“1984”: ainda podemos ter esperança na humanidade, mesmo que esta seja desesperada? Orwell diz SIM!

Atualizado: há 6 dias

Caso alguém pudesse menosprezar todas “profecias” e previsões expressas por Orwell em “1984”, pelo menos duas delas são absolutamente inegáveis: por um lado, o sistema econômico não pode prosperar sem a produção contínua de armamentos, por outro, a liberdade e a democracia morrem quando se desata o armamentismo, pois o militarismo através do medo e do ódio destrói os fundamentos básicos do humanismo.


George Orwell nasceu Eric Blair em Bengala, região da produção de ópio. Seu pai era o agente do Departamento Britânico de Ópio, do qual a Grã-Bretanha detinha o monopólio mundial. Ainda criança voltou com a mãe à Inglaterra, mas, jovem, retornou à Birmânia como oficial da Polícia Imperial. Em menos de quatro anos, entretanto, Orwell decidiu abandoná-lo. Retornou à casa, pois o que ele queria fazer da vida era mesmo escrever. “1984” foi seu último livro — quando foi lançado, em 1949, Orwell havia publicado outros doze, incluindo o muito popular “A revolução dos bichos”.

Desde o minuto em que o bigode do Grande Irmão surge na primeira página, lembramo-nos imediatamente de Stalin. Embora o rosto do Grande Irmão certamente seja dele, do mesmo modo que o de Goldstein, o desprezado herege do Partido, é o de Trotsky, ambos compuseram apenas determinados aspectos dos personagens. Isso não impediu que o livro fosse vendido como uma espécie de tratado anticomunista.

Essa não era absolutamente a intenção de Orwell. Tanto na literatura, “1984”, quanto na política, Orwell não apenas era de esquerda, mas alinhava-se à esquerda da esquerda.

Em 1937, Orwell voluntariou-se na luta contra Franco e seus fascistas, e na Espanha aprendeu a diferença entre o antifascismo real e o falso. “A guerra espanhola e outros eventos de 1936-37, fizeram a balança pender, e depois disso eu sabia onde estava. Cada linha de trabalho sério que redigi desde 1936 foi escrita, direta ou indiretamente, contra o totalitarismo e a favor do socialismo democrático. ”

Orwell via a si mesmo como um membro da “esquerda dissidente”, distinta da “esquerda oficial”, que boa parte ele passara a enxergar como potencialmente fascista. Fez uma analogia entre o Partido Trabalhista e o Partido Comunista sob Stalin, os quais, sentia, eram movimentos que estavam preocupados essencialmente em estabelecer e perpetuar seu próprio poder. As massas, os proletários, só existiam para ser manobrados.

Orwell, sempre foi um eterno revoltado. “Por razões um tanto complexas”, escreveu ele em 1948, na revisão de “1984”, “quase toda a esquerda inglesa foi levada a aceitar o regime russo como ‘socialista’, embora reconhecesse em silêncio que o espírito e a prática daquele regime eram inteiramente diferentes de tudo que significava ‘socialismo’. Por consequência, surgiu uma espécie de modo esquizofrênico de pensar, no qual palavras como ‘democracia’ podem comportar dois significados irreconciliáveis, e coisas como campos de concentração e deportações em massa podem ser ao mesmo tempo certas e erradas. ”

E essa “espécie de modo esquizofrênico de pensar” foi uma das grandes realizações de seu romance, que entrou na linguagem cotidiana do discurso político — a identificação e a análise do “duplipensamento”. O “duplipensamento” é uma forma de disciplina mental cujo objetivo, desejável e necessário para que se seja capaz de acreditar em duas verdades contraditórias ao mesmo tempo.

A ideia parece ter exposto Orwell a seu próprio dilema, e ele os expressou nos três slogans do Partido de Oceania: “Guerra é Paz”, “Liberdade é Escravidão” e “Ignorância é Força”.

A encarnação do duplipensamento no romance está no personagem O’Brien, o sedutor e traidor, protetor e destruidor de Winston. Ele acredita com toda a sinceridade no regime a que serve, podendo, todavia, se fazer passar por um revolucionário comprometido com a deposição do regime. “O objetivo da perseguição é a perseguição, o objetivo da tortura é a tortura, o objetivo do poder é o poder. ”

O duplipensamento também está por trás dos nomes dos Ministérios que regem as coisas em Oceânia — o Ministério da Paz promove a guerra, o Ministério da Verdade conta mentiras, o Ministério do Amor tortura e mata aqueles que considera uma ameaça ao sistema.

No século XXI, apenas como exemplo, temos um Ministério da Defesa, que com um aparato da guerra vive tutelando e ameaçando a paz e a democracia do Brasil; outro Ministério, o dos Direitos Humanos e da Mulheres, cujo Ministro é um antigo fanático da ditadura. Já o Presidente da República dedica quase todo o seu tempo na pregação de um golpe de Estado e chama seu adversários e inimigos de vagabundos. O “duplipensar” é na ordem do dia!

É relativamente fácil lidar com a memória, do ponto de vista totalitário. Sempre há alguma agência como o Ministério da Verdade para negar as lembranças de alguém, para reescrever o passado. Aqueles que não aprendem com a história costumavam ter que revivê-la, mas isso foi apenas até que os que estão no poder pudessem encontrar um modo de convencer a todos, inclusive a eles mesmos, de que a história nunca aconteceu, ou, ainda melhor, de que a história afinal não tem importância senão como um tolo documentário de TV destinado ao entretenimento.

Uma sociedade em que o conceito de verdade como julgamento objetivo da realidade é abolido, vale a ditadura das versões. No “duplipensar” a pessoa passa a pensar o oposto do que seja verdadeiro. Com isto desiste de sua independência e integridade e se adequa ao lema do Partido: Escravidão é liberdade”.


Ao imaginar três blocos geopolíticos, a Oceânia, a Eurásia e a Lestásia, Orwell parece ter dado um salto em escala em relação à divisão do mundo Pós-Guerra. E a aliança anglo-americana se transforma em Oceânia, que é o cenário de “1984”.

Profecia e prognóstico não são exatamente a mesma coisa e “1984”jamais desejou profetizar coisa alguma em termos concretos. No entanto, de certa forma, Orwell foi profético ao enxergar mais fundo a alma humana do que a maioria dos mortai. Em “1984”, compreendeu que, apesar da derrota do Eixo, a vontade de fascismo não havia desaparecido; que, longe de ter conhecido seu fim, ela talvez ainda não tivesse nem alcançado seu ápice: a corrupção do espírito e a irresistível dependência humana do poder já estavam havia muito estabelecidas —todos aspectos bem conhecidos do Terceiro Reich e da URSS de Stalin— como os primeiros esboços de um terrível futuro.

O que poderia impedir que o mesmo acontecesse à Grã-Bretanha? Superioridade moral? Boas intenções? Estilo de vida? Rigorosamente nada! O que progrediu de forma insidiosa e estável desde então, tornando os argumentos humanistas quase irrelevantes, foi a ciência e mais que tudo, a tecnologia.

Oceânia deveria ser uma sociedade sem classes, mas não é! Ela se divide em Núcleo do Partido, Partido Externo e Proletas. Mas como a história é contada do ponto de vista de Winston Smith, que pertence ao Partido Externo, os Proletas são amplamente ignorados, assim como o são pelo próprio regime. Tendo vivido junto dos trabalhadores pobres e desempregados da depressão de 1930 e aprendido o valor verdadeiro e imperecível deles, Orwell concedeu a Winston Smith uma fé similar nos equivalentes de “1984”, os proletas, como a única esperança de libertação do inferno distópico da Oceânia.

Na mais bela passagem do romance Winston e sua amante, Julia, pensando estarem a salvo, olham através da janela para a mulher que canta no pátio, e Winston, fitando o céu, tem uma visão quase mística dos milhões que vivem debaixo dele, “pessoas que não tinham aprendido a pensar, mas que acumulavam em seus corações, ventres e músculos a força que um dia subverteria o mundo. Se é que há esperança, ela está nos proletas! ”

É o momento que antecede a prisão de Winston e Julia, quando tem início o clímax frio e terrível do livro. A prisão, as torturas físicas e a destruição psicológicas dos revoltados, a traição recíproca entre os amantes.


A realidade de meados do século passado, impulsionou Orwell a imaginar um sistema totalitário em que a libido sexual reprimida poderia ser poderoso reforço para a histeria, o ódio. Como o desejo em si não pode ser sempre facilmente cooptado, o Partido não tinha escolha senão adotar, como meta final, a abolição do orgasmo. Uma das muitas alegrias de se ler 1984 é podermos ver Julia se transformar de uma sedutora com personalidade difícil, numa jovem mulher apaixonada, assim como uma das principais tristezas surgem quando seu amor é desarmado e destruído.

A história de Winston e Julia, nas mãos de outro, poderia ser uma bobagem do tipo “sonho jovem de amor” — exatamente como algo que a máquina de escrever romances do Ministério da Verdade produziria. Mas não há final feliz. A cena perto do fim, em que Winston e Julia se reencontram depois que o Ministério do Amor forçou ambos a traírem um ao outro, é uma das mais desanimadoras da ficção. E o pior é que entendemos.


De certo modo, “Oceania” vai até mesmo além de Auschwitz ou do Goulag: nela não há ninguém mais a ser salvo, por isto, todo heroísmo é vão! No entanto, enorme surpresa nos aguarda!

De modo curioso, porém, esse não é exatamente o fim do romance! Viramos a página para encontrar o que parece ser algum tipo de ensaio crítico, “Os princípios da Novafala” no encerramento de “1984”.

Desde a primeira frase, ele é escrito integralmente no passado, como se fosse um ensaio histórico escrito depois de 1984, quando então a Novafala teria se tornado literalmente coisa do passado — como se de algum modo o autor anônimo desse artigo estivesse livre para discutir, de forma crítica e objetiva, o sistema político do qual a Novafala tivesse sido a essência em sua época.

É como se não tivesse durado muito tempo, muito menos triunfado; como se as antigas formas humanistas de pensar inerentes ao inglês padrão tivessem persistido, sobrevivido e finalmente prevalecido; como se as ordens moral e social associadas a essas formas tivessem sido, de algum modo, restauradas.

Orwell deseja nos alertar!

Ele ainda tem esperança de que o humanismo prevaleça, que os Proletas se revelem, embora seja está uma esperança desesperada!


Referências: 1. Thomas Pynchon; 2. Erich Fromm; 3. Bem Pimlott .

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