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Marcel Proust

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"Entendendo Proust" e "Em Busca do Tempo Perdido"

Proust e a Pintura

Apreciador e conhecedor da pintura, “Em Busca do Tempo perdido” guarda profunda influência do simbolismo de um Moreau e do psiquismo de um Rembrandt. A cada página lida sentimo-nos caminhar por uma maravilhosa Galeria de Arte, onde os góticos como Fra Angélico e Giotto prescedem os renascentistas como Durer, Bellini, Boticelli, Carpaccio, Fra Bartolomeu, Da Vinci, Giorgioni, Rafael, Veronese, Ticiano, Michelangelo, Mantegna. A esses se sucedem o maneirismo de um El Greco, Tintoretto, Bruegel, Hals. Na ala dedicada aos barrocos encontamos Rembrandt, Chardin, Mignard, Rubens, Velazquez, Veermer de Delft; a esses seguem os rococós de Boucher, Fragonard, Tiepolo e Watteau. Chegamos por um corredor lateral aos românticos, e já temos Turner, Delacroix, Gerard, Goya. Subimos um lance de escada e nos deparamos com os classicistas David, Decamps, Reynolds e Poussin. Seguimos e já nos defrontamos com o realismo de Corot, Fromentin, Millet. Novo corredor e lá estão Chaplin, Ingrès e Cot, os academicistas. Finalmente, em uma ala especial, encontramos os simbolistas e dentre eles, Moreau e Rousseau; os impressionistas e pós- impressionistas: Degas, Fantin-Latour, Tissot, Manet, Monet, Renoir e Whistler; Rossetti, Guys e Redon. Nós selecionamos mais de 60 pintores e algumas de suas criações que são partes inerentes à obra de Proust. A seguir, elencamos algumas das mais significativas, dentre as centenas de citações sobre criações pictóricas elencadas em “Em Busca do Tempo Perdido”.  

I- ARTISTAS E OBRAS

II- ARTE PICTÓRICA

1. Impressão, Natureza e Recriação

 

“À Sombra das Raparigas em Flor” “Justamente o esforço de Elstir para não expor as coisas tal como sabia que eram, mas em função dessas ilusões ópticas que formam a nossa visão inicial, tinham-no levado integralmente a por em evidência algumas dessas leis de perspectiva, que então chocavam mais porque era a arte que primeiro as revelara”. “O esforço que fizera Elstir por despojar-se, em presença da realidade, de todas as noções de sua inteligência, era-me tanto mais admirável porque este homem, que antes de pintar tornara-se ignorante, esquecia-se de tudo apenas por probidade, pois o que se sabe não é da gente, ele possuia uma inteligência excepcionalmente cultivada”.

“O gênio artístico opera à maneira dessas temperaturas extremamente elevadas que têm força para dissociar as combinações dos átomos e agrupá-los outra vez conforme uma ordem inteiramente contrária e correspondente a outro gênero. Toda essa falsa harmonia que a mulher impõe a seus traços e de cuja persistência se assegura todos os dias antes de sair...a visão do pintor a destrói em um segundo e cria em seu lugar um novo agrupamento de traços da mulher, de modo a satisfazer determinado ideal feminino pictórico que traz no íntimo”. “Mas logo minha inteligência ( a de Marcel, o narrador) restabelecia entre os elementos, a separação que minha impressão abolira...Mas os raros momentos em que se via a Natureza tal como é, poeticamente, desses momentos é que era composta a obra de Elstir”.

“A Caminho de Germantes” (a respeito dos quadros de Elstir expostos no salão dos duques de Guermantes)” Entre esses quadros, alguns dos que pareceriam extremamente ridículos às pessoas da sociedade, eram os que me interessavam mais que os outros, naquilo que recriavam essas ilusões de ótica que nos provam não identificaríamos os objetos se não fizéssemos intervir o raciocínio... Portanto, não é lógico, não por artifício de simbolismo, mas por um retorno sincero à própria raiz da impressão, representar uma coisa por essa outra que, no fulgor de uma primeira ilusão, tomamos por ela?.. Elstir procurava extrair o que sabia daquilo que acabava de sentir; seu esforço muitas vezes se dera no sentido de dissolver esse agregado de raciocínios a que denominamos visão”.

“Sodoma e Gomorra” “Elstir não podia olhar uma flor senão transplantando-a primeiro para esse jardim interior onde somos forçados a permanecer sempre”.

“A Prisioneira” ( sobre certos quadros de Vermeer) “Reparou que são fragmentos de um mesmo mundo; que é sempre, qualquer que seja o gênio com que foram criados, a mesma mesa, o mesmo tapete, a mesma mulher, a mesma nova e única beleza, enigma, naquela época em que nada se assemelha e nada o explica, se procuramos não aparentá-lo pelos assuntos, mas discernir a impressão particular que cada cor produz?”

“A Caminho de Germantes” “Todo o valor está nos olhos do pintor. Ora, este soubera, imortalmente, parar o movimento das horas naquele instante luminoso em que a dama sentira calor e cessara de dançar, em que a árvore estava cingida de um círculo de sombra, em que as velas pareciam deslizar sobre um verniz dourado. Mas, justamente porque o instante pesava sobre nós com toda força, essa tela tão fixa dava a impressão mais fugaz, sentia-se que a dama ia logo virar-se, os barcos desaparecerem, a sombra mudar de lugar, a noite cair, que o prazer acaba, que a vida passa, e que os instantes , mostrados ao mesmo tempo por tantas luzes que lhe são vizinhas, já não se encontram”.

2. Símbologia x Sentido Literal

“A Caminho de Swann” “Porém mais tarde compreendi que a estranheza impressionante, a beleza especial daqueles afrescos ( “A Caridade de Giotto”- uma matrona de feiçoes masculinizadas e fortes, sem nenhum pensamento caridoso sendo expresso pelo rosto enérgico e vulgar), provinha do grande espaço que ali ocupava o símbolo, e que o fato de ter sido representado não como símbolo, visto que o pensamento simbólico não era expresso, e sim como realidade, como algo efetivamente sofrido ou materialmente manejado, dava ao sentido da obra algo mais literal e preciso, e ao seu ensinamento algo de mais concreto e mais chocante”...

3. Traços Individuais e Semelhanças Estéticas

“A Caminho de Swann” “Swann sempre tivera gosto especial de descobrir na pintura dos mestres, não os caracteres gerais da realidade que nos abrange, como aquilo que parece ao contrário, menos susceptível de generalizações, os traços individuais dos rostos que conhecemos: assim, na matéria de um busto do doge Loredano, por Antonio Rizzo, as semelhanças das maçãs do rosto, a obliquidade das sombrancelhas, enfim, a semelhança...; sob as cores de um Guirlandio, o nariz...; em um quadro de Tintoretto, a invasão das bochechas pela implantação dos primeiros pelos das suíças, o desvio do nariz, o olhar penetrante, as pálpebras congestionadas do doutor...O prazer foi mais profundo e deveria exercer sobre Swann uma influência duradoura a semelhança de Odette com a Séfora de Botticelli... e felicitou-se pelo fato de que o prazer que sentira ao ver Odette encontrava uma justificativa em sua própria cultura estética...E enquanto que a visão puramente carnal que tivera desta mulher, renovando permanentemente suas dúvidas sobre a qualidade de seu rosto, de seu corpo, de toda a sua beleza, enfraquecia o seu amor, tais dúvidas foram eliminadas e este amor assegurado quando teve por base os dados de uma estética precisa; sem considerar que o beijo e a posse, que pareciam naturais e medíocres se obtidos através de uma carnação murcha, vinham coroar a adoração de uma peça de museu, parecendo ser sobrenaturais e deliciosos”.

4. O Tempo, o aprendizado e o reconhecimento de Inovações

“A Caminho de Germantes” “As pessoas de gosto nos dizem hoje que Renoir é um grande pintor do “século XVIII”. Mas, dizendo isto, esquecem o Tempo e que muito precisou decorrer, mesmo em pleno século XIX, para que Renoir fosse saudado como um grande artista. Para conseguirem ser reconhecidos, o pintor e o artista originais procedem à maneira do oculista. O tratamento pela sua pintura, pela sua prosa, nem sempre é agradável. Quando está acabado, o clínico nos diz: “Olhe agora”. E eis que o mundo ( que não foi criado só uma vez, mas tantas vezes quantas apareceu um artista original) nos surge inteiramente diverso do antigo, mas perfeitamente claro...Tal é o mundo novo e perecível que acaba de ser criado. Há de durar até a próxima catástrofe geológica que um novo pintor ou um novo escritor originais desencadearão”. “As pessoas que detestavam esses “horrores” (obras impressionistas) espantavam-se de que Elstir admirasse Chardin, Perronneau, tantos pintores que a sociedade apreciava. Não percebiam que Elstir refizera por conta própria, diante do real, o mesmo esforço que Chardin ou Perronneau, e que, consequentemente, quando deixava de trabalhar para si mesmo, admirava neles as tentativas do mesmo gênero, espécies de fragmentos antecipados de suas obras...Entretanto, os mais velhos poderiam dizer consigo que no decurso de sua vida tinham visto, à medida que os anos os afastavam dela, que a distância intransponível entre o que julgavam uma obra prima de Ingrès e o que julgavam dever permanecer para sempre um horror (p.ex., a Olympia de Manet) diminuir até que as duas telas permanecessem gêmeas. Mas lição alguma se aproveita porque não sabemos descer ao geral e imaginamos sempre estar em face de uma experiência que não tem precendentes no passado”.   “Quando nos tomamos de amores por um pintor, e depois por outro, podemos ao cabo ter pelo museo inteiro uma admiração que não é glacial, pois se formou de amores sucessivos, cada um exclusivo de seu tempo, e que por fim se ajuntaram e se reconciliaram”

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