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"Textos e Contexto de Machado de Assis aos Modernistas"

Machado de Assis, um Bruxo no Cosme Velho.

O avô paterno de Machado de Assis morreu escravo no Rio de Janeiro. O pai, negro liberto, pintor de paredes e a mãe, uma senhora portuguesa, lavadeira. Em 1839, o escritor nasceu no numa Quinta no morro do Livramento. Esperava-o uma primeira infância paupérrima e triste, com a perda da única irmã, aos quatro anos e pouco tempo após, da mãe. Por madrasta, entretanto, o destino deu-lhe D. Maria Inês, mulata sem filhos, doceira em uma escola, que o amou e alfabetizou.

Joaquim Maria ajudava a família vendendo balas, doces, engraxando botas pelas ruas do morro ou pelas bandas de São Cristóvão. Por única escola teve um colégio beneficente dirigido por senhoras da sociedade. Se Machado nunca provou da palmatória ou do ajoelhar-se no milho deve-o a uma enorme avidez pelo conhecimento e pela leitura, assim como a uma natural  introversão e recolhimento.

Aprendeu a língua francesa com a proprietária da padaria do bairro onde realizava alguns bicos. Quanto ao inglês, quem o poderá dizer? Traduziria trabalhos de Baudelaire e foi um de nossos primeiros tradutores de Edgar Allan Poe.

Moço magro e epilético, ao colocar-se nervoso, gaguejava. Mulato, enfrentou os mesmos preconceitos raciais contra os quais Lima Barreto, anos mais tarde, tanto lutaria para conseguir reconhecimento.

Com 15 anos incompletos, publicou um soneto, seu primeiro trabalho literário, no Periódico dos Pobres. Em 1856, entrou para a Imprensa Nacional como aprendiz de tipógrafo, e lá conheceu Manuel Antônio de Almeida, que se tornou seu protetor. Em 1858, era colaborador no Correio Mercantil e, a convite de Quintino Bocaiúva, passou a pertencer ao Diário do Rio de Janeiro.

O primeiro livro de poesias, “Crisálidas”, é de 1864. Na revista O Espelho, estreou como crítico teatral. Principiava, então, a longa carreira literária de um artista múltiplo: jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo.

Quando colaborou com o folhetim O Futuro, órgão dirigido pelo irmão de Carolina Augusta Xavier de Novais, a vida lhe presenteou. A moça branca, recém-chegada de Portugal, alguns anos mais velha, encantou-se com o escritor. Eles se desposarão em 1869, após muita luta contra o preconceito racial e social. Dona Carolina foi o grande amor que Machado teve na vida, companheira por trinta e cinco anos.

O primeiro romance inspirado na felicidade que sentia, “Ressurreição”, saiu em 1872. No ano seguinte, o escritor foi nomeado primeiro oficial do Ministério da Agricultura, iniciando assim a carreira de burocrata que perdurará até o final da vida.

Tornou-se grande amigo de José Veríssimo, o primeiro descobridor do talento de outro mulato, Lima Barreto, e passou a colaborar na “Revista Brasileira”. Do grupo de intelectuais que com Machado se reunia na redação da revista partiu a ideia da criação da Academia Brasileira de Letras. No dia 28 de janeiro de 1897, quando se instalou a Academia, foi eleito presidente da instituição, à qual se devotou até o fim da vida.

Como sempre deveu seu sustento e o de dona Carolina ao trabalho no funcionalismo público, ele não desejava correr o risco de ser descriminado por ideias e posturas que pudessem não ser aceitas pela elite da época. Mesmo assim, a possibilidade de perda do emprego era constante e uma vez isto chegou a ocorrer! Por sorte e graças a amigos, foi recontratado no serviço.

Machado de Assis, ultrapassada a fase romântica em que ainda acreditava que a sociedade paternalista e escravocrata poderia tornar-se mais humana, envereda pelo caminho do sarcasmo e do cinismo da escrita com duplo sentido, em que um narrador, nunca o autor, sempre se colocará no papel das elites dominantes. “Eu gosto de ver a política entrar pela literatura; anima a literatura a entrar pela política, e dessa troca de visitas nasce a amizade”.

Para o leitor atento, sua obra, a partir do final dos anos 1870, estará sempre repleta de enigmas, sua amargura e decepção para com os homens e suas associações serão revestidas pela sátira e pela metáfora. O ponto de partida, que ocorre após um período de estranha enfermidade que lhe acomete os olhos, será o “realismo fantástico” encarnado em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, inicialmente ditado à esposa.

Nosso maior escritor somente se permitiu a linguagem crítica direta, abandonando as máscaras e disfarces em “Relíquias da Casa Velha”, primeiro trabalho escrito após a morte de Dona Carolina. Na introdução, o famoso poema em homenagem à amada morta, e a seguir o primeiro conto “Pai contra mãe”, um grito de escárnio contra a hipocrisia social. “Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco e alguma vez o cruel”.

“A arte, dizia ele, não deve desvairar-se no doido infinito das concepções ideais, mas identificar-se com o fundo das massas, copiar, acompanhar o povo em seus diversos movimentos, nos vários modos de sua atividade.”

Machado de Assis era bastante avesso à vida social. Com a morte da esposa, isolou-se ainda mais e entrou em profunda depressão. Escreveu para o amigo Joaquim Nabuco: “Foi-se a melhor parte da minha vida, e aqui estou só no mundo”. Mas o gênio não se aquieta. “Memorial de Aires”, publicada no ano de sua morte, 1908, ele retornará aos seus enigmas e duplos sentidos, no trabalho final de sua vida.

A última pessoa a visitá-lo foi um jovem intelectual, Astrogildo Pereira, que anos após lideraria a fundação do Partido Comunista do Brasil.

Enterrado no cemitério de São João Batista, o féretro de Machado teve cunho oficial e homenagens do próprio Presidente Afonso Pena. No registro de óbito, a sociedade preconceituosa ainda o segregaria. Qualifica-o como “funcionário público, de cor branca...”

 

Sempre às voltas com livros e papéis, foi apelidado pelos vizinhos de bruxo; conta-se que queimava cartas e velharias em um caldeirão aos fundos de sua casa, na Rua do Cosme Velho, n.18. O apelido foi ficando, mas só pegou de vez quando Carlos Drummond de Andrade fez o poema “A um bruxo, com amor”, uma espécie de conversa cantada em versos.

O poeta é o visitante. Machado, o visitado. O visitante chega para uma homenagem na própria casa do homenageado. Vai entrando, não faz perguntas e para que perguntar?

E nós nos juntamos à visita, tentando desvendar nos versos do poeta as referências às escritas explícitas ou implícitas do Bruxo querido, decifrando a rede de alusões sutis ou declamadas a determinados romances, contos, poemas ou crônicas, onde os fios que tecem as personagens deixam na urdidura a marca da ironia, da ambiguidade e do desencanto.

“Em certa casa da Rua Cosme Velho

(que se abre no vazio)

venho visitar-te; e me recebes

na sala trajestada com simplicidade

onde pensamentos idos e vividos

perdem o amarelo

de novo interrogando o céu e a noite”.

Drummond é recebido numa “sala trastejada com simplicidade”, mobiliada com simplicidade, arcaísmo de “Quincas Borba”. O ambiente é de calma e recolhimento, a interioridade buscada num “Memorial de Aires” se faz presente.

Na sala de estar conviveram em harmonia Joaquim Maria e Carolina, de “onde pensamentos idos e vividos” nos trazem o famoso soneto ‘A Carolina’, escrito pelo saudoso viúvo como prólogo de “Relíquias da Casa Velha”. Casa Velha “que se abre no vazio”, pois é atemporal. Os escritos e vivências cantados que, no perpétuo interrogar do céu e da noite, perdem o amarelo com que o tempo costuma impregnar páginas e pensares.

“Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro.

Daí esse cansaço nos gestos e, filtrada,

uma luz que não vem de parte alguma

pois todos os castiçais

estão apagados”.

No conto “Viver” o judeu errante, é interpelado por Prometeu através das palavras com as quais Drummond inicia a segunda estrofe: “outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro”. Ora, para aquele que leu da vida o livro inteiro, a luz não precisa vir de parte alguma, todos os castiçais, podem ser apagados.

E o ter lido da vida todo um livro gera o “cansaço nos gestos”, incubador da descrença machadiana nos homens, na sociedade, em seu tempo.

“Contas a meia voz

maneiras de amar e de compor os ministérios

e deitá-los abaixo, entre malinas

e bruxelas.

Conheces a fundo

a geologia moral dos Lobo Neves

e essa espécie de olhos derramados

que não foram feitos para ciumentos”.

Relações entre amor e sexo, entre política e corrupção, o conto “Primas de Sapucaia” nos traz. Os ministérios do Império que se desfazem, entre malinas e bruxelas, simples rendas ornamentais usadas em travesseiros. Ministérios, estruturas feitas para serem instáveis; ora conservadores, ora liberais, distintos apenas na aparência e nos ornamentos, idênticos em seu âmago, ornamentos para um jogo político que é exclusivo pela e para os interesses da elite.

Os ‘Lobo Neves’, no plural, personagens que nos conduzem às “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, à matéria de que são feitos os políticos, muito mais atentos à opinião pública e às carreiras que aos próprios sentimentos e ao auto respeito. O poder para os Lobos Neves vale muito mais que o amor, que as relações, que os amigos. Aliás, estes existem na medida em que possam servir àquele.

Os políticos são seres que se dão ao luxo de terem mulheres com os olhos derramados de Virgília, esposa de Lobo Neves, olhos para maridos que não são picados pelo ciúme, apenas pela conveniência.

“E ficas mirando o ratinho meio cadáver

com a polida, minuciosa curiosidade

de quem saboreia por tabela

o prazer de Fortunato, vivisseccionista amador.

Olhas para a guerra, o murro, a facada

como para uma simples quebra da monotonia universal

e tens no rosto antigo

uma expressão a que não acho nome certo

(das sensações do mundo a mais sutil):

volúpia do aborrecimento?

ou, grande lascivo, do nada?”

O humor negro de um verdadeiro Bruxo que nos sobressalta em determinados contos e romances, tais quais os prazeres mórbidos de Fortunato com um pobre rato aprisionado em “A Causa Secreta”. Fortunato que se dá conta da paixão velada do médico Garcia, seu amigo, por Maria Luísa, sua esposa. O prazer que a dor alheia proporciona a Fortunato, tanto no rato dissecado vivo, quanto no deleite da impossibilidade de união entre os amantes, beijo dado por Garcia no rosto da já moribunda Maria Luísa.

Do sadismo privado ao prazer provocado pela dor que encontra eco nas guerras, mas também no murro e na facada, com a quebra da monotonia universal a partir da violência. Eis que para o Bruxo, nada do que seja humano o surpreende! Nem sadismo, nem guerra, murro, ou facada!

Os versos que concluem a estrofe são parcelas do ‘Delírio’ de Brás Cubas, num diálogo entre o Sonhador e a Natureza- Pandora que é mãe e inimiga do ser humano “o grande lascivo do nada”.

“O vento que rola do Silvestre leva o diálogo,

e o mesmo som do relógio, lento, igual e seco,

tal um pigarro que parece vir do tempo da Stoltz e do gabinete Paraná,

mostra que os homens morreram.

A terra está nua deles.

Contudo, em longe recanto,

a ramagem começa a sussurar alguma coisa

que não se estende logo

aparece a canção das manhãs novas”

O antídoto Silvestre da Silva, em “Coração, cabeça, estômago”, tal qual o Emplasto Brás Cubas ajudam a tratar o mal do século, a melancolia!

Além da sala da Casa, o outro suporte existencial, o Tempo, é marcado pelo “som do relógio, lento, igual e seco”, que se sincroniza com a cordialidade um tanto quanto fria do anfitrião. Para o poeta-visitante o relógio é transcendente, não mais um objeto, mas testemunha das duas dimensões fundamentais do tempo e da existência humana: o passado e o presente a se entrelaçarem.

E, como decorrência, a distância objetiva entre o tempo do poeta que visita e o tempo do Bruxo é rompida: esse mesmo relógio que marca tanto o tempo que é quanto o que se foi, também o faz naquilo que fora passado até mesmo para o anfitrião, “o tempo da Stoltz (famosa cantora lírica da juventude do Bruxo) e do gabinete Paraná ( do ministério de 1853)”.

Um Passado, que é sempre atapetado por mortos, para logo contrastar com a vida sempre a renascer “em longe recanto/ a ramagem começa a sussurrar alguma coisa”, no tempo.

“Bem a distingo, ronda clara:

É Flora,

com olhos dotados de um mover particular

ente mavioso e pensativo;

Marcela, a rir com expressão cândida (e outra coisa);

Virgília,

cujos olhos dão a sensação singular de luz úmida;

Mariana, que os tem redondos e namorados;

e Sancha, de olhos intimativos;

e os grandes, de Capitu, abertos como a vaga do mar lá fora,

o mar que fala a mesma linguagem

obscura e nova de D. Severina

e das chinelinhas de alcova de Conceição.

A todas decifrastes íris e braços

e delas disseste a razão última e refolhada

moça, flor mulher flor

canção de mulher nova...”

Agora o poeta moderno faz desfilar a galeria das mais conhecidas personagens femininas do realismo machadiano.

Olhos, ombros e braços, neles o Bruxo foi fixado, deles extraiu a fisiognomia que nos traceja os caráteres. Olhos “compridos”, “agudos”, “sabedores”, “convidativos”; braços “alvos”, “longos”; ombros “expostos”, através deles, o que interessa é a percepção da alma.

Ora são os olhos de uma mulher faceira, mas honesta, que eram como “a lanterna de uma hospedaria em que não houvesse cômodos para hóspedes”. Ora o olhar dúbio de ressaca de Capitu, em “Dom Casmurro”, ou o olhar frio de Fidélia, no “Memorial”, “como a esconder algo de si mesma”; ou ainda, o olhar cândido, mas coquete de Marcela, em “Brás Cubas”.

As mulheres de Machado, de todos os olhares, são objetivas e possuem força de caráter. Uma força de caráter que transpira pelos olhos, braços e ombros desnudos.

 

O poeta inicia nos trazendo Flora, personagem de “Esaú e Jacó”, exuberante e pródiga até no amor, como a Natureza o é em nossa Pátria. Ela vive uma dúvida extrema, pois ama aos dois gêmeos, Paulo e Pedro, um republicano, outro, monarquista. Sem definir-se, Flora definha e morre reproduzindo esteticamente a agonia do Brasil entre uma Monarquia decadente e uma República que já nasce corroída.

A seguir, Marcela, a espanhola alegre, que se delicia nos presentes dos amantes, “a rir com expressão cândida (e outra coisa)”, primeira amante de Brás Cubas, “... Marcela amou-me durante quinze meses e 11 contos de réis; nada menos”.

Retornamos a Virgília, que moça namorou Brás Cubas e casou-se com Lobo Neves e, quando mulher, acabou traindo este com Brás durante muitos anos, “olhos que dão a sensação singular de luz úmida”, numa fonte que nunca seca. Virgília, que mesmo quando do marido morto, não deixa de amá-lo.

Surge Mariana do conto “Capítulo dos Chapéus”, alma boa, pacata, ordeira, aceita e se integra à ordem paternalista. Dela jamais se ouvirá um senão, somente aceitação.

E Sancha “de olhos intimativos”, grande amiga e parceira de Capitu, esposa de Escobar, aquele por quem Bentinho acredita ter sido traído, em “Dom Casmurro”, pelos olhos de Capitu, grandes e “abertos como a vaga do mar lá fora”. Mas, nós nos perguntamos quem teria traído quem? Escobar e Capitu ou Bentinho em possível relação homossexual com o amigo Escobar? "Fiquei tão entusiasmado com a facilidade mental do meu amigo, que não pude deixar de abraçá-lo. Era no pátio; outros seminaristas notaram a nossa efusão; um padre que estava com eles não gostou." Isto nos tempos de internato de ambos. Por que não teríamos em “Don Casmurro” uma versão antecipada de “Relíquias da Casa Velha”, com Pilades e Orestes?

Agora chega Severina, de “Uns Braços”, a mulher de braços nus que provoca a paixão de um adolescente e o seduz, e Conceição, personagem de a “Missa do Galo”, conhecedora das traições do marido sem se incomodar.

Sobre todas elas, o poeta visitante sintetiza: “a todas decifraste íris e braços”.

“E ao pé dessa música dissimulas (ou insinuas, quem sabe)

o turvo grunhir dos porcos, troça concentrada e filosófica

entre loucos que riem de ser loucos

e os que vão à Rua da Misericórdia e não a encontram.”

Quem é esta mulher de olhos namorados, oblíquos, intimativos, marítimos? É moça? É flor ou canção? É a aquela que dissimula e se insinua que leva os homens à loucura “entre loucos que riem de ser loucos, e os que vão à Rua da Misericórdia e não a encontram”? O poeta se apodera da própria sátira ambígua do Bruxo: o que se ouve não é mais do que “o turvo grunhir dos porcos”, troça propícia para loucos e ciumentos.

“O eflúvio da manhã,

quem o pede ao crepúsculo da tarde?

Uma presença, o clarineta,

vai pé ante pé procurar o remédio,

mas haverá remédio para existir

senão existir?

E, para os dias mais ásperos, além

da cocaína moral dos bons livros?

Que crime cometemos além de viver

e porventura o de amar

não se sabe a quem, mas amar?”

Em O Almoço, Brás Cubas em suas memórias póstumas, após sentir um misto de dor e prazer, alívio e saudade, pela a partida da amante pra uma Província distante, discorre sobre o enterro de seus amores fartando-se com um bom almoço. Afinal, assim é a vida e haverá algum remédio para “o existir, que não seja o próprio existir?”

Em A Xícara de Café no “Dom Casmurro”, Bentinho, após um primeiro impulso suicida em que envenena o próprio café, lembra-se do historiador Catão, que antes de se matar leu e releu um livro de Platão, motivo pelo qual remete “à cocaína moral dos bons livros”. O episódio logo a seguir tem outra intenção, a homicida, quando Bentinho quase serve a xícara com veneno ao filho, afinal, “que crime cometemos além de viver/ e porventura o de amar/ não se sabe a quem, mas amar?”

Nesse ponto retornamos ao ‘O Delírio’ e à lição que Pandora oferece a Brás Cubas: “grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada.”

 “Todos os cemitérios se parecem,

e não pousas em nenhum deles, mas onde a dúvida

apalpa o mármore da verdade, a descobrir

a fenda necessária;

onde o diabo joga dama com o destino,

estás sempre aí, bruxo alusivo e zombeteiro,

que resolves em mim tantos enigmas”.

Estamos na crônica intitulada “O Velho Senado”. Machado lá afirma que todos os cemitérios se parecem. Sim, todos eles se parecem ao nos acolherem, ao Bruxo, primeiro, ao poeta depois, e a mim, nalgum dia de muito sol e sem chuva.

Só o cemitério congrega ao eternizar o que a vida e o tempo separaram, mas nosso criar jamais residirá em nenhum deles. Machado não “pousa” em São João Batista, mas vive naquele espaço “onde o diabo joga dama com o destino”, como uma espécie de “bruxo alusivo e zombeteiro”, porque seus atributos e inquietudes o fizeram grande sim, grande demais, presente nos dias do sempre!

“Um som remoto e brando

rompe em meio a embriões e ruínas,

eternas exéquias e aleluias eternas,

e chega ao despistamento de teu pencenê.

O estribeiro Oblivion

bate à porta e chama ao espetáculo

promovido para divertir o planeta Saturno.

Dás volta à chave,

envolves-te na capa,

e qual novo Ariel, sem mais resposta,

sais pela janela, dissolves-te no ar”.

Concluímos nossa saudação. Vem das “Memórias póstumas de Brás Cubas”, o capítulo Oblivion, isto é, o esquecimento: o narrador, por volta dos cinquenta anos de idade, despede-se de Eros e justifica tanto a mudança quanto o envelhecimento das coisas e dos seres como tarefa de ‘Oblivion’ para divertir o planeta Saturno, símbolo eternal da melancolia dos mortais.

Os últimos versos da estrofe remetem à peça teatral “A Tempestade”, de Shakespeare e ao gênio dos ares, Ariel, escravo do bruxo Próspero. Machado de Assis como Ariel, também é capaz de se dissolver no ar, assim como a metáfora da visita que se eclipsa aos hóspedes da ilusão.

Bibliografia:

  1. Cândido Antônio: “Esquema de Machado de Assis”. São Paulo, Ed. Duas Cidades.

  2. Assis, Machado: Obras Completas. São Paulo, Aguilar, 1962.

  3. Andrade, C.D.: Antologia Poética, São Paulo, Companhia das Letras.

  4. Guidim, M. e outros: “Ensaios de crítica contemporânea”, São Paulo, Ed. Unesp.

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