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"Textos e Contexto de Machado de Assis aos Modernistas"

O Rio de Janeiro, capital do Império e da República, de Machado de Assis e Lima Barreto.

No dia 18 de julho de 1841, o Rio de Janeiro era uma festa. Toda a Corte paramentara-se para aquele que seria o seu mais importante evento: a coroação de D. Pedro II. O ritual era composto de mais de um milhar de pessoas. Piquetes de cavalaria, marchas militares, arqueiros, foguetório, tudo o que seduzisse e intimidasse. Ao final, o grande baile da coroação!

Após os anos conturbados da Regência, estabelecera-se certa estabilidade política e financeira graças ao preço internacional do café, produto do trabalho escravo. A Monarquia, em oposição à Regência, deveria simbolizar progresso, prosperidade. Respirava-se, por isso, certo clima de prosperidade na cidade da Corte Imperial.

O Rio, da infância e juventude de Machado de Assis, viveu o auge da sociedade escravagista. Os anos de ouro do Império se iniciaram em 1841 se estenderam até 1864, mantendo-se a estrutura social absolutamente elitista e oligopolizada.

Nessa época, a população carioca mal alcançava os 270 mil habitantes. A cidade inaugurou um período de quase quinze anos de renovação, tendo por modelo a Paris de Napoleão III, quando surgiram poucos e limitados bairros elegantes e bem cuidados, para os lados de Laranjeiras e São Clemente.

Proliferaram, também, os salões mundanos, tempo propício às celebrações pela elite social. A vitória brasileira na guerra contra a Argentina de Oribe e Rosas, a efervescência dos meios financeiros, tudo era motivo ou pretexto para festejos e saraus. O grande baile do Paço Imperial, de agosto de 1852, havia dado o exemplo seguido em muitos solares cariocas. Começavam os tempos em que no Rio de Janeiro, "bailava-se, cantava-se, passeava-se, ia-se ao teatro", segundo palavras de Machado de Assis. Tempo dos bailes dados aos sábados na casa dos Bregaro, cuja esposa era nora da baronesa de Sorocaba, irmã da marquesa de Santos.

Ao teatro, em particular, ia-se muitas vezes para desfrutar o espetáculo predileto dos cariocas de então: a ópera italiana! É ainda Machado de Assis quem intitula esse período como os "tempos homéricos do teatro lírico". Em 1858, inaugurava-se no Rio a Imperial Academia de Música e Ópera Nacional e a cantora Rosina Stoltz, "célebre cantarina", reinava na ribalta.

Mas ao lado do luxo e do refinamento de poucos, havia o lixo. Como a elite carioca vivia longe das praias, os dejetos eram atirados diretamente às ruas ou amontoado em tonéis, recolhido por escravos e despejados no mar. E , ao mesmo tempo em que a sujeira no passeio público crescia ano após ano, as praias exalavam mais e mais o cheiro ocre da putrefação.

A capital do Império e o escravagismo.

Uma crônica de Vivaldo Coaracy nos diz que as fugas de negros do cativeiro e a formação de quilombos na Serra dos Órgãos, da qual desciam para assaltar propriedades rurais e aliciar outros escravos, haviam-se tornado tão frequente que levara, no século anterior, a Câmara do Rio a instituir de prêmios para a prisão de negros fugidos, fixando taxas a serem pagas pelos proprietários. Com isso, uma nova profissão surgiu na província, a dos caçadores de escravos.

Muitas vezes, entretanto, como os proprietários dos escravos regateavam o pagamento das taxas quando da captura do negro fujão; coube novamente ao Poder Público intervir. A Câmara decidiu organizar uma milícia civil armada, a primeira do Estado do Rio, que teria direito a dois terços do valor do negro capturado.

Com o passar dos anos, o Rio de Janeiro de meados dos anos 1800, tornou-se uma cidade cuja população era cinquenta por cento composta por escravos. Foi quando surgiram os caçadores de negros fugidos que trabalhavam por empreitada, com os olhos postos nos anúncios em jornais e na recompensa oferecida. Em “Relíquias da Casa Velha”, Machado de Assis nos traz o conto ‘Pai contra mãe’. O personagem tomava como figurino o famoso Manuel João. Sem profissão definida e com expressa preguiça para destinar-se ao trabalho manual, após casar torna-se um caçador de escravos por recompensa. Sua mulher, grávida, tem um filho. A profissão de caça ao negro sofre muita concorrência e os proprietários de escravos regateiam o pagamento anunciado. Sem dinheiro, o filho que o pai ama deve ser entregue ao orfanato. Na última hora ele identifica na rua uma negra fugitiva, que buscara algum abortivo numa farmácia. Ele a agarra, a amarra e a devolve, com sangramento e tudo, para seu dono-estuprador. Recebe a recompensa prometida e o seu filho pode voltar a ter um lar.

“Ora, pegar escravos fugidos era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implícita das ações reivindicadoras. Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir também, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem”.

O pelourinho carioca ficava no Largo do Rossio, atual Praça Tiradentes. O jornalista, teatrólogo e abolicionista Arthur de Azevedo, no alvorecer do século XX, resenha os tipos de tortura infringida aos escravos nas cidades. A aplicação de açoites nos pelourinhos, colunas de pedras advindas da velha tradição de suplício na Roma Imperial, erguidas em praça pública. Na parte superior, essas colunas tinham pontas recurvadas de ferro, onde se penduravam os condenados à forca. “O espetáculo era anunciado publicamente pelo rufar dos tambores e era grande a multidão que assistia ao látego do carrasco abrir estrias de sangue no dorso nu do negro e a malta aplaudia e se excitava com as sevícias”.

Os anos de decadência

No decorrer dos anos 1860, teremos o início da decadência da produção cafeeira do Vale do Paraíba, um dos principais polos da economia agroexportadora. As terras estavam exauridas, o preço do escravo, desde a proibição do tráfico negreiro por pressão da Inglaterra, só fazia crescer.

A esse fator, acrescenta-se o desastre em termos de vidas e recursos financeiros que significou a Guerra do Paraguai (1864 a 1870). Os anos da guerra talvez tenha sido um dos períodos em que mais os cofres públicos foram rapidamente esgotados, tanto pelos custos em si da campanha, quanto por negociatas entre fornecedores e o Estado. Ao mesmo tempo, fortunas surgiram da noite para o dia em mãos de pequenos comerciantes muito bem relacionados politicamente. Machado de Assis, em “Esaú e Jacó” nos traz a enigmática figura de Custódio que, de arrecadador de esmola, torna-se um argentário.

Esses fatores contribuíram para que o curto ciclo de desenvolvimento da metrópole se esgotasse. Com o final da guerra, o afluxo para o Rio de negros-soldados libertos que sobreviveram, boa parte deles com sequelas, contribuiu para que a estabilidade social relativa, que dera esperanças a um Machado de Assis romântico de que o paternalismo escravagista poderia se abrir propiciando uma sociedade moderna e mais justa, se desfizesse.

De tal forma que a população do Rio de Janeiro dobrou em vinte anos. Logo a seguir, iniciou-se o afluxo de imigrantes europeus e de ex-escravos vindos de lavouras esgotadas e, em princípios de 1900, o Rio já ultrapassava as 700 mil habitantes. Triplicara a população em não mais de trinta anos!

A explosão demográfica agravou a pobreza e provocou enorme crise habitacional. Na cidade velha e em suas adjacências, multiplicavam-se as habitações coletivas e eclodiam epidemias que conferiam à cidade a qualificação internacional de “porto sujo".

Por outro lado, o custo de vida, com a escassez de alimento para tantas bocas, acentua a fome e faltam pães para o pobre alimentar-se dele com bananas.

Fim do Império e princípio da República. Rio, uma bela cidade, mas muito perigosa.

Luís Edmundo da Costa, em “Memórias”, descreve as belezas e as feiuras do Rio nas duas últimas décadas do século XIX e dos primeiros anos de 1900. A cidade cheirava a ranço colonial, com infinidade de sujeiras, e era varrida por epidemias de doenças infectocontagiosas.

Ao lado de pobres e de negros maltrapilhos, caminhavam por suas principais ruas sujeitos de sobrecasaca preta, flanela, colarinho duro e cartola, julgando-se na França, mas suando à beça sob um calor de quarenta graus à sombra. As moças usavam sapatos abotinados, impecáveis luvas rendadas, imensos chapéus, cheios de penas e plumas. O Rio também o era dos boêmios, de “gente mais ou menos literata”, que ao lado de alguns estroinas e barulhentos, se espalhavam pelos cafés, confeitarias e jornais da Rua do Ouvidor.

É certo que a cidade possuía a beleza natural que todo o mundo admirava, mas de preferência quando vista ao longe, desde os conveses dos navios onde se comprimiam os passageiros que a admiravam, a caminho de uma terra segura como Buenos Aires ou Montevidéu. No conceito internacional, o Rio era uma cidade bela, mas maldita.

Os poucos e corajosos viajantes que ousavam desembarcar no cais, ao atravessavam a Praça 15 de Novembro, caminhavam por um tapete formado por restos de frutas e detritos. Deparavam-se com barqueiros, marujos, carregadores, soldados, todos ávidos por gorjetas ou subornos. Mendigos e vagabundos com eles ombreavam em busca de carteiras ou equipagens desguarnecidas.

A tônica era dada pela miséria e pela sujeira. No Rio de Janeiro de ruas estreitas, muitas vezes becos onde se amontoam toneladas de lixo. Em suas praças mais amplas inexistiam árvores, pois elas haviam sido devastadas. As ruas fervilhavam de vendedores em carroças e no lombo dos animais; os menos afortunados carregavam bugigangas nas costas e nos braços. Eram homens, mulheres e crianças, antigos escravos, imigrantes, trazendo suas mercadorias sedentas de compradores. O leiteiro conduzindo uma vaca, o vendedor de galinhas, o cesteiro, o ceboleiro, o paneleiro, o verdureiro. Um oferece mocotó, outro, doces, outro, miudezas. A cidade do Rio era uma imensa feira a céu aberto.

Para matar a sede e a fome das pessoas surgem os quiosques montados em plenas calçadas, cachaça mais barata para se tomar um trago. Não pagam impostos e subornam os fiscais. “Cada quiosque mostra, em torno, um tapete de terra úmida, um círculo de lama. Tudo aquilo é saliva. Antes do trago, o pé-rapado cospe. Depois, vira nas goelas o copázio e suspira. Nova cusparada, e da boa!” (Luiz Edmundo)

“O povo está sem instrução, a indústria desprotegida e os serviços públicos são feito de molas emperradas. Só o comércio progride, onde o ‘honrado comendador’ vende seu quilo de 800 gramas e o metro de 85 centímetros.”

As casas de tijolo e alvenaria são escassas e caras, o que obriga boa parte da população a viver nos cortiços ou em favelas. Dos dois, o pior lugar são as favelas, carentes de tudo, principalmente de água e esgoto, barracos toscos de madeira construídos nos morros ou em terrenos íngremes. Nelas predominam os negros, muitos dos quais  mutilados na Guerra do Paraguai.

Os cortiços possuem condições um pouco melhores que as favelas. São galpões ou casarões antigos e decadentes subdivididos por tabiques de madeira e alugados, estreitos e úmidos cômodos. Seus donos, muitas vezes, são até mesmo aristocratas. Por exemplo, o maior cortiço do Rio, antes de 1889, era o “Cabeça de Porco” de propriedade do Conde D’Eu, marido da Princesa Isabel, e nele residiam mais de quatro mil pessoas pagadores regulares de alugueres.

Enquanto isso, a nata da sociedade carioca, os ricos fazendeiros e aristocratas, que na virada do século, não seriam mais de cinco mil pessoas, viviam em luxuosas mansões pelos lados das Laranjeiras e de São Clemente.

Mais ou menos próximo ao centro e nos subúrbios, uma classe média nascente, composta por funcionários públicos, médicos, baixa oficialidade, pequenos negociantes, começa a construir casas simples e novos bairros, tal qual o Estácio, começam a se formar, substituindo muitas chácaras antigas.

O Rio também é a cidade rainha da noite brasileira, boêmia e a farrista, onde a prostituição se expande. Enquanto os ricos frequentam as “pensions des artistes”, prostíbulos de luxo pelos lados do Botafogo, Jardim Botânico e Catete, os pobres se divertem pelos botequins e pelas ruas da Alfândega e do Arsenal, onde moças enfileiradas esperam um cliente.

Aluízio Azevedo, em “O Cortiço”, descreve o clima da Capital: “Também cantou. E cada verso que vinha da sua boca de mulata era um arrulhar choroso de pomba no cio. E o Firmo, bêbedo de volúpia, enroscava-se todo ao violão; e o violão e ele gemiam com o mesmo gosto, grunhindo, ganindo, miando, com todas as vozes de bichos sensuais, num desespero de luxúria que penetrava até ao tutano com línguas finíssimas de cobra.”

A sífilis, uma herança do escravagismo, e outras doenças infectocontagiosas.

Se por um lado, a sexualidade sempre foi uma marca registrada tanto dos pobres quanto dos ricos cariocas, por outro, o Brasil foi, desde princípios do século XVIII, o país da sífilis por excelência.

Uma voz que viria do nordeste nos primeiros anos do modernismo, Gylberto Freire, destruiria o mito de que o alto nível de erotismo de nosso povo seria devido aos negros. Ele diz: “Passa por um defeito da raça africana, comunicado ao brasileiro, o erotismo e a luxúria exacerbada... Mas o que se tem apurado dentre os povos africanos, é, sim, uma maior moderação do apetite sexual que entre os europeus. Os africanos são mais sofisticados dado que para excitarem-se necessitam de certas circunstâncias especiais, como danças, afrodisíacos, cultos fálicos e orgias. Já os europeus excitam-se por qualquer motivo”.

Joaquim Nabuco colheu de um manifesto escravocrata as seguintes palavras: “a parte mais produtiva da propriedade escrava é o seu ventre gerador“. E é dele a afirmação: “Não há escravidão sem depravação sexual. É da essência mesma do regime, pois em primeiro lugar, a própria ganância favorece a depravação, criando nos proprietários de escravos o desejo de produzir o maior número possível de crias”.

Ainda Nabuco: “O negro se sifilizou no Brasil”. A “raça considerada inferior” adquiriu da “superior”, dos brancos senhores de escravos, as doenças venéreas. “Negras tantas vezes virgens, ainda molecas de doze a treze anos, eram entregues a rapazes brancos já podres da sífilis contraída nas cidades”. Nem mesmo as amas de leite negras estavam livres do contágio sifilítico proporcionado por crianças brancas contaminadas. “De tal forma que a sífilis fez sempre o que quis no Brasil”, graças ao escravagismo. “O sangue envenenado arrebentava em feridas; coçavam-se então as “perebas ou cabidelas”, tomavam-se garrafadas, chupava-se caju. Nem mesmo mosteiros estavam a salvo das devastações provocadas pelo mal gálico.”

Além da sífilis, o Rio de Janeiro era, nos primeiros anos do século XX, uma cidade tremendamente insalubre, fétida e perigosa.

Tudo indica que a febre amarela chegou ao Rio a bordo de um cargueiro americano e aqui se estabeleceu. O porto, repleto de vigamentos podres prolongava-se sobre terrenos alagadiços, o que aliado às péssimas condições de higiene, permitia que o mosquito transmissor da doença se multiplicasse à vontade. Tanto a febre amarela quanto o cólera eram muito mais intensos no verão; com a chegada do inverno os surtos de varíola se sucediam. De permeio, a multiplicação dos ratos em toda aquela imundície era assustadora e surtos de peste bubônica tornavam-se rotineiros. Já a tuberculose, esta era endêmica, acometendo ricos e pobres, apenas que a estes últimos matava mais rapidamente.

As mortes causadas por doenças infectocontagiosas, em 1900, alcançaram um total de 7.123 casos, mais que 1% da população!

Por isso, desde o Império, as pessoas de posse e de poder político abandonavam a cidade quando o verão se fazia sentir. Famílias inteiras tomavam as barcas no cais Pharoux e atravessavam a baía até Niterói. Os mais ricos e a aristocracia optavam pela balsa de Mauá até a estação que os levariam de trem para Petrópolis, onde D. Pedro transferia o Governo para o Palácio Imperial.  E o Rio ficava entregue aos pobres, aos “meganhas”, aos ratos, às pulgas e aos mosquitos.

 

O surgimento da cidade maravilhosa

Para atrair turistas, investimento e imigrantes estrangeiros, mão de obra qualificada da qual o Brasil era carente, era urgente e necessário que a Capital Federal fosse repaginada, modernizada e saneada.

Rodrigues Alves, a terceira fortuna do País, elegeu-se Presidente da República exclusivamente com esta plataforma de governo, em 1902. Eleito com o voto censitário de menos de 2% da população, teve a sorte de em seu governo a cotação do preço internacional do café mais que duplicar o que lhe permitiu reformatar nossa Capital Federal.

Para tanto buscou duas pessoas com absoluta capacidade técnica e de trabalho, autoritários cada qual à sua maneira: o prefeito nomeado Pereira Passos e o pesquisador do Instituto Pasteur, o brasileiro Oswaldo Cruz.

O engenheiro Passos, por seu lado, cercou-se de dois assessores: Francisco Bicalho e Paulo de Frontin, cabendo ao primeiro comandar a modernização da zona portuária, e ao segundo, a reurbanização da área central do Rio.

O porto foi reconstruído a partir da Praça Mauá até o canal do mangue, e o aterro ganhou do mar milhares de metros quadrados. Construíram-se novos armazéns e mais de cinquenta guindastes elétricos foram implantados. Para melhorar o acesso ao cais, as linhas ferroviárias da Leopoldina e da Central do Brasil foram ampliadas e rasgou-se uma nova avenida: a Rodrigues Alves.

Paulo de Frontin, por seu lado, não titubeou em demolir nada menos que 614 edificações, dentre elas centenas de cortiços em exíguos nove meses! Com isso promoveu um dos maiores e brutais êxodos urbanos jamais vistos na História. Seu exército de demolidores, vulgo “bota abaixo”, explodiu habitações e removeu milhares de toneladas entulho.

Em outubro de 1904, a perplexa população carioca via o centro da cidade se assemelhar a um cenário de destruição. Mais de uma centena de milhar de pessoas haviam sido expulsas de seus pobres alojamentos para as encostas dos morros, para a zona portuária e para o Caju.

“O próximo Governo- diziam os jornais- devemos procurá-lo num hospício”!

Dos famosos quiosques de rua, nenhum sobreviveria. Os antigos feirantes, por sua vez, eram perseguidos e expulsos do centro da cidade e as bastonadas da polícia impediam o seu retorno; o dinheiro do café permitia o emprego de milhares de pessoas nos trabalhos braçais de demolição, limpeza e reestruturação.

Em relação à saúde pública, no governo anterior ao de Rodrigues Alves, fora criado o “Instituto Manguinhos”, com a função de produzir vacinas contra a peste bubônica. Para dirigi-lo solicitara-se uma indicação ao Instituto Pasteur de Paris. Surpreendentemente, o cientista  recomendado foi um jovem médico brasileiro de vinte e sete anos, Oswaldo Cruz. Quando o Presidente Rodrigues Alves ofereceu-lhe o desafio de sanear o Rio de Janeiro, ele disse: “Dê-me liberdade de ação e eu exterminarei a febre amarela em três anos.”

Entretanto, Cruz, uma vez empossado, teve como primeiro objetivo o combate à peste bubônica. Criou um esquadrão de cinquenta homens vacinados que percorria todos os cantos espalhando raticidas e mandando o lixo ser removido. Fez mais: criou o cargo público de “compradores de ratos”. Estes funcionários compravam ratos vivos ou mortos pela população e com isto, em curto prazo, praticamente desapareceram os ratos, suas pulgas e com eles, a epidemia.

O povo da cidade e parte significativa da imprensa começou a atacá-lo quando, na etapa seguinte, impulsionado pelos bons resultados obtidos na cidade de São Paulo pelo epidemiologista Emílio Ribas, Oswaldo Cruz iniciou o combate à febre amarela. Ribas, a partir da descoberta do médico cubano Carlos Finlay, tivera êxito ao atacar o vetor responsável pela infecção: o mosquito!

Cruz formou as “brigadas de mata mosquitos”, despejando petróleo nos alagados e desinfetando casa por casa no Rio. Os resultados foram incríveis! De um patamar de 500 mortos pela febre em 1903, no ano seguinte somente 34 óbitos foram registrados e, em 1909, o Rio de Janeiro foi declarado cidade livre da febre amarela.

Empolgado pelos resultados, o Dr. Cruz, em outubro de 1904, conseguiu que o Congresso aprovasse a vacinação obrigatória contra a varíola, sem qualquer campanha educacional prévia. Por autoritarismo acendeu tanto o pavio da revolta, quanto de uma desmedida repressão policial.

O descontentamento popular com o governo dito “reformador” de Rodrigues Alves era enorme. A carestia da alimentação no Rio, a destruição das moradias populares, o alijamento da política dos militares positivistas que haviam principiado a República, e o ódio às elites dos cafeicultores de São Paulo, representadas pelo Presidente da República, cada vez mais ricas e poderosas, tudo foi canalizado contra a vacinação coercitiva.

Em 10 de novembro, as ruas da Capital Federal encheram-se de barricadas, bondes foram incendiados, lojas depredadas e saqueadas. A Escola Militar da Praia Vermelha aliou-se ao povo sublevado e seus alunos saíram armados às ruas, enquanto o prédio era bombardeado e semidestruído pela Marinha de Guerra.

A reação do Governo foi rápida e extremamente dura. Nos confrontos, mais de duzentas pessoas morreram e centenas simplesmente desapareceram. As tropas governistas percorriam os cortiços e favelas capturando não apenas amotinados, mas “metendo os ferros” a torto e à direita, principalmente negro e mulato. Milhares de pobres foram enfiados em porões de navios e despachados para o Acre. Desta data, despareceram, como por encanto, as legiões de negros estropiados pela Guerra do Paraguai e a grande maioria dos “embarcados” jamais retornou a lugar algum.

Como vemos, a ideia de “eugenia tupiniquim” antecedeu em mais de trintas anos à germânica.

Dias após “a limpeza” iniciou-se a vacinação em massa contra a varíola. Em meses, a doença  desapareceria do Rio de Janeiro e “em 1906, o carioca já podia orgulhar-se de viver na cidade mais linda do mundo” e praticamente livre da febre amarela, do cólera, da peste e da varíola.

Enquanto isso, o prefeito do Rio, Pereira Passos, fazia erguer dos escombros uma nova cidade. Os estrangeiros já podiam desembarcar sem medo no novo porto e logo percorreriam as Avenidas do Mangue e a da Beira-Mar.

Os hábitos elegantes da elite carioca deixaram a Rua do Ouvidor e foram canalizados para a Avenida Central, atual Rio Branco, recém-criada com seus quase dois quilômetros de extensão e trinta e três metros de largura. Para seus belos edifícios, todos erigidos à moda dos bulevares franceses, deslocou-se todo o comércio de primeira linha; os bares e cafés da moda colocavam mesas ao ar livre onde rapazes elegantes bebericavam e conversavam, apreciando as belas jovens a desfilar chapéus e vestidos europeus.

Na Avenida, forrada com pedra macadame, desfilavam os primeiros automóveis! Em 1908 já proliferavam as garagens. “A Metrópole brasileira queria assemelha-se a um pedaço da Europa”, dizia a Tribuna. Claro, desde que o olhar não se levantasse para os morros onde as favelas se alastravam.

Foi neste ano que se realizou a Primeira Exposição Nacional, baseada na de Paris de uma década atrás. Local escolhido: Praia Vermelha, Urca, sobre os escombros da revoltosa Escola Militar. Data: Dia 11 de setembro, o mesmo dia da Abertura dos Portos do Brasil colonial.

O jornalista João do Rio escreveu: “A Exposição vai abrir-se. É a grande mostra do Brasil. Cada Estado expõe suas riquezas e seus produtos industriais... O estrangeiro admirará, aproveitará... o brasileiro se descobrirá. E estou a ver o pasmo do carioca diante do ouro, das pedras, das madeiras, dos tecidos e dos aproveitamentos da natureza assombrosa. Isto é do Paraná?... Isto do Amazonas? ... Ora, onde fica o Mato Grosso? Quando o brasileiro descobrirá o Brasil?”

Figueiredo Pimentel, figura destacada na cena da Belle Époque carioca, foi o autor da máxima: “O Rio civiliza-se”. O Rio, a bela cidade das melindrosas e dos almofadinhas, flanadores tropicais, cidade múltipla, carnavalesca, sentimental, terra de revoltas populares, de muitas alegrias e tristezas, de trabalho suado, de inclusão e exclusão social, de repressão e de conquistas populares, começava a ganhar a alcunha de “Cidade Maravilhosa”.

Em 1909, Anatole France, humanista defensor da liberdade de expressão e autor de “A ilha dos pinguins”, um romance- manifesto contra a corrupção dos políticos profissionais, visitou o Rio de Janeiro. Ruy Barbosa o recepcionou com um discurso em francês, ao qual France respondeu em claro português: “Palas Athena (a deusa grega da sabedoria) refugiou-se nessa cidade, que é uma verdadeira maravilha”. France não sabia como os pinguins aqui se abrigavam!

Foi nessa realidade de cidade maravilhosa sim, mas excludente e preconceituosa, onde a “literatura militante” e o jornalismo patriótico de Lima Barreto se fez presente, com um grito destoante da propaganda ufanista oficial.

Em “O Traidor”, Barreto guarda um tom cético e melancólico, próprio de uma geração que acreditara demais na loteria de “um novo tempo”. Ser mestiço ou negro seguia significando  um obstáculo quase intransponível a cercear a utopia de igualdade e cidadania, e, ainda mais, de autonomia intelectual. “Era bom saber se a alegria que trouxe à cidade a lei da abolição foi geral pelo país. Havia de ser, por que já tinha entrado na convivência de todos a sua injustiça originária. Quando eu fui para o colégio..., a alegria entre a criançada era grande. Nós não sabíamos o alcance da lei, mas a alegria ambiente nos tinha tomado. A professora... creio que nos explicou a significação da coisa; mas com aquele feitio mental de crianças, só uma coisa me ficou: livre! livre! Julgava que podíamos fazer tudo que quiséssemos; que dali em diante não havia mais limitação aos progressistas da nossa fantasia. Mas como estamos ainda longe disso!”

De alguma forma, podemos afirmar que, literariamente, o “mestiço” Lima Barreto encarnou um difícil momento de continuidade e ruptura entre o passado que morria com o “mestiço” Machado de Assis, e o futuro que pertenceria ao vanguardismo modernista. Mas essa já é outra história.

 

Bibliografia

  1. Coaracy, Vivaldo. Memórias da cidade do Rio de Janeiro, Ed. Jose Olympio, 1965.

  2. Figueiredo Pimentel, Gazeta de Notícias, setembro 1908.

  3. Costa, Luiz Edmundo. O Rio de Janeiro do meu tempo. Imprensa Nacional, 1935.

  4. Pereira, Astrogildo. Crítica impura, Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1963.

  5. Schwarcz, L. e Starling, H.. Brasil, uma biografia. São Paulo, Companhia das Letras, 2015.

  6. Azevedo, A.. “O escravocrata”. Biblioteca Nacional.

  7. Schwarcz, L.. “Lima Barreto, triste visionário”. São Paulo, Companhia das Letras.

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