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"Textos e Contexto de Machado de Assis aos Modernistas"

Introdução

Quando uma poesia ou um determinado romance capturam nossa imaginação, deixamos de ser o mesmo indivíduo de antes. Grandes obras de arte têm a capacidade de nos arrebatarem como vendavais, escancarando as portas de nossa percepção, abalando crenças com poderes verdadeiramente transformadores.

Ao analisa-las, criticá-las, ou simplesmente transcrevê-las, por instinto de comunhão buscamos passar a outros as qualidades e a força da experiência por nós adquirida. Podemos, arriscamo-nos a dizer, que a verdadeira literatura não é outra coisa senão isto: associação do humanismo à política, uma associação que deve ocorrer com naturalidade, visto o próprio humanismo ser política não corrompida e política significar o trato do humano em sociedade.

Hoje nossas mentes são obscurecidas pela violência dos mercados, pelas gangues, pela corrupção generalizada, pelo narcotráfico, pelas guerras, pelo terrorismo e pelas bestialidades que marcaram o último século e que seguem o mesmo padrão de perda de humanidade no século XXI; em decorrência, tornamo-nos sem sintonia ou até mesmo desconfiados de nossa herança cultural e sentimo-nos em meio a uma aporia do espírito.

Logo, existe uma necessidade de retorno aos mestres. Em nosso meio a cada dia floresce a incapacidade de reflexão, da captação do significado da linguagem em estado de beleza ou verdade. Dizia Richard Blackmur que “nossa sociedade necessita mais do que nunca de uma tarefa específica do intelectual ou do erudito: o trabalho de colocar o público numa relação receptiva para com a obra de arte: a função do intermediário.”

Não julgar, mas mediar! E será o amor à preservação de valores do humanismo que permitirá tal mediação e esta caminhará lado a lado com a capacidade do desenvolvimento do espírito crítico.

Queremos, pois, que “Textos e Contextos” seja um grão de areia, um esforço que se some ao trabalho de tantos que se dedicam para que a sociedade afaste o “bafo quente” da barbárie que a assedia.

Nosso esforço nesse trabalho, não é voltado para o crítico ou para o especialista em literatura ou em história, dado não possuirmos nenhuma presunção de realizar análises que já não hajam sido, de alguma maneira, feitas ou aprofundar julgamentos técnicos, estéticos ou mesmo aportar abordagens absolutamente inovadoras sobre obras de grandes mestres brasileiros. O objetivo é, tão somente, abrir “poros” naquele sentido grego do desbravamento de veredas, que conduzam o interessado a uma compreensão do que e do quanto ele poderá obter na leitura direta de alguns dos principais escritos de grandes escritores e artistas de determinado período histórico.

“Textos e Contextos” percorre, na velocidade do hipopótamo do delírio de um Brás Cubas, um pouco mais de cinquenta anos de História do Brasil: principiaremos no decurso do Segundo Império, com a sociedade escravocrata e paternalista em seu auge, caminharemos pela crise do café do Vale do Paraíba, o desastre da Guerra do Paraguai e a abolição da escravatura. Chegaremos ao desmoronamento da Monarquia e à quartelada que instaura a República. Visitaremos a degradação do Rio de Janeiro e sua posterior transformação de cidade maldita em cidade maravilhosa. À chegada dos imigrantes europeus, à constituição de um proletariado urbano, suas lutas e conquistas, ao anarco-sindicalismo e à estruturação do Partido Comunista. Logo, à repressão, aos preconceitos raciais e sociais que atravessam os séculos de nossa História. Finalmente, teremos a eclosão do tenentismo como movimento transformador e revolucionário que abalará as estruturas da República Velha.

Por esse pano de fundo desfilarão textos de Machado de Assis, de Lima Barreto, Euclides da Cunha, os trabalhos operísticos de Carlos Gomes, Monteiro Lobato, daqueles que plantarão as sementes do espírito do novo em nossa cultura, simbolizados na Semana de Arte Moderna de 22, na poesia e prosa de Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade, assim como na música de Villa Lobos.

Talvez devêssemos dizer nessa introdução que, para muitos críticos, Machado de Assis está entre os primeiros romancistas de toda a história da humanidade, dado que ele possuía o poder de construir através da linguagem, realidades sensíveis, concretas, e, no entanto, impregnadas pela vida, pelos costumes e sociedades, e pelos mistérios do espírito. Que Carlos Gomes, o caipira pobre de Campinas, foi, em seu apogeu operístico, considerado um continuador de Verdi. Lima Barreto, embora tardiamente descoberto pela literatura, foi um dos precursores do jornalismo ético em seu tempo. Euclides da Cunha desvendou maravilhas de nosso regionalismo, a grandeza resistente de pobres desesperados do sertão baiano e um dos maiores genocídios do século XIX. E que Monteiro Lobato trouxe-nos a atitude do desbravador patriótico, nosso primeiro editor nacional, um dos maiores formatadores e adaptadores de historias infantis educadoras.

Aos precursores do modernismo seguiu-se então uma nova geração, daqueles que buscavam o novo e que realizaram a incrível Semana de 22. Em Mário de Andrade teremos um dos maiores intelectuais múltiplos de toda a nossa História e em Villa Lobos, o mestre maior da música erudita alicerçada no nosso riquíssimo folclore, percursor da música popular brasileira.

No entanto, como disse Machado, “o melhor prólogo é o que contém menos coisas ou o que as diz de um jeito obscuro ou truncado”, vamos logo aos nossos textos analisados dentro dos contextos em que foram escritos.

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