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© 2019 por Carlos Russo Jr.

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“Conversa no Cemitério”

Sobre o Autor e outro viventes

O Autor.

O paciente leitor ainda nada sabe sobre minha pessoa, chegada é a hora de nos apresentarmos.

Em primeiro lugar peço que não se confunda, pois não sou escritor e menos ainda um bom contador de histórias. Também não sou homem de muitas leituras, embora dificilmente possa ser considerado um ignorante, pois devido a me haver tornado incapacitado para ler, tornei-me um pensador.

Acontece que sou cego desde os meus vinte anos de idade. Logo, este é um texto ditado e se o leitor nele hoje pode deitar os olhos, o faz graças à Anita, minha fiel companheira, que teve a boa vontade e a paciência de anotar todos os dados, circunstâncias e movimentos dos atores envolvidos neste caso, assim como datilografar todos os meus ditados.

E acontece que sem a minha cegueira para o mundo tão pouco este livro existiria.

Sei que o que vou dizer irá surpreendê-lo e, creia em Bela Vista quase todo o mundo também se surpreendeu e dentre eles, eu especialmente, com as habilidades inexplicáveis, tanto para a ciência quanto para a religião que revelei possuir.

Por uma série de dias, creia-me tornei-me uma pessoa requisitada, ouvida pelas autoridades da cidade e, mesmo, algumas da capital que até aqui aportaram. A imprensa, então, trouxe repórteres de até milhares de quilômetros somente para me ouvirem.

Depois cientistas se puseram a me examinar a cabeça, começando por uns fios que diziam medir a condução das ondas elétricas cerebrais. Um dia colocaram-me em um avião e lá fui eu para a capital. Pela primeira e única vez na vida fui hospedado em um hotel de luxo, com direito a motorista para meus deslocamentos. Foi quando realizaram diversos exames com estranhos nomes como tomografia, ressonância magnética.

De repente os cientistas localizaram um pequeno nódulo no meu cérebro para o qual não possuíam explicação, como se tivéssemos explicações para cada verruga que nos surge. Passei a ter meu sangue extraído quase diariamente.

Um belo dia, os homens da ciência resolveram que deveriam abrir meu cérebro, usando um tipo de broca para extrair a pequena ervilha que lá estava.

Ai eu achei demais, e meu advogado conseguiu que um juiz proibisse o tal procedimento especial que queriam realizar. Foi reconhecido meu direito a não ter o cérebro invadido.

Foi então, que do dia para a noite, eu um pobre e desconhecido cego de uma cidade do interior, tornei-me um astro de televisão; os repórteres que chegavam de todos os lados realizavam um cerco permanente à minha casinha, a mim e à Anita. Formavam plantões, revezando-se para que nenhum movimento nosso fugisse de seu alcance.

É minha obrigação dizer que, a princípio eu até mesmo gostei da fama e quem não a apreciaria? Devo igualmente confessar que até mesmo algum dinheirinho extra eu acabei ganhando com tudo aquilo. Foi um repórter estrangeiro quem primeiro me ofereceu um “fee” por uma entrevista. Gostei tanto que, a partir daí  eu somente concedia entrevistas mediante alguma grana.

Vocês podem imaginar como minha vida foi revolucionada, posta de ponta cabeça. Não é nada difícil uma pessoa humilde adaptar-se à notoriedade, mas quando tudo passa retomar a vidinha apagada de sempre, a partir do instante que tudo procura ser esquecido e você, por ser parte da novela, também deverá sê-lo, isto já não é nada fácil de aceitar. Talvez seja exatamente por estes motivos que decidi escrever minhas memórias.

Mas isto já é outra história, vamos aos fatos, que é o que mais interessa.

 

A descoberta de minhas estranhas habilidades.

Jamais na minha vida eu algum dia imaginara que os mortos poderiam falar entre si, o que dirá de poder entender o que eles dissessem!

De minha parte, tudo começou quando, tendo a tempestade amainada, fui com Anita prestar minha homenagem ao amigo Zé das Máquinas. Coloquei meu melhor terno, minha inseparável bengala branca, chapéu e capa e fomos caminhando em direção ao portão de ferro, aquele da ala destinada ao enterro dos pobres, onde os poucos presentes se juntavam.

Foi ao chegar ao enterro, Anita se pôs a conversar com uns, sempre por cochichos, e veio me dizer que o Zé tinha morrido de susto pelo barulho dos mortos. Era esse o assunto de todos.

Logo de cara, achei aquilo uma invencionice de quem nada tem a fazer. Mas Anita não concordou comigo: “Tem até testemunha. O homem enfartou de medo” me assegurou ela. E ajuntou “por isso tem tão pouca gente no enterro, o pessoal está com medo.”

Às vezes um cego enxerga mais além do que quem muito vê. “Anita, o Zé não era supersticioso, acho que nem em coisa do além ele acreditava. Morreu porque o coração quis, ora bolas. E quanto ao pessoal não vir ao enterro é coisa de gente supersticiosa, ignorante.”

“Mas Dudu, assim minha mulher me chamava, se tem testemunha e até o delegado Ercílio se convenceu!”

Ao atravessarmos o portão, senti meu estômago se apertar, minha garganta se fechar e as pernas bambeavam. Procurei o apoio do ombro da Anita e ela me amparou para que eu não caísse. “Que foi Dudu, você está se sentindo mal”?

Antes que minha mulher e aqueles que vinham atrás para acompanhar o enterro, eu ouvira com a audição de cego, o tal do barulho de morto, que não era um simples ruído, mas uma conversa! A surpresa me fez suar, o ar faltou-me no peito, o coração disparou.

“Dudu, vamos embora, você não está bem e teu amigo já morreu mesmo.” Foi ao final da frase que Anita principiou a ouvir o barulho e também começou a suar frio. “Dudu, esse som vem do fundo dos infernos, vamos embora, me suplicou!”

Mas eu começava a me recompor e lhe disse: “Espere, Anita, não tem nada de barulho dos infernos, não. Alguns mortos estão conversando e eu começo a entender o que dizem. Mas se você estiver com muito medo, espere-me fora do cemitério, agora eu fiquei mais curioso que medroso.”

“Você sabe que eu não lhe deixo por nada, né? Mas espere, ali tem uns policiais, vamos falar com eles, pois todo mundo que veio pro enterro fugiu.”

A verdade é que, desde a noite anterior, alguns policiais, a contragosto, por ordem do delegado, tinham passado a vigiar o cemitério. Só quando o dia clareou é que se animaram a entrar e, aos poucos, foram se acostumando ao barulho que vinha do além. De todos os modos eles acalmaram Anita, pois se barulho tinha, ele não fazia mal a ninguém. E para mais, nenhuma alma danada iria surgir por aí durante o dia.

De todos os modos, o corpo de meu amigo baixou à sepultura apenas na nossa presença e na da viúva que, desafiante, ficara ao lado de Anita. Foi quando tudo terminou que eu disse à minha mulher que desejava ficar um pouco no lugar e compreender o motivo da conversa entre os mortos.

“Dudu, você deve estar leso da cabeça. Os mortos, se é que sejam eles, só fazem barulho, só você que os entenderia? Ora, vamos embora que a chuva está a aumentar de novo.”

Fazer o que? Eu tinha que acompanhar Anita que me puxava. Foi quando chegamos ao portão do cemitério que tudo se complicou.

 

O Delegado Ercílio.

Formara-se, mesmo abaixo de chuva, uma multidão na entrada do cemitério. Anita tentava pedir licença e a minha bengala não cessava de encontrar pernas e mais pernas.

Em cima de um caixote um homem berrava: “É chegado o fim dos tempos, aquele que foi crucificado voltará e separará o joio do trigo. Arrependei-vos irmãos, é chegada a hora da verdade.”

Não podendo enxergar ouvia que o “amém” era reproduzido por centenas de pessoas. Pedi para Anita descrever-me tudo o que via. Mais e mais gente que não parava de chegar.

“Os mortos despertam para a vida eterna! Os puros e os arrependidos subirão aos céus! Os pecadores e os empedernidos descerão aos infernos!” A multidão permanecia em êxtase e preces eram entoadas a cada interrupção do pastor. “A tempestade é o dilúvio a anunciar a volta de Israel, do Messias, arrependei-vos, irmãos!”

Muitos se ajoelhavam na lama da rua, o que tornava a saída de quem quer que fosse absolutamente impossível. Criei coragem para dizer: “Anita, este pessoal tem uma fé que só chega até o fim do dia. Quando chegar a noite voarão para casa, portanto, vamos entrar e ficar até escurecer.”

Anita concordou e eu pedi que ela conseguisse um lápis e papel para anotar as conversas que eu ouvia. Olhando ao redor ela reconheceu o delegado Ercílio e pediu-lhe papel e lápis para fazer anotações. “Sabe, o Dudu cismou que entende o que os mortos falam e quer que eu copie tudo.”

O delegado pediu que ela repetisse o que havia dito. “Bom tenho visto e ouvido tanta coisa de ontem para o hoje que é até possível que um cego entenda papo de morto”. Dizendo isto chamou Uilson e falou para que conseguisse lápis, caneta ou o que fosse o que fosse, papel ele tinha.

E seguimos juntos até a cova mais próxima de onde saia um som mais forte. “Anita anota ai, eu disse, um som forte, dois fracos, dois fortes, parada, um forte e outro fraco”, e assim em diante.

Foi quando o delegado quase deu um salto: “Mas eu não estou ouvindo nada disso, seu Dudu. É só um ruído disforme, o senhor não está brincando, está?”

Fui obrigado a interromper o ditado, pois o homem se punha nervoso. “Doutor, os mortos estão conversando por código que parece ser o Morse.” “E lá o senhor entende o Morse”, perguntou-me.

“Não, delegado, não sei nada de códigos, mas consigo distinguir sons fortes de fracos e interrupções e era por isto que pedi para a Anita anotar para que alguém que entenda os decifre, mas o senhor me interrompeu. E mais a mais o senhor acha que eu ia bulir com os mortos?”

“Bom seu Dudu, o senhor me convenceu, vou dar-lhe um voto de confiança, continue a ditar à vontade. Eu vou tentar trazer ajuda.” Afastando-se um pouco, ligou o celular abafando a voz. Acontece que cego que é capaz de ouvir voz de morto é porque ouve até à distância. “Rogério, saia da delegacia e traga mais dois com você. Serão responsáveis pela segurança do senhor Dudu e esposa. Farão tudo o que eles pedirem.”

Desligando o celular, veio até Anita e disse: “Eu vou ter que sair. Lá fora está tem gente arrancando as roupas, surge um pastor doido a cada meia hora e daqui a pouco vira baderna. Mas vem gente minha para proteger vocês. E a senhora, dona Anita, continue a anotar tudo”. E virando-se para Uilson, disse-lhe “vamos sair de qualquer jeito, mesmo que seja na porrada, a questão pode ser de segurança nacional”.

 

O Capitão do Exército.

Não decorreu muito tempo até que o delegado retornasse em companhia de dois oficiais do Exército. “Seu Dudu, dona Anita, estes são o Capitão Albernaz e o Sargento Garcia. Conte a eles o que estão ouvindo, ou melhor, anotando.” Ao mesmo tempo, o delegado dispensou seus investigadores. “Lá fora já está tudo sob controle, o Exército prendeu uns doidos e acalmou os ânimos, mandando os crentes para suas casas.”

O Capitão logo tomou das mãos de Anita as anotações que vinha fazendo, e depois de entrega-las ao Sargento Garcia, perguntou-me se eu tinha certeza de que ouvira realmente tudo aquilo. Acontece que nesse momento a conversação no cemitério havia aumentado. Outros pontos se comunicavam e eu tinha certeza que um deles provinha do túmulo do Zé das Máquinas, morto fresquíssimo, mas o som que emitia era um pouco diferente dos demais, o que até mesmo o Capitão Albernaz notou. “É que ele ainda está aprendendo com os outros”, eu lhe disse.

Talvez fosse coincidência, mas o tom dos ruídos aumentara consideravelmente na última meia hora e provocava certo mal estar pelo volume.

Foi então que o Sargento chamou reservadamente seu Capitão e lhe disse que tudo o que Anita anotara era código Morse, sem tirar nem por, com alguns erros, mas Morse. Pude ouvir o que lhe disse o Capitão: “Para mim é tudo armação. Mande o pelotão cavar e ver o que tem dentro desses túmulos. Aposto que vai encontrar celular, gravador, qualquer coisa que produza o código e ruídos. Quanto ao cego acho que faz parte do esquema, não vamos perdê-lo de vista, mas pelas dúvidas, continue anotando todas os seus toques e recolha as anotações”.

A próxima meia hora foi de grandes trabalhos. Pelas portas do cemitério entraram dois enormes caminhões do Exército e um pequeno jipe.

Foi Anita quem me cochichou que muitas sepulturas haviam sido esmagadas pelas rodas, cruzes despedaçadas, um verdadeiro desrespeito para com os mortos pobres. Eu lhe disse: “Exército só sabe o que é fazer a guerra e matar, agora é tratar de matar os cadáveres.”

Aí os soldados, sob os holofotes de campanha começaram as escavações.

A primeira cova a ser aberta foi a do Zé das Máquinas. Levantaram o caixão, reviraram tudo em volta. Nada achando, abriram o esquife e aí houve um princípio de confusão na tropa, pois quando se expos a cara do morto o ruído que dela provinha quase duplicou. Os soldados largaram tudo o que tinham em mãos e ensaiaram debandar. Foi quando com um tiro para o alto dado pelo Capitão tentou colocar a disciplina no lugar. “Quem sair daqui será considerado desertor. Vocês são homens ou um bando de maricas? Morto não fala, voltem pro caixão e vocês vão encontrar o que produz o som.”

Um a um os soldados voltaram e nesse momento senti-me feliz com minha cegueira que me impediu de ver a barbarização feita com o cadáver do meu amigo, do qual arrancaram tudo o que podiam, ao ponto de esquarteja-lo. Quase uma hora se passou até o Capitão Albernaz dar-se por vencido, pois nenhum celular, microchip, nada enfim fora encontrado no que um dia fora o corpo de meu amigo. “É, esse infeliz não tem transmissor nenhum. Ponham todas as vísceras no lugar, fechem o caixão e enterrem novamente”.

E assim foi feito. Só então o Capitão voltou-se para minha pessoa. “O senhor vem conosco. Pode trazer a esposa”.

Ao deixarmos o cemitério vimos que, apesar das ordens do Capitão, nova multidão se formara agora a uns cem metros do cemitério e os oradores já não enrouqueciam. Como surgidos do nada, caminhões com aparelhagem de som haviam surgido e todos anunciavam o final dos tempos citando salmos, salmos e mais salmos.

 

O filho de dona Ofélia.

Foi quando chegamos ao quartel que nos damos conta de como a notícia já se espalhara por toda parte, mas vamos aos fatos por ordem cronológica.

Saímos do cemitério na boleia de um dos caminhões, eu, a Anita e o motorista, um soldado raso que verde de susto, tremia da cabeça aos pés. “Calma, menino, disse-lhe Anita, você por acaso não é o filho da dona Ofélia?”

“Sou sim senhora. Também a conheço e ao senhor Dudu, a gente era vizinhos quando eu era criança.” Sentindo-se familiar, o soldado abriu-se sobre aquilo que o havia exasperado. “Eu acho que a gente não deveria ter barbarizado o morto. Aquilo é pecado, não se faz! Mas o que a gente podia fazer, ordens são ordens, o pobre Zé das Máquinas, no outro mundo deve estar muito triste daquilo que a gente fez com o cadáver dele”.

“A gente também acha que profanar uma sepultura não está certo”, disse a Anita, ao que eu complementei: “É falta de respeito do tal do Capitão Albernaz para com os mortos”.

“Mas agora, senhor Dudu, o que os mortos estavam falando? Todo mundo está curioso e ninguém diz nada.”

“Ora, filho, eles se comunicam em código Morse, e quem o comprovou foi o Sargento Garcia. Eu não entendo nada de código nenhum, só consigo diferenciar os tipos de ruídos e intervalos. A Anita anotou tudo, mas teve que entregar os papéis. Mas fique tranquilo que essa história do fim do mundo só vai acabar levando mais dinheiro do bolso dos pobres para o dos Bispos.”

“Seu Dudu, eu também não acredito nesses caras, o fim do mundo se vier, não será através de uns poucos mortos desse fim do mundo. Mas eu e a turma do quartel estamos loucos pra saber do papo entre eles. Sabe, eu tive um curso de comunicação no Exército onde aprendi o código Morse. E tem muita gente que sabe também. Acho que não tem nada demais eu ensiná-lo ao senhor numa folga minha. Mas ficaria como um segredo entre nós.”

“Também tenho minha curiosidade. Se você fizer o favor de me ensinar, depois de passar as anotações por oficiais, saberei sobre o que os mortos estarão falando.”

“Estamos combinados, amanhã à noite vou à casa de vocês. Em duas ou três lições serão suficientes para o senhor. O resto é prática, e esta o senhor terá no cemitério. E depois o senhor me conta, combinado?”

Quando chegamos ao quartel, o Capitão havia mudado totalmente de humor para conosco. Recebeu-nos cara aberta, sorrisos e gentilezas. Conduziu-nos à sua sala onde estava servido um serviço completo de chá, café, bolinhos e salgados.

 

Uma noite sem fim. 

O próprio Capitão nos serviu gentilmente, mas pude perceber que na sala havia mais pessoas. Foram-nos apresentados como os doutores Valdir e Brilhantes. Posteriormente viemos saber que pertenciam ao Serviço Secreto. O mais graduado dos dois nos disse: “Todos nós estamos preocupados com estes estranhos acontecimentos. Queremos esclarecê-los o mais rápido possível. Os senhores estão, a partir de agora, sob a tutela do Exército.”

Aquilo logo de cara me cheirou muito mal. Tutela do que? Por quê? Para que? E lá eu queria saber qualquer coisa com exército algum. Eu já era maior e vacinado, eles que pusessem seus próprios filhos sob a tutela deles. Ia reclamar, Anita sacou e me deu um beliscão.

“Nós precisamos conhecê-los melhor”, disse-nos o tal do Brilhante. Fizeram-nos contar toda a nossa história de vida que, de tão comum, não ocupou nem dez minutos. História de gente humilde é assim mesmo. No final queriam saber se acreditávamos no Juízo Final.

A coisa ai ficou no empate. Eu disse que achava aquilo tudo besteira, enquanto Anita tinha lá suas crenças, não muito firmes, mas tinha.

A próxima pergunta foi se pertencíamos ou simpatizávamos com algum partido político e em quem havíamos votado na última eleição. Respondemos que nada tínhamos a ver com política, mas que tínhamos votado no Lula na última eleição.

Algum deles tomava nota de tudo o que dizíamos. Acho que ficamos mais de uma hora naquele lengalenga, sempre interrompidos por ligações telefônicas que o Capitão levantava-se para atender em outra sala. Foi num de seus retornos que anunciou: “Senhor Dudu, vamos voltar ao cemitério ainda hoje. A dona Anita pode ir para casa repousar.” Ainda hoje, perguntei ao que o Capitão respondeu que já que eu podia entender a comunicação em código dos mortos, talvez também pudesse perguntar-lhe coisas no mesmo sistema.

De todo os modos Anita não aceitou deixar de me acompanhar e para evitar conflitos, o Capitão cedeu. E lá fomos nós na boleia do mesmo caminhão, com o mesmo soldado, o filho da dona Ofélia, de volta ao cemitério. Soubemos através do rapaz que o molho aumentara. Que da capital haviam chegado equipes de investigadores, psicólogos, médicos e sei lá mais quem. E que estávamos sendo escoltados por batedores em motos para dispersar os crentes que poderiam dificultar a entrada no cemitério.

Quando chegamos, Anita me disse que parecia dia. Tudo estava iluminado por poderosos holofotes. Há uns dez metros do túmulo do Zé das Máquinas haviam armado uma tenda de campanha e colocado cadeiras para que ficássemos confortáveis. E já havia estafetas para anotarem tudo o que eu pudesse ouvir.

O Capitão ao chegar, perguntou-me se ainda eram os mesmos cadáveres que se comunicavam. “Não, Capitão, agora distingo quatro mortos diferentes que se falam.” Sentando-se ao meu lado ele me pediu que emitisse sons de acordo com batidas que faria no meu braço. Eu tratei de procurar adaptar minhas cordas vocais para fazerem sons curtos e longos, intervalos, de acordo com as instruções do Capitão. Emitia os sons o mais alto que podia e aguardava resposta.

Nada. Os mortos seguiam a emitir seus sons sem tomarem conhecimento de minhas falas. Após quase meia hora de tentativas infrutíferas, o Capitão comentou com o tal de doutor Brilhante: “Os caras, aparentemente, continuam a falar bobagens entre si, mas não entendem ou não escutam nada que o cego transmite.” Então eles me pediram que voltasse somente a reproduzir o que ouvisse a seus estafetas e afastou-se. Quando retornou, trouxe consigo um soldado com um antigo aparelho de telégrafo para emissão de código Morse, mas depois de pouco tempo, o Capitão desistiu e dispensou-o. “Os mortos não nos escutam de jeito nenhum”, foi sua conclusão.

Fomos dispensados lá pela madrugada, mas tiveram a gentileza de nos deixarem em casa. E o dia seguinte foi de calmaria, ninguém para nos aborrecer e pudemos descansar. Até mesmo o filho de dona Ofélia aproveitou a folga para me dar umas lições do famoso código.

Devo confessar que os cegos adquirem algumas vantagens adicionais sobre os demais viventes, talvez uma forma de a natureza compensar a principal perda dos sentidos. Tanto nossa concentração quanto nosso pode de audição são aguçados. De tal forma que, em menos de duas horas, ao contrário de Anita, eu já adquirira a capacidade de entendimento do Morse, desde que os sinais fossem transmitidos de forma lenta.

Foi também, graças ao filho de dona Ofélia que soubemos que haviam trazido para nossa cidade aparelhos sofisticadíssimos de comunicação. E junto com a aparelhagem, técnicos e mesmos alguns outros cegos, para que não ficassem em minhas mãos. No entanto, se os aparelhos de comunicação para nada serviram, o mesmo de passou com os novos cegos.

Foi lá pelas onze horas, passados dois dias que o Capitão pessoalmente nos telefonou: “Daqui a uma hora passo a busca-los. O senhor precisa nos ajudar a compreender os mortos. Evitem comentar com outras pessoas. Recebi instruções que este passa a ser assunto de segurança nacional”.

O que eu definitivamente não conseguia entender é o que uma simples fala entre os mortos do Cemitério Perfeito teria a ver com a segurança de meu País. Segurança de quem, contra quem?

De como o Capitão se indispôs comigo.

E precisamente às 12 horas, lá estava nosso transporte. No cemitério, agora isolado da população por cordões de isolamento, voltaram a me sentar na cadeira “do cego” e eu recomecei a ditar para o soldado ao lado os sons que vinham dos túmulos. Hoje a conversação estava meio lenta, cansada e eu conseguia entender a maior parte do seu sentido.

Não me recordo muito bem em que momento cometi o erro que iria colocar por água a baixo toda a tentativa de sigilo do Exército, mas o que sei é que em determinado momento, esqueci-me de reproduzir os sons longos e curtos e passei a ditar o que ouvia. O soldado ao meu lado demorou alguns minutos anotando diretamente a fala, até que se deu conta e chamou seu superior.

Quem surgiu berrando primeiro foi o tal de Brilhante. “Quer dizer que o ceguinho entende Morse, então”. Em seguida deu-me um tapa no ouvido direito, que quase me fez cair da cadeira. A seguir chegou o Capitão também furioso: “Mas por que o senhor não nos avisou que conhecia o código? Fez o Exército de palhaço e isto vai lhe custar caro.”

Minha salvação foi não perder o sangue frio e meu jeito interiorano.

“Senhor Capitão, saber o código eu não sabia não. Mas de tanto ouvir toques longos, toques curtos e intervalos, acabei entendendo a lógica da comunicação e sem segunda intenção, passei a ditar diretamente para o soldado para economizar o trabalho de vocês. E hoje os mortos estão falando devagar, estão com preguiça e isto facilitou minha compreensão”.

“Essa é boa, agora, os mortos estão com preguiça e o senhor nos tratando de otários”.

“De modo algum, vocês têm todo o meu respeito, são o Exército Brasileiro”.

“É bom ficar de olho nele, disse o Brilhante, o mesmo que me agredira. E não se esqueça de que ele é um lulista. Daí a ser um vermelho a distância é pequena.”

Desculpa, excelência, sendo cego, que diferença uma cor tem da outra?”

A partir deste episódio, o modo como me trataram mudou. Confesso que no fundo até mesmo gostei daquilo, apesar de que meu ouvido doa até hoje, graças ao tapa recebido e pelo qual jamais me pediram desculpas. Nunca fui muito chegado a fardas e meu pai dizia que lugar de soldado é dentro do quartel, onde não fazem nada a não ser ordem unida.

No entanto queriam que eu seguisse ditando para um soldado tudo o que ouvisse dos mortos e assim foi feito.

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