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“Conversa no Cemitério”

De como tudo ficou após a paz entre mortos e vivos

Assim que se reestabeleceu a normalidade, gradualmente tudo voltou ao seu dia a dia de normalidade. Bela Vista foi rapidamente perdendo espaço nos jornais, os repórteres e fotógrafos que me perseguiam do dia para a noite desapareceram.

A romaria dos crentes, que haviam de todos os lados celebrar o Dia do Juízo Final, ao se darem conta de que ainda não era chegada a hora, tomou o mesmo caminho pelo qual haviam chegado à minha cidade.

Somente os homens da ciência demoraram ainda algum tempo em suas investigações e ainda procuraram por mim algumas vezes, até que o interesse também se esgotou.

Nossa vidinha pacata teve alguma melhoria, graças à espontânea contribuição dos repórteres, do tempo em que eu era notícia.

Um belo dia, vindo da padaria, Anita disse-me: “Sabe quem foi demitido da prefeitura? O senhor Orozimbo, justo agora que ia se aposentar, é uma sacanagem. Ele que resolveu o problema dos mortos e todos falam que é por ele ter deixado o Prefeito em maus lençóis com o Governador na reunião.”

“Não sei, não Anita. Os políticos se entendem muito bem entre eles. Para mim ele foi demitido por um simples motivo: todos querem esquecer o que aconteceu no Cemitério Perfeito, somente isto, minha querida.”

“Então é bom a gente se cuidar, não seu Dudu?”

“E o que você pensa que nós dois estamos fazendo, eu ditando e você tomando nota de tudo o que aconteceu? Tornar público é uma maneira de tentar se proteger.”

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