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“O Conto dos Contos”

Capítulo 9 - Conto Décimo Quarto: “A Serpente”’.

Acontece com aqueles que são curiosos a respeito dos assuntos de outras pessoas: atingem o próprio pé com o machado. E o rei do Campo Longo é uma prova disso: por meter o nariz em segredos alheios colocou sua filha em apuros e arruinou seu infeliz genro.

 

            Era uma vez um tempo em que a esposa de um jardineiro desejava ter um filho com mais impaciência que um homem com febre por água fria, ou o dono de uma hospedaria pela chegada da carruagem. Aconteceu um dia que o pobre jardineiro foi à montanha pegar lenha, e chegando à casa, ao abrir o feixe, encontrou uma bonita serpente entre os galhos.

            À vista disso, Sapatella, era este o nome da esposa do jardineiro, deu um suspiro profundo e disse: "Ai de mim, mesmo as cobras têm suas pequenas serpentes! Mas eu trouxe a má sorte comigo para esse mundo." Ao ouvir essas palavras, a pequena serpente falou: "Bem, já que você não pode ter filhos, trate-me como uma criança e fará um bom negócio, pois eu te amarei mais que à minha mãe."

            Sapatella ao ouvir uma serpente falar, quase desmaiou; mas armando-se de coragem, ela disse: "Se for pelo carinho que tem a oferecer, eu ficarei contente em tratá-la como se fosse realmente minha própria filha."

            Assim dizendo, abriu um buraco em um canto da casa como berço e deu-lhe como alimento parte do que ela tinha, com a maior boa vontade do mundo. A serpente aumentou de tamanho dia a dia e quando ela já estava muito grande, disse a Cola Matteo, o jardineiro, a quem ela olhava como se fosse um pai: "Papai, eu quero me casar."

             "Com todo o meu coração", disse Cola Matteo. "Temos de procurar outra cobra como você, e tentar fazer um casamento entre os dois.""Por que você está falando de cobra?" perguntou a serpente. "Supõe que sejamos todos iguais entre as víboras? Como você não passa de um caipira me deixe esclarecer que quero é a filha do rei, por isso vá nesse mesmo instante e peça por ela, e diga-lhe que é uma serpente que a exige."

            Cola Matteo, que era um tipo de homem simples, e não sabia nada sobre assuntos deste tipo, foi inocentemente ao rei e entregou sua mensagem, dizendo: "Um mensageiro não deve ser batido mais que o são as areias da praia! Saiba que uma serpente quer sua filha para esposa, e vim para tentar ver se podemos fazer um casamento entre uma serpente e uma pomba!" 

            O rei, que de relance viu que ele era uma cabeça-dura, para livrar-se do incômodo disse: "Vá e diga à serpente que eu lhe darei  minha filha se ela transformar todos os frutos deste pomar em ouro." E assim dizendo, explodiu de rir e dispensou-o. Cola Matteo foi para casa e deu a resposta à serpente e ela disse: "Vá amanhã de manhã e recolha todas as pedras parecidas com frutas que você puder encontrar na cidade e planta-as no pomar do palácio, e vai ver pérolas amarradas em junco! "

            Cola Mateo não era mágico, não sabia como fazer e nem como recusar; assim, na manhã seguinte, logo que o sol com sua vassoura dourada varreu a sujeira da noite nos campos irrigados pela madrugada, pegou uma cesta e foi de rua em rua pegando todas as pedras com forma de  pêssegos, ameixas, nectarinas, damascos e cerejas, que encontrou. Então foi até o pomar do palácio e semeou-as, como a serpente tinha ordenado. Em um instante das árvores despontaram caules, ramos, folhas, flores e frutos, todos de ouro reluzente. Uma visão que deixou o rei num êxtase de espanto, e exclamando em alta voz de alegria.

            Mas quando Cola Matteo foi enviado pela serpente ao rei para exigir o cumprimento da promessa feita, este disse: "Devagar, preciso primeiro ter outra coisa mais se a serpente quiser ter minha filha: as paredes e o chão do pomar devem ser de pedras preciosas." Quando o jardineiro disse isso para a serpente, ela respondeu: "Vá amanhã de manhã e junta todos os pedaços de louças quebradas que puder encontrar e joga-os nos passeios e nas paredes do pomar."

            Como a noite depois de ter ajudado os assaltantes é banida do céu, Cola Matteo pela manhã pegou a mesma cesta e foi fazer a coleta de pedaços de telhas, cacos de prato, puxadores e bicos de jarros. Pegou também todas as lâmpadas quebradas e os fragmentos de cerâmica que pode encontrar no caminho.  E tendo feito o que a serpente havia dito, o pomar foi envolvido por esmeraldas e calcedônias, revestido com rubis e carbúnculos, de modo que o brilho de seus olhos se deslumbrou. O rei, impressionado pela visão, quase não acreditava o que via.

            Quando a serpente o enviou novamente para que pedisse o cumprimento da promessa, o rei respondeu: "Oh, tudo o que foi feito não é nada se a serpente não transformar este palácio em ouro." Quando Cola Matteo contou à serpente a nova exigência do rei, ela disse: "Vá e pegue um pacote de ervas, vegetais e salsas e esfregue a parte inferior das paredes do palácio com elas. Vamos ver se não podemos satisfazer esse capricho!"

            Cola fez uma grande vassoura de couves, rabanetes, alho-porró, salsa, nabo e cenoura; e quando esfregou a parte inferior do palácio com elas, de imediato tudo brilhou como uma bola dourada em um cata-vento. E quando o jardineiro voltou a exigir a mão da princesa, o Rei chamou sua filha e disse: "Minha querida Grannonia, eu tentei livrá-la de um pretendente que pediu para casar com você, estipulando as condições que me pareciam impossíveis. Mas como fui batido e obrigado a consentir, peço-lhe, como você é uma filha obediente, que me permita cumprir com a palavra, e que se contente com o que o destino quer e sou obrigado a fazer. "

            "Faça o que quiser pai", disse Grannonia. "Eu não devo opor-me a um único jota de sua vontade!" O rei, ao ouvir isto, ordenou a Cola Matteo que a serpente viesse ao palácio. A serpente, então, seguiu para o palácio montado em um carro todo de ouro e puxado por quatro elefantes dourados. Por onde quer que passasse, as pessoas fugiam de medo vendo a serpente tão grande e assustadora;  e quando ela chegou ao palácio os cortesãos todos tremeram como juncos e fugiram. O rei e a rainha também aterrorizados se esconderam em uma câmara. 

            Só Grannonia manteve-se firme, embora seu pai e sua mãe, chorando todo o tempo dissessem: "Voa, voa, Grannonia, se salve", mas ela não se mexeu do lugar e disse: "Por que eu deveria correr do marido que você me deu?" E quando a serpente entrou no quarto, tomou Grannonia pela cintura com sua cauda, ​​e lhe deu tal chuva de beijos que o Rei se contorcia como um verme, tão pálido como a morte.  Então a serpente levou a moça para outro quarto e fechou a porta.  Deixando que a pele escorregasse para o chão, a serpente se transformou num dos mais belos jovens, a cabeça toda coberta por cachos de ouro, e olhos que encantariam a qualquer um!

            Quando o rei viu a serpente entrar no quarto com a filha e fechar a porta atrás de si, ele disse à esposa: "O céu tenha misericórdia de uma boa alma! Ela morrerá com certeza, essa serpente maldita irá engoli-la como a gema de um ovo". Então ele colocou o olho no buraco da fechadura para ver o que tinha acontecido; mas quando viu a beleza do jovem e a pele da serpente que ele havia deixado no chão, deu um pontapé na porta e agarrando a pele, jogou-a no fogo que rapidamente a queimou.

            Quando o jovem se deu conta, gritou: "Ah, tolo, o que fez?" Imediatamente ele foi transformado em uma pomba que voou para a janela, onde bateu a cabeça nos vidros e cortou-se profundamente.

            Grannonia que se viu num mesmo instante feliz e infeliz, alegre e miserável, pobre e rica, arrancou seu cabelo e chorou a sorte, repreendendo o pai e a mãe; mas eles se desculparam, declarando que não tinham a intenção de fazer mal. Mas ela continuou chorando e se lamentando até que a noite saiu para armar a copa do céu para o funeral do sol; e quando todos estavam na cama, Grannonia pegou suas jóias que estavam em uma escrivaninha e saiu pela porta dos fundos, para procurar em todos os lugares o tesouro que lhe escapara.

            Saiu da cidade guiada pela luz da lua. No caminho encontrou uma raposa, que perguntou se queria ajuda para algum trabalho. "Para todas as coisas, meu amigo, não sou bem familiarizada com o terreno,” respondeu a moça. Então, eles viajaram até que a um bosque, onde as árvores, brincando como crianças, estavam fazendo pequenas casas para as sombras. E como eles estavam cansados e queriam descansar, abrigaram-se sob as folhas onde uma fonte brincava com a grama, jogando água sobre ela.  Se estenderam sobre um colchão de capim tenro e pagaram o repouso que deviam à natureza em troca da mercadoria da vida.

            Não acordaram até que o Sol, com o seu fogo de costume, desse sinal aos marinheiros e viajantes para se porem a caminho;  e, após despertarem permaneceram por algum tempo ouvindo o canto dos pássaros, no que Grannonia tinha um grande prazer. A raposa vendo isto disse: "Você sentiria o dobro do prazer se, como eu, entendesse o que eles estão dizendo." 

            Ao ouvir estas palavras, dado que as mulheres são por natureza tão curiosas quanto os homens, falantes, Grannonia implorou à raposa para dizer a ela o que tinha ouvido as aves conversando. A raposa contou-lhe que as aves estavam conversando entre si sobre o que tinha acontecido ultimamente com o filho do rei, que era tão bonito quanto uma jóia.  Por ele ter ofendido uma ogra ímpia, esta o colocara sob um feitiço de sete anos a serem passados sob a forma de uma serpente. Ora, quando tinham quase terminando os sete anos, o príncipe se apaixonara pela filha de um rei, e um dia, estando no quarto com a moça, tinha lançado sua pele ao chão, quando o pai e a mãe correram e a queimaram.  Então, o príncipe adquiriu a forma de uma pomba e voando quebrou uma vidraça da janela para escapar, no que feriu a cabeça de modo tão severo que fora entregue aos médicos.

            Grannonia perguntou se havia alguma cura para a lesão. A raposa respondeu que o fechamento das feridas  só seria possível com o sangue dos pássaros, os mesmos que tinham contando a história. Quando Grannonia ouviu isso caiu de joelhos perante a raposa, suplicando-lhe que pegasse os pássaros para que ela pudesse ter o sangue das aves, acrescentando que como amigos honestos, ambos  dividiriam o ganho.

            Disse a raposa: "Vamos esperar até a noite, e quando as aves forem para a cama, subirei nas árvores e irei capturá-las, uma após a outra." Assim esperaram até que o dia se foi. Em seguida a raposa, logo que viu todos os pássaros dormindo nos galhos, agiu muito suavemente, e um após o outro, estrangulou todos os pintarroxos, as cotovias, os melros, os pica-paus, os sabiás, as gralhas, algumas corujas, pintassilgos, que estavam nas árvores. E depois de matar todos, puseram o sangue em um pequeno frasco, que a raposa levou consigo para refrescar-se na estrada.

            Grannonia estava tão feliz que mal tocava o chão, quando a raposa disse: "Quanta alegria por um sonho, minha filha. Você não fará nada, a não ser que misture o meu sangue com o dos pássaros!" E assim dizendo isso ela se preparou para fugir.

            Grannonia, que viu todas as suas esperanças a ponto de serem destruídas, recorreu à arte da bajulação; e disse: "Cara raposa, tenho razão suficiente para salvar a sua pele, pois lhe devo tantas obrigações, além do que existem tantas outras raposas no mundo. Confie na minha boa-fé. Não aja como a vaca que chuta o balde que acaba de encher com leite. Você fez a parte principal para falhar no último. Pare! Acredite em mim, e venha comigo para a cidade do rei, onde você poderá até me vender como escrava se quiser! "

            A raposa, que nunca soubera o que poderia ser a força de convencimento de uma mulher concordou em viajar com a moça. Mas eles mal tinham caminhado cinqüenta passos, Grannonia levantou a vara que carregava e lhe deu uma pancada tão forte que a raposa imediatamente esticou as canelas.     A moça colocou seu sangue na pequena garrafa e rapidamente caminhou até o Vale Grande, onde foi logo ao palácio real e mandou dizer que estava chegando para curar o príncipe.

            O rei ordenou que ela fosse levada até ele, e ficou surpreso ao ver uma menina realizar uma coisa que os melhores médicos em seu reino não tinham conseguido fazer. Grannonia respondeu:    "Se eu tiver sucesso, deve prometer dá-lo a mim como marido."

            O rei, que olhou para o seu filho que estava como morto, respondeu-lhe: "Se você fizer com que ele esteja são e salvo, eu o darei, pois não é um grande ato dar um marido para quem me dá um filho ". Então eles foram para a câmara do príncipe, e assim que ela ungiu-lhe o sangue este se levantou como se nada o tivesse afligido. Grannonia, ao ver o príncipe robusto e saudável, pediu que o rei mantivesse sua palavra; ao que ele, virando-se para seu filho, disse: "Meu filho, há um momento você estava praticamente morto, agora vejo que você vivo e mal posso acreditar. Portanto, como eu prometi a esta donzela que, se ela o curasse o teria como marido, agora me permita cumprir minha promessa, uma vez que a gratidão me obriga a pagar essa dívida. "

            Quando o príncipe ouviu estas palavras, disse: "Senhor, eu gostaria de estar livre para provar a você o amor que lhe tenho. Mas como já estou comprometido com outra mulher não posso alterar meu sentimento." Grannonia ouvindo-o sentiu um prazer secreto por encontrar-se ainda viva na memória do príncipe. Todo o seu rosto ficou vermelho quando ela disse: "Se eu pudesse induzir esta donzela a renunciar a suas reivindicações, você concordaria em cumprir o meu desejo?"

            "Nunca", respondeu o príncipe, "como banir de meu peito a imagem de quem eu amo? Eu preferia me ver em perigo que perder o meu lugar à mesa de vida!" Grannonia não conseguiu mais disfarçar e contou ao príncipe quem ela era, pois como a câmara havia sido escurecida por causa do ferimento, ele não a tinha reconhecido. O príncipe ao reconhece-la, abraçou-a com enorme alegria, dizendo a seu pai o que ele havia feito e sofrido por ela. Depois mandaram convidar seus pais, o rei e a rainha de Campo Longo e celebraram o casamento com uma festa maravilhosa, fazendo grande piada sobre a tolice de uma raposa, e concluindo por último que:

            "A dor deve um tempero provar até obter as alegrias do amor".

 

Comentários

Uma fábula onde imperam as metamorfoses que transformam seres humanos em animais e vice-versa.

Inicialmente o narrador nos fala de uma serpente desejar desposar uma pomba, a filha do rei, justamente a metamorfose que o príncipe encantado sofreria ao ver interrompido seu idílio amoroso pela imprevidência do pai da moça.

Grannonia simboliza a sagacidade feminina capaz até mesmo de enganar a um animal tido como símbolo da esperteza: a raposa.

O autor nos chama a atenção para os riscos que correm tanto os que não controlam sua curiosidade, quanto para os que tudo expõem de suas vidas para ouvidos alheios, o caso da raposa e dos pássaros. E como moral da história a presença da dor que acompanha as alegrias dos amantes.

Conto Décimo Quinto: “A ursa”.

O homem sábio diz que o fel não pode ser retribuído com açúcar.  Um senhor deve exigir coisas justas e razoáveis ​​se quiser ser obedecido.  Com o rei da Montanha Avermelhada, cujas ordens eram tão duras quanto molas que dificilmente se amaciam, aconteceu que desejando de sua filha o que ele não devia, levou-a a fugir correndo o risco de perder a honra e a vida.

 

            Era uma vez o rei da Montanha Avermelhada, que tinha uma esposa muito bela, que na carreira dos anos caiu do cavalo da saúde e teve a vida quebrada.  Antes da vela da vida se apagar, ela chamou o marido e disse-lhe: "Eu sei que você sempre me amou ternamente; ao fim dos meus dias demonstre-me seu amor, prometendo nunca se casar novamente, a menos que encontre uma mulher tão linda quanto eu fui; caso contrário, deixo-lhe minha maldição e carregarei meu ódio até o outro mundo."

            O rei que amava sua esposa além da medida, ouvindo esse seu último desejo começou a chorar e por algum tempo não pode responder uma única palavra.  Por fim, quando ele parou de chorar, disse: "Antes que tome outra esposa, que a gota se apodere de mim; que minha cabeça seja cortada como a de uma égua. Amada, tire tal pensamento de sua mente! Eu não poderia amar qualquer outra, pois você foi o meu primeiro amor e deve levar consigo os últimos farrapos de minha afeição".

            Assim que terminou de jurar, a pobre rainha virou os olhos e esticou as canelas.  Quando o rei viu a vida fugindo, ele abriu os canais de seus olhos e fez tais uivos e clamores que toda a corte veio correndo a invocar-lhe o nome, censurando a fortuna por levar-lhe a esposa. O rei arrancou a barba e amaldiçoou as estrelas que lhe haviam enviado tal infortúnio. 

            No entanto, tendo em mente a máxima: "A dor de cotovelo e a dor pela perda da esposa são igualmente difíceis de suportar, mas logo passam”, antes que a noite tivesse saído para os braços do céu e reunido os morcegos, ele começou a contar nos dedos e a refletir: "Minha mulher está morta e eu me tornei um viúvo miserável, sem esperança de ver pessoa alguma, exceto a pobre filha que ela me deixou. Devo tentar descobrir alguma maneira de ter um filho e herdeiro. Mas onde encontrar uma mulher igual em beleza à minha mulher? Todas me parecem bruxas em comparação com ela. Onde  devo encontrar outra se a natureza fez Nardella, que deve estar na glória, e quebrou o molde? Infelizmente, ela me colocou num labirinto com a promessa que me fez fazer!  Mas o que eu digo?  Estou fugindo antes de ter visto o lobo. Tenho de abrir os olhos e ver; será que não há alguma mulher tão bonita? É possível que o mundo esteja perdido para mim? Existe tal escassez de mulheres ou é a raça que está em extinção?"

            Tendo dessa forma pensado, emitiu uma proclamação ordenando que todas as mulheres bonitas do mundo viessem a sua presença e ele escolheria a mais bela, dotando-a com um reino. Quando a notícia se espalhou, não houve uma mulher no universo que não viesse tentar a sorte, nem mesmo as bruxas ficaram para trás, pois quando se trata de beleza, nenhuma mulher se crê deixada para trás; cada qual se crê a mais bonita, e se o espelho mostra a verdade, culpa o vidro por ser falso ou o mercúrio por ter sido mal colocado.

            Quando a cidade ficou cheia de mulheres, elas foram colocadas em uma linha reta e o rei andava de cima e para baixo, de baixo para cima, examinando e medindo cada uma delas da cabeça aos pés; no entanto, uma pareceu-lhe ter a sobrancelha caída, outra o nariz comprido, outra a boca grande, outra os lábios grossos, outra muito alta, outra baixa e atarracada, outra muito forte, outra muito magra; a espanhola não o agradava por causa de sua cor escura, a napolitana não estava com a roupa adequada, a alemã parecia fria e gelada, a francesa frívola e vertiginosa, na veneziana a claridade do cabelo parecia uma roca de linho.  Ao final, por uma causa ou outra, ele dispensou a todas as mulheres.

            Foi quando voltou seus pensamentos para a própria filha, dizendo: "Por que buscar o impossível quando a minha filha Preziosa foi formada no mesmo molde de beleza da mãe? Eu tenho a pessoa certa aqui em minha casa e vou procurá-la até no fim do mundo? Minha filha deve-se casar com quem eu queira, e com isso vou ter um herdeiro." Quando Preziosa soube que era com ela que o pai desejava se casar, retirou-se para seu quarto lamentando a má sorte, e uma velha mulher, que era sua confidente, veio até ela e disse:

            "Anime-se, minha filha, não se desespere, há sempre um remédio e mesmo de toda doença a morte cura. Agora escute, quando seu pai voltar a tocar no assunto, coloca esse pedaço de madeira na boca e será transformada em uma ursa! Então, morto de medo, ele vai deixá-la partir, e você deverá ir para a floresta, onde o Céu mantém uma boa fortuna na sua loja desde o dia em que você nasceu; e sempre que desejar aparecer como mulher, pois você é e continuará a sê-lo, apenas tire o pedaço de madeira para fora da boca e sua verdadeira forma voltará."

            Preziosa abraçou a velha, e, dando-lhe uma boa refeição de queijo, presunto e bacon, mandou-a embora. Assim que o sol começou a mudar seus aposentos, o rei ordenou que os músicos viessem, e, convidando todos seus senhores e vassalos, realizou uma grande festa.  Depois de dançar por cinco ou seis horas, todos se sentaram à mesa e comeram e beberam além da medida. Em seguida, o rei perguntou a seus cortesãos com quem ele deveria casar Preziosa, sendo ela a imagem de sua falecida esposa. 

            Preziosa, no instante em que ouviu isso, colocou o pedaço de madeira na boca, e tomou a figura de uma terrível ursa, uma visão que fez todos os presentes ficarem assustados e correrem o mais rápido que pudessem. Ela fugiu e ganhou o caminho de um bosque.  E lá ficou na companhia agradável dos outros animais, até que o filho do rei da Água que Rola veio caçar e ao avistar o urso, sentiu-se morrer na hora.  Mas o animal veio suavemente até onde ele estava abanando o rabo como um pequeno cão e esfregando-lhe os lados.

            O filho do rei tomou coragem e afagou-o, e disse: "Bom urso, urso bom! Pobre animal! Pobre animal!" E o levou para casa ordenando que todos tivessem muito cuidado. E para que pudesse vê-lo da janela sempre que quisesse, colocou-o em um jardim perto do palácio real.

            Um dia, quando todas as pessoas da casa haviam saído e o príncipe estando só, foi até a janela e viu o urso, no momento em que Preziosa tirava o pedaço de madeira da boca e penteava os cabelos dourados. Ao ver tal beleza, ele quase perdeu os sentidos e descendo pelas escadas, correu para o jardim.  Mas Preziosa já havia recolocado o pedaço de madeira na boca, e estava transformada em um urso.

            O príncipe desceu e em vão procurou por Preziosa; ficou tão surpreso com o truque que uma melancolia profunda apoderou-se dele, e em quatro dias caiu doente, chorando e falando: "como posso suportar meu urso!" Sua mãe, ouvindo-o gemendo assim, imaginou que o urso lhe tivesse feito algum mal e deu ordem de que ele deveria ser morto.  Mas os servos, apaixonados pela mansidão do urso, que se fazia amado até pelas pedras da estrada tiveram pena e em vez de matá-lo levaram-no para o bosque, dizendo à rainha que tinham dado um fim no mesmo.

            Quando a notícia chegou aos ouvidos do Príncipe, ele reagiu imediatamente. Bem ou mal pulou da cama, decidido a fazer picadinho dos servos.  Mas, quando lhes contaram toda a verdade, ele pulou no cavalo, mesmo meio morto como estava, e foi por toda parte até que finalmente encontrou o urso.

            Trouxe-o novamente para casa, colocou-o em uma câmara dizendo: "Oh, lindo bocado de um rei, por que fica calada nessa pele? Oh, símbolo do amor, fechado nessa pele peluda! Por que tudo isso? Quer-me ver morrer? Aos poucos estou definhando sem esperança, atormentado pela sua beleza. E pode ver a prova, pois encolhi de tamanho como o vinho. Sou nada mais que pele e osso, e a febre até costurou minhas veias. Então, levante a cortina deste esconderijo cabeludo, e deixe-me contemplar o espetáculo de tua beleza! Levanta as folhas desta cesta e deixa-me ter uma visão do fruto que está embaixo! Deixe meus olhos passarem a contemplar a pompa das maravilhas! Quem calou tão suave criatura em uma prisão tecida de pelos? Quem travou tão rico tesouro em um baú de couro? Deixe-me contemplar essas graças e terá como pagamento todo o meu amor. "

            Tendo o príncipe repetido isso várias vezes e muito mais, e ainda vendo que todas as suas palavras eram levadas pelo vento, voltou para a cama e teve um ataque tão desesperador que os médicos prognosticaram o caso como complicado. Sua mãe, que não tinha outra alegria no mundo, sentou-se ao lado da cama, e disse-lhe: "Meu filho, de onde vem toda essa dor? Que melancolia se apossou de você? Você é jovem, amado, grande, e é rico - o que mais você quer meu filho, fale! Se quiser uma mulher é só escolher e eu faço o jogo. Não vê que sua doença é também uma doença para mim? Seu pulso bate com febre em suas veias e meu coração bate com a doença no meu cérebro, pois não tenho outro apoio na minha velhice que não você. Então, volte a ser feliz e alegre meu coração. O reino inteiro está de luto, essa casa em lamentações, e sua mãe desesperada com o coração partido."

            Quando o príncipe ouviu essas palavras, ele disse: "Nada me pode consolar mais que os olhos do urso. Portanto, se você quiser me ver bem novamente, deixe-o ser trazido à minha cama. Não vou ter ninguém mais para me servir, fazer a minha cama ou cozinhar para mim, somente ele mesmo, e você pode ter certeza de que esse prazer vai me fazer bem rapidamente".

            Sua mãe, embora visse o ridículo de se ter um urso como cozinheiro e camareiro, temia que seu filho não estivesse em perfeito juízo; no entanto, a fim de satisfazê-lo, mandou buscar o urso. Quando o urso se aproximou da cama do príncipe, ele levantou a pata e sentiu o pulso do paciente, o que fez rir a rainha, que pensava a cada movimento que o urso iria coçar o nariz. 

            Então o príncipe disse: "meu querido urso, vai cozinhar para mim, dar-me de comer e esperar por mim?" E o urso assentiu com a cabeça, para mostrar que aceitara o encargo. A mãe trouxe algumas aves, e num fogo aceso na lareira da câmara colocou um pouco de água para ferver. O urso, pegando uma ave, matou-a e depenou-a, colocando uma parte no espeto, e com a outra fez um delicioso caldo de tal forma que o príncipe lambeu os dedos de gosto. E quando ele havia acabado de comer, o urso deu-lhe de beber com tanta graça que a Rainha estava quase por beijá-lo na testa. 

            Então o príncipe se levantou, e o urso rapidamente começou a fazer a cama; correndo para o jardim, a Rainha reuniu rosas e flores de limoeiro e as espalhou sobre urso, e disse que ele valia o seu peso em ouro, e que o filho tinha um bom motivo para estar apaixonado por ele. Mas o príncipe disse para a rainha, "Minha mãe, se eu não der um beijo no urso, a respiração vai deixar meu corpo." Diante disso, a rainha vendo-o desmaiar, disse: "Beija-o, beija-o, minha bela besta! Não deixe meu pobre filho morrer de paixão!"

            O urso foi até o príncipe e pegando-o pelas bochechas, beijou-o de novo e de novo.  Enquanto isso (eu não sei como foi) o pedaço de madeira saiu da boca de Preziosa e ela revelou-se nos braços do Príncipe como a mais bela criatura em todo o mundo. Pressionando-a contra o coração, ele disse: "Eu te peguei, minha malandra! Você não escapará de mim outra vez sem uma boa razão." Ao ouvir estas palavras, Preziosa acrescentando a cor de modéstia à imagem de sua beleza natural, disse-lhe: "Eu estou de fato em suas mãos, basta me guardar com segurança e casar-se comigo quando você quiser."

            A rainha, então, perguntou quem era a bela donzela, e o que a trouxera para uma vida selvagem e Preziosa contou-lhe toda a história de seus infortúnios. A rainha, elogiando-a como uma boa e virtuosa menina, disse ao filho que ela estava contente que Preziosa fosse sua esposa. O príncipe, que nada mais desejava na vida, imediatamente prometeu-lhe casamento; e a mãe dando-lhes a bênção, comemorou esse enlace feliz com grande festa e fogos, e Preziosa experimentou a verdade do ditado:

 "Aquele que age de boa maneira pode sempre esperar o bem".

 

Comentário

A história trabalha temas incestuosos. Primeiramente temos um rei, que viúvo tenta fazer da filha a amante a dar-lhe um herdeiro; depois, uma mãe rainha que possui ciúmes do filho e tenta destruir uma rival, descobrindo por trás da forma de uma ursa, a mulher selvagem carente de amor.

O conselho da velha ama da princesa, o seu inconsciente, é quem lhe aponta o disfarce para fugir ao pai, disfarce que rompe com a “filha cordata” e faz impor-se o lado selvagem da psiquê feminina, única com capacidade de romper o poder despótico do pai.

Preziosa, entretanto, mesmo livre, não deseja perder seu disfarce e abandonar seu “lado selvagem” que a defende e a aproxima da natureza. Ao apaixonar-se pelo príncipe, utiliza-o até arrancá-lo das garras de sua mãe e tomar “posse” de seu coração.

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