordenou-lhes que o informassem minuciosamente sobre a verdade; para isso eles seguiriam os passos do gato, que, logo após atravessar a fronteira do reino, ia à frente do grupo sob o pretexto de fornecer-lhes bebidas na estrada. O gato, sempre que encontrava um rebanho de ovelhas ou de vacas, uma tropa de cavalos, ou uma  vara de porcos, ele dizia para os pastores e criadores: "Oh! Tenham cuidado! Uma tropa de ladrões está chegando para levar tudo de vocês. Se quiserem escapar da sua fúria e terem as coisas respeitadas, digam que todos os bens  pertencem ao Senhor Pippo, e nenhum cabelo será tocado. "

            Ele disse o mesmo em todas as casas, de modo que sempre que as pessoas do rei chegavam encontravam o tubo afinado; tudo o que achavam era-lhes dito que pertenciam ao Senhor Pippo. Por fim eles se cansaram e voltaram para o rei dizendo sobre as montanhas das riquezas do senhor Pippo. O rei ao ouvir o relato prometeu ao gato uma boa bebida se ele conseguisse fazer seu jogo; e o gato, finalmente, concluiu o casamento de Pippo com a filha do rei.

            Após um mês de festividades, Pippo quis levar sua noiva para suas propriedades, de modo que o rei acompanhou-os até as fronteiras; e ele passou à Lombardia, onde, por conselho do gato, comprou uma grande propriedade e tornou-se um barão. Pippo, vendo-se agora rico, agradeceu o gato mais do que palavras podem expressar, dizendo que ele devia sua vida e sua grandeza a seus bons ofícios; e que a ingenuidade de um gato tinha feito mais por si que a sagacidade de seu pai.  Portanto, disse ele, poderia dispor de sua vida e de sua propriedade como quisesse; e deu-lhe sua palavra de que, quando morresse, oraria que tal não ocorresse antes de cem anos, ele o embalsamaria e o colocaria em um caixão dourado em seu próprio quarto, para que pudesse manter sua lembrança sempre ante os olhos.

            O gato ouviu essas profissões de fé; e antes dos três dias, fingiu estar morto e estendeu-se ao comprido no jardim.  Quando a esposa de Pippo o viu, ela exclamou: "Oh, marido, que infortúnio triste! O gato está morto!"

            "Que o diabo o carregue!" disse Pippo. “Antes ele que nós!” "O que vamos fazer com ele?" respondeu a mulher. "Pegue-o pela perna", disse ele, "e joga-o para fora da janela!"

            O gato que ouvira a sua recompensa muito bem, quando menos se esperava começou a dizer: "É este o presente por eu tê-lo tirado da mendicância? São estes os agradecimentos que recebo por libertá-lo de seus trapos? É esta a recompensa por ter colocado boas roupas em suas costas quando você era pobre, faminto, miserável, maltrapilho, descalço? Mas esse é o destino de quem lava a cabeça de um burro! Vá! Maldigo tudo o que tenho feito por você! Um caixão de ouro fino que tinha preparado para mim! O funeral que você ia me dar! Vá, agora! Infeliz é aquele que faz uma boa ação na esperança de retorno. Bem é que foi dito pelo filósofo, aquele que se deita com asno, burro desperta. Você fez como a maioria das pessoas com suaves palavras e más ações, daquelas que enganam igualmente os tolos e sábios”.

            Assim dizendo, decidiu partiu para sempre. Tudo o que Pippo, com a maior humildade, poderia fazer para acalmá-lo de nada valeu. Ele correu sem parar, e nunca virar a cabeça, dizendo:

             "O céu guarde-me dos ricos que nasceram pobres, assim como do mendigo que ganhou riqueza ".

 

Comentários

A crítica à ingratidão retorna, sendo quase uma constante nos contos napolitanos. O senhor Pippo, o filho caçula, já demonstrara ingratidão para com o pai morto que lhe deixara tão maravilhoso presente. Ao irmão, o pai legara um instrumento de trabalho e a ele, de riqueza.

 Lado a lado, surge outra questão moral de grande importância: a mudança de caráter daqueles que da pobreza ascendem rapidamente na escala social até a riqueza.

O popular “O Gato de Botas” é um conto de fadas de autoria do escritor francês Charles Perrault, incluído no livro “Les contes de ma mère l'Oye”, foi publicado em 1697.  Na realidade, trata-se de uma adaptação, ao estilo da corte de Luís XIV, do conto napolitano “Pippo”, de autoria de Giambattista Basile.

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