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“Conversa no Cemitério”

A respeito de conversas e suas decorrências

Certo diálogo.

O leitor deverá já ter descoberto que as conversas iniciais travadas entre os primeiros mortos, que eu transportei ao princípio de minha narrativa, podem não ter acontecido da exata maneira que foram por mim narradas. Eu ainda não estava lá para ouvir. Creio, entretanto, que pelo tempo passado escutando o que se dizia aqui e ali, muitas vezes concomitantemente, tornei-me familiar ao pensar daqueles mortos e adquiri o direito de ter a liberdade de intuir como tudo haveria começado. E foi assim que introduzi o leitor à Conversa no Cemitério.

Agora devo acrescentar que o ritmo da conversa sempre principiava em grande velocidade, atropelando-se, mas gradualmente perdia força, tornando-se lenta, arrastada e repetitiva. Eu me arrisco dizer que após um primeiro desafogo, o tempo deixava de contar para os mortos. E pensando bem, o que significaria para quem já morreu uma hora, um dia, um ano, já que teria toda a eternidade para permanecer morto?

 

Quando reassumi o acento na cadeira de campanha, notei que eram agora quatro os mortos que conversavam entre si. Pude identificar além do General Henrique, o único morto ilustre da Ala A, o Zé das Máquinas, certo João da Silva e uma moça de nome Joana, as duas últimas que eu jamais conhecera em vida.

Agora quem se exaltava com o ruído era o Zé das Máquinas. “Não bastava vocês terem me matado de susto e agora não me deixam dormir? Que saco, calem a boca.” Acontece que mesmo reclamando dos demais ele próprio não conseguia parar de falar. E se repetia, repetia, mesmo porque o General nunca se dava por achado: “Como assim? Explica melhor. Se nós lhe assustamos quando vivo é porque os vivos podem nos escutar. Nunca imaginei isto. Ora veja, um morto ser ouvido por um vivo!” Logo, o tal de João também se interessou pelo assunto, “começo a achar esse assunto interessante.”

“Colegas de mortalha, disse o Zé, não que eu escutasse ou entendesse o que vocês falavam, o que sim se ouvia na madrugada era um ruído muito esquisito, sinistro, barulho de morto que no escuro e na chuva, me fez cair em cima do túmulo de um de vocês e eu morri de infarto.”

“Você não deveria ser um homem de grande coragem quando vivo, já se vê”, disse com soberba o General, ao que lhe replicou o João: “General, quando vai entrar em sua cabeça já cheia de vermes que seu cadáver deve feder tanto ou mais que os nossos? Que você já não é mais nada, nem General, nem escoteiro, nada, simplesmente um nada que não entendo porque se pôs a falar e encher o saco de todo o mundo? Aprende, insigne, que na morte é o único instante em que todos deixam de ter uma classe social. Debaixo da terra, tudo apodrece e por igual.”

O General tentou mudar de assunto e perguntou pela senhora Joana que parara de falar. “Estou ouvindo vocês e tentando entender o que está acontecendo, e General, não me chame de dona Joana porra nenhuma. Se agora você não sabe nada de mim, eu lhe conheço muito bem. Será que o nome Lucinha não lhe diz nada? Meu nome de guerra, agora se lembra?”

“General, acho que suas amizades estão chegando”, zombou o João.

“Não me lembro de nenhuma Lucinha, não senhora”. “Ora, General, você nem na morte deixa de ser aquele velho mentiroso. Quer detalhes dos nossos encontros, de como você gostava que eu fizesse?”

O General ouve por bem recuar, antes que a conversa fosse longe demais. Perdão, Lucinha, mas como eu poderia saber que quando você se apresentou como Joana, era na verdade a pequena Lucinha, minha amiga? Eu nunca fui mentiroso, um homem justo, de classe, bom cristão, mas que não comete um ou outro deslize na vida? Alias, disse empolando o ruído, não sei o que faço só na companhia da ralé, com tantos mortos ilustres e cultos ao meu lado e que não tem jeito de despertar.”

Nesse momento, o Zé das Máquinas interveio: “Aqui todos nós fomos pecadores, mas vejo que o senhor pelo orgulho pecou mais que qualquer de nós. E deu azar, com tantos mortos, o senhor só tem a companhia de pobres e de puta ainda meio vivos”.

“Meio vivos uma ova, Seu Zé. Estamos mortos e bem morridos. O que não sei é porque estamos conversando. Talvez devêssemos, já que não temos nada melhor a fazer, é tentar saber o porquê, dentre tantos e tantos, somente nós conversamos”. O João nunca perdia o sentido da realidade.

“Eu morri em decorrência de um câncer. Fui o primeiro a despertar e sou o responsável por esta conversação. Acho que fui acordado por um raio que, durante a tormenta, caiu junto à minha cova, que havia sido deixada aberta.”

“Já eu, João, morri quando meu barraco desabou, morava na encosta, com a chuva veio tudo abaixo. Fui o primeiro a ser despertado pelo General.”

“De mim já sabem tudo”, encurtou o Zé das Máquinas.

“Já eu morri de morte matada. Fui assassinada por um malandro. Sabem minha profissão. Talvez entendêssemos um pouco do que acontece se contássemos nossos pecados. Só pode ser a mão de Deus que nos despertou para que nos arrependêssemos.”

Foi quando Zé das Máquinas buscou mudar de assunto. “Gente, não acho que Deus, se é que tenha mão, não a estendeu sobre ninguém. O que eu sou é testemunha morta de que os vivos escutam nossos barulhos. Estou aqui pensando, porque não fazemos ainda mais barulho, nem que seja pra matar o tédio?”

 

E assim decorria a conversa entre os mortos, no fundo de molde existencial, arriscaria eu. Nada havia de revelador que fosse da vida e da morte, ou mesmo a causa de eles seguirem produzindo barulho. No fundo, eu percebia que os “de cujo” tinham as mesmas dúvidas que nós vivos, que um dia estaremos mortos.

 

Mister Klent e o delegado Ercílio.

Somente saí à noitinha do cemitério, a chuva diminuíra muito de intensidade e já se previa sua parada no dia seguinte.

Quando eu disse à Anita que tudo tenderia a voltar ao normal, ela me contou que a cidade estava irreconhecível. Havia caos por toda parte além que pessoas de fora não paravam de chegar, aliás, quase duplicara nossa população e numa situação de extrema anormalidade. Dentre os que chegavam a maioria era composta por peregrinos que jejuavam em penitência por seus pecados, alguns até se açoitavam para obter o perdão perante o fim dos tempos.

O cemitério seguia sendo uma área isolada por tropas. Só entravam pessoas autorizadas e novos mortos.

Quando chegávamos a nossa casa, Anita avisou-me que uma multidão de repórteres a cercavam. Não poderia em minha escuridão ver os fleches disparados em nosso direção, mas no alvoroço de perguntas eu os sentia. De uma forma ou outra, espremendo-nos, entramos no nosso espaço.

Já na manhã seguinte, os jornais da capital estampavam duas fotos: uma do Cemitério Perfeito e a minha, como o “cego que podia ouvir os mortos”. Confesso que como todos, tenho lá minha dose de orgulho e sinto muito não poder ver minha própria foto divulgada para todo lado. Anita tentou consolar-me dizendo que eu era fotogênico, está bem!

Logo pela manhã tivemos uma surpresa. O delegado Ercílio nos vinha visitar, acompanhado por duas pessoas, uma delas com uma enorme câmera de filmar. Ele nos apresentou o jornalista gringo, o mister Klent e seu fotógrafo, enviados especialmente por um jornal de Norte América. Foi quando, de surpresa, nos ofereceu dez mil reais para uma entrevista exclusiva.

Aquele dinheiro era uma fortuna para nós e é claro que o aceitamos. Mas logo a seguir, o esperto delegado, que seguramente tinha a sua comissão já negociada com o gringo, emendou: “Exclusiva, sim, mas para os jornais do exterior, certo, seu Dudu?”.

E assim foi feito e dessa forma o cego Dudu virou notícia internacional e o delegado Ercílio, nos três dias seguintes sempre nos trouxe outros jornalistas dispostos a pagarem por outras entrevistas exclusivas, o que aceitávamos de bom grado.

 

O dia da ciência.

Na manhã seguinte, nova novidade. Ao invés do delegado Ercílio que bateu à nossa porta foi um oficial do Exército. Uma vez no jipe, conduziu-nos não ao quartel que já conhecíamos. Numa sala esperavam-nos dois tipos de jaleco branco que nos foram apresentados como psicólogos a serviço do Estado. Interrogaram-nos por quase duas horas e tudo o que declarávamos era gravado. Pelas perguntas que nos faziam, eles já tinham uma ideia preconcebida: que o diálogo dos mortos era uma invenção minha.

Tentaram com que eu caísse em contradições o tempo todo. Mas eu somente falara a verdade, não tinha o que temer. E o perguntório terminou quando eu lhes disse que pesquisassem sobre uma senhora Joana de tal, também conhecida em sua profissão por Lucinha, recém-enterrada, morta por assassinato. Como eu poderia conhecer aquele fato se estivera o tempo todo a serviço do Exército?

Foi quando me perguntaram se me oporia a ser submetido a um aparelho chamado polígrafo. Passaram uns fios por meu corpo e um pequeno jacaré foi colocado em meu dedo anular. E dá-lhe perguntas e mais perguntas, com direito a pegadinhas e tudo o mais. Bom, afinal, um deles me disse : “Muito obrigado por colaborar, senhor Dudu, aparentemente não está mentindo.”

Quando eu pensei que após aqueles testes voltaríamos para casa, ou, talvez, para o cemitério, surgiu um médico de nome Farias e me disse: “Agora a ciência precisa saber como o senhor consegue ouvir os mortos, embora não possa falar com eles.” Convidaram-nos a irmos para outra sala e Anita ajudou-me a deitar em uma maca e enfermeiros conectaram em minha cabeça uma série de fios elétricos. Quando os testes terminaram, Anita contou-me que era até engraçado assistir numa televisão as ondas elétricas de meu cérebro irem e virem.

Bom, assim que se deram por satisfeitos, começaram a realizar medidas em minha cabeça e em minha face. Fui, então, conduzido até um aparelho de Raio X onde me fotografaram a cabeça uma dezena de vezes. Tivemos que esperar um bocado de tempo, até que o doutor Farias voltou e nos comunicou que em Bela Vista não possuíam equipamentos sofisticados como tomógrafos e aparelhos de ressonância e, por isso, teriam que nos embarcar para a capital. Que não nos preocupássemos com roupas e mais nada. Dali nos conduziriam diretamente para o pequeno aeroporto da cidade vizinha.

Minha única pergunta foi: “Os senhores não vão mexer dentro da minha cabeça, certo?” “’Garanto que não, disse-nos o médico”, mentiu o médico, pois como veremos, na capital tentariam enfiar uma broca dentro de meu cérebro e tirar uma fatia, o que o leitor atento já sabe, e que fui salvo pelo meu advogado. E assim partimos de Bela Vista.

Na capital não permanecemos mais que dois dias realizando exames e mais exames, e tento meu sangue retirado para análises. Fui examinado por neurologistas, oftalmologistas, otorrino e até mesmo por cardiologistas. E quando quiseram fazer a tal da punção cerebral, meu advogado conseguiu a interdição judicial para procedimentos invasivos e eu fui dispensado.

Quando voltamos para Bela Vista, voltaram a nos levar para o meu posto no cemitério.

 

De como decresceu o interesse por meus relatos.

Para minha surpresa, havia agora um novo morto a tomar parte na tertúlia. E ela mudara de tom. O barulho dos mortos se fazia mais forte, como se uma discussão sobre outra teimasse em ocorrer.

Perguntei ao soldado que tomava notas do meu ditado se algum novo defunto dera entrada enquanto eu estivera viajando e ele me disse que sim.

Não tardou muito para que eu compreendesse o porquê de tanta altercação e, para meu espanto, ela era religiosa. O último morto tinha por profissão pastorear almas para o senhor. Pertencia a uma das franquias da tal de Igreja Universal de Deus. E fora ele que introduzira a temática que tanto alvoroço agora produzia, pois os pensamentos não convergiam e os ânimos haviam se acirrado. De um lado ficara Joana e o pastor, esgrimindo lanças na defesa de suas convicções religiosas que nem a morte apagara, e que poderiam ser resumidas na iminência de um juízo final que ressuscitaria corpos e separaria os justos dos pecadores. E a cada momento iniciavam rezas e cânticos.

Em outro canto se posicionava meu amo Zé das Máquinas, “Estraçalharam todo meu cadáver, me digam como vou sair daqui”, e produzia uma espécie de riso, bom, riso de morto. Por seu lado, o General, católico fervoroso, amante da ordem e da disciplina, berrava com tudo o que podia para reestabelecer a ordem da caserna entre os mortos. Parecia ter enlouquecido e a cada momento berrava “tropa, atenção!”

Finalmente o João da Silva que apenas queria paz e pedia o tempo todo que todos se calassem para descansarem. Acontece que ele próprio subia o tom de seu apelo a cada vez que o fazia, de tal maneira que buscando estabelecer a tranquilidade entre os mortos ele conseguia com seus gritos a todos enlouquecerem ainda mais.

O barulho aumentou tanto, que de repente surgiu o Capitão Albernaz em estado de ira a gritar comigo querendo saber o que se passava. Eu fui sincero: “Capitão, isto aqui está parecendo uma nova Torre de Babel. Desde que os mortos começaram a discutir religião ninguém mais se entende, cada um fala a própria língua. Por isso fazem tanta arruaça.”

“O senhor está brincando, agora a gente tem que berrar para se entender e é tudo por causa de religião, discussão de morto por religião de vivo, não é possível!”

“Mas assim é, Capitão. Disse-me o soldado aqui ao meu lado, que ontem enterraram um pastor. Parece que foi depois que ele despertou que a arruaça se implantou.”

Foi quando Anita cochichou-me que os soldados tinham passado a usar um fone protetor auditivo. Eu por ser mais sensível já não conseguia suportar o barulho. Foi quando chamei o Capitão e disse-lhe que não conseguia permanecer mais por ali. “O senhor pode ir pra onde quiser, seu Dudu”, respondeu-me ele, berrando em meu ouvido esquerdo.

Percebi que o interesse do Exército pela minha contribuição estava chegando ao fim e dei graças a Deus.

 

Nova confusão.

Na saída do cemitério, percebemos que uma nova confusão havia se armado, mas do portão para fora, no lado dos viventes. Havia um novo enterro chegando e o Sargento Garcia esbravejava. “Podem parar com este enterro! Nenhum morto passa mais por este portão. Por ordem do Capitão Albernaz, neste cemitério de loucos só podem entrar os vivos, os mortos viram todos subversivos.”

“E o que a gente faz com o morto e com o caixão? Não tem outro cemitério na cidade.”

“Isso não é um problema meu. Tirem este defunto daqui já, ou mando prender.”

“Vai prender o defunto, Sargento, então leva ele pro quartel.” Aí a risada foi geral e o tal do Garcia perdeu a compostura. “Enfiem o defunto no cu.”

Foi quando os familiares se desesperaram e se não segurassem o senhor Valdomiro, o pai do morto, ele teria partido para o corpo a corpo com o desrespeitoso.

O Sargento sacou sua arma e deu coronhadas nos que dele se aproximavam. Aí começou um empurra- empurra entre soldados e os que queriam tanto enterrar o morto quanto pegar o Sargento. Na algazarra formada ouvia-se o berro dos vivos e o barulho dos mortos. Começaram a chegar alguns jovens e traziam bandeiras de todas as cores. A frase que mais se ouvia, dentre as publicáveis, era “morto também é gente”. Teve até uns gozadores, que vendo a situação começaram a berrar “morto unido, jamais será vencido.”

De tal maneira, que de repente, a disciplina militar se afrouxou, pudera, muitos soldados tal qual o filho de dona Ofélia, tinham parentes e conhecidos na multidão. Foi quando a população trazendo o caixão e o defunto fresco entrou pelo campo santo adentro. O Capitão Albernaz e o Sargento Garcia abriram fogo contra a multidão. A bala de qual dos dois teria matado Quirino?

A população recuou assustada, abandonando o caixão e o novo morto no solo sagrado. Agora eram dois mortos com direito à sepultura.

A rebelião das pessoas foi a gota d’água a esgotar a paciência das autoridades. Desde então, deixaram de se interessar totalmente pelo que os mortos diziam ou não diziam, seu objetivo passou a ser calá-los de alguma forma e restabelecer a normalidade.

A pergunta que pairava no ar era por qual motivo, somente aqueles que haviam morrido após a tempestade se comunicavam. As pessoas arriscavam tímidas e inconsequentes respostas que nunca encontravam uma saída racional. E para complicar, por que os mortos recentes da Ala B não haviam se manifestado? A classe média era a única a dormir na paz do Senhor. Por outro lado, se o General enterrado na Ala A era o único a se manifestar, todos sabiam que desde a tormenta nenhum outro rico morrera.

Bom, perguntas para lá, respostas para lá, as nossas autoridades optaram pela remoção dos cadáveres falantes e os primeiros a serem recolhidos e atirados a uma vala comum fora dos limites da cidade foram o pastor e o Quirino, assassinado na manifestação. Mas os pobres soldados que os locomoveram tiveram que ouvir o barulho não de um, mas de dois.

No entanto, também esta operação teve que ser interrompida, pois multidões de fiéis, solidárias ao pastor e ao Quirino terminaram por descobrir a vala e as peregrinações voltaram a se formar. Segundo testemunhas, o ruído produzido pelo pastor na vala era tão alto que clamava aos céus.

 

A grande reunião.

Então ocorreu a grande reunião. Convocada não pelo Prefeito, mas pelo próprio Governador do Estado e dela participaram todos os próceres de minha cidade, políticos, grandes comerciantes e representantes do agronegócio, representantes dos trabalhadores e como não poderia deixar de ser, um representante do Exército, o mesmo Capitão Albernaz. Claro que naquelas circunstâncias não poderiam faltar nem o Bispo católico Dom Afonso, nem o chefe dos pastores crentes e o rabino. Eu e a Anita fomos os únicos pobretões convidados.

Logo o salão nobre da Prefeitura tornou-se pequeno para tanta gente.

À mesa sentaram-se apertados o Governador, o Prefeito, o Bispo e o Capitão. Como não poderia deixar de aconteceu, já partimos de uma acalorada discussão de se o pastor deveria ou não participar da mesa. Apoiado por considerável parte da plateia e pelo próprio rabino foi solicitado ao Bispo que cedesse o lugar ao pastor que também se denominava Bispo. E o representante da igreja tradicional não somente deixou a mesa como o próprio recinto da reunião, o que provocou reclamações e gritos de outra parte dos presentes.

Não irei cansar o leitor reportando os todos os temas tratados no confuso evento. Restringirei minha narrativa às propostas realizadas para normalizar a situação entre os mortos e os vivos e algumas das discussões que as mesmas provocaram.

A primeira proposta partiu do Prefeito. Ele desejava que a ala dos pobres fosse fechada, o que suscitou amplo debate. Onde enterrariam os pobres? Teve quem sugerisse que fossem enterrados nas encostas dos morros onde moravam. Alguém disse que com isto o poder público perderia o controle sobre mortos e vivos e outro se lembrou da vala comum em que dois haviam sido enterrados sem que parassem de barulhar. O representante dos trabalhadores disse que o melhor seria enterrar os mortos na Ala B, onde ninguém reclamava, com o que o presidente da câmara tão pouco concordou, pois os pobres eram tantos que logo estariam “saindo pelos muros.” Aí se ouviu da plateia que isto era preconceito contra os pobres e o caldo começou a engrossar novamente. Os representantes dos trabalhadores colocou mais lenha na fogueira ao lembrar que tudo começara com os berros de um ilustre General, da Ala A e quem ninguém dizia algo a respeito.

Foi então que o Governador tomou da palavra e disse que o objetivo da reunião era o de ouvir a sociedade, mas que somente ele tomaria aa decisões para enfrentar aquela calamidade. E sua primeira decisão era interditar a Ala C. Que a municipalidade encontrasse a área para um novo cemitério para os pobres, de preferência distante da cidade.

Na sequência surgiu a proposta de se exumar todos os mortos falantes do cemitério, o que incluiria, logicamente, o General. O Governador aprovou-a de imediato, mas foi a vez do Capitão Albernaz se revoltar: “se alguém for tirar meu tio da cova eu o passo à bala.”

Aí quem se rebelou foi o Prefeito. “Capitão, pois fique sabendo que o pior subversivo defunto é o seu tio.” Aí o Capitão teve se ser contido pois atirara a cadeira para trás e agarrara o Prefeito pelo colarinho. “Subversiva é sua mãe”.

Como ao Governador novamente a função apaziguador. “O caso do General Junker que em vida foi um cidadão exemplar e meu amigo será tratado como exceção. O restante dos mortos ruidosos será removido.”

Agora quem se insurgiu foi o líder do partido de oposição. “O que é isso? Todos devem ser iguais, não digo em vida, mas pelo menos na morte.” Novamente instalou-se a algazarra. Nem se sabe de onde surgiu um jovem e ergue uma faixa: “O Exército assassinou o Quirino.” Aos gritos os Capitão exigiu que os policiais prendessem o rapaz, no que foi atendido.

Foram necessários muitos murros do Governador para que um clima de diálogo se reestabelecesse. Então o doutor Farias que estivera calado até então levantou-se e propôs a cremação cerimoniosa de todos os mortos falantes.

A verdade é que chegou mesmo a ser aplaudido e quando se esperava que se chegasse a uma solução, ouviu-se a voz do Capitão: “Não adianta. Cumprindo ordens superiores, esta alternativa já foi realizada. Os dois mortos que colocamos na vala, haviam sido por ordens superiores, cremados e somente suas cinzas jogadas na terra. Mesmo assim o barulho continuou”. Pesadamente, com as mãos na cabeça, tornou a sentar.

Acontece que no extremo da mesa estava o chefe dos pastores que nesse momento se levantou espumando e aos berros questionou o Capitão: “Quem deu a ordem de queimar um pastor? Diga agora se tem coragem! Agora se cala, mas eu te esconjuro em nome de Deus”.

O Capitão tornou-se vermelho de raiva e partiu para agredir o pastor. Por sorte, o Sargento Garcia estava por perto e o conteve.

Na verdade, nesse momento, a reunião estava próxima a degenerar e eu pedi a palavra. “O que este cego tem pra dizer que não se saiba”, indagou o Prefeito que nem sabia o que fazia.

O Governador foi ponderado: “O senhor, que diz entender o que os mortos dizem, pode falar”.

Pedi licença e desculpas a todos e disse: “Eu acho que a gente tem que procurar entender o que de fato fez com que os mortos despertassem. Para isso temos que nos perguntar o que as Alas A, B e C possuem de diferente entre si. Minha proposta é que chamemos quem melhor entende desse assunto para participar da reunião: o chefe dos coveiros.”

Naquele momento de desencontro, quase todos aplaudiram minha proposta e o Governador mandou que fossem buscar o coveiro chefe onde estivesse.

 

O chefe dos coveiros.

Ordem é para ser cumprida. Mesmo sem muito gosto, lá foram o Sargento Garcia e mais dois soldados em busca do chefe dos coveiros. Nem meia hora decorreu até que o senhor Orozimbo fosse trazido ainda em roupas de trabalho.

Orozimbo era um negro alto e forte, que pese sua árdua e definitiva profissão, sempre trazia aos lábios o sorriso daqueles que se dão bem com a vida. Chamado a aproximar-se da mesa diretora, ocorreu outro princípio de agitação. Ninguém na plateia desejava ser tocado pelo cheiro do trabalho e muito menos pela roupa ou pele do ajudante de Radamés. Mesmo no ambiente lotado formava-se um vazio a cada passada do coveiro chefe.

“Senhor coveiro, eu sou o Governador deste Estado. Nós convidamos o senhor a comparecer a este recinto para saber se possui alguma ideia de porque alguns mortos começaram a subverter a rotina dos mortos e dos vivos.”

“Seu Governador, dessa história de subversão eu não sei nada. Mas todo mundo sabe que quem começou toda a arruaça no meu trabalho foi o famoso General que era mandachuva aqui até morrer. O que eu posso dizer é que, quando o caixão do mesmo baixou à sepultura foi quando a tempestade desabou com tudo. O caixão ficou ao relento, ou melhor, fora da gaveta, sem ser cimentado, pois todo mundo, até os coveiros saíram correndo para não se afogarem. Logo, foi um enterro sem enterro, entende?”

“E quando o senhor só viu isso agora”?

“Ora, seu Governador, com toda a confusão armada na ala dos pobres, ninguém deu bola pro caixão sem enterrado sem enterro da ala dos ricos. Só hoje pela manhã, acertamos tudo no mausoléu da família do General e agora ele está enterrado de vez.”

“E o barulho que ele fazia”, perguntou o Capitão.

“Parar não parou, mas está diminuindo que quase não se houve nada.”

Inicialmente um suspiro de alívio coletivo tomou conta da assembleia. A seguir, graças a Deus foram ouvidos e repetidos.

Nesse momento coube ao Prefeito interromper o clima de enlevo: “Mas, senhor Orozimbo, e quanto aos pobres da Ala C, por que tanto alarido? Que eu saiba, haviam sido enterrados conforme todas as regras, não?”

“Desculpe-me, seu Prefeito. Não foram não. O senhor se esqueceu que mandou cortar as despesas do cemitério, até o número de funcionários? Pois bem, com menos mão de obra, os defuntos passaram a ser enterrados com uns três a quatro palmos. A prefeitura também não entregou mais cal e ele não foi mais usado e pra todo lado surgiram os fogos de Santelmo. Também os tijolos e o cimento para isolar os caixões desapareceram.”

Irritado o Prefeito subiu o tom: “Eu sempre soube que o senhor era meio comunista. Agora a culpa da balbúrdia é da prefeitura? Desde quando defunto pobre sente falta de cal e tijolo? ”

Nova agitação tomou conta da assembleia. Por sorte, o espírito científico do Dr. Faria trouxe a reunião para um pouco de objetividade: “Senhor Orozimbo, e na Ala B o que ocorreu de diferente para que nenhum morto se rebelasse?”

“Na ala dos remediados, assim como na dos ricos, todos são enterrados conforme manda a lei. Foi a ordem recebida, para lá não existe falta de verbas. Já expliquei que o caso do General foi uma exceção de momento.”

Nesse instante o Governador agradeceu ao senhor Orozimbo pela preciosa contribuição e decidiu: “Muito bem, meus senhores, no meio de tanta coisa estranha, temos algo de concreto. Vamos transferir essa reunião para o Cemitério Perfeito e ver pessoalmente como funcionam as providências que tomaremos.”

 

Novamente no cemitério.

 Todo o pessoal se acomodou como pode na ala dos pobres. A cadeira que um dia fora a minha, passou a ser ocupada pelo Governador.

O senhor Orozimbo falara a verdade sobre o General. Pude pessoalmente constatar que dele nada mais se ouvia.

O Governador imediatamente assumiu o comando: “Senhor Orozimbo, ponha seus homens a trabalhar. Capitão, seus soldados estão agora sob as ordens do senhor Orozimbo para o que ele precisar. Vamos reenterrar todos os mortos que fazem este barulho dos infernos conforme manda a lei. Sete palmos para todos, cal, cimento e tijolos. Tampem os narizes senhores e mãos à obra.”

E assim foi feito, cova a cova foi aberta e os cadáveres em decomposição condicionados em novos caixões recém-chegados, as antigas covas aprofundadas, isolados com tijolos e cimento. Afinal a terra cobriu tudo.

Quando o trabalho foi concluído, o Prefeito chamou um assessor e segredou-lhe: percorra rápido o cemitério e me arranque umas cruzes para colocar nas novas covas, já, já, chegam os fotógrafos.

Quando o estranho ruído dos mortos começou a diminuir fez-se um enorme silêncio no lado dos viventes. Estranho, mas parece que as pessoas tinham medo de que suas vozes voltassem a despertar os mortos.

Houve um momento em que o ruído simplesmente despareceu. Foi quando o Governador levantando-se da cadeira elevou sua voz com orgulho: “Senhores, vencemos esta batalha. Os mortos e os vivos estão em paz! Que descansem, podemos ir embora.”

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