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"Textos e Contexto de Machado de Assis aos Modernistas"

Machado de Assis, em três romances

“Em nosso país, a vulgaridade é um título, a mediocridade, um brasão; para os que têm a fortuna de não se alarem além de uma esfera comum, é que nos fornos do Estado se coze e se tosta apetitosos pães-de-ló, que são depois repartidos por eles, para a glória de Deus e da Pátria”. 

Machado de Assis, quando esgota sua fase romântica, o que ocorre em fins dos anos 1870, volta-se para o retrato da estrutura e do desenvolvimento da sociedade em que viveu. Direciona seus trabalhos tanto para transmitir verdades históricas, como para descrever a essência dos homens inseridos no contexto.

Nesse nosso trabalho incluímos três romances do realismo machadiano. No primeiro, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, Machado enfoca principalmente o período histórico que coincidiu com a juventude do autor, anos de 1850 a 1870, quando as oligarquias econômicas e seus representantes políticos sentiam-se seguros de seu perpetuamento, num sistema cuja base era o trabalho escravo.

O segundo romance será o último escrito por Machado, “Memorial de Aires”. Nele o autor ademais de expressar todo seu pessimismo com o destino humano, provavelmente em seu trabalho melhor escrito, se insere no processo de abolição da escravatura. Toda trama decorre num período curto de tempo, meses de 1888 e se interrompe antes da proclamação da República.

Finalmente, “Esaú e Jacó”, o terceiro romance, constitui o mais enigmático dos trabalhos de Machado de Assis. Percorre o período da decadência do Império que se estenderá até após a tomada do poder pelos militares. Estamos falando do período de 1870 a 1894.

 

I - “Memórias Póstumas de Brás Cubas”

“Memórias Póstumas de Brás Cubas”, uma das obras mais revolucionárias e inovadoras da literatura brasileira, é antes de tudo uma sátira social, política e de costumes, muito bem definida como precursora do realismo fantástico.

O romance tem como pano de fundo a sociedade escravocrata de meados dos anos mil e oitocentos, com foco em 1840-1860, tempos em que a oligarquia do café sentia-se segura econômica e politicamente, representada ora no parlamento imperial ora pelo Partido Conservador, ora pelo Liberal.

São os filhos, parentes ou os próprios latifundiários que se fazem representar na Corte. Uma vez nela ou nas governanças das Províncias, seus membros exercem a política baseada no compadrio e na corrupção. Uma alternativa na Corte à política é o nada fazem de concreto na vida, exceto exibir-se e flanar. O trabalho real na sociedade ou é escravo, ou é exercido por agregados, em situações de submissão clientelista.

Essa é a centralidade do contexto de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”.

No romance não existe uma única frase que não tenha uma segunda intenção ou um propósito espirituoso e se nos colocarmos a certa distância do texto, fica simples entrever as grandes linhas da estrutura social de classes e são essas que dão a terceira dimensão ou integridade ao romance, segredos da obra de um gênio.

Um morto se dirige aos vivos para criticar a realidade humana! A leitura do romance deve levar em conta esta dupla condição do protagonista: um Brás que vivo rememora e um Brás, morto, que escreve! O Brás vivo tem a existência marcada por futilidades sociais, pelo desprezo que manifesta por todos aqueles que não pertençam à sua classe, à elite. Já o Brás morto é o narrador capaz de expor sem nenhum pudor os defeitos próprios e alheios: um morto não pode ser atingido pela ira de seus contemporâneos, e a com a sepultura o “defunto narrador” ganhou alguma sabedoria para perceber o próprio modo de agir seu e dos semelhantes, mesmo seguindo ideologicamente o padrão de sua classe de quando vivia.

Como sátira, a estridência e os artifícios são numerosos, o que prende a atenção do leitor desde a primeira à última linha. “É obra de finado. Escrevia-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio… se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus”.

O humor machadiano irá decompor as atitudes “nobres” ou apenas convencionais pondo a nu as razões do insaciável amor-próprio, das quais a vaidade é o paradigma e a futilidade, o sinônimo. Humor que mescla a convenção e o sarcasmo como um paradoxos de vida.

Assinala Alfredo Bosi que o humor machadiano oscila entre a móvel jocosidade na superfície das palavras e um sombrio negativismo no cerne dos juízos. Humor que mal disfarça a certeza monótona do nada que espreita a viagem que o homem empreende desde o nascimento até a morte. “Humor que parodia as doutrinas do século, positivismo e evolucionismo, sob o nome de Humanitarismo, e as coloca na boca de um mendigo aluado”.

O tempo histórico do romance ocorre na contramão. Inicia-se em 1805, com o nascimento e finaliza com morte do narrador, 1869.

Roberto Schwartz enumera algumas das referências históricas mais evidentes presentes no livro, comentadas de maneira não conformista, ainda que prudentemente cifradas. Aliás, tudo em Machado possui segundos e terceiros sentidos e nós vamos elencar os mais incisivos:

O nascimento de Brás em 1805, (mesmo ano do falecimento de Schiller, que tanto influenciara a fase romântica de Machado de Assis, cuja ruptura ocorre justamente com “Memórias Póstumas de Brás Cubas”), acontece nos últimos anos do Brasil colônia, antes da vinda da família real portuguesa (1808).

A educação infantil de Brás é prototípica dos filhos dos oligarcas, em que se aprende a não conhecer normas e obedecer somente aos próprios caprichos. Ela coincide com o tempo do estabelecimento do Reino Unido Brasil- Portugal, assim como com o enorme afluxo e baixo valor do escravo. “Dessa terra e desse estrume, nasceu esta flor”, expressão sarcástica sobre a formação dos filhos de senhores de escravos.

O primeiro cativeiro sentimental de Brás é a paixão por Marcela, uma espanhola de vida “alegre”, o que coincide com os festejos da Independência, 1822. “Éramos dois rapazes, o povo e eu; vínhamos da infância com todos os arrebatamentos da juventude.” O paralelo entre o amanhecer da alma pública do Brasil independente e as primeiras auroras amorosas de Brás tem a clara intenção de chocar o público da época.

Brás ainda gastou trinta dias até chegar ao coração de Marcela, pois tinha um concorrente tuberculoso que a presenteava. Estamos no primeiro mês de incertezas pós-proclamação da independência, o que nos leva a outubro de 1822, quando D. Pedro I é coroado Imperador.

“ Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis”, chegaremos a março de 1824, quando Dom Pedro outorga ao Brasil  sua Constituição, cujo autoritarismo encerra a aventura liberal da Primeira Constituinte, cujo modelo havia sido a “carta espanhola”. Em sua proclamação são desterrados e presos opositores. Brás é “detido” por seu pai, interrompendo à força seus amores liberais e enviado à Europa.

Brás é mandado à velha Europa “beber” da cultura do tempo. São anos de “romantismo prático e liberalismo teórico”, durante os quais o personagem colhe de todas as coisas “a fraseologia, a casca e o ornamento”. Podemos ver aqui uma alusão ao Primeiro Reinado, ao Imperador e à maneira pela qual o Brasil, recém-saído do confinamento colonial, abraçava as ideias modernas apenas como ornamento, numa sociedade dirigida pelos “pró-portugueses” conservadores e escravocratas.

O paralelismo dos períodos prossegue; a fase europeia encerra-se com a volta precipitada de Brás ao Brasil após oito anos, com a mãe a morrer. Estamos na crise dos anos 1829/30 (quando ocorreu a falência do Banco do Brasil, por exemplo). Logo morre o pai e Brás fica órfão, como se dizia do Brasil, com a abdicação de Dom Pedro I.

A etapa seguinte de vida desperdiçada, dissoluta e semi- reclusa de Brás coincide com os anos da Regência.

Com o golpe da maioridade de Pedro II (aos quatorze anos de idade), em 1841, Brás vem abrilhantar a vida da Corte. É literalmente um vadio, campeão da moda e amante meio secreto e meio às claras de uma mulher elegante da época, casada com forte político, com o qual trava uma amizade interessada.

Em 1855, encontraremos Brás como Deputado e aspirante a Ministro. O único discurso proferido por ele um dia é sobre as dimensões das barretinas utilizadas nas golas dos uniformes da Guarda Nacional. A conjuntura política era a da “Conciliação” (1853-1857) entre conservadores e liberais, e a futilidade dos antagonismos parlamentares tomava a feição de um programa político, tal qual a questão das barretinas machadianas.

Por imposição da Inglaterra, em 1850, o Império proíbe o tráfico negreiro, o que não afeta comércio interno. O progresso financeiro de Cotrim, cunhado de Brás, como contrabandista de escravos, ocorre entre 1850 e 1860 (após a proibição), até este tornar-se beneficiário de suprimentos superfaturados à Marinha, durante a Guerra do Paraguai ( 1865 a 1870), período de grandes negociatas. Machado assinala esteticamente que o tráfico de negros fora substituído por uma imoralidade mais contemporânea, a corrupção, um conluio entre empresários e políticos, às custas do erário.

A data da morte de Brás, 1869, coincide com a evolução capitalista do país e com o princípio da decadência do Segundo Reinado. Ele mesmo, antes de ser o defunto Brás, começara a interessar-se por colonização, câmbio, vias férreas, e invenções sensacionalistas, estilo norte-americano, como o “Emplasto Cubas”, para o tratamento dos males do século: hipocondria e melancolia.

“Emplasto Brás Cubas. Assim, a minha ideia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra para mim. De um lado, filantropia e lucro; de outro lado, sede de nomeada. Digamos: — amor da glória.”

John Gledson levanta uma pergunta muito pertinente: e se “Brás” significasse o Brasil, de quem no nome estão as primeiras sílabas? O próprio sobrenome, Cubas, reporta-se a um tanoeiro fazedor de potes, justificado pelo pai de Brás com uma história das arábias e exemplifica a origem nada nobre da elite escravocrata, a qual se dá ares aristocráticos e inventa historietas nobiliárias para justificar seu poder.

 

Quanto à forma, ela é biográfica. Como numa película cinematográfica, passam diante de nossos olhos os momentos da vida de um carioca rico e desocupado: uma infância sem limites, uma primeira juventude ocupada em amores e na dissipação pelo consumo, sequenciada pelo estudo de Direito em Portugal, que mais se assemelha a anos de “dolce far niente”, com direito a veleidades literárias e filosofias de bolso de colete. Depois, novos amores e, na maturidade, a atividade política, cujo ato maior é o discurso sobre a altura da barretina; ao final, a morte.

Estão absolutamente ausentes o trabalho ou qualquer projeto de vida minimamente consistente e a passagem de uma etapa a outra se dá mais pelo cansaço e pela perda de interesse que por qualquer motivo mais consistente, privilégio de classe abastada o que é uma extensão da iniquidade social presente.

Em todas essas fatuidades, cabe uma ressalva para o amor. É como se na elite brasileira esta fosse a única manifestação autêntica do espírito. Todos os demais, como filosofia e conhecimento científico, o acento satírico do autor os transforma em afetação, em preenchimento do tempo e banalidade.

“Entrei na política por gosto, por família, por ambição, e um pouco por vaidade. Já vê que reuni em mim só todos os motivos que levam o homem à vida pública; faltou-me só o interesse de outra natureza. Vira o teatro pelo lado da plateia; e, palavra, que era bonito!”

Logo, a vida de Brás, mesmo que cheia de satisfações, é totalmente ausente de sentido. O que predomina é o senso geral da mediocridade. E o romance se conclui num nada, numa homenagem “ao verme que primeiro roeu as frias carnes de meu cadáver”.

“Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto... Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e, conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”

A essência pessimista quanto ao destino do homem, Machado a expressa ainda no capítulo denominado ‘Delírio’ onde diz:

“Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva … nada menos que a quimera da felicidade.”

O violentado que violenta

Temos por um lado o sinhozinho Brás que se autodenomina “menino diabo”: “Fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquina e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negara uma colher do doce de coco… e, não contente com o malefício, deitei um punhado de cinza ao tacho... fui dizer à minha mãe que a escrava é que estragara o doce “por pirraça”; e eu tinha apenas seis anos”.

De outro, Prudêncio, um dos violentados: “Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, a guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia,  algumas vezes gemendo, mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um — “ai, nhonhô!” — ao que eu retorquia: — “Cala a boca, besta!

A violência se reproduz por parte de quem a sofrera. Muitos anos após, o negro Prudêncio, uma vez alforriado, compra um escravo para si e reproduz o tratamento recebido: “Era um preto que vergalhava outro na praça. O outro não se atrevia a fugir; gemia somente… Mas o primeiro não fazia caso, e, a cada súplica, respondia com uma vergalhada nova — Cala a boca, besta! replicava o vergalho. Parei, olhei… justos céus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada menos que o meu moleque Prudêncio, — que meu pai libertara alguns anos antes”.

 

Os pobres, os agregados e a elite

 

Eugênia

Somente dentre os pobres, personagens machadianas nos revelam integridade moral. O símbolo é Eugênia, por quem Brás reporta o único sentimento legítimo, embora passageiro, que sentira em vida. A moça, filha natural, concebida atrás do mato por Dona Euzébia e Vilaça, um cavalheiro abastado, na flor da juventude em determinado momento da “regência” de Brás, quase fora erguida à abastança através do casamento. Mas Brás se afastará de “a flor da moita”, e a mesma terminará a vida pedindo esmolas na porta de um cortiço aos sessenta anos.

 “Tu, trêmula de comoção, com os braços nos meus ombros, a contemplar em mim o teu bem-vindo esposo, e eu com os olhos em 1814, na moita, no Vilaça, e a suspeitar que não podias mentir ao teu sangue, à tua origem”.

Eugênia não se submete aos caprichos de Brás Cubas. Na desesperança de um casamento, corta suas fantasias de paridade social e mostra “conhecer o seu lugar”. Jamais se entrega e se despoja de quinquilharias em seu último contato com o moço, metaforicamente, os adereços típicos da classe superior não lhe interessavam.

“O pior é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a natureza é, às vezes, um imenso escárnio. Por que bonita, se coxa? por que coxa, se bonita?”

Brás não se cansa de referir-se da maneira mais depreciativa para com quem não se curva aos seus caprichos do galã rico. Torna claro, que o futuro de alguém, em uma sociedade escravagista, depende do capricho de pessoas da classe dominante; aquela da classe inferior pode se dar por amor e se transformar apenas excepcionalmente em senhora. Mas a dignidade natural ou cidadã de Eugênia não traz o vinco da subordinação à oligarquia e por isso irrita Brás até no além- túmulo.

Muitos anos após o pequeno namoro, Brás volta a encontrar-se com a “coxa”. “Agora é que não são capazes de adivinhar…, achei a flor da moita, Eugênia, tão coxa como a deixara, e ainda mais triste. Esta, ao reconhecer-me, ficou pálida, e baixou os olhos; mas foi obra de um instante. Ergueu logo a cabeça, e fitou-me com muita dignidade. Compreendi que não receberia esmolas da minha algibeira, e estendi-lhe a mão, como faria à esposa de um capitalista”.

 

Dona Plácida

Ao contrário de Eugênia, dona Plácida submete-se aos caprichos da elite, o que tão pouco lhe pavimenta um caminho de prosperidade.

“Assim, pois, o sacristão da Sé, um dia... viu entrar a dama, que devia ser sua colaboradora na vida de Dona Plácida. Viu-a outros dias… acercaram-se, amaram-se. Dessa conjunção de luxúrias vadias brotou Dona Plácida. E de crer que Dona Plácida não falasse ainda quando nasceu, mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias: — Aqui estou. Para que me chamastes? E o sacristão e a sacristã naturalmente lhe responderiam: — Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado para outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, num momento de simpatia.”

Assim Machado de Assis descreve a gênese daqueles que nasceram para trabalhar sem descanso até que a morte os dispense. Qual o sentido de suas vidas? Servir, nada mais, pois o explorado tem uma finalidade, embora humanamente sustentável, de reproduzir a ordem social que sua própria desgraça torna possível.

Plácida, o próprio nome o sugere, possui uma conduta maleável e curva-se aos caprichos de Brás e de sua amante Virgília, servindo-os como alcoviteira.

“Não fui ingrato; fiz-lhe um pecúlio... Dona Plácida agradeceu-me com lágrimas nos olhos, e nunca mais deixou de rezar por mim, todas as noites, diante de uma imagem da Virgem que tinha no quarto. Foi assim que lhe acabou o nojo (pela relação adúltera com Virgília)”.

 

As relações dentro da elite

A relação entre pares é principalmente simbolizada pelo trio amoroso Brás Cubas, Lobo Neves e Virgília, esposa do segundo e amante do primeiro.

Nessa altura, o liberalismo europeu dava sentido à emancipação da sexualidade como esfera autônoma de vida. Isso é simbolizado pela relação prolongada entre Brás e Vigília. Relação duradoura, mas, a bem da verdade, medíocre.

A princípio o amante procura tomar a mulher ao marido, mas logo se acomoda no adultério, esquecendo qualquer exigência de amor exclusivo. “Vi que era impossível separar duas coisas que no espírito dela estavam inteiramente ligadas: o nosso amor e a consideração pública. Virgília era capaz de iguais e grandes sacrifícios para conservar ambas as vantagens, e a fuga só lhe deixava uma”.

Com o decorrer da longa relação, cresce o número de futricas e denúncias anônimas de traição chegam até Lobo Neves. Mas a vitória sempre estará ao lado do cumprimento das convenções, da hipocrisia e do acomodamento, evitando o escárnio público num mundo de aparências.

“Pareceu-me então... que ele tinha medo — não medo de mim, nem de si, nem do código, nem da consciência; tinha medo da opinião pública... Cuido que ele estaria pronto a separar-se da mulher, como o leitor se terá separado de muitas relações pessoais; mas a opinião, essa opinião que lhe arrastaria a vida por todas as ruas, que abriria minucioso inquérito acerca do caso, que coligiria uma a uma todas as circunstâncias, antecedências, induções, provas… obstou à dispersão da família...; teve então de simular a mesma ignorância de outrora, e, por dedução, iguais sentimentos”.

Outro aspecto significativo da relação dentro da elite ocorre quando Brás Cubas se esmera na defesa de seu cunhado Cotrim, o que, mesmo para a época, na Europa já seria um escândalo; no entanto, o narrador, como a elite brasileira, trata-a como exótica, reconhecendo virtudes e “normalidades” onde somente haveria más ações e crimes.

“Talvez pareça excessivo o escrúpulo do Cotrim, a quem não souber que ele possuía um caráter ferozmente honrado… Reconheço que era um modelo. Arguiam-no de avareza, e cuido que tinham razão; mas a avareza é apenas a exageração de uma virtude, e as virtudes devem ser como os orçamentos: melhor é o saldo que o déficit. Como era muito seco de maneiras tinha inimigos que chegavam a acusá-lo de bárbaro. O único fato alegado neste particular era o de mandar com frequência escravos ao calabouço, donde eles desciam a escorrer sangue; mas, além de que ele só mandava os perversos e os fujões, ocorre que, tendo longamente contrabandeado em escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que esse gênero de negócio requeria, e não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais”.

A ironia machadiana é tão feroz que alguns críticos de pequena perspicácia não conseguiram entendê-lo, muitas vezes acusando-o de ser o “escritor do Segundo Império”, tal qual o fez Astrogildo Pereira.

A filosofia de algibeira, misto de positivismo e darwinismo social.

As correntes ideológicas do tempo de Machado, como o evolucionismo e o positivismo, jamais o atraíram e foram objeto de escárnio na figura do filósofo do “Humanitarismo”, o inicialmente mendigo-ladrão de “relógio”, ou seja, de tempo; posteriormente um dândi enriquecido por estranha herança, antes de enlouquecer, Quincas Borba.

“Humanitas, dizia Quincas, o princípio das coisas, não é outro senão o mesmo homem repartido por todos os homens... Olha: a guerra, que parece uma calamidade, é uma operação conveniente, como se disséssemos o estalar dos dedos de Humanitas; a fome (e ele chupava filosoficamente a asa do frango), a fome é uma prova a que Humanitas submete a própria víscera. Mas eu não quero outro documento da sublimidade do meu sistema, senão este mesmo frango. Nutriu-se de milho, que foi plantado por um africano, suponhamos importado de Angola. Nasceu esse africano, cresceu, foi vendido; um navio o trouxe, um navio construído de madeira cortada no mato por dez ou doze homens, levado por velas, que oito ou dez homens teceram, sem contar a cordoalha e outras partes do aparelho náutico. Assim, este frango, que eu almocei agora mesmo, é o resultado de uma multidão de esforços e lutas, executados como único fim de dar mate ao meu apetite”.

Dizia ainda Quincas Borba para o narrador: “O que o teu criado tem é um sentimento nobre e perfeitamente regido pelas leis do Humanitismo: é o orgulho da servilidade! …  E concluiu que era tudo a expressão daquele sentimento delicado e nobre, — prova cabal de que muitas vezes o homem, ainda a engraxar botas, é sublime”.

E podemos concluir com o defunto narrador que “o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, à força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo”.

II. “Memorial de Aires”

“Memorial de Aires” foi publicado em 1908, poucos meses antes do falecimento de Machado de Assis. O então viúvo era um homem doente e desiludido com a vida, um solitário às voltas com lembranças de um passado feliz que passara em companhia de Dona Carolina.

Obra semiautobiográfica, não por acaso D. Carmo, esposa do banqueiro Aguiar e o “Memorial de Aires”, assim como o narrador, o conselheiro Marcondes de Aires, possuem as mesmas iniciais de Dona Carolina e de Machado de Assis.

O período histórico abrangido é o dos anos 1888/1889, compreendendo a abolição da escravatura e prosseguindo até três meses antes da Proclamação da República.

Em termos literários, “Memorial de Aires” é considerado o trabalho mais bem escrito, cortês, lúcido e sóbrio de Machado. Nele são abordados temas existenciais como o amor, a paixão, a solidão, a velhice e a morte, assim como impressões e reflexões sobre o tédio, a ausência de sentido e o horizonte da própria vida. Dentro do implacável pessimismo do autor, o romance contém uma condenação esteticamente perfeita do tempo vivido, embutindo um profundo lamento pelo Brasil que, como nação independente, Machado já mal conseguia divisar.

No princípio da narrativa, Aires avista a atraente viúva Fidélia ao lado do túmulo do marido. Ela é filha de um oligarca do Vale do Paraíba. O narrador, viúvo e aos 62 anos sente-se tocar pela beleza e sensualidade da mulher. Sua irmã Rita, que o acompanha, insinua uma paixão outonal, ao que ele responde a la Shellei: “I can give not what men call love.” Mas ele só poderia assumir para a irmã e para si mesmo a paixão pela beleza da moça. Somente ao final do romance, o narrador confessará ao papel que ao ver Fidélia, “desmentia Shellei com todas as forças sexagenárias restantes”, denotando um desejo insatisfeito, que é um alerta ao leitor, para colocar desde ali, toda própria narrativa sob a suspeição.

Verdade ou mentira, em cada construção machadiana, encontramos mais de um sentido entre o que é dito e o que pode ser interpretado. “O acaso é também um corregedor de mentiras. Um homem começa mentindo disfarçada ou descaradamente e acaba muita vez exato ou sincero.”

Aires reflete a respeito do nome dado às pessoas: “Antigamente, quando eu era menino, ouvia dizer que às crianças só se punham nomes de santos ou de santas. Mas Fidélia...? Não conheço santa com tal nome, ou sequer mulher pagã. Terá sido dado à filha do barão, como a forma feminina de Fidélio, em homenagem a Beethoven?” E conclui o raciocínio de um modo absolutamente futurista: “Parece que já não queremos Anas nem Marias, Catarinas nem Joanas, e vamos entrando em outra onomástica, para variar o aspecto às pessoas. Tudo serão modas neste mundo, exceto as estrelas e eu”.

Fidélia e Tristão, filhos de “empréstimo” do casal Aguiar, íntimos do narrador, são os elementos centrais na obra. Ela vive na Corte com um tio e frequenta assiduamente a casa do casal.

A bela viúva, sem nunca chorar, mantém luto fechado pela morte do marido, fazendo a questão mais absoluta de que todos a vejam sofrer, e que saibam que mantém vivo em seu coração o defunto que morrera em plena lua de mel em Portugal. De certa forma, Machado introduz uma figura feminina que, tal qual Capitu, mistura amor e ambição, culpa e traição. “Essa Fidélia foge a alguma coisa, se é que não foge a si mesma,” escreve Aires.

Posteriormente, com a morte do pai, Fidélia colocará alegoricamente as fotos deste e do marido, inimigos declarados em vida, lado a lado na sala de jantar. E aceitará, alegremente, a corte e o pedido de casamento feito por Tristão.

Tristão, por seu lado, possivelmente seja um nome tomado de empréstimo a “Tristão e Isolda”, ópera de Wagner, prenhe de traições. Aliás, ao piano, o moço tocará Wagner para o casal Aguiar, Fidélia e Aires.

O rapaz, quando menino adorado pelo casal Aguiar, uma vez levado pelos pais reais para Portugal, praticamente esquecera aqueles de “adoção”. Sua juventude ele a preenchera com o bacharelado, depois a trocara pelo turismo, estudara medicina, mas seu objetivo era a política. Não é necessário ressaltar que para Machado, bacharéis e políticos eram os espécimes humanos que mais o desagradavam.

“Tristão assistiu à Comuna em França (1871), e parece ter comportamento conservador fora da Inglaterra; em Inglaterra é liberal, na Itália, latino. Tudo se pega e se ajusta naquele espírito diverso.” Para o leitor atento, Tristão de Machado tem claramente o talento dos aproveitadores, bajuladores, hipócritas e aventureiros.

O moço retorna ao Brasil por questões pouco claras, mas retoma com absoluta naturalidade uma relação tipo filial com os relegados Aguiar. Torna a encher-lhes o coração com esperanças até mesmo de que conquiste Fidélia e de que permaneçam todos juntos.

Fidélia, entre a corte feita por um jovem de família nordestina e a de Tristão, enterra pela segunda vez o marido e entrega-se a este último. Diz Aires: “Não gosto de lágrimas, ainda em olhos de mulheres, sejam ou não bonitas; são confissões de fraqueza, e eu nasci com tédio aos fracos. Ao cabo, as mulheres são menos fracas que os homens — ou mais pacientes, ou mais capazes de sofrer a dor e a adversidade...”

A inserção histórica do último romance machadiano

A presença aparentemente tênue da Abolição no Memorial de Aires tem dado margem à suposição que Machado de Assis, em seu último trabalho, não trata de questões histórico-sociais, mas apenas de aspectos da vida íntima e particular. Isto é absolutamente incorreto.

No “Memorial de Aires”, os tipos sociais representados pelas personagens pertencem todos, assim como o próprio narrador, à elite do final do Segundo Reinado: um fazendeiro do Vale do Paraíba (Santa Pia), a filha do fazendeiro (Fidélia), o filho do comerciante de café (Tristão), o sócio de banco (Aguiar), o desembargador (tio de Fidélia). Ao fundo apenas, como sombras, os negros libertos da fazenda do Vale do Paraíba. Os homens livres não proprietários, cuja situação complexa dentro da sociedade escravagista o escritor vinha estudando em outras obras, estão absolutamente ausentes nesta, pois eles nada significam para o Conselheiro Aires.

Ao incorporar exclusivamente as ideias da elite de seu tempo ao discurso literário, Machado de Assis faz da leitura do romance uma experiência histórica concreta. Para apreender este sentido, o leitor tem de questionar o discurso narrativo, portanto contestar a ideologia das elites, o que implica não concordar, no caso do Memorial, com a versão oficial da Abolição.

O narrador, Aires, possui um compromisso de classe com a elite escravagista e nesse sentido, as infrações das personagens em relação a princípios, que elas enfaticamente assumem como seus, são trazidos ao leitor como atitudes naturais, geralmente emprestadas ao repertório de ideais liberais burgueses importados da Europa.

Logo, enquanto o Conselheiro Aires tenta suprimir o juízo autônomo do leitor, o escritor, Machado, procura criar um leitor independente e crítico. Quando o leitor esposa o obscurantismo do Conselheiro e não a malícia machadiana contribui, de uma forma ou de outra, para a preservação dos privilégios de classe que persistem até hoje, modificados ou não.

No contexto do final do Império, a classe social oligarca ligada à Monarquia perdia sua função e teria que se amoldar a uma nova forma de exploração social. No texto, não por acaso, a lavoura decai, o fazendeiro morre, o corretor encerra os negócios, o diplomata se aposenta. Paira uma atmosfera de decadência onde, em reuniões sempre íntimas, as personagens apenas tomam chá, jogam cartas, tocam piano, falam de outros e da Europa.

As menções à Abolição, apesar de raras, conferem forte sentido histórico. Veja-se, por exemplo, o registro da primeira soirée do casal Aguiar, que acontece no dia da promulgação da Lei Áurea: “A alegria dos donos da casa era viva, a tal ponto que não a atribui somente ao fato dos amigos juntos, mas também ao grande acontecimento do dia... Na verdade, (a alegria) era devida a carta (do filho postiço ausente); como a liberdade dos escravos, ainda que tardia, (ele, Tristão) chegava bem. Novamente os felicitei, com ar de quem sabia tudo”.

A prioridade dada por nossas elites aos assuntos particulares, em detrimento das questões públicas, interessou desde cedo a Machado de Assis. Na cena transcrita acima, é como se a Abolição não existisse para os Aguiar. Após um momento de surpresa, Aires — não sem a ironia de quem acusa defendendo, procura normalizar a indiferença do casal, de tal modo que ela acaba sendo coroada por uma máxima filosofante: "Não há alegria pública que valha uma boa alegria particular", dando ares de universalidade à legitimação de uma conduta particularista, antissocial.

Com efeito, o diplomata e Conselheiro compartilha do desinteresse dos Aguiar pelo destino dos negros. Ao comentar a doação das terras de Santa-Pia aos libertos, ele se pergunta: "Poderão estes fazer a obra comum e corresponder à boa vontade da sinhá-moça? É outra questão, mas não se me dá de a ver ou não resolvida; há muita outra cousa neste mundo mais interessante".

Mesmo quando o Conselheiro demonstra simpatia pela Abolição, sua satisfação parece estar menos ligada à liberdade dos escravos do que à imagem do país — do ponto de vista da classe dirigente — diante das nações modernas: “Dizem que, abertas as Câmaras, aparecerá um projeto de lei. Venha que é tempo... Mais de um jornal fez alusão nominal ao Brasil, dizendo que restava agora que um povo cristão e último imitasse aquele (EUA) e acabasse também com os seus escravos. Espero que hoje nos louvem”.

A duplicidade do conselheiro encerra sempre em si um elemento de cinismo, que convida o leitor menos ingênuo a uma espécie de cumplicidade acanalhada ou ao piscar de um olhar esperto com o velho Machado.

Acontece que desde a década de 70, a alta do preço dos escravos e a modernização das técnicas de beneficiamento do café tinham tornado o trabalho escravo cada vez mais caro e improdutivo em relação ao trabalho livre, possibilitado pelos imigrantes europeus. A Abolição vinha libertar a nova oligarquia cafeeira de uma mão-de-obra tornada excessivamente onerosa e mal adaptada às novas condições de produção. No início do livro um vendedor grita: “Vae vassouras?” Uma alusão direta latina, “ai de Vassouras!”, cidade ao redor da qual havia uma das áreas de maior concentração de trabalho escravo na lavoura cafeeira, agora decadente.

As plantações de café do Vale do Paraíba, como as do Barão de Santa-Pia, em processo de esgotamento, foram sendo progressivamente abandonadas pelos fazendeiros, que se dirigiram para os promissores campos de cultivo de São Paulo ou para a Corte, em busca de cargos públicos, sempre muito bem remunerados.

No “Memorial de Aires”, o dramático êxodo dos libertos do Vale do Paraíba não recebe um comentário sequer do narrador. O fato é mencionado pelo desembargador Campos, a partir da perspectiva de ver os negros como ingratos e hipócritas em relação à antiga sinhá-moça: "Os libertos, apesar da amizade que lhe têm ou dizem ter, começaram a deixar o trabalho". A indiferença e o descaso pelos fatos ligados à emancipação dos escravos é ideologia das elites.

Um exemplo bastante ilustrativo, encontramos em "Escravo Pancrácio", crônica de Machado de Assis publicada no jornal Gazeta de Notícias, em 19 de maio de 1888 (livro "Bons Dias"), na semana seguinte à abolição, nos diz: “Pancrácio aceitou tudo: aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos... Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio: daí para cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas todas que ele recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre”.

Retornando ao “Memorial”, ao criar um cronista particularmente descarado, Machado potencializa o efeito de sua crítica social, deixando claro que a Abolição não modificaria a situação do negro, assim como não reduziria a possibilidade de abusos da classe dominante, e que a ideia que um negro pudesse ter acesso aos bens da sociedade era apenas uma mentira forjada pela elite, em benefício de si própria.

Machado de Assis percebeu cedo que o fim do escravismo não traria liberdade verdadeira aos ex-escravos e que as velhas estruturas econômico-sociais, com algum rearranjo, sobreviveriam à Abolição. Conforme demonstra o trabalho de Roberto Schwarz, lá pelos anos 80, Machado abandona tanto a esperança de uma reforma interna do paternalismo como a perspectiva da possibilidade de superação das relações de dependência por meio do trabalho livre, passando a explorar, a partir das “Memórias póstumas de Brás Cubas”, sem mais qualquer tipo de freio ideológico, as virtualidades retrógradas e perversas do avanço do capitalismo no Brasil.

Ele desmascara as alforrias de última hora, desmistifica os principais nomes políticos ligados à elaboração e à aprovação da Lei Aurea, inclusive o da Princesa Isabel, e prevê o advento de uma república oligárquica, repressora e branca, sendo mais crítico e autêntico que boa parte dos intelectuais abolicionistas.

Assim, visto que o 13 de Maio não afetara substancialmente as elites, nada mais realista que a indiferença do narrador e das personagens pelos acontecimentos ligados ao fim da escravidão. Em virtude da peculiaridade da matéria histórica e da maestria do romancista, o apagamento da abolição potencializa sua presença. Na contramão da retórica abolicionista, Machado de Assis denunciou a seu modo, com rara lucidez, a farsa da Lei, cujo significado profundo ele compreendeu e dramatizou em seu último romance!

Voltemos à narrativa: um proprietário decide alforriar seus escravos às vésperas da Abolição. O Barão de Santa-Pia pertence à oligarquia cafeeira decadente. Libertar os próprios escravos, antes que o governo o fizesse, era uma questão de honra, o último recurso de que dispunha o proprietário para garantir a força simbólica do domínio absoluto sobre sua propriedade: "O que era seu era somente seu", escreve Aires. O Barão fez da liberdade de seus escravos uma concessão e não o final de uma exploração ultrajante e desmoralizadora.

Além do mais, a alforria concedida por Santa-Pia, em suas implicações conservadoras, insiste no aspecto de que o liberto deve ser grato ao seu senhor. Logo, aquela funciona como perpetuação dos vínculos da escravidão, que acabam sendo preservados também na prática diária. No “Memorial de Aires”, o futuro dos negros é o passado estendido ao infinito: "Estou certo que poucos deles deixarão a fazenda; a maior parte ficará comigo, ganhando o salário que lhes vou marcar, e alguns até sem nada".

Com efeito, cinco semanas após a morte do Barão, temos a Abolição. Fidélia escreve aos Aguiares contando que os libertos continuam vivendo e trabalhando na fazenda. "Por amor da sinhá-moça", afirma Tristão. "Livres com a mesma afeição de escravos", escreve o conselheiro Aires, nos termos da ideologia de sua classe.

Sabemos, nós e Machado que a realidade era outra. Sem ter para onde ir, pois não conseguiam competir com os imigrantes nas zonas rurais mais prósperas, precisando desesperadamente de dinheiro para morar e alimentar a si mesmos e a suas famílias, parte dos libertos permaneceu nas plantações ou retornou a elas após alguns dias de festa e perambulação pelas estradas: aceitavam qualquer quantia como remuneração por seu serviço; trabalhavam, como nos tempos de cativeiro, do nascer ao pôr do sol, sob vigilância armada e voltavam a morar nas velhas senzalas.

Por outro lado, quando se trata de corresponder à suposta afeição dos negros, os parâmetros do paternalismo já não valem. O modelo passa a ser o das relações contratuais e impessoais, próprias da ordem burguesa. "Para quê?", pergunta o Conselheiro, agora nos termos do utilitarismo moderno, ao cogitar da hipótese de a viúva levar ex-escravos para a Corte consigo. No mesmo espírito, Fidélia se desobriga de qualquer responsabilidade por seus destinos: "Custou-lhe muito fazer entender aos pobres sujeitos que eles precisam trabalhar, e aqui não teria onde os empregar logo". Adotados conforme convém, o critério paternalista e o critério liberal, se alternam quase que a cada frase.

O simbolismo da traição da elite para com o Brasil

Fidélia, mesmo abandonando as terras exauridas herdadas de seu pai, era proprietária de uma considerável fortuna, mais de trezentos contos gerados pelo trabalho escravo na cultura do café, tanto na sua propriedade, quanto na de seu marido morto.

Tristão, por sua vez, quase que de repente, retorna ao Brasil “a negócios”, jamais explicitados, e por aqui vai ficando, pendurado aos Aguiares. Para que voltou se seu desejo expresso é dedicar-se à política na Europa? Os vínculos com os Aguiares há muito haviam sido esquecido, “nenhuma carta, nada”. Sabia ele da disponibilidade de uma viúva rica tão ligada a seus pais postiços quanto ele?

A viúva recatada parecia esperar que certo Tristão aparecesse em sua vida. Os dois se ligam de forma tão estreita e rápida que provocam um comentário de Aires: “Sabiam tudo. Parece incrível que duas pessoas que nunca se viram, ou só alguma vez e de passagem, agora se conhecessem textualmente e de cor”.

John Gladson se atreve a sugerir: não teriam Fidélia e Tristão se conhecido em Portugal quando da lua de mel desta com o marido, que sabe-se lá do que veio a falecer? O quanto de Capitu estaria presente em Fidélia?

De toda maneira, os dois se casam no Brasil. Dona Cesária, amiga de Aires, diz que o fator inspirador da união era o dinheiro. Logo após a lua de mel em Petrópolis, chega a notícia, por um telegrama dos pais, da nomeação de Tristão para a Câmera de Lisboa, mesmo ele estando ausente há meses do país.

O casal deseja livrar-se o mais rápido possível do envolvimento com os Aguiar e deixar o Brasil. A ideia de que eles poderiam viajar e Tristão assumir seu posto na Corte, e depois retornar ao Brasil, é apenas um sonho de uma noite de verão dos pais postiços. Os dois partirão para sempre, abandonando e traindo seus pais de empréstimo, levando consigo para o exterior a fortuna conseguida com a exploração da escravatura.

Repete-se uma história contada no princípio do “Memorial de Aires”: O pai de Tristão, um comerciante de café, casara-se com uma brasileira cafeicultora de Taubaté que, vendendo tudo o que possuía, partira a viver em Portugal, levando consigo sua fortuna.

Machado deixa implícito que o Brasil segue guiado por seu passado colonial, que a Independência e o Reinado não corrigiram. À elite brasileira importa amealhar dinheiro para investi-lo no exterior. Ela não possui nenhum compromisso para com o Brasil e para com seu povo! Este é o simbolismo da partida de Tristão e Fidélia para Portugal.

E, finalmente, vem dos lábios do Conselheiro, uma frase histórico-filosófica: “Costumes e instituições, tudo perece”. Será?

 

III. Esaú e Jacó

“Esaú e Jacó” foi publicado em 1904. A obra é considerada a mais complexa de Machado de Assis, repleta de enigmas, segundos sentidos e injunções históricas. O autor logo avisa: “O leitor atento, verdadeiramente ruminante, tem quatro estômagos no cérebro, e por eles faz passar os atos e os fatos, até que deduz a verdade, que estava ou parecia estar escondida.”

O romance começa em 1871 (ano da Lei do Ventre Livre), com uma grávida, cujo nome sugestivo é Natividade, esposa de um banqueiro, Santos, que fizera fortuna no boom do café. Ela sobe o Morro do Castelo, local onde a cidade do Rio foi fundada em 1557, a fim de consultar uma “vidente”, a cabocla chamada Bárbara, a respeito do destino dos gêmeos que carrega no ventre. A narrativa se estenderá até 1894, perpassando o esfacelamento do regime imperial, o golpe de estado que implanta a República, o golpe dentro do golpe dado por Floriano Peixoto, o país navegando de revolta em revolta, sob botas militares e repressão do grupo de turno no poder.

O nível de alegorias sobre este período conturbado de nossa História que a narrativa propicia, é precioso! Somente uma pequena fração delas será contemplada neste nosso estudo.

O Bruxo do Cosme Velho em “Esaú e Jacó” irá fundo na crítica à conformação política do país. Ao final do século XIX, ele já pressente que o Brasil é uma sociedade sem rumos, sem objetivos claros e correndo para a desintegração social.

A narrativa, em parte, se desenrola desde o ponto de vista do Conselheiro Aires, um diplomata aposentado. Este personagem como já vimos, no “Memorial de Aires”, é o retrato da camada mais preparada da elite brasileira: inteligente, calculista que, acima de tudo, evita o conflito dentro da própria como classe dominante. Aires adota sempre a postura de não confrontar-se em momento algum. Como decorrência, o narrador é  volúvel nas opiniões e apegado às aparências de um intelectualismo liberal, sendo parceiro fiel do atraso no seio da sociedade escravocrata e exclusivista. “Aires tinha o coração inclinado a aceitar tudo, não por inclinação à harmonia, senão por tédio à controvérsia”.

A Proclamação da República propriamente dita é explicitada claramente no episódio da tabuleta de uma confeitaria. O português Custódio, proprietário doceiro, é vizinho de Aires. No diálogo a respeito da tabuleta, entre ironias e metáforas, a opinião do genial autor sobre a quartelada de 15 de Novembro é expressa. Custódio, depois de muita relutância, mandara repintar a tabuleta que levava o nome de sua loja: “Confeitaria do Império”. O pintor o avisa que “a tábua está velha e precisa outra, pois está rachada e comida de bichos”. A alusão à Monarquia é óbvia: um regime decadente, comprometido e sem sustentação, que não suporta mais nem uma reforma e tem que mudar.

O proprietário encomenda, então, uma nova tabuleta justamente no dia 15 de Novembro. Custódio manda urgente um bilhete para o pintor com o seguinte recado: “Pare a pintura no d.” Não sabia se era melhor concluir a mesma com a palavra "do Império" ou "da República", afinal, para que lado iria o barco? A indecisão de Custódio apenas quanto ao nome é sintomática do país em que algo sempre muda para que se mantenha, na essência, tudo como estava. O Conselheiro o “aconselha” que escreva um nome neutro, serviria a uns e outros.

Machado de Assis, assim, compara a proclamação da República a uma simples troca de tabuletas, uma mudança de nomes. República e Império se equivalem como rótulos de fachada.

Um fator significativo a ressaltar é a maneira como, explorando as divergências políticas dentro da elite, ele nos transmite o sentido de que elas seriam apenas aparentes. As contradições reais estariam entre a elite e as outras classes sociais. Machado o realiza com o trato estético da questão no dualismo dos gêmeos falsamente contraditórios, o que não passa de aparências.

A referência bíblica que empresta seu nome à obra “Esaú e Jacó”, nos traz gêmeos que brigam desde sua permanência no útero e que lutarão toda uma vida pelo reconhecimento materno-paterno e pela herança, jamais convivendo em harmonia.

“O que o berço dá só a cova tira, diz um velho adágio nosso. Eu posso, truncando um verso ao meu Dante, escrever: ‘Dico, Che quando l’anima mal nata...’” Estaria Machado nos falando da herança cultural da elite, transmitida desde o berço?

No romance Pedro, um dos gêmeos, advém de São Pedro, que na tradição bíblica se vincula ao conservadorismo; ele faz medicina, carreira que figura como conservadora na literatura da época e é um defensor da Monarquia. Paulo, o outro, remonta a São Paulo, faz direito, carreira tida como liberal e defende a mudança do regime para a República.

Mas, assinala Aires, os gêmeos se definem politicamente por razões triviais. “Não eram propriamente opiniões; não tinham raízes, nem grandes e nem pequenas”.

Com a proclamação da República, pressupõe-se que Pedro, sempre a favor da Monarquia, se tornaria um crítico do novo regime, e que Paulo passaria a defendê-lo. Mas não é o que ocorre. Aliás, este é um dos curtos períodos em que as brigas entre os irmãos são contidas, pois quando se trata de discutir algo próximo de ideias, noções de organização política, as diferenças entre ambos desaparecem.

Por isso, ao invés de caracterizá-los meramente como conservador e liberal, podemos usar as expressões situacionista e oposicionista, ou seja, os gêmeos não são idênticos apenas na aparência, a ponto de Flora (uma paixão de ambos) mal distingui-los; têm a mesma essência, apenas com revestimentos e discursos distintos.

O olhar crítico de Machado está aí: no Brasil não se consegue perceber a diferença entre monarquistas e republicanos — diferentes no discurso, mas semelhantes nas práticas políticas. Machado mostra que o destino do homem permanece uma questão de “certa fé”, para a religião e para a própria ciência. E que o mesmo não deixa de ocorrer com a política. República ou Monarquia, a disputa entre ambas se transforma em mera questão partidária, de interesse de grupos políticos que são diferentes na aparência e representam, ao alternarem-se, mera troca de mãos alçadas ao poder.

Falava Aires: “E lembrava-se do discurso do Senador Albuquerque que dizia não haver nada mais parecido com um liberal que um conservador e vice-versa”, e referindo-se aos políticos: “Não é a ocasião que faz o ladrão, o provérbio está errado. A ocasião faz o furto, o ladrão nasce feito”.

 

Um pouco mais do enredo.

Natividade, esposa do banqueiro e futuro barão Santos, está grávida de gêmeos e decide, como tantas madames, visitar incógnita uma cabocla tida como “vidente”. A previsão da cabocla é animadora: “Serão grandes”! Ao chegar à casa, a mulher relata as previsões ao marido. O homem fica feliz, mas resolve procurar um amigo, mestre espírita, para saber sobre pontapés sentidos no ventre. O amigo o tranquiliza, afirmando que os meninos seriam grandes homens e por isso brigavam antes mesmo do nascimento. De todas as maneiras, tudo “seriam cousas futuras”.

A questão apresentada, ainda que de forma ironicamente branda, gira em torno de crenças. De forma sutil, o autor trata o conflito entre fé, ciência e religião, em voga no início do século. Na época, as descobertas da ciência experimental, o advento do materialismo e a redefinição do homem acabaram causando uma sensação de desencantamento e ceticismo quanto a religiões. “Aires negava que fosse incrédulo. Ao contrário, sendo tolerante, professava todas as crenças desse mundo”.

Pode-se inferir que, entre os espaços de crença (o barracão da cabocla e a Igreja) se coloque o espiritismo como tentativa de estabelecer alguma vinculação entre fé e ciência, o que pelo vazio das propostas é um objetivo inalcançável. A figura de Santos, banqueiro de sucesso no dia a dia, que demonstra ser crédulo e tosco quando as questões são de cunho espiritual, revelam a pobreza intelectual dos homens de negócio.

Pedro e Paulo crescem idênticos fisicamente, mas diferentes na personalidade. Paulo, médico e Pedro, advogado, sendo que ambos abdicam do exercício das profissões escolhidas. Preferem o flanar e a política: a sociedade brasileira, mesmo após a abolição da escravidão, permanece alicerçada no sinhô, na sinhá e nos que trabalham para servir, naturalmente negros, mulatos e agregados. Somente após a morte de Flora, os irmãos iniciarão seus ofícios.

Os gêmeos encantam-se por Flora, filha de um político oportunista, Batista, ora conservador, ora liberal, na dependência do poder. Cláudia, sua esposa, lhe diz quando ele vacila: “Você estava com eles, como a gente está num baile, onde não é preciso ter as mesmas ideias para dançar a mesma quadrilha”. Comissionado pelos conservadores, quando os liberais assumem o poder, Claudia lhe diz: “Conservador, você? Sem saber, você sempre foi um liberalzão, somente não o sabia”.

 

O padre capuchinho e o maltrapilho.

Em “Esaú e Jacó”, esse talvez seja um dos mais importantes de seus enigmas. Vamos segui-lo:

“A primeira daquelas barbas era de um amigo de Pedro, um capucho, um italiano, frei ***... Trata-se de um frade. Pedro não lhe conheceu a barba preta, mas já grisalha, longa e basta, adornando uma cabeça máscula e formosa... Tudo isso meigo e espiritual, como uma página evangélica. A fé era viva, a afeição segura, a paciência infinita”. 

O frei com barbas brancas simboliza o Império e o Imperador, paciente, cheio de fé, tal qual Pedro o enxergava. Capuchinho, o capuz branco encimando as vestes negras, símbolo do café com leite.

“Frei *** despediu-se um dia de Pedro. Ia ao interior, Minas, Rio de Janeiro, São Paulo, — creio que ao Paraná também, — viagem espiritual, como a de outros confrades, e lá ficou por um semestre ou mais. Quando voltou trouxe-nos a todos grande alegria e maior espanto. A barba estava negra, não sei se tanto ou mais que dantes, mas negríssima e brilhantíssima. Não explicou a mudança, nem ninguém lhe perguntou por ela”.

A viagem ocorre pelo interior dos Estados brasileiros que suportavam o Império, o rebanho leiteiro e as plantações de café, durante o boom econômico dos anos 1850/ 1860. A cor negra rejuvenesce as barbas, o sistema se alicerça financeiramente.

“Durou nove meses esta cor; feita outra viagem por trinta dias, a barba apareceu de prata ou de neve, como vos parecer mais branca”.

O produto do progresso econômico fora passageiro. O ciclo do café e do escravagismo se esgotava e, com ele, o Império volta “a ter barbas branquíssimas”, envelhece, se esgarça.

“Quanto à segunda de tais barbas, foi ainda mais espantosa. Não era de frade, mas de maltrapilho, um sujeito que vivia de dívidas, e na mocidade corrigira um velho rifão da nossa língua por esta maneira: "Paga o que deves, vê o que te não fica". Chegou aos cinquenta anos sem dinheiro, sem emprego, sem amigos. A roupa teria a mesma idade, os sapatos não menor que ela. A barba é que não chegou aos cinqüenta; ele pintava-a de negro e mal, provavelmente por não ser a tinta de primeira qualidade e não possuir espelho. Andava só, descia ou subia muita vez a mesma rua. Um dia dobrou a esquina da Vida e caiu na praça da Morte, com as barbas enxovalhadas, por não haver quem lhas pintasse na Santa Casa.”

Se o frade era amigo de Pedro, o maltrapilho não o era de Paulo. Talvez seja o simbolismo de um ideal de República que jamais se tornou realidade no Brasil, embora tenha como ideologia, existido no primeiro terço do século XIX. O maltrapilho compensa a falta de dinheiro com uma tinta de má qualidade que pouco lhe servirá. Seu fim, por utópico, é inevitável.

Machado nesse enigma nos assinala dois tipos de República: a primeira idealizada dos anos da Independência, não possuía armas ou poder financeiro para combater a oligarquia; a segunda, a simbolizada por Paulo, será aquela que se implantou pela mão militar como opção ao Império que desmoronava. Esta era virgem de idealizações, nua e crua.

 

A morte de Flora

Flora, antípoda da mãe Cláudia, revela um estado de inocência que o próprio nome nos trás. Inocência e abundância. “Flora não entendia de formas e nem de nomes. A sonata lhe trazia a sensação da falta absoluta de governo, a anarquia da inocência primitiva daquele recanto do Paraíso que o homem perdeu por desobediência.... Não haverá então progresso, nem regresso, mas estabilidade.” Uma estabilidade que somente se ganha com o túmulo.

Flora é, de certa forma, uma metonímia do Brasil: apesar de abundante, se confunde e definha, sem conseguir definir com qual Partido casar-se. Retira-se do Rio para Andaraí, mas nada debela seu mal. A moça, dividida entre os Partidos gêmeos, vem a falecer.

No contexto de fins de 1891, devido à revolta da Armada e possível guerra civil, Deodoro é forçado renunciar e, seu vice, o Marechal Floriano Peixoto, assume. Este se nega a cumprir a Constituição e em seu governo se alastra a repressão aos revoltosos. Com o objetivo de manter-se no poder, executou a política econômica denominada de ensilhamento, imprimindo dinheiro sem lastro, o que levou a uma enorme inflação, assim como à especulação econômica e ao surgimento de riquezas especulativas da noite para o dia.

Em decorrência, aumenta a revolta dentro das forças armadas e da população. As mortes se multiplicam. Com receio de bombardeio, a capital do país foi transferida para Petrópolis, em 1894. Nesse ano morre a jovem Flora, após dela também se haver apaixonado Nóbrega, um arrecadador de esmola que se dera inexplicavelmente bem na vida, de especulações não claramente explicadas.

Em um capítulo curto denominado de “Estado de sítio”, Aires descreve o funeral de Flora: “Não há novidade nos enterros. Aquele teve a circunstância de percorrer as ruas em estado de sítio. Bem pensado, a morte não é outra coisa mais que uma cessação da liberdade de viver, cessação perpétua, ao passo que o decreto daquele dia valeu só por 72 horas. Ao cabo de 72 horas, todas as liberdades seriam restauradas, menos a de reviver. Quem morreu, morreu. Era o caso de Flora; mas que crime teria cometido aquela moça além do de viver, e porventura o de amar, não se sabe a quem, mas amar? Perdoai estas perguntas obscuras, que se não ajustam, antes se contrariam. A razão é que não recordo este óbito sem pena, e ainda trago o enterro à vista...”  

Os irmãos sofrem com a morte de Flora, mas depois dão curso às suas carreiras e vidas. Para o Machado de “Esaú e Jacó” os amores escorrem e se perdem com a vida.

“No meio dos sucessos do tempo, entre os quais avultavam a rebelião da esquadra e os combates do Sul, a fuzilaria contra a cidade, os discursos inflamados, prisões, músicas e outros rumores, não lhes faltava campo em que divergissem (aos gêmeos). Nem era preciso política. Cresciam agora mais em número as ocasiões e as matérias. Ainda quando combinassem de acaso e de aparência, era para discordar logo e de vez, não deliberadamente, mas por não poder ser de outro modo”.

Com a morte da mãe, Natividade, e atendendo a um último pedido, cessam os desentendimentos entre os gêmeos. A paz estabelecida, entretanto, dura pouco; logo os irmãos voltam a trocar farpas e terminam separados, agora por uma questão de partição de heranças. Não se trata mais de discussões política, nesses tempos a discórdia é argentária, patrocinadora de “um ódio comum, o sentimento que mais liga duas pessoas”.

Quanto ao narrador, o Conselheiro Aires, afirma Machado: “Aires tinha particular amor à sua terra e, por ventura, tinha se cansado de outras. Não atribuía a esta tantas calamidades. Na verdade estava cansado de homens e mulheres, de festas e vigílias. Dado às letras clássicas, achou em padre Bernardes a tradução de um salmo: “Alonguei-me fugindo e morei na soedade”. Mas como tudo cansa, até a solidão, Aires acabou trocando uma palavra e o sentido: “Alonguei-me fugindo e morei entre a gente””. Ou seja, cansado de fugir de si mesmo, buscou a vida em sociedade, sempre junto a seus pares em classe social.

A respeito dos desmandos entre os homens e a situação de desmantelamento das instituições no Brasil, o narrador num retoque de sinceridade afirma que “tudo é possível abaixo do sol e da lua. A nossa felicidade é que morremos antes”.

Sobre o destino, ensina-nos Machado que tudo são instrumentos em mãos da vida: “Aires suspirou e curvou a cabeça ao destino. Não se luta contra ele, dirás tu. O melhor é deixar que nos pegue pelos cabelos e nos arraste até onde queira alçar-nos ou despenhar-nos”.

“De todos os maus costumes, o de envelhecer é o pior. Deixa para lá filósofos dizerem que a velhice é um estado útil pela experiência e outras vantagens. Não envelheças minha amiga, por mais que os anos te convidem a deixar a primavera; quando muito, aceita o estio. O estio é bom, cálido, as noites são breves, é certo, mas as madrugadas não trazem neblina, e o céu aparece logo azul. Assim dançarás sempre”, pois:

“Quando se envelhece os receios da morte crescem. Mas não bastam os receios, é preciso que a realidade venha atrás deles. Daí as esperanças. Mas também não bastam esperanças, pois a realidade é sempre urgente”.

Bibliografia:

  1. Bosi, Alfredo: “Entre a literatura e a história”. Editora 34, 2013.

  2. Cândido Antônio: “Esquema de Machado de Assis”. Duas Cidades, 1970.

  3. Gledson, John: “Ficção e história”. Paz e Terra, 1986.

  4. Broca, José de brito: “Machado e a política”. Polis, 1983.

  5. Schwarz, Roberto: “Ao vencedor as batatas”. Duas Cidades, 1977.

  6. Schwarz, Roberto: “Um mestre na periferia do capitalismo”. Editora 34, 2006.

  7. Assis, Machado: Obras Completas. São Paulo, Aguilar, 1962.

  8. Guidin, M. e outros. “Ensaios de crítica contemporânea”. Ed. UNESP.

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