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"Textos e Contexto de Machado de Assis aos Modernistas"

As fraturas expostas dos anos 20.

A década de 1920 marcará o esgotamento da Primeira República, inaugurada numa quartelada por Deodoro da Fonseca e encerrada com a Revolução de 1930. Seu legado é visivelmente ambivalente, pois se de um lado produziu a prosperidade advinda do desenvolvimento urbano e da industrialização, assim como o estabelecimento da imigração europeia, por outro, caracterizou-se como um período de brutais repressões, de falcatruas e corrupção deslavadas, de medidas racistas e eugênicas, assim como da expulsão dos pobres para os entornos das principais cidades, origem histórica das favelas em todos os nossos centros urbanos.

 

Anos dourados da “Belle Époque”paulista.

Com o esgotamento das terras do Vale do Paraíba, as terras paulistas e paranaenses tornaram-se as grandes produtoras do café brasileiro. À sombra dos cafezais despontam as chaminés industriais, cresce o mercado.

Entre 1907 e 1920, o Estado de São Paulo passa a representar mais de 30% do total da produção industrial brasileira, quase o dobro da produção carioca. O dinamismo do complexo cafeeiro favorece a expansão industrial, surgem os bancos e as financeiras, assim como a construção de infraestrutura de transporte que se presta tanto à exportação quanto ao mercado interno.

Em 1915, a cidade de São Paulo ainda possui um aspecto provinciano quando comparada ao Rio de Janeiro. O comércio concentra-se nas Ruas 15 de Novembro, Direita e São Bento. Pelas Avenidas Angélica, Higienópolis e Paulista, onde se concentram os casarões da elite do café, trafegam carros. A “City Improvements” já urbaniza o Jardim América.

No Rio Tietê se praticam esportes fluviais, ao mesmo tempo em que nele aportam todos os esgotos da cidade que já possui meio milhão de habitantes.

Durante a gestão do Barão de Duprat (1910/ 14), amplia-se a Avenida São João, constrói-se o Viaduto Santa Efigênia, e urbaniza-se o Vale do Anhangabaú. Inaugura-se o Mercado e o Teatro Municipal.

Em 1917 a cidade possui 1800 automóveis. Senhoritas já assomam ao volante. Os passeios pela Avenida Paulista fazia-se nos pequenos e luxuosos cupês da Renauld. No carnaval, desfilavam em carros abertos moças fantasiadas nos capôs.

A Ford transfere sua oficina de montagens da Rua Florêncio de Abreu para a Praça da República e São Paulo já supera a produção têxtil do Rio de Janeiro, caminhando para se tornar o maior polo industrial da América Latina.

No centro da cidade instalam-se luxuosos hotéis, dotados com aquecimento e água encanada. Restaurantes afamados como o Fasoli, o Piccarelli e o Jacinto competem pelo luxo e a mais sofisticada comida. Cafés como o Java, o Girondino e o Guarany atraem a juventude endinheirada. O cinema mais chique era o Triângulo, na Rua 15 de Novembro. Mas havia ainda O Central, em frente ao Correio.

As festas da “Belle Époque” paulistana eram deslumbrantes, principalmente aquelas oferecidas pelo embaixador norte-americano, Edwin Morgan, tanto quanto as animadas “soirées” do palacete de dona Olívia Guedes Penteado. Os divertimentos da juventude dourada não se esgotavam. Ora as temporadas no Guarujá, ora em fazendas, ora em cruzeiros na Europa, onde muitas de suas melhores roupas eram compradas.

Ao lado da burguesia e da classe média efervescente estavam os trabalhadores mantidos em condições de exploração e falta de direitos. A questão social para as elites era uma questão de polícia.

 

O surgimento do proletariado na cena política

A chegada dos imigrantes europeus trouxe, além de mão de uma obra qualificada, quer para as fazendas de café, quer para o parque industrial que se implantava, novas ideias, princípios organizacionais e a perspectiva de direitos trabalhistas, conquistados a duras penas na Europa.

O crescimento industrial e urbano levou ao surgimento de bairros operários em várias cidades. Formados em sua maioria por imigrantes estrangeiros, a vida nesses bairros como o Brás e a Mooca em São Paulo, era precária, refletindo os baixos salários dos operários, a jornada de trabalho estafante, a absoluta falta de garantias de leis trabalhistas, nenhum tipo de seguro ou assistência por acidentes de trabalho, descanso semanal, férias ou aposentadoria. Os problemas eram muitos. Nas fábricas ainda ocorria o emprego maciço de mão-de-obra infantil, a mais barata.

Nesse contexto, surgiram as primeiras manifestações sob influência de ideias socialistas e anarquistas, que moviam as lutas operárias em quase todo o mundo. A Confederação Operária foi fundada em 1906, na Capital da República.

Em 1907, a cidade de São Paulo foi paralisada por uma greve que reivindicava jornada de oito horas, direito a férias, proibição do trabalho infantil e proibição do trabalho noturno para as mulheres. Em 1914, sob a liderança do negro anarquista e carpinteiro Domingos Passos, ocorre a primeira manifestação de trabalhadores no Rio de Janeiro.

Dada a condição de exploração, a expansão do anarquismo foi rápida nas grandes cidades. Lutava-se tanto por resultados imediatos como por objetivos mais amplos, dentre eles a derrubada do sistema capitalista e implantação de uma sociedade mais igualitária. As propostas encontravam enorme receptividade entre os trabalhadores, e governo e patrões eram vistos pelos anarquistas como inimigos a serem combatidos.

Em 1917, surgiu “A Plebe”, jornal anarquista e anticlerical que sobreviveria até 1951. Fundado por Edgard Leuenroth, entre seus principais colaboradores ilustres estavam Lima Barreto, Astrogildo Pereira, José Oiticica.

Logo, o movimento operário viveu anos de fortalecimento entre 1917 e 1920, quando as principais cidades foram sacudidas por greves. Uma das mais importantes foi a de 1917 em São Paulo que Hermínio Linhares descreve:

"O auge deste período foi a greve geral de julho de 1917, que paralisou a cidade de São Paulo durante vários dias. Os trabalhadores em greve exigiam aumento de salário. O comércio fechou, os transportes pararam e o governo impotente não conseguiu dominar o movimento pela força. Os grevistas, então, tomaram conta da cidade por trinta dias. Leite e carne só eram distribuídos a hospitais e, mesmo assim, com autorização da comissão de greve. O governo abandonou a capital. (...)."

Everardo Dias, em “História das Lutas Sociais no Brasil”, relata dessa forma o momento vivido:

“São Paulo é uma cidade morta: sua população está alarmada, os rostos denotam apreensão e pânico, porque tudo está fechado, sem o menor movimento. Pelas ruas, afora alguns transeuntes apressados, só circulam militares em veículos requisitados das indústrias, com tropas armadas de fuzis e metralhadoras. Há ordem de atirar para quem fique parado na rua. Nos bairros fabris do Brás, Mooca, Barra Funda, Lapa, sucederam-se tiroteios com grupos de populares; em certas ruas já começaram fazer barricadas com pedras, madeiras velhas, carroças viradas”.

Em 1918, a greve geral ocorreria na cidade do Rio de Janeiro. Um grande aparato militar se formou para combatê-la, com revistas nos passageiros dos bondes e em todos os operários e populares que transitavam pelas ruas. O Palácio do Catete, sede do Governo Federal, foi cercado por tropas, sob o comando do então Coronel Gregório da Fonseca.

Chegamos a maio de 1919. O Dia Primeiro foi de protestos em São Paulo e Rio. Na Capital Federal, mais de 80 mil pessoas se manifestaram. A repressão do governo de Epitácio Pessoa não se fez esperar. Atirou nos cárceres líderes como Leuenroth e Domingos Passos. A polícia invadiu e empastelou os principais sindicatos operários.

O Congresso, em 1921, aprovou a Lei de Expulsão de Estrangeiros que permitia a deportação sumária de lideranças envolvidas em distúrbios da ordem e o fechamento de organizações operárias.

Em contrapartida da repressão, o movimento operário foi o reconhecido como instância representativa, obrigando patrões a negociar com proletários e considerá-los em suas decisões.

Como a oligarquia política e econômica ainda raciocinava tal qual nos tempos da escravatura, o movimento e as revoltas operárias eram questões de polícia. E a partir dos anos 20 a repressão somente tenderá a aumentar.

 

A fundação do Partido Comunista do Brasil

Os reflexos da Revolução Socialista Russa, de 1917, como em quase todo o mundo, fizeram-se sentir no Brasil. Vários grupos operários no Brasil e no mundo acreditavam que havia chegado o momento de colocar um fim à exploração capitalista e construir uma nova sociedade, o socialismo. Em oposição ao anarco-sindicalismo, começava a se cristalizar a ideia de que o movimento operário necessitava de um partido político próprio.

Afastando-se do sindicalismo militante, começaram a surgir grupos de estudo de inspiração marxista, dentro os quais a União Maximalista de Porto Alegre (1919), o Círculo de Estudos Marxistas do Recife (1920) e o Grupo Comunista do Rio de Janeiro (1921).

Em 1922, sob a liderança do intelectual Astrogildo Pereira, articulou-se uma reunião nacional. Eram nove os delegados representando os primeiros setenta filiados. O congresso de fundação do Partido Comunista do Brasil aconteceu em 25 de março de 1922, na cidade de Niterói. O barbeiro Abílio Nequete, antigo militante anarquista, foi eleito secretário geral e o partido passou a funcionar legalmente, após ata de fundação publicada no Diário Oficial. Com a decretação do estado de sítio ao final do ano, Nequete foi preso e Astrogildo Pereira passou a ser o novo secretário geral.

Ao contrário dos anarquistas, que viam o Estado como um mal em si, os comunistas o viam como um espaço a ser ocupado e transformado. A Conferência de 1925 decidiu editar o jornal “A Classe Operária” como órgão central do partido. Cinco mil exemplares, edição mais que significativa para a época!

 

O Movimento Tenentista

Artur Bernardes vencera de forma fraudulenta as eleições presidenciais em março de 1922, derrotando Nilo Peçanha, num pleito que dividiu a elite do país. Bernardes representava as oligarquias de São Paulo e Minas, enquanto Peçanha, as do Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco e Rio.

Hermes da Fonseca, ex-presidente da República e a mais alta patente do Exército, após ser perseguido no governo anterior, foi conduzido à presidência do Clube Militar, em 1921. Durante a campanha eleitoral, Artur Bernardes fora acusado de distribuir cartas falsas contra o mesmo. Uma vez no poder, Artur mandou prender o Marechal, acusado unicamente de agitação nos quarteis. Um decreto presidencial posterior, ainda mandaria fechar o Clube Militar.

Era um insulto! A agitação crescia em todos os quartéis e guarnições do Rio de Janeiro. A baixa oficialidade, revoltada, acreditava que o Brasil necessitava de um governo forte, capaz de intervir na economia, desenvolver nossos recursos naturais, a industrialização e proteger o país da exploração pelas potências estrangeiras. Também viam no coronelismo, no voto de cabresto e na corrupção os motivos pelos quais o Brasil dava errado.

Os oficiais designados como “os tenentes” vieram para a cena pública dispostos a proteger o país, destruir as oligarquias regionais, mudar as profundas desigualdades sociais e terminar com o analfabetismo.

A conspiração foi tomando corpo. Do Forte de Copacabana deveria nascer a Revolução. No dia 4 de julho, o capitão Euclides Hermes, filho de Hermes da Fonseca, conclama seus comandados. Nos portões do forte cavam-se trincheiras e atrás, minam-se os campos. Na madrugada do dia 5, o tenente Siqueira Campos disparou um dos canhões. Era o sinal para as outras guarnições. Todos no forte ficaram esperando a resposta delas.

Nada! Passam-se os minutos e nada. O forte mira seus canhões contra o Quartel General, o Arsenal e a Ilha das Cobras. O governo reage e da Fortaleza de Santa Cruz inicia feroz bombardeio. No dia 6, o Governo exige a rendição dos sediciosos.

Siqueira Campos e Euclides Hermes decidem abrir os portões do forte a todos os que não quisessem combater. Dos 301, restam apenas 29. Os couraçados São Paulo e Minas Gerais posicionam-se para o bombardeio frontal.

O governo e rebeldes decidem parlamentar. O capitão Euclides Hermes vai ao encontro do Ministro da Guerra. Era uma cilada. É preso. Fim de diálogo: ou a rendição ou o massacre. Siqueira Campos toma uma decisão suicida: não resistirão no forte, nem bombardearão a cidade, mas sairão para combater as tropas legalistas a céu aberto!

À canivete uma bandeira brasileira é recortada. Vinte e nove pedaços, um guardado para o capitão preso. Começa a marcha pela Avenida Atlântica. Alguns debandam, sobram dezoito. Um engenheiro civil, Otávio Correia, se junta aos revoltosos. Dezenove marcham rumo à morte no embate contra mais de 3.000 soldados legalistas. Todos morrerão, exceto Siqueira Campos e Eduardo Gomes, ambos caem feridos e são presos.

Mas o descontentamento da baixa oficialidade não se restringiu ao Forte Copacabana. Houve tentativas de levante na Vila e na Escola Militar do Realengo, e nos quarteis de Campo Grande, com mortos e centenas de prisões.

Relata o historiador Hélio Silva: “Silenciado o último fuzil, mal pensadas as feridas, jogada a pá de cal nos esquifes baixados à sepultura, começaram as devassas... Instalou-se um estado de sítio de quatro anos, sob o regime de prisões políticas, não só dos réus, mas também dos advogados e jornalistas que os defendiam e, ainda, a ameaça de prisão para juízes e parlamentares, com censura à imprensa e alguns jornais suspensos... O interrogatório dos indiciados faz surgir nos cabeçalhos dos diários os nomes que mais tarde iriam chefiar revoluções, dirigir ministérios, comandar exércitos: Eduardo Gomes, Juarez Távora, Ciro Cardoso, Odílio Denys.”

Ainda na manhã do dia 6 de julho, o Marechal Hermes da Fonseca seria novamente preso e detido ficaria até pouco antes de sua morte, em 1923.

Otávio Brandão, em nome do Partido Comunista do Brasil fez uma crítica aos “tenentes”: “O erro fundamental do movimento foi inexperiência política... nenhum manifesto nenhuma agitação nas ruas. Nenhum apelo ao proletariado.”

Nilo Peçanha, por seu lado, prestou solidariedade publica aos revoltosos: “Sou dos que entendem que os bravos militares, que, perseguidos em desespero, se insurgiram pelos destinos constitucionais do Exército, aniquilados, embora, escreveram com seu sangue uma grande página de estoicismo pela Revolução e pela liberdade. Declaro-me solidário com os vencidos e desde já renuncio às minhas imunidades parlamentares para sofrer com eles.”

O movimento fora do Rio de Janeiro só faz crescer depois da repressão desencadeada. Em janeiro de 1923 eclodiria a Revolução Libertadora do Rio Grande do Sul; a população se confraterniza com os revoltosos e o governo contrata tropas uruguaias para ajudarem a sufocá-la.

Junho de 1924, os “tenentes” se rebelam em São Paulo tendo por lemas “moralização da vida pública, representação e justiça”. Não estavam a sós, a articulação era nacional. Um oficial superior foi convidado para liderar o movimento, Isidoro Dias Lopes. A Força Pública, comandada por Miguel Costa, alia-se aos revoltosos. Dentre a pauta de reinvindicações estão itens de abrangência social: ensino primário e profissionalizante obrigatórios!

A cidade de São Paulo permaneceu em mãos rebeldes de 5 a 27 de julho, quando o cerco legalista obrigou-os a se refugiarem no sudoeste paranaense, sob o comando de Miguel Costa.

Sob as ordens de Luís Carlos Prestes e sob o comando de Siqueira Campos, João Alberto e Mário Fagundes, à frente de dois mil homens, os gaúchos marcavam o início da guerra de movimentos. Do encontro entre os “tenentes” do sul e os de São Paulo, nasceria a legendária Coluna Miguel Costa- Prestes, posteriormente conhecida apenas como Coluna Prestes, que percorrerá mais de 25.000 quilômetros do território brasileiro, doze Estados, em luta contra tropas legalistas muito superiores em número e até mesmo jagunços armados pelos coronéis do nordeste. A Coluna se dissolverá após dois anos e meio de combates, em 1927. Constituiu um protesto armado que foi invencível em sua marcha pelo Brasil.

A gestão de Artur Bernardes à frente do Governo Federal foi marcada por uma permanente instabilidade política, crise econômica, revoltas dos trabalhadores e de grande parte das forças armadas.

Bernardes governou o país sob “estado de sítio” em detrimento dos direitos e das liberdades individuais. Criou o Departamento de Ordem Política e Social em 1924, cujo objetivo era censurar e reprimir movimentos políticos e sociais contrários ao regime no poder. Como DEOPS, este órgão repressor se manterá ativo até a redemocratização do Brasil, em 1983.

O ano de 1922 escancarou as fraturas sociais que somente fariam agudizar-se até o final da década, até o desencadear da Revolução de 1930, com o Estado se autodenominando Novo, em contraste com a República, agora dita, Velha.

 

Bibliografia:

  1. Hermínio Linhares em seu livro Contribuição à história das lutas operárias no Brasil. Ed. Alfa-Omega, 1977

  2. Greves Operárias. Dannemman, Fernando.

  3. Fausto, B.. História do Brasil, EDUSP, 2012

  4. Silva, H.. Sangue na areia de Copacabana, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1971.

  5. Schwarcz, L. e Starling, H.. Brasil uma biografia. São Paulo, Companhia das Letras, 2013.

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