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Marcel Proust

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“Conversa no Cemitério”

O despertar dos mortos

O aguaceiro

 

Como tudo parecia soar estanho naqueles primeiros dias de maio. O gorjeio dos pássaros, o coaxar dos sapos, até mesmo o zumbido dos pernilongos como que haviam emudecido. O céu de um nublado intenso não incentivava os seres viventes, nem permitia que os raios de sol prestassem seu colorido às coisas, tudo parecia cinza, amorfo. E para cúmulo, nem bem se aproximavam os ponteiros das quatro horas da tarde, e o lusco-fusco se instalava e uma hora depois a noite sem lua se encarregava de expulsar os últimos resquícios da luz.

E chegara a chuva. A princípio leve e lenta chuvinha invernal, que logo nos surpreenderia; no dia seguinte já eram torrentes de água que despencavam do céu amargurado. De certa forma, era o único som que a todos os demais abafava apenas interrompido pelos estalidos de raios e trovões.

 

Após três dias do pé d’água que insistia em não diminuir, as pessoas já não saíam mais às ruas. As poucas lojas e restaurantes que, inicialmente insistiram em abrir as portas, logo as fecharam, quer por falta de clientes, quer por ausência de funcionários; nas escolas as goteiras traziam água como a única visitante. Restavam abertos aqui e ali certos botecos que vendiam mais pinga e cerveja que comida.

 

Minha cidade que sempre se fizera admirar, pois fazia jus ao nome de Boa Vista, era toda ela atravessada por um pequeno córrego, riozinho manso, mas que em beleza nada ficava a dever para tantos rios famosos citadinos, como o Sena, o Tâmisa. Qual! Os chorões que emolduravam há muito tempo suas margens, os pesqueiros públicos que se estendiam a perder de vista, os bancos de descanso e as mesinhas para jogos e lanches, tudo fora revirado, as águas preguiçosas haviam como que enlouquecido, agora formavam uma correnteza a cada momento mais volumosa, que arrastava os enormes galhos arrancados dos chorões, mesinhas, arrasava tudo o que pudesse.

 

O riacho era margeado pelas duas principais ruas de Boa Vista. As águas em fúria as haviam invadido e já não se distinguia o antigo leito do rio. Tudo era um mundo de água enlouquecida. Aqui e ali eram depositadas placas de asfalto, blocos de pedras arrancados, e por toda parte boiavam as sacolas de lixo não recolhidos da comunidade.

 

O trânsito de veículos simplesmente terminara. Carros que não se mexiam, outros que boiavam como monstros trazidos pela chuva, em determinados recantos cismavam em se empilhar.

Enquanto isso tudo ocorria no centro de Boa Vista, na periferia da cidade a situação era ainda pior para as pessoas que viviam na encosta de um morrote, em suas simples casinhas. O risco de desmoronamento era cada vez maior. As lamas que desciam ladeira a baixo, no terceiro dia formavam novos e barrentos riachos.

As sirenes dos cinco carros de bombeiros faziam se ouvir por todas as partes nos primeiros dias da tormenta, numa tentativa desesperada de estarem presentes em todas as emergências que só faziam se multiplicar. De certa forma seus berros eram os únicos a competirem com o mugido incessante das águas. Agora já haviam cessado. Os bombeiros colocavam alguns barcos para se deslocarem em meio ao caos.

Pois bem, Bela Vista, uma pequena cidade do interior, que vivia do trabalho em propriedades agrícolas que produziam soja e frutas, era muito pouco conhecida. Local calmo, sem grandes ocorrências do dia a dia, de repente, se tornou notícia e não somente no Brasil, mas até no exterior!

Eventos inacreditáveis que passaram a acontecer graças ao aguaceiro. E o epicentro dos acontecimentos insólitos seria uma área de três quarteirões, cercada por um muro alto, edificado há mais de cem anos. Chegava-se a ela, quando o trânsito ainda funcionava, por uma rua transversal ao riacho que possuía um nome bastante sugestivo: Rua da Saudade. O local do Cemitério Municipal.

 

O Enterro Interrompido

Na Ala A, a especial, rua 12, um enterro importante fora de repente interrompido, assim que a tempestade desabara. Enterro concorrido aquele, com direito a padre presente e tudo o mais! Afinal, gente importante sempre tem público que precisa e quer ser notado. Com a chuva, todo o pessoal rapidamente se separou do “de cujo”, dispersando-se em busca de abrigo fora do cemitério.

Num esforço e encharcados, os coveiros haviam conseguido baixar o caixão à sepultura, mas a gaveta não pudera ser concretada. Um pouco mais os trabalhadores teriam que sair nadando da cova. Na pressa, entretanto, as pás e escavadeiras também foram por lá deixadas e elas, de certa forma, ancoraram o esquife.

Bom material o daquele caixão! Resistia valentemente à chuva ininterrupta; madeira rija, envelhecida, bem envernizada, com um belo crucifixo de bronze brilhante. Mas, enfim, mesmo sendo o morto uma pessoa da mais alta estirpe, seu caixão lá ficou e dele todos se esqueceram, até mesmo os coveiros. Também pudera, com aquele temporal... Ademais, por alguns dias não aparecera nenhum outro cliente para ser enterrado na Ala A do Cemitério.

Mas o leitor deve estar ansioso pelo fato de nos referirmos pela segunda vez à Ala A. Devemos aproveitar, antes de seguir a narrativa, que nosso Cemitério era considerado modelo em toda a região, e modelo porque reproduzia debaixo da terra a situação que cada morto desfrutara em vida. Possuía três alas separadas.

A menor delas, a denominada A era reservada para poucas famílias, as mais insignes da sociedade. Os túmulos eram espaçosos e bem conservados, normalmente erigidos em mármore, com direito a ornamentos angélicos ou bronzes com imagens de Santos, de Cristos em sofrimento ou de Marias com crianças nos braços. Alguns lembravam mesmo templos antigos, outros, pequenas reproduções de Igrejas. Muitos artistas famosos no passado haviam vendido sua arte para famílias de tanta importância. As ruas de toda a Ala eram ladeadas por ciprestes e entre os túmulos, canteiros eram guarnecidos por crisântemos e rosas.

A Ala B era separada da A por uma sebe alta de quase dois metros de altura, mas que em determinados pontos se abria e as alas se comunicavam. Nessa secção, bem maior que a primeira, todos os túmulos tinham seus donos e pertenciam a famílias de algumas posses, normalmente comerciantes, professores, médicos, funcionários. Os caixões em que os defuntos eram enterrados, embora nem de longe espelhassem o luxo e o asseio da ala mais nobre, ainda eram de boa madeira, imbuia ou cerejeira. Ainda havia os confeccionados com pinus que não eram lá muito bem conceituados naquela ala, dado que mais econômicos refletiam ou certo desleixo da família para com o morto, ou alguma dificuldade econômica. Nesta parte do cemitério não se erigiam mausoléus e nem capelas, mas cada jazigo familiar possuía sua lápide de mármore ou de pedra a identifica-lo, sua cruz, e graças ao cuidado familiar, muitos jazigos tinham flores a adorná-los.

Embora não houvesse ciprestes a emoldurar caminhos, as ruas eram relativamente bem cuidadas e o gramado relativamente aparado.

A última das alas e a maior de todas era a C, separada das demais por um alto muro sem nenhum tipo de comunicação com as demais. A concepção do cemitério fora sábia, pois a feiura deve-se ocultar dos olhos acostumados às melhores coisas da vida, até mesmo para a guarda de seus mortos.

Ela só era acessada pelos fundos do cemitério, através de um portão de ferro batido que em nada se comparava ao amplo e belo portal de entrada, em bronze fundido e guarnecido por dois leões de mármore de Carrara, que se abria para a Rua da Saudade.

O mato ralo tomava conta de toda a ala, apenas disputando espaço com os contínuos rasgos feitos na terra pelos coveiros, a cada vez que um novo hóspede dava entrada. Placas de madeira, ficadas de espaço a espaço, forneciam os números das ruas e das sepulturas. Sepulturas todas públicas, sem donos, cada morto, um inquilino provisório pelos próximos cinco anos, cuja identificação era feita apenas na administração do cemitério.

Como vemos, o cemitério de minha cidade era absolutamente inovador. Em uma única área abrigava com todo carinho as diferentes classes sociais, mantendo na morte o padrão que lhes era devido em vida. O idealizador do mesmo fora um Prefeito de nome Antônio Perfeito e o local recebeu do mesmo o nome de batismo: Cemitério Perfeito.

Afinal, após tantos detalhes, o leitor deve estar se perguntando o que teria acontecido de tão extraordinário naqueles dias tormentosos. E ele mesmo será, ao final da narrativa, convidado a concluir se foi a chuva que a tudo precipitou, ou a mão divina a separar justos de pecadores e poderá até mesmo, como os mais céticos o fizeram, apregoar que tudo não passou de fenômenos naturais desconhecidos, mas que um dia a ciência ainda explicará.

O que é certo é que transcorrido alguns meses dos eventos, a maior parte da população de Bela Vista era capaz de jurar que nada sucedera, que tudo fora uma espécie de alucinação coletiva, não mais devendo ser objeto de especulações. O Prefeito, o juiz de direito e alguns políticos chegaram mesmo a descortinar a presença de agitadores profissionais interessados em denegrir as classes laboriosas da cidade com aquela história sem eira e nem beira. O padre, então, chegou a ameaçar de excomunhão aos poucos que insistiam que o que a seguir narraremos, aconteceu de verdade!

 

O Primeiro Morto

O defunto semi- insepulto aquele que a chuva portentosa esquecera abandonado em seu reluzente caixão de carvalho ultra resistente, sofreu um estremecimento, tão estranho que mais parecia que o cadáver havia sido percorrido por uma corrente elétrica. Logo a seguir, foi o caixão que sofreu uma sacudidela ou seria simplesmente um efeito da água a verter sobre a madeira? Talvez tudo se explicasse pela descarga elétrica de um raio que incinerara o cipreste em frente à cova.

De uma forma ou outra, o certo é que o defunto sentiu que aos poucos despertava. E que as dores que sofrera na morte já não mais o afligiam. E o mais incrível é que, em sua imobilidade, ele escutava o barulho das águas a caírem em seu caixão, de repente sente-se despertar, mas tão pouco ele sabe se aquilo era um acordar. De todo modo, que coisa nova, estranha, de sensações jamais sentidas. É o estar e não estar, o ser e o não ser, o pensar e o não pensar, o sentir e o não sentir, numa ilógica negação da negação em que algo parece ser o nada e o nada se assemelha ao nada. De todo modo uma estranhíssima sensação de despertar de um longo sono o invade.

Tenta abrir os olhos, o primeiro reflexo motor de quem acorda, mas nada consegue, nem ao menos uma fresta de luz é percebida na absoluta escuridão em que se sente imerso. Procura, então, mexer o dedo da mão, o menor deles, sem sucesso. Então concentra todas as suas energias não vitais, (aliás que tipo de energias seriam?) para obter um mínimo movimento de seus pés, mas tudo em vão. Finalmente tenta encher seus pulmões de ar, nada consegue, nenhuma molécula é absorvida. O morto conclui, então: “devo ter morrido”.

Lentamente como se a um filme assistisse, passa a ter vislumbres da vida que vivera, emergindo da forte bruma que tudo mergulha. Após algum tempo vê-se no leito de um hospital. Sofria muito. O câncer avançado já lhe roubara os movimentos, cada movimento lhe custava enorme esforço. E as dores que somente se reduziam sob o efeito da morfina que os médicos lhe ministravam já na veia. Mas vai percebendo que a dificuldade de respirar que o atormentara está ausente, apenas inquieta-o. As dores de antes, apenas certo desconforto.

Aí lhe chegam os choros de familiares a rodearem o leito. Mas de repente não mais estão, onde foram todos eles que o deixaram ali, só? A conclusão a que chega é que está morto e enterrado. O sentimento que o assalta é o da solidão, mas um tipo de solidão absoluta que jamais sentira. Não bastava a falta de outros, pois sentia a ausência de si mesmo, um sentimento definitivo. Na bruma em que mergulha já não se dá conta de quem seja, de quem fora, o que ali fazia, tudo eram interrogações sem qualquer sequência lógica. Apenas e tão somente se sabia morto.

E para um morto o que mais o torturava era aquela horrível e insuportável sensação de estar só. De uma forma ou de outra era preciso procurar alguém, procurar qualquer coisa que lhe explicasse o inexplicável de ali estar.

Tudo nos leva a crer que aquele burburinho sem nexo, ruído estranho do tipo gutural, tenta tido, deste modo, seu início. De alguma forma, mesmo sem conseguir mexer nem mesmo uma unha, um só de seus músculos, paralisados, enrijecidos e já em decomposição, aquele morto fora o seu autor. Como se, conforme alguns, alguma energia ainda lhe restasse, ou o  magnetismo, conforme outros, houvesse organizado e assumido uma forma sonora, burburinho estranho que mais tarde seria simplesmente chamado de barulho de morto.

Estávamos no segundo dia da tempestade acompanhada por raios e trovões que repercutiam por toda parte. Talvez por isso mesmo, o ruído perfeitamente audível que surgia da cova do morto ilustre, tenha passado despercebido. É bem verdade que igualmente, por aqueles dias não ocorreram mortes de pessoas insignes na sociedade. As catástrofes naturais sempre são letais para os mais pobres, embora essa regra admita exceções.

O certo é que nosso morto ilustre, na sua busca solitária, emitiu seus sons guturais durante um dia e uma noite. Quando, exatamente, um ruído semelhante emitido por outro morto acudiu-lhe como uma resposta, não se sabe. O que é certo é que a conexão foi realizada. O novo defunto comunicante talvez tenha sido despertado pelo nosso ilustre, ou então, graças a algum fenômeno semelhante acontecido na Ala A, também despertara e buscava solitariamente companhia.

Pois o novo som originava-se na Ala C, para além do muro divisório, naquela área pública onde se enterravam os sem terreno. Justamente a área do cemitério que mais recebia novos hóspedes com a tormenta, vítimas de desmoronamentos e afogados. De todos os modos, foi um morto recente, metido todo apertado num caixão de pinus dos mais ordinários, que se desmanchara ao primeiro impacto das chuvas, que primeiro respondeu ao chamado do morto insigne.

A propósito, em enterros sem-cerimônia, até que o temporal não atrapalhava tanto o trabalho dos coveiros. Desde algum tempo, não dependiam esforços para cavarem sete palmos de altura. Não, o volume de pobres que morrem exigem providências mais racionais. Com o aceite da administração, as covas haviam passado a ter apenas três ou quatro palmos de profundidade, desde que todo caixão baixado tivesse uma forração de cal virgem, evitando os desagradáveis fogos-fátuos e odores da decomposição. Com este método também a concretagem acima do caixão fora, por economia, dispensada.

Realmente, o Cemitério Perfeito tinha normas que justificavam o seu nome. A cada morto dava-se o tratamento adequado ao nível de vida que tivera enquanto vivo fora. Para os defuntos pobres, para que tanto luxo?

Voltando aos fatos, ao ouvir a resposta, o morto insigne mal pode se conter de alegria! Se sorrir lhe fosse possível temos certeza de que o teria feito! Mas como num passe de mágica, a sensação de solidão absoluta se esvanecera dando lugar a uma ansiedade por comunicar-se e descobrir aquele alguém semelhante a si mesmo que o tirara do ostracismo. E o semelhante emitia um ruído no mesmo timbre e frequência que o seu próprio! E esta descoberta como que sacudiu o cadáver do morto insigne.

Aqui convém ao narrador da história deixar claro que “sacudir” o corpo de um morto constitui um movimento puramente psíquico. Ninguém jamais ouvirá falar de um cadáver que se sacode. Isto esclarecido, nosso insigne conseguiu após determinado tempo saber que o som provinha do outro lado do muro, o que o deixou um pouco ensimesmado. Sempre achara em vida que se devia manter certa distância da turba. Mas o que fazer, pensou? Quem não tem cão, caça até com gato.

Com todo esforço trabalhou para articular o próprio ruído que produzia e transformá-lo em alguma forma de comunicação. Gradualmente sentiu-se retornando à infância e aprendendo a falar, agora, algum tipo de linguagem de morto. De todo modo, o método exato através do qual o insigne conseguiu produzir sons compreensíveis para determinados mortos e tão somente para mortos, nunca se esclareceu, embora não pairem dúvidas de que o tenha feito.

Isto não impediu que, à época, várias hipóteses tenham sido levantadas pelas autoridades e entendidos no ramo dos falecidos. A única que me parece mais plausível está ligada à antiga profissão do morto. Por ser o insigne um velho General de exército, o mesmo possuía o domínio do código Morse. Foi terçando-o e esgrimindo os ruídos que ele passou a produzir sons curtos e longos. Daí a combiná-los articulando letras, palavras e espaços foi um pequeno passo.

O que essa minha ideia não encontra explicação é para o fato de que o segundo morto, o sem nome, dificilmente seria conhecedor do código empregado. E como explicar-se o fato de ele tê-lo aprendido tão facilmente, de maneiras a também se comunicar?

Outro ponto fraco foi que, com o decorrer de dias, muitos outros mortos passaram a participar da tertúlia, sem que tão pouco, ao que eu saiba, tivessem a mínima ideia de códigos.

Isso posto seguimos com nossa narrativa, pois de certo, de concreto mesmo, é que os mortos de Bela Vista naquele mês de maio, o da tormenta, passaram a se comunicar.

 

O Primeiro e o Segundo Mortos.

A conversa, quando se estabeleceu, principiou por uma interjeição. Três ruídos curtos, uma pausa e lá estava a saudação: “Oi”. O morto insigne repetiu diversas vezes a mesma interjeição até que o morto sem nome deixasse de emitir aquele ruído primário, gutural, e passasse a imitá-lo.

Pode o coração de um morto locupletar-se de alegria? Pois foi isso o que ocorreu com nosso defunto General, assim que recebeu a resposta. Este foi apenas o princípio de uma comunicação à qual outras palavras vieram a se somar; enfim, um diálogo se estabeleceu:

“Quem é você?” É claro que o insigne exigia que o sem nome se identificasse primeiro. Como resposta escutou: “Sei que morri, tanto quanto você, isto é o que importa.”

“Mas quem era você quando vivo é o que eu quero saber.”

“Mas o que importa isso agora? Você ficou estorvando com seu mugido tanto que me acordou. Sou eu que agora pergunto, com que direito fez isto?”

“Foi o barulho da chuva, um raio, uma trovão, sei eu o que, mas eu acordei da morte, nem sei o porquê, e buscava companhia”.

“E ninguém mais respondeu ao seu chamado, somente eu?” O morto sem nome tomou o silêncio como uma assertiva e prosseguiu. “Nunca imaginei algo como isto em vida, será que morremos mesmo?”

“Não sei, para mim tudo é mistério. Você está enterrado na ala pública, certo?”

“Sou pobre e onde mais poderia estar enterrado? Você deve ser do lado dos ricos, certo?”

“Sim, e com certeza você deve ter ouvido falar a meu respeito. Sou o General Henrique, da nobre família dos Junkers.” A entonação do código Morse mudara, provavelmente denotando o orgulho do morto insigne.

“Não, seguramente nunca ouvi falar de você. Eu sou João da Silva e tenho certeza de que nisto estamos iguais. Você tão pouco nunca ouviu falar de minha pessoa.” Tenho certeza de que fosse possível visualizar a cara do morto, perceberíamos um certo sorriso maroto.

“Eu não sou igual a você. Em minha homenagem serão realizadas muitas missas, serei lembrado por meus atos de bravura, possivelmente me tornarei nome de rua, ou talvez de uma praça ou mesmo avenida.”

“Sem dúvida, General. E seus herdeiros já devem estar em guerra pelos bens que deixou, agora que nada lhe pertence, não é mesmo? Acorda morto! De que te vai servir virar nome de rua? Só para os cachorros mijarem nos postes com as placas com teu nome? E daqui pouco tempo quem saberá quem foi o tal do General?”

“Acho que você deve ter sido um agitador social, talvez até comunista.” Resmungou sem muita convicção o ilustre.

“Eu não entendo nada de agitação. Fui um simples operário da construção civil”.

“Do que morreu”, animou-se a perguntar o General.

 “Meu barraco veio abaixo com as enxurradas, um inferno. A lama soterrou tudo. Por sorte eu morava só, senão estariam todos mortos.”

“Por falar em morte, será que a tal da vida após a morte é isso que estamos passando? Às vezes tenho até a impressão de estar um pouco vivo.”

“O que é isso, General? Nós estamos mortos, acontece que devido a algum fenômeno você despertou e conseguiu acordar-me de meu sono. Espero que a situação criada acabe. Imagina só, ficar dentro de um caixão conversando abobrinha pela eternidade e com alguém que nunca vi mais gordo ou mais magro na vida”.

“Já não sei mais nada. Tudo é tão estranho. E qual a sua religião? Adianto que sou católico praticante.”

“Eu nunca fui muito de religião, mas sempre trouxe Deus no coração. Mas para que vale isto agora?”

Foi nesse momento que os dois perceberam certo ruído familiar produzido ai pelos lados do morto pobre. “General, parece que temos companhia. Acho que ou aboliram a morte ou se aproxima o fim do mundo.”

“O som pelos seus lados. Vou tentar ensina-lo a se comunicar como fiz com você.” E novamente o “Oi” foi reproduzido à exaustão, até que houvesse uma retribuição.

 

O Susto dos Bêbados.

Os dias de tormenta obrigam as pessoas a ficarem em casa, protegendo-se, é um cemitério é sempre o último lugar a ser visitado, exceto por aqueles para os quais se busca a última morada. E, o Cemitério Perfeito não era exceção à regra, e se algum movimento havia era na Ala C, pois os pobres eram os únicos  resolvidos a morrer, vítimas de enchentes e desmoronamentos.

No entanto, Bela Vista, como toda cidade que se preza tinha seus bêbados e dois deles, Pedrão e o Ed, aliás, os mais conhecidos, tinham há anos por hábito tomarem o último gole na casa dos mortos. É bem verdade que sempre davam um jeito de terminarem as jornadas na ala dos insignes, rodeados pelos ciprestes, flores, em baixo das acolhedoras capelas.

O delegado Décio já os tinha posto em cana diversas vezes, sempre que algum mausoléu tivesse sido profanado ou alguma gaveta mortuária aberta. Como nada se provara sempre os tinha liberado dois ou três dias depois.

O certo é que a preferência mórbida do Pedrão e de seu companheiro incluía frequentes visitas ao dentista da cidade, irmão do doutor Décio. E as más línguas diziam que os ouros das dentaduras dos ricos eram de herança de pais para filhos, graças aos bêbados mais famosos da cidade.

Mas tudo isso são histórias. O certo mesmo é que Pedrão e o Ed apreciavam a tranquilidade do campo santo para relaxarem entre eles e tomarem o último gole da noite.

De todo modo, munidos de seus impermeáveis, trazendo à mão uma garrafa de cachaça pituzinha, os dois atravessaram os obstáculos pelos cantos por eles conhecidos e se estabeleceram na primeira capelinha que encontraram.

“E lá a chuva ia nos incomodar, meu amigo?”

“Verdade, Pedrão, mas êta chuvinha brava, sô.”

“Ed, deixa de ser delicadinho, nós estamos bem abrigados e esta capela é um primor, nem goteira tem.”

“Pedrão, você se lembra daquela modinha das caveiras que se amavam? Acho que era do Alvarenga e Ranchinho. Daqui a pouco seremos nós dois.”

“Se lembro! Era mais ou menos assim... Eram duas caveiras que se amavam e à meia noite se encontravam, assim, né? Mas que hoje tá bem do jeito de música de assombração, tá, não tá? Passa a garrafa da pituzinha, aí”.

Foi nesse momento, que mais ou menos ao longe os bêbados ouviram as doze badaladas que os sinos da Catedral repicavam. Quando os badalos pararam, ao mesmo tempo Pedrão e Ed ouviram certo ruído.

“ Pedrão, está ouvindo algo? Acho que dessa vez andamos bebendo demais”.

“Mas a gente nem esvaziou a cachacinha. Que coisa estranha, será que estamos ouvindo alguma alma penada? Vai ver que é daquela última que eu falei pra tomar cuidado e não arrancar dente que não tivesse ouro.”

“Te esconjuro, Pedro, vai ver que é alguma coruja ou o barulho do vento nas árvores.”

“Olha, Ed, pelas dúvidas, é melhor a gente ir embora.”

“Fica quieto que é pra gente ouvir direito”. Os dois se calaram e prestaram atenção, e ao escutarem, não um, mas dois ruídos vindos de cantos diferentes sussurraram com medo de serem escutados: “Fomos embora daqui!”

E lá saíram os dois em desabalada carreira, abandonando garrafa e impermeáveis. Carreira de bêbado, interrompida logo em uma das sepulturas, em cuja terra levantada tropeçaram, estatelando-se no solo barroso.

Por incrível coincidência, haviam caído justamente na cova do segundo morto, o sem placa com o nome. Foi quando, ouvidos postos no chão, escutaram para valer os sons guturais que aquele produzia.

Como por magia, o efeito da bebida desapareceu e os dois, na desabalada carreira que empreenderam poderiam ter-se candidatado a uma premiação olímpica. Uma vez fora do cemitério, Pedrão e Ed se abraçaram, tremiam como varas verdes. Afinal conseguiram pronunciar as primeiras palavras. “Eu falei que a gente não deveria bulir com os mortos”. “Ora, Ed, e você já viu morto precisar de dentes, não fizemos maldade alguma, não”.

“João, será que é o Juízo Final?”

“Sei não, mas acho melhor a gente avisar o delegado, né?”

“Ele vai dizer que a gente foi roubar ouro. É melhor a gente ir pro boteco do Mané e contar pros outros.”

E lá foram os bêbados mais famosos da cidade a compartir as novidades  funéreas com outros companheiros de bebida.

 

O Barulho de Morto.

Quando os dois chegaram esbaforidos ao boteco do Mané todos se surpreenderam, afinal, os Pedrão e Ed nunca perdiam a linha, nem quando iam pro xilindró. E eles estavam todo embarreados, roupa, cara, cabelos.

“Olha quem chega, o que aconteceu, vocês estão com cara que viram sombrações desdentadas”, disse seu Mané a sorrir.

“Seu Mané, ver mesmo, não vimos, mas ouvimos”.

“Beberam demais. Nós já estamos fechando, mas ofereço a saideira.”

“Estamos bêbados, não.” Além do proprietário, os outros cinco clientes se aproximaram.

“Vocês estão precisando de uma chuveirada e roupa limpa e seca. Maria, minha filha, trás pros fregueses alguma roupa pra eles se aquecerem ou vão resfriar. Tomem um conhaquinho pra ir aquecendo.” Seu Mané era muito boa gente.

Dona Maria trouxe duas mudas de roupa e os dois amigos foram para os fundos do bar onde se lavaram como puderam e colocaram as roupas. Quando voltaram mais calmos para o bar, o Zé das Máquinas disse: “Sabe, gente, uma vez, de tanto que eu tinha bebido, tropecei na raiz de uma árvore e cismei que era uma cobra. Peguei um pau e dei tanto na pobre que a pobre raiz morreu.”

Com exceção do Pedrão e do Ed, todos gargalharam. Foi Pedrão que, sério, falou: “Nós ouvimos assombrações falando.”

“E o que diziam”, perguntou por mofa o Zé das Máquinas.

“É sério, gente. Nós estávamos no bem bom, sentados numa capela do cemitério e só tínhamos dado o primeiro gole da cachaça. Aí, depois das doze badaladas, começamos a ouvir um ruído estranho, que vinha das profundezas do inferno. Não um ruído, mas dois, de dois lugares!”

“Pedrão está falando a verdade, foi logo depois da gente cantar aquela do Alvarenga e Ranchinho, das caveiras que se amavam.”

“Vai ver que as caveiras estavam com ciúmes de vocês”, falou Zé das Máquinas, com pouca convicção e emendou, “ou estavam reclamando os dentes que vocês arrancaram”.

Antes que os demais começassem a rir, Pedrão emendou: “Veja lá se pegamos dente de pobre. É tudo podre, ouro nada! Vocês viram em que estado chegamos aqui. Depois que ouvimos o barulho de morto saímos correndo e sabem o que aconteceu? Tropeçamos e caímos num túmulo e quando demos com a cara no chão, vimos que um dos barulhos saía dali mesmo. Da cova rasa de um pobre.”

“Seu Mané, há quanto tempo a gente se conhecesse. Somos gente de respeito, jamais aplicamos peta em ninguém.”

Seu Mané coçou a cabeça e disse: “Gente, é verdade, Estes dois nunca deram vexame. E são fregueses do cemitério desde que os conheço. Que uma peta, dia ou outro a gente fale, tudo bem. Mas agora parece que deve ter alguma coisa naquele cemitério.”

Quem propôs, traçando o próprio destino, que fossem todos juntos ao cemitério, foi o Zé das Máquinas. “E se a gente não encontra nada, estes dois vão pagar uma rodada pra todos nós e vai ser de vodca, nada de cachaça.”

“Então, cada um se abriga e vamos lá ouvir o tal do barulho de morto”, batizou o seu Mané.

 

A Primeira Baixa.

E lá foi o coletivo do boteco do seu Mané para a Rua da Saudade, refazendo o mesmo caminho dos bêbados eméritos. É bem verdade que, quando chegaram ao portão de ferro da Ala C que nunca fechava, todos sentiram certo afrouxamento de disposição. Alguém propôs: “Está chovendo muito, não é melhor o Zé das Máquinas e seu Mané entrarem com o casal e depois saírem para contar pra gente?”

Quem reagiu e impôs sua liderança foi seu Mané. “Aqui não tem casal e nem casaca. Cada um cuida de sua intimidade. Agora dar uma de cagão não dá, não. Vamos todos ou ninguém. Vão me dizer que têm medo de assombração?”

O breu da noite, o barulho da água a cair, o rugir de trovoadas e o vento, faltava muito pouco para que o clima de filme de terror se impusesse. Mas lá foi o nosso valente grupo. Caminhavam devagar em fila indiana, indo à frente o Pedrão e o Ed, evitando como podiam tropeçar nas elevações dos túmulos. Coincidentemente, os sinos da Catedral próxima anunciava a segunda hora da madrugada. Foi ao final do badalar que o barulho de morto se fez ouvir.

O que se viu foi uma debandada geral. Cada qual correu para o lado que o nariz apontava. Alguns caíram sobre túmulos, outros se embrenharam, até que o berro do Pedrão se impôs e todos passaram a segui-lo, ele que conhecia cada palmo de terra.

Só respiraram quando o portão do cemitério foi transposto. Os homens todos pálidos e encharcados, alguns, embarreados. “Vamos embora daqui, disse seu Mané.” Mas alguém se deu conta de que o Zé das Máquinas não saíra do cemitério. O que teria acontecido? Era provável que, caído, tivesse se contundido e não conseguisse andar.

“Temos que ir busca-lo”, alguém falou, ao que outro anadiu: “Tudo bem, mas o Pedrão e o Ed que nos colocaram na enrascada que devem ir.”

E lá foram os dois tremendo de volta para o cemitério. Agora, aos ruídos da fúria da natureza e do barulho dos mortos somavam-se os berros dos dois procurando pelo amigo. Nada, nenhuma resposta.

“Ed, vamos atrás do ruído que vem do túmulo onde caímos”. A inspiração de Pedro estava certa. Estendido sobre o túmulo esta de bruços o Zé das Máquinas. Chacoalharam o homem e nada. Gritaram seu nome, e nada. Então, cada um, somando o resto de forças que tinha, agarrou Zé por um braço e o arrastaram para fora do campo santo.

 Na rua todos se aproximaram e seu Mané procurou escutar o coração do amigo. Nada. Levantou-se sombrio e disse: “Deus me perdoe, o homem morreu!” “Deve ter sofrido um enfarto quando caiu sobre o túmulo do cara que faz mais barulho”, emendou Pedrão.

 “Morreu foi de medo, emendou Diógenes”.

O desespero tomou conta do pessoal. A dúvida era pra onde ir. Delegacia ou hospital, mas como carregar o corpo? Para que ninguém se intrometesse, colocaram o cadáver do Zé das Máquinas encostado ao muro como se dormisse e foram até a delegacia que não era nada distante.

 

Na delegacia.

O trabalho no posto policial do bairro da Saudade era intenso naqueles dias. Muitas ocorrências, desabamentos, colisões e, até mesmo algumas agressões.

Quando o grupo comandado pelo seu Mané chegou respingando a água, barro e suor, o investigador Uilson já fez sua cara de poucos amigos. Afinal conhecia do bairro a maioria daqueles homens. “O que vocês estão fazendo aqui? Não veem que estão sujando toda a delegacia?”

“Viemos do cemitério, disse o Diógenes”.

“Olha aí, se estiverem bêbedos vou por todo mundo no xadrez. Até o senhor está com eles, seu Mané?”.

Quem se adiantou foi o Pedrão, que era o mais conhecido no pedaço: “Ninguém aqui bebeu nada seu Uilson. Estamos aqui porque o barulho do morto matou o Zé das Máquinas.”

O investigador começou a se enervar. Parecia história pra boi dormir. Primeiro sujavam toda a entrada da delegacia, depois vinham com um papo de doido de morto que matara um vivo. “Que história é esta? Quem matou quem e por que? Se vocês estiverem sacaneando a autoridade o pau vai comer.”

Aí seu Mané se adiantou e confirmou a história e que o corpo estava encostado no muro do cemitério. O argumento funcionou e o investigador apontando-o disse você vem comigo que vamos ver esse morto. Os outros vão espalhar barro fora da delegacia. Esperem lá até voltarmos.

E assim foi feito. Em menos de uma hora haviam recolhido o cadáver para o IML e retornaram. “Agora vocês vão contar toda a história direitinho para o delegado.”

O delegado Ercílio só os atendeu quando o dia ameaçava a raiar e os atendeu de muito mau gosto. Alguns daqueles bêbados eram bem conhecidos, outros haviam sido seus hóspedes. Por isso suas perguntas foram feita quase todas para o seu Mané. “Seu Mané, nós já sabemos que o Zé das Máquinas teve um infarto, mas diga-me uma coisa, com tanta chuva, raios e vento tem certeza que não foi estes ruídos todos que você ouviu? E num cemitério deserto, na madrugada?”

“Doutor, todos nós temos certeza de que aquilo que ouvimos e que matou o Zé das Máquinas de infarto não era nem natural e nem humano. E não era um só morto que fazia barulho, tinha som vindo de três ou quatro lugares, até mesmo da ala dos ricos. O senhor quer saber, até agora estou todo arrepiado.”

O delegado coçou que coçou a cabeça, com tanto pepino para resolver e aquela de barulho de morto agora? Mas o que fazer, com o infartado no IML tinha que averiguar. “Vamos fazer o seguinte, eu, o Uilson e seu Mané vamos até o cemitério ver toda esta história, os outros, cada um para sua casa.

E assim foi feito.

O delegado Ercílio ao retornar da diligência apôs ao documento oficial a seguinte observação:

“Tendo em companhia do investigador Uilson de tal e do depoente, Manoel de tal, realizado a diligência no local da ocorrência do falecimento do senhor José de tal, cognominados de “das Máquinas”, verificamos no Cemitério Perfeito a ocorrência de estranho ruído, de tonalidade gutural, proveniente de três locais distintos a serem posteriormente melhor identificados, que o depoente presente denomina de “barulho de morto”. Teria sido referido barulho que provocara o infarto, ainda a ser confirmado pelo serviço médico legal, do falecido José de tal. Dou fé, etc., etc., etc....

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